domingo, janeiro 28, 2007

O manifesto anti-desportivo ou a revolução na metodologia do treino?

(Texto completo; publicado parcialmente na revista SportLife, Fev. 2007)

Nunca a prática consistente de actividade física e/ou desportiva exerceu um fascínio tão grande nas pessoas como na actualidade. Nos tempos modernos, destros na avaliação social com base no aspecto físico, é cada vez mais comum a prática globalizada e mantida de exercício físico. Os ginásios enchem-se de pessoas, seres assaz narcisistas, ou eventualmente padecedores de uma qualquer maleita, clientes imbricados na actividade maquinista do trabalho muscular fadigoso. E como se não bastasse o número crescente e exponencial de clientes, as actividades desportivas proliferam e reinventam-se numa série de laborações comerciais, dos quais certos estrangeirismos como stretching, step, cycling, body sculpt, powerfit, body pump, body push, body defense, totalfitness, new balance, entre muitos outros, constituem marcante exemplo. Para além deste número exacerbado de práticas físicas aparentemente dissemelhantes, as práticas ditas holísticas têm conseguido marcar o seu lugar de destaque dentro deste “conflito de escolhas”. Assim sendo, temos o Pilates, o Yoga, o hold-relax, e até as mais alternativas como o Chi-Kung ou o Tai Chi Chuan. Há também quem prefira as misturas, os nomes complexos, as miscelâneas de diferentes nomenclaturas que permeiam o vácuo das mentes curiosas. Daí o sucesso do PNF-chi ou do YogiPilates. Mas este texto não é sobre o maquinismo comercial existente neste mundo cada vez mais intrincado que é o do fitness ou o do fitwell. Este texto pretende arraigar o mundo desportivo na sua globalidade, desde os desportos mais clássicos. Este texto pretende argumentar que todos os desportos, desde os mais antigos até às primorosas (re)invenções da actualidade apresentam no seu conjunto uma poderosa limitação, relacionada com o funcionamento do sistema músculo-esquelético. Eis que urge a necessidade de esclarecer as pessoas de que, no ponto de vista articular, não há praticamente qualquer modalidade desportiva que se apresente como saudável ou recomendável, independentemente de o desporto ser ou não realizado dentro de água. Falo, volto a repetir, da perspectiva da saúde das nossas estruturas músculo-esqueléticas. Outras (des)vantagens potenciais dos desportos não são objecto deste texto. É preciso entender que o mais importante factor que expressa a saúde futura das nossas articulações, e potenciais reumatismos, consiste na nossa postura. Quando me refiro à postura corporal falo do conjunto dos eixos que expressam determinado alinhamento articular. Não me refiro só à coluna e às suas cifoses, lordoses ou escolioses. Refiro-me ao alinhamento de todas as estruturas segmentárias do corpo, incluindo a existência de valgismo ou varismo, flexum ou recurvatum, dos cotovelos, punhos, ancas, joelhos, pés e dedos. Estas idiossincrasias de alinhamento corporal estão dependentes de inúmeros factores, uns aparentemente menos modificáveis e outros potencialmente adquiridos com a evolução e/ou maturação corpórea. Mas, indubitavelmente, são os músculos que irão desempenhar o principal papel de escultores do equilíbrio postural. São os músculos que, agindo como tirantes mecânicos, puxam para fora ou para dentro, para trás ou para a frente determinadas estruturas ósseas onde se inserem, dependendo da dispersão de forças que os movem (e para além dos músculos, são talvez ainda mais às fáscias e os tendões resistentes que exercem o seu papel de escultores posturais). Ora, nesta batalha de forças musculares, o alinhamento postural das articulações tende a estar dependente sobretudo de um tipo de força que é exercida de forma constante sobre as estruturas ósseas, ou seja, da contracção da musculatura tónica ou postural (e não tanto da musculatura fásica relacionada com o movimento). Acontece que a quase totalidade dos desportos ou actividades físicas existentes têm por objecto a chegada a determinado fim ou a criação de determinado trabalho muscular dinâmico, sem ter em conta a existência do citado conjunto de forças de equilíbrio. Por outro lado, apesar de o trabalho muscular da maioria dos desportos existentes ser do tipo dinâmico, não deixa a musculatura tónica ou estática de ser continuamente recrutada, chamada para um trabalho constante, sem qualquer tipo de atenção ao tipo de equilíbrio de forças que se está a gerar. Assim sendo, quase todos os desportos existentes, principalmente as actividades que fazem uso de pesos ou outras resistências, imprimem no corpo um conjunto de desequilíbrios musculares muitas vezes difíceis de destrinçar. E quanto mais séria ou competitiva for a prática desportiva, ou quanto mais assimétrica for essa mesma actividade, maior a probabilidade desse desporto gravar no corpo dos seus praticantes um conjunto oneroso de distúrbios posturais, associados em muito à tendência que essas actividades têm para fazer incrementar os desequilíbrios previamente existentes. Por outro lado, não podemos deixar de atender à maleita que constitui a realização do movimento num corpo consternado por desequilíbrios do alinhamento. Se, por exemplo, um determinado indivíduo possui um joelho excessivamente varo, isso significa que a região interna da articulação do joelho que une fémur com tíbia está sujeita a uma pressão acrescida. Se este mesmo sujeito realizar uma simples actividade como andar rapidamente, ele estará a utilizar a articulação do joelho desalinhada numa série constante de movimentos. Para o indivíduo mais velho, o desgaste associado a tal desequilíbrio segmentário poderá significar uma patologia degenerativa (artrose). E neste mesmo caso, estará errado o profissional que recomendar a este mesmo idoso que ande muito, de modo a libertar a articulação. Para quê movimentar determinada estrutura articular se não houve um prévio realinhamento dos segmentos? Qualquer actividade física realizada numa articulação não alinhada irá somente aumentar o nível de desgaste de natureza viciosa dessa mesma articulação. Imaginemos agora toda esta mesma história mas para actividades físicas mais vigorosas do que o simples andar.Eis, então, que surge o momento de explicar onde reside a potencial solução para estes mesmos desequilíbrios do alinhamento articular. Ora, se a contracção concêntrica das estruturas (em que assenta a maioria dos desportos praticados) leva ao encurtamento dos músculos, as actividades de alongamento muscular libertam estas mesmas estruturas musculares que se relacionam e inserem nos segmentos ósseos. Ou seja, somente a actividade de alongamento muscular poderá permitir refrear o conjunto de forças musculares que, de forma poderosa, impõe determinado alinhamento articular. Apenas o estiramento muscular eficaz poderá permitir deformar as estruturas moles que puxam os tirantes mecânicos do corpo. Assim sendo, é fundamental realizar alongamentos durante e após qualquer actividade desportiva, de modo a diminuir a tendência que o conjunto de forças que se despertaram na actividade exerceram de modo a criar desalinhamento segmentar. Mas aqui a revolução desportiva que proponho não existe, pois já é comum realizar alongamentos durante e, sobretudo, após a actividade desportiva. No entanto, já não se poderá dizer que essa prática de alongamentos seja correcta ou ajustada às necessidades plenas de cada indivíduo. Ora, é indubitável a necessidade de que cada desportista realize os alongamentos mais caros ao conjunto das suas necessidades de (re)alinhamento corporal. E esse mesmo alongamento não deve ser analítico, como é típico na actividade desportiva. O alongamento deve ser realizado da forma mais global possível, de modo a estirar cadeias musculares ao invés de músculos isolados. Uma modificação postural significativa implica a realização congruente de estiramentos globais das cadeias musculares, insistindo particularmente na secção mais convergente ou retraída dessa cadeia. Não pode deixar de ser dito que quase todos os desportos existentes à face do planeta constituem uma súmula de esforços perniciosos para o sistema músculo-esquelético. É impossível continuar a negar a evidência que muitas teorias fundamentais, assim como uma certa investigação, têm vindo a colocar à superfície. O trabalho realizado na maioria das actividades físicas, centrado fundamentalmente na força muscular, alimenta os desequilíbrios e acentua a tensão nas cadeias musculares. E qualquer esforço, por maior que seja, de compensar esses esforços com a realização de alongamentos não deixará de constituir um acto de compensação minoritária. Dar “uma no cravo e outra na ferradura” fará com que o equilíbrio corporal se mantenha praticamente inalterado. Assim sendo, aquilo que verdadeiramente se recomenda é a realização de uma prática física não competitiva, isenta de grandes esforços, plena de diversos movimentos, mais centrada na actividade cardiovascular ou na resistência aeróbia. E essas mesmas actividades aeróbias devem ser o mais variadas possíveis, sendo que não deve ser mantida a prática constante de exactamente a mesma actividade, com os mesmos movimentos, durante tempos muito prolongados. A força muscular está dependente sobretudo da qualidade de funcionamento da articulação. Uma articulação bem alinhada e funcionante será sempre provida de um músculo forte. E essa estrutura articular manter-se-á funcional. Aliás, é sempre de função que tudo se trata. Devemos ter em vista a realização de actividades que permitam melhorar a nossa funcionalidade do dia a dia. Ter muita força ou massa muscular não servirá de nada, a não ser para submeter o corpo a uma tensão excessiva. No caso de ser necessário realizar actividades mais duras, o corpo poderá ser inclusive ensinado a trabalhar com mais eficácia, de modo a fazer mais e melhor com menos esforço, como é apanágio de certos métodos terapêuticos como a técnica Alexander e o método de Feldenkrais, praticamente desconhecidos do mundo do fitness. Ainda assim, qualquer actividade física, por mais variada ou ligeira que seja, irá ser perniciosa se for realizada em estruturas articulares não alinhadas. Para além de que qualquer treino de actividade muscular realizado em estruturas não alongadas irá, provavelmente, criar tensão sobre tensão. Ora, eis então a principal premissa daquilo que entendo constituir uma revolução na metodologia do treino: antes de se realizar qualquer actividade física, o corpo deverá ser prévia e globalmente alongado, a frio, por longos períodos de tempo. Ou seja, estruturas não preparadas deverão ser sujeitas a uma tensão de estiramento global, mantida por um certo período de tempo, sem força excessiva (esta só alimenta as compensações, para além de que pode constituir perigo para a saúde das estruturas em alongamento). O alongamento deverá ser global, proporcionando o (re)alinhamento articular com base no trabalho centrado nas cadeias musculares. Só depois de se ter dedicado parte do tempo de treino ao alongamento é que se pode incorrer no trabalho dinâmico. Este far-se-á num corpo em que as articulações já foram previamente libertadas; este far-se-á num corpo em que a musculatura já possui um comprimento singelo, facilitador do trabalho muscular; este far-se-á num corpo previamente descomprimido, liberto da tensão excessiva, sendo que assim não estamos a aumentar a tensão num corpo já tenso. As premissas e alguns postulados do que aqui afirmo partem inicialmente do conceito das cadeias musculares de Mézières, mas têm sido colocados no terreno da escrita fundamentalmente por Ph. E. Souchard nos seus livros dedicados à Reeducação Postural Global e ao Stretching Global Activo. Por tudo o que aqui ficou dito, não é de estranhar que os escritos mais importantes de Françoise Mézières se tenham intitulado “revolução na ginástica ortopédica”, assim como o método da sua discípula Bertherat, assente na consciencialização e no relaxamento, tenha tomado o nome de antiginástica...
Estes métodos podem fornecer tantas inovações ao mundo do desporto, assim como podem contribuir para gerar o conceito de “uma nova cultura física”.
É pena que a maioria dos instrutores de fitness não conheça estes sistemas de trabalho terapêutico, e não procure saber mais acerca do alongamento global. Também não admira, se tivermos por exemplo em conta que a obra de Bertherat “Le corps a ses raisons” (traduzida tristemente para português para o título “Dê saúde ao seu corpo: a saúde pela antiginástica”, editora Europa-América), muito reveladora acerca dos princípios atrás enunciados, encontra-se esquecida e perdida algures no passado. Por outro lado, a compreensão procedente destes conceitos implica a formação especializada dos instrutores, o que parece existir cada vez menos, visto que muitos instrutores de fitness não possuem uma formação de base superior na área do sistema locomotor. A meu ver, o mundo do fitness e o mundo da saúde são inseparáveis, pelo que a formação especializada dos profissionais e a aceitação mínima de uma nova forma de ver o desporto e a actividade muscular constituem um requisito fundamental ao respeito pela fisiologia normal do desportista.

