Nunca estive no Brasil. Como tal, tudo o que possa dizer sobre a fisioterapia no Brasil é pouco mais do que mera conjectura. Mas vem este texto a propósito da grande quantidade de formações na área da “Reeducação Postural” que se realizam e têm realizado, talvez com um certo marketing diabólico, nesse país sul-americano. Efectivamente, no Brasil, as formações de fisioterapia são inúmeras, e a motivação para a formação e a informação acerca da Fisioterapia é extremamente diversa. E é bom sublinhar que vale realmente a pena ver como a fisioterapia tanto evoluiu no Brasil. Inclusivamente, o facto de tudo ser considerado “Fisioterapia”, como a osteopatia e outras medicinas físicas não convencionais (tudo isto é visto no Brasil como “ramos” ou “especialidades” da fisioterapia), considero-o o “ideal” em termos metodológicos... O estatuto do fisioterapeuta e a autonomia do seu trabalho parecem-me anos luz mais evoluídos no Brasil do que aqui em Portugal. A Fisioterapia é vista como uma “matéria” universitária, digna de boa investigação. Isto, claro, no Brasil, talvez mais do que em muitos países europeus. Aqui em Portugal ainda vivemos na “idade da fogo”, na idade em que ainda estamos a tentar compreender como manter o “fogo” aceso sem que se apague. Não sei realmente muito acerca das saídas e oportunidades profissionais dos fisioterapeutas brasileiros, mas, pelo pouco que me tem sido dado a ver, parecem-me mais do que aquelas que temos em Portugal. Acabaria este texto dizendo a todos aqueles fisioterapeutas brasileiros que pensam vir trabalhar para Portugal (sei que não são poucos), desenganem-se acerca das nossas “oportunidades”. As coisas por aqui estão a ficar bem “negras”. E, com o pouco reconhecimento e a limitada esperteza dos nossos fisioterapeutas, não sei muito bem onde se vão colocar os novos dois ou três mil fisioterapeutas que se vão formar até 2010...
sábado, março 31, 2007
terça-feira, março 13, 2007
A Reconstrução Postural
O método da Reconstrução Postural constitui não só uma fonte de renovação metodológica relativamente a Mézières, mas também o resultado de um trabalho exploratório e casuístico muito significativo, o que só pode ser explicado pelo facto de o método ter sido desenvolvido num contexto académico, nomeadamente no contexto de formação base e pós-graduada da Universidade Louis Pasteur (Strasbourg, França).
A Reconstrução Postural difere do método Mézières em diversos aspectos, nomeadamente (Nisand, 1997; Jesel, 1999; Callens, 2004; Nisand, 2004): (a) Nisand descreve pormenorizadamente a cadeia anterior do pescoço, sendo que passamos a falar sobretudo de quatro grandes cadeias musculares: a grande cadeia posterior, a cadeia ântero-interna (diafragma e psoas), a cadeia braquial e a cadeia anterior do pescoço. (b) Propõe uma nova interpretação da lógica das compensações, salientando a importância de um conjunto de respostas neurológicas aquando do movimento (respostas evocadas) e o contributo dos centros neurológicos centrais para o surgimento das deformidades. Assim sendo, o tratamento passa não só pelo alongamento global das cadeias musculares, mas também pelo trabalho de consciencialização corporal com base na estimulação neuro-sensorial (ou seja, na modificação do padrão de excitabilidade muscular das cadeias posturais), de modo a que os alongamentos possuam um efeito de neuroplasticidade adaptativa eficaz e não só um efeito de modificabilidade temporária do tónus. (c) O método da Reconstrução Postural propõe uma outra forma de interpretar o aparecimento de dor. A dor não tem origem na própria deformidade, mas sim na incapacidade que a estrutura hipertónica tem de se deformar.
A partir destas diferenças, o método de tratamento por Mézières por meio do estiramento em “contracção isométrica excêntrica” transforma-se num meio de tratamento por “solicitação activa induzida” (Reconstrução Postural), ou seja, da postura trabalhada passivamente passa-se para um trabalho de carácter mais activo, mediante a facilitação de padrões de postura por meio de “pontos-chave” (veja-se a semelhança com os pontos-chave de controlo da abordagem neurofisiológica de Bobath), partes do corpo que são sujeitas a movimentos de grande amplitude com o objectivo de induzir ou solicitar determinado padrão postural. As posturas em Reconstrução Postural são obtidas, portanto, a partir de pontos periféricos precisos, e são mantidas não por tempos necessariamente muito prolongados (Mézières), mas até ao ponto em que se verifique a normalização tónica. O agravamento da dismorfia é, ao contrário do que ocorre com o método Mézières, uma condição obrigatória para se obter a postura normal, é um ponto de passagem para a obtenção de um padrão postural correcto.
Diferenças metodológicas levam a diferentes técnicas, sendo que muitas das manobras mézièristas foram modificadas ou suprimidas: o mézièrista tende a evitar todas as compensações, enquanto que o “reconstrutor” tende a lidar com todas as posturas que possam ser efectivas no sentido de se obter uma inibição do padrão; o mézièrista identifica a dismorfia como algo “anormal”, enquanto que o reconstrutor identifica a dismorfia como um ponto de passagem para a obtenção de um padrão postural vantajoso; o mézièrista tende a encontrar uma postura correctiva e a mantê-la o máximo de tempo possível, enquanto que o reconstrutor tende a manter a “postura” só até que exista extinção da resposta evocada (normalização tónica); as autoposturas são impensáveis na Reconstrução Postural, pois o próprio sujeito não consegue educar as suas próprias reacções tónicas correctivas; os proponentes da Reconstrução Postural não falam de “correcção morfológica” como os mézièristas, mas sim de “restauração morfológica”, a qual tem por base não o alongamento mio-fascial correctivo mas sim o alongamento com vista à normalização de padrões de activação tónica das cadeias musculares.
Em termos gerais, podemos referir que a Reconstrução Postural se apresenta como o método mais evoluído em matéria de metodologias de reeducação postural, ainda mais porque é o mais científico de todos os existentes. Vide a quantidade de artigos e investigações escritas, encontráveis no site citado num post anterior.
A Reconstrução Postural difere do método Mézières em diversos aspectos, nomeadamente (Nisand, 1997; Jesel, 1999; Callens, 2004; Nisand, 2004): (a) Nisand descreve pormenorizadamente a cadeia anterior do pescoço, sendo que passamos a falar sobretudo de quatro grandes cadeias musculares: a grande cadeia posterior, a cadeia ântero-interna (diafragma e psoas), a cadeia braquial e a cadeia anterior do pescoço. (b) Propõe uma nova interpretação da lógica das compensações, salientando a importância de um conjunto de respostas neurológicas aquando do movimento (respostas evocadas) e o contributo dos centros neurológicos centrais para o surgimento das deformidades. Assim sendo, o tratamento passa não só pelo alongamento global das cadeias musculares, mas também pelo trabalho de consciencialização corporal com base na estimulação neuro-sensorial (ou seja, na modificação do padrão de excitabilidade muscular das cadeias posturais), de modo a que os alongamentos possuam um efeito de neuroplasticidade adaptativa eficaz e não só um efeito de modificabilidade temporária do tónus. (c) O método da Reconstrução Postural propõe uma outra forma de interpretar o aparecimento de dor. A dor não tem origem na própria deformidade, mas sim na incapacidade que a estrutura hipertónica tem de se deformar.
A partir destas diferenças, o método de tratamento por Mézières por meio do estiramento em “contracção isométrica excêntrica” transforma-se num meio de tratamento por “solicitação activa induzida” (Reconstrução Postural), ou seja, da postura trabalhada passivamente passa-se para um trabalho de carácter mais activo, mediante a facilitação de padrões de postura por meio de “pontos-chave” (veja-se a semelhança com os pontos-chave de controlo da abordagem neurofisiológica de Bobath), partes do corpo que são sujeitas a movimentos de grande amplitude com o objectivo de induzir ou solicitar determinado padrão postural. As posturas em Reconstrução Postural são obtidas, portanto, a partir de pontos periféricos precisos, e são mantidas não por tempos necessariamente muito prolongados (Mézières), mas até ao ponto em que se verifique a normalização tónica. O agravamento da dismorfia é, ao contrário do que ocorre com o método Mézières, uma condição obrigatória para se obter a postura normal, é um ponto de passagem para a obtenção de um padrão postural correcto.
Diferenças metodológicas levam a diferentes técnicas, sendo que muitas das manobras mézièristas foram modificadas ou suprimidas: o mézièrista tende a evitar todas as compensações, enquanto que o “reconstrutor” tende a lidar com todas as posturas que possam ser efectivas no sentido de se obter uma inibição do padrão; o mézièrista identifica a dismorfia como algo “anormal”, enquanto que o reconstrutor identifica a dismorfia como um ponto de passagem para a obtenção de um padrão postural vantajoso; o mézièrista tende a encontrar uma postura correctiva e a mantê-la o máximo de tempo possível, enquanto que o reconstrutor tende a manter a “postura” só até que exista extinção da resposta evocada (normalização tónica); as autoposturas são impensáveis na Reconstrução Postural, pois o próprio sujeito não consegue educar as suas próprias reacções tónicas correctivas; os proponentes da Reconstrução Postural não falam de “correcção morfológica” como os mézièristas, mas sim de “restauração morfológica”, a qual tem por base não o alongamento mio-fascial correctivo mas sim o alongamento com vista à normalização de padrões de activação tónica das cadeias musculares.
Em termos gerais, podemos referir que a Reconstrução Postural se apresenta como o método mais evoluído em matéria de metodologias de reeducação postural, ainda mais porque é o mais científico de todos os existentes. Vide a quantidade de artigos e investigações escritas, encontráveis no site citado num post anterior.
Resta dizer, aliás sublinhar, que a Reconstrução Postural parece estar anos de luz mais evoluída que qualquer outro conceito de Reeducação Postural. É, na realidade, um verdadeiro método reeducativo, visto que integra funções de modulação a nível central (SNC). A Reconstrução Postural, tanto em termos metodológicos como em termos práticos, vai muito para além de Mézières ou do RPG. Porém, são poucos os que conhecem o método. Alguém saberá que para um fisioterapeuta ser "reconstrutor" tem de estar pelo menos três anos na Universidade Louis Pasteur? Peço, mais uma vez, que quem quer que esteja a ler este texto não deixe de visitar o site http://www.reconst-posturale.com e não deixe de procurar a parte relativa à bibliografia e também o local onde se apresentam dezenas de fotografias do antes e do depois relativos a meses ou anos de tratamento.
O método Mézières
A descoberta de um conjunto novo de leis fisiológicas que o método Mézières viria dar relevo enceta por uma história que cada mézièrista conhece bem (Mézières, 1965; Geismar, 1996; Nisand, 1996; Nisand & Geismar, 1996).
A própria Mézières conta (Mézières, 1965): “Quando numa magnífica manhã de primavera de 1947, nós vimos entrar no nosso consultório uma paciente apresentando uma soberba ‘cifose’, nós estávamos bem longe de pressentir que a nossa profissão e o destino de toda uma legião de doenças iam ser mudadas. Tratava-se de um sujeito longilíneo, muito alto e magro. Um colete de couro e ferro não havia conseguido parar, como esperado, a progressão da doença.”
Nesta época, a ginástica postural clássica era realizada com base nas leis fisiológicas que reforçam o papel do fortalecimento muscular. E foi esse mesmo tipo de trabalho que foi feito inicialmente com a doente. Mézières (1965) refere: “Nós tentámos, naturalmente, os exercícios de ‘endireitamento’ e o trabalho dos músculos dorsais com vista a fortalecer os extensores do dorso, mas a rigidez era tal que nada era possível realizar. Deitando, então, a nossa doente, no chão, em decúbito dorsal, nós realizámos a flexão dos ombros e vimos, para nosso espanto, produzir-se uma enorme lordose lombar. Para não acrescentar um mal à cifose já presente, nós realizámos a báscula posterior da bacia e, para nosso novo espanto, vimos a hiperlordose lombar esquivar-se e deslocar-se para a nuca.”
Depois de repetida várias vezes a experiência, Mézières e os colegas acabaram por admitir uma verdade que viria a ser anunciada como uma nova lei: que “todo o encurtamento parcial da musculatura posterior leva a um encurtamento de todo o conjunto desta musculatura” O que corresponde à noção de cadeia muscular, onde “toda a modificação de comprimento no sentido do alongamento ou no sentido do encurtamento de parte da musculatura tem repercussão sobre todo o conjunto”.
Françoise Mézières acrescenta: “Tanto que como o alongamento da musculatura lombar se traduzia pelo encurtamento da curvatura cervical, a lei é que o alongamento de um qualquer músculo posterior leva ao encurtamento do conjunto da musculatura posterior”. É o que costumamos de chamar de noção de compensação.
“Então, para esta paciente, nenhum músculo posterior era demasiadamente fraco ou longo, nem mesmo os da região cifosada; pelo contrário, todos estavam curtos, rígidos e fortes demais. O sujeito não era de forma alguma esmagado pela acção da gravidade, mas sim achatado pela sua própria força, a de seus músculos dorsais. Era preciso, ao invés de fortalecer esta musculatura, descontraí-la, alongando de uma ponta à outra da coluna vertebral, como se se tratasse de uma lordose.”
Actualmente sabemos que a “cadeia posterior”, identificada pela primeira vez por meio das observações de Mézières, inclui um comportamento dinâmico, o qual integra um conjunto muito avultado de estruturas musculares, como o diafragma e a musculatura anterior. Esse comportamento dinâmico integra um conjunto de inúmeras compensações, geradas por mecanismos protectores, sendo que estes são devidos ao reflexo anti-álgico à priori (Mézières, 1970, 1984). Assim sendo, sabemos actualmente que uma cifose pode ter origem em: (a) excessiva força ou tonicidade da musculatura dorsal, (b) compensação gravítica da lordose existente numa outra parte da cadeia muscular posterior, ou seja, a cifose é consequente da existência de uma parte retraída da musculatura posterior, (c) retracção da musculatura inspiratória acessória, em sinergia com a retracção da cadeia inspiratória ou diafragmática, e (d) retracção das cadeias musculares anteriores, encurtamento derivado da zona posterior e transportado pelo diafragma à zona anterior, na forma de uma ou mais compensações.
Entrámos, efectivamente, num conjunto de noções variadas que inicialmente Mézières não dominava. A fisioterapeuta resumia, efectivamente, as suas observações em duas partes: (1) a musculatura posterior comporta-se como um só músculo e (2) ela é sempre forte de mais, curta de mais, potente de mais. E, para os proponentes de Mézières, o princípio preliminar de que todas as deformações têm origem num encurtamento da musculatura posterior manteve-se incólume até à data.
Deve, também ser acrescentado que a própria Françoise Mézières terá cedo percebido que existia uma sinergia importante entre a musculatura posterior e o diafragma e os músculos rotadores internos das ancas.
