domingo, abril 22, 2007

Reconstrução Postural. Tradução do Vídeo “The Postural Reconstruction: a innovative kinesitherapy”

O texto que se apresenta seguidamente corresponde a uma tradução realizada a partir do vídeo com o título acima indicado, presente no site http://www.reconstruction-posturale.com/. É sobretudo a base teorética do método mais científico e integral da reeducação postural: a Reconstrução Postural. É preciso atender à possibilidade de existência de alguns “espaços” de tradução mais livre, assim como ao acrescento de notas entre [ ].
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A Reconstrução Postural constitui um método de fisioterapia único que emergiu em 1992. Foi desenvolvido a partir do trabalho de Françoise Mézières, a famosa fisioterapeuta francesa que morreu em 1991. Este método consiste num sistema de técnicas desenhadas para normalizar a tonicidade muscular inerente às mudanças musculares. As modificações musculares e de alinhamento biomecânico são tratadas por um método baseado na evidência...
Similarmente a qualquer outra forma de reabilitação, o objectivo da Reconstrução Postural consiste no alívio da dor do sistema músculo-esquelético e na restauração da função. Desde 1992, a Reconstrução Postural tem tido um longo percurso de trabalho teorético e clínico/prático. O famoso método Mézières, um método fundamentalmente empírico e marginal, tornou-se num trabalho de utilização corrente. O trabalho de Mézières, os seus fundamentos da teoria biomecânica e a sua personalidade carismática contribuíram para atrair milhares de fisioterapeutas de todo o mundo interessados em aprender sobre o método controverso e ousado a partir da própria criadora (Françoise Mézières).
Dez anos depois da morte de Mézières, um observador/estudioso do método da Reconstrução Postural só pode encontrar nele nada mais do que alguns traços do método Mézières. A Reconstrução Postural é actualmente um método autónomo, com técnicas e tácticas próprias, para além de possuir uma independente identidade conceptual.
A Reconstrução Postural: O que é?
Há vários séculos que os “terapeutas” têm tentado entender a origem e o mecanismo das deformações do corpo humano e do seu sofrimento. Os métodos de tratamento costumam ser escolhidos a partir da orientação do terapeuta e da forma como este avalia o alinhamento biomecânico do doente. Assim como algumas pessoas olham para “as montanhas e picos” que naturalmente atraem o olhar, é também verdade que o terapeuta olha de maneira análoga para o conjunto do corpo humano. Ou seja, os terapeutas [e outros profissionais de saúde] têm uma maior tendência para perspectivar os escarpins e as cifoses do corpo antes de olharem para as lordoses. Consequentemente, qualquer tentativa para imaginar o mecanismo responsável pela deformação mecânica presente no corpo do paciente leva a que o observador tenha em consideração o factor gravítico e a inabilidade dos músculos de se contraírem para contrariar a força da gravidade. De facto, todas as técnicas e terapias que se baseiam nesta interpretação das deformações [ou seja, as deformidades com causa em músculos fracos que não conseguem contrariar a força gravítica] tendem a valorizar o papel do “fortalecimento” de certos músculos, como o ‘erector da espinha’. Estas técnicas, todas elas promovem o fortalecimento muscular enquanto estratégia de tratamento da dor e disfunção.
A partir do momento em que os terapeutas passam a concentrar-se no papel das ‘lordoses’ ou concavidades do corpo, o aspecto dominante do corpo que acaba por sobressair consiste num encurtamento muscular que provoca o achatamento destas depressões. O conjunto das lordoses cervical e lombar estão na origem de uma outra zona – dita de transição – que possui o aspecto de uma cifose (dorsal).
Existem inúmeras técnicas de stretching muscular que estão já de acordo com esta forma de ver as deformidades mecânicas. Ainda que muitas dessas técnicas sejam realizadas de uma forma “global”, elas não permitem a correcção manual e individual do terapeuta [portanto, não permitem a correcção das compensações] e o trabalho num sistema neuro-músculo-esquelético visto como um todo. O trabalho de reeducação postural não pode ser feito como se o corpo fosse meramente um elástico gigante.
É preciso entender que os músculos que estão envolvidos nas deformidades posturais possuem uma organização em “cadeias musculares”, o que quer dizer que estão unidos entre si como se fossem “trilhos”. Há quatro cadeias musculares no corpo humano: a longa cadeia posterior, a cadeia anterior da coluna cervical, a cadeia anterior da zona lombar e a cadeia braquial.
Desde há uns tempos para cá que diversos estudos electromiográficos têm demonstrado que o equilíbrio é mantido por contracções musculares constantes e mínimas. Consequentemente, pode perceber-se que as deformidades biomecânicas não são provocadas por fraqueza muscular, assim como as técnicas de reeducação postural não podem partir do fortalecimento muscular.
Nos seres humanos, a posição de pé é controlada pelo tónus muscular, resultando de um controle central inconsciente e involuntário. A Reconstrução Postural baseia-se no pressuposto de que as deformidades biomecânicas e posturais têm origem em desequilíbrios do tónus muscular. Assim sendo, uma terapia, para ser bem sucedida na correcção das deformidades posturais, tem de se basear em técnicas de normalização do tónus muscular postural.
Outros métodos que seguem um modelo semelhante, diferentes da Reconstrução Postural, como o PNF, visam a correcção de desequilíbrios tónicos posturais. Nestes métodos, são utilizadas técnicas de evocação e/ou facilitação da função de modo a induzir respostas distais evocadas. Apesar de a “resposta evocada” ser produzida por uma “indução” específica, ela pode ser generalizada a outros locais...
Em termos de tratamento, as respostas evocadas mais interessantes são aquelas que estão relacionadas com o exacerbar de uma hipertonicidade preexistente, respostas que podem surgir num ponto muito distante do estímulo inicial. Por exemplo, num determinado movimento dos tornozelos do doente [na postura de alongamento da cadeia posterior com o doente deitado em decúbito dorsal e com os membros inferiores elevados, contacto manual do terapeuta nos pés do doente], o terapeuta pode estar a influenciar a posição da cabeça [através do jogo de compensações próprias do corpo], procurando “forçar” a reacção compensatória, agravando-a de propósito, até que surja um novo estímulo capaz de produzir uma resposta correctiva final. Nas imagens [do vídeo], pode ser verificada uma primeira reacção de rotação e flexão lateral da cabeça [como resposta a um estímulo dado no tornozelo]. Este primeiro “estádio” consiste na indução de uma resposta evocada que resulta no exacerbar da deformidade. O segundo estádio consiste na provocação de um estado de exaustão da resposta de hipertonicidade [a tal resposta na forma do acréscimo da deformidade], sendo que se pode observar o regresso da cabeça a uma posição neutra; a manutenção desta posição de neutralidade por vários minutos ira esgotar a reacção patológica de hipertonicidade, assegurando a estabilidade da nova reacção correctora. À semelhança do que acontece com a “terminologia biomecânica”, a distância entre o ponto onde o terapeuta induz a resposta [que podíamos muito bem de apelidar de “ponto-chave de controle”... por motivos lógicos de quem conhece minimamente o método Bobath] e o ponto onde a resposta surge corresponde ao “braço da potência”. Quanto maior o braço de alavanca referido, ou seja, quanto maior a distância entre o ponto de evocação da resposta e o ponto onde esta surge, mais efectivo é o processo de congestão da hipertonicidade e, portanto, de produção de uma resposta correctiva.
O tratamento pela Reconstrução Postural
Depois de ter sido obtido o historial médico do doente, o tratamento pela Reconstrução Postural inicia-se com um sistema completo de avaliação. A avaliação inclui a análise da dinâmica dos desequilíbrios tónicos musculares existentes, assim como se estende à estratificação de estratégias de tratamento com o doente em causa. Por razões que estão relacionadas com a “fiabilidade da avaliação”, esta é realizada sempre com o doente na mesma posição, ou seja, com o doente completamente encostado a uma parede; de resto, toda a avaliação tende a ser feita em posições “naturais”. Nenhumas instruções são dadas, nenhumas correcções são realizadas. O reconstrutor avalia meticulosamente todas as deformações, sendo que o doente é avaliado em quatro posições: anterior, posterior, direita e esquerda. E depois, numa posição especificamente determinada, o doente é avaliado com a posição de flexão à frente com as mãos a tocarem no chão. E, finalmente, o doente é avaliado na posição de decúbito dorsal.
Posteriormente, é realizada a avaliação dinâmica das compensações. Para isso, o reconstrutor faz uso de um conjunto de movimentos fisiológicos estereotipados na mais “fechada” das amplitudes. Estes movimentos exacerbem as deformidades existentes, permitindo a avaliação dos problemas da Estática. Por exemplo, durante a elevação da perna esticada [semelhante ao Straight Leg Raising], a cadeia posterior vai estirar até ao nível da pélvis, comportando-se como uma polia. Isto vai aumentar a tensão e respectiva deformidade na parte superior da cadeia posterior [cervical], permitindo confirmar a existência de um problema de retraimento muscular.
Continuando com a avaliação dinâmica, o reconstrutor conduz o doente através de movimentos fisiológicos específicos, avaliando a intensidade das respostas e a simetria corporal. Estas respostas irão variar de indivíduo para indivíduo. Um exemplo: a flexão lateral esquerda da cervical produz, no doente, a elevação do hemi-tórax direito. Já a flexão lateral direita da cervical produz, para além da elevação do hemi-tórax esquerdo, uma reacção mais distal (uma resposta evocada distal) – a abdução do membro inferior direito. O mesmo movimento de base poderá levar a respostas diferentes em diferentes doentes. Por exemplo, numa outra doente, a “mesma” flexão lateral da cabeça para a direita produz movimentos involuntários no membro superior esquerdo. Já a rotação da cabeça para a esquerda produz, nesta doente, uma elevação do hemi-tórax direito e uma elevação da hemi-pélvis esquerda. Seria de esperar que, nesta doente, a rotação da cervical para a direita produzisse os mesmos efeitos mas em espelho que os produzidos no caso anterior (ou seja, a elevação do hemi-tórax esquerdo e da hemi-pélvis direita). Mas não é exactamente isso que acontece. Com a rotação cervical direita surge uma elevação do hemi-tórax esquerdo maior do que a que se tinha produzido no outro lado, e uma concavidade na zona lateral esquerda baixa do tronco (não se produzindo qualquer reacção na bacia ou membro inferior à direita) [significando isto, portanto, que o corpo tem realmente um comportamento assimétrico].
A avaliação inclui igualmente a palpação. Pode ser utilizada para avaliar as deformidades cervicais, assim como os resultados de determinada manobra terapêutica.
As deformidades surgem nos doentes com diferentes intensidades, dependendo em muito da posição de manifestação das mesmas. Toda a deformidade irá partir da dupla lordose cervical – lombar, como se tudo dependesse de duas forças: uma que passa de trás para a frente e de baixo para cima na lombar, e outra que passa na cervical de trás para a frente e de cima para baixo. A progressão destas curvaturas pode dar a impressão de existir uma curvatura de natureza dorsal aumentada [a cifose é portanto uma mera aparência]. A aparência da hipercifose tem dado azo a que muitos terapeutas tentem tratar as deformidades com o fortalecimento da musculatura dorsal [tratamento tradicional]... Ora, para o reconstrutor [e para qualquer mézièrista] a zona de transição dorsal é consequente de uma outra zona (lordose).
É preciso também acrescentar que a zona de “protuberância posterior” é quase sempre maior à direita da linha média [está associado à nossa escoliose “natural”], na região dorsal, havendo uma zona de concavidade direita lombar; as forças passam nesta zona “lordótica”, assim como numa zona de lordose acima da dorsal (outra concavidade direita), e vão remeter para a zona do hemi-tórax esquerdo, fazendo com que exista tendência para a sua elevação [o que explica a grande prevalência da citada deformidade nas pessoas hiperlordóticas e escolióticas]. A citada deformidade pode remeter para o aumento da lordose global posterior e para a elevação do tórax, sempre com assimetria; todas estas observações são fundamentais para a intervenção do reconstrutor.
Como já foi dito, a manobra do reconstrutor tende a agravar inicialmente a deformidade, pelo que a deformidade tem de ser bem conhecida. A escolha das posturas e dos movimentos a realizar depende muito da natureza das deformidades existentes. A manobra será considerada mais efectiva se produzir mais facilmente a deformidade a um nível distal. O trabalho deve também ser acompanhado de um treino respiratório constante. O reconstrutor adapta o trabalho de respiração a cada doente e insiste nesse trabalho ao longo das sessões.
[Como já foi dito], a fase de agravamento da deformidade tem de ser seguida de uma fase de exaustão da tonicidade, de modo a haver correcção. A correcção marca o fim da manobra. Para além da “capacidade deformante” do movimento ou postura correctora, é preciso também atender ao tamanho do braço de alavanca, sendo que será tanto mais eficiente a correcção quanto maior o citado, razão pela qual o reconstrutor sistematicamente trabalha à maior distância possível da zona a corrigir. O sucesso da sessão de tratamento depende também da capacidade que o doente tem para manter a indução pelo tempo suficiente até que surja uma resposta protectora de co-contração.
[Explicação da importância da avaliação por fotografia e radiografia]
Por vezes, a intensidade das respostas induzidas pelos estímulos do tratamento levam a que existam respostas tónicas excessivas como o clónus. Quanto maior a quantidade de reacções de tonicidade excessiva maior é a necessidade de realizar mais sessões de tratamento. Inclusivamente, um programa de exercícios para casa é normalmente necessário. O prosseguimento de um programa de trabalho de Reconstrução Postural implica um estado imprescindível de motivação.
As contra-indicações da Reconstrução Postural incluem: infecção, caso recente de cancro, e gravidez de alto risco.
De muitas maneiras, a Reconstrução Postural pode ser considerada uma quebra da tradição do trabalho de Mézières. Mas, à semelhança de muitos outros métodos, a Reconstrução Postural pode ser considerada como uma evolução do original.
[Informações sobre a formação em Reconstrução Postural na Universidade Louis Pasteur].

