segunda-feira, agosto 06, 2007

Para reflectir

Remunerações

Fisioterapeuta (pelo menos bacharel): ganha no máximo 10 euros/hora numa clínica privada (poucos ganham mais)
Instrutor de musculação + cardio (não precisa de ser licenciado): ganha pelo menos 15 euros/hora no Holmes Place (nível 1)
Instrutor de Pilates/Fitness (tb não precisa de ser licenciado): de 15 euros a 25 euros/aula, sem ter em conta "cursos" privados

Não há dúvidas, tenho de me render ao mundo do fitness: trabalhamos menos, temos menos responsabilidades, divertimo-nos mais e não temos de aturar as "mordomias" de certos profissionais...

domingo, agosto 05, 2007

"Ab King" e outras idiotices do “fitness”

Tenho já manifestado muitas vezes o meu desconsolo relativamente aos exercícios e actividades realizados no conceito do “fitness”, mas nunca me dei ao trabalho de criticar por escrito aquela que é uma das piores invenções, nomeadamente em termos de máquinas de abdominais.
Muitas vezes, tenho realçado a importância da criação de um órgão de regulação ética da publicidade; o que, infelizmente, permanece sem existir... isto num país cujo Governo está cada vez mais interessado em aumentar as hostes de controle da Comunicação Social. Mas adiante... Uma das mais comuns “brincadeiras” da publicidade, um “engano de alma” absoluto, corresponde aos anúncios das máquinas de abdominais. Que fique desde já esclarecido que, no ponto de vista dos modelos fisioterapêuticos de Reeducação Postural, os músculos abdominais devem ser fortalecidos, mas com recurso à respiração e não a exercícios abdominais! Mas mesmo que pudéssemos considerar saudável a realização de exercícios abdominais – e não esquecendo que o conceito de “abdominais” é extremamente abrangente (não será o Pilates um trabalho de abdominais? É, mas um trabalho abdominal profundo), e os exercícios a que se referem os anúncios incluem essencialmente o treino dos músculos rectos do abdómen (musculatura superficial) – posso dizer que não há qualquer necessidade de utilizar máquinas de abdominais para realizar um trabalho dessa musculatura. Há, sim, necessidade de se ser bem instruído no respeitante à realização desses exercícios... algo que raramente é feito!
Eventualmente, poderíamos conceber que algumas máquinas abdominais poderiam ser vantajosas, no sentido de certos objectivos como o apoio da cabeça durante a realização do trabalho do tronco... Mas, uma máquina em particular, o “Ab King”, máquina cujo anúncio tem passado na televisão com muita regularidade, constitui a coisa mais idiota inventada em termos de realização de abdominais. Isto porque a máquina em si e o movimento que ela proporciona não permite realizar a flexão do tronco, mas sim flexão das ancas, pois o movimento constitui um fechamento do ângulo compreendido entre as ancas e o tronco sem praticamente flexão alguma da coluna dorsal (portanto, não há "abdominal"). E, como se a dita máquina não fosse já por si extremamente mal pensada num ponto de vista biomecânico, ainda por cima a dita permite a realização de extensão da coluna para além do neutro. Ou seja, aquilo que os publicitários referem como uma vantagem da máquina, a possibilidade de trabalhar também os músculos extensores, não só contraria todos os princípios que defendemos em Reeducação Postural (fortalecer musculatura hipertónica para quê?...), como permite a realização de um “erro de sistema” que até os instrutores mais ignorantes podem reconhecer: a determinado momento, o desportista realiza hiperlordose da coluna lombar (vejam-se as imagens televisivas, com a coluna lombar lordosada e bem longe de estar apoiada), não só porque os membros inferiores estão muito descidos mas também porque existe puro e duro exagero da amplitude.
Ora, será que vale a pena estar a “destruir” o corpo em nome de uma barriga mais lisa (o que é por si um grande mito, pois perdemos barriga se perdermos gordura corporal, e perdemos gordura se realizarmos actividade aeróbia prolongada, não perdemos gordura numa área do corpo pelo facto de estarmos a trabalhar especificamente aquela área... ou seja, de uma vez por todas, as pessoas que aprendam que “fazer abdominais para reduzir a barriga” é puro mito, pura patetice)? E quem serão os “génios” que inventaram tal máquina? Será que os mesmos conhecem o termo “biomecânica”? E onde estão os profissionais de saúde e de Educação Física para explicar que a dita máquina é um engodo publicitário (mais um entre tantos!...)? Onde está a responsabilidade profissional? As pessoas devem ser protegidas de anúncios como estes, principalmente quando não as podemos proteger da sua própria ignorância...