sábado, janeiro 20, 2007

Stretch-Pilates para os interessados

Todos os problemas articulares estão directa ou indirectamente ligados a distúrbios de postura. Esta afecta todo o funcionamento físico e psíquico do indivíduo. O Pilates “puro” tem uma eficácia estrondosa no ganho de um controlo postural significativo, assim como melhora a mobilidade articular (principalmente da coluna vertebral). Porém, o Pilates só por si não permite a modificação genuína da estrutura esquelética. É preciso juntar-lhe um trabalho profundo de alongamento global das cadeias musculares posturais. Só esse trabalho de stretching permite a libertação articular e o relaxamento progressivo. O Stretch-Pilates não é necessariamente um novo método, é mais a interpretação rigorosa dos métodos mais eficazes para chegar à postura corporal e aos problemas psico-físicos que afectam as pessoas.

Reeducação Postural + Pilates = Stretch-Pilates

Para praticar, contactar-me (963304478)

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Stretch-Pilates

Este é o nome pelo qual apelidarei várias vezes o método de Reeducação Postural que venho praticando há uns tempos, o método de grupo que resulta da mesclagem do stretching global (desde Mézières até à antiginástica, e muito particularmente a Reeducação Postural Global e o Stretching Global Activo, assim como técnicas de relaxamento e de consciencialização corporal) com o “puro” Pilates.
O trabalho inclui a mistura coerente dos diversos métodos, incluídos numa sopa terapêutica de grande eficácia e coerência. Os exercícios e as posturas são realizados em separado ou de forma integrada, com pleno controlo do posicionamento e alinhamento corporal.
Atendemos ao trabalho de alongamento das cadeias musculares, mobilidade articular (principalmente da coluna) e, por fim, força (principalmente do centro abdominal). O trabalho é feito com recurso a dois tipos de respiração, ambas processadas ao nível torácico superior: uma respiração fluída para o Pilates e uma respiração mais lenta e prolongada, com ênfase na fase expiratória, para o alongamento global.
O termo Stretch-Pilates potencia a noção de mercado! No fundo, não passa de um método de “ginástica postural”, mas inteligentemente integrativo dos métodos mais paradigmáticos e efectivos do domínio da Reeducação Postural. Não é, portanto, uma invenção, um método novo que criei; é mais o resultado da mesclagem criativa de métodos e técnicas preexistentes.O fim principal do Stretch-Pilates é a Postura. E não podemos reeducar a mesma só através do trabalho de activação do centro do Pilates. É preciso o alongamento. É preciso coerência e globalidade. É preciso ver as coisas em termos de “Cadeias musculares”...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Reeducação postural com rolos

Há muito que este texto já devia ser tido escrito. Acontece que no Consultório e Clínica de Reabilitação, Lda. (Av. República, 99), onde realizo há muito as minhas classes de Reeducação Postural, assim como no hospital Curry Cabral (e em poucos mais sítios), o método mais utilizado e simples de conseguir a correcção postural corresponde ao uso de rolos, que podem ser meros canos de esgoto forrados, nos quais os pacientes se deitam, colocando toda a coluna espalhada pela superfície dos mesmos.
Os rolos constituem uma superfície com dureza suficiente para levar à manifestação de reflexos protectores por parte dos doentes, reflexos que acabarão por ter como efeito a deslordose da coluna lombar. Toda a coluna fica numa posição de estiramento ou tracção por cima do rolo, o que facilita a criação de espaços entre as vértebras (por vezes, é a melhor forma de tratar as hérnias discais). Em cima do rolo podemos realizar várias posturas de alongamento, permitindo o treino expiratório e, através da abertura de braços, o alongamento global das cadeias musculares ântero-superiores.
O rolo permite também realizar exercícios de “consciência corporal”. Daí que estes materiais se tenham utilizado em Feldenkrais, em Anti-ginástica e em “Corpo e Consciência”. Há que promover a colocação directa e alongada da coluna por toda a extensão do rolo, sendo que este facilita a sensação proprioceptiva. Exercícios de massagem das costas com o rolo poderão ajudar a tornar consciente as zonas dolorosas.
O rolo é também um dos materiais importantes do Pilates. Por constituir um estímulo desequilibrante, a manutenção do corpo no rolo obriga à activação constante do centro abdominal. Vários exercícios de força, como o Hundred ou as Tesouras, poderão ser realizados com grande eficácia no rolo (eventualmente com uma protecção adicional), sendo que é, a meu ver, uma das melhores formas de Contrologia corporal (para além de que ajuda à manutenção da coluna na posição de apoio total, evitando também a lordose). Para além disso, o trabalho de mobilidade pode também ser feito no rolo, com grande exigência do controlo corporal (experimente-se realizar o Shoulder Bridge por cima do rolo, pedindo que as vértebras sejam todas colocadas uma a uma, precisamente em cima do eixo do rolo). Nos locais que referi inicialmente, é muito comum realizar actividades com o rolo, sendo que muitas vezes a única forma de tratamento empregue corresponde à mera colocação do doente por cima do dito material. Os resultados costumam ser impressionantes.

