segunda-feira, setembro 25, 2006

Medicinas não convencionais: o complexo de Jesus Cristo

É bem provável que nos tempos próximos, dados ao manifesto crescente de um constructo de conhecimentos acerca dos princípios éticos, de gestão e organização dos serviços de saúde, a sociologia da saúde venha a conhecer um desenvolvimento notável, muito maior do que aquele que tem vindo a relevar-se nas últimas décadas. A questão das hierarquias e dos poderes, da distribuição mais ou menos equitativa dos recursos, dos conflitos de poder e das lutas variadas pela autonomia profissional, marcam o processo normal do funcionamento das organizações de saúde, em geral, e hospitalares, em particular.
Por uma questão de receio social de certas autoridades, as questões relativas à delegação de poderes e responsabilidades em saúde têm conhecido polémicas e contendas acentuadas, apesar de nem sempre reconhecíveis pelo mundo dos leigos da matéria. Em especial, o conflito ideológico existente entre medicinas convencionais e medicinas tradicionais tem marcado lugar na cena social, muito mais do que as disputas entre médicos e outros profissionais de saúde como enfermeiros e fisioterapeutas.
Uma possível jornada pelo mundo específico das medicinas não convencionais só poderá provocar no profissional consciente e reflexivo a maior de todas as angústias. Recentemente, a exposição “Viver Saúde” da Feira Internacional de Lisboa permitiu a muitos curiosos a visita a postos de divulgação das práticas terapêuticas menos convencionais. Nesta mesma exposição ou feira estavam presentes representantes de práticas como a fitoterapia, a acupunctura, a medicina tradicional chinesa, a osteopatia, a massagem desportiva, a quiroprática e a homeopatia. Em diversos stands, podíamos ter acesso a informações diversas acerca da prática dessas diferentes medicinas. Mas estas mesmas informações e actos de divulgação só poderão mesmo levar o curioso à intranquilidade de espírito, principalmente se se trata de um profissional de saúde, cuja formação é altamente do tipo Evidence Based Practice.
Acontece que estas mesmas medicinas não convencionais encontram-se incluídas numa miscelânea de métodos e técnicas com filosofias muito dissemelhantes, histórias muito próprias, e diferentes níveis de seriedade, o que pode deturpar a realidade de quem observa de fora o funcionamento destas práxis clínicas. Por exemplo, o nível de seriedade da osteopatia pode ser comparável ao nível de seriedade da fitoterapia, mas está muito para além do nível de seriedade da homeopatia e de um número interminável de pseudo-métodos. E para complicar ainda mais as coisas, é possível atender ao facto de que não há uma osteopatia, há várias osteopatias, várias escolas de osteopatia. E há também diferentes escolas de Yoga, Tai-chi e quiroprática: umas mais sérias e científicas e outras menos sérias e idóneas. No fim, pagam os justos pelos pecadores e restamos nós os confusos.
Não me restam dúvidas de que há algo de interessante para se perceber e estudar em diversos métodos de intervenção. Algumas escolas de osteopatia possuem realmente certas técnicas de tratamento do sistema somático particularmente interessantes. Pena é que essas mesmas técnicas continuem por explorar, em termos científicos. Por outro lado, não pode ser ignorado o facto de os osteopatas serem, regra geral, profissionais de fraca formação académica, para além de manterem o espírito assombrado pela sensação de inferioridade face aos fisioterapeutas no que respeita à aceitação oficial por parte do Serviço Nacional de Saúde. Também a quiroprática possui algo de interessante em termos das suas técnicas de intervenção; porém, ainda não conseguiram especificar cientificamente de que forma é que é possível modificar os estados de corpo através da manipulação do sistema nervoso. Igualmente a acupunctura necessita de traduzir para uma linguagem científica toda aquela nomenclatura de pontos acupuncturais e de meridianos nervosos. Não entendo como ainda não o fizeram, tendo em conta a oficial aceitação da existência de um complexo sistema nervoso que nos integra.