quinta-feira, agosto 02, 2007

A indústria do fitness: a falácia da nova medicina

Em primeiro lugar, é preciso salientar que, aparte esse tão usado e reciclado estrangeirismo (“fitness”), também as palavras “nova” e “medicina” deveriam vir acompanhadas de aspas, porventura incontáveis aspas e reticências; isto porque não só a prática gímnica não constitui verdadeira “nova arte”, como o termo “medicina” se refere a uma actividade profissional de cambiantes constituintes extremamente complexas e multidimensionais. Mas este texto não pretende definir conceitos. Este é mais um texto de alerta, de um “alerta” que desfalece, que desprimora, que raramente ousa tocar os augúrios conteudísticos da comunicação social ou da opinião pública. E falo de um alerta relevante: falo do perigo da prática gímnica, tal como preconizada actualmente na nossa sociedade.
Desde tempos imemoriais que a prática física tem acompanhado o evoluir da sociedade, em inúmeros aspectos mais ou menos formais. Por exemplo, com o surgimento das cidades-estados na antiguidade do século VIII a.C., os jogos tornaram-se uma actividade comum e importante da vida em sociedade. Chamados para a guerra a qualquer momento, os cidadãos das cidades-estados guerreiras procuravam sobreviver através de uma boa preparação física e coragem. Por outro lado, os Gregos tinham uma unidade de língua e cultura que celebravam com festivais abrilhantados por competições de atletismo, sendo que o mais importante tinha lugar em Olímpia, principal templo de Zeus.
Durante milénios, a prática física perpetuou-se, estando sempre mais ou menos associada à prática de um ou mais desportos específicos, actividades físicas de certo modo sincopadas segundo um código determinado. Mais recentemente, a prática física tem sido vista sobretudo enquanto prática motora, sendo que o conceito de Educação física tem sido preterido a favor do conceito de “ciência da motricidade”, com origem em Merleau-Ponty e continuidade nacional em Manuel Sérgio. Nos seus livros sobre “epistemologia da motricidade humana”, Manuel Sérgio reforça o carácter holístico da pragmática desportiva, vista como prática multimodal e multi-existencial.
Independentemente de ter sido ou não bem sucedido o esforço de alguns de transformar a “prática desportiva” numa arte da condição humana, é inegável que a realização de desportos tem influenciado marcadamente a evolução da nossa sociedade.
Acontece que nunca e em tempo algum se realizou um esforço tão grande como o actual para estudar e divulgar os efeitos e benefícios do desporto sobre a saúde humana. É talvez por isso que certas especialidades médicas começam a proliferar – como a medicina desportiva – e certos cursos de “ciências da motricidade” começam a virar-se para a dimensão da saúde e do bem estar. É talvez agora relevante sublinhar que jamais um desporto foi concebido em termos das suas potencialidades para a saúde do Homem. Todos os desportos ditos “clássicos” possuem uma história própria que não passa, de forma alguma, pela estruturação de um conjunto de gestos com vista à saúde do sistema esquelético do Homem.
É, portanto, aqui que começa a problemática da tão aspirada síntese entre desporto e saúde. A saúde não pode ser conseguida somente pela prática suave de determinados desportos, pois, efectivamente, não há, em termos biomecânicos e cinesiológicos, um desporto que possa ser considerado como uma actividade perfeita (em termos fundamentais de saúde esquelética do Homem). Para além disso, também é frustre a pretensão de se querer que um instrutor de “fitness” constitua um profissional de saúde. O desporto possui inúmeros benefícios, mas esses mesmos benefícios só são conseguidos pela prática arraigada de componentes específicas e bem estudadas de treino desportivo. E ainda devemos considerar que a obtenção de saúde num plano do corpo (ex. cardiovascular) acarrete prejuízo de outro plano corpóreo (ex. músculo-esquelético)...
Muito mais grave que a prática mais ou menos formal de um desporto é a massificação do treino dito de “fitness”. Refiro-me à musculação e a todos os variados ingredientes de uma massa acrítica de actos embrutecidos (com nomes todos eles o mais estrangeiros possíveis). Com gravidade muitas vezes não valorizada, o utente dos ginásios é atendido e seguido por um instrutor muitas vezes sem formação superior, num ritual de treino profundamente desmesurado. Todos os dias observo, nos meus próprios treinos físicos, o erro e a palermice de tantos e tantos exercícios “prescritos” ao desportista. São os exercícios de “fortalecimento das costas” (forçando a obtenção de posturas anormais e claramente patológicas), os alongamentos feitos rapidamente e sem controlo do alinhamento, os movimentos não fisiológicos, os gestos forçados e repetitivos sem qualquer razão de ser, para não citar mais coisas... Pelo que tenho visto, e pela minha avaliação de fisioterapeuta, a grande maioria das actividades realizadas no contexto de ginásio são impróprias para a saúde humana.
Mas, ao mesmo tempo que ocorre a massificação da prática desportiva, com quase meio milhão de portugueses a praticar uma qualquer actividade e com milhares de ginásios abertos ao público, a medicina dita “clássica”, aquela que se preocupa com a fisiologia normal e não tanto com o corpo “condicionado”, perde uma já longa e polémica batalha. Os atestados médicos, indispensáveis desde 1999 para quem queria inscrever-se num ginásio, deixaram de ser obrigatórios, cabendo ao cliente responsabilizar-se pelo seu estado saudável, uma medida que, logicamente, os proprietários das academias desportivas aplaudem.
Ora, é preciso entender que ao retirar por completo a responsabilidade do médico à actividade desportiva do utente, estamos a promover o abandono da sua saúde e a sua perda nos meandros da máquina confrangedora do “fitness” e seus “profissionais”. Estamos, portanto, a entregar um potencial doente cardíaco às mãos de um instrutor não licenciado ou fracamente licenciado que subordina o cliente a correr numa passadeira sem controlo adequado de determinados parâmetros. Estamos a entregar uma doente com uma artrose dos membros inferiores aos famosos “saltinhos” daqueles estúpidos mini-trampolins de VivaFits e companhia. Estamos a entregar um indivíduo com perturbações posturais a um “personal trainer” ou outro instrutor que pensa que reeducação postural consiste em endireitar à força o seu cliente (como tantas vezes tenho visto em aulas de Yoga ou de Pilates). E assim por diante...
Temos, portanto, o mundo do “fitness” ao serviço incrédulo da saúde dos portugueses. E ao que parece os portugueses gostam destas actividades, pois não pára de crescer o número de clientes das academias desportivas. O que muitas destas “vítimas” não sabem é que a indústria do “fitness” é extremamente agressiva. E não possui a mínima vergonha da forma como trata os seus clientes. A meu ver, é impossível separar o mundo do desporto do mundo da saúde. Para mim, que sou profissional de saúde e motricidade, não consigo ver as coisas sem a perspectiva da motricidade e da postura ao serviço da saúde humana. Não corro pelo condicionamento, como ninguém deveria correr ou fazer correr. Corro pela saúde das pessoas e pelo respeito às suas capacidades.
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Publicado no Jornal Público, dia 23 de Agosto de 2007

quarta-feira, julho 25, 2007

Levantando pesos: o grande modelo de treino terapêutico e desportivo

A musculação é provavelmente o mais praticado dos desportos ou actividades de ginásio. Independentemente se nos referimos ou não à sua versão intitulada “Culturismo”, não há quase nenhum praticante de actividades gímnicas que não tenha levantado uns pesos, assim como não há quase nenhum fisioterapeuta que não tenha empregue o trabalho de pesos na recuperação dos seus doentes. Percebamos que o trabalho de pesos pode ajudar no ganho de vitalidade e controlo motor; será fundamental na recuperação de fracturas e todas as condições que tendam à flacidez, assim como será condimento obrigatório de todo o desportista que queira cultivar um corpo mais “belo”. Mas o treino de pesos não é obrigatório para a maioria das condições de trabalho em fisioterapia. Daí não se perceber por que é que o fisioterapeuta persiste numa obsessão irracional de “fortalecer”, quando, na realidade, o doente quase sempre necessita é de uma “reeducação funcional” (seja o doente ortopédico, seja o doente neurológico).
Muitos fisioterapeutas deveriam perceber que jamais o treino de resistências pode ser utilizado com vista à melhoria da Postura, assim como é impossível conseguir uma melhoria do alinhamento de uma articulação por meio do treino de pesos. O treino de força possui uma metodologia muito interessante mas é desnecessário à maioria das condições com que lida o fisioterapeuta, principalmente se o mesmo treino for de cariz analítico e não funcional.
Mas deixemos as coisas bem claras! Enquanto praticante que sou de actividade desportiva, posso dizer que, por vezes, não consigo resistir ao levantamento de pesos. Como antigo praticante de culturismo, posso dizer que, para mim, a musculação é o mais interessante dos desportos existentes (e é mesmo um desporto com cariz próprio e autónomo). Adoro a musculação e já fui viciado na mesma. Enquanto pessoa, possuo um gosto inefável pelo treino de pesos e outros irracionais. Contudo, enquanto terapeuta, e ainda mais enquanto terapeuta que se interessa por Reeducação Postural, tenho muito pouco a defender na prática do treino de força. E não tenho reservas em dizer que, quase sempre, o treino de força possibilita uma certa estética, em detrimento da saúde!