Método Pilates: desvendando os segredos

Aspectos históricos e técnicos do método dos famosos

No mundo do fitness não há método que tenha gerado tanta polémica e tanta incursão mediática quanto o Pilates. Não há país do mundo ocidental em que o Pilates não tenha tido um surgimento abrasivo e um desbravamento comercial de destaque. Inclusivamente em Portugal, o método Pilates parece ganhar um número bastante significativo de adeptos. A palavra ‘Pilates’ está inclusive imbuída de um certo misticismo, ambiente criador de uma certa aura de atracção comercial. Os motivos de tal mediania e fama derivam directamente do poder de um certo marketing diabólico, sendo que este não pára de identificar o método Pilates como a “ginástica” de eleição de um conjunto enorme de famosas personalidades e actores de Hollywood.
Ainda assim não podemos deixar de tentar compreender o porquê de tal identificação do método com as figuras da fama. Para isso, devemos ter em consideração alguns aspectos históricos do método. Vejamos se podemos resumir a história do método de uma forma simultaneamente atractiva e objectiva.
O criador do método Pilates, Joseph Pilates, era um homem extremamente inteligente e intuitivo. Teve uma infância difícil e plena de uma franca debilidade física, mas ainda assim lutou pela sua perenidade. Talvez pelo facto de ser extremamente frágil, Joseph Pilates dedicou um esforço suplementar a melhorar a sua condição física. Na sua juventude, Pilates estudou e especializou-se em musculação, mergulho, esqui e ginástica. Em 1912, Pilates mudou-se da Alemanha (onde nasceu em 1880) para Inglaterra, onde começou a ganhar a vida como pugilista e artista de circo. No início da Primeira Guerra Mundial, esteve num campo em Lancaster e, posteriormente, na Ilha de Man, local onde trabalhou como enfermeiro. Depois da guerra, Pilates voltou para Hamburgo, onde permaneceu até 1926. Só neste ano é que Pilates, desiludido com o exército alemão, se mudou para os Estados Unidos da América.
Em Nova Iorque, Pilates viria a fundar os seus primeiros estúdios americanos. A partir daqui pouco de sabe relativamente ao seu trabalho, mas, pelo que reza a história, Joseph Pilates viria a cumprir o grande sonho americano de fama e riqueza. Sagaz, Pilates conseguiu impor o seu método de exercício, tendo rapidamente conquistado o mundo da dança. Conquistou, assim, os bailarinos, incluindo indivíduos famosos dos espectáculos musicais e cinematográficos. Portanto, o método Pilates viria a constituir-se como o método dos famosos muito antes de ser abraçado pela geração dos fisioterapeutas – que deram ao método um cunho mais terapêutico – e, mais tarde, pela geração dos instrutores de fitness.
É irónico que o método Pilates esteja tão ligado à dança, pois o próprio Joseph Pilates nunca foi bailarino. Era antes um adepto de actividades “duras”, ditas de força pura e explosiva. Por outro lado, o seu rol de exercícios faz uso de um outro tipo de força – uma força fundamentalmente estática e excêntrica, a qual permite o fortalecimento do corpo sem geração de tensões e/ou desequilíbrios musculares.
Os bailarinos procuravam (e procuram) no método Pilates uma fonte de estabilidade corporal e equilíbrio para os seus corpos excessivamente móveis, instáveis e laxos. Ao procurarem Joseph Pilates, deparavam-se com um homem muito perspicaz, capaz de estabelecer planos de exercícios adaptados às necessidades e aos problemas específicos de cada pessoa. O método tinha aqui um cunho irrefutável de individualidade. O treino era realizado em equipamentos específicos que ainda actualmente são utilizados nas formações mais avançadas. O método não era grupal; tornou-se, mais tarde, um método para ser praticado fundamentalmente em grupo, como é apanágio dos métodos de fitness.
É importante referir que o método Pilates não se centrava em exercícios precisos, servidos como uma receita reutilizável de sujeito para sujeito. Perante determinado indivíduo, Pilates alterava radicalmente os planos comuns de exercícios. E foram poucos aqueles que puderam assistir a todo este mecanismo de trabalho. Os poucos que tiveram esse privilégio acabaram mais tarde, após a morte de Joseph Pilates, por fundar as suas próprias escolas, chegando alguns a arrogar a prática do método original. Mas, tal arrogo não passa de pura insipiência, pois não existia um método original específico. Existia sim um método de trabalho próprio de Joseph Pilates, o qual é indubitavelmente inimitável.
Por outro lado, nem mesmo os seus exercícios poderão ser considerados como verdadeiramente originais... Pilates teria sofrido de grandes influências provenientes de métodos como o Yoga, as artes marciais e a meditação.
E se o método Pilates dito “básico” é construtivamente tão multifacetado, ainda mais diferenciadas se tornam as diversas escolas de Pilates que a partir da original se desenvolveram. Daqui tem de ser sublinhado um conceito fundamental: não há um método Pilates, há vários métodos Pilates. Assim como não há um só Yoga, há várias escolas de Yoga. Não há uma só osteopatia, há várias escolas de osteopatia. E também as diversas outras terapias holísticas se desdobram numa multiplicidade de diferentes escolas ou diferentes variantes. Assim sendo, se há algo em comum entre os diversos métodos Pilates, não deixam de se registar diferenças entre as diferentes escolas. O potencial praticante não deve presumir que a sua singular prática de Pilates é única. O praticante deve informar-se acerca da escola de Pilates onde o seu instrutor se formou. E no caso de o método não lhe agradar, o praticante não deve desistir da prática do método. Deve sim escolher outra via, outra tradição, outra abordagem.
Pessoalmente defendo que a escola de Pilates que devemos seguir deve partir da nossa própria tradição de trabalho e dedicação. Ou seja, defendo que não devemos seguir determinado modelo de escola, apesar de termos que escolher realizar a nossa formação numa qualquer tradição. Devemos adaptar inteligentemente o método às necessidades das pessoas com que interagimos. Podemos e devemos ser criativos na modificação dos exercícios de Pilates, mesmo que essas modificações não estejam previstas por qualquer escola (claro, desde que respeitemos determinados objectivos e regras de segurança). Devemos dar um cunho pessoal à prática de Pilates, tornando o método mais atractivo e relaxante tanto para o instrutor como para o praticante. Tenho feito e observado muitas aulas de Pilates em muitos contextos. Por vezes, em determinado ginásio, os diferentes instrutores de Pilates pareciam-se com clones, saídos de uma fotocopiadora. Todos os trejeitos, formas de falar e métodos de intervenção eram feitos com um respeito escrupuloso pelo o que a escola de origem tinha ensinado. Se para muitos este facto é apanágio de segurança ou precaução, para mim é o contrário, pois demonstra que os citados instrutores ainda não dominam completamente a fisiologia do corpo e das suas potencialidades, assim como não compreendem que a base filosófica e programática do método Pilates permite a realização de um quase interminável conjunto de exercícios e modificações destes, como se estivéssemos a falar de uma gramática generativa que permite a construção de um número aparentemente interminável de palavras e de frases a partir das letras do alfabeto.
Por outro lado, temos ainda a questão da formação básica de quem dá as aulas de Pilates. Pessoalmente, defendo que o Pilates deve estar centrado nas capacidades do aluno e não nas capacidades de um pretenso modelo; defendo também que a prática de Pilates deve possuir um cunho fundamentalmente terapêutico e preventivo, ou seja, clínico. Assim sendo, a formação básica de um instrutor de Pilates deveria ser de orientação clínica e de competência manipulativa. Com estas competências todas, não tenho dúvidas de que o fisioterapeuta constitui o profissional mais bem preparado para dar aulas de Pilates. De qualquer forma, é indiscutivelmente surpreendente o facto de o próprio Joseph Pilates possuir uma visão tão “clínica” dos seus clientes, quando ele mesmo não tinha qualquer tipo de formação específica.

Bases do método

O criador do método Pilates era uma pessoa especialmente capacitada para a compreensão das vicissitudes dos seus clientes. Os seus estúdios de treino possuíam conjuntos de equipamentos de trabalho, principalmente o reformer (uma plataforma de alongamento com cerca de 90 x 212 centímetros, que se desloca em pequenos carris quando empurrada pelos membros superiores ou inferiores), que constituíam o material básico de trabalho corporal. O método Pilates era portanto um tipo específico de exercício adaptado às necessidades específicas de cada cliente; era um método individual, de teor fortemente clínico.
Este Pilates iniciático movia-se por determinados princípios que não são muito diferentes dos actuais. Porém, se o trabalho que Joseph Pilates propunha partia de um conjunto de movimentos originais um tanto duros para o organismo, as diferentes escolas que deram continuidade ao método rapidamente adaptaram e/ou modificaram esses movimentos, tornando-os mais suaves, de modo a os adaptarem aos clientes iniciados ou com limitações.
Assim sendo, um praticante iniciado irá realizar provavelmente um nível básico do Pilates com variações simples dos exercícios de Pilates. Só progressivamente, à medida que o praticante for evoluindo, é que o mesmo se irá aproximar da prática dos movimentos originais de Joseph Pilates.
Dissemos que a prática original de Pilates era fortemente centrada no sujeito. Actualmente, o método é utilizado fundamentalmente no contexto de grupo, sendo que se pode dizer que a prática de Pilates está massificada. Este tipo de prática grupal não é necessariamente improdutiva. Mas requer uma atenção especial à adaptação do gesto desportivo, incluindo a sustentação por parte do instrutor de um grupo de sujeitos com diferentes capacidades e experiências de prática. Assim sendo, o bom instrutor de Pilates tem de ser capaz de, no seio do grupo, manter-se atento às necessidades de cada indivíduo presente na classe, e tem de saber agir perante determinada necessidade especial surgida no momento, incluindo a possibilidade de adaptar rapidamente os exercícios ou escolher diferentes exercícios para diferentes indivíduos.
O facto de muitas escolas de Pilates terem modificado os exercícios originais de Pilates, tornando-os mais acessíveis à população normal ou especial, deriva não só da necessidade de compor um constructo de progressividade no treino, como da evidência científica relativa à fisiologia do aparelho muscular abdominal profundo, zona do corpo que corresponde actualmente ao grande objecto de treino no Pilates.
Sim, este é o grande objecto de trabalho no Pilates: o treino abdominal profundo. Todo o trabalho dos exercícios de Pilates está centrado no trabalho da parede abdominal estática. Todos os exercícios têm como objecto de trabalho o treino de um conjunto de músculos muito específicos e profundos do corpo.
Antes de avançarmos mais no texto, deve ser explicado que o corpo possui dois grandes tipos de músculos: os músculos estáticos ou tónicos, envolvidos nas reacções posturais, e os músculos da dinâmica, necessários à realização do movimento. Por exemplo, os músculos profundos da coluna (musculatura paravertebral) constituem músculos tónicos, de contracção fundamentalmente estática e permanente, envolvidos no endireitamento postural. São músculos muito fortes e resistentes, difíceis de alongar. Ao contrário do que tantos médicos, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde pensam, estes músculos em particular não devem ser fortalecidos, mas antes alongados; fortes já estes músculos são, não vamos portanto criar mais tensão onde ela já existe. Os métodos de fisioterapia baseados no trabalho das “Cadeias musculares” têm por objecto a metodologia de alongamento global desta musculatura. Entretanto, temos também músculos dinâmicos, como os abdominais superficiais, os quais estão vocacionados para a produção de movimento.
O método Pilates tem como objecto essencial de treino o trabalho de um músculo muito específico: o transverso abdominal (assim como o pavilhão pélvico). Este é um músculo muito especial, pois, apesar de ser profundo e fundamentalmente tónico/estático, não se insere dentro daquele conjunto de músculos estáticos de contracção forte e resistência inveterada. É um músculo com muita tendência para enfraquecer e, apesar de estar a ser constantemente solicitado nas tarefas que requerem equilíbrio, fatiga-se muito facilmente ao mínimo gesto físico mais exigente.
Quando estamos de pé, se temos um músculo transverso abdominal fraco ou fatigado, acabamos por certificar a nossa sustentação a partir da musculatura paravertebral. Quando realizamos exercícios abdominais mais forçados, rapidamente outros músculos abdominais, como os oblíquos e os rectos, irão substituir a actividade do transverso abdominal.
Assim sendo, aqui se apresenta a razão pela qual a actividade de Pilates deve ser realizada sem esforço excessivo, com exercícios de carácter gradativo. Queremos manter o trabalho do transverso abdominal, sem utilizar outros músculos. E o transverso abdominal funciona com contracções mínimas, de fraca intensidade; aliás, uma contracção abdominal de 30% é suficiente para manter o trabalho máximo do transverso. É por isso que dizemos às pessoas para imaginarem um cinto que as envolve apertado no terceiro furo em dez.
Uma actividade abdominal excessiva irá apenas colocar o praticante em risco de se magoar. E isto inclui os “abdominais” típicos da musculação e outros desportos. Reparemos: a actividade abdominal em Pilates é estática e, portanto, depende sobretudo do trabalho dos membros inferiores, os quais se afastam progressivamente do tronco, aumentando o desafio do centro corporal. Se este afastamento for excessivo, rapidamente o praticante irá começar a tremer, o que significa que está a entrar em fadiga. Nesta altura, não só já não estamos a trabalhar o transverso abdominal, como, provavelmente – e isto sim é grave – já estamos a utilizar a coluna vertebral como ponto móvel (por falta de estabilização), o que significa que a coluna está a ser sacrificada, a cair em lordose (arqueamento), e a musculatura paravertebral está a ser utilizada.
Nesta altura, o objectivo central do Pilates foi traído. E os potenciais benefícios da prática do método transformaram-se em riscos. A prática de Pilates não é assim isenta de efeitos adversos (aliás, devemos desconfiar de todo o método que se diga isento de efeitos secundários). Se praticado sem cuidado e com esforço excessivo, estaremos a construir posturas em lordose, extremamente tensas, muitas vezes confundidas com “boas posturas” só porque o indivíduo se encontra aparentemente mais “esticado”; na realidade, o corpo está apenas a sujeitar-se a uma tensão crescente. E para isso, então mais valia que as pessoas se entregassem à irracionalidade da musculação e outras formas de treino forçado.
O método Pilates poderá constituir o melhor método de trabalho postural, mas apenas se realizado com cuidado e racionalidade (daí que, a meu ver, todo o trabalho de Pilates deveria ser feito com a coluna lombar completamente assente no colchão, e não em posição neutra). A máxima “no pain, no gain” é completamente descabida na prática deste método.
Para além disso, visto que queremos um corpo mais livre de tensão e uma postura mais saudável, a prática de Pilates não pode dispensar o alongamento. Este deve ser o mais global possível, deve incluir o estiramento da cadeia posterior (para evitar que a mesma se encha de tensão), e – fundamental – deve estar presente essencialmente no início do treino, e não no fim, como tem sido habitual. O alongamento deve estar presente antes do treino de força, para libertar o corpo de tensão e preparar o mesmo para o trabalho de estabilidade, diminuindo assim o risco de criar pontos de retracção espinhal. E é no início que o alongamento produz os máximos resultados e não no fim quando o corpo já está quente e artificialmente propenso ao estiramento (o alongamento final serve somente para evitar a fixação do corpo em posições de tensão).
Para ser totalmente efectivo, o trabalho de Pilates deve incluir os exercícios básicos de força do centro abdominal, associados aos alongamentos próprios da Reeducação Postural Global, ou mais precisamente, do Stretching Global Activo. Assim sendo, proponho um Pilates diferente do habitual, mais ecléctico, ou então, uma prática denominada Pilates-Stretching, ou melhor, “Stretch-Pilates”, a prática ideal de reeducação postural em grupo, que venho ensinando há alguns tempos.