E assim poderia continuar eternamente a especificar que aquilo que falta às medicinas não convencionais é precisamente o escrutínio científico. Até agora, os profissionais das medicinas não convencionais só têm conseguido passar um discurso do tipo “banha da cobra”. Parecem-se com autênticos charlatões, confundem-se com eles e chegam mesmo a sê-lo. Por outro lado, este mesmo discurso de nível esotérico parece resultar às mil maravilhas com as pessoas, principalmente todas aquelas que permanecem desiludidas com as medicinas ditas ortodoxas. Referimo-nos a um efeito psicológico e de placebo que acaba por ser de especial valia para que estas mesmas terapias surtam resultados.
No meio de todas estas terapêuticas, as que mais dificilmente se aceitam são aquelas que estão ligadas à Medicina Tradicional Chinesa. É difícil levar a sério um discurso tão obsessivamente dominado por “energias”, “chakras” e “auras”; um discurso puramente maniqueísta, dominado pela barganha da conversa das forças do “bem” e do “mal”. E pior ainda é conseguir dominar o elevadíssimo número de terapias e métodos que vão surgindo e dominando as mentes daqueles que não resistem à perversidade do marketing. Temos o Shiatsu, a massagem Tuina, as pedras quentes e as pedras frias, os magnetismos, a acupunctura sem agulhas, o Tai-chi, o Chi Kung, e, ainda mais incrível, as terapias de vidas passadas, a cristaloterapia, e outras “rodas da fortuna”.
E tudo isto surge envolto numa aura de sensações, numa rodilha de bem-estar permanente, acompanhado da promessa de intervenção verdadeiramente holística (e todas se dizem melhores e mais holísticas do que as outras), e num espírito de prazer constante. E quando vão os proponentes destas terapias perceber que o verdadeiro crescimento espiritual passa por formas legítimas e obrigatórias de sofrimento? E que o sofrimento é necessário ao crescimento? E que o crescimento depende de uma consciencialização lenta, para a qual estas terapias só poderão dar um parco contributo? Quando vão as pessoas perceber que o mais importante no “efeito placebo” não é o conteúdo da própria terapia, mas sim a qualidade da relação que estabelecem com o profissional? E que a qualidade dessa relação depende da honestidade intelectual?...
Em suma, ao invés de se apresentarem como a panaceia absoluta para todos os males, como a cura magnífica, virá o tempo em que os sérios utilizadores destas terapias serão capazes de assumir que não são milagreiros e que não têm de mexer com tudo, que eventualmente só conseguem mexer com uma parte da pessoa. E que têm de existir obrigatoriamente diferentes paradigmas de intervenção, e que estes têm de ser necessariamente limitativos a determinada dimensão do ser humano. Virá o tempo em que assumiremos que a necessidade de sermos um pouco de tudo, sem limites paradigmáticos, advém de uma desordem interior, de uma necessidade de preenchimento de uma insegurança primária. Virá o tempo em que a lei da parcimónia nos fará ver que muitas das terapias existentes divergem em pouco mais do que a nomenclatura e certos aspectos teoréticos irrelevantes.
Cabe ao profissional sério assumir aos outros e a ele mesmo que é apenas um homem e que não mexe com nada que ultrapasse a própria pessoa. E que não a curará, apenas a apoiará nesse caminho sempre incompleto. E que, enfim, Jesus Cristo já só existe nas nossas cabeças.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Para o caso de alguém me querer contactar, o meu número de telemóvel é o 963304478. Dou o número, pois, por vezes, há por aí alguém que queira discutir algum assunto ou conhecer algum sistema de intervenção. Mas, sobretudo, o mais importante é a criação de empatias.