Assim sendo, a desmontagem dos princípios far-se-ia na forma de um tripé de intervenção, com vista à harmonia muscular ou bela forma (considerada a morfologia perfeita, assente num conjunto de curvaturas vertebrais e eixos segmentários com expressão “normal”): deslordose, expiração e desrotação. Estes três princípios de tratamento são o que todos os métodos francófonos de reeducação postural têm mantido como base incólume de acção.
Geismar (1993) resume as bases científicas do método Mézières num conjunto de sete princípios, os quais iremos manter na linguagem original:
Primeiro princípio: «Tout vient de l’enraidissement des muscles postérieurs». Princípio considerado primacial, paradigma de todos os métodos ditos “mézièristas”. Por outro lado, tem sido diluída a sua importância por autores mais modernos (Souchard), que, como veremos mais tarde, podem não ter compreendido completamente o alcance do princípio.
Segundo princípio: «Il n’est que des lordoses; La lordose est responsable de la cyphose; Tout est compensation lordotique». Mais uma vez, um princípio fundamental, quase um pleonasmo relativamente ao anterior.
Terceiro princípio: «Solidarité du tronc et des membres; Influence de la rotation interne des membres». Este princípio anuncia uma das lógicas de sinergia muscular. Efectivamente, visto que os rotadores internos das ancas possuem uma inserção importante a nível lombar (principalmente o músculo psoas), eles aparecem retraídos na maioria dos casos de deformidade, e têm de ser vistos como característica inerente à “lordose”.
Quarto princípio: «Influence du blocage diaphragmatique». Mais um princípio relativo à lógica da sinergia muscular. O diafragma é um músculo lordosante, com poderosas inserções lombares. Por outro lado, relaciona-se, de forma sinérgica, com os músculos inspiratórios acessórios, os quais possuem inserção a nível cervical.
Quinto princípio: «Il n’est de bonne tenue de tête sans quadriceps». Este é um princípio relativo à importância de se fortalecer a musculatura dinâmica, na qual se inclui o músculo quadricípete.
Sexto princípio: «Des abdominaux». À semelhança do anterior, é um princípio que reforça a importância de se fortalecer os músculos abdominais (de natureza dinâmica), nomeadamente os músculos rectos e oblíquos.
Sétimo princípio: «Les effets des attitudes capitales». Princípio relacionado com a lógica das compensações e dos reflexos protectores.
Importante será referir que Mézières e os mézièristas sempre escreveram para os especialistas da área, e sempre num tom de ressalva tecnicista. Daí que muitos dos princípios de Mézières não tenham sido adequadamente traduzidos para uma linguagem mais globalizada e acessível. Os seus princípios ficaram efectivamente reservados a um conjunto particular de médicos e terapeutas. Para além disso, a natureza teorética e axiomática de certos princípios viria a ser afirmada de forma muitas vezes pouco científica e mal categorizada, o que fez com que muitas das bases teoréticas mais tarde laboriosamente elucidadas por Souchard tivessem permanecido mal explicadas até que o anterior autor as tivesse enunciado.
A própria Mézières conta (Mézières, 1965): “Quando numa magnífica manhã de primavera de 1947, nós vimos entrar no nosso consultório uma paciente apresentando uma soberba ‘cifose’, nós estávamos bem longe de pressentir que a nossa profissão e o destino de toda uma legião de doenças iam ser mudadas. Tratava-se de um sujeito longilíneo, muito alto e magro. Um colete de couro e ferro não havia conseguido parar, como esperado, a progressão da doença.”
Nesta época, a ginástica postural clássica era realizada com base nas leis fisiológicas que reforçam o papel do fortalecimento muscular. E foi esse mesmo tipo de trabalho que foi feito inicialmente com a doente. Mézières (1965) refere: “Nós tentámos, naturalmente, os exercícios de ‘endireitamento’ e o trabalho dos músculos dorsais com vista a fortalecer os extensores do dorso, mas a rigidez era tal que nada era possível realizar. Deitando, então, a nossa doente, no chão, em decúbito dorsal, nós realizámos a flexão dos ombros e vimos, para nosso espanto, produzir-se uma enorme lordose lombar. Para não acrescentar um mal à cifose já presente, nós realizámos a báscula posterior da bacia e, para nosso novo espanto, vimos a hiperlordose lombar esquivar-se e deslocar-se para a nuca.”
Depois de repetida várias vezes a experiência, Mézières e os colegas acabaram por admitir uma verdade que viria a ser anunciada como uma nova lei: que “todo o encurtamento parcial da musculatura posterior leva a um encurtamento de todo o conjunto desta musculatura” O que corresponde à noção de cadeia muscular, onde “toda a modificação de comprimento no sentido do alongamento ou no sentido do encurtamento de parte da musculatura tem repercussão sobre todo o conjunto”.
Françoise Mézières acrescenta: “Tanto que como o alongamento da musculatura lombar se traduzia pelo encurtamento da curvatura cervical, a lei é que o alongamento de um qualquer músculo posterior leva ao encurtamento do conjunto da musculatura posterior”. É o que costumamos de chamar de noção de compensação.
“Então, para esta paciente, nenhum músculo posterior era demasiadamente fraco ou longo, nem mesmo os da região cifosada; pelo contrário, todos estavam curtos, rígidos e fortes demais. O sujeito não era de forma alguma esmagado pela acção da gravidade, mas sim achatado pela sua própria força, a de seus músculos dorsais. Era preciso, ao invés de fortalecer esta musculatura, descontraí-la, alongando de uma ponta à outra da coluna vertebral, como se se tratasse de uma lordose.”
Actualmente sabemos que a “cadeia posterior”, identificada pela primeira vez por meio das observações de Mézières, inclui um comportamento dinâmico, o qual integra um conjunto muito avultado de estruturas musculares, como o diafragma e a musculatura anterior. Esse comportamento dinâmico integra um conjunto de inúmeras compensações, geradas por mecanismos protectores, sendo que estes são devidos ao reflexo anti-álgico à priori (Mézières, 1970, 1984). Assim sendo, sabemos actualmente que uma cifose pode ter origem em: (a) excessiva força ou tonicidade da musculatura dorsal, (b) compensação gravítica da lordose existente numa outra parte da cadeia muscular posterior, ou seja, a cifose é consequente da existência de uma parte retraída da musculatura posterior, (c) retracção da musculatura inspiratória acessória, em sinergia com a retracção da cadeia inspiratória ou diafragmática, e (d) retracção das cadeias musculares anteriores, encurtamento derivado da zona posterior e transportado pelo diafragma à zona anterior, na forma de uma ou mais compensações.
Entrámos, efectivamente, num conjunto de noções variadas que inicialmente Mézières não dominava. A fisioterapeuta resumia, efectivamente, as suas observações em duas partes: (1) a musculatura posterior comporta-se como um só músculo e (2) ela é sempre forte de mais, curta de mais, potente de mais. E, para os proponentes de Mézières, o princípio preliminar de que todas as deformações têm origem num encurtamento da musculatura posterior manteve-se incólume até à data.
Deve, também ser acrescentado que a própria Françoise Mézières terá cedo percebido que existia uma sinergia importante entre a musculatura posterior e o diafragma e os músculos rotadores internos das ancas.
Assim sendo, a desmontagem dos princípios far-se-ia na forma de um tripé de intervenção, com vista à harmonia muscular ou bela forma (considerada a morfologia perfeita, assente num conjunto de curvaturas vertebrais e eixos segmentários com expressão “normal”): deslordose, expiração e desrotação. Estes três princípios de tratamento são o que todos os métodos francófonos de reeducação postural têm mantido como base incólume de acção.
Geismar (1993) resume as bases científicas do método Mézières num conjunto de sete princípios, os quais iremos manter na linguagem original:
Primeiro princípio: «Tout vient de l’enraidissement des muscles postérieurs». Princípio considerado primacial, paradigma de todos os métodos ditos “mézièristas”. Por outro lado, tem sido diluída a sua importância por autores mais modernos (Souchard), que, como veremos mais tarde, podem não ter compreendido completamente o alcance do princípio.
Segundo princípio: «Il n’est que des lordoses; La lordose est responsable de la cyphose; Tout est compensation lordotique». Mais uma vez, um princípio fundamental, quase um pleonasmo relativamente ao anterior.
Terceiro princípio: «Solidarité du tronc et des membres; Influence de la rotation interne des membres». Este princípio anuncia uma das lógicas de sinergia muscular. Efectivamente, visto que os rotadores internos das ancas possuem uma inserção importante a nível lombar (principalmente o músculo psoas), eles aparecem retraídos na maioria dos casos de deformidade, e têm de ser vistos como característica inerente à “lordose”.
Quarto princípio: «Influence du blocage diaphragmatique». Mais um princípio relativo à lógica da sinergia muscular. O diafragma é um músculo lordosante, com poderosas inserções lombares. Por outro lado, relaciona-se, de forma sinérgica, com os músculos inspiratórios acessórios, os quais possuem inserção a nível cervical.
Quinto princípio: «Il n’est de bonne tenue de tête sans quadriceps». Este é um princípio relativo à importância de se fortalecer a musculatura dinâmica, na qual se inclui o músculo quadricípete.
Sexto princípio: «Des abdominaux». À semelhança do anterior, é um princípio que reforça a importância de se fortalecer os músculos abdominais (de natureza dinâmica), nomeadamente os músculos rectos e oblíquos.
Sétimo princípio: «Les effets des attitudes capitales». Princípio relacionado com a lógica das compensações e dos reflexos protectores.
Importante será referir que Mézières e os mézièristas sempre escreveram para os especialistas da área, e sempre num tom de ressalva tecnicista. Daí que muitos dos princípios de Mézières não tenham sido adequadamente traduzidos para uma linguagem mais globalizada e acessível. Os seus princípios ficaram efectivamente reservados a um conjunto particular de médicos e terapeutas. Para além disso, a natureza teorética e axiomática de certos princípios viria a ser afirmada de forma muitas vezes pouco científica e mal categorizada, o que fez com que muitas das bases teoréticas mais tarde laboriosamente elucidadas por Souchard tivessem permanecido mal explicadas até que o anterior autor as tivesse enunciado.
Publicado na revista "Saúde Actual", Maio de 2007
segunda-feira, março 12, 2007
A propósito da Reconstrução Postural
Estava eu a escrever um artigo sobre as "cadeias musculares", para publicação futura numa qualquer revista especializada, e tive a necessidade de consultar o site oficial sobre o método "Reconstrução Postural", de Nisand. Entretanto, dentro do site, descobri um link para aceder a uma "bibliografia". Meu Deus! Espanto dos espantos! Dezenas, várias dezenas de estudos, artigos, teses, livros sobre Mézières e a Reconstrução Postural... Imensos trabalhos científicos sobre Reeducação Postural, como nunca antes tinha visto. E pude dar conta de um conjunto incomensurável de dados sobre os métodos, trabalhos verdadeiramente científicos, que, muitas vezes, pensei não existir... mas existem!... só é pena nada disto estar publicado a nível internacional. Ou seja, não há nada mais urgente, se queremos verdadeiramente compreender a área, do que aprender francês e pisar solo francês. Visitem o site da Reconstrução Postural http://www.reconst-posturale.com e vão à parte relativa à Documentation - Bibliographie. Boas leituras!
sexta-feira, março 09, 2007
A culinária terapêutica: cadeias de movimento, diferentes paradigmas
Um erro teorético comummente conformado por muitos fisioterapeutas ou professores de fisioterapia consiste no acto de confundir o conceito de “cadeias musculares” de Souchard com o conceito de “cadeias musculares” de Busquet. Há quem se dê ao trabalho de comparar os dois conceitos ou métodos de intervenção. Quem efectua tal comparação tende a dizer que o método das “cadeias musculares” de Busquet representa uma inovação em comparação com o método de Souchard; que as “cadeias musculares” segundo Busquet incluem estruturas que as “cadeias” de Souchard não incluem, que o conceito de Busquet atinge auspícios que Souchard nunca imaginou. Ainda mais tende a dizer que o método de Busquet apresenta-se a anos de luz de distância do método Mézières, em termos de conceptualização.
Ora, não sei como é possível que tanta gente, o que inclui fisioterapeutas excelentemente formados em todos estes métodos, caia em tamanho engano. Comparar Souchard com Busquet é como comparar o músculo multifidus com a “massa comum”; é verdadeiramente comparar laranjas com maçãs. Os métodos são simplesmente incomparáveis, pois o conceito de “cadeia muscular” é diferente em ambos os métodos; se Souchard identificou diversas cadeias musculares posturais ou estáticas, Busquet identificou diversas cadeias musculares de natureza dinâmica. Para Busquet, a única cadeia muscular estática existente corresponde à cadeia posterior, aliás “cadeia estática posterior”. As suas cadeias “cruzadas”, “de flexão” e “de extensão” são cadeias de movimento e não estáticas. Como tal, Busquet afasta-se do conceito de “postura” ou de “reeducação postural”, sendo que o que ele efectivamente fez foi visualizar o corpo num historial de massas musculares intervenientes na função dinâmica. Acontece, então, que, em termos de “Postura”, Busquet não se afastou tanto de Mézières quanto Souchard: para ele, tudo está dependente da “cadeia estática posterior” (o que ele inteligentemente fez foi valorizar mais o papel das fáscias do que dos músculos propriamente ditos – uma evolução análoga ao conceito anglo-saxónico de “Trilhos anatómicos”), à semelhança do pressuposto no método Mézières. A partir do momento em que focamos as outras cadeias, saímos do conceito de “Postura” e entramos no de “Movimento”.
Claro que certos “intelectuais da fisioterapia” (conceito não meu, mas do excelente Paulo Araújo) podem sempre vir argumentar que “Postura” é na realidade um conjunto microscópico de inúmeros “movimentos”, oscilações e ajustes, ou que o “Movimento” é um todo que é mais do que a soma de diversas “posturas”, mas, excelências, convenhamos que o mais simples e parcimonioso é preferível à complexificação exagerada... Postura é Postura. Movimento é Movimento. Tal como uma laranja é diferente de uma maçã, apesar de ambas serem igualmente constituídas por átomos.
Mas, voltando a encarrilar no tema, devemos ter em conta que o conceito de “cadeias musculares dinâmicas” de Busquet ultrapassa grandemente a temática da “Postura”, para abraçar certas temáticas não muito dissemelhantes de certos “padrões de movimento”, que uns certos proponentes de Kabat ou de Bobath têm tantas e inúmeras vezes referido. Aqui chego ao ponto de me perguntar se haverá por aí muitos fisioterapeutas que reconhecem certas semelhanças no domínio de certos conceitos. É que só temos um mundo, apesar de tanta diversidade cultural. E em diferentes partes do mundo, o corpo não tende a funcionar de maneira diferente. Ora, então eis que proponho que os tais “intelectuais da fisioterapia” ousem comparar Busquet, fruto francófono, com o PNF, fruto americano, e com Bobath, fruto anglo-saxónico, e com o Tai-chi, fruto oriental. O prof. Paulo Araújo e a terapeuta Eva Albuquerque já fizeram a mesclagem PNF – Tai-chi... Será que outro alguém ousará fazer mais “truques de culinária”?...