sábado, julho 21, 2007

As estações do corpo

“As estações do corpo”. É o título do terceiro livro de Thérèse Bertherat, criadora da “antiginástica”. É, provavelmente, o mais enfadonho dos três que já li da autora. Tem uma certa qualidade literária, mas, talvez por isso mesmo, não consegue fugir à maçada de uma leitura pouco técnica, pouco “terapêutica”. A obra não fala de métodos, não fala de casos. Esboça a temática das “estações comportamentais do corpo” ou da forma como o corpo reage e funciona nas diferentes estações do ano, e segundo diferentes ritmos (inicialmente externos e depois internos). Neste ponto, a obra, assim como todo o método de Bertherat, antecipa a inclusão de questões relacionadas com a “medicina tradicional chinesa” nos métodos de Reeducação Postural (assim sendo, o senhor Courchinoux não é, de forma alguma, iniciático no tratamento destas questões). Com um tom bastante pessoal, e um tanto afectivo, a obra toca-nos, apesar de não possuir o esplendor técnico dos seus primeiros livros.
A propósito da temática das “cadeias musculares”, gostaria de passar um excerto de um capítulo do livro, o qual fala da natureza das cadeias posterior e anterior do corpo (repare-se na natureza apriorística da informação seguinte, real nos seus preâmbulos, mas um tanto fora de prazo no seu desenvolvimento):
“Se, em lugar de lendas, prefere a realidade anatómica, saiba que temos na parte de trás do corpo uma possante cadeia muscular, que vai do crânio aos calcanhares, e mais além, pois ela prende-se sob os pés e segura os dedos na sua trama.
Essa cadeia, como um tecido sem falha, estende milhares de fibras de um lado ao outro do corpo, mas somente na parte de trás. As fibras dessa cadeia muscular prendem-se nos nossos ossos por tendões sólidos. Encaixam-se umas nas outras, sobrepõem-se em camadas ajustadas, estão admiravelmente dispostas, com simetria, de cada lado das vértebras.
Ao se contraírem, comandam todas as articulações, todos os movimentos. As fibras musculares dessa cadeia – posterior – têm uma constituição muito robusta, excepcional. São capazes de se contraírem com força e, quando contraídas, é muito difícil afrouxarem.
Com efeito, essa cadeia pode tornar-se uma verdadeira cilada na qual nos atiramos. Ficamos emaranhados nas fibras dos nossos músculos, presos como o coelho que cai na armadilha cujos laços vão-se apertando à medida que ele se debate.
Na frente, tudo é bem diferente. Não há cadeia anterior [aqui está um ponto discutível...], mas sim músculos isolados que caminham separados ao longo, (...), sobre o nosso pescoço, peito, abdómen e parte dianteira das coxas. (...)
Atrás, os músculos da cadeia posterior, bem organizados, agrupados, solidários entre si, pretendem participar de todos os nossos movimentos. (...) Ao se contrair, forçosamente [a cadeia posterior] diminui de comprimento. Se a musculatura estiver permanentemente contraída estará permanentemente mais curta.
A composição química e a aparência dos músculos modifica-se. De apenas rígidos, tornam-se contraídos, encolhidos. Os nossos músculos, repito, comandam as articulações; são eles que fazem mexer os ossos do esqueleto e, por conseguinte, são eles, e somente eles, que dão ao nosso corpo a forma que tem. Ao aproximar as articulações, os músculos são capazes de dobrar a coluna, mantê-la arqueada, exagerar as curvaturas e achatar as vértebras.
As bordas ósseas das vértebras, juntadas à força, comprimem os nossos “discos” delicados, sensíveis, e a raiz dos nervos, mais sensível ainda. (...)
Enquanto atrás se desenrola esta cena – dramática – o que fazem os músculos da frente? Bocejam, os músculos da frente. Estão inibidos pelos seus parceiros-antagonistas que os proíbem de agir. Aumentam de volume, ficam mais pesados entre os seus tendões. Diante dos olhos, lá os temos flácidos e molengas. Concluímos apressadamente que toda a nossa musculatura é muito fraca e precisa de ser corrigida.
Na verdade, a musculatura gosta de ser tratada com tacto e inteligência. Gosta de ser compreendida. Os músculos que ficam atrás só precisam de ser afrouxados, alongados. Os músculos da frente não precisam de nada. [outra parte questionável...]. Se são fracos é porque as contracções dos seus antagonistas impedem que, por sua vez, eles se contraiam. São, desse jeito, submetem-se a essa lei, a esse mecanismo peculiar. Solte a cadeia aferrolhada que existe atrás e verá que, na frente, os músculos deixados em liberdade conseguirão, sozinhos, mudar de forma, mudar de aspecto.
É detrás que a forma do nosso corpo se decide [princípio mézièrista basilar]. Somos esculpidos por trás e quase sempre amassados sem complacência.”