domingo, setembro 10, 2006

Mais uma vez o dia mundial da fisioterapia passou sem que existisse qualquer anúncio significativo da sua existência. Por outro lado, fiquei contente com a publicação do meu artigo sobre métodos de Reeducação Postural na revista Saúde Actual. Esperaria ter algum tipo de colaboração mais permanente. É desesperante a ausência de fisioterapeutas a escreverem para revistas de saúde mais ou menos especializadas. Não sei se é por medo, se falta a auto-estima aos nossos profissionais. Por outro lado, a minha compulsão para a escrita e a publicação não deixa de derivar de uma espécie de "desordem interior", uma cabal obsessão. Actualmente, ando com vontade de desenvolver projectos de investigação acerca de várias temáticas: levantamento dos conhecimentos acerca dos métodos de reeducação postural e necessidades de formação nesta área é um exemplo entre muitos dos que poderão ser prosseguidos. Se algum aluno do último ano de fisioterapia quisesse seguir tal projecto, tal seria brilhante para mim no sentido de poder desempenhar o meu papel de orientador específico.

sábado, setembro 09, 2006

Oito de Setembro: dia mundial da Fisioterapia

Dentro desse prolífico mundo que é o sistema de saúde, a questão relativa aos cuidados de fisioterapia e reabilitação física em geral tem sido permanentemente negligenciada. Agora que se celebra o dia mundial da Fisioterapia, um dia em que diversos profissionais da reabilitação e até mesmo doentes desenvolvem uma série de actividades de divulgação da prática, surge a excelente oportunidade para traçar o perfil de um tipo eterna e progressivamente desprezado de cuidados.
A Fisioterapia constitui muito mais do que uma simples actividade profissional. É a arte do tratamento por meios fundamentalmente naturais. E é uma ciência da postura e da motricidade, fonte inegável de conhecimentos da fisiologia do aparelho locomotor.
Por ter em conta as necessidades pessoais de cada doente em particular, assim como uma visão holística e bio-psico-social do utente, a fisioterapia não é, em termos da sua filosofia basilar de tratamento, muito diferente das medicinas menos convencionais como a osteopatia ou a quiroprática. Entre as diversas “medicinas físicas” vigoram diferenças relacionadas mais com o significante do que com o significado, no sentido da apresentação mais ou menos comercial ou mais ou menos esotérica das diferentes práticas. Na prática propriamente dita, nos seus ditames conteudísticos, as diferenças entre os dissemelhantes cuidados citados são pequenas, talvez com a diferença primária centrada nos aspectos históricos e com as distintas práticas e atitudes relativas à investigação.
Por ser de natureza holística, e pelo facto de o corpo constituir um ente indivisível em si mesmo e com a mente, a prática da fisioterapia não pode ser realizada por partes ou divisões, numa relação fragmentada entre diferentes profissionais de saúde. Acontece que o sistema de saúde, para além dos diferentes subsistemas, pressupõe a realização de tratamentos de fisioterapia como se de um catálogo de vendas se tratasse. Os tratamentos têm nomes específicos, códigos determinados e tarifas regulamentadas. Os aspectos decisórios relativos ao que é ou não realizado no doente pertencem oficialmente ao médico fisiatra e não ao fisioterapeuta. Assim sendo, após uma consulta médica da especialidade, o doente vem “rotulado” com uma prescrição de tratamentos como se os actos de fisioterapia fossem divisíveis como diferentes comprimidos com diferentes objectivos. Negligencia-se, portanto, a natureza indivisível da arte terapêutica, constituída por uma série de actos que são, no fundo, um só acto, assim como as diferentes notas musicais são melodia e esta constitui um todo indissociável, constituído por muito mais do que a soma das notas musicais que o compõem.
Assim sendo, a fisioterapia só pode constituir um acto de eclectismo fundamental, baseado na ciência da reabilitação, assim como esta assenta numa combinação sempre complexa de diferentes técnicas e métodos terapêuticos, muitas vezes extremamente semelháveis entre si. Por outro lado, certos métodos, como a reeducação postural, que partem das consequências para as causas dos sintomas, e permitem a análise e reeducação da base corpórea e postural da qual deriva e decorre a maioria dos problemas reumáticos do doente, constituem uma verdadeira terapia de base funcionante, um pouco como a psicanálise da ciência/arte da mente.