Ora, não sei como é possível que tanta gente, o que inclui fisioterapeutas excelentemente formados em todos estes métodos, caia em tamanho engano. Comparar Souchard com Busquet é como comparar o músculo multifidus com a “massa comum”; é verdadeiramente comparar laranjas com maçãs. Os métodos são simplesmente incomparáveis, pois o conceito de “cadeia muscular” é diferente em ambos os métodos; se Souchard identificou diversas cadeias musculares posturais ou estáticas, Busquet identificou diversas cadeias musculares de natureza dinâmica. Para Busquet, a única cadeia muscular estática existente corresponde à cadeia posterior, aliás “cadeia estática posterior”. As suas cadeias “cruzadas”, “de flexão” e “de extensão” são cadeias de movimento e não estáticas. Como tal, Busquet afasta-se do conceito de “postura” ou de “reeducação postural”, sendo que o que ele efectivamente fez foi visualizar o corpo num historial de massas musculares intervenientes na função dinâmica. Acontece, então, que, em termos de “Postura”, Busquet não se afastou tanto de Mézières quanto Souchard: para ele, tudo está dependente da “cadeia estática posterior” (o que ele inteligentemente fez foi valorizar mais o papel das fáscias do que dos músculos propriamente ditos – uma evolução análoga ao conceito anglo-saxónico de “Trilhos anatómicos”), à semelhança do pressuposto no método Mézières. A partir do momento em que focamos as outras cadeias, saímos do conceito de “Postura” e entramos no de “Movimento”.
Claro que certos “intelectuais da fisioterapia” (conceito não meu, mas do excelente Paulo Araújo) podem sempre vir argumentar que “Postura” é na realidade um conjunto microscópico de inúmeros “movimentos”, oscilações e ajustes, ou que o “Movimento” é um todo que é mais do que a soma de diversas “posturas”, mas, excelências, convenhamos que o mais simples e parcimonioso é preferível à complexificação exagerada... Postura é Postura. Movimento é Movimento. Tal como uma laranja é diferente de uma maçã, apesar de ambas serem igualmente constituídas por átomos.
Mas, voltando a encarrilar no tema, devemos ter em conta que o conceito de “cadeias musculares dinâmicas” de Busquet ultrapassa grandemente a temática da “Postura”, para abraçar certas temáticas não muito dissemelhantes de certos “padrões de movimento”, que uns certos proponentes de Kabat ou de Bobath têm tantas e inúmeras vezes referido. Aqui chego ao ponto de me perguntar se haverá por aí muitos fisioterapeutas que reconhecem certas semelhanças no domínio de certos conceitos. É que só temos um mundo, apesar de tanta diversidade cultural. E em diferentes partes do mundo, o corpo não tende a funcionar de maneira diferente. Ora, então eis que proponho que os tais “intelectuais da fisioterapia” ousem comparar Busquet, fruto francófono, com o PNF, fruto americano, e com Bobath, fruto anglo-saxónico, e com o Tai-chi, fruto oriental. O prof. Paulo Araújo e a terapeuta Eva Albuquerque já fizeram a mesclagem PNF – Tai-chi... Será que outro alguém ousará fazer mais “truques de culinária”?...
sexta-feira, março 02, 2007
Coluna lombar neutra ou deslordosada?
Uma das questões mais relevantes das temáticas do tratamento das raquialgias e da reeducação postural centra-se no tipo de posição que devemos manter ao nível da coluna lombar. Durante os exercícios reeducativos, deve a coluna manter-se em posição neutra ou deve estar completamente deslordosada?...
Efectivamente, esta é uma questão que contrapõe a reeducação postural e o Pilates clássicos à reeducação postural e ao Pilates modernos. As escolas clássicas de Pilates e de reeducação postural (neste caso, referimo-nos ao método Mézières) fazem uso de uma filosofia de deslordose total da coluna lombar. Assim sendo, nas diversas posições de tratamento, a curvatura lombar deverá ser apagada, o que coloca as estruturas sob uma tensão determinante. As escolas modernas de Pilates e de reeducação postural (aqui referimo-nos, portanto e mais explicitamente, à Reeducação Postural Global e ao Stretching Global Activo de Souchard), a coluna lombar é mantida numa posição neutra, o que possui vantagens funcionais adicionais.
A questão envolvida no tipo de alinhamento preferencial da coluna lombar está longe de permanecer resolvida. Acontece que, na realidade, a deslordose constitui a posição de máximo distanciamento vertebral e de máximo alongamento muscular lombar, sendo que a citada posição apresenta vantagens enormes no respeitante à consecução de um alongamento ou tensão acrescidos. Entretanto, os proponentes da “coluna neutra” argumentam que tal nível de “tensão” é algo excessivo e que, em termos funcionais, a posição de coluna neutra é aquela que se apresenta como mais vantajosa.
Ora, no meio desta dialéctica qual é a minha opinião particular?... Em termos gerais, não posso deixar de concordar com ambas as perspectivas, pelo que tendo a trabalhar tanto com a coluna neutra como com a coluna deslordosada, dependendo da posição do indivíduo. Por exemplo, em decúbito dorsal, para mim, a coluna lombar deve permanecer completamente apoiada no colchão, principalmente porque, a partir do momento em que os joelhos se apresentam flectidos, a manutenção da coluna em posição neutra representa um desafio demasiadamente grande para o sujeito. Em decúbito ventral, também sou adepto da total deslordose, conseguida pela colocação de uma toalha dobrada ou almofada por debaixo do ventre. Por outro lado, em decúbito lateral, de gatas e nas posições de “prancha de dificuldade intermédia”, prefiro manter a coluna neutra, pois são posições de registo funcional acrescido. Mas, por exemplo, um indivíduo inexperiente que se aventure a fazer uma “prancha completa”, não o deverá fazer com a coluna neutra, pois rapidamente perde o neutro e cai para hiperlordose, sustentando-se nesse “tigre que temos nas costas” (Bertherat); isto se já não tiver compensado a tal “prancha” com um brilhante “triângulo” menos esforçado...Convido cada um a rever estes conceitos e a verificar as vantagens e desvantagens dos diversos alinhamentos. O meu “eclectismo de posições” coloca-me em risco de confundir os doentes ou alunos, pelo que não posso deixar de me manter bem seguro das minhas convicções e preferências.
Efectivamente, esta é uma questão que contrapõe a reeducação postural e o Pilates clássicos à reeducação postural e ao Pilates modernos. As escolas clássicas de Pilates e de reeducação postural (neste caso, referimo-nos ao método Mézières) fazem uso de uma filosofia de deslordose total da coluna lombar. Assim sendo, nas diversas posições de tratamento, a curvatura lombar deverá ser apagada, o que coloca as estruturas sob uma tensão determinante. As escolas modernas de Pilates e de reeducação postural (aqui referimo-nos, portanto e mais explicitamente, à Reeducação Postural Global e ao Stretching Global Activo de Souchard), a coluna lombar é mantida numa posição neutra, o que possui vantagens funcionais adicionais.
A questão envolvida no tipo de alinhamento preferencial da coluna lombar está longe de permanecer resolvida. Acontece que, na realidade, a deslordose constitui a posição de máximo distanciamento vertebral e de máximo alongamento muscular lombar, sendo que a citada posição apresenta vantagens enormes no respeitante à consecução de um alongamento ou tensão acrescidos. Entretanto, os proponentes da “coluna neutra” argumentam que tal nível de “tensão” é algo excessivo e que, em termos funcionais, a posição de coluna neutra é aquela que se apresenta como mais vantajosa.
Ora, no meio desta dialéctica qual é a minha opinião particular?... Em termos gerais, não posso deixar de concordar com ambas as perspectivas, pelo que tendo a trabalhar tanto com a coluna neutra como com a coluna deslordosada, dependendo da posição do indivíduo. Por exemplo, em decúbito dorsal, para mim, a coluna lombar deve permanecer completamente apoiada no colchão, principalmente porque, a partir do momento em que os joelhos se apresentam flectidos, a manutenção da coluna em posição neutra representa um desafio demasiadamente grande para o sujeito. Em decúbito ventral, também sou adepto da total deslordose, conseguida pela colocação de uma toalha dobrada ou almofada por debaixo do ventre. Por outro lado, em decúbito lateral, de gatas e nas posições de “prancha de dificuldade intermédia”, prefiro manter a coluna neutra, pois são posições de registo funcional acrescido. Mas, por exemplo, um indivíduo inexperiente que se aventure a fazer uma “prancha completa”, não o deverá fazer com a coluna neutra, pois rapidamente perde o neutro e cai para hiperlordose, sustentando-se nesse “tigre que temos nas costas” (Bertherat); isto se já não tiver compensado a tal “prancha” com um brilhante “triângulo” menos esforçado...Convido cada um a rever estes conceitos e a verificar as vantagens e desvantagens dos diversos alinhamentos. O meu “eclectismo de posições” coloca-me em risco de confundir os doentes ou alunos, pelo que não posso deixar de me manter bem seguro das minhas convicções e preferências.
Coluna lombar neutra (www.thepilatesman.com)sábado, fevereiro 24, 2007
Assédio moral nos fisioterapeutas portugueses
É sobejamente conhecido que, no nosso país lusófono, a vida de um fisioterapeuta não é fácil. Temos as questões da autonomia profissional, do reconhecimento pelos pares, do prestígio junto dos doentes e comunidade em geral, etc. Mas se há algo de que os fisioterapeutas não têm falado muito, mas penso que permanece silenciosamente como um assunto que a todos interessa, é da questão do assédio moral.
O assédio moral, também conhecido por mobbing ou terrorismo psicológico, constitui um fenómeno de contexto laboral de grande importância. Quantos fisioterapeutas não são constantemente fustigados pelos colegas, pelos responsáveis, ou por profissionais de outras áreas (como os médicos)? Quantos fisioterapeutas não são privados da sua autonomia – chegando a ser apelidados de incompetentes – pelos próprios colegas ou pelo coordenador de serviço ou mesmo pelo médico fisiatra que se acha dono e senhor da vida do doente? A resposta a estas perguntas permanece num terreno obscuro, apesar de todos pressentirmos que os diferentes tipos de assédio moral são bem comuns na vida dos fisioterapeutas.
Ainda me lembro – e seria impossível esquecer – do tipo de assédio a que fui sujeito no serviço de fisioterapia do Hospital Cuf Infante Santo, local onde as terapeutas mais velhas – serão mais idóneas pelo simples facto de possuírem mais experiência? – desprezavam e maltratavam os terapeutas com menos idade. É impossível esquecer o carácter quase psicótico que uma certa terapeuta coordenadora possuía, sendo que a mesma era inclusive capaz de enxovalhar um terapeuta à frente do próprio doente. Eu fui vítima de muitos desses maus tratos por parte das coordenadoras do citado serviço. E no dia em que uma dessas velhas senhoras tentava controlar desenfreadamente o meu trabalho – assumindo uma posição de controlo dos meus doentes, das suas idas e das suas chegadas – disparei numa reacção abrupta mas justa. Isso levaria a que eu fosse alvo de acusações de falta de profissionalismo e falta de ética. Ninguém me apoiou e todos esconderam a “face da verdade” no momento chave. Pudera... o serviço era caracterizado pelo medo!... Tudo isto levou a que não quisesse continuar a trabalhar em tal local. E provocou certas feridas que duraram a passar.
Quantos mais fisioterapeutas viverão situações semelhantes? Quantos dos nossos colegas não sofrerão de forma silenciosa? Quantos dos terapeutas não viverão em situações laborais radicais, sendo que se mantêm a trabalhar nesses mesmos meios pelo simples facto de não conseguirem emprego em qualquer outro lugar?... Penso que muitos!!! E é por isso – a objectividade total em ciência é impossível – que escolhi como tema de tese do meu mestrado em “Psicologia, desenvolvimento sensorial e cognitivo” o seguinte: “Assédio moral (mobbing) nos fisioterapeutas portugueses: Identificação do fenómeno e das consequências cognitivo-emocionais”. Com este estudo, visarei não só identificar e caracterizar o fenómeno junto dos fisioterapeutas portugueses, como tentarei estudar as estratégias cognitivas arroladas pelos mesmos para fazer com que seja evitado o processo de “dissonância cognitiva”. Em breve, falarei mais deste tema. Em breve, será um dos grandes temas da minha vida!...
O assédio moral, também conhecido por mobbing ou terrorismo psicológico, constitui um fenómeno de contexto laboral de grande importância. Quantos fisioterapeutas não são constantemente fustigados pelos colegas, pelos responsáveis, ou por profissionais de outras áreas (como os médicos)? Quantos fisioterapeutas não são privados da sua autonomia – chegando a ser apelidados de incompetentes – pelos próprios colegas ou pelo coordenador de serviço ou mesmo pelo médico fisiatra que se acha dono e senhor da vida do doente? A resposta a estas perguntas permanece num terreno obscuro, apesar de todos pressentirmos que os diferentes tipos de assédio moral são bem comuns na vida dos fisioterapeutas.
Ainda me lembro – e seria impossível esquecer – do tipo de assédio a que fui sujeito no serviço de fisioterapia do Hospital Cuf Infante Santo, local onde as terapeutas mais velhas – serão mais idóneas pelo simples facto de possuírem mais experiência? – desprezavam e maltratavam os terapeutas com menos idade. É impossível esquecer o carácter quase psicótico que uma certa terapeuta coordenadora possuía, sendo que a mesma era inclusive capaz de enxovalhar um terapeuta à frente do próprio doente. Eu fui vítima de muitos desses maus tratos por parte das coordenadoras do citado serviço. E no dia em que uma dessas velhas senhoras tentava controlar desenfreadamente o meu trabalho – assumindo uma posição de controlo dos meus doentes, das suas idas e das suas chegadas – disparei numa reacção abrupta mas justa. Isso levaria a que eu fosse alvo de acusações de falta de profissionalismo e falta de ética. Ninguém me apoiou e todos esconderam a “face da verdade” no momento chave. Pudera... o serviço era caracterizado pelo medo!... Tudo isto levou a que não quisesse continuar a trabalhar em tal local. E provocou certas feridas que duraram a passar.
Quantos mais fisioterapeutas viverão situações semelhantes? Quantos dos nossos colegas não sofrerão de forma silenciosa? Quantos dos terapeutas não viverão em situações laborais radicais, sendo que se mantêm a trabalhar nesses mesmos meios pelo simples facto de não conseguirem emprego em qualquer outro lugar?... Penso que muitos!!! E é por isso – a objectividade total em ciência é impossível – que escolhi como tema de tese do meu mestrado em “Psicologia, desenvolvimento sensorial e cognitivo” o seguinte: “Assédio moral (mobbing) nos fisioterapeutas portugueses: Identificação do fenómeno e das consequências cognitivo-emocionais”. Com este estudo, visarei não só identificar e caracterizar o fenómeno junto dos fisioterapeutas portugueses, como tentarei estudar as estratégias cognitivas arroladas pelos mesmos para fazer com que seja evitado o processo de “dissonância cognitiva”. Em breve, falarei mais deste tema. Em breve, será um dos grandes temas da minha vida!...