segunda-feira, abril 16, 2007

Mentalidade dos fisioterapeutas portugueses

Podemos dizer que os fisioterapeutas do nosso país compreendem uma classe em franca expansão. A identidade da nossa classe não está ainda completamente firmada, apesar de existirem resquícios de um certo firmamento identitário. A meu ver, a classe de fisioterapeutas divide-se sobretudo em duas expressões: a antiga e a moderna. A “antiga classe” compreende os diversos fisioterapeutas que espelham os quadros dos hospitais e os grandes lugares da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas. Esta “antiga classe” inclui alguns dos melhores profissionais que a nossa área alguma vez conhecerá. Inclui profissionais com dignidade, com apetrechos de desenvolvimento autónomo e científico; mas ainda assim não deixam de ser profissionais agraciados por um contexto sócio-laboral completamente diferente do contexto actual. Quero com isto dizer que se estes antigos profissionais constituem o cerne da grande evolução da Fisioterapia em Portugal, isso deve-se em muito ao facto de, no seu tempo, a Fisioterapia não ter tido uma expressão científica e laboral relevante, fazendo com que fosse fácil singrar neste “mundo”. Eles eram tão poucos! E tão pouco estava feito! Não era assim tão difícil progredir...
Já o mesmo não pode ser dito do contexto moderno. Somos imensos fisioterapeutas, com necessidades de trabalho num mercado “cheio” de profissionais. Não temos poder para fazer girar a situação, por mais que tentemos... E por mais formação que possuamos nunca é suficiente para as necessidades “académicas”, mas é sempre demais para as necessidades “laborais”.
Para além disso, os novos fisioterapeutas ainda são pouco reconhecidos pelos colegas mais velhos. Ainda há pouco um fisioterapeuta da “velha classe” me criticava dizendo que eu tinha, tal como todos os outros, de “fazer o caminho da pedra”. Que grande “caminho da pedra” que ele deve ter feito!!!... Numa época em que era tão fácil arranjar emprego no seio da Fisioterapia (como era há alguns anos atrás), não acredito que existisse assim tanta “pedra para bater”. Hipócritas destes há muitos na nossa classe! Tantos quantos aqueles que criticam a identidade do Fisiatra enquanto profissional... A avaliar pelas qualidades de alguns fisioterapeutas da “velha classe”, não deixo de compreender o pouco respeito que a classe médica tem pelos fisioterapeutas. Pois, é preciso perceber que o respeito dos médicos, e em especial dos fisiatras, não é uma condição pré-definida, ele tem de ser conquistado com trabalho e formação. E, na minha pouca experiência, os médicos, tanto aqueles com que trabalho como aqueles que avaliam os meus artigos científicos, têm reconhecido melhor o meu esforço científico e curricular do que os próprios colegas. Dentro do mundo da Fisioterapia, a inveja é regra e não excepção. Já vi muitos fisioterapeutas criticarem um colega pelo simples facto de estar a fazer mestrado. Há pouco tempo ouvi fisioterapeutas a chamarem “pedante” ao prof. Raúl Oliveira pelo simples facto de ser professor e ter evoluído. E quantos não riem do Paulo Araújo, chamando-o maluco pelas suas “inovações”, ou do prof. António Manuel Fernandes Lopes (“E até o tratam por Doutor” – como me dizia há pouco uma colega), pela sua invejável posição no mundo da Fisioterapia. À presidente da nossa APF chamam muitas vezes de “Tia”. E ainda há uns dois anos atrás, determinado chefe de serviço dizia-me que “a Isabel de Sousa Guerra está a levar nas lonas no Egas Moniz com o novo sistema hospitalar”... E a Prof. Doutora Gomes da Silva que se dá ao luxo de utilizar o título de “Professora Doutora”... “É por isso que estamos como estamos” – dizia-me outro chefe de serviço.
É verdade! Há muita intriga no meio da nossa classe. Muita inveja dos que ainda vão fazendo alguma coisa. É verdade que a APF constitui uma elite, mas mil vezes a elite inteligente, que vai tentando fazer alguma coisa por nós, do que aqueles pacóvios invejosos que enchem os serviços dos hospitais ou os outros fisioterapeutas hipócritas que são, por exemplo, directores de serviços.
Saiba-se que o futuro da fisioterapia pertence aos jovens e inteligentes fisioterapeutas da actualidade... refiro-me, claro, aos que ainda vão tendo a dignidade de percorrer determinado percurso científico e laboral, sem aceitar qualquer contexto de trabalho e desenvolvimento. Dentro da “nova classe” temos fisioterapeutas bem formados, mas com grandes dificuldades de inserção profissional. É de reparar que, dentro da “velha classe”, são muitos os fisioterapeutas desactualizados e sem grande maturidade intelectual e académica. Refiro-me não aos fisioterapeutas que fizeram a Fisioterapia singrar, mas a todos aqueles que se sentaram à sombra da bananeira, aqueles que só dizem mal dos velhos colegas que se mexem e dos novos que são promissores.
E não me venham com a conversa da Experiência. E com o argumento de que “o velho é que é bom”. O bom fisioterapeuta não pode ter muita experiência, pois, no nosso país, quanto mais experiência se possui mais se chafurda (e por mais tempo) no que a Fisioterapia tem de mau. É preciso ser-se profissional de várias experiências, não necessariamente de muitos anos, mas sim de diversos contextos. O fisioterapeuta experiente não é aquele que se mantém no mercado por mais tempo. É sim aquele que luta durante mais tempo por um lugar onde pode ser um fisioterapeuta digno!!! E aquele que vive mais a experiência que possui. Aquele que investiga, aquele que lê, que estuda, que “pensa”, que luta sem medo daqueles que se acham “donos do sistema”. O bom fisioterapeuta será sempre um ser inconformado, como o foram os grandes mestres da humanidade. Mas, no nosso país, tende a barrar-se o caminho aos inconformados, chamando-os de pedantes e criticando a sua experiência, e acusando-os de lançar o ódio à classe.
O meu blog tem sido mais criticado e atacado do que perspectivado com optimismo. Por vontade de muitos colegas, eu não escreveria o que escrevo. Também por vontade de muitos colegas eu não tinha publicado metade do que já publiquei. Lembro-me que há uns anos atrás umas “especialistas” em neurologia, fisioterapeutas experientes, acusavam-me de não saber o que dizia acerca das minhas críticas ao sistema de Bobath. As mesmas senhoras alegaram que era impossível constituir um artigo sobre a intervenção do fisioterapeuta na espasticidade. Aquilo que alguns fisioterapeutas do Hospital de São José e outros do CMR Alcoitão consideraram impossível de se fazer foi conseguido por mim e outros co-autores num artigo que agora está publicado na revista Sinapse. E nós não somos especialistas!...
E podia contar muitas outras histórias, como aquela em que certa fisioterapeuta chorou no dia em que falei dos “rolos de reeducação postural” no meu blog. Que mal ter desmistificado determinada prática!... Para os fisioterapeutas da “velha classe”, ou nada se faz ou se fez de mais... Não se pode é chamar a atenção. Arriscamo-nos a ser engolidos pelo sistema!...