Como prescrever medicamente este tipo de actividade terapêutica? Como “ordenar” um tipo de actividade que compõe um acto de escultura corporal? É obviamente impossível fazê-lo! Mas, de qualquer maneira, a questão pode até nem ser muito relevante, pois este tipo de actividade de fisioterapia especializada só está à mercê de uma minoria de fisioterapeutas (estes sim, os verdadeiros escultores, e como tal, os verdadeiros decisores), que possuem o tempo, disponibilidade, interesse e dinheiro suficientes para adquirirem a formação pós-graduada requerida. Por outro lado, quem, nos tempos que correm, se interessa por uma prática terapêutica de efeitos lentos apesar de globais? E será que interessa às clínicas privadas de fisioterapia que por aí abundam a realização de uma prática morosa centrada num só doente, que ainda por cima terá como efeitos a prevenção da totalidade dos problemas músculo-esqueléticos do mesmo, levando à redução da necessidade dos diferentes cuidados continuados de fisioterapia?...
Eis que começam a emergir as questões sócio-políticas da fisioterapia e da saúde em geral. Usualmente, os utentes de cuidados de fisioterapia demoram-se semanas a meses a tratar muitas vezes disfunções que poderiam ser resolvidas em poucos dias. Isso acontece não só por descuidos no diagnóstico e pela fraca formação de muitos fisioterapeutas, mas também pelo facto de os doentes serem comummente sujeitos a regimes esgotantes de sessões de fisioterapia que parecem não ter fim. Os doentes são tratados muitas vezes com técnicas medíocres, por auxiliares de fisioterapia com pouca formação. Na altura de serem tratados por fisioterapeutas, os doentes tendem a deparar-se com um profissional cheio de trabalho, esgotado pelas exigências do regime de trabalho a que se encontra vinculado. Se o doente realiza fisioterapia com uma credencial da “Caixa da Previdência” terá direito ao menos possível e será provavelmente tratado em conjunto com muitos outros doentes (pena que o Governo não valorize a importância da fisioterapia; talvez pense que não deve investir dinheiro e recursos na população majoritária na utilização dos cuidados de saúde: os idosos). Se estamos a falar de um doente de um bom seguro as coisas melhoram para ele. E se estamos a falar de um doente particular, aí é provável que o mesmo já tenha direito às tais técnicas de fisioterapia global e especializada (mas, mesmo assim, o que pode ser feito em quatro sessões é feito em oito ou doze, para que o rendimento seja maior).
É tudo uma questão relativa à relação custo-benefício. Apenas o bom profissional, com uma formação ética imaculada, poderá fazer a diferença no seio das constrições do sistema! Mas são precisamente estes profissionais, e todos os outros com formação mais abrangente, que começam a constituir a excepção e não a regra neste país. Afinal de contas, a competição entre as crescentes escolas de fisioterapia é enorme, e a mesma só pode ser balizada pela criação de cedências, ao invés de se promover a exigência. Por outro lado, muitas das clínicas particulares de que falamos não estão interessadas num profissional de qualidade, pois este pode colocar em risco os necessários percursos de pactuação com o sistema. Preferem um profissional menos formado que tenha grandes capacidades de tratamento célere do maior número possível de doentes.
Assim sendo, e acrescentando o crescente número da oferta de fisioterapeutas em relação à procura, a profissão vai decrescendo em termos de qualidade e aperfeiçoamento. Tendo em conta a contextura de um crescente número de profissionais, deveria ser valorizado o profissional eficiente, com mais formação científica e especializada. Ou seja, deverá acabar a filosofia do “mais um fisioterapeuta”, trabalhador manual que faz o que outro poderia fazer, para ser arreigada a filosofia do “fisioterapeuta especializado e dedicado”, profissional conhecedor de eleição, capaz de realizar o que muitos outros não têm ainda capacidade para fazer.
As carências de reconhecimento profissional, a falta de investimento tecnológico, a existência de falsos fisioterapeutas a trabalhar, as fracas condições de trabalho, as parcas remunerações e todo um outro conjunto de questões implicariam uma defesa oficiosa da classe por parte de uma Ordem profissional. Mas ainda estamos longe desse passo, pois os fisioterapeutas nem são reconhecidos como profissionais autónomos, antes como parte de um rótulo de “profissionais de diagnóstico e terapêutica”. Pena é que sejam os doentes que mais percam com todas estas deficiências!...

sexta-feira, setembro 01, 2006

E a reabilitação física? Os cuidados de saúde eternamente desprezados

Texto escrito há alguns meses que nunca foi publicado:


O sistema de saúde é, em grande medida, o espelho dos valores dominantes de cada país, reflectindo o seu contexto social, cultural e económico. Como valor fundamental, a saúde da população (física, psicológica e social) reflecte o estado da arte da prestação funcional do povo, em termos laborais, culturais e familiares. O desenvolvimento de um país depende, em larga escala, da qualidade dos serviços que atestam as nossas capacidades físicas e mentais, que o mesmo será dizer que o funcionamento do Sistema de Saúde constitui um dos principais indicadores do estado de maturação social da nação.
Assim sendo, preocupa correntemente os actores sociais o estado da arte da saúde em Portugal. Preocupa muito especialmente os órgãos de comunicação social, sendo que comummente os mesmos se vêem submersos por todo um conjunto de questões polémicas e sensíveis à opinião pública: as listas de espera cirúrgicas, a política do medicamento, os deficientes cuidados de hospitalização, o défice de médicos nos centros de saúde, entre outras.
Por vezes, a comunicação social vê-se inclusivamente preocupada com questões de saúde indubitavelmente mais relevantes, como é o caso da nova política dos cuidados continuados, sobrepujando a minimalista visão da saúde como compreendendo um sistema que integra unicamente os cuidados primários e os cuidados hospitalares.
Porém, eis que chega o momento de reflectirmos sobre um tipo específico de assistência em saúde, esta sim num decrescendo de importância relativamente ao tratamento mediático: a reabilitação física.
Tendo em conta a evolução da cronicidade de inúmeras patologias e disfunções, é provável que a maioria da população venha a necessitar, em algum dia das suas vidas, de um ou mais tratamentos de fisioterapia. O futuro da capacidade laboral e da qualidade de vida dessa mesma população está claramente dependente da qualidade dos cuidados prestados, pelo que é importante que o cidadão tenha acesso à mais qualificada intervenção com o mais qualificado dos profissionais.
Assim sendo, é indubitável a necessidade de conceber um atendimento o mais personalizado que for exequível, com um profissional o mais credenciado possível e tratamentos especializados e qualificados para a concepção da melhoria da qualidade de vida a curto, médio e longo prazo. O tratamento dos utentes deverá ter em conta certos princípios e valores, como a equidade e universalidade de acesso aos tratamentos, não esquecendo a indissolúvel componente humana.
Tendo em atenção toda a cientificidade e complexidade envolvida na esquemática dos tratamentos de fisioterapia, desde as técnicas de acção clínica analítica até aos mais abrangentes paradigmas teoréticos de intervenção terapêutica, a diferença na qualidade dos tratamentos residirá, em grande parte, na qualidade e formação do fisioterapeuta e na organização e condições dos cuidados prestados, assim como nas necessárias condições de autonomia da profissão, exercida com o máximo de rigor e cuidado, tendo sempre em conta a efectuação de uma intervenção adequada à avaliação previamente realizada.