De Mézières a Souchard: percursos históricos dos métodos de reeducação postural
(Publicado na Saúde Actual, Março-Abril 2007)
Os métodos de fisioterapia de Reeducação Postural podem ser categorizados, em termos de uma adequada historiografia geográfica, em dois grandes tipos: os métodos francófonos e os métodos anglo-saxónicos.
Aqui em Portugal parecemos estar mais familiarizados com os métodos francófonos, enquanto que a técnica Alexander, o Rolfing (Rolf) e a metodologia dos “Trilhos anatómicos” (Myers) têm interessado fundamentalmente os terapeutas e osteopatas britânicos (referimo-nos, portanto, a métodos anglo-saxónicos).
Pouco conhecido e frequentemente caricaturado, não podemos deixar de considerar o método Mézières como o método primacial de reeducação postural, pelo menos no mundo ocidental. Este mesmo método foi implementado de forma algo silenciosa pela fisioterapeuta Françoise Mézières, aquando das suas observações iniciais de doentes com graves deformidades posturais.
A descoberta de um conjunto de novas leis fisiológicas que servem de base ao método possui uma história que cada mézièrista conhece bem...
Mézières conta: “Quando numa magnífica manhã de primavera de 1947 nós vimos entrar no nosso consultório uma paciente apresentando uma soberba “cifose”, nós estávamos bem longe de pressentir que a nossa profissão e o destino de toda uma legião de doenças iam ser mudadas...”. Esta mesma doente encarna o espírito de investigação com base na prática de observação naturalista. Foi por meio da observação que foi possível verificar o funcionamento da musculatura encurtada num cerne de globalidade que, mais tarde, viria a ser conhecido como “cadeia muscular”. Assim sendo, os dois grandes princípios do método estavam à vista: (1) a musculatura posterior comporta-se como um só músculo, uma cadeia muscular, e (2) ela é sempre forte, curta e potente de mais, por constituir uma cadeia de músculos responsáveis pela rectificação postural.
O método Mézières põe em evidência o facto de que, derivado do reflexo anti-álgico à priori (que reflecte o conjunto de compensações e torções que o corpo assume aquando do aparecimento de determinada dor e/ou alteração estrutural), o corpo deforma-se sempre através dos mesmos mecanismos: encurtamento da musculatura posterior do corpo (lordose), rotação interna dos membros inferiores (derivado da relação entre o diafragma encurtado e o músculo psoas-ilíaco) e o bloqueio diafragmático em inspiração (o diafragma é um músculo lordosante, relacionado com o conjunto das massas musculares posturais).
O tratamento segundo o método Mézières consiste precisamente no denominado tripé de Mézières: deslordose, expiração e desrotação. Ou seja, assenta no princípio fundamental de alongamento global da cadeia muscular posterior e da cadeia diafragmática e outras com a primeira relacionadas. O alongamento global referido consiste na realização de posturas de estiramento abrangente, mantidas por tempos prolongados, sendo que esta necessidade advém do facto de a musculatura postural ser extremamente resistente.
É preciso entender que, segundo os princípios do método Mézières, tudo está dependente da cadeia posterior e todas as retracções e deformidades advêm do encurtamento da citada cadeia, sendo que, muitas vezes, o diafragma medeia o transporte de retracções e/ou compensações para outros conjuntos musculares (a cifose poderá ter origem neste tipo de processo).
Ora, se esta mesma “revolução na ginástica ortopédica” se apresenta como extremamente purista e parcimoniosa, o mesmo já não se pode dizer de todos os outros métodos que evoluíram a partir de Mézières. O método das “Cadeias Musculares e Articulares” de Godelieve Denys-Struyf é provavelmente aquele que mais acrescentou a Mézières em termos da riqueza de conceitos e descrições; por outro lado, a referida autora é extremamente fiel ao método original, sendo que o seu próprio método é mais uma interpretação globalista de tipos posturais, e não uma genuína técnica de tratamento. Os métodos de grupo como a antiginástica, de Thérèse Bertherat, pelo simples facto de não constituírem métodos individuais, pecam já bastante no respeitante à noção de panteísmo dos princípios mézièristas. Mas a grande traição dos princípios de Mézières advém de quando os diferentes autores deixam de perceber que o conjunto das diversas “cadeias musculares” por eles identificadas, não passam de um prolongamento de uma só cadeia muscular: a cadeia posterior.
Assim sendo, os métodos do Stretching Postural (Moreau) e da Reconstrução Postural (Nisand) esboçam as primeiras tentativas de construção de ginásticas de alongamento global do corpo, mas ninguém teria tanto sucesso na construção de um novo método como Philippe Souchard. Este fisioterapeuta, o qual ensinou o método Mézières durante anos a fio, pode ser congratulado por ter dado a conhecer ao mundo o conjunto dos métodos de reeducação postural, e, se em Portugal a ignorância ainda é muita, em muitos países é famosa a Reeducação Postural Global (RPG), assim como o seu “filho grupal”, o Stretching Global Activo (SGA).
Souchard foi inteligente no processo de “venda” do seu método, apesar de não ter tido a coragem para o apresentar ao mundo antes da morte de Mézières... As oito posturas de alongamento global do RPG (postura base de avaliação, rã no chão com e sem abertura de braços, rã no ar com e sem abertura de braços, postura dançarina, postura sentada e postura de pé contra a parede) apresentam-se como posições inteligentes e atraentes (e sobretudo como posições estandardizadas que levam a pensar que o alongamento não poderia ser feito de outro modo...). Para além disso, esquece um pouco o princípio da deslordose, trabalhando com a coluna neutra em muitas posturas nas posições de pé e sentado, o que, para alguns, é sinónimo de inovação. Mas diga-se de passagem que tudo o que Souchard tem escrito nos seus livros pouco acrescenta àquilo que foi afirmado inicialmente por Mézières. A constatação da existência de “diversas cadeias musculares” (o método de Souchard fala das seguintes cadeias: respiratória, posterior, cadeia antero-interna da anca, anterior do braço e antero-interna do ombro) não tem sido entendida como errática, pois existe uma certa tendência para compartimentar e dividir aquilo que, no fundo, é global e indivisível.
Ainda assim, o RPG e o SGA apresentam-se como métodos brilhantes no respeitante à forma de ver o sistema músculo-esquelético, assim como o conjunto das funções hegemónicas do corpo, e no afirmar de princípios elementares de trabalho postural como o alongamento a frio por longos períodos de tempo, sempre respeitando o tensionamento em “campo fechado”.
Aqui em Portugal parecemos estar mais familiarizados com os métodos francófonos, enquanto que a técnica Alexander, o Rolfing (Rolf) e a metodologia dos “Trilhos anatómicos” (Myers) têm interessado fundamentalmente os terapeutas e osteopatas britânicos (referimo-nos, portanto, a métodos anglo-saxónicos).
Pouco conhecido e frequentemente caricaturado, não podemos deixar de considerar o método Mézières como o método primacial de reeducação postural, pelo menos no mundo ocidental. Este mesmo método foi implementado de forma algo silenciosa pela fisioterapeuta Françoise Mézières, aquando das suas observações iniciais de doentes com graves deformidades posturais.
A descoberta de um conjunto de novas leis fisiológicas que servem de base ao método possui uma história que cada mézièrista conhece bem...
Mézières conta: “Quando numa magnífica manhã de primavera de 1947 nós vimos entrar no nosso consultório uma paciente apresentando uma soberba “cifose”, nós estávamos bem longe de pressentir que a nossa profissão e o destino de toda uma legião de doenças iam ser mudadas...”. Esta mesma doente encarna o espírito de investigação com base na prática de observação naturalista. Foi por meio da observação que foi possível verificar o funcionamento da musculatura encurtada num cerne de globalidade que, mais tarde, viria a ser conhecido como “cadeia muscular”. Assim sendo, os dois grandes princípios do método estavam à vista: (1) a musculatura posterior comporta-se como um só músculo, uma cadeia muscular, e (2) ela é sempre forte, curta e potente de mais, por constituir uma cadeia de músculos responsáveis pela rectificação postural.
O método Mézières põe em evidência o facto de que, derivado do reflexo anti-álgico à priori (que reflecte o conjunto de compensações e torções que o corpo assume aquando do aparecimento de determinada dor e/ou alteração estrutural), o corpo deforma-se sempre através dos mesmos mecanismos: encurtamento da musculatura posterior do corpo (lordose), rotação interna dos membros inferiores (derivado da relação entre o diafragma encurtado e o músculo psoas-ilíaco) e o bloqueio diafragmático em inspiração (o diafragma é um músculo lordosante, relacionado com o conjunto das massas musculares posturais).
O tratamento segundo o método Mézières consiste precisamente no denominado tripé de Mézières: deslordose, expiração e desrotação. Ou seja, assenta no princípio fundamental de alongamento global da cadeia muscular posterior e da cadeia diafragmática e outras com a primeira relacionadas. O alongamento global referido consiste na realização de posturas de estiramento abrangente, mantidas por tempos prolongados, sendo que esta necessidade advém do facto de a musculatura postural ser extremamente resistente.
É preciso entender que, segundo os princípios do método Mézières, tudo está dependente da cadeia posterior e todas as retracções e deformidades advêm do encurtamento da citada cadeia, sendo que, muitas vezes, o diafragma medeia o transporte de retracções e/ou compensações para outros conjuntos musculares (a cifose poderá ter origem neste tipo de processo).
Ora, se esta mesma “revolução na ginástica ortopédica” se apresenta como extremamente purista e parcimoniosa, o mesmo já não se pode dizer de todos os outros métodos que evoluíram a partir de Mézières. O método das “Cadeias Musculares e Articulares” de Godelieve Denys-Struyf é provavelmente aquele que mais acrescentou a Mézières em termos da riqueza de conceitos e descrições; por outro lado, a referida autora é extremamente fiel ao método original, sendo que o seu próprio método é mais uma interpretação globalista de tipos posturais, e não uma genuína técnica de tratamento. Os métodos de grupo como a antiginástica, de Thérèse Bertherat, pelo simples facto de não constituírem métodos individuais, pecam já bastante no respeitante à noção de panteísmo dos princípios mézièristas. Mas a grande traição dos princípios de Mézières advém de quando os diferentes autores deixam de perceber que o conjunto das diversas “cadeias musculares” por eles identificadas, não passam de um prolongamento de uma só cadeia muscular: a cadeia posterior.
Assim sendo, os métodos do Stretching Postural (Moreau) e da Reconstrução Postural (Nisand) esboçam as primeiras tentativas de construção de ginásticas de alongamento global do corpo, mas ninguém teria tanto sucesso na construção de um novo método como Philippe Souchard. Este fisioterapeuta, o qual ensinou o método Mézières durante anos a fio, pode ser congratulado por ter dado a conhecer ao mundo o conjunto dos métodos de reeducação postural, e, se em Portugal a ignorância ainda é muita, em muitos países é famosa a Reeducação Postural Global (RPG), assim como o seu “filho grupal”, o Stretching Global Activo (SGA).
Souchard foi inteligente no processo de “venda” do seu método, apesar de não ter tido a coragem para o apresentar ao mundo antes da morte de Mézières... As oito posturas de alongamento global do RPG (postura base de avaliação, rã no chão com e sem abertura de braços, rã no ar com e sem abertura de braços, postura dançarina, postura sentada e postura de pé contra a parede) apresentam-se como posições inteligentes e atraentes (e sobretudo como posições estandardizadas que levam a pensar que o alongamento não poderia ser feito de outro modo...). Para além disso, esquece um pouco o princípio da deslordose, trabalhando com a coluna neutra em muitas posturas nas posições de pé e sentado, o que, para alguns, é sinónimo de inovação. Mas diga-se de passagem que tudo o que Souchard tem escrito nos seus livros pouco acrescenta àquilo que foi afirmado inicialmente por Mézières. A constatação da existência de “diversas cadeias musculares” (o método de Souchard fala das seguintes cadeias: respiratória, posterior, cadeia antero-interna da anca, anterior do braço e antero-interna do ombro) não tem sido entendida como errática, pois existe uma certa tendência para compartimentar e dividir aquilo que, no fundo, é global e indivisível.
Ainda assim, o RPG e o SGA apresentam-se como métodos brilhantes no respeitante à forma de ver o sistema músculo-esquelético, assim como o conjunto das funções hegemónicas do corpo, e no afirmar de princípios elementares de trabalho postural como o alongamento a frio por longos períodos de tempo, sempre respeitando o tensionamento em “campo fechado”.
Diferenças entre Mézières (M) e Souchard (S)
Papel do doente: M - fundamentalmente passivo; S - fundamentalmente activo
Contexto: M - individual; S - individual ou em grupo
Alongamento: M - parcelar em cadeia; S - global em cadeia
Cadeias musculares: M - cadeia posterior e respectivas extensões; S - várias
Coluna: M - deslordosada; S - Neutra nas posturas de "bailarina" e "sentado", Deslordosada em D.D. e de pé.
Trabalho abdominal: M - só abdominais superficiais; S - abdominais sup e profundos (ex. transverso)
Semelhanças e diferenças (entre Mézières e Souchard) em imagens (exemplos)
Vs.
Rã no ar (Souchard)
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Grupo de interesse
Há uma necessidade crescente de juntar os profissionais de fisioterapia, criar grupos e/ou coligações. A área da Reeducação Postural está a pedir a criação de um grupo de interesse. Gostaria que este blog funcionasse como porta de entrada para a criação de tal ajuntamento. Sugiro que os interessados visitem o Hi5 e se inscrevam no grupo "Reeducação Postural" (secção Saúde e Bem estar). Têm, obviamente, que iniciar-se pela inscrição no Hi5, algo completamente gratuito. Como desejo que os fisioterapeutas comecem verdadeiramente a mobilizar-se no sentido de se criar tal grupo.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Holmes Place e outras indústrias do fitness
Nunca tanto como agora se deu relevo à importância de se possuir um bom corpo, treinado inexoravelmente nas melhores academias ou ginásios de fitness. Aliás, o número de adeptos de diversas modalidades “desportivas” cresce exponencialmente. E com o número de adeptos cresce também o número de utilizadores dos ginásios, centros de treino polivalente.
Acontece, porém, que grassa neste mundo dos ginásios um conjunto prolixo de cabalas e “ilusões de alma” (palavras camonianas), que muitos temem em revelar.
Certos ginásios, como o Holmes Place, funcionam de um modo moralmente perturbante, desde o momento da inscrição no mesmo até ao momento em que utilizamos e vivenciamos os seus serviços.
Recentemente senti a necessidade de me inscrever num ginásio Holmes Place. Rapidamente me dirigi a um desses ginásios com vista a ser informado das condições de prática desportiva. Poucos imaginam que, a partir do momento em que entramos no ginásio, estamos condenados a ser aspirados pelo marketing mais enganoso possível de existir. Os funcionários do ginásio, vestidos a preceito e donos de uma invulgar e (diga-se de verdade) “falsa” simpatia, fazem com que tenhamos de esperar por um determinado funcionário. Este mesmo funcionário aparece com a sua “máxima” simpatia e apresenta-nos à força as condições do ginásio, extrapolando as vantagens da adesão como sócio. Depois de apresentados os preços de admissão, fazem com que assinemos um papel de inscrição, o qual dará poder à empresa para retirar determinado valor à nossa conta bancária.