(Dedico este texto a todos os fisioterapeutas que, à minha semelhança, têm sofrido com o jugo de poder e inveja de muitos dos nossos colegas – e isto inclui velhos e novos profissionais. O pior inimigo do Fisioterapeuta é o próprio fisioterapeuta, disso não tenhamos dúvidas... Os que tentam “progredir” vêem os seus esforços ser diluídos num mar de desilusões!!!)

quinta-feira, abril 12, 2007

Morfoanálise e algumas reflexões

Se é justo considerar o método Mézières como a “psicanálise do corpo”, visto que é esse o método que constitui o veículo de intervenção global ao nível da arquitectura e arqueologia corporal, não é de espantar que exista um método mézièrista denominado de “morfoanálise”. De certa maneira, é o nome mais adaptado àquilo que fazemos em Reeducação Postural: uma contínua análise da postura, associado ao necessário e consequente Reajuste Postural.
À semelhança de certos métodos grupais como a Antiginástica e o método Corpo e Consciência, a morfoanálise desenvolveu-se sobretudo como método psicossomático. Aliás, o seu axioma corresponde ao seguinte: “O bom equilíbrio está directamente ligado ao desenvolvimento da sensibilidade física e emocional”. É, portanto, mais um dos variados métodos que propugnam a indecomponível ligação corpo-mente.
Elaborado por Serge Peyrot, não parece constituir mais do que uma outra interpretação das variadas cambiantes do método Mézières. Aliás, tal como todos os outros métodos mézièristas, o terapeuta morfoanalista trata um ser total, uma unidade corpo-mente, favorecendo o trabalho da sensibilidade proprioceptiva e a reequilibração do tónus.
É, como tal, semelhante à Reconstrução Postural, com a desvantagem de ser mais teoria do que ciência.
Mas a propósito da grande generatividade do método Mézières, não posso deixar de reflectir sobre algo que todos os métodos mézièristas têm em comum, que é a “lentidão” do processo de trabalho terapêutico. Ou seja, tal como a psicanálise auxilia na “reconstrução” e “reinterpretação” psíquica do sujeito ao longo de vários e longos anos, também os métodos de reeducação postural actuam longa e lentamente, o que pode originar diversas dúvidas ou questões de ordem ética e metodológica.
Refiro-me àquela persistente dúvida que o terapeuta guarda no seu mais íntimo ser que é a seguinte: “Vale a pena todo este trabalho?”. Ora, é verdade que a intervenção em reeducação postural demora tempo, muito tempo. Por vezes, o mero trabalho de redução da tensão sem originar compensações leva vários meses. Por exemplo, tenho uma doente com uma escoliose, que possui tal tensão muscular a nível de toda a cadeia posterior que passo grande parte do tratamento a tentar reduzir a tensão da nuca e restante porção superior da cadeia posterior. Não vejo, portanto, a hora de conseguir “desfazer” a retracção que origina a escoliose. Vejo-me tentado a afirmar que o trabalho de reeducação postural sério precisa de ser realizado com uma temporalidade superior àquela que tem sido defendida. Ou seja, se muitos teóricos têm defendido que o trabalho de Mézières é para ser feito no máximo uma vez por semana, eu diria que não há razões verdadeiras para que o trabalho de alongamento global não se faça pelo menos uma vez por dia, todos os dias sem excepção!!! Refiro a minha experiência pessoal: se há um ano atrás possuía franco encurtamento da minha cadeia posterior, um trabalho persistente e diário de treino de posturas de alongamento global fez com que eu progredisse mais de 20 cm no teste “sit and reach”. Mas ainda assim, num ano de trabalho, com tal progresso da minha flexibilidade, apesar de ter melhorado da minha tendência cifótica dorsal, certos caracteres posturais (como os meus joelhos valgos) não se modificaram por aí além. Não quer isto significar que não conseguirei ter outro género de progressos com mais tempo ainda de trabalho postural.
Mas vejamos bem o tempo que é necessário para conseguir resultados... E com intervenção diária! Será que as minhas classes de “ginástica postural” ou os meus tratamentos mézièristas semanais não serão uma espécie de “engodo” para os meus doentes?... Não será minha obrigação explicar-lhes que o trabalho de reeducação postural é extremamente prolongado e moroso, e que resultados consideráveis só poderão ser conseguidos com a utilização de tempo e dinheiro de uma quantidade inacessível a muitos?... E questão ainda mais importante!... Será que vale a pena ser um terapeuta de “reeducação postural”? Não será mais “realista” para todos se for um terapeuta de tratamento sintomático, daqueles que resolvem as coisas rapidamente, apesar de nunca chegarem às causas dos problemas?... De qualquer maneira, a intervenção causal pode demorar toda uma vida a dar resultados concretos...
Que fazer quanto às dúvidas? Serei um bom terapeuta se começar a duvidar dos meios que estão ao meu dispor? Será que vale a pena continuar pelo o mesmo caminho? Ou será que vale sempre a pena lutar pela Verdade, por mais longínqua que ela se situe???...
Tantas dúvidas, tantas questões... E tão poucos são aqueles que reflectem nestes aspectos... Vale ou não a pena?... Ser ou não ser?... Eis a questão... Questão aporética, que muitos respondem com o que acreditam e não com a lógica da resposta madura...

segunda-feira, abril 09, 2007

Global Fisio e afins – é esta a nossa situação!

Lá porque escrevo neste blog e trato de assuntos que dizem respeito à fisioterapia especializada nem por isso deixo de ser um fisioterapeuta que trabalha somente em Part Time e que, como tal, busca mais tempo de trabalho. Na passada quinta-feira recebi um telefonema segundo o qual teria de estar presente numa entrevista segunda-feira às 09h30 na sede da Global Fisio em Telheiras. Esperava encontrar uma Clínica ou um escritório, onde pudesse ser entrevistado com tempo e condições, mas o que encontrei foi uma sala de formação já com diversos outros fisioterapeutas lá dentro, todos eles apanhados na mesma “ratoeira”. É que, ao contrário do que se podia esperar, ao invés de uma entrevista, fomos todos reunidos num grupo e fomos sujeitos a uma boa dose de “formação” acerca dos valores e objectivos da empresa. Mais tarde apresentámos oralmente um resumo dos nossos currículos (não sei bem para quê visto que a empresa já possuía os nossos currículos escritos). E depois de toda esta “farsa” percebi finalmente por que estávamos ali todos presentes. Aconteceu que foi-nos pedido para escrever numa folha de papel o nosso nome, dentro do qual deveríamos referir a importância pela qual desejávamos ser pagos. Muito interessante este sistema de selecção. As coisas chegaram a um ponto que as empresas deixaram de estabelecer um determinado preço, passaram antes a “comprar” o profissional mais barato. E a prova estava à vista: quando foi feita a “filtragem” de profissionais, ficaram três “sortudas” (será???) que não eram de forma alguma as três pessoas que, segundo o que pudemos constatar, apresentavam o melhor currículo. As pessoas que trabalhavam há mais tempo ou aquelas que estavam a fazer mestrado e outros cursos não passaram na “filtragem”... Então qual foi o critério de selecção? Claro que só pode ter sido a “quantidade” de dinheiro que os fisioterapeutas pediram. Pois é bom que saibamos que a nossa profissão não é mais uma profissão em que valha a pena ter bom currículo. As capacidades do profissional de nada lhe valem. Somente a capacidade para ser explorado! Estamos a caminho do FIM!