Pura ilusão a dos que pensam que algo do que ficou dito corresponde à realidade! Puro engano de alma, no sentido mais camoniano da expressão. Neste país, o avanço dos cuidados de medicina e da própria sociedade está longe de ser acompanhado pelo desenvolvimento dos cuidados de fisioterapia. E este atraso, esta anquilose tem por base, sobretudo, o tipo de tratamento que o sistema de saúde tem dado e continua a dar aos cuidados de reabilitação física.
Ao invés de ser visto como um todo, o doente dos serviços de fisioterapia é repartido em bocados pelo sistema de saúde, sendo que não há uma intervenção global mas sim um conjunto de modalidades de fisioterapia. Estas mesmas valências terapêuticas aparecem ignominiosamente “prescritas” por um médico fisiatra no papel, sendo que aquilo que deveria ser uma visão holística do doente se transforma num conjunto de ordens de trabalho manual e sectário, ordeiramente obedecidas pelo profissional que não quer perder o seu emprego (e só isso evita toda a possibilidade de dissonância cognitiva).
Às modalidades prescritas em papel correspondem quase sempre técnicas de execução rápida e pouco técnica, com efeito imediato e a curto prazo. Tal deve-se não só à falta de conhecimento de muitas das mais especiais técnicas de tratamento por parte dos médicos fisiatras (comummente envolvidos em questões burocráticas, muitas vezes pouco preocupados com os próprios doentes) como também à inviabilidade financeira da execução de técnicas especiais com doentes que não chegarão a render...
Acontece que os pagamentos feitos pelo Serviço Nacional de Saúde relativamente às modalidades de fisioterapia são uma verdadeira miséria (estão ao nível dos cêntimos), fazendo com que um doente do SNS não constitua fonte de rendimento para uma clínica. Na realidade, um doente do SNS não chega sequer a ser tratado por um fisioterapeuta credenciado, sendo que passa apenas pelas mãos de auxiliares sub-formados, menos bem pagos que os fisioterapeutas.
Por outro lado, atendendo à submersão do mercado por tão grande número de fisioterapeutas (formados nas novas escolas que nasceram e proliferaram como cogumelos), não restará muito tempo para que os próprios fisioterapeutas venham a fazer o trabalho espúrio dos auxiliares, com um pagamento igualmente espúrio e uma respeitabilidade diminuta.
A realidade não é muito diferente se tivermos em conta os diferentes subsistemas de saúde, quase todos relegando os cuidados de fisioterapia para um plano verdadeiramente secundário, valorizando somente os tratamentos sintomáticos e esquecendo a importância da prevenção secundária e terciária.
O resultado será a contínua depreciação dos cuidados de fisioterapia e do próprio fisioterapeuta, a insatisfação do profissional com o consequente crescimento das suas ignomínia e inépcia baseadas na falta de prática de uma avaliação/intervenção coerentes, e a insatisfação do próprio cidadão, principalmente aquele que não quis (ou não pode) apostar financeiramente nos cuidados de fisioterapia. A insatisfação do cidadão, transformada em descrença na fisioterapia, levará a que o mesmo procure opções menos credíveis, quase sempre no seio de um mercado paralelo e ilegal.Agora que o Governo estabeleceu o novo projecto das redes de cuidados continuados, talvez se venham a lembrar das necessidades de reabilitação física de um povo progressivamente incapacitado.