quarta-feira, julho 11, 2007

Fortalecendo o corpo de dentro para fora: Pilates sim, Musculação não

Em diferentes culturas, a capacidade de força muscular é vista de diferentes maneiras, com base em conceitos dissemelhantes. Afinal de contas, não é muito difícil de perceber que a força envolvida nas artes marciais, nomeadamente a força explosiva, é diferente da força envolvida no treino de um culturista (treino de hipertrofia muscular); a força de um ciclista que sobe a montanha (resistência muscular) é obviamente diferente da força do halterofilista que eleva uma grande quantidade de peso acima dos seus ombros (potência muscular). E se todas estas formas de força compreendem o conjunto de actividades que integram a utilização de contracções musculares completas, inclusivas de uma fase de aproximação das inserções musculares (contracção concêntrica) e de uma fase de afastamento das inserções musculares (contracção excêntrica), o que diremos daquelas actividades que empregam contracções sem movimento aparente (contracções estáticas), como ocorre no Yoga?...
Parecem possuir vantagens distintas as actividades em que é mantida a realização de posturas de força mantida e resistente, somadas ao alongamento global de determinadas cadeias musculares. Só através deste tipo de actividades é possível empreender um trabalho muscular inclusivo das massas musculares profundas, grupos musculares com uma grande importância na estabilidade central do corpo e no controlo postural.
Neste contexto, de forma mais ou menos intuitiva, no início do século XX, um homem chamado Joseph Pilates viria a criar um sistema de exercícios que teria como principal objectivo o treino da força muscular profunda. Este homem não tinha qualquer tipo de formação na área da saúde, mas demonstrou-se extremamente intuitivo no momento de criar um conjunto de exercícios com uma série de vantagens para as mais dissemelhantes pessoas.
Joseph Pilates permitiu que o seu sistema de treino atravessasse o oceano atlântico, tendo criado estúdios na América e permitido a criação de uma linhagem extensa de alunos e discípulos. O método Pilates viria a obter um extenso sucesso, sendo que se tornaria provavelmente o mais famoso método de fitness. Interessou a bailarinos e, mais tarde, a fisioterapeutas e professores. Manteve-se na mira dos sérios praticantes de exercício físico, inclusive famosos actores e personalidades públicas, ao mesmo tempo que a prática de levantamento de pesos em ginásios mantinha o seu estatuto de desporto de cadastrados e dissidentes.
O método Pilates veio a tornar-se uma verdadeira compulsão da moda, sendo que, ainda actualmente, apresenta-se como um método vistoso, de natureza quase esotérica e milagrosa. As pessoas advinham no método uma espécie de panaceia do total bem estar físico e espiritual, para além de verem nele a resolução única dos seus problemas. É, provavelmente, mais um efeito perverso do diabólico marketing.
Ao contrário do que se poderá pensar, o método Pilates não é necessariamente a melhor solução para os problemas de coluna. Aliás, quando nos referimos a “problemas de coluna”, podemos estar a incluir inúmeras condições clínicas, sendo que algumas dessas situações podem não ganhar, mas sim perder, com a prática de Pilates.
Por outro lado, a melhor virtude do Pilates não tem sido suficientemente aludida pelos profissionais. Trata-se precisamente da possibilidade de realização de um treino de força profunda, de natureza estática a nível abdominal e excêntrica a nível periférico, fazendo com que exista uma melhoria da estabilidade corporal sem que se verifique um necessário aumento de tensão.
A prática de musculação leva irremediavelmente à perca da flexibilidade, seja porque a prática é feita com posturas impróprias, seja porque inclui a utilização de cargas extremamente elevadas que sobrecarregam o trabalho muscular na fase de aproximação das inserções do músculo. Digam o que disserem alguns autores de livros de musculação/culturismo, a perda de flexibilidade no treino de pesos compreende uma realidade insofismável. Para além disso, o treino de cargas tende a perpetuar ou fixar os desequilíbrios posturais previamente existentes.
A utilização de pesos, tanto em fitness como em fisioterapia, é extremamente comum, mas releva de alguma ignorância profissional. O treino de força deveria ter sempre uma componente funcional, com atenção especial ao controlo motor. Daí que os fisioterapeutas só deveriam utilizar terapias de força com base no treino excêntrico, mediante a realização de actividades lúdicas e que envolvam especial controlo neuromuscular (como já vai sendo feito no seio das terapias neurológicas).
Já na antiguidade grega, o corpo, considerado uma forma ideal, símbolo de valor e juventude, constituía um pleno de beleza e vitalidade, com massas musculares moderadas e proporcionadas. Mesmo Miguel Ângelo, no renascimento, viria a idealizar o corpo como uma estrutura de grande densidade central, pleno de força, energia e flexibilidade, com a presença de massas musculares salientes mas não exageradas.
O método Pilates possui a inaudita vantagem de permitir o treino de força em posições de alongamento, com controlo do centro abdominal e coordenação permanente da respiração. Baseia-se fundamentalmente em exercícios de controlo central do tronco, sendo que se aproxima de certos dados da fisioterapia neurológica, segundo os quais sem estabilidade central (do tronco) é impossível obter estabilidade proximal (dos membros) e sem esta é impossível obter mobilidade periférica (das extremidades).
Não é, contudo, isento de perigos e/ou inseguranças. Comummente, diversos instrutores de Pilates, de diversas escolas e/ou tradições práxicas, abusam na realização dos exercícios, sobrepujando o esforço abdominal dos praticantes. Se o treino abdominal profundo, nomeadamente do músculo transverso abdominal e do diafragma pélvico, permite a estabilização fisiológica da coluna, se realizado com moderação e sensatez (sem a presença de compensações musculares), o mesmo treino, se for realizado com esforço acrescido, poderá levar ao arqueamento da coluna e à solicitação de uma série de músculos que não interessa esforçar (é o caso da musculatura paravertebral extensora da coluna).
Um dos objectivos da existência de uma musculatura abdominal profunda resistente consiste na possibilidade de evitar a utilização da musculatura paravertebral na realização de uma série de actividades que exigem equilíbrio. Porém, o treino sobrepujado dos abdominais leva a que a coluna seja utilizada como ponto móvel no exercício, ao invés de se manter como ponto fixo. A utilização da musculatura extensora leva a que a lordose ou retracção da cadeia muscular posterior, principalmente da região tóraco-lombar da coluna, aumente ao ponto de se fixar numa postura extensora. Assim sendo, o método Pilates, se utilizado com exagero e/ou fraco controlo leva à criação de uma postura anormal, muitas vezes confundida com uma boa postura, pelo facto de a pessoa estar aparentemente mais “direita” ou menos “corcunda”.
A permanência de um tipo de postura extensora, seja ela atitudinal ou estruturada, é muito comum nos instrutores de fitness. Segundo a perspectiva de Godelieve Denys-Struyf, a escolha deste tipo de atitude favorece a ideação e a acção, “fazendo dela uma estrutura que procura prever e garantir um certo controlo sobre os acontecimentos, pelo saber e pelo poder”. É, portanto, uma atitude de defesa corporal, muitas vezes difícil de desbloquear, mesmo através do alongamento global progressivo.
Para mim, a prática de Pilates deveria ser feita sempre com a coluna lombar completamente apoiada, ao invés do que muitas escolas de Pilates tendem a advogar (nomeadamente, a utilização de uma posição neutra da coluna). O apoio total da coluna facilita a compreensão do controlo do centro abdominal, para além de permitir evitar a manutenção de uma postura anormal.
A prática de Pilates apresenta-se, assim, como especialmente vantajosa, mas apenas se mediada por um instrutor sensato e relevantemente formado, que consiga atender às diferenças posturais e comportamentais das diferentes pessoas. Como tal, resta dizer que um bom instrutor de Pilates ou, em geral, de fitness, não é necessariamente o melhor modelo, aquele que faz melhor os exercícios; é sim aquele que faz com que as pessoas, essas sim, façam bem os exercícios e consigam obter as sensações óptimas inerentes aos mesmos.

segunda-feira, junho 25, 2007

Por que não publicam os fisioterapeutas portugueses?

Aqui está uma questão que me faço diariamente e para a qual não possuo resposta evidente. Por que razão há tão poucos artigos de fisioterapeutas em revistas de referência nacional ou internacional?... Esta questão, sempre que a faço, leva-me a níveis de angústia indescritíveis. Temos por aí uma longa e escamosa faixa de fisioterapeutas académicos, que dão aulas nas mais ou menos prestigiosas escolas superiores de saúde e Fisioterapia, homens e mulheres sem um verdadeiro sentido do dever académico; dão aulas, fazem os seus testes, mas não investigam, ou então, se investigam não publicam aquilo que estudaram.
Por que razão os fisioterapeutas têm tanto medo de publicar? Será que não sabem escrever?... Mas a linguagem científica é tão simples... Será que não têm conhecimentos suficientes de estatística e de metodologia de investigação?... Mas teriam sempre os artigos de revisão bibliográfica e outros de opinião... Será que estão desmotivados?... Nos Estados Unidos da América, os professores que não publicam são convidados a sair das universidades... Será esta uma motivação suficiente? Ou falta simplesmente a vontade de dar nas vistas?...
Ora, eu já há muito que perdi todas as ilusões relativamente à pertença a um clima académico. Os meios académicos são somente para os “amigos”, para os “filhos”, para os “apadrinhados”... E, por isso, temos por aí tantas escolas de Fisioterapia onde impera a fraca formação científica e a total incapacidade de produção de publicações (que é, no fundo, a única prova decente de um trabalho académico de qualidade).
Também não percebo por que é que as monografias de final de curso das diversas escolas existentes, assim como as teses de mestrado (ex. mestrado em Ciências da Fisioterapia), não se transformam num artigo numa publicação de referência... A única área onde ainda se vai publicando qualquer coisa é a “Fisioterapia no desporto”, mas mesmo assim os artigos desta área não são facilmente encontráveis em revistas como a Acta Reumatológica Portuguesa e outras de qualidade insofismável. Não percebo realmente por que há tão pouco interesse, tão pouco orgulho, na produção articulista. É uma falha considerável da parte dos fisioterapeutas portugueses. A criação de estudos e a sua respectiva publicação compõe uma fonte indubitável de respeitabilidade interdisciplinar. Mas como os fisioterapeutas têm as suas vidas familiares e pessoais muito cheias e, portanto, não se dedicam à produção científica, eis que os outros profissionais continuam a achar que os nossos métodos são inexistentes ou ineficazes... Não os censuro, pois não têm onde ler sobre o que fazemos...