Princípios e metodologias de treino

Ao assentar fundamentalmente no treino do transverso abdominal, o método Pilates apresenta-se sobretudo como uma fonte de estabilidade do centro do corpo. Qualquer fisioterapeuta de neurologia sabe que é impossível obter a estabilidade dos membros e a mobilidade das extremidades sem que o tronco possua estabilidade. Quanto mais estável e seguro for o tronco, maior é a eficácia de todo o trabalho do corpo. Aliás, se o tronco for suficientemente estável, o trabalho dos membros será relativamente fácil de ser gerido.
Assim sendo, se o trabalho de Pilates parece gerir-se por um músculo ou conjunto de músculos muito precisos, no fundo, todo o corpo está globalmente envolvido no treino de Pilates. E de uma forma extremamente inteligente, abrasiva e mentalista. A força é, portanto, obtida de dentro para fora. É no fundo um método assente na criação de uma base de segurança central que vai fluindo progressivamente em direcção às extremidades.
O treino de força muscular no método Pilates é realizado fundamentalmente de forma estática e excêntrica, o que representa uma franca evolução relativamente aos métodos de fortalecimento mediante a utilização de elásticos e pesos. O treino estático e excêntrico permite o fortalecimento do corpo sem colocar em risco a sua flexibilidade e, portanto, a sua postura. Posso dizer que muitos treinadores e fisioterapeutas têm muito a aprender com o Pilates, principalmente aqueles que pensam que a recuperação de lesões depende da transformação do indivíduo numa espécie de culturista.
O trabalho em Pilates é, como tal, extremamente indicado para os sofredores de osteoporose, fraqueza muscular generalizada, fibromialgia e doenças reumáticas em geral.
Da filosofia de estabilização central, partem quase todos os princípios do método Pilates. Passo a resumir os principais princípios do método, segundo a metodologia do Pilates Institute, escola onde me especializei.
Primeiro princípio: Concentração. É impossível praticar Pilates sem que as pessoas permaneçam em total concentração nos movimentos. É necessária portanto uma certa capacidade de abstracção relativamente aos problemas da vida e às nossas neuroses particulares, o que, para alguns, representa um verdadeiro desafio. O treino de consciência corporal é extremamente importante; só mais tarde os movimentos e as posturas serão, de certo modo, automatizados. O método Pilates é dito holístico, integrando corpo e mente, mas não vamos cair em ilusões (evitando o pretenso arrogo do holismo que certas medicinas não convencionais exploram até à exaustão); pessoas depressivas e/ou obsessivas terão a tarefa complicada, mas podem e devem lutar para se integrarem no espírito Pilates. De qualquer forma, o método Pilates facilita muitíssimo o estado geral de tranquilidade e relaxamento corporal, principalmente se forem integradas técnicas de relaxamento e de alongamento global.
Segundo princípio: Respiração. Já nos métodos fisioterapêuticos de reeducação postural a respiração controlada é condição fundamental de melhoria da postura, pois todas as cadeias musculares interagem com a cadeia respiratória. Uma expiração prolongada e bem controlada pode ser suficiente para trabalhar bem a musculatura abdominal profunda; por outro lado, ajuda no alongamento do diafragma, músculo lordosante e criador de tensões. Portanto, o controlo respiratório é fundamental no método Pilates, sendo que a inspiração é feita para as costas e a expiração coincide com o trabalho máximo do transverso abdominal.
Terceiro princípio: Centralização. É o princípio óbvio do método, que tem vindo a ser explicado ao longo do texto. O trabalho de estabilidade abdominal consiste no trabalho de controlo do “centro”.
Quarto princípio: Controlo. Está relacionado com o princípio anterior. O objectivo do método consiste no controlo do centro abdominal, conseguido através da estabilização da coluna, durante a realização de movimentos lentos e precisos. É este tipo de controlo que falta à maioria dos sofredores da coluna vertebral, muito especialmente aos indivíduos com hérnias discais. Não devemos esquecer que o método Pilates tem sido referido muitas vezes como o método da Contrologia.
Quinto princípio: Precisão. O método Pilates depende da realização de movimentos precisos, realizados num correcto alinhamento.
Sexto princípio: Movimentos fluídos. É a secção dinâmica do Pilates. Os movimentos são fluídos como que movidos por uma dança de beleza indelével, sempre à velocidade dos movimentos respiratórios.
Sétimo princípio: Isolamento. O trabalho dos grupos musculares é feito de forma específica e isolada.
Oitavo princípio: Rotina. Não significa fazer o mais do mesmo. Significa perseverança e assiduidade, pois os resultados vão-se acentuando com o tempo.
Assim sendo, o método Pilates permite o trabalho máximo do controlo corporal e postural, o trabalho do equilíbrio e consciencialização corporal, o trabalho de estabilização do centro do corpo, a construção de um corpo denso e seguro, uma base de segurança para os dias imprevisíveis das nossas vidas cada vez mais caóticas.
Seja no colchão, nas bolas, nos rolos, no isotoner, no cadillac, ou em qualquer outro material, o Pilates pode e deve ser trabalhado de forma lúdica e com gosto.
É incrível como ninguém teve ainda a ousadia de adaptar o método Pilates à prática infantil. O método tem todas as virtudes de uma prática descingida e lúdica, e possui propriedades psicomotoras inquestionáveis. Poderia constituir parte de uma excelsa psicomotricidade e reprogramação postural, com todas as vantagens que a mesma teria para a melhoria da postura, dos problemas de coordenação, do síndroma da deficiência postural e das dificuldades de aprendizagem. Infelizmente, não está ainda em prática a realização de qualquer tipo de actividade adaptada às necessidades posturais e psicomotoras de tantas crianças, seja em que ginásio ou escola for.
O método Pilates não foi feito para emagrecer ou pelos seus efeitos no sistema cardiovascular. As pessoas que o procuram sabem que ele não interessa a esse objecto. As pessoas que o procuram querem sim possuir um controlo significativo sobre os seus corpos, as suas vidas e os seus problemas. O método não constitui uma panaceia! Mas não está longe de tal categoria.
Como já disse, o método deveria chamar-se sobretudo Stretch-Pilates, nome que dou oportunamente aos mecanismos de reeducação postural em grupo. O meu trabalho particular, e o que sugiro a muitos instrutores, consiste na sequência alongamento – mobilidade – força – alongamento. O alongamento liberta, facilitando a liberdade de movimento. Com o alongamento e a mobilidade, libertámos o corpo de tensões e preparámos o corpo para o trabalho de força e controlo. No fim, voltamos a libertar o corpo com o alongamento, para que este não fique preso em posições de força. Mais investigação é necessária para se perceber que tipo de metodologia deve ser adoptada no treino de Pilates.
Independentemente do nome a se dar ao método, o Pilates tem motivos de sobra para se manter como actividade da moda. Nem que seja pela incomensurável beleza dos seus gestos, realizados sempre com a graciosidade de uma flor que se abre para o mundo.