É difícil ser-se fisioterapeuta! Mas mais difícil ainda é a sensação constante de nos sentirmos diferentes. Quando me refiro à minha diferença estou a falar da minha tendência para ser perfeccionista, para fazer as coisas tal como elas devem ser feitas, segundo o máximo que sabemos para ajudar as pessoas. Porém, todos os dias vão surgindo obstáculos: doentes difíceis, médicos fisiatras que pretendem sempre embotar a nossa criatividade, etc. Mas pior que tudo é o desrespeito! Chegamos ao ponto de que auxiliares de fisioterapia, sem qualquer formação superior, aliás sem qualquer formação que valha a pena referir, pensam que estão ao nosso nível ou mesmo que mandam em nós. É triste que não sejamos respeitados pelo que conseguimos ser e fazer.

segunda-feira, agosto 28, 2006


Este é um blog especial, pois não conheço outro blog em língua portuguesa dedicado a temáticas de Fisioterapia e, em especial, aos métodos de Reeducação Postural. Um texto, a publicar em determinada revista, escrito por mim é agora reproduzido, de modo a que a temática possa ser cabalmente explicada:

O mundo contemporâneo, e as pressões ocupacionais que o mesmo acarreta, é destro na criação de problemas de dores articulares generalizadas, em particular as dores da coluna ou raquialgias. Tanto factores psicossociais como uma miríade de factores de índole física e morfológica implicam, num complexo ciclo de inter-relação e influência, o aparecimento mais ou menos incisivo de dores de coluna, as quais são geralmente de origem inespecífica e de natureza cada vez mais precoce.
O tratamento dos diversos problemas articulares, sejam de natureza inflamatória (ex. tendinites, bursites, miosites, artrites, neuropatia) ou degenerativa (ex. artroses), leva a que as pessoas, numa altura em que deixam de saber lidar sozinhas com as suas maleitas, a procurar ajuda com um profissional de saúde. As opções de consulta e terapia apresentam-se, no momento da escolha do profissional, como muito e cada vez mais variadas, variando entre a opção ortodoxa constituída pelas consultas médicas generalistas e/ou especializadas e a realização de fisioterapia convencional e a consulta e tratamento com recorrência ao uso das terapias menos convencionais.
É fundamentalmente por razões de carácter político e financeiro que a fisioterapia convencional não dá muitas vezes resultado no momento do tratamento das perturbações músculo-esqueléticas da coluna. Os contribuintes do Serviço Nacional de Saúde, por constituírem “pobres pagantes”, acabam por “ter direito” unicamente às opções terapêuticas mais simples e menos especializadas, como os calores e as massagens. Por outro lado, um contribuinte mais abastado acabará por ter direito à realização de manipulações mais específicas, técnicas de tratamento da dor e disfunção mecânica mais especializadas e exercícios mais personalizados, num clima de acção clínica mais centrada no doente física e psicologicamente afectado, sempre numa filosofia de intervenção holística. Aqui, começo por dizer que não há, na realidade, grandes diferenças entre a fisioterapia mais especializada (que é, no fundo, a verdadeira fisioterapia, desconhecida e inacessível a tantos doentes) e as terapias menos convencionais. Tanto a fisioterapia, como a osteopatia e a quiroprática agem por meio de métodos muito semelhantes, por vezes com filosofias diferentes mas comparáveis na “ciência parcimoniosa” do método. Neste ponto, todas estas terapias arrogam a filosofia do holismo, pelo facto de se centrarem nos diversos factores bio-psico-sociais que atravessam a vida do doente. Mas na realidade, essas mesmas terapias não conseguiram ainda ultrapassar certas limitações de tratamento das perturbações, estando mais centradas nos sintomas dos doentes do que na causa desses mesmos sintomas. Sendo assim, o pretenso holismo que vendem não passa de mera ilusão ou barganha financeira.
Um método verdadeiramente holístico tem de ir da consequência sintomática expressada por determinado diagnóstico à perturbação postural geral que causou ou contribuiu para tal sintoma de disfunção. Ou seja, mais do que tratar a disfunção propriamente dita e os sintomas que a mesma expressa, o profissional de saúde verdadeiramente integral e coeso tem de pensar para além dessa disfunção, perguntando-se qual a causa postural da mesma. Por exemplo, uma artrose do joelho está relacionada com determinado alinhamento da articulação, sendo que o mesmo está relacionado com o alinhamento da anca e da coluna ou então, descendo no corpo, com o posicionamento e sensibilidade do pé. Outro exemplo: uma hérnia discal pode ser tratada com manipulações vertebrais que permitam deslocar os discos intervertebrais para uma posição mais fisiológica. Mas deve ser permitido ao profissional observar a postura do doente de modo a perceber que jogo de tensões musculares está presente a nível da coluna e resto do corpo. Se existir uma grande lordose lombar (inclinação anterior da coluna), como é tão vulgar nestes casos, isso significa que está presente um grande encurtamento da musculatura extensora e posterior da coluna, assim como um encurtamento defensivo da musculatura anterior da mesma. O somatório destas tensões leva a que os discos sejam sujeitos a grande pressão contribuindo para causar as hérnias discais ou facilitar o seu aparecimento e sua recorrência em termos sintomáticos. Após se ter em conta a questão das tensões musculares da coluna lombar, é preciso atender ao alinhamento postural do resto da coluna, e também da bacia e dos membros. Todo o corpo pode estar implicado de alguma forma na hérnia discal em questão. Difícil é perceber o que é a causa e o que é a consequência, pois tudo no corpo se gere por um equilíbrio global difícil de destrinçar.