quarta-feira, abril 04, 2007

Educação e Fisioterapia em Portugal

A discussão acerca da formação dos profissionais de saúde portugueses assume-se como um tema de estrita actualidade e necessária provocação discursiva, com base numa necessidade urgente de análise psicossociológica abrangente. É certo que o número de escolas superiores de enfermagem e de tecnologias de saúde aumenta de forma exponencial, mas menos incontroversa é a questão relativa à qualidade da formação gerida nessas mesmas instituições.
Num país em pleno crescimento como o nosso, não é irrealista considerar que a educação constitui a base do crescimento sócio-económico e cultural das empresas e instituições. Uma boa educação é e será sempre a base fundamental da cristalização de uma cultura fecunda e da morigeração de uma sociedade. Mas ainda assim, não podemos deixar de considerar o conjunto das necessidades recursivas e de mercado da sociedade ou sistema em questão (admitindo, claro, que essas mesmas necessidades variam consoante as modificações sofridas pela estrutura funcional do tecido social).
Ora, acontece que, por qualquer razão difícil de compreender, o discurso educacional do nosso país parece ancorar na estandardização imoral e na anquilose visionária; isto no sentido em que as nossas Instituições “vendem” um discurso apelativo à Educação, nomeadamente à realização de formação superior, sem que sejam tidas em conta as necessidades reais dos cidadãos especificamente formados. Simplificando, deve ficar bem explícito que o número de cursos superiores (e respectivas vagas de funcionamento), seja em universidades públicas seja em universidades privadas, é bastante superior às necessidades profissionais do mercado português. Claro que pode sempre ser afirmado que o que tem de mudar é o mercado e não o paradigma educacional, mas eu diria que a mudança do mercado exige a prescrição de mudanças sociais extremamente lentas (por mais dinâmico que seja determinado Governo), não assimiláveis pelo “crescimento numérico” das vagas do ensino superior.
É importante ter em conta que, desde o 25 de Abril, as universidades têm vivido um momento especial, em busca de ampliar a sua relevância social. Se as universidades eram muito respeitadas no Estado Novo, é certo que o seu papel social não era bem compreendido e que as necessidades universitárias não correspondiam às necessidades de mercado. Por outro lado, com a entrada na democracia, houve uma revolução nas “ciências da educação” e no modo de perspectivar as Universidades de tal modo célere e agigantada que rapidamente chegámos a um estado de caos no mundo da informação e da formação superior. Aliás, é importante atender ao facto de que muitos cursos médios passaram a constituir cursos superiores, com a democratização do sistema. Muitas escolas passaram a universidades. E as universidades cresceram a olhos vistos. E, claro, estando o sistema liberalizado, as universidades particulares multiplicaram-se sem controlo.
Infelizmente, no decorrer de todo este processo “histórico”, nunca foi criada legislação palpável acerca do número de vagas passíveis de serem criadas para os diversos cursos superiores, assim como nunca foi criado um sistema exigente e coercivo de regras de delimitação da criação de novos cursos nas diversas universidades.
Enquanto fisioterapeuta que sou, posso testemunhar o exemplo da educação em Fisioterapia, enquanto “modelo” da tendência sócio-histórica anteriormente referida. Lembro-me perfeitamente que no final da década de 1990, estava a iniciar o curso de Fisioterapia, o qual era considerado como sendo de “saídas fáceis” e de acessível inserção numa carreira do Serviço Público. Por esta altura, existiam, a nível nacional, cinco escolas de Fisioterapia: a Escola Superior de Saúde do Alcoitão (ESSA), a instituição mais antiga e de referência incontornável, as três escolas superiores de tecnologias de saúde (Lisboa, Coimbra e Porto) e uma escola num Instituto Piaget no norte. Posso garantir que, por esta altura, a Fisioterapia ainda estava ao nível do bacharelato e a única escola que possuía um corpo técnico especializado e de referência era a ESSA. Mesmo nesta escola, a grande maioria dos professores não possuía formação para além da CESE ou da DESE. E aproveito para dizer que, apesar de ser uma instituição privada, a ESSA possuía um nível de exigência de ensino notório, com uma educação do tipo “universitário”, mas com uma exigência superior à de muitas universidades (e públicas). Falo tanto como fisioterapeuta como alguém que realizou outras formações noutras universidades.
Por volta de finais de 2003 já estava no término do curso. Mas, em poucos anos, as coisas mudaram muito significativamente, e a realidade agora era outra. A Fisioterapia era agora uma licenciatura (do tipo bietápico), o que fez, em termos práticos com que diminuísse a carga horária de trabalho e com que as aulas teóricas passassem a ser de presença facultativa. A exigência geral do curso diminuiu, ao invés de aumentar. E muitos professores de referência “fugiram” para outras escolas... Outras escolas... Agora vem a grande “evolução”!... As escolas de ensino da Fisioterapia passaram de cinco para dezassete. E vem depois toda a panóplia de consequências...
Como é possível tantas escolas terem sido tão rapidamente aprovadas e legitimadas, com corpos docentes formados muitas vezes com fisioterapeutas sem qualquer tipo de competência académica?... É impossível perceber! Ora, é certo que o número de pessoas que necessitam de Fisioterapia é enorme, mas também é certo que a grande maioria dessas pessoas compreende uma classe idosa e dependente do Serviço Nacional de Saúde, o que faz com que sejam mais facilmente tratadas em “massa” e, muitas vezes, somente por auxiliares. Se a isto acrescentarmos o lógico aumento do número de fisioterapeutas, então podemos perceber que a Fisioterapia deixou de ser considerada uma “profissão de futuro”.
Sejamos concretos! O número actual de fisioterapeutas é superior a 4000. Há cinco anos era inferior a 3000. E a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas prevê um aumento do número de fisioterapeutas para um número próximo de 7000 até 2010. Como tal, todos aqueles que entram com notas de 16 e 17 nos cursos de Fisioterapia e que sonham com uma carreira de sucesso podem contar com a existência de uma profissão destinada ao desemprego. É claro que as coisas podem mudar. Um programa eficaz de crescimento dos cuidados de saúde primários e continuados pode ajudar a empregar muitos fisioterapeutas. Mas, ainda assim, é necessário haver um “corte” de raiz ao nível do número de vagas e do número de cursos. A entrada no processo de Bolonha poderia e deveria ajudar a aplicar o “golpe” necessário, através da criação de novas exigências de formação por parte dos corpos docentes. Porém, estamos a assistir a um contínuo adiamento do processo de aditamento dos princípios de Bolonha, sendo que se tem permitido a “evolução” académica do ensino dito politécnico (no qual se inclui grandemente a Fisioterapia), com a desvantagem de serem criadas as condições de legitimação das diversas instituições (e bem sabemos que é cada vez mais fácil fazer um mestrado ou um doutoramento...).
Como iremos mudar as coisas? Apenas com frieza! E muito rigor. É tempo de deixarmos de permitir a irracionalidade. É tempo de protegermos os nossos formandos, os jovens que mais tarde quererão trabalhar e viver de forma autónoma.
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Publicado parcialmente no boletim da APF de Setembro 2007
Publicado na revista 'Medicina e Saúde' de Fevereiro 2008

sábado, março 31, 2007

A propósito da fisioterapia no Brasil

Nunca estive no Brasil. Como tal, tudo o que possa dizer sobre a fisioterapia no Brasil é pouco mais do que mera conjectura. Mas vem este texto a propósito da grande quantidade de formações na área da “Reeducação Postural” que se realizam e têm realizado, talvez com um certo marketing diabólico, nesse país sul-americano. Efectivamente, no Brasil, as formações de fisioterapia são inúmeras, e a motivação para a formação e a informação acerca da Fisioterapia é extremamente diversa. E é bom sublinhar que vale realmente a pena ver como a fisioterapia tanto evoluiu no Brasil. Inclusivamente, o facto de tudo ser considerado “Fisioterapia”, como a osteopatia e outras medicinas físicas não convencionais (tudo isto é visto no Brasil como “ramos” ou “especialidades” da fisioterapia), considero-o o “ideal” em termos metodológicos... O estatuto do fisioterapeuta e a autonomia do seu trabalho parecem-me anos luz mais evoluídos no Brasil do que aqui em Portugal. A Fisioterapia é vista como uma “matéria” universitária, digna de boa investigação. Isto, claro, no Brasil, talvez mais do que em muitos países europeus. Aqui em Portugal ainda vivemos na “idade da fogo”, na idade em que ainda estamos a tentar compreender como manter o “fogo” aceso sem que se apague. Não sei realmente muito acerca das saídas e oportunidades profissionais dos fisioterapeutas brasileiros, mas, pelo pouco que me tem sido dado a ver, parecem-me mais do que aquelas que temos em Portugal. Acabaria este texto dizendo a todos aqueles fisioterapeutas brasileiros que pensam vir trabalhar para Portugal (sei que não são poucos), desenganem-se acerca das nossas “oportunidades”. As coisas por aqui estão a ficar bem “negras”. E, com o pouco reconhecimento e a limitada esperteza dos nossos fisioterapeutas, não sei muito bem onde se vão colocar os novos dois ou três mil fisioterapeutas que se vão formar até 2010...