Perpetrada a adesão, surge o tempo de utilização dos serviços. Deus nos salve do que encontramos. Dentro dos ginásios Holmes Place vigora a lei do disfarce, da falácia psicológica. Os instrutores estão todos vestidos da mesma maneira, parecem autómatos com o mesmo pensamento e exactamente a mesma forma de agir, e passam todo o tempo a vender os serviços de personal training. Estes mesmos treinadores pessoais mais não passam de robôs de trabalho de baixíssima qualidade, uma espécie de criados dos senhores da alta sociedade; transportam os seus clientes numa bandeja de ouro, submetendo-os aos pseudo-treinos, os quais estão imbuídos da mais espúria qualidade de trabalho. Enquanto fisioterapeuta que sou, profissional de saúde e motricidade, vejo todos os dias serem cometidos erros escabrosos em termos de saúde do sistema músculo-esquelético. E todos esses erros são acometidos compulsivamente nos ginásios, e isto com a total cumplicidade dos instrutores. Como é possível que estes mesmos instrutores tenham o usufruto de ganhos financeiros astronómicos com tal qualidade de trabalho (alongamentos fora do alinhamento, actividades aeróbias exageradas ou mal adaptadas, conselhos desapropriados sobre saúde)?...
E pretendem os ginásios que em breve as pessoas possam treinar sem necessitarem de apresentar declaração médica... Não se cometa tal erro legal! Os instrutores de fitness desejam ser profissionais de saúde mas não possuem competências para tal. Não possuem sequer um tipo de raciocínio bio-psico-social adequado. Enquanto fisioterapeuta, com um número incomensurável de formações e pós-graduações, vejo todos os dias o meu tipo de trabalho ser feito no ambiente gímnico por pessoas sem formação adequada. A verdadeira fisioterapia age enquanto ciência da motricidade, realizada por profissionais que têm sido referenciados como “engenheiros do movimento”. Mas infelizmente não é assim que as pessoas representam socialmente tais profissionais. Daí sermos mantidos numa margem negra, acometidos pelos condicionalismos financeiros mais ubíquos e inaceitáveis.
Voltando ao Holmes Place, devo dizer que as aulas de fitness são de uma qualidade inexistente. Os profissionais passam metade do tempo a realizar operações de charme e de “venda” da actividade. Gastam todo o seu esforço em falsas simpatias e depois, quando chega a hora de fazermos a aula, deparamo-nos com aulas vazias de conteúdo, fracas, verdadeiramente fracas em metodologia e calor humano. E não vale a pena fazermos o mesmo tipo de aulas com outros instrutores, pois estes agem todos da mesma maneira, como se não existisse autonomia ou liberdade individual. E o pior de tudo é que grassa no Holmes Place um conjunto imenso de regras, sendo que uma delas nos impede de sair a meio de uma aula. Ou seja, entrando numa aula estou impedido de sair a meio dela, e se o fizer estou condenado a não poder repeti-la.
Perante este esquema decidi-me pessoalmente a acabar com a minha adesão ao ginásio. Deus livre as pessoas do engodo. Deram-me a perceber que aquilo que tinha assinado inicialmente era um contrato de um ano. Ou seja, supostamente vou ser forçado a pagar e a sujeitar-me ao Holmes Place durante um ano inteiro, sem possibilidades de sair da ratoeira. As letrinhas praticamente impossíveis de ler na parte de trás do contrato a isso me obrigam.
O Holmes Place, assim como outras grandes indústrias do fitness representam uma verdadeira cabala, um verdadeiro artifício para as nossas almas. É uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, de forma totalmente arrivista. Entre todos os interesses e acordos que este ginásio possui com outras grandes indústrias quem nos protege destas cabalas?
Acontece, porém, que grassa neste mundo dos ginásios um conjunto prolixo de cabalas e “ilusões de alma” (palavras camonianas), que muitos temem em revelar.
Certos ginásios, como o Holmes Place, funcionam de um modo moralmente perturbante, desde o momento da inscrição no mesmo até ao momento em que utilizamos e vivenciamos os seus serviços.
Recentemente senti a necessidade de me inscrever num ginásio Holmes Place. Rapidamente me dirigi a um desses ginásios com vista a ser informado das condições de prática desportiva. Poucos imaginam que, a partir do momento em que entramos no ginásio, estamos condenados a ser aspirados pelo marketing mais enganoso possível de existir. Os funcionários do ginásio, vestidos a preceito e donos de uma invulgar e (diga-se de verdade) “falsa” simpatia, fazem com que tenhamos de esperar por um determinado funcionário. Este mesmo funcionário aparece com a sua “máxima” simpatia e apresenta-nos à força as condições do ginásio, extrapolando as vantagens da adesão como sócio. Depois de apresentados os preços de admissão, fazem com que assinemos um papel de inscrição, o qual dará poder à empresa para retirar determinado valor à nossa conta bancária.
Perpetrada a adesão, surge o tempo de utilização dos serviços. Deus nos salve do que encontramos. Dentro dos ginásios Holmes Place vigora a lei do disfarce, da falácia psicológica. Os instrutores estão todos vestidos da mesma maneira, parecem autómatos com o mesmo pensamento e exactamente a mesma forma de agir, e passam todo o tempo a vender os serviços de personal training. Estes mesmos treinadores pessoais mais não passam de robôs de trabalho de baixíssima qualidade, uma espécie de criados dos senhores da alta sociedade; transportam os seus clientes numa bandeja de ouro, submetendo-os aos pseudo-treinos, os quais estão imbuídos da mais espúria qualidade de trabalho. Enquanto fisioterapeuta que sou, profissional de saúde e motricidade, vejo todos os dias serem cometidos erros escabrosos em termos de saúde do sistema músculo-esquelético. E todos esses erros são acometidos compulsivamente nos ginásios, e isto com a total cumplicidade dos instrutores. Como é possível que estes mesmos instrutores tenham o usufruto de ganhos financeiros astronómicos com tal qualidade de trabalho (alongamentos fora do alinhamento, actividades aeróbias exageradas ou mal adaptadas, conselhos desapropriados sobre saúde)?...
E pretendem os ginásios que em breve as pessoas possam treinar sem necessitarem de apresentar declaração médica... Não se cometa tal erro legal! Os instrutores de fitness desejam ser profissionais de saúde mas não possuem competências para tal. Não possuem sequer um tipo de raciocínio bio-psico-social adequado. Enquanto fisioterapeuta, com um número incomensurável de formações e pós-graduações, vejo todos os dias o meu tipo de trabalho ser feito no ambiente gímnico por pessoas sem formação adequada. A verdadeira fisioterapia age enquanto ciência da motricidade, realizada por profissionais que têm sido referenciados como “engenheiros do movimento”. Mas infelizmente não é assim que as pessoas representam socialmente tais profissionais. Daí sermos mantidos numa margem negra, acometidos pelos condicionalismos financeiros mais ubíquos e inaceitáveis.
Voltando ao Holmes Place, devo dizer que as aulas de fitness são de uma qualidade inexistente. Os profissionais passam metade do tempo a realizar operações de charme e de “venda” da actividade. Gastam todo o seu esforço em falsas simpatias e depois, quando chega a hora de fazermos a aula, deparamo-nos com aulas vazias de conteúdo, fracas, verdadeiramente fracas em metodologia e calor humano. E não vale a pena fazermos o mesmo tipo de aulas com outros instrutores, pois estes agem todos da mesma maneira, como se não existisse autonomia ou liberdade individual. E o pior de tudo é que grassa no Holmes Place um conjunto imenso de regras, sendo que uma delas nos impede de sair a meio de uma aula. Ou seja, entrando numa aula estou impedido de sair a meio dela, e se o fizer estou condenado a não poder repeti-la.
Perante este esquema decidi-me pessoalmente a acabar com a minha adesão ao ginásio. Deus livre as pessoas do engodo. Deram-me a perceber que aquilo que tinha assinado inicialmente era um contrato de um ano. Ou seja, supostamente vou ser forçado a pagar e a sujeitar-me ao Holmes Place durante um ano inteiro, sem possibilidades de sair da ratoeira. As letrinhas praticamente impossíveis de ler na parte de trás do contrato a isso me obrigam.
O Holmes Place, assim como outras grandes indústrias do fitness representam uma verdadeira cabala, um verdadeiro artifício para as nossas almas. É uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, de forma totalmente arrivista. Entre todos os interesses e acordos que este ginásio possui com outras grandes indústrias quem nos protege destas cabalas?
domingo, janeiro 28, 2007
O manifesto anti-desportivo ou a revolução na metodologia do treino?
(Texto completo; publicado parcialmente na revista SportLife, Fev. 2007)
Nunca a prática consistente de actividade física e/ou desportiva exerceu um fascínio tão grande nas pessoas como na actualidade. Nos tempos modernos, destros na avaliação social com base no aspecto físico, é cada vez mais comum a prática globalizada e mantida de exercício físico. Os ginásios enchem-se de pessoas, seres assaz narcisistas, ou eventualmente padecedores de uma qualquer maleita, clientes imbricados na actividade maquinista do trabalho muscular fadigoso. E como se não bastasse o número crescente e exponencial de clientes, as actividades desportivas proliferam e reinventam-se numa série de laborações comerciais, dos quais certos estrangeirismos como stretching, step, cycling, body sculpt, powerfit, body pump, body push, body defense, totalfitness, new balance, entre muitos outros, constituem marcante exemplo. Para além deste número exacerbado de práticas físicas aparentemente dissemelhantes, as práticas ditas holísticas têm conseguido marcar o seu lugar de destaque dentro deste “conflito de escolhas”. Assim sendo, temos o Pilates, o Yoga, o hold-relax, e até as mais alternativas como o Chi-Kung ou o Tai Chi Chuan. Há também quem prefira as misturas, os nomes complexos, as miscelâneas de diferentes nomenclaturas que permeiam o vácuo das mentes curiosas. Daí o sucesso do PNF-chi ou do YogiPilates. Mas este texto não é sobre o maquinismo comercial existente neste mundo cada vez mais intrincado que é o do fitness ou o do fitwell. Este texto pretende arraigar o mundo desportivo na sua globalidade, desde os desportos mais clássicos. Este texto pretende argumentar que todos os desportos, desde os mais antigos até às primorosas (re)invenções da actualidade apresentam no seu conjunto uma poderosa limitação, relacionada com o funcionamento do sistema músculo-esquelético. Eis que urge a necessidade de esclarecer as pessoas de que, no ponto de vista articular, não há praticamente qualquer modalidade desportiva que se apresente como saudável ou recomendável, independentemente de o desporto ser ou não realizado dentro de água. Falo, volto a repetir, da perspectiva da saúde das nossas estruturas músculo-esqueléticas. Outras (des)vantagens potenciais dos desportos não são objecto deste texto. É preciso entender que o mais importante factor que expressa a saúde futura das nossas articulações, e potenciais reumatismos, consiste na nossa postura. Quando me refiro à postura corporal falo do conjunto dos eixos que expressam determinado alinhamento articular. Não me refiro só à coluna e às suas cifoses, lordoses ou escolioses. Refiro-me ao alinhamento de todas as estruturas segmentárias do corpo, incluindo a existência de valgismo ou varismo, flexum ou recurvatum, dos cotovelos, punhos, ancas, joelhos, pés e dedos. Estas idiossincrasias de alinhamento corporal estão dependentes de inúmeros factores, uns aparentemente menos modificáveis e outros potencialmente adquiridos com a evolução e/ou maturação corpórea. Mas, indubitavelmente, são os músculos que irão desempenhar o principal papel de escultores do equilíbrio postural. São os músculos que, agindo como tirantes mecânicos, puxam para fora ou para dentro, para trás ou para a frente determinadas estruturas ósseas onde se inserem, dependendo da dispersão de forças que os movem (e para além dos músculos, são talvez ainda mais às fáscias e os tendões resistentes que exercem o seu papel de escultores posturais). Ora, nesta batalha de forças musculares, o alinhamento postural das articulações tende a estar dependente sobretudo de um tipo de força que é exercida de forma constante sobre as estruturas ósseas, ou seja, da contracção da musculatura tónica ou postural (e não tanto da musculatura fásica relacionada com o movimento). Acontece que a quase totalidade dos desportos ou actividades físicas existentes têm por objecto a chegada a determinado fim ou a criação de determinado trabalho muscular dinâmico, sem ter em conta a existência do citado conjunto de forças de equilíbrio. Por outro lado, apesar de o trabalho muscular da maioria dos desportos existentes ser do tipo dinâmico, não deixa a musculatura tónica ou estática de ser continuamente recrutada, chamada para um trabalho constante, sem qualquer tipo de atenção ao tipo de equilíbrio de forças que se está a gerar. Assim sendo, quase todos os desportos existentes, principalmente as actividades que fazem uso de pesos ou outras resistências, imprimem no corpo um conjunto de desequilíbrios musculares muitas vezes difíceis de destrinçar. E quanto mais séria ou competitiva for a prática desportiva, ou quanto mais assimétrica for essa mesma actividade, maior a probabilidade desse desporto gravar no corpo dos seus praticantes um conjunto oneroso de distúrbios posturais, associados em muito à tendência que essas actividades têm para fazer incrementar os desequilíbrios previamente existentes. Por outro lado, não podemos deixar de atender à maleita que constitui a realização do movimento num corpo consternado por desequilíbrios do alinhamento. Se, por exemplo, um determinado indivíduo possui um joelho excessivamente varo, isso significa que a região interna da articulação do joelho que une fémur com tíbia está sujeita a uma pressão acrescida. Se este mesmo sujeito realizar uma simples actividade como andar rapidamente, ele estará a utilizar a articulação do joelho desalinhada numa série constante de movimentos. Para o indivíduo mais velho, o desgaste associado a tal desequilíbrio segmentário poderá significar uma patologia degenerativa (artrose). E neste mesmo caso, estará errado o profissional que recomendar a este mesmo idoso que ande muito, de modo a libertar a articulação. Para quê movimentar determinada estrutura articular se não houve um prévio realinhamento dos segmentos? Qualquer actividade física realizada numa articulação não alinhada irá somente aumentar o nível de desgaste de natureza viciosa dessa mesma articulação. Imaginemos agora toda esta mesma história mas para actividades físicas mais vigorosas do que o simples andar.Eis, então, que surge o momento de explicar onde reside a potencial solução para estes mesmos desequilíbrios do alinhamento articular. Ora, se a contracção concêntrica das estruturas (em que assenta a maioria dos desportos praticados) leva ao encurtamento dos músculos, as actividades de alongamento muscular libertam estas mesmas estruturas musculares que se relacionam e inserem nos segmentos ósseos. Ou seja, somente a actividade de alongamento muscular poderá permitir refrear o conjunto de forças musculares que, de forma poderosa, impõe determinado alinhamento articular. Apenas o estiramento muscular eficaz poderá permitir deformar as estruturas moles que puxam os tirantes mecânicos do corpo. Assim sendo, é fundamental realizar alongamentos durante e após qualquer actividade desportiva, de modo a diminuir a tendência que o conjunto de forças que se despertaram na actividade exerceram de modo a criar desalinhamento segmentar. Mas aqui a revolução desportiva que proponho não existe, pois já é comum realizar alongamentos durante e, sobretudo, após