sexta-feira, junho 22, 2007

O estado das publicações científicas portuguesas

Sempre achei que a qualidade de um investigador se revia pelo “estado da arte” da sua produção científica em forma de artigos em publicações especializadas. Na realidade, aquilo que define uma boa investigação não é a respectiva publicação da mesma em livro ou catálogo, mas sim num artigo científico numa revista que inclui revisores de qualidade, assim como critérios de revisão objectivos.
Ora, se a qualidade da investigação irá reflectir-se na qualidade da publicação, não pode deixar de se considerar que o contrário também é verdadeiro e que, portanto, a qualidade do artigo irá denunciar a qualidade do trabalho subjacente. Mas é aqui que residem todos os males. Se a qualidade de investigação em Portugal é indubitavelmente crescente o mesmo não se pode dizer acerca da qualidade das nossas publicações científicas.
Por minha parte posso dizer que tenho a minha pequena quota parte de artigos publicados e não sinto qualquer motivação para voltar a publicar. E esta desmotivação, esta clara falta de vontade, advém em muito de experiências que tenho tido no campo da publicação científica.
Como se já não bastasse o facto de todas as publicações possuírem regras próprias para o tratamento e avaliação do artigo, incluindo as regras de escrita das referências bibliográficas (as quais deveriam ser universais, dentro de cada campo de estudo especializado), não se pode compreender a razão pela qual muitas publicações possuem tempos de revisão do artigo que ascendem a um ano. Por que leva tanto tempo um revisor a fazer a respectiva revisão de um artigo? Será por ter muitas outras responsabilidades? Então diminuam-se os seus “cargos”, para poder melhor desempenhar os “poucos” que possui. O facto de a revisão de um artigo demorar quantidades enormes de tempo constitui um factor de óbvia desactualização da publicação.
Gostaria de contar uma experiência que considero muito negativa. No início do ano passado submeti um artigo à Revista Motricidade, sendo que determinado responsável declarou que não deveria deixar passar o prazo de meio ano, sendo que findo esse prazo deveria questionar acerca do estado do artigo. Ora, é isso mesmo que aconteceu; findo o prazo enviei uma mensagem perguntando-me acerca do artigo em questão, sendo que recebi como resposta qualquer coisa como “o seu artigo encontra-se em revisão”. Esta mesma resposta foi-me dada três meses depois, e outros três meses depois. Achei estranho tal “revisão demorada” do artigo, pois um outro artigo que tinha mandado posteriormente para a revista (cerca de dois meses após o primeiro) resultou num envio das correcções cerca de seis ou sete meses após a sua submissão. Há cerca de um mês, mais de um ano após ter submetido o primeiro artigo e cerca de um ano após ter submetido o segundo, não tinha notícias de qualquer um dos artigos, pelo que enviei nova mensagem. Eis o resultado: não sabiam do primeiro artigo e quanto ao segundo estavam a enviar-me as respectivas correcções (exactamente as mesmas que já me tinham enviado vários meses antes). Mais tarde, pedem-me que faça a revisão do formato do segundo artigo (não me explicando o que pretendiam) e afirmar, relativamente ao primeiro artigo, que o mesmo foi rejeitado em Outubro do ano passado. Ora, levaram portanto todos estes meses para me dizerem que o artigo foi rejeitado e ainda por cima não apresentaram qualquer justificação acerca da respectiva rejeição. Quanto ao segundo artigo, ainda procuro que dêem notícias sobre o “estado de publicação” do mesmo.
Ora, este tipo de tratamento dos manuscritos de um investigador não pode ser admitido. E tenho tido experiências semelhantes com outras revistas. Por exemplo, a Revista Psicologia prometeu-me há três meses que no prazo máximo de um mês um artigo meu enviado e corrigido seria finalmente aceite ou rejeitado. Mais de dois meses depois de findo o prazo, ainda não sei nada sobre o respectivo artigo.
E também poderia contar imensas coisas sobre a aceitação de artigos com tratamentos estatísticos incorrectos. E também sobre a formatação incorrecta da linguagem ou aspecto finais de artigos enviados e entretanto publicados.
O estado da publicação científica em Portugal é profundamente calamitoso. Não admira que não possuamos publicações de referência internacional! O que acontece é que o abandalhamento tipicamente português também predomina na nossa divulgação científica.
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Publicado em Cartas ao Director do Jornal Público, dia 24 de Junho de 2007

sexta-feira, junho 15, 2007

Stretching Global Activo em artigo na Sportlife

É com enorme prazer que anuncio a saída de um artigo meu sobre Stretching Global Activo, explicativo dos principais princípios do método e de imagens das principais posturas de alongamento, na revista Sportlife do próximo mês (Julho 2007). Penso que é de subscrever a realização de artigos como este, os quais têm a população desportiva como principal alvo informativo e educativo.
Entretanto, este blog irá passar a ser mais conhecido, pois virá referido no artigo. Por motivos de boa educação e de sensatez geral, e de modo a evitar quadros desastrosos já antes ocorridos, resolvi proibir a entrada de comentários anónimos no blog. Assim, se mais alguém pretender realizar um comentário ofensivo será obrigado a denunciar o seu nome, assim como outros dados. Penso que, tendo em conta que dou a cara e o corpo neste blog, não é injusto pedir o mesmo dos outros.

sábado, junho 02, 2007

O correio do corpo. Novas vias da antiginástica

É o título do segundo grande livro de Thérèse Bertherat. E que posso eu dizer desta obra que pode, eventualmente, ser encomendada pela Internet?... Muita coisa, visto que a mesma é simplesmente fantástica na forma de ver os terapeutas corporais e os fundamentos do método Mézières.
Num dos capítulos do livro, Bertherat fala de outras terapias. Contesta a eficácia de Feldenkrais e de outras técnicas funcionais, assumindo que as mesmas permitem a função de forma batoteira e compensada. Contesta igualmente a eficácia das técnicas de relaxamento, por assumir que as mesmas estão enfocadas somente nos sintomas (tratados pelo poder persuasivo da voz do terapeuta) e não nas causas. E, por outro lado, elogia o Rolfing, realizando aquela fantástica comparação entre este método e o método Mézières (que muitos poderiam ter feito, mas ainda actualmente não tende a ser realizada).
Gostaria de citar a seguinte passagem do livro: “O rolfing é praticamente, que eu saiba, a única técnica ocidental que não contradiz os princípios de base do método Mézières: já é muito. Ida Rolf sabe como é importante alongar o conjunto da musculatura (...). E, lógico, construiu o seu método a partir da ideia de que a estrutura determina a função, e não o inverso. Mas... Não sei como dizer de outro modo. Ida Rolf não é Françoise Mézières. Ela não fez a mesma descoberta. Pode-se dizer que Ida Rolf foi mais longe nas suas pesquisas [sobretudo por ter dado grande importância ao papel das fáscias], mas no seu percurso não se deteve o suficiente diante do que considero primordial: a anatomia da musculatura posterior que faz com que ela esteja, inevitavelmente, na origem de toda a deformação adquirida. Ida Rolf morreu sem conhecer a descoberta de Françoise Mézières.”
É fantástica a forma como Bertherat explicou que tem sido vaiada por muitos mézièristas que não compreendem a amplitude da sua visão biopsicossocial do ser humano. Para Bertherat, o método Mézières é fantasticamente mais Global do que aquilo que é pressuposto por muitos mézièristas.
Como é tão bom possuir a inteligência criadora capaz de fomentar a comparação entre técnicas. Por exemplo, Bertherat não o diz na sua obra mas vale a pena dizer que terapias funcionais como Bobath e a técnica Alexander não se interessam pela estrutura mas somente pela facilitação da função; daí não serem verdadeiras terapias com vista à causalidade. E, por exemplo, ninguém tem a ousadia de comparar a visão das fáscias da abordagem dos “Trilhos anatómicos” com o método de Busquet (“Cadeias musculares”)? Dizer que o primeiro método é “rolfista” e que o segundo é “mézièrista” é expressar muito pouco de uma natureza teorética de métodos tão prolífica!
A verdadeira intelectualidade expressa-se pela criatividade com que comparamos, e criamos o eclectismo visionário das coisas. Obras como a da Bertherat, em que a mesma realiza tais comparações, são de leitura obrigatória.

terça-feira, maio 29, 2007

A Reeducação Postural é segura para as hérnias discais?