terça-feira, março 13, 2007

Reconstrução Postural: resultados (exemplo)




A Reconstrução Postural

O método da Reconstrução Postural constitui não só uma fonte de renovação metodológica relativamente a Mézières, mas também o resultado de um trabalho exploratório e casuístico muito significativo, o que só pode ser explicado pelo facto de o método ter sido desenvolvido num contexto académico, nomeadamente no contexto de formação base e pós-graduada da Universidade Louis Pasteur (Strasbourg, França).
A Reconstrução Postural difere do método Mézières em diversos aspectos, nomeadamente (Nisand, 1997; Jesel, 1999; Callens, 2004; Nisand, 2004): (a) Nisand descreve pormenorizadamente a cadeia anterior do pescoço, sendo que passamos a falar sobretudo de quatro grandes cadeias musculares: a grande cadeia posterior, a cadeia ântero-interna (diafragma e psoas), a cadeia braquial e a cadeia anterior do pescoço. (b) Propõe uma nova interpretação da lógica das compensações, salientando a importância de um conjunto de respostas neurológicas aquando do movimento (respostas evocadas) e o contributo dos centros neurológicos centrais para o surgimento das deformidades. Assim sendo, o tratamento passa não só pelo alongamento global das cadeias musculares, mas também pelo trabalho de consciencialização corporal com base na estimulação neuro-sensorial (ou seja, na modificação do padrão de excitabilidade muscular das cadeias posturais), de modo a que os alongamentos possuam um efeito de neuroplasticidade adaptativa eficaz e não só um efeito de modificabilidade temporária do tónus. (c) O método da Reconstrução Postural propõe uma outra forma de interpretar o aparecimento de dor. A dor não tem origem na própria deformidade, mas sim na incapacidade que a estrutura hipertónica tem de se deformar.
A partir destas diferenças, o método de tratamento por Mézières por meio do estiramento em “contracção isométrica excêntrica” transforma-se num meio de tratamento por “solicitação activa induzida” (Reconstrução Postural), ou seja, da postura trabalhada passivamente passa-se para um trabalho de carácter mais activo, mediante a facilitação de padrões de postura por meio de “pontos-chave” (veja-se a semelhança com os pontos-chave de controlo da abordagem neurofisiológica de Bobath), partes do corpo que são sujeitas a movimentos de grande amplitude com o objectivo de induzir ou solicitar determinado padrão postural. As posturas em Reconstrução Postural são obtidas, portanto, a partir de pontos periféricos precisos, e são mantidas não por tempos necessariamente muito prolongados (Mézières), mas até ao ponto em que se verifique a normalização tónica. O agravamento da dismorfia é, ao contrário do que ocorre com o método Mézières, uma condição obrigatória para se obter a postura normal, é um ponto de passagem para a obtenção de um padrão postural correcto.
Diferenças metodológicas levam a diferentes técnicas, sendo que muitas das manobras mézièristas foram modificadas ou suprimidas: o mézièrista tende a evitar todas as compensações, enquanto que o “reconstrutor” tende a lidar com todas as posturas que possam ser efectivas no sentido de se obter uma inibição do padrão; o mézièrista identifica a dismorfia como algo “anormal”, enquanto que o reconstrutor identifica a dismorfia como um ponto de passagem para a obtenção de um padrão postural vantajoso; o mézièrista tende a encontrar uma postura correctiva e a mantê-la o máximo de tempo possível, enquanto que o reconstrutor tende a manter a “postura” só até que exista extinção da resposta evocada (normalização tónica); as autoposturas são impensáveis na Reconstrução Postural, pois o próprio sujeito não consegue educar as suas próprias reacções tónicas correctivas; os proponentes da Reconstrução Postural não falam de “correcção morfológica” como os mézièristas, mas sim de “restauração morfológica”, a qual tem por base não o alongamento mio-fascial correctivo mas sim o alongamento com vista à normalização de padrões de activação tónica das cadeias musculares.
Em termos gerais, podemos referir que a Reconstrução Postural se apresenta como o método mais evoluído em matéria de metodologias de reeducação postural, ainda mais porque é o mais científico de todos os existentes. Vide a quantidade de artigos e investigações escritas, encontráveis no site citado num post anterior.
Resta dizer, aliás sublinhar, que a Reconstrução Postural parece estar anos de luz mais evoluída que qualquer outro conceito de Reeducação Postural. É, na realidade, um verdadeiro método reeducativo, visto que integra funções de modulação a nível central (SNC). A Reconstrução Postural, tanto em termos metodológicos como em termos práticos, vai muito para além de Mézières ou do RPG. Porém, são poucos os que conhecem o método. Alguém saberá que para um fisioterapeuta ser "reconstrutor" tem de estar pelo menos três anos na Universidade Louis Pasteur? Peço, mais uma vez, que quem quer que esteja a ler este texto não deixe de visitar o site http://www.reconst-posturale.com e não deixe de procurar a parte relativa à bibliografia e também o local onde se apresentam dezenas de fotografias do antes e do depois relativos a meses ou anos de tratamento.

O método Mézières

A descoberta de um conjunto novo de leis fisiológicas que o método Mézières viria dar relevo enceta por uma história que cada mézièrista conhece bem (Mézières, 1965; Geismar, 1996; Nisand, 1996; Nisand & Geismar, 1996).
A própria Mézières conta (Mézières, 1965): “Quando numa magnífica manhã de primavera de 1947, nós vimos entrar no nosso consultório uma paciente apresentando uma soberba ‘cifose’, nós estávamos bem longe de pressentir que a nossa profissão e o destino de toda uma legião de doenças iam ser mudadas. Tratava-se de um sujeito longilíneo, muito alto e magro. Um colete de couro e ferro não havia conseguido parar, como esperado, a progressão da doença.”
Nesta época, a ginástica postural clássica era realizada com base nas leis fisiológicas que reforçam o papel do fortalecimento muscular. E foi esse mesmo tipo de trabalho que foi feito inicialmente com a doente. Mézières (1965) refere: “Nós tentámos, naturalmente, os exercícios de ‘endireitamento’ e o trabalho dos músculos dorsais com vista a fortalecer os extensores do dorso, mas a rigidez era tal que nada era possível realizar. Deitando, então, a nossa doente, no chão, em decúbito dorsal, nós realizámos a flexão dos ombros e vimos, para nosso espanto, produzir-se uma enorme lordose lombar. Para não acrescentar um mal à cifose já presente, nós realizámos a báscula posterior da bacia e, para nosso novo espanto, vimos a hiperlordose lombar esquivar-se e deslocar-se para a nuca.”
Depois de repetida várias vezes a experiência, Mézières e os colegas acabaram por admitir uma verdade que viria a ser anunciada como uma nova lei: que “todo o encurtamento parcial da musculatura posterior leva a um encurtamento de todo o conjunto desta musculatura” O que corresponde à noção de cadeia muscular, onde “toda a modificação de comprimento no sentido do alongamento ou no sentido do encurtamento de parte da musculatura tem repercussão sobre todo o conjunto”.
Françoise Mézières acrescenta: “Tanto que como o alongamento da musculatura lombar se traduzia pelo encurtamento da curvatura cervical, a lei é que o alongamento de um qualquer músculo posterior leva ao encurtamento do conjunto da musculatura posterior”. É o que costumamos de chamar de noção de compensação.
“Então, para esta paciente, nenhum músculo posterior era demasiadamente fraco ou longo, nem mesmo os da região cifosada; pelo contrário, todos estavam curtos, rígidos e fortes demais. O sujeito não era de forma alguma esmagado pela acção da gravidade, mas sim achatado pela sua própria força, a de seus músculos dorsais. Era preciso, ao invés de fortalecer esta musculatura, descontraí-la, alongando de uma ponta à outra da coluna vertebral, como se se tratasse de uma lordose.”
Actualmente sabemos que a “cadeia posterior”, identificada pela primeira vez por meio das observações de Mézières, inclui um comportamento dinâmico, o qual integra um conjunto muito avultado de estruturas musculares, como o diafragma e a musculatura anterior. Esse comportamento dinâmico integra um conjunto de inúmeras compensações, geradas por mecanismos protectores, sendo que estes são devidos ao reflexo anti-álgico à priori (Mézières, 1970, 1984). Assim sendo, sabemos actualmente que uma cifose pode ter origem em: (a) excessiva força ou tonicidade da musculatura dorsal, (b) compensação gravítica da lordose existente numa outra parte da cadeia muscular posterior, ou seja, a cifose é consequente da existência de uma parte retraída da musculatura posterior, (c) retracção da musculatura inspiratória acessória, em sinergia com a retracção da cadeia inspiratória ou diafragmática, e (d) retracção das cadeias musculares anteriores, encurtamento derivado da zona posterior e transportado pelo diafragma à zona anterior, na forma de uma ou mais compensações.
Entrámos, efectivamente, num conjunto de noções variadas que inicialmente Mézières não dominava. A fisioterapeuta resumia, efectivamente, as suas observações em duas partes: (1) a musculatura posterior comporta-se como um só músculo e (2) ela é sempre forte de mais, curta de mais, potente de mais. E, para os proponentes de Mézières, o princípio preliminar de que todas as deformações têm origem num encurtamento da musculatura posterior manteve-se incólume até à data.
Deve, também ser acrescentado que a própria Françoise Mézières terá cedo percebido que existia uma sinergia importante entre a musculatura posterior e o diafragma e os músculos rotadores internos das ancas.
Assim sendo, a desmontagem dos princípios far-se-ia na forma de um tripé de intervenção, com vista à harmonia muscular ou bela forma (considerada a morfologia perfeita, assente num conjunto de curvaturas vertebrais e eixos segmentários com expressão “normal”): deslordose, expiração e desrotação. Estes três princípios de tratamento são o que todos os métodos francófonos de reeducação postural têm mantido como base incólume de acção.
Geismar (1993) resume as bases científicas do método Mézières num conjunto de sete princípios, os quais iremos manter na linguagem original:
Primeiro princípio: «Tout vient de l’enraidissement des muscles postérieurs». Princípio considerado primacial, paradigma de todos os métodos ditos “mézièristas”. Por outro lado, tem sido diluída a sua importância por autores mais modernos (Souchard), que, como veremos mais tarde, podem não ter compreendido completamente o alcance do princípio.
Segundo princípio: «Il n’est que des lordoses; La lordose est responsable de la cyphose; Tout est compensation lordotique». Mais uma vez, um princípio fundamental, quase um pleonasmo relativamente ao anterior.
Terceiro princípio: «Solidarité du tronc et des membres; Influence de la rotation interne des membres». Este princípio anuncia uma das lógicas de sinergia muscular. Efectivamente, visto que os rotadores internos das ancas possuem uma inserção importante a nível lombar (principalmente o músculo psoas), eles aparecem retraídos na maioria dos casos de deformidade, e têm de ser vistos como característica inerente à “lordose”.
Quarto princípio: «Influence du blocage diaphragmatique». Mais um princípio relativo à lógica da sinergia muscular. O diafragma é um músculo lordosante, com poderosas inserções lombares. Por outro lado, relaciona-se, de forma sinérgica, com os músculos inspiratórios acessórios, os quais possuem inserção a nível cervical.
Quinto princípio: «Il n’est de bonne tenue de tête sans quadriceps». Este é um princípio relativo à importância de se fortalecer a musculatura dinâmica, na qual se inclui o músculo quadricípete.
Sexto princípio: «Des abdominaux». À semelhança do anterior, é um princípio que reforça a importância de se fortalecer os músculos abdominais (de natureza dinâmica), nomeadamente os músculos rectos e oblíquos.
Sétimo princípio: «Les effets des attitudes capitales». Princípio relacionado com a lógica das compensações e dos reflexos protectores.
Importante será referir que Mézières e os mézièristas sempre escreveram para os especialistas da área, e sempre num tom de ressalva tecnicista. Daí que muitos dos princípios de Mézières não tenham sido adequadamente traduzidos para uma linguagem mais globalizada e acessível. Os seus princípios ficaram efectivamente reservados a um conjunto particular de médicos e terapeutas. Para além disso, a natureza teorética e axiomática de certos princípios viria a ser afirmada de forma muitas vezes pouco científica e mal categorizada, o que fez com que muitas das bases teoréticas mais tarde laboriosamente elucidadas por Souchard tivessem permanecido mal explicadas até que o anterior autor as tivesse enunciado.
Publicado na revista "Saúde Actual", Maio de 2007