Artigo publicado em duas partes na Revista "Saúde Actual", desde o número Nov./Dez. 2006

sexta-feira, dezembro 15, 2006

De Mézières a Souchard: Traições e evoluções

Um dia hei-de aprofundar o tema... Mas fique-se já sabendo que é impossível aos olhos do estudioso negligenciar as semelhanças e as diferenças entre o método original de Mézières e os princípios da Reeducação Postural Global de Souchard.
Em termos sintéticos, poderemos dizer que, em grande escala, Souchard não acrescentou tanto quanto isso ao seu método para além do que já estava dito e feito em Mézières. Criou “novas posturas” e salientou a importância de se colocar todas as estruturas musculares simultaneamente em tensão. Ou seja, uma postura para Souchard constitui a súmula de todos os posicionamentos de estiramento da cadeia muscular. Já em Mézières, é muito comum tratar primeiro parte da cadeia para passar depois a outra parte da mesma (inicialmente, parte respiratória e zona superior da cadeia posterior, e depois, zona inferior da cadeia posterior). A tensão colocada em Mézières é grande no sentido em que a deslordose requerida é máxima, sendo que a realização de posturas em flexão é factível; por outro lado, o RPG é mais politicamente correcto e esteticamente aceite, pois utilizam-se mais frequentemente as posturas em coluna neutra.
Para além de tudo isto, deve ser acrescentado que o trabalho em Mézières é mais passivo do que o trabalho em RPG. No RPG o trabalho é mais activo e não nos podemos admirar do aparecimento quase obrigatório do Stretching Global Activo, método grupal em que o alongamento é realizado de forma extremamente autónoma e consciente.
Em ambas as abordagens é tida em conta uma complexa teoria de “cadeias musculares”, mas enquanto que no RPG se considera a existência de várias cadeias musculares, em Mézières considera-se que as “diferentes cadeias musculares” são todas uma só cadeia e estão totalmente dependentes da zona posterior. Em resumo, Souchard traiu o conceito de cadeia muscular unitária ao propor a existência de várias cadeias musculares. Na realidade, essas várias cadeias estão todas unidas entre si, partindo tudo da cadeia muscular posterior. Por exemplo, o RPG pode ver as hipercifoses dorsais como consequência de uma retracção da cadeia antero-interna do ombro, mas o método Mézières vai sempre perspectivar esta retracção como consequência de uma lordose “primária” (uma retracção da cadeia posterior terá sido transportada sob o aspecto de uma compensação até à região anterior, e a cadeia inspiratória terá mediado o “transporte” dessa compensação ou retracção).

domingo, dezembro 03, 2006

Trilhos anatómicos, segundo Myers

Trilhos miofasciais




















Linha superficial posterior

















Linha superficial anterior




















Linha profunda anterior




















Linha lateral




















Linha espiral




















Linha do membro superior




















Linha funcional




















sexta-feira, dezembro 01, 2006

Noção dinâmica da Cadeia muscular posterior: perspectiva segundo o paradigma do método Mézières

Como já tenho afirmado afincadas vezes, a base paradigmática de toda e qualquer deformação postural centra-se na existência de lordoses, entendidas como encurtamentos da cadeia muscular posterior.
Como sabemos, a cadeia muscular posterior constitui-se de feixes de músculos e fáscias com um poder de encurtamento e uma tendência para a retracção sem paralelo no sistema muscular tónico do corpo. Aliás, segundo o paradigma do método Mézières, tudo, absolutamente tudo parte do encurtamento da cadeia muscular posterior. Todos os encurtamentos relativos a outras cadeias musculares, como por exemplo o encurtamento das cadeias cruzadas anteriores na hipercifose dorsal, advêm na transmutação do encurtamento da cadeia posterior para a anterior eventualmente mediada por meio da cadeia inspiratória (diafragma).
As cadeias musculares têm, portanto, de ser vistas como unidas entre si, numa sinergia indecomponível. Por exemplo, a musculatura mastigadora e a língua são pontos de comunicação da cadeia posterior para a cadeia anterior. Por outro lado, o diafragma está unido a todas as cadeias, possuindo um papel reforçado na estruturação de contraturas desses mesmos conjuntos musculares, das quais a lordose lombar é a mais exemplar.
Ora, sabemos, portanto, que, segundo a perspectiva anteriormente apresentada, o corpo tem apenas uma cadeia muscular, e essa cadeia é fundamentalmente posterior; é lá que tudo começa e que tudo termina. Daí que as novas tendências, em termos metodológicos, de se falar num conjunto multifacetado de cadeias musculares (Souchard, Busquet) ou de trilhos anatómicos (Rolf, Myers), apesar de parecer inovadora, peca por trair a noção de unidade global do método original de Mézières.
Devemos, então, falar de uma só cadeia muscular, de um só músculo total do corpo. Claro que tal não significa que não possamos decompor analiticamente essa mesma cadeia. Aliás, a própria cadeia muscular posterior propriamente dita, conhecida como grande linha mestra posterior na linguagem de Souchard, cadeia estática posterior na linguagem de Busquet (lembremo-nos que para este autor, só há uma cadeia estática, que é a posterior; todas as outras são de natureza dinâmica) e linha superficial posterior para Myers (ou seja, devemos atender à existência de outros músculos ainda mais profundos, como o transverso abdominal e o multifidus), pode ser subdividida. Assim sendo, à semelhança do que fez Leopold Busquet, a cadeia posterior pode ser dividida em cadeia posterior superior (com limite inferior ao nível da bacia) e cadeia posterior inferior.
Da divisão anteriormente anunciada, advêm questões de grande relevância para a compreensão das deformidades e o próprio treino da flexibilidade.
Acontece que, segundo inúmeras observações realizadas em ambiente clínico e desportivo, tem havido uma tendência para se considerar que existe um equilíbrio sinérgico muito especial entre as duas partes (superior e inferior) da cadeia muscular posterior. Este equilíbrio é muito semelhante ao tipo de equilíbrio existente entre grupo muscular agonista com tendência ao encurtamento e grupo muscular antagonista (ao anterior) com tendência ao alongamento.
Assim sendo, passemos a analisar a questão anteriormente exposta. Reparemos na grande maioria dos atletas. E reparemos especialmente nos elementos do sexo masculino. A grande tendência destes indivíduos é de possuírem uma certa tendência para a retracção dos ísquiotibiais e tricípete sural. Porém, não é muito comum possuírem lordose lombar aumentada. Eventualmente, poderão ter alguma cifose, mas esta pode ter múltiplas origens... Por outro lado, olhemos para as ginastas e a grande maioria das professoras de fitness. É muito comum vermos estas atletas passearem o seu corpo como se fossem modelos, exibindo a sua coluna profundamente “direita” ou “recta”. “Que boa postura que tenho!”, pensará esta atleta e todos os que para ela olham; e isto pelo simples facto de permanecer “direita”. Pena é que tal endireitamento signifique tudo menos uma boa postura, pois o que existe verdadeiramente é uma lordose excessiva a nível lombar e também a nível dorsal (provocando rectificação desta parte da coluna, assim como da cervical por compensação). Ora, minhas caras professoras de fitness, as mesmas que conseguem perfeitamente levar as mãos aos pés com as pernas esticadas e ultrapassar esse nível, saibam vocês que também vós sois retraídas. Estas atletas possuem retracção da parte superior da cadeia muscular posterior. E os primeiros de que falei, esses possuem uma retracção da parte inferior...
E é sempre assim que as coisas tendem a acontecer. Uma retracção da parte superior da cadeia muscular posterior tende a libertar a parte inferior da cadeia e vice-versa. Grande parte dos que não conseguem chegar com as mãos aos pés no teste Sit and Reach possuem uma retracção dos ísquiotibiais e, eventualmente, da banda íliotibial. Estas estruturas, quando retraídas, roubam o espaço de manobra funcional. Por outro lado, as retracções ao nível do ráquis roubam mobilidade à coluna, dificultando, por exemplo, a descida no Shoulder Bridge do Pilates, mas raramente impedem a chegada das mãos aos pés, sendo que este trajecto é feito fundamentalmente à custa da distensão dos ísquiotibiais.
Há, ainda, a somar o facto de que o alongamento da musculatura da coluna produz muito menos dor do que o alongamento dos ísquiotibiais, o que é explicado pela natureza da musculatura (a cadeia muscular posterior superior é constituída por uma miríade de pequenos músculos paravertebrais, sendo que o seu alongamento global, por maior que seja, produzirá pouco alongamento a nível muscular individual; já a cadeia muscular posterior inferior é constituída por muito menos músculos, sofrendo cada um deles proporcionalmente uma grande distensão aquando do alongamento); isto faz com que qualquer alongamento global da cadeia posterior, mesmo em pessoas com grande flexibilidade dos ísquiotibiais e lordose lombar/dorsal, seja sentida quase sempre na região popliteia.
Percebemos, então, que o comprimento excessivo da parte superior da cadeia muscular posterior tende a ser compensado com o encurtamento da parte inferior e vice-versa. Isto também poderá significar que, em casos muito particulares, a pessoa criou outro género de compensação. Por exemplo, aquando da minha formação em Mézières, o meu mestre Jean-Marie Drouard viu e mostrou uma doente que sentia dores a nível cervical e dificuldades de deglutição, sendo que, de resto, parecia ser completamente flexível (aliás, a doente era bailarina). Rapidamente, o formador percebeu que a retracção se encontrava ao nível da língua; no tratamento trabalhou a respiração com enfoque na expiração, ao mesmo tempo que puxava pela língua da bailarina como se a quisesse arrancar suavemente. O efeito foi espantoso, principalmente na fala da doente. Percebemos também qual a causa deste encurtamento tão específico: uma vida inteira a forçar o corpo ao alongamento rápido e intensivo.
Ora, eis que chegamos a um ponto fundamental da nossa discussão. Se é importante trabalhar a flexibilidade da cadeia posterior, será que o treino de flexibilidade não poderá provocar determinadas deformidades, se mal orientado? A resposta é Sim! O trabalho de flexibilidade deve ser realizado lentamente e sem tensão excessiva, ao longo do tempo, e sempre de forma global, incluindo toda uma cadeia. Se tal não acontecer, ao se realizar o alongamento (analítico), estamos apenas a transportar a retracção de um para outro lado da cadeia muscular. Daí que não seja estranho que várias pessoas verifiquem um aumento da lordose lombar ou aparecimento de uma rectificação dorsal depois de meses a trabalharem a flexibilidade dos ísquiotibiais. As pessoas associam esta transformação à melhoria postural, mas eis que o mais importante ficou por compreender: não houve verdadeiramente qualquer aumento de flexibilidade, houve apenas um transporte de um encurtamento de um para outro lado da cadeia muscular.
Aumentos significativos e verdadeiros da flexibilidade muscular são sempre muito difíceis de se obter, pois o corpo tem uma tendência enorme para se proteger dos estados de tensão. O que devemos fazer então? Devemos alongar sempre em “campo fechado” (Souchard), ou seja, em cadeia muscular, fechando os seus extremos, mantendo a respiração plena com enfoque na expiração, e uma atenção sempre presente relativamente ao aparecimento de compensações.
Por outro lado, conseguindo alongar completamente a cadeia posterior, é possível que a tal “compensação lordótica” viaje para o diafragma ou a cadeia anterior. Como o contrário dificilmente se verifica, então é possível conceber o plano mais eficaz de stretching global, o qual consiste no alongamento das cadeias pela seguinte ordem: cadeia inspiratória (o alongamento diafragmático tem de estar sempre presente) »» cadeia anterior (consequência) »» cadeia posterior (parte superior »» parte inferior).
Para finalizar, não devemos deixar de dizer que este género de compensações e/ou equilíbrio está presente, de uma forma mais ou menos idiossincrática, em todas as pessoas. Passo agora a uma citação da obra de Bertherat “Le corps a ses raisons”:
«Para corrigir as nossas fealdades importa, pois, corrigir os nossos pontos rígidos.
Ainda céptico, um dos estagiários julgou ter encontrado uma falha na teoria.
- Tudo isso é muito interessante, mas como explica o problema dos indivíduos demasiado flexíveis. A hiperlassidão existe, como sabe.
Françoise Mézières exibiu um sorriso malicioso.
- A hiperlassidão, meu amigo, só existe nos dicionários. Na vida real, nunca houve uma pessoa excessivamente flexível. - E, antes que o estagiário pudesse protestar, acrescentou: - Não tardará a ter a prova disso.
Com efeito, poucas horas depois, ela recebia diante de nós uma rapariga de quinze anos, que se fazia acompanhar do seguinte diagnóstico médico: hiperlassidão, com fragilidade de ligamentos.
E, rindo, a moça mostrou-nos os cotovelos, que giravam de forma preocupante. De pé, observada de perfil, as pernas pareciam igualmente ter deslizado nas suas articulações. Os joelhos eram em recurvatum, ou seja, as rótulas pareciam ter recuado, impelindo o joelho para trás.
Françoise Mézières indicou-lhe que se inclinasse para a frente e ela, aparentemente com a maior facilidade, pousou as palmas das mãos estendidas no chão. Até quase podia pousar os cotovelos. Todavia, a rotação interna dos joelhos era impressionante: as rótulas, em vez de se voltarem para a frente, convergiam.
Em seguida, a rapariga deitou-se de costas e Françoise Mézières, auxiliada por dois estagiários empenhou-se em alongar os músculos posteriores, tornando-se necessário um esforço pronunciado para obter uma desrotação dos joelhos. Os adutores estavam encolhidos e duros como cabos de aço. “Detesto pôr-me em fato de banho por causa deste vazio entre as coxas”, confessou a moça.
Quando, por fim, se conseguiu o alongamento dos músculos posteriores e, em resultado disso, a desrotação dos joelhos, verificámos que lhe era impossível alongar pé. A rigidez dos músculos posteriores da perna não o permitia. Deparava-se-nos, por conseguinte, rigidez após rigidez. Onde se encontrava o anunciado excesso de flexibilidade?»