Se há grupo de doentes que tenho medo de encontrar nas minhas classes de reeducação postural são aqueles que possuem uma condição álgica aguda. O modelo mais flagrante corresponde à existência de hérnia discal lombar em fase aguda com ou sem ciatalgia. Diga-se de passagem que o princípio da deslordose pode ser flagrantemente perigoso no caso destes doentes. Os tradicionais “queixo ao peito” e “retroversão da bacia” não parecem dar grandes resultados no respeitante aos sintomas de fase aguda de herniação. Aliás, já tive maus resultados no tratamento de hérnias cervicais com a utilização de certas posturas do RPG. Daí que possua muitas reservas quanto à utilização de posturas de reeducação postural, paradigmaticamente realizadas em flexão, nos casos de doentes com hérnias de disco.
E mais uma vez refiro que não acredito muito na osteopatia ou na quiroprática para o bom tratamento de hérnias discais. A meu ver, a simples tracção manual constitui a melhor forma de tratar hérnias cervicais. Podem referir Maitland, McKenzie, Mulligan, Janda, Cyriax, Kaltenborn, o que quiserem, mas para as hérnias cervicais só utilizo duas coisas: tensão neural adversa para avaliação inicial e reavaliação + tracção manual. Os resultados costumam ser imediatos. Terapias manuais podem ser fantásticas para outras condições. Mas não para as hérnias da cervical.
Relativamente às hérnias lombares, a história já é um pouco diferente. Aqui acredito que o método de Maitland é o mais eficaz, sendo que dispenso as tracções e também as extensões passivas.
É claro que a ordem de preferências dos diversos terapeutas dependerá, em grande parte, da formação básica e profissional que possuam, para além de uma certa subjectividade preferencial.
Não é muito comum um fisioterapeuta da área reeducativa, como é o meu caso, interessar-se por terapias manuais. Há obviamente excepções mas, para mim, a reeducação postural é tudo, preferindo a prevenção ao tratamento manipulativo eventualmente deletério.
Ainda assim, admiro o bom terapeuta manual. E entregar-me-ia muito mais rapidamente a um destes terapeutas do que a um osteopata formado aqui em Portugal (obviamente, não comparável com o osteopata formado, por exemplo, em Oxford). Também aceito que as diferentes técnicas de “terapia manual” encarnam um certo marketing, difícil de explicar. Por exemplo, já alguém se deu ao trabalho de comparar as técnicas de Cyriax com as de McKenzie? Ou as de Maitland com as de Kaltenborn? Há diferenças, obviamente. E só o leigo é incapaz de as reconhecer. Mas será que as diferenças inerentes aos próprios métodos resultam em diferenças relevantes nos resultados? Em relação a isso, provavelmente, só os especialistas da área poderão responder...

 

sexta-feira, maio 18, 2007

"O Corpo Humano como nunca o viu…”

É o título de uma exposição que está, neste momento, a decorrer em Lisboa, na Rua da Escola Politécnica, aquela rua onde tantas vezes visitei o museu de História Natural...
Apesar de estar a decorrer uma série de campanhas de promoção de bilhetes para a exposição, não pode deixar de se sublinhar que a visita à mesma acarreta preços proibitivos, com os bilhetes a custarem cerca de vinte euros cada. A questão agora é simples: será que vale a pena?... E a resposta é também simples: vale a pena para quem estuda anatomia, não vale a pena para quem já estudou anatomia. Ou seja, esta é uma exposição interessante para os iniciados nos estudos anatómicos, principalmente para todos aqueles que queiram apropriar-se de uma visão realista e proporcionada das estruturas anatómicas, mas é uma exposição um tanto infantil para todos aqueles que já têm experiência de estudo de manuais anatómicos, principalmente se, como é o meu caso, estudaram por livros de cadáveres.
A exposição é um tanto infantil, possuindo informações extremamente lineares para quem é profissional de saúde. Por outro lado, podemos considerar que é uma exposição obrigatória para todos os interessados, principalmente aqueles curiosos que não são da área.
Uma consideração a ter em conta: a nónima do que é mostrado. Talvez a parte mais infeliz da exposição corresponde aos termos anatómicos utilizados. Infelizmente não são termos portugueses, mas sim brasileiros. Por exemplo, o “vasto interno do quadricípete” é designado por “vasto medial do quadríceps”, e assim por diante. Não tenho nada contra os termos brasileiros, ainda mais porque estes são, nada mais nada menos, que a tradução portuguesa dos termos americanos. Mas os termos anatómicos estão anos luz mais adaptados à nossa cultura tal como aparecem, por exemplo, nos manuais “Anatomia humana da...” de Esperança Pina.

domingo, abril 29, 2007

Françoise Mézières (1909-1991)


"A saúde é o resultado da forma perfeita"

F. Mézières

Tendências

A cifose


A lordose


A bela forma

Mézières é morfologia

Muito mais do que um método mais ou menos licenciado e/ou registado, o método Mézières constitui uma outra forma de ver o corpo. E, dentro desta componente avaliativa, é preciso atender a que o método original/tradicional tem como principal ponto de partida o modelo de “morfologia perfeita”, a “bela forma”. É, portanto, errado afirmar que se desconhece o modelo de “postura perfeita”, visto que os mézièristas estabeleceram como “ideal” a aproximação ao número de ouro (raiz quadrada de cinco mais ou menos um meio), a proporção de um David clássico.
A morfologia é, portanto, o ponto fulminante de avaliação mézièrista, muito mais do que o modelo de avaliação da flexibilidade das cadeias musculares (avaliação numérica da flexibilidade).
À forma “sã” ou “perfeita” contrapõe-se a dismorfia, tendo uma qualquer origem numa lordose patológica, centrada de forma mais ou menos dinâmica no “trilho” da cadeia muscular lordosante.

domingo, abril 22, 2007

Reconstrução Postural. Tradução do Vídeo “The Postural Reconstruction: a innovative kinesitherapy”