segunda-feira, março 12, 2007

A propósito da Reconstrução Postural

Estava eu a escrever um artigo sobre as "cadeias musculares", para publicação futura numa qualquer revista especializada, e tive a necessidade de consultar o site oficial sobre o método "Reconstrução Postural", de Nisand. Entretanto, dentro do site, descobri um link para aceder a uma "bibliografia". Meu Deus! Espanto dos espantos! Dezenas, várias dezenas de estudos, artigos, teses, livros sobre Mézières e a Reconstrução Postural... Imensos trabalhos científicos sobre Reeducação Postural, como nunca antes tinha visto. E pude dar conta de um conjunto incomensurável de dados sobre os métodos, trabalhos verdadeiramente científicos, que, muitas vezes, pensei não existir... mas existem!... só é pena nada disto estar publicado a nível internacional. Ou seja, não há nada mais urgente, se queremos verdadeiramente compreender a área, do que aprender francês e pisar solo francês. Visitem o site da Reconstrução Postural http://www.reconst-posturale.com e vão à parte relativa à Documentation - Bibliographie. Boas leituras!

sexta-feira, março 09, 2007

A culinária terapêutica: cadeias de movimento, diferentes paradigmas

Um erro teorético comummente conformado por muitos fisioterapeutas ou professores de fisioterapia consiste no acto de confundir o conceito de “cadeias musculares” de Souchard com o conceito de “cadeias musculares” de Busquet. Há quem se dê ao trabalho de comparar os dois conceitos ou métodos de intervenção. Quem efectua tal comparação tende a dizer que o método das “cadeias musculares” de Busquet representa uma inovação em comparação com o método de Souchard; que as “cadeias musculares” segundo Busquet incluem estruturas que as “cadeias” de Souchard não incluem, que o conceito de Busquet atinge auspícios que Souchard nunca imaginou. Ainda mais tende a dizer que o método de Busquet apresenta-se a anos de luz de distância do método Mézières, em termos de conceptualização.
Ora, não sei como é possível que tanta gente, o que inclui fisioterapeutas excelentemente formados em todos estes métodos, caia em tamanho engano. Comparar Souchard com Busquet é como comparar o músculo multifidus com a “massa comum”; é verdadeiramente comparar laranjas com maçãs. Os métodos são simplesmente incomparáveis, pois o conceito de “cadeia muscular” é diferente em ambos os métodos; se Souchard identificou diversas cadeias musculares posturais ou estáticas, Busquet identificou diversas cadeias musculares de natureza dinâmica. Para Busquet, a única cadeia muscular estática existente corresponde à cadeia posterior, aliás “cadeia estática posterior”. As suas cadeias “cruzadas”, “de flexão” e “de extensão” são cadeias de movimento e não estáticas. Como tal, Busquet afasta-se do conceito de “postura” ou de “reeducação postural”, sendo que o que ele efectivamente fez foi visualizar o corpo num historial de massas musculares intervenientes na função dinâmica. Acontece, então, que, em termos de “Postura”, Busquet não se afastou tanto de Mézières quanto Souchard: para ele, tudo está dependente da “cadeia estática posterior” (o que ele inteligentemente fez foi valorizar mais o papel das fáscias do que dos músculos propriamente ditos – uma evolução análoga ao conceito anglo-saxónico de “Trilhos anatómicos”), à semelhança do pressuposto no método Mézières. A partir do momento em que focamos as outras cadeias, saímos do conceito de “Postura” e entramos no de “Movimento”.
Claro que certos “intelectuais da fisioterapia” (conceito não meu, mas do excelente Paulo Araújo) podem sempre vir argumentar que “Postura” é na realidade um conjunto microscópico de inúmeros “movimentos”, oscilações e ajustes, ou que o “Movimento” é um todo que é mais do que a soma de diversas “posturas”, mas, excelências, convenhamos que o mais simples e parcimonioso é preferível à complexificação exagerada... Postura é Postura. Movimento é Movimento. Tal como uma laranja é diferente de uma maçã, apesar de ambas serem igualmente constituídas por átomos.
Mas, voltando a encarrilar no tema, devemos ter em conta que o conceito de “cadeias musculares dinâmicas” de Busquet ultrapassa grandemente a temática da “Postura”, para abraçar certas temáticas não muito dissemelhantes de certos “padrões de movimento”, que uns certos proponentes de Kabat ou de Bobath têm tantas e inúmeras vezes referido. Aqui chego ao ponto de me perguntar se haverá por aí muitos fisioterapeutas que reconhecem certas semelhanças no domínio de certos conceitos. É que só temos um mundo, apesar de tanta diversidade cultural. E em diferentes partes do mundo, o corpo não tende a funcionar de maneira diferente. Ora, então eis que proponho que os tais “intelectuais da fisioterapia” ousem comparar Busquet, fruto francófono, com o PNF, fruto americano, e com Bobath, fruto anglo-saxónico, e com o Tai-chi, fruto oriental. O prof. Paulo Araújo e a terapeuta Eva Albuquerque já fizeram a mesclagem PNF – Tai-chi... Será que outro alguém ousará fazer mais “truques de culinária”?...

sexta-feira, março 02, 2007

Coluna lombar neutra ou deslordosada?