a actividade desportiva. No entanto, já não se poderá dizer que essa prática de alongamentos seja correcta ou ajustada às necessidades plenas de cada indivíduo. Ora, é indubitável a necessidade de que cada desportista realize os alongamentos mais caros ao conjunto das suas necessidades de (re)alinhamento corporal. E esse mesmo alongamento não deve ser analítico, como é típico na actividade desportiva. O alongamento deve ser realizado da forma mais global possível, de modo a estirar cadeias musculares ao invés de músculos isolados. Uma modificação postural significativa implica a realização congruente de estiramentos globais das cadeias musculares, insistindo particularmente na secção mais convergente ou retraída dessa cadeia. Não pode deixar de ser dito que quase todos os desportos existentes à face do planeta constituem uma súmula de esforços perniciosos para o sistema músculo-esquelético. É impossível continuar a negar a evidência que muitas teorias fundamentais, assim como uma certa investigação, têm vindo a colocar à superfície. O trabalho realizado na maioria das actividades físicas, centrado fundamentalmente na força muscular, alimenta os desequilíbrios e acentua a tensão nas cadeias musculares. E qualquer esforço, por maior que seja, de compensar esses esforços com a realização de alongamentos não deixará de constituir um acto de compensação minoritária. Dar “uma no cravo e outra na ferradura” fará com que o equilíbrio corporal se mantenha praticamente inalterado. Assim sendo, aquilo que verdadeiramente se recomenda é a realização de uma prática física não competitiva, isenta de grandes esforços, plena de diversos movimentos, mais centrada na actividade cardiovascular ou na resistência aeróbia. E essas mesmas actividades aeróbias devem ser o mais variadas possíveis, sendo que não deve ser mantida a prática constante de exactamente a mesma actividade, com os mesmos movimentos, durante tempos muito prolongados. A força muscular está dependente sobretudo da qualidade de funcionamento da articulação. Uma articulação bem alinhada e funcionante será sempre provida de um músculo forte. E essa estrutura articular manter-se-á funcional. Aliás, é sempre de função que tudo se trata. Devemos ter em vista a realização de actividades que permitam melhorar a nossa funcionalidade do dia a dia. Ter muita força ou massa muscular não servirá de nada, a não ser para submeter o corpo a uma tensão excessiva. No caso de ser necessário realizar actividades mais duras, o corpo poderá ser inclusive ensinado a trabalhar com mais eficácia, de modo a fazer mais e melhor com menos esforço, como é apanágio de certos métodos terapêuticos como a técnica Alexander e o método de Feldenkrais, praticamente desconhecidos do mundo do fitness. Ainda assim, qualquer actividade física, por mais variada ou ligeira que seja, irá ser perniciosa se for realizada em estruturas articulares não alinhadas. Para além de que qualquer treino de actividade muscular realizado em estruturas não alongadas irá, provavelmente, criar tensão sobre tensão. Ora, eis então a principal premissa daquilo que entendo constituir uma revolução na metodologia do treino: antes de se realizar qualquer actividade física, o corpo deverá ser prévia e globalmente alongado, a frio, por longos períodos de tempo. Ou seja, estruturas não preparadas deverão ser sujeitas a uma tensão de estiramento global, mantida por um certo período de tempo, sem força excessiva (esta só alimenta as compensações, para além de que pode constituir perigo para a saúde das estruturas em alongamento). O alongamento deverá ser global, proporcionando o (re)alinhamento articular com base no trabalho centrado nas cadeias musculares. Só depois de se ter dedicado parte do tempo de treino ao alongamento é que se pode incorrer no trabalho dinâmico. Este far-se-á num corpo em que as articulações já foram previamente libertadas; este far-se-á num corpo em que a musculatura já possui um comprimento singelo, facilitador do trabalho muscular; este far-se-á num corpo previamente descomprimido, liberto da tensão excessiva, sendo que assim não estamos a aumentar a tensão num corpo já tenso. As premissas e alguns postulados do que aqui afirmo partem inicialmente do conceito das cadeias musculares de Mézières, mas têm sido colocados no terreno da escrita fundamentalmente por Ph. E. Souchard nos seus livros dedicados à Reeducação Postural Global e ao Stretching Global Activo. Por tudo o que aqui ficou dito, não é de estranhar que os escritos mais importantes de Françoise Mézières se tenham intitulado “revolução na ginástica ortopédica”, assim como o método da sua discípula Bertherat, assente na consciencialização e no relaxamento, tenha tomado o nome de antiginástica...
Estes métodos podem fornecer tantas inovações ao mundo do desporto, assim como podem contribuir para gerar o conceito de “uma nova cultura física”.
É pena que a maioria dos instrutores de fitness não conheça estes sistemas de trabalho terapêutico, e não procure saber mais acerca do alongamento global. Também não admira, se tivermos por exemplo em conta que a obra de Bertherat “Le corps a ses raisons” (traduzida tristemente para português para o título “Dê saúde ao seu corpo: a saúde pela antiginástica”, editora Europa-América), muito reveladora acerca dos princípios atrás enunciados, encontra-se esquecida e perdida algures no passado. Por outro lado, a compreensão procedente destes conceitos implica a formação especializada dos instrutores, o que parece existir cada vez menos, visto que muitos instrutores de fitness não possuem uma formação de base superior na área do sistema locomotor. A meu ver, o mundo do fitness e o mundo da saúde são inseparáveis, pelo que a formação especializada dos profissionais e a aceitação mínima de uma nova forma de ver o desporto e a actividade muscular constituem um requisito fundamental ao respeito pela fisiologia normal do desportista.
Estes métodos podem fornecer tantas inovações ao mundo do desporto, assim como podem contribuir para gerar o conceito de “uma nova cultura física”.
É pena que a maioria dos instrutores de fitness não conheça estes sistemas de trabalho terapêutico, e não procure saber mais acerca do alongamento global. Também não admira, se tivermos por exemplo em conta que a obra de Bertherat “Le corps a ses raisons” (traduzida tristemente para português para o título “Dê saúde ao seu corpo: a saúde pela antiginástica”, editora Europa-América), muito reveladora acerca dos princípios atrás enunciados, encontra-se esquecida e perdida algures no passado. Por outro lado, a compreensão procedente destes conceitos implica a formação especializada dos instrutores, o que parece existir cada vez menos, visto que muitos instrutores de fitness não possuem uma formação de base superior na área do sistema locomotor. A meu ver, o mundo do fitness e o mundo da saúde são inseparáveis, pelo que a formação especializada dos profissionais e a aceitação mínima de uma nova forma de ver o desporto e a actividade muscular constituem um requisito fundamental ao respeito pela fisiologia normal do desportista.
sábado, janeiro 20, 2007
Stretch-Pilates para os interessados
Todos os problemas articulares estão directa ou indirectamente ligados a distúrbios de postura. Esta afecta todo o funcionamento físico e psíquico do indivíduo. O Pilates “puro” tem uma eficácia estrondosa no ganho de um controlo postural significativo, assim como melhora a mobilidade articular (principalmente da coluna vertebral). Porém, o Pilates só por si não permite a modificação genuína da estrutura esquelética. É preciso juntar-lhe um trabalho profundo de alongamento global das cadeias musculares posturais. Só esse trabalho de stretching permite a libertação articular e o relaxamento progressivo. O Stretch-Pilates não é necessariamente um novo método, é mais a interpretação rigorosa dos métodos mais eficazes para chegar à postura corporal e aos problemas psico-físicos que afectam as pessoas.
Reeducação Postural + Pilates = Stretch-Pilates
Reeducação Postural + Pilates = Stretch-Pilates
Para praticar, contactar-me (963304478)
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Stretch-Pilates
Este é o nome pelo qual apelidarei várias vezes o método de Reeducação Postural que venho praticando há uns tempos, o método de grupo que resulta da mesclagem do stretching global (desde Mézières até à antiginástica, e muito particularmente a Reeducação Postural Global e o Stretching Global Activo, assim como técnicas de relaxamento e de consciencialização corporal) com o “puro” Pilates.
O trabalho inclui a mistura coerente dos diversos métodos, incluídos numa sopa terapêutica de grande eficácia e coerência. Os exercícios e as posturas são realizados em separado ou de forma integrada, com pleno controlo do posicionamento e alinhamento corporal.
Atendemos ao trabalho de alongamento das cadeias musculares, mobilidade articular (principalmente da coluna) e, por fim, força (principalmente do centro abdominal). O trabalho é feito com recurso a dois tipos de respiração, ambas processadas ao nível torácico superior: uma respiração fluída para o Pilates e uma respiração mais lenta e prolongada, com ênfase na fase expiratória, para o alongamento global.
O termo Stretch-Pilates potencia a noção de mercado! No fundo, não passa de um método de “ginástica postural”, mas inteligentemente integrativo dos métodos mais paradigmáticos e efectivos do domínio da Reeducação Postural. Não é, portanto, uma invenção, um método novo que criei; é mais o resultado da mesclagem criativa de métodos e técnicas preexistentes.O fim principal do Stretch-Pilates é a Postura. E não podemos reeducar a mesma só através do trabalho de activação do centro do Pilates. É preciso o alongamento. É preciso coerência e globalidade. É preciso ver as coisas em termos de “Cadeias musculares”...
O trabalho inclui a mistura coerente dos diversos métodos, incluídos numa sopa terapêutica de grande eficácia e coerência. Os exercícios e as posturas são realizados em separado ou de forma integrada, com pleno controlo do posicionamento e alinhamento corporal.
Atendemos ao trabalho de alongamento das cadeias musculares, mobilidade articular (principalmente da coluna) e, por fim, força (principalmente do centro abdominal). O trabalho é feito com recurso a dois tipos de respiração, ambas processadas ao nível torácico superior: uma respiração fluída para o Pilates e uma respiração mais lenta e prolongada, com ênfase na fase expiratória, para o alongamento global.
O termo Stretch-Pilates potencia a noção de mercado! No fundo, não passa de um método de “ginástica postural”, mas inteligentemente integrativo dos métodos mais paradigmáticos e efectivos do domínio da Reeducação Postural. Não é, portanto, uma invenção, um método novo que criei; é mais o resultado da mesclagem criativa de métodos e técnicas preexistentes.O fim principal do Stretch-Pilates é a Postura. E não podemos reeducar a mesma só através do trabalho de activação do centro do Pilates. É preciso o alongamento. É preciso coerência e globalidade. É preciso ver as coisas em termos de “Cadeias musculares”...
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Reeducação postural com rolos
Há muito que este texto já devia ser tido escrito. Acontece que no Consultório e Clínica de Reabilitação, Lda. (Av. República, 99), onde realizo há muito as minhas classes de Reeducação Postural, assim como no hospital Curry Cabral (e em poucos mais sítios), o método mais utilizado e simples de conseguir a correcção postural corresponde ao uso de rolos, que podem ser meros canos de esgoto forrados, nos quais os pacientes se deitam, colocando toda a coluna espalhada pela superfície dos mesmos.
Os rolos constituem uma superfície com dureza suficiente para levar à manifestação de reflexos protectores por parte dos doentes, reflexos que acabarão por ter como efeito a deslordose da coluna lombar. Toda a coluna fica numa posição de estiramento ou tracção por cima do rolo, o que facilita a criação de espaços entre as vértebras (por vezes, é a melhor forma de tratar as hérnias discais). Em cima do rolo podemos realizar várias posturas de alongamento, permitindo o treino expiratório e, através da abertura de braços, o alongamento global das cadeias musculares ântero-superiores.
O rolo permite também realizar exercícios de “consciência corporal”. Daí que estes materiais se tenham utilizado em Feldenkrais, em Anti-ginástica e em “Corpo e Consciência”. Há que promover a colocação directa e alongada da coluna por toda a extensão do rolo, sendo que este facilita a sensação proprioceptiva. Exercícios de massagem das costas com o rolo poderão ajudar a tornar consciente as zonas dolorosas.
O rolo é também um dos materiais importantes do Pilates. Por constituir um estímulo desequilibrante, a manutenção do corpo no rolo obriga à activação constante do centro abdominal. Vários exercícios de força, como o Hundred ou as Tesouras, poderão ser realizados com grande eficácia no rolo (eventualmente com uma protecção adicional), sendo que é, a meu ver, uma das melhores formas de Contrologia corporal (para além de que ajuda à manutenção da coluna na posição de apoio total, evitando também a lordose). Para além disso, o trabalho de mobilidade pode também ser feito no rolo, com grande exigência do controlo corporal (experimente-se realizar o Shoulder Bridge por cima do rolo, pedindo que as vértebras sejam todas colocadas uma a uma, precisamente em cima do eixo do rolo). Nos locais que referi inicialmente, é muito comum realizar actividades com o rolo, sendo que muitas vezes a única forma de tratamento empregue corresponde à mera colocação do doente por cima do dito material. Os resultados costumam ser impressionantes.
Os rolos constituem uma superfície com dureza suficiente para levar à manifestação de reflexos protectores por parte dos doentes, reflexos que acabarão por ter como efeito a deslordose da coluna lombar. Toda a coluna fica numa posição de estiramento ou tracção por cima do rolo, o que facilita a criação de espaços entre as vértebras (por vezes, é a melhor forma de tratar as hérnias discais). Em cima do rolo podemos realizar várias posturas de alongamento, permitindo o treino expiratório e, através da abertura de braços, o alongamento global das cadeias musculares ântero-superiores.
O rolo permite também realizar exercícios de “consciência corporal”. Daí que estes materiais se tenham utilizado em Feldenkrais, em Anti-ginástica e em “Corpo e Consciência”. Há que promover a colocação directa e alongada da coluna por toda a extensão do rolo, sendo que este facilita a sensação proprioceptiva. Exercícios de massagem das costas com o rolo poderão ajudar a tornar consciente as zonas dolorosas.
O rolo é também um dos materiais importantes do Pilates. Por constituir um estímulo desequilibrante, a manutenção do corpo no rolo obriga à activação constante do centro abdominal. Vários exercícios de força, como o Hundred ou as Tesouras, poderão ser realizados com grande eficácia no rolo (eventualmente com uma protecção adicional), sendo que é, a meu ver, uma das melhores formas de Contrologia corporal (para além de que ajuda à manutenção da coluna na posição de apoio total, evitando também a lordose). Para além disso, o trabalho de mobilidade pode também ser feito no rolo, com grande exigência do controlo corporal (experimente-se realizar o Shoulder Bridge por cima do rolo, pedindo que as vértebras sejam todas colocadas uma a uma, precisamente em cima do eixo do rolo). Nos locais que referi inicialmente, é muito comum realizar actividades com o rolo, sendo que muitas vezes a única forma de tratamento empregue corresponde à mera colocação do doente por cima do dito material. Os resultados costumam ser impressionantes.