quinta-feira, novembro 30, 2006

Ainda o Pilates

O Pilates é e continua sempre a ser um dos assuntos que mais me interessam e me despertam. Recentemente, várias pessoas têm dirigido comentários acerca dos meus artigos e de certas coisas que defendo. É complexo o assunto de se a coluna deve permanecer neutra ou, então, em retroversão aquando do treino de Pilates. Eu defendo mais a última do que a primeira, apesar de muita da fisioterapia é praticada com a coluna neutra. Quanto à minha defesa de que os fisioterapeutas são os únicos que devem exercer o Pilates, no fundo o que quero dizer é que o Pilates só deve ser “professado” por quem percebe da coisa, por quem é criativo, por quem “chega lá”; isto inclui muitos não fisioterapeutas e, inclusive, exclui vários fisioterapeutas ignotos. Quanto à formação, muitos fisioterapeutas me questionam se as formações de Pilates que têm sido realizadas só para fisioterapeutas são ou não de qualidade. A minha resposta é simplesmente “não sei”, pois nunca realizei qualquer dessas formações. Porém, essas mesmas formações estão ligadas a uma escola muito específica de Pilates (prefiro não dizer o nome, pois não tenho a certeza). E o que os fisioterapeutas (e não só) devem ter em consideração é que há muitas escolas de Pilates (ex.: Pilates Studio, Stott Pilates, Pilates Institute, Power Pilates, etc.). Por favor, informem-se dos princípios por que se rege a vossa escola. Por exemplo, a Stott Pilates é uma escola tradicional que realiza um Pilates com permissão de um nível de esforço e de certas compensações, com as quais eu não concordo (é provável que esses cursos que por aí se estão a fazer correspondam à adaptação à saúde e reabilitação da prática destas escolas). O Pilates Institute, onde realizei a minha formação, é uma escola moderna, em que é controlado o nível de esforço realizado e as compensações não são permitidas em absoluto. É, portanto, uma escola já por si adaptada aos problemas dos indivíduos. Por outro lado, enquanto que no Pilates Institute se defende que a coluna deve permanecer neutra, nas escolas clássicas defendem que a coluna deve permanecer completamente apoiada no colchão (ou seja, em retroversão), e eu defendo este último princípio das escolas clássicas. Há uns dias, falei com a Ana Luís do Pilates Institute e discutimos algumas destas questões. Ela defende que as escolas devem definir bem as suas diferenças, e o instrutor deve afincar bem os princípios da escola em que se formou; ou seja, as fronteiras devem estar bem definidas. Eu não concordei em absoluto, e eu, em especial estou a dar aulas de Pilates, em que misturo princípios de escolas diferentes. Pode ser um erro, mas é uma opção metodológica minha...

Corpo e Consciência (George Courchinoux)

Não podemos falar de reeducação postural, Pilates, assim como trabalho holístico, sem falarmos da sempre impartível ligação corpo-mente. Quem conhece, por exemplo, os paradigmas da relaxação psicossomática e da psicomotricidade, sabe que a esfera corpórea e a esfera mental são perfeitamente indissolúveis. Quem pratica Pilates sabe que a concentração é fundamental para o trabalho resultar. Muitas vezes, não me senti bem nas aulas pelo simples facto de estar ansioso ou a laborar em ruminações obsessivas. Por outro lado, quando completamente concentrado, pude desligar-me do mundo exterior e entregar-me à maravilha da “consciência corporal”.
O método “Corpo e Consciência”, que muitos profissionais de saúde e motricidade desconhecem, é particularmente eficaz nos termos do modelo anteriormente elucidado. O criador do método, George Courchinoux, foi grandemente influenciado pelos princípios do método Mézières (aliás, ele estudou e praticou RPG com o próprio Souchard). Para além disso, era sofrólogo (e para quem não sabe, a sofrologia, criada por Caycedo, corresponde a um método austero de treino fenomenológico de integração da sensação corporal, com abertura plena ao Self, e impressão experiencial no inconsciente), e tinha igualmente conhecimento das medicinas de reorganização energética (neste contexto, os conceitos de Ying e Yang, e o conhecimento dos meridianos, laboraram numa eficacidade metodológica única).
O método “Corpo e Consciência” resulta, portanto, da súmula dos métodos RPG, sofrologia e princípios das medicinas orientais. É fundamentalmente um trabalho de grupo, realizado com fins fundamentalmente (psico)terapêuticos.
O método, também denominado de “Ginástica doce e global”, parte de quatro grandes princípios: equilíbrio e harmonização, conhecimento de si, ajuste postural e reorganização energética. O trabalho desenvolvido é diferente consoante as estações do ano, sendo que varia o conjunto dos alongamentos realizados, assim como as estruturas massajadas e reequilibradas.  

quarta-feira, novembro 29, 2006

Fisioterapia e a “Caixa da Previdência”

Dias bem negros se aproximam dos utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Mas será que serão assim tão negros?... Dias bem complexos irão ser os dos utentes da “Caixa da Previdência”, mas não serão dias necessários?... Questões que vão surgindo na nossa mente, questões sem resposta a curto prazo, mas a que a conjuntura rapidamente responderá num curto termo. Refiro-me fundamentalmente à virtualidade de o Estado deixar de comparticipar a fisioterapia nas clínicas particulares. Refiro-me a essa tão grande transformação, a essa tão grande revolução que parece ser inequivocamente irreversível (e necessária).
Questão: quais são as desvantagens directas e aparentes decorrentes do facto de o Estado deixar de comparticipar a fisioterapia em clínicas privadas? A desvantagem directa prende-se com todos aqueles que necessitam destes cuidados e não têm forma alguma de o pagarem pelos seus meios. O outro grande inconveniente prende-se no futuro profissional dos profissionais de saúde e reabilitação. Que será dos profissionais que trabalham nas clínicas fortemente dependentes do dinheiro das credenciais do Estado?... Provavelmente, muitas cabeças irão rolar...
Questão: quais as vantagens, eventualmente menos aparentes, decorrentes do facto de o Estado deixar de comparticipar a fisioterapia em clínicas privadas? Na verdade, as vantagens são muitas; a realidade é a de que aquilo que parece vir a ocorrer em termos das comparticipações afigura-se como a única solução credível para o desenvolvimento dos serviços de saúde e para colocar termo à iniquidade das clínicas que por aí abundam.
Se a fisioterapia deixa de ser paga pelo Estado, concebe-se que toda aquela parte do povo mais jovem e bem provido financeiramente que usa e abusa das credenciais passe a pagar pela sua saúde. É a lógica absoluta a funcionar: as pessoas pagam pela saúde a que têm direito... tal como acontece no contexto de tantos outros serviços de saúde, de tantos outros países ocidentais. Concebe-se que muitos destes utentes passem a comportar-se como utilizadores responsáveis dos serviços de saúde e como “clientes” que exigem resultados em termos terapêuticos, e não a prossecução infindável de tratamentos sem qualquer eficácia (ou de eficácia efémera).
Por seu lado, as clínicas deixarão de perspectivar os fisioterapeutas (assim como outros profissionais) como trabalhadores manuais que vão servindo a manchete do sistema, fingindo que tratam doentes, quando na realidade estão apenas a “dar de comer a vários porcos e galinhas, que teimam em encher a quinta”. As clínicas terão de apostar na qualidade e não na quantidade. E aí, a inteligência e a capacidade do terapeuta passarão a contar! Aí, passará a haver um verdadeiro clima de necessária competitividade, em termos de qualidade, em termos das diversas clínicas existentes e dos profissionais que lhes dão nome. Aí, a saúde passará a constituir um terreno em que será exigida qualidade, e em que a relação custo-benefício será verdadeiramente levada em linha de conta. E os bons profissionais que necessariamente demarcarão os seus lugares nos serviços competitivos terão, logicamente, de ser reavaliados em termos das suas qualificações e rendimentos.
Só espero que aquela massa de utilizadores do SNS que não tem realmente dinheiro para pagar a fisioterapia possa ter acesso à fisioterapia do Estado, realizada com qualidade e entre-ajuda, nos hospitais e centros de saúde.
E só espero que, de uma vez por todas, este Governo se lembre de apostar nos cuidados preventivos e numa abordagem de cerne comunitário e de perfil preventivo. Já está na hora de apostarmos fortemente nos cuidados primários em centros de saúde.
Nota: texto publicado em Cartas ao Director do Público, dia 03/12/2006