O equilíbrio global a que nos referimos anteriormente é devido fundamentalmente às estruturas musculares corporais. Não falo de músculos isolados, mas sim de cadeias musculares, grupos de sinergias de músculos profundos, os quais preenchem mais de dois terços do aparelho muscular do corpo. Estes grupos musculares globais são compostos por músculos de contracção permanente e fundamentalmente estática, sendo os mesmos grandemente responsáveis pela orientação e atitude postural dos diferentes segmentos do corpo; os músculos agem como tirantes mecânicos dando a forma ao corpo através do equilíbrio que estabelecem entre si, sendo que há uns músculos que, por serem posturais, anti-gravíticos e de contracção permanente, vencem outros músculos mais fracos, os quais são provavelmente músculos mais envolvidos em funções dinâmicas e não posturais.
A postura depende fundamentalmente deste jogo de tensões musculares. E é muito mais do que algo inerente às curvaturas vertebrais. Diz respeito à totalidade do corpo, apesar de que os métodos de reeducação da postura serem comummente mais utilizados no tratamento das perturbações da coluna vertebral.
Sendo assim, os métodos de reeducação postural constituem os únicos que são verdadeiramente holísticos, os únicos que chegam verdadeiramente às causas dos sintomas. São métodos de fisioterapia especializada que somente o profissional com formação específica conhecerá e que unicamente o profissional com experiência relevante saberá utilizar com sabedoria.
Não são métodos centrados na força muscular, ao contrário daquilo em que consiste o método Pilates. Este método pode ser bem efectivo para construir um corpo mais sólido de dentro para fora, centrado na força dos abdominais profundos, mas, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não é um verdadeiro método de reeducação postural. Afirmo isto tanto como fisioterapeuta como instrutor de Pilates que sou.
Os métodos de reeducação postural estão centrados sobretudo na flexibilidade, no estiramento ou alongamento dos grupos musculares profundos que referimos anteriormente. Partem de um alongamento coerente, global e progressivo das cadeias de músculos da estática, utilizando posturas específicas mantidas a frio por longos períodos de tempo. A gravidade é necessária à efectuação desse alongamento global, pelo que a natação, a hidroginástica ou qualquer outro método de treino hídrico é ineficaz no tratamento a longo prazo dos problemas da coluna e da postura em geral.
Não estão, como já dissemos, centrados na realização de treino de força. Aliás, o problema da maioria das atitudes posturais centra-se precisamente no excesso de força de determinadas cadeias musculares. Como tal, por exemplo, os músculos da coluna não devem ser fortalecidos, mas antes alongados. O alongamento da musculatura vertebral compreende o único meio de treino funcional destes músculos.
Apesar de alguns métodos antigos e milenares (como o Yoga) terem compreendido, de forma intuitiva, alguns dos princípios subjacentes aos métodos de reeducação postural, um entendimento minimamente científico e teorético do que foi anteriormente aludido só surgiu por volta dos anos 40, com a fisioterapeuta francesa Françoise Mézières. O método Mézières dava especial primazia à cadeia muscular posterior (um conjunto sinérgico de músculos rígidos, hipertónicos e demasiadamente fortes que se estende por trás, da cabeça aos pés), culpando as lordoses, ou seja, os encurtamentos da dita cadeia, das alterações posturais existentes. A partir deste método surgiu a Anti-ginástica de Thérèse Bertherat (mais centrada no grupo), a famosa Reeducação Postural Global e o Stretching Global Activo de Philippe Souchard e o menos comercial mas ainda mais completo método das Cadeias Musculares de Leopold Busquet.
Um bom método de correcção postural, realizado em grupo, deve incluir muito do que os anteriores métodos incluem, para além também das técnicas de relaxamento, do treino de equilíbrio e da sensação corporal (por meio da utilização do máximo de equipamentos, como bolas, esponjas e rolos, que permitam o treino da propriocepção).
É pena que a maioria das ginásticas Pilates, de correcção postural, e outras da moda, não incluam muitos destes princípios e práticas. Uma boa “ginástica postural”, realizada em grupo, pode constituir uma boa opção de reeducação postural e prevenção/tratamento de problemas da coluna. Mas para isso acontecer no seu máximo expoente, o ideal é que essa mesma “ginástica” inclua o resultado coerente de um trabalho ecléctico, envolvente dos princípios e métodos tratados no texto. O terapeuta ou professor deve ser o mais especializado e formado que for possível. E deve compreender que o corpo possui uma personalidade complexa, mas cheia de possíveis e potenciais caminhos para a resolução dos seus conflitos.