Método Pilates: desvendando os segredos
Aspectos históricos e técnicos do método dos famosos
No mundo do fitness não há método que tenha gerado tanta polémica e tanta incursão mediática quanto o Pilates. Não há país do mundo ocidental em que o Pilates não tenha tido um surgimento abrasivo e um desbravamento comercial de destaque. Inclusivamente em Portugal, o método Pilates parece ganhar um número bastante significativo de adeptos. A palavra ‘Pilates’ está inclusive imbuída de um certo misticismo, ambiente criador de uma certa aura de atracção comercial. Os motivos de tal mediania e fama derivam directamente do poder de um certo marketing diabólico, sendo que este não pára de identificar o método Pilates como a “ginástica” de eleição de um conjunto enorme de famosas personalidades e actores de Hollywood.
Ainda assim não podemos deixar de tentar compreender o porquê de tal identificação do método com as figuras da fama. Para isso, devemos ter em consideração alguns aspectos históricos do método. Vejamos se podemos resumir a história do método de uma forma simultaneamente atractiva e objectiva.
O criador do método Pilates, Joseph Pilates, era um homem extremamente inteligente e intuitivo. Teve uma infância difícil e plena de uma franca debilidade física, mas ainda assim lutou pela sua perenidade. Talvez pelo facto de ser extremamente frágil, Joseph Pilates dedicou um esforço suplementar a melhorar a sua condição física. Na sua juventude, Pilates estudou e especializou-se em musculação, mergulho, esqui e ginástica. Em 1912, Pilates mudou-se da Alemanha (onde nasceu em 1880) para Inglaterra, onde começou a ganhar a vida como pugilista e artista de circo. No início da Primeira Guerra Mundial, esteve num campo em Lancaster e, posteriormente, na Ilha de Man, local onde trabalhou como enfermeiro. Depois da guerra, Pilates voltou para Hamburgo, onde permaneceu até 1926. Só neste ano é que Pilates, desiludido com o exército alemão, se mudou para os Estados Unidos da América.
Em Nova Iorque, Pilates viria a fundar os seus primeiros estúdios americanos. A partir daqui pouco de sabe relativamente ao seu trabalho, mas, pelo que reza a história, Joseph Pilates viria a cumprir o grande sonho americano de fama e riqueza. Sagaz, Pilates conseguiu impor o seu método de exercício, tendo rapidamente conquistado o mundo da dança. Conquistou, assim, os bailarinos, incluindo indivíduos famosos dos espectáculos musicais e cinematográficos. Portanto, o método Pilates viria a constituir-se como o método dos famosos muito antes de ser abraçado pela geração dos fisioterapeutas – que deram ao método um cunho mais terapêutico – e, mais tarde, pela geração dos instrutores de fitness.
É irónico que o método Pilates esteja tão ligado à dança, pois o próprio Joseph Pilates nunca foi bailarino. Era antes um adepto de actividades “duras”, ditas de força pura e explosiva. Por outro lado, o seu rol de exercícios faz uso de um outro tipo de força – uma força fundamentalmente estática e excêntrica, a qual permite o fortalecimento do corpo sem geração de tensões e/ou desequilíbrios musculares.
Os bailarinos procuravam (e procuram) no método Pilates uma fonte de estabilidade corporal e equilíbrio para os seus corpos excessivamente móveis, instáveis e laxos. Ao procurarem Joseph Pilates, deparavam-se com um homem muito perspicaz, capaz de estabelecer planos de exercícios adaptados às necessidades e aos problemas específicos de cada pessoa. O método tinha aqui um cunho irrefutável de individualidade. O treino era realizado em equipamentos específicos que ainda actualmente são utilizados nas formações mais avançadas. O método não era grupal; tornou-se, mais tarde, um método para ser praticado fundamentalmente em grupo, como é apanágio dos métodos de fitness.
É importante referir que o método Pilates não se centrava em exercícios precisos, servidos como uma receita reutilizável de sujeito para sujeito. Perante determinado indivíduo, Pilates alterava radicalmente os planos comuns de exercícios. E foram poucos aqueles que puderam assistir a todo este mecanismo de trabalho. Os poucos que tiveram esse privilégio acabaram mais tarde, após a morte de Joseph Pilates, por fundar as suas próprias escolas, chegando alguns a arrogar a prática do método original. Mas, tal arrogo não passa de pura insipiência, pois não existia um método original específico. Existia sim um método de trabalho próprio de Joseph Pilates, o qual é indubitavelmente inimitável.
Por outro lado, nem mesmo os seus exercícios poderão ser considerados como verdadeiramente originais... Pilates teria sofrido de grandes influências provenientes de métodos como o Yoga, as artes marciais e a meditação.
E se o método Pilates dito “básico” é construtivamente tão multifacetado, ainda mais diferenciadas se tornam as diversas escolas de Pilates que a partir da original se desenvolveram. Daqui tem de ser sublinhado um conceito fundamental: não há um método Pilates, há vários métodos Pilates. Assim como não há um só Yoga, há várias escolas de Yoga. Não há uma só osteopatia, há várias escolas de osteopatia. E também as diversas outras terapias holísticas se desdobram numa multiplicidade de diferentes escolas ou diferentes variantes. Assim sendo, se há algo em comum entre os diversos métodos Pilates, não deixam de se registar diferenças entre as diferentes escolas. O potencial praticante não deve presumir que a sua singular prática de Pilates é única. O praticante deve informar-se acerca da escola de Pilates onde o seu instrutor se formou. E no caso de o método não lhe agradar, o praticante não deve desistir da prática do método. Deve sim escolher outra via, outra tradição, outra abordagem.
Pessoalmente defendo que a escola de Pilates que devemos seguir deve partir da nossa própria tradição de trabalho e dedicação. Ou seja, defendo que não devemos seguir determinado modelo de escola, apesar de termos que escolher realizar a nossa formação numa qualquer tradição. Devemos adaptar inteligentemente o método às necessidades das pessoas com que interagimos. Podemos e devemos ser criativos na modificação dos exercícios de Pilates, mesmo que essas modificações não estejam previstas por qualquer escola (claro, desde que respeitemos determinados objectivos e regras de segurança). Devemos dar um cunho pessoal à prática de Pilates, tornando o método mais atractivo e relaxante tanto para o instrutor como para o praticante. Tenho feito e observado muitas aulas de Pilates em muitos contextos. Por vezes, em determinado ginásio, os diferentes instrutores de Pilates pareciam-se com clones, saídos de uma fotocopiadora. Todos os trejeitos, formas de falar e métodos de intervenção eram feitos com um respeito escrupuloso pelo o que a escola de origem tinha ensinado. Se para muitos este facto é apanágio de segurança ou precaução, para mim é o contrário, pois demonstra que os citados instrutores ainda não dominam completamente a fisiologia do corpo e das suas potencialidades, assim como não compreendem que a base filosófica e programática do método Pilates permite a realização de um quase interminável conjunto de exercícios e modificações destes, como se estivéssemos a falar de uma gramática generativa que permite a construção de um número aparentemente interminável de palavras e de frases a partir das letras do alfabeto.
Por outro lado, temos ainda a questão da formação básica de quem dá as aulas de Pilates. Pessoalmente, defendo que o Pilates deve estar centrado nas capacidades do aluno e não nas capacidades de um pretenso modelo; defendo também que a prática de Pilates deve possuir um cunho fundamentalmente terapêutico e preventivo, ou seja, clínico. Assim sendo, a formação básica de um instrutor de Pilates deveria ser de orientação clínica e de competência manipulativa. Com estas competências todas, não tenho dúvidas de que o fisioterapeuta constitui o profissional mais bem preparado para dar aulas de Pilates. De qualquer forma, é indiscutivelmente surpreendente o facto de o próprio Joseph Pilates possuir uma visão tão “clínica” dos seus clientes, quando ele mesmo não tinha qualquer tipo de formação específica.
No mundo do fitness não há método que tenha gerado tanta polémica e tanta incursão mediática quanto o Pilates. Não há país do mundo ocidental em que o Pilates não tenha tido um surgimento abrasivo e um desbravamento comercial de destaque. Inclusivamente em Portugal, o método Pilates parece ganhar um número bastante significativo de adeptos. A palavra ‘Pilates’ está inclusive imbuída de um certo misticismo, ambiente criador de uma certa aura de atracção comercial. Os motivos de tal mediania e fama derivam directamente do poder de um certo marketing diabólico, sendo que este não pára de identificar o método Pilates como a “ginástica” de eleição de um conjunto enorme de famosas personalidades e actores de Hollywood.
Ainda assim não podemos deixar de tentar compreender o porquê de tal identificação do método com as figuras da fama. Para isso, devemos ter em consideração alguns aspectos históricos do método. Vejamos se podemos resumir a história do método de uma forma simultaneamente atractiva e objectiva.
O criador do método Pilates, Joseph Pilates, era um homem extremamente inteligente e intuitivo. Teve uma infância difícil e plena de uma franca debilidade física, mas ainda assim lutou pela sua perenidade. Talvez pelo facto de ser extremamente frágil, Joseph Pilates dedicou um esforço suplementar a melhorar a sua condição física. Na sua juventude, Pilates estudou e especializou-se em musculação, mergulho, esqui e ginástica. Em 1912, Pilates mudou-se da Alemanha (onde nasceu em 1880) para Inglaterra, onde começou a ganhar a vida como pugilista e artista de circo. No início da Primeira Guerra Mundial, esteve num campo em Lancaster e, posteriormente, na Ilha de Man, local onde trabalhou como enfermeiro. Depois da guerra, Pilates voltou para Hamburgo, onde permaneceu até 1926. Só neste ano é que Pilates, desiludido com o exército alemão, se mudou para os Estados Unidos da América.
Em Nova Iorque, Pilates viria a fundar os seus primeiros estúdios americanos. A partir daqui pouco de sabe relativamente ao seu trabalho, mas, pelo que reza a história, Joseph Pilates viria a cumprir o grande sonho americano de fama e riqueza. Sagaz, Pilates conseguiu impor o seu método de exercício, tendo rapidamente conquistado o mundo da dança. Conquistou, assim, os bailarinos, incluindo indivíduos famosos dos espectáculos musicais e cinematográficos. Portanto, o método Pilates viria a constituir-se como o método dos famosos muito antes de ser abraçado pela geração dos fisioterapeutas – que deram ao método um cunho mais terapêutico – e, mais tarde, pela geração dos instrutores de fitness.
É irónico que o método Pilates esteja tão ligado à dança, pois o próprio Joseph Pilates nunca foi bailarino. Era antes um adepto de actividades “duras”, ditas de força pura e explosiva. Por outro lado, o seu rol de exercícios faz uso de um outro tipo de força – uma força fundamentalmente estática e excêntrica, a qual permite o fortalecimento do corpo sem geração de tensões e/ou desequilíbrios musculares.
Os bailarinos procuravam (e procuram) no método Pilates uma fonte de estabilidade corporal e equilíbrio para os seus corpos excessivamente móveis, instáveis e laxos. Ao procurarem Joseph Pilates, deparavam-se com um homem muito perspicaz, capaz de estabelecer planos de exercícios adaptados às necessidades e aos problemas específicos de cada pessoa. O método tinha aqui um cunho irrefutável de individualidade. O treino era realizado em equipamentos específicos que ainda actualmente são utilizados nas formações mais avançadas. O método não era grupal; tornou-se, mais tarde, um método para ser praticado fundamentalmente em grupo, como é apanágio dos métodos de fitness.
É importante referir que o método Pilates não se centrava em exercícios precisos, servidos como uma receita reutilizável de sujeito para sujeito. Perante determinado indivíduo, Pilates alterava radicalmente os planos comuns de exercícios. E foram poucos aqueles que puderam assistir a todo este mecanismo de trabalho. Os poucos que tiveram esse privilégio acabaram mais tarde, após a morte de Joseph Pilates, por fundar as suas próprias escolas, chegando alguns a arrogar a prática do método original. Mas, tal arrogo não passa de pura insipiência, pois não existia um método original específico. Existia sim um método de trabalho próprio de Joseph Pilates, o qual é indubitavelmente inimitável.
Por outro lado, nem mesmo os seus exercícios poderão ser considerados como verdadeiramente originais... Pilates teria sofrido de grandes influências provenientes de métodos como o Yoga, as artes marciais e a meditação.
E se o método Pilates dito “básico” é construtivamente tão multifacetado, ainda mais diferenciadas se tornam as diversas escolas de Pilates que a partir da original se desenvolveram. Daqui tem de ser sublinhado um conceito fundamental: não há um método Pilates, há vários métodos Pilates. Assim como não há um só Yoga, há várias escolas de Yoga. Não há uma só osteopatia, há várias escolas de osteopatia. E também as diversas outras terapias holísticas se desdobram numa multiplicidade de diferentes escolas ou diferentes variantes. Assim sendo, se há algo em comum entre os diversos métodos Pilates, não deixam de se registar diferenças entre as diferentes escolas. O potencial praticante não deve presumir que a sua singular prática de Pilates é única. O praticante deve informar-se acerca da escola de Pilates onde o seu instrutor se formou. E no caso de o método não lhe agradar, o praticante não deve desistir da prática do método. Deve sim escolher outra via, outra tradição, outra abordagem.
Pessoalmente defendo que a escola de Pilates que devemos seguir deve partir da nossa própria tradição de trabalho e dedicação. Ou seja, defendo que não devemos seguir determinado modelo de escola, apesar de termos que escolher realizar a nossa formação numa qualquer tradição. Devemos adaptar inteligentemente o método às necessidades das pessoas com que interagimos. Podemos e devemos ser criativos na modificação dos exercícios de Pilates, mesmo que essas modificações não estejam previstas por qualquer escola (claro, desde que respeitemos determinados objectivos e regras de segurança). Devemos dar um cunho pessoal à prática de Pilates, tornando o método mais atractivo e relaxante tanto para o instrutor como para o praticante. Tenho feito e observado muitas aulas de Pilates em muitos contextos. Por vezes, em determinado ginásio, os diferentes instrutores de Pilates pareciam-se com clones, saídos de uma fotocopiadora. Todos os trejeitos, formas de falar e métodos de intervenção eram feitos com um respeito escrupuloso pelo o que a escola de origem tinha ensinado. Se para muitos este facto é apanágio de segurança ou precaução, para mim é o contrário, pois demonstra que os citados instrutores ainda não dominam completamente a fisiologia do corpo e das suas potencialidades, assim como não compreendem que a base filosófica e programática do método Pilates permite a realização de um quase interminável conjunto de exercícios e modificações destes, como se estivéssemos a falar de uma gramática generativa que permite a construção de um número aparentemente interminável de palavras e de frases a partir das letras do alfabeto.
Por outro lado, temos ainda a questão da formação básica de quem dá as aulas de Pilates. Pessoalmente, defendo que o Pilates deve estar centrado nas capacidades do aluno e não nas capacidades de um pretenso modelo; defendo também que a prática de Pilates deve possuir um cunho fundamentalmente terapêutico e preventivo, ou seja, clínico. Assim sendo, a formação básica de um instrutor de Pilates deveria ser de orientação clínica e de competência manipulativa. Com estas competências todas, não tenho dúvidas de que o fisioterapeuta constitui o profissional mais bem preparado para dar aulas de Pilates. De qualquer forma, é indiscutivelmente surpreendente o facto de o próprio Joseph Pilates possuir uma visão tão “clínica” dos seus clientes, quando ele mesmo não tinha qualquer tipo de formação específica.