quinta-feira, novembro 09, 2006

Injustiças na vida de um fisioterapeuta

Para o tipo de formação que os fisioterapeutas possuem, não posso deixar de afirmar que a grande maioria dos fisioterapeutas do “mercado” permanece mal empregue no tipo de trabalho que desenvolvem. Pelo o que tenho visto, os fisioterapeutas são maioritariamente a mais bem preparada classe de profissionais para lidar com a problemática do movimento, independentemente de falarmos da inserção dos mesmos num contexto clínico ou desportivo. Certos desportos, se não todos os desportos, poderiam ser ensinados por fisioterapeutas. Mas, na realidade, os mais mal preparados professores de educação física e/ou fitness dão as diversas classes de actividades motrizes, ganhando o dobro ou o triplo do que ganha um fisioterapeuta.
Reparemos no seguinte: como professor de Pilates, ganho cerca de 15 a 20 euros numa hora. Canso menos a minha coluna, esgoto-me muito menos fisicamente. Como fisioterapeuta a dar classes a pessoas com problemas e que precisam de uma atenção muito mais personalizada, ganho no máximo 10 euros (e ganho bem para fisioterapeuta). Em certas clínicas, os fisioterapeutas têm de tratar, por meio do exercício e de actividades funcionais, vários doentes ao mesmo tempo, esgotando o físico e os meandros do raciocínio clínico, sendo que ganham por hora, muitas vezes, só sete ou oito euros. E a tendência é para que os fisioterapeutas ganhem cada vez menos, sejam cada vez menos valorizados como profissionais autónomos e inteligentes, e continuem a ser vistos como “massagistas” e não como profissionais do movimento. Bem me podiam explicar para quê aprender tanta anatomia, tanta biomecânica... tanto esforço realizado no curso base... e tão pouco reconhecimento, tão poucos ganhos, tanta injustiça!
E os fisioterapeutas, ainda assim, permanecem agarrados às suas concepções éticas de um doente na sua “unicidade”, evitando trabalhar em ginásios, dando aulas de Pilates ou outras actividades. Não tenho dúvidas de que consigo acompanhar melhor os meus doentes/clientes das classes através dos seus exercícios do que os múltiplos doentes “individuais” em contexto de clínica particular.
E o que está a acontecer é que cada vez mais os professores de educação física e os instrutores de fitness se agarram ao trabalho grupal com um fim propedêutico e terapêutico, enquanto que os terapeutas permanecem no seu trabalho clínico falsamente personalizado. Será que há assim tantas diferenças entre um personal training de Pilates de um instrutor e um tratamento individualizado clássico de fisioterapia para a coluna (subentendendo que o Pilates lá está presente não como fitness mas como método de “tratamento”)? Apenas que no primeiro caso o "cliente" nos paga bem caro e não se queixa, enquanto que no segundo caso o "doente" nos paga bem menos (isto na sorte de ser um doente particular) e tem sempre tendência para se queixar.
As pessoas gostam de se sentir treinadas, não tratadas. Tratamentos é com o osteopata, que isso é que está na moda! Fisioterapia são os calores húmidos e as massagens que aquelas “meninas” dão aos velhos. Pilates é uma “ginástica”, não é fisioterapia.
Tantas ilusões, meras particularidades semânticas e psicologistas!
Os fisioterapeutas só vão conseguir progredir por meio de uma verdadeira “revolução” das mentes dos utilizadores tanto dos serviços de saúde como do fitness. E eis que surge a necessidade de impormos a nossa actividade no seio dos ambientes desportivos, como professores de Pilates, de stretching, de relaxamento psicossomático, e de outras actividades que não entendo como ginástica, mas mais como antiginástica, ao jeito formoso de Bertherat.
Faça-se justiça às nossas formações e às nossas capacidades. Lutemos contra os conflitos de interesse e mostremos que os fisioterapeutas são os profissionais mais capazes para o domínio do trabalho da motricidade aplicada à saúde. Não continuemos a permitir que qualquer instrutor, senão mesmo aquele sujeito que tirou um curso qualquer de fitness à candonga sem possuir um curso superior na área da saúde + motricidade, nos tire o lugar que seria muito mais lógico ser nosso. Não continuemos a ser estúpidos e a pensar que a fisioterapia só se realiza na marquesa da clínica ou hospital. Essa “fisioterapia”, a avaliar pela forma como as coisas estão a andar, tem os dias contados!... Rogo para que conquisteis o mercado "desportivo", lutando contra o clássico conceito de fitness e impondo a nossa visão reeducativa como a grande panaceia de trabalho (psico)físico.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Síndroma da Deficiência Postural


Sabemos todos que existe uma certa tendência para que, numa fase mais ou menos precisa da vida pública nacional, uma certa maleita sofra de um processo de inflação galopante e mediática. É indubitável que o Síndroma da Deficiência Postural, considerada como causa de 10% das dificuldades de aprendizagem em idade escolar, constitui um exemplo de um certo efeito de moda.
Não quero com isto dizer que devamos desvalorizar a relação simbiótica entre corpo e mente que a psicomotricidade e a psico-neurologia muito especificamente têm relevado. Mas, por vezes, exagera-se no cômputo de determinadas perturbações.
Ainda assim, não há dúvidas de que muitos dos problemas de aprendizagem, incluindo a dislexia de desenvolvimento, têm origem numa deformação do esquema corporal, aliás um défice do sistema proprioceptivo. E se a postura está tão dependente do trabalho do sistema nervoso, não podemos negligenciar o papel dos receptores da sensação corporal. No Síndroma da Deficiência Postural, parece haver sempre algum género de perturbação do sistema proprioceptivo, criador de problemas de ordem cerebral, os quais se relacionam com as disfunções cognitivas relacionadas aos problemas de aprendizagem.
O diagnóstico “Síndroma da Deficiência Postural”, associado à escola de Lisboa e ao nome do fisiatra Martins da Cunha é caracterizado por uma série de factores cognitivos. Segundo Alves da Silva, são eles os seguintes: 1) défice de convergência tónica, 2) presença de escotomas, 3) alterações de memória, 4) problemas de concentração, 5) problemas de interpretação, 6) hiperactividade, 7) presença de erros de localização espacial, 8) perda de auto-estima, 9) perturbações de processamento do texto e 10) défice de percepção auditiva.
Os critérios gerais de diagnóstico de Síndroma da Deficiência Postural incluem: a) sintomas cardinais – dor (especificamente raquialgias); perturbações do equilíbrio; alterações da percepção visual; perturbações da somatognósia; b) uma semiologia física característica, podendo incluir: assimetria facial, adopção de uma direcção preferencial do olhar com insuficiência da convergência tónica ocular, e adopção de uma atitude postural cifoescoliótica estereotipada assimétrica, com rotação axial e apoio privilegiado sobre um pé.
O tratamento passa por medidas que envolvem a mudança da mochila, a utilização de calçado apropriado que permita o máximo contacto do pé com o solo, a utilização de vestuário largo, a utilização de mobiliário escolar apropriado que permita a manutenção do equilíbrio das cadeias musculares e a utilização de um colchão apropriado, mas sobretudo pela utilização de lentes prismáticas posturais, pela reprogramação postural (incluindo o trabalho proprioceptivo, as técnicas de consciencialização corporal, a reeducação postural por meio do alongamento global e integração de sensações, e a utilização de palmilhas de reprogramação postural) e a utilização de técnicas psicopedagógicas específicas e adaptadas às dificuldades existentes.
Reparemos que a boa saúde do sistema proprioceptivo está dependente do bom equilíbrio existente entre as cadeias musculares, ou seja, da existência e promoção de uma “morfologia perfeita” (Mézières). O relaxamento muscular é também um dos grandes epítomes de intervenção no respeitante às estratégias de reprogramação postural.
O Síndroma da Deficiência Postural vem mais uma vez lembrar-nos a importância do sistema neurológico nas questões da postura. Ao contrário do que alguns pensam, também os métodos de reeducação postural centrados no alongamento têm como objecto fundamental a integração de um novo esquema corporal, a integração proprioceptiva. Aliás, mesmo no Pilates costuma-se dizer que o mais importante é o conjunto das “sensações” que podemos propiciar aos indivíduos. A anti-ginástica de Bertherat e o método de Courchinoux são igualmente exímios neste tipo de trabalho, aliás modelos do trabalho de integração proprioceptiva.Com tantos recursos existentes na fisioterapia menos convencional, é incrível como a maioria dos casos de Síndroma da Deficiência Postural não passem pelos fisioterapeutas, sendo que, muitas vezes, as actividades de reprogramação postural são realizadas por educadores, entre outros profissionais com uma formação pouca expressiva em termos de métodos psico-corporais.

Le corps a ses raisons

"Dê saúde ao seu corpo: a saúde pela antiginástica" é o infeliz título em português da obra de Bertherat "Le corps a ses raisons". Nesta obra, Thérèse Bertherat explana o fundamental sobre o método Mézières, incluindo a sua descoberta do método e os principais princípios do mesmo. "Le corps a ses raisons" vendeu milhões de cópias a nível mundial e terá sido provavelmente a mais conseguida acção de divulgação do método Mézières. Infelizmente, os princípios mézièristas ainda não vingaram completamente e são pouco conhecidos mesmo entre os fisioterapeutas. Daí que seja tão triste a obra de Bertherat estar simplesmente esquecida; e ainda mais triste é ter comprado a respectiva relíquia em português por apenas dois euros, através de um site de livros usados. Como seria bom divulgar esta obra, dá-la a conhecer aos diversos fisioterapeutas que por aí abundam...

sábado, outubro 28, 2006

Stretching Global Activo

O Stretching Global Activo é a consequência mais óbvia do RPG. Se o indivíduo na sua unicidade é apanágio do método Mézières, o RPG já tinha a tendência para se fixar em posturas determinadas e regras de certo especificadas. A evolução do método para o trabalho grupal de posturas era óbvio, até porque já várias outras pessoas tinham feito passagem semelhante (ex. anti-ginástica de Bertherat... um dia destes, escrevo um artigo sobre o método).


