Uma das questões mais relevantes das temáticas do tratamento das raquialgias e da reeducação postural centra-se no tipo de posição que devemos manter ao nível da coluna lombar. Durante os exercícios reeducativos, deve a coluna manter-se em posição neutra ou deve estar completamente deslordosada?...
Efectivamente, esta é uma questão que contrapõe a reeducação postural e o Pilates clássicos à reeducação postural e ao Pilates modernos. As escolas clássicas de Pilates e de reeducação postural (neste caso, referimo-nos ao método Mézières) fazem uso de uma filosofia de deslordose total da coluna lombar. Assim sendo, nas diversas posições de tratamento, a curvatura lombar deverá ser apagada, o que coloca as estruturas sob uma tensão determinante. As escolas modernas de Pilates e de reeducação postural (aqui referimo-nos, portanto e mais explicitamente, à Reeducação Postural Global e ao Stretching Global Activo de Souchard), a coluna lombar é mantida numa posição neutra, o que possui vantagens funcionais adicionais.
A questão envolvida no tipo de alinhamento preferencial da coluna lombar está longe de permanecer resolvida. Acontece que, na realidade, a deslordose constitui a posição de máximo distanciamento vertebral e de máximo alongamento muscular lombar, sendo que a citada posição apresenta vantagens enormes no respeitante à consecução de um alongamento ou tensão acrescidos. Entretanto, os proponentes da “coluna neutra” argumentam que tal nível de “tensão” é algo excessivo e que, em termos funcionais, a posição de coluna neutra é aquela que se apresenta como mais vantajosa.
Ora, no meio desta dialéctica qual é a minha opinião particular?... Em termos gerais, não posso deixar de concordar com ambas as perspectivas, pelo que tendo a trabalhar tanto com a coluna neutra como com a coluna deslordosada, dependendo da posição do indivíduo. Por exemplo, em decúbito dorsal, para mim, a coluna lombar deve permanecer completamente apoiada no colchão, principalmente porque, a partir do momento em que os joelhos se apresentam flectidos, a manutenção da coluna em posição neutra representa um desafio demasiadamente grande para o sujeito. Em decúbito ventral, também sou adepto da total deslordose, conseguida pela colocação de uma toalha dobrada ou almofada por debaixo do ventre. Por outro lado, em decúbito lateral, de gatas e nas posições de “prancha de dificuldade intermédia”, prefiro manter a coluna neutra, pois são posições de registo funcional acrescido. Mas, por exemplo, um indivíduo inexperiente que se aventure a fazer uma “prancha completa”, não o deverá fazer com a coluna neutra, pois rapidamente perde o neutro e cai para hiperlordose, sustentando-se nesse “tigre que temos nas costas” (Bertherat); isto se já não tiver compensado a tal “prancha” com um brilhante “triângulo” menos esforçado...Convido cada um a rever estes conceitos e a verificar as vantagens e desvantagens dos diversos alinhamentos. O meu “eclectismo de posições” coloca-me em risco de confundir os doentes ou alunos, pelo que não posso deixar de me manter bem seguro das minhas convicções e preferências.
Coluna lombar neutra (www.thepilatesman.com)
Coluna lombar apoiada

sábado, fevereiro 24, 2007

Assédio moral nos fisioterapeutas portugueses

É sobejamente conhecido que, no nosso país lusófono, a vida de um fisioterapeuta não é fácil. Temos as questões da autonomia profissional, do reconhecimento pelos pares, do prestígio junto dos doentes e comunidade em geral, etc. Mas se há algo de que os fisioterapeutas não têm falado muito, mas penso que permanece silenciosamente como um assunto que a todos interessa, é da questão do assédio moral.
O assédio moral, também conhecido por mobbing ou terrorismo psicológico, constitui um fenómeno de contexto laboral de grande importância. Quantos fisioterapeutas não são constantemente fustigados pelos colegas, pelos responsáveis, ou por profissionais de outras áreas (como os médicos)? Quantos fisioterapeutas não são privados da sua autonomia – chegando a ser apelidados de incompetentes – pelos próprios colegas ou pelo coordenador de serviço ou mesmo pelo médico fisiatra que se acha dono e senhor da vida do doente? A resposta a estas perguntas permanece num terreno obscuro, apesar de todos pressentirmos que os diferentes tipos de assédio moral são bem comuns na vida dos fisioterapeutas.
Ainda me lembro – e seria impossível esquecer – do tipo de assédio a que fui sujeito no serviço de fisioterapia do Hospital Cuf Infante Santo, local onde as terapeutas mais velhas – serão mais idóneas pelo simples facto de possuírem mais experiência? – desprezavam e maltratavam os terapeutas com menos idade. É impossível esquecer o carácter quase psicótico que uma certa terapeuta coordenadora possuía, sendo que a mesma era inclusive capaz de enxovalhar um terapeuta à frente do próprio doente. Eu fui vítima de muitos desses maus tratos por parte das coordenadoras do citado serviço. E no dia em que uma dessas velhas senhoras tentava controlar desenfreadamente o meu trabalho – assumindo uma posição de controlo dos meus doentes, das suas idas e das suas chegadas – disparei numa reacção abrupta mas justa. Isso levaria a que eu fosse alvo de acusações de falta de profissionalismo e falta de ética. Ninguém me apoiou e todos esconderam a “face da verdade” no momento chave. Pudera... o serviço era caracterizado pelo medo!... Tudo isto levou a que não quisesse continuar a trabalhar em tal local. E provocou certas feridas que duraram a passar.
Quantos mais fisioterapeutas viverão situações semelhantes? Quantos dos nossos colegas não sofrerão de forma silenciosa? Quantos dos terapeutas não viverão em situações laborais radicais, sendo que se mantêm a trabalhar nesses mesmos meios pelo simples facto de não conseguirem emprego em qualquer outro lugar?... Penso que muitos!!! E é por isso – a objectividade total em ciência é impossível – que escolhi como tema de tese do meu mestrado em “Psicologia, desenvolvimento sensorial e cognitivo” o seguinte: “Assédio moral (mobbing) nos fisioterapeutas portugueses: Identificação do fenómeno e das consequências cognitivo-emocionais”. Com este estudo, visarei não só identificar e caracterizar o fenómeno junto dos fisioterapeutas portugueses, como tentarei estudar as estratégias cognitivas arroladas pelos mesmos para fazer com que seja evitado o processo de “dissonância cognitiva”. Em breve, falarei mais deste tema. Em breve, será um dos grandes temas da minha vida!...

De Mézières a Souchard: percursos históricos dos métodos de reeducação postural

(Publicado na Saúde Actual, Março-Abril 2007)
Os métodos de fisioterapia de Reeducação Postural podem ser categorizados, em termos de uma adequada historiografia geográfica, em dois grandes tipos: os métodos francófonos e os métodos anglo-saxónicos.
Aqui em Portugal parecemos estar mais familiarizados com os métodos francófonos, enquanto que a técnica Alexander, o Rolfing (Rolf) e a metodologia dos “Trilhos anatómicos” (Myers) têm interessado fundamentalmente os terapeutas e osteopatas britânicos (referimo-nos, portanto, a métodos anglo-saxónicos).
Pouco conhecido e frequentemente caricaturado, não podemos deixar de considerar o método Mézières como o método primacial de reeducação postural, pelo menos no mundo ocidental. Este mesmo método foi implementado de forma algo silenciosa pela fisioterapeuta Françoise Mézières, aquando das suas observações iniciais de doentes com graves deformidades posturais.
A descoberta de um conjunto de novas leis fisiológicas que servem de base ao método possui uma história que cada mézièrista conhece bem...
Mézières conta: “Quando numa magnífica manhã de primavera de 1947 nós vimos entrar no nosso consultório uma paciente apresentando uma soberba “cifose”, nós estávamos bem longe de pressentir que a nossa profissão e o destino de toda uma legião de doenças iam ser mudadas...”. Esta mesma doente encarna o espírito de investigação com base na prática de observação naturalista. Foi por meio da observação que foi possível verificar o funcionamento da musculatura encurtada num cerne de globalidade que, mais tarde, viria a ser conhecido como “cadeia muscular”. Assim sendo, os dois grandes princípios do método estavam à vista: (1) a musculatura posterior comporta-se como um só músculo, uma cadeia muscular, e (2) ela é sempre forte, curta e potente de mais, por constituir uma cadeia de músculos responsáveis pela rectificação postural.
O método Mézières põe em evidência o facto de que, derivado do reflexo anti-álgico à priori (que reflecte o conjunto de compensações e torções que o corpo assume aquando do aparecimento de determinada dor e/ou alteração estrutural), o corpo deforma-se sempre através dos mesmos mecanismos: encurtamento da musculatura posterior do corpo (lordose), rotação interna dos membros inferiores (derivado da relação entre o diafragma encurtado e o músculo psoas-ilíaco) e o bloqueio diafragmático em inspiração (o diafragma é um músculo lordosante, relacionado com o conjunto das massas musculares posturais).
O tratamento segundo o método Mézières consiste precisamente no denominado tripé de Mézières: deslordose, expiração e desrotação. Ou seja, assenta no princípio fundamental de alongamento global da cadeia muscular posterior e da cadeia diafragmática e outras com a primeira relacionadas. O alongamento global referido consiste na realização de posturas de estiramento abrangente, mantidas por tempos prolongados, sendo que esta necessidade advém do facto de a musculatura postural ser extremamente resistente.
É preciso entender que, segundo os princípios do método Mézières, tudo está dependente da cadeia posterior e todas as retracções e deformidades advêm do encurtamento da citada cadeia, sendo que, muitas vezes, o diafragma medeia o transporte de retracções e/ou compensações para outros conjuntos musculares (a cifose poderá ter origem neste tipo de processo).
Ora, se esta mesma “revolução na ginástica ortopédica” se apresenta como extremamente purista e parcimoniosa, o mesmo já não se pode dizer de todos os outros métodos que evoluíram a partir de Mézières. O método das “Cadeias Musculares e Articulares” de Godelieve Denys-Struyf é provavelmente aquele que mais acrescentou a Mézières em termos da riqueza de conceitos e descrições; por outro lado, a referida autora é extremamente fiel ao método original, sendo que o seu próprio método é mais uma interpretação globalista de tipos posturais, e não uma genuína técnica de tratamento. Os métodos de grupo como a antiginástica, de Thérèse Bertherat, pelo simples facto de não constituírem métodos individuais, pecam já bastante no respeitante à noção de panteísmo dos princípios mézièristas. Mas a grande traição dos princípios de Mézières advém de quando os diferentes autores deixam de perceber que o conjunto das diversas “cadeias musculares” por eles identificadas, não passam de um prolongamento de uma só cadeia muscular: a cadeia posterior.
Assim sendo, os métodos do Stretching Postural (Moreau) e da Reconstrução Postural (Nisand) esboçam as primeiras tentativas de construção de ginásticas de alongamento global do corpo, mas ninguém teria tanto sucesso na construção de um novo método como Philippe Souchard. Este fisioterapeuta, o qual ensinou o método Mézières durante anos a fio, pode ser congratulado por ter dado a conhecer ao mundo o conjunto dos métodos de reeducação postural, e, se em Portugal a ignorância ainda é muita, em muitos países é famosa a Reeducação Postural Global (RPG), assim como o seu “filho grupal”, o Stretching Global Activo (SGA).
Souchard foi inteligente no processo de “venda” do seu método, apesar de não ter tido a coragem para o apresentar ao mundo antes da morte de Mézières... As oito posturas de alongamento global do RPG (postura base de avaliação, rã no chão com e sem abertura de braços, rã no ar com e sem abertura de braços, postura dançarina, postura sentada e postura de pé contra a parede) apresentam-se como posições inteligentes e atraentes (e sobretudo como posições estandardizadas que levam a pensar que o alongamento não poderia ser feito de outro modo...). Para além disso, esquece um pouco o princípio da deslordose, trabalhando com a coluna neutra em muitas posturas nas posições de pé e sentado, o que, para alguns, é sinónimo de inovação. Mas diga-se de passagem que tudo o que Souchard tem escrito nos seus livros pouco acrescenta àquilo que foi afirmado inicialmente por Mézières. A constatação da existência de “diversas cadeias musculares” (o método de Souchard fala das seguintes cadeias: respiratória, posterior, cadeia antero-interna da anca, anterior do braço e antero-interna do ombro) não tem sido entendida como errática, pois existe uma certa tendência para compartimentar e dividir aquilo que, no fundo, é global e indivisível.
Ainda assim, o RPG e o SGA apresentam-se como métodos brilhantes no respeitante à forma de ver o sistema músculo-esquelético, assim como o conjunto das funções hegemónicas do corpo, e no afirmar de princípios elementares de trabalho postural como o alongamento a frio por longos períodos de tempo, sempre respeitando o tensionamento em “campo fechado”.