Bases do métodoO criador do método Pilates era uma pessoa especialmente capacitada para a compreensão das vicissitudes dos seus clientes. Os seus estúdios de treino possuíam conjuntos de equipamentos de trabalho, principalmente o reformer (uma plataforma de alongamento com cerca de 90 x 212 centímetros, que se desloca em pequenos carris quando empurrada pelos membros superiores ou inferiores), que constituíam o material básico de trabalho corporal. O método Pilates era portanto um tipo específico de exercício adaptado às necessidades específicas de cada cliente; era um método individual, de teor fortemente clínico.
Este Pilates iniciático movia-se por determinados princípios que não são muito diferentes dos actuais. Porém, se o trabalho que Joseph Pilates propunha partia de um conjunto de movimentos originais um tanto duros para o organismo, as diferentes escolas que deram continuidade ao método rapidamente adaptaram e/ou modificaram esses movimentos, tornando-os mais suaves, de modo a os adaptarem aos clientes iniciados ou com limitações.
Assim sendo, um praticante iniciado irá realizar provavelmente um nível básico do Pilates com variações simples dos exercícios de Pilates. Só progressivamente, à medida que o praticante for evoluindo, é que o mesmo se irá aproximar da prática dos movimentos originais de Joseph Pilates.
Dissemos que a prática original de Pilates era fortemente centrada no sujeito. Actualmente, o método é utilizado fundamentalmente no contexto de grupo, sendo que se pode dizer que a prática de Pilates está massificada. Este tipo de prática grupal não é necessariamente improdutiva. Mas requer uma atenção especial à adaptação do gesto desportivo, incluindo a sustentação por parte do instrutor de um grupo de sujeitos com diferentes capacidades e experiências de prática. Assim sendo, o bom instrutor de Pilates tem de ser capaz de, no seio do grupo, manter-se atento às necessidades de cada indivíduo presente na classe, e tem de saber agir perante determinada necessidade especial surgida no momento, incluindo a possibilidade de adaptar rapidamente os exercícios ou escolher diferentes exercícios para diferentes indivíduos.
O facto de muitas escolas de Pilates terem modificado os exercícios originais de Pilates, tornando-os mais acessíveis à população normal ou especial, deriva não só da necessidade de compor um constructo de progressividade no treino, como da evidência científica relativa à fisiologia do aparelho muscular abdominal profundo, zona do corpo que corresponde actualmente ao grande objecto de treino no Pilates.
Sim, este é o grande objecto de trabalho no Pilates: o treino abdominal profundo. Todo o trabalho dos exercícios de Pilates está centrado no trabalho da parede abdominal estática. Todos os exercícios têm como objecto de trabalho o treino de um conjunto de músculos muito específicos e profundos do corpo.
Antes de avançarmos mais no texto, deve ser explicado que o corpo possui dois grandes tipos de músculos: os músculos estáticos ou tónicos, envolvidos nas reacções posturais, e os músculos da dinâmica, necessários à realização do movimento. Por exemplo, os músculos profundos da coluna (musculatura paravertebral) constituem músculos tónicos, de contracção fundamentalmente estática e permanente, envolvidos no endireitamento postural. São músculos muito fortes e resistentes, difíceis de alongar. Ao contrário do que tantos médicos, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde pensam, estes músculos em particular não devem ser fortalecidos, mas antes alongados; fortes já estes músculos são, não vamos portanto criar mais tensão onde ela já existe. Os métodos de fisioterapia baseados no trabalho das “Cadeias musculares” têm por objecto a metodologia de alongamento global desta musculatura. Entretanto, temos também músculos dinâmicos, como os abdominais superficiais, os quais estão vocacionados para a produção de movimento.
O método Pilates tem como objecto essencial de treino o trabalho de um músculo muito específico: o transverso abdominal (assim como o pavilhão pélvico). Este é um músculo muito especial, pois, apesar de ser profundo e fundamentalmente tónico/estático, não se insere dentro daquele conjunto de músculos estáticos de contracção forte e resistência inveterada. É um músculo com muita tendência para enfraquecer e, apesar de estar a ser constantemente solicitado nas tarefas que requerem equilíbrio, fatiga-se muito facilmente ao mínimo gesto físico mais exigente.
Quando estamos de pé, se temos um músculo transverso abdominal fraco ou fatigado, acabamos por certificar a nossa sustentação a partir da musculatura paravertebral. Quando realizamos exercícios abdominais mais forçados, rapidamente outros músculos abdominais, como os oblíquos e os rectos, irão substituir a actividade do transverso abdominal.
Assim sendo, aqui se apresenta a razão pela qual a actividade de Pilates deve ser realizada sem esforço excessivo, com exercícios de carácter gradativo. Queremos manter o trabalho do transverso abdominal, sem utilizar outros músculos. E o transverso abdominal funciona com contracções mínimas, de fraca intensidade; aliás, uma contracção abdominal de 30% é suficiente para manter o trabalho máximo do transverso. É por isso que dizemos às pessoas para imaginarem um cinto que as envolve apertado no terceiro furo em dez.
Uma actividade abdominal excessiva irá apenas colocar o praticante em risco de se magoar. E isto inclui os “abdominais” típicos da musculação e outros desportos. Reparemos: a actividade abdominal em Pilates é estática e, portanto, depende sobretudo do trabalho dos membros inferiores, os quais se afastam progressivamente do tronco, aumentando o desafio do centro corporal. Se este afastamento for excessivo, rapidamente o praticante irá começar a tremer, o que significa que está a entrar em fadiga. Nesta altura, não só já não estamos a trabalhar o transverso abdominal, como, provavelmente – e isto sim é grave – já estamos a utilizar a coluna vertebral como ponto móvel (por falta de estabilização), o que significa que a coluna está a ser sacrificada, a cair em lordose (arqueamento), e a musculatura paravertebral está a ser utilizada.
Nesta altura, o objectivo central do Pilates foi traído. E os potenciais benefícios da prática do método transformaram-se em riscos. A prática de Pilates não é assim isenta de efeitos adversos (aliás, devemos desconfiar de todo o método que se diga isento de efeitos secundários). Se praticado sem cuidado e com esforço excessivo, estaremos a construir posturas em lordose, extremamente tensas, muitas vezes confundidas com “boas posturas” só porque o indivíduo se encontra aparentemente mais “esticado”; na realidade, o corpo está apenas a sujeitar-se a uma tensão crescente. E para isso, então mais valia que as pessoas se entregassem à irracionalidade da musculação e outras formas de treino forçado.
O método Pilates poderá constituir o melhor método de trabalho postural, mas apenas se realizado com cuidado e racionalidade (daí que, a meu ver, todo o trabalho de Pilates deveria ser feito com a coluna lombar completamente assente no colchão, e não em posição neutra). A máxima “no pain, no gain” é completamente descabida na prática deste método.
Para além disso, visto que queremos um corpo mais livre de tensão e uma postura mais saudável, a prática de Pilates não pode dispensar o alongamento. Este deve ser o mais global possível, deve incluir o estiramento da cadeia posterior (para evitar que a mesma se encha de tensão), e – fundamental – deve estar presente essencialmente no início do treino, e não no fim, como tem sido habitual. O alongamento deve estar presente antes do treino de força, para libertar o corpo de tensão e preparar o mesmo para o trabalho de estabilidade, diminuindo assim o risco de criar pontos de retracção espinhal. E é no início que o alongamento produz os máximos resultados e não no fim quando o corpo já está quente e artificialmente propenso ao estiramento (o alongamento final serve somente para evitar a fixação do corpo em posições de tensão).
Para ser totalmente efectivo, o trabalho de Pilates deve incluir os exercícios básicos de força do centro abdominal, associados aos alongamentos próprios da Reeducação Postural Global, ou mais precisamente, do Stretching Global Activo. Assim sendo, proponho um Pilates diferente do habitual, mais ecléctico, ou então, uma prática denominada Pilates-Stretching, ou melhor, “Stretch-Pilates”, a prática ideal de reeducação postural em grupo, que venho ensinando há alguns tempos.
Princípios e metodologias de treinoAo assentar fundamentalmente no treino do transverso abdominal, o método Pilates apresenta-se sobretudo como uma fonte de estabilidade do centro do corpo. Qualquer fisioterapeuta de neurologia sabe que é impossível obter a estabilidade dos membros e a mobilidade das extremidades sem que o tronco possua estabilidade. Quanto mais estável e seguro for o tronco, maior é a eficácia de todo o trabalho do corpo. Aliás, se o tronco for suficientemente estável, o trabalho dos membros será relativamente fácil de ser gerido.
Assim sendo, se o trabalho de Pilates parece gerir-se por um músculo ou conjunto de músculos muito precisos, no fundo, todo o corpo está globalmente envolvido no treino de Pilates. E de uma forma extremamente inteligente, abrasiva e mentalista. A força é, portanto, obtida de dentro para fora. É no fundo um método assente na criação de uma base de segurança central que vai fluindo progressivamente em direcção às extremidades.
O treino de força muscular no método Pilates é realizado fundamentalmente de forma estática e excêntrica, o que representa uma franca evolução relativamente aos métodos de fortalecimento mediante a utilização de elásticos e pesos. O treino estático e excêntrico permite o fortalecimento do corpo sem colocar em risco a sua flexibilidade e, portanto, a sua postura. Posso dizer que muitos treinadores e fisioterapeutas têm muito a aprender com o Pilates, principalmente aqueles que pensam que a recuperação de lesões depende da transformação do indivíduo numa espécie de culturista.
O trabalho em Pilates é, como tal, extremamente indicado para os sofredores de osteoporose, fraqueza muscular generalizada, fibromialgia e doenças reumáticas em geral.
Da filosofia de estabilização central, partem quase todos os princípios do método Pilates. Passo a resumir os principais princípios do método, segundo a metodologia do Pilates Institute, escola onde me especializei.
Primeiro princípio: Concentração. É impossível praticar Pilates sem que as pessoas permaneçam em total concentração nos movimentos. É necessária portanto uma certa capacidade de abstracção relativamente aos problemas da vida e às nossas neuroses particulares, o que, para alguns, representa um verdadeiro desafio. O treino de consciência corporal é extremamente importante; só mais tarde os movimentos e as posturas serão, de certo modo, automatizados. O método Pilates é dito holístico, integrando corpo e mente, mas não vamos cair em ilusões (evitando o pretenso arrogo do holismo que certas medicinas não convencionais exploram até à exaustão); pessoas depressivas e/ou obsessivas terão a tarefa complicada, mas podem e devem lutar para se integrarem no espírito Pilates. De qualquer forma, o método Pilates facilita muitíssimo o estado geral de tranquilidade e relaxamento corporal, principalmente se forem integradas técnicas de relaxamento e de alongamento global.
Segundo princípio: Respiração. Já nos métodos fisioterapêuticos de reeducação postural a respiração controlada é condição fundamental de melhoria da postura, pois todas as cadeias musculares interagem com a cadeia respiratória. Uma expiração prolongada e bem controlada pode ser suficiente para trabalhar bem a musculatura abdominal profunda; por outro lado, ajuda no alongamento do diafragma, músculo lordosante e criador de tensões. Portanto, o controlo respiratório é fundamental no método Pilates, sendo que a inspiração é feita para as costas e a expiração coincide com o trabalho máximo do transverso abdominal.
Terceiro princípio: Centralização. É o princípio óbvio do método, que tem vindo a ser explicado ao longo do texto. O trabalho de estabilidade abdominal consiste no trabalho de controlo do “centro”.
Quarto princípio: Controlo. Está relacionado com o princípio anterior. O objectivo do método consiste no controlo do centro abdominal, conseguido através da estabilização da coluna, durante a realização de movimentos lentos e precisos. É este tipo de controlo que falta à maioria dos sofredores da coluna vertebral, muito especialmente aos indivíduos com hérnias discais. Não devemos esquecer que o método Pilates tem sido referido muitas vezes como o método da Contrologia.
Quinto princípio: Precisão. O método Pilates depende da realização de movimentos precisos, realizados num correcto alinhamento.
Sexto princípio: Movimentos fluídos. É a secção dinâmica do Pilates. Os movimentos são fluídos como que movidos por uma dança de beleza indelével, sempre à velocidade dos movimentos respiratórios.
Sétimo princípio: Isolamento. O trabalho dos grupos musculares é feito de forma específica e isolada.
Oitavo princípio: Rotina. Não significa fazer o mais do mesmo. Significa perseverança e assiduidade, pois os resultados vão-se acentuando com o tempo.
Assim sendo, o método Pilates permite o trabalho máximo do controlo corporal e postural, o trabalho do equilíbrio e consciencialização corporal, o trabalho de estabilização do centro do corpo, a construção de um corpo denso e seguro, uma base de segurança para os dias imprevisíveis das nossas vidas cada vez mais caóticas.
Seja no colchão, nas bolas, nos rolos, no isotoner, no cadillac, ou em qualquer outro material, o Pilates pode e deve ser trabalhado de forma lúdica e com gosto.
É incrível como ninguém teve ainda a ousadia de adaptar o método Pilates à prática infantil. O método tem todas as virtudes de uma prática descingida e lúdica, e possui propriedades psicomotoras inquestionáveis. Poderia constituir parte de uma excelsa psicomotricidade e reprogramação postural, com todas as vantagens que a mesma teria para a melhoria da postura, dos problemas de coordenação, do síndroma da deficiência postural e das dificuldades de aprendizagem. Infelizmente, não está ainda em prática a realização de qualquer tipo de actividade adaptada às necessidades posturais e psicomotoras de tantas crianças, seja em que ginásio ou escola for.
O método Pilates não foi feito para emagrecer ou pelos seus efeitos no sistema cardiovascular. As pessoas que o procuram sabem que ele não interessa a esse objecto. As pessoas que o procuram querem sim possuir um controlo significativo sobre os seus corpos, as suas vidas e os seus problemas. O método não constitui uma panaceia! Mas não está longe de tal categoria.
Como já disse, o método deveria chamar-se sobretudo Stretch-Pilates, nome que dou oportunamente aos mecanismos de reeducação postural em grupo. O meu trabalho particular, e o que sugiro a muitos instrutores, consiste na sequência alongamento – mobilidade – força – alongamento. O alongamento liberta, facilitando a liberdade de movimento. Com o alongamento e a mobilidade, libertámos o corpo de tensões e preparámos o corpo para o trabalho de força e controlo. No fim, voltamos a libertar o corpo com o alongamento, para que este não fique preso em posições de força. Mais investigação é necessária para se perceber que tipo de metodologia deve ser adoptada no treino de Pilates.
Independentemente do nome a se dar ao método, o Pilates tem motivos de sobra para se manter como actividade da moda. Nem que seja pela incomensurável beleza dos seus gestos, realizados sempre com a graciosidade de uma flor que se abre para o mundo.
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