O sempre belo RPG (Reeducação Postural Global)






rã no ar (abertura ou fecho de braços)


















postura sentada






rã no chão (abertura ou fecho de braços)










De pé, inclinado à frente (bailarina)



Resumamos as coisas da seguinte maneira: o RPG de Souchard pouco acrescenta ao Mézières em termos de filosofia de intervenção. De certa maneira, até tira uma certa "personalidade" e autonomia ao método, pois torna tudo muito mais regrado e ajustado a grupos.
O RPG é a vertente comercial de Mézières. Até as suas posturas são mais comerciais e politicamente correctas: são todas feitas com extremo alinhamento raquidiano. Nem sempre esse alinhamento é vantajoso...

As posturas GDS

"A estrutura governa a função e submete o psiquismo"
Godelieve Denys-Struyf, in "Cadeias musculares e articulares"
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Quem já ouviu falar de Godelieve Denys-Struyf? Provavelmente poucas pessoas. Esta retratista e fisioterapeuta francesa estudou e escreveu sobre o método Mézières e, mais tarde, concebeu uma visão ainda mais apurada da postura, da morfologia e dos traços psicológicos e personalísticos associados a cada estrutura postural (morfopsicologia). O método GDS não é tanto um método de tratamento; é mais uma visão avaliativa e integrativa única que vê o sujeito e a sua morfologia de uma forma verdadeiramente holística (e aqui a utilização desta palavra não é gratuita). As 5, aliás 6 estruturas concebidas por Godelieve devem ser vistas como modelos e também de forma integrativa. Cada uma encarna um "modo de ser", um "modo de estar", um "modo de funcionar", um padrão de activação psiconeurológica e uma gestalt única de conflitos inconscientes, no sentido verdadeiramente psicanalítico do termo.








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De seguida, reproduzo um texto, adiantando uma espécie de pré-publicação de algo que provavelmente virá a sair numa revista

Cadeias musculares e articulares. O método de Godelieve Denys-Struyf

Desde tempos arcaicos, nomeadamente desde os tempos da pólis grega, registou-se sempre um esforço constante pelo estabelecimento de tipos corporais e temperamentais. A concepção de Hipócrates assentava na existência de “humores” fundamentais – de que falariam mais tarde os médicos de Molière –, os quais eram o sangue (tipo sanguíneo), a linfa (tipo linfático ou fleumático), a bílis (tipo bilioso ou colérico) e a bílis negra (tipo melancólico).
A morfologia viria a estabelecer-se como ciência apenas por volta dos finais do século XIX, pela mão de diversos nomes como o de Sigaud, Mac Auliffe, Pende e Viola. Mas os dois grandes senhores da ciência da tipologia morfológica viriam a ser Kretschmer e Sheldon. Do primeiro sai uma classificação resultante nos tipos pícnico (pequeno e cheio; expansivo, alegre e realista), leptosómico (alto e magro; reservado, frio e meditativo), atlético (impulsivo e colérico) e displásico (mal desenvolvido e/ou com anomalias; dono de sentimentos de inferioridade), enquanto que do segundo sai a clássica classificação tripartida de endomorfismo, ectomorfismo e mesomorfismo.
Aparte a óbvia limitação das citadas classificações, principalmente enquanto modelos teoréticos da personalidade, muitas das teorias supracitadas contribuíram para a edificação de uma forma de ver o corpo como estrutura indissociável da mente. Assim sendo, o conceito de morfopsicologia tem precisamente o seu sentido no facto de muitos dos nossos temperamentos estarem estritamente ligados a caracteres de índole física.
Cabe ter em conta que a postura corporal está dependente de um número incomensurável de factores, nomeadamente factores ósseos e hereditários, o equilíbrio das cadeias musculares, factores de ordem psiconeurológica, assim como certos traços de personalidade e características do self.
Qualquer tentativa de perceber, avaliar e/ou moldar a postura de um indivíduo passa pela necessária perspectivação multifactorial dessa mesma atitude postural. Uma visão redutora leva, portanto, a resultados terapêuticos insignificantes. E as visões redutoras são inúmeras: o modelo médico encara a postura como um conjunto de caracteres ósseos irredutíveis, o modelo da posturologia pensa fundamentalmente na sensação corporal ou proprioceptividade, o método Mézières e a Reeducação Postural Global pensam sobretudo no modelo do equilíbrio das cadeias musculares, e outros métodos, como o Pilates, delongam-se no trabalho muscular profundo.
Uma visão verdadeiramente holística da postura corporal passa pelo necessário conhecimento dos diversos modelos de intervenção. Para além disso, não pode esquecer o papel dos factores psicológicos ou, melhor dizendo, psicossomáticos.
Neste contexto, uma retratista e fisioterapeuta bastante desconhecida dos cânones terapêuticos e académicos nacionais foi especialmente previdente no sentido de compreender a postura nas suas múltiplas variantes. Esta fisioterapeuta não criou sequer um tipo específico de intervenção. O seu método é mais uma forma global de ver a postura. Refiro-me ao método de Godelieve Denys-Struyf (GDS).
Apesar de valorizar a unicidade própria da idiossincrasia postural de cada pessoa, Godelieve Denys-Struyf não deixou de conceber uma classificação de estruturas psico-corporais, à luz de uma teoria de arquétipos. Ela concebeu a existência de cinco estruturas, uma dupla, portanto seis estruturas posturais, as quais dependeriam da cadeia muscular mais solicitada (posturas PM, AM, PA-AP, AL e PL).
A postura PM (póstero-mediana) é, provavelmente, uma das mais modelares estruturas posturais patológicas. Nesta estrutura, o equilíbrio adoptado impele o corpo para a frente, sendo que é a actividade dos músculos posteriores que garante a sustentação da atitude. É observável em todas aquelas pessoas que aparentam possuir umas costas bem esticadas, uma lordose geral facilmente verificável. É muito comum entre os atletas e os instrutores de fitness, os quais chegam a pensar que esta é uma postura louvável. Esta postura pode resultar de uma motivação e de uma escolha, sendo característica das pessoas que desejam possuir um grande controlo sobre a sua vida e a dos outros; é, no fundo, uma postura de combate defensivo, que favorece a ideação e a acção. O seu tratamento depende muito mais do que a inibição do seu padrão neuromuscular característico; eventualmente, na tentativa de contrariar a postura defensiva da pessoa, esta reage com ainda mais tensão, pois, no fundo, é a sua própria identidade que está em jogo. A solução parece estar na regularização das tensões, na modelagem. A musculação, algum Pilates e algum Yoga poderão agravar esta estrutura particular.
A postura AM (ântero-mediana) resulta da actividade dos grupos musculares anteriores, os quais garantem o suporte de um desequilíbrio para trás. Esta postura é extremamente característica, sendo que conjuga a hiperlordose lombar (excessivo arqueamento da coluna lombar) com uma compensatória hipercifose dorsal (inclinação anterior do tórax). As pessoas com a postura AM estruturada tendem a viver na espera, limitado o imprevisível. Se a postura é resultado de uma imposição, então ela releva de um problema de auto-estima, uma dificuldade na relação com o exterior, uma tendência ao fechamento e uma atitude de derrota. As opções terapêuticas variam consoante a natureza causativa da postura: a postura pode ser o resultado de uma “personalidade constitucional profunda e realizada”, pode resultar de uma “personalidade relacional ou de fachada” ou então pode ser o resultado de uma “personalidade adquirida mal vivida, em dificuldade”.
A dupla estrutura PA-AP (póstero-anterior – ântero-posterior) é aquela que mais se aproxima da estrutura de músculos profundos e anti-gravíticos, contribuindo, portanto, para a manutenção de determinado alinhamento vertebral e determinado padrão de achatamento articular. Esse achatamento é mínimo se existir um bom equilíbrio corporal. Por outro lado, se existir um fraco equilíbrio, criar-se-á um padrão específico de trabalho muscular profundo exagerado e desinibido, de modo a contrariar a tendência para a queda, criador de tensões e diminuidor da mobilidade articular. Uma atitude PA-AP não forçada, correcta, alinhada, rigorosa e, no entanto, flexível e agradável, constitui o padrão ideal, estando associado às personalidades mais flexíveis e assertivas. Em especial, a estrutura AP constitui uma espécie de estrela central de todas as outras estruturas, o eixo de todas as personalidades, representando uma personalidade lançada para a maturidade, para a liberdade responsável e consciente. A postura AP é aquela que precisa mais de ser preservada, pois é o padrão que permite a acção e a busca práxica da realização; é a estrutura que busca o devir, permitindo o confronto das forças depressivas da morte. A ginástica, o desporto em geral, a dança e as artes marciais, realizados num espírito lúdico e despreocupado, permitem o desabrochar da AP. Mas o seu desenvolvimento está também dependente do acolhimento da mãe AM, do apoio do pai PM e do suporte celestial PA.
Restam as estruturas secundárias AL (ântero-lateral) e PL (póstero-lateral), vistas nos planos frontal e horizontal (as cadeias mais dinâmicas e relacionais, semelhantes às cadeias cruzadas de Leopold Busquet). A primeira associa-se ao fechamento e à retracção, ao medo e à introversão. Já a segunda associa-se a um outro tipo de tensão, mais posterior, mas permite a abertura, a expansão e a extroversão (é este o tipo de cadeia que é mais trabalhada nas extensões, aberturas e torções do Yoga). Possivelmente, estas duas estruturas interagem no mesmo corpo; AL relacionada com a dominância do membro superior direito e PL relacionada com o apoio no membro inferior esquerdo (isto, claro, para os indivíduos destros). A dinâmica destas estruturas importa à compreensão de todas as assimetrias corporais, assim como das escolioses (desvio lateral da coluna vertebral).
Estas estruturas pertencem ao eixo horizontal, um eixo relacional, enquanto que as anteriores pertenciam ao eixo vertical da personalidade.
O trabalho global das “cadeias musculares e articulares” GDS impõe a sempre impartível relação do terapeuta com o doente e deste com o seu próprio corpo. O trabalho terapêutico deve partir da sempre necessária consciencialização da estrutura, de modo a perceber o seu dinamismo e a inverter alguns dos aspectos que caracterizam a sua patologia. E nunca devemos esquecer que todo o indivíduo é irredutível a uma tipologia, resultando o seu padrão postural e comportamental de uma combinação muito própria de elementos das diversas estruturas tratadas.