Diferenças entre Mézières (M) e Souchard (S)
Papel do doente: M - fundamentalmente passivo; S - fundamentalmente activo
Contexto: M - individual; S - individual ou em grupo
Alongamento: M - parcelar em cadeia; S - global em cadeia
Cadeias musculares: M - cadeia posterior e respectivas extensões; S - várias
Coluna: M - deslordosada; S - Neutra nas posturas de "bailarina" e "sentado", Deslordosada em D.D. e de pé.
Trabalho abdominal: M - só abdominais superficiais; S - abdominais sup e profundos (ex. transverso)
Semelhanças e diferenças (entre Mézières e Souchard) em imagens (exemplos)
Postura Mézières
Vs.
Rã no ar (Souchard)
Postura sentada (Mézières)
Vs.Postura sentada (Souchard)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Grupo de interesse

Há uma necessidade crescente de juntar os profissionais de fisioterapia, criar grupos e/ou coligações. A área da Reeducação Postural está a pedir a criação de um grupo de interesse. Gostaria que este blog funcionasse como porta de entrada para a criação de tal ajuntamento. Sugiro que os interessados visitem o Hi5 e se inscrevam no grupo "Reeducação Postural" (secção Saúde e Bem estar). Têm, obviamente, que iniciar-se pela inscrição no Hi5, algo completamente gratuito. Como desejo que os fisioterapeutas comecem verdadeiramente a mobilizar-se no sentido de se criar tal grupo.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Holmes Place e outras indústrias do fitness

Nunca tanto como agora se deu relevo à importância de se possuir um bom corpo, treinado inexoravelmente nas melhores academias ou ginásios de fitness. Aliás, o número de adeptos de diversas modalidades “desportivas” cresce exponencialmente. E com o número de adeptos cresce também o número de utilizadores dos ginásios, centros de treino polivalente.
Acontece, porém, que grassa neste mundo dos ginásios um conjunto prolixo de cabalas e “ilusões de alma” (palavras camonianas), que muitos temem em revelar.
Certos ginásios, como o Holmes Place, funcionam de um modo moralmente perturbante, desde o momento da inscrição no mesmo até ao momento em que utilizamos e vivenciamos os seus serviços.
Recentemente senti a necessidade de me inscrever num ginásio Holmes Place. Rapidamente me dirigi a um desses ginásios com vista a ser informado das condições de prática desportiva. Poucos imaginam que, a partir do momento em que entramos no ginásio, estamos condenados a ser aspirados pelo marketing mais enganoso possível de existir. Os funcionários do ginásio, vestidos a preceito e donos de uma invulgar e (diga-se de verdade) “falsa” simpatia, fazem com que tenhamos de esperar por um determinado funcionário. Este mesmo funcionário aparece com a sua “máxima” simpatia e apresenta-nos à força as condições do ginásio, extrapolando as vantagens da adesão como sócio. Depois de apresentados os preços de admissão, fazem com que assinemos um papel de inscrição, o qual dará poder à empresa para retirar determinado valor à nossa conta bancária.
Perpetrada a adesão, surge o tempo de utilização dos serviços. Deus nos salve do que encontramos. Dentro dos ginásios Holmes Place vigora a lei do disfarce, da falácia psicológica. Os instrutores estão todos vestidos da mesma maneira, parecem autómatos com o mesmo pensamento e exactamente a mesma forma de agir, e passam todo o tempo a vender os serviços de personal training. Estes mesmos treinadores pessoais mais não passam de robôs de trabalho de baixíssima qualidade, uma espécie de criados dos senhores da alta sociedade; transportam os seus clientes numa bandeja de ouro, submetendo-os aos pseudo-treinos, os quais estão imbuídos da mais espúria qualidade de trabalho. Enquanto fisioterapeuta que sou, profissional de saúde e motricidade, vejo todos os dias serem cometidos erros escabrosos em termos de saúde do sistema músculo-esquelético. E todos esses erros são acometidos compulsivamente nos ginásios, e isto com a total cumplicidade dos instrutores. Como é possível que estes mesmos instrutores tenham o usufruto de ganhos financeiros astronómicos com tal qualidade de trabalho (alongamentos fora do alinhamento, actividades aeróbias exageradas ou mal adaptadas, conselhos desapropriados sobre saúde)?...
E pretendem os ginásios que em breve as pessoas possam treinar sem necessitarem de apresentar declaração médica... Não se cometa tal erro legal! Os instrutores de fitness desejam ser profissionais de saúde mas não possuem competências para tal. Não possuem sequer um tipo de raciocínio bio-psico-social adequado. Enquanto fisioterapeuta, com um número incomensurável de formações e pós-graduações, vejo todos os dias o meu tipo de trabalho ser feito no ambiente gímnico por pessoas sem formação adequada. A verdadeira fisioterapia age enquanto ciência da motricidade, realizada por profissionais que têm sido referenciados como “engenheiros do movimento”. Mas infelizmente não é assim que as pessoas representam socialmente tais profissionais. Daí sermos mantidos numa margem negra, acometidos pelos condicionalismos financeiros mais ubíquos e inaceitáveis.
Voltando ao Holmes Place, devo dizer que as aulas de fitness são de uma qualidade inexistente. Os profissionais passam metade do tempo a realizar operações de charme e de “venda” da actividade. Gastam todo o seu esforço em falsas simpatias e depois, quando chega a hora de fazermos a aula, deparamo-nos com aulas vazias de conteúdo, fracas, verdadeiramente fracas em metodologia e calor humano. E não vale a pena fazermos o mesmo tipo de aulas com outros instrutores, pois estes agem todos da mesma maneira, como se não existisse autonomia ou liberdade individual. E o pior de tudo é que grassa no Holmes Place um conjunto imenso de regras, sendo que uma delas nos impede de sair a meio de uma aula. Ou seja, entrando numa aula estou impedido de sair a meio dela, e se o fizer estou condenado a não poder repeti-la.
Perante este esquema decidi-me pessoalmente a acabar com a minha adesão ao ginásio. Deus livre as pessoas do engodo. Deram-me a perceber que aquilo que tinha assinado inicialmente era um contrato de um ano. Ou seja, supostamente vou ser forçado a pagar e a sujeitar-me ao Holmes Place durante um ano inteiro, sem possibilidades de sair da ratoeira. As letrinhas praticamente impossíveis de ler na parte de trás do contrato a isso me obrigam.
O Holmes Place, assim como outras grandes indústrias do fitness representam uma verdadeira cabala, um verdadeiro artifício para as nossas almas. É uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, de forma totalmente arrivista. Entre todos os interesses e acordos que este ginásio possui com outras grandes indústrias quem nos protege destas cabalas?