O texto que se apresenta seguidamente corresponde a uma tradução realizada a partir do vídeo com o título acima indicado, presente no site http://www.reconstruction-posturale.com/. É sobretudo a base teorética do método mais científico e integral da reeducação postural: a Reconstrução Postural. É preciso atender à possibilidade de existência de alguns “espaços” de tradução mais livre, assim como ao acrescento de notas entre [ ].
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A Reconstrução Postural constitui um método de fisioterapia único que emergiu em 1992. Foi desenvolvido a partir do trabalho de Françoise Mézières, a famosa fisioterapeuta francesa que morreu em 1991. Este método consiste num sistema de técnicas desenhadas para normalizar a tonicidade muscular inerente às mudanças musculares. As modificações musculares e de alinhamento biomecânico são tratadas por um método baseado na evidência...
Similarmente a qualquer outra forma de reabilitação, o objectivo da Reconstrução Postural consiste no alívio da dor do sistema músculo-esquelético e na restauração da função. Desde 1992, a Reconstrução Postural tem tido um longo percurso de trabalho teorético e clínico/prático. O famoso método Mézières, um método fundamentalmente empírico e marginal, tornou-se num trabalho de utilização corrente. O trabalho de Mézières, os seus fundamentos da teoria biomecânica e a sua personalidade carismática contribuíram para atrair milhares de fisioterapeutas de todo o mundo interessados em aprender sobre o método controverso e ousado a partir da própria criadora (Françoise Mézières).
Dez anos depois da morte de Mézières, um observador/estudioso do método da Reconstrução Postural só pode encontrar nele nada mais do que alguns traços do método Mézières. A Reconstrução Postural é actualmente um método autónomo, com técnicas e tácticas próprias, para além de possuir uma independente identidade conceptual.
A Reconstrução Postural: O que é?
Há vários séculos que os “terapeutas” têm tentado entender a origem e o mecanismo das deformações do corpo humano e do seu sofrimento. Os métodos de tratamento costumam ser escolhidos a partir da orientação do terapeuta e da forma como este avalia o alinhamento biomecânico do doente. Assim como algumas pessoas olham para “as montanhas e picos” que naturalmente atraem o olhar, é também verdade que o terapeuta olha de maneira análoga para o conjunto do corpo humano. Ou seja, os terapeutas [e outros profissionais de saúde] têm uma maior tendência para perspectivar os escarpins e as cifoses do corpo antes de olharem para as lordoses. Consequentemente, qualquer tentativa para imaginar o mecanismo responsável pela deformação mecânica presente no corpo do paciente leva a que o observador tenha em consideração o factor gravítico e a inabilidade dos músculos de se contraírem para contrariar a força da gravidade. De facto, todas as técnicas e terapias que se baseiam nesta interpretação das deformações [ou seja, as deformidades com causa em músculos fracos que não conseguem contrariar a força gravítica] tendem a valorizar o papel do “fortalecimento” de certos músculos, como o ‘erector da espinha’. Estas técnicas, todas elas promovem o fortalecimento muscular enquanto estratégia de tratamento da dor e disfunção.
A partir do momento em que os terapeutas passam a concentrar-se no papel das ‘lordoses’ ou concavidades do corpo, o aspecto dominante do corpo que acaba por sobressair consiste num encurtamento muscular que provoca o achatamento destas depressões. O conjunto das lordoses cervical e lombar estão na origem de uma outra zona – dita de transição – que possui o aspecto de uma cifose (dorsal).
Existem inúmeras técnicas de stretching muscular que estão já de acordo com esta forma de ver as deformidades mecânicas. Ainda que muitas dessas técnicas sejam realizadas de uma forma “global”, elas não permitem a correcção manual e individual do terapeuta [portanto, não permitem a correcção das compensações] e o trabalho num sistema neuro-músculo-esquelético visto como um todo. O trabalho de reeducação postural não pode ser feito como se o corpo fosse meramente um elástico gigante.
É preciso entender que os músculos que estão envolvidos nas deformidades posturais possuem uma organização em “cadeias musculares”, o que quer dizer que estão unidos entre si como se fossem “trilhos”. Há quatro cadeias musculares no corpo humano: a longa cadeia posterior, a cadeia anterior da coluna cervical, a cadeia anterior da zona lombar e a cadeia braquial.
Desde há uns tempos para cá que diversos estudos electromiográficos têm demonstrado que o equilíbrio é mantido por contracções musculares constantes e mínimas. Consequentemente, pode perceber-se que as deformidades biomecânicas não são provocadas por fraqueza muscular, assim como as técnicas de reeducação postural não podem partir do fortalecimento muscular.
Nos seres humanos, a posição de pé é controlada pelo tónus muscular, resultando de um controle central inconsciente e involuntário. A Reconstrução Postural baseia-se no pressuposto de que as deformidades biomecânicas e posturais têm origem em desequilíbrios do tónus muscular. Assim sendo, uma terapia, para ser bem sucedida na correcção das deformidades posturais, tem de se basear em técnicas de normalização do tónus muscular postural.
Outros métodos que seguem um modelo semelhante, diferentes da Reconstrução Postural, como o PNF, visam a correcção de desequilíbrios tónicos posturais. Nestes métodos, são utilizadas técnicas de evocação e/ou facilitação da função de modo a induzir respostas distais evocadas. Apesar de a “resposta evocada” ser produzida por uma “indução” específica, ela pode ser generalizada a outros locais...
Em termos de tratamento, as respostas evocadas mais interessantes são aquelas que estão relacionadas com o exacerbar de uma hipertonicidade preexistente, respostas que podem surgir num ponto muito distante do estímulo inicial. Por exemplo, num determinado movimento dos tornozelos do doente [na postura de alongamento da cadeia posterior com o doente deitado em decúbito dorsal e com os membros inferiores elevados, contacto manual do terapeuta nos pés do doente], o terapeuta pode estar a influenciar a posição da cabeça [através do jogo de compensações próprias do corpo], procurando “forçar” a reacção compensatória, agravando-a de propósito, até que surja um novo estímulo capaz de produzir uma resposta correctiva final. Nas imagens [do vídeo], pode ser verificada uma primeira reacção de rotação e flexão lateral da cabeça [como resposta a um estímulo dado no tornozelo]. Este primeiro “estádio” consiste na indução de uma resposta evocada que resulta no exacerbar da deformidade. O segundo estádio consiste na provocação de um estado de exaustão da resposta de hipertonicidade [a tal resposta na forma do acréscimo da deformidade], sendo que se pode observar o regresso da cabeça a uma posição neutra; a manutenção desta posição de neutralidade por vários minutos ira esgotar a reacção patológica de hipertonicidade, assegurando a estabilidade da nova reacção correctora. À semelhança do que acontece com a “terminologia biomecânica”, a distância entre o ponto onde o terapeuta induz a resposta [que podíamos muito bem de apelidar de “ponto-chave de controle”... por motivos lógicos de quem conhece minimamente o método Bobath] e o ponto onde a resposta surge corresponde ao “braço da potência”. Quanto maior o braço de alavanca referido, ou seja, quanto maior a distância entre o ponto de evocação da resposta e o ponto onde esta surge, mais efectivo é o processo de congestão da hipertonicidade e, portanto, de produção de uma resposta correctiva.
O tratamento pela Reconstrução Postural
Depois de ter sido obtido o historial médico do doente, o tratamento pela Reconstrução Postural inicia-se com um sistema completo de avaliação. A avaliação inclui a análise da dinâmica dos desequilíbrios tónicos musculares existentes, assim como se estende à estratificação de estratégias de tratamento com o doente em causa. Por razões que estão relacionadas com a “fiabilidade da avaliação”, esta é realizada sempre com o doente na mesma posição, ou seja, com o doente completamente encostado a uma parede; de resto, toda a avaliação tende a ser feita em posições “naturais”. Nenhumas instruções são dadas, nenhumas correcções são realizadas. O reconstrutor avalia meticulosamente todas as deformações, sendo que o doente é avaliado em quatro posições: anterior, posterior, direita e esquerda. E depois, numa posição especificamente determinada, o doente é avaliado com a posição de flexão à frente com as mãos a tocarem no chão. E, finalmente, o doente é avaliado na posição de decúbito dorsal.
Posteriormente, é realizada a avaliação dinâmica das compensações. Para isso, o reconstrutor faz uso de um conjunto de movimentos fisiológicos estereotipados na mais “fechada” das amplitudes. Estes movimentos exacerbem as deformidades existentes, permitindo a avaliação dos problemas da Estática. Por exemplo, durante a elevação da perna esticada [semelhante ao Straight Leg Raising], a cadeia posterior vai estirar até ao nível da pélvis, comportando-se como uma polia. Isto vai aumentar a tensão e respectiva deformidade na parte superior da cadeia posterior [cervical], permitindo confirmar a existência de um problema de retraimento muscular.
Continuando com a avaliação dinâmica, o reconstrutor conduz o doente através de movimentos fisiológicos específicos, avaliando a intensidade das respostas e a simetria corporal. Estas respostas irão variar de indivíduo para indivíduo. Um exemplo: a flexão lateral esquerda da cervical produz, no doente, a elevação do hemi-tórax direito. Já a flexão lateral direita da cervical produz, para além da elevação do hemi-tórax esquerdo, uma reacção mais distal (uma resposta evocada distal) – a abdução do membro inferior direito. O mesmo movimento de base poderá levar a respostas diferentes em diferentes doentes. Por exemplo, numa outra doente, a “mesma” flexão lateral da cabeça para a direita produz movimentos involuntários no membro superior esquerdo. Já a rotação da cabeça para a esquerda produz, nesta doente, uma elevação do hemi-tórax direito e uma elevação da hemi-pélvis esquerda. Seria de esperar que, nesta doente, a rotação da cervical para a direita produzisse os mesmos efeitos mas em espelho que os produzidos no caso anterior (ou seja, a elevação do hemi-tórax esquerdo e da hemi-pélvis direita). Mas não é exactamente isso que acontece. Com a rotação cervical direita surge uma elevação do hemi-tórax esquerdo maior do que a que se tinha produzido no outro lado, e uma concavidade na zona lateral esquerda baixa do tronco (não se produzindo qualquer reacção na bacia ou membro inferior à direita) [significando isto, portanto, que o corpo tem realmente um comportamento assimétrico].
A avaliação inclui igualmente a palpação. Pode ser utilizada para avaliar as deformidades cervicais, assim como os resultados de determinada manobra terapêutica.
As deformidades surgem nos doentes com diferentes intensidades, dependendo em muito da posição de manifestação das mesmas. Toda a deformidade irá partir da dupla lordose cervical – lombar, como se tudo dependesse de duas forças: uma que passa de trás para a frente e de baixo para cima na lombar, e outra que passa na cervical de trás para a frente e de cima para baixo. A progressão destas curvaturas pode dar a impressão de existir uma curvatura de natureza dorsal aumentada [a cifose é portanto uma mera aparência]. A aparência da hipercifose tem dado azo a que muitos terapeutas tentem tratar as deformidades com o fortalecimento da musculatura dorsal [tratamento tradicional]... Ora, para o reconstrutor [e para qualquer mézièrista] a zona de transição dorsal é consequente de uma outra zona (lordose).
É preciso também acrescentar que a zona de “protuberância posterior” é quase sempre maior à direita da linha média [está associado à nossa escoliose “natural”], na região dorsal, havendo uma zona de concavidade direita lombar; as forças passam nesta zona “lordótica”, assim como numa zona de lordose acima da dorsal (outra concavidade direita), e vão remeter para a zona do hemi-tórax esquerdo, fazendo com que exista tendência para a sua elevação [o que explica a grande prevalência da citada deformidade nas pessoas hiperlordóticas e escolióticas]. A citada deformidade pode remeter para o aumento da lordose global posterior e para a elevação do tórax, sempre com assimetria; todas estas observações são fundamentais para a intervenção do reconstrutor.
Como já foi dito, a manobra do reconstrutor tende a agravar inicialmente a deformidade, pelo que a deformidade tem de ser bem conhecida. A escolha das posturas e dos movimentos a realizar depende muito da natureza das deformidades existentes. A manobra será considerada mais efectiva se produzir mais facilmente a deformidade a um nível distal. O trabalho deve também ser acompanhado de um treino respiratório constante. O reconstrutor adapta o trabalho de respiração a cada doente e insiste nesse trabalho ao longo das sessões.
[Como já foi dito], a fase de agravamento da deformidade tem de ser seguida de uma fase de exaustão da tonicidade, de modo a haver correcção. A correcção marca o fim da manobra. Para além da “capacidade deformante” do movimento ou postura correctora, é preciso também atender ao tamanho do braço de alavanca, sendo que será tanto mais eficiente a correcção quanto maior o citado, razão pela qual o reconstrutor sistematicamente trabalha à maior distância possível da zona a corrigir. O sucesso da sessão de tratamento depende também da capacidade que o doente tem para manter a indução pelo tempo suficiente até que surja uma resposta protectora de co-contração.
[Explicação da importância da avaliação por fotografia e radiografia]
Por vezes, a intensidade das respostas induzidas pelos estímulos do tratamento levam a que existam respostas tónicas excessivas como o clónus. Quanto maior a quantidade de reacções de tonicidade excessiva maior é a necessidade de realizar mais sessões de tratamento. Inclusivamente, um programa de exercícios para casa é normalmente necessário. O prosseguimento de um programa de trabalho de Reconstrução Postural implica um estado imprescindível de motivação.
As contra-indicações da Reconstrução Postural incluem: infecção, caso recente de cancro, e gravidez de alto risco.
De muitas maneiras, a Reconstrução Postural pode ser considerada uma quebra da tradição do trabalho de Mézières. Mas, à semelhança de muitos outros métodos, a Reconstrução Postural pode ser considerada como uma evolução do original.
[Informações sobre a formação em Reconstrução Postural na Universidade Louis Pasteur].

segunda-feira, abril 16, 2007

Mentalidade dos fisioterapeutas portugueses

Podemos dizer que os fisioterapeutas do nosso país compreendem uma classe em franca expansão. A identidade da nossa classe não está ainda completamente firmada, apesar de existirem resquícios de um certo firmamento identitário. A meu ver, a classe de fisioterapeutas divide-se sobretudo em duas expressões: a antiga e a moderna. A “antiga classe” compreende os diversos fisioterapeutas que espelham os quadros dos hospitais e os grandes lugares da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas. Esta “antiga classe” inclui alguns dos melhores profissionais que a nossa área alguma vez conhecerá. Inclui profissionais com dignidade, com apetrechos de desenvolvimento autónomo e científico; mas ainda assim não deixam de ser profissionais agraciados por um contexto sócio-laboral completamente diferente do contexto actual. Quero com isto dizer que se estes antigos profissionais constituem o cerne da grande evolução da Fisioterapia em Portugal, isso deve-se em muito ao facto de, no seu tempo, a Fisioterapia não ter tido uma expressão científica e laboral relevante, fazendo com que fosse fácil singrar neste “mundo”. Eles eram tão poucos! E tão pouco estava feito! Não era assim tão difícil progredir...
Já o mesmo não pode ser dito do contexto moderno. Somos imensos fisioterapeutas, com necessidades de trabalho num mercado “cheio” de profissionais. Não temos poder para fazer girar a situação, por mais que tentemos... E por mais formação que possuamos nunca é suficiente para as necessidades “académicas”, mas é sempre demais para as necessidades “laborais”.
Para além disso, os novos fisioterapeutas ainda são pouco reconhecidos pelos colegas mais velhos. Ainda há pouco um fisioterapeuta da “velha classe” me criticava dizendo que eu tinha, tal como todos os outros, de “fazer o caminho da pedra”. Que grande “caminho da pedra” que ele deve ter feito!!!... Numa época em que era tão fácil arranjar emprego no seio da Fisioterapia (como era há alguns anos atrás), não acredito que existisse assim tanta “pedra para bater”. Hipócritas destes há muitos na nossa classe! Tantos quantos aqueles que criticam a identidade do Fisiatra enquanto profissional... A avaliar pelas qualidades de alguns fisioterapeutas da “velha classe”, não deixo de compreender o pouco respeito que a classe médica tem pelos fisioterapeutas. Pois, é preciso perceber que o respeito dos médicos, e em especial dos fisiatras, não é uma condição pré-definida, ele tem de ser conquistado com trabalho e formação. E, na minha pouca experiência, os médicos, tanto aqueles com que trabalho como aqueles que avaliam os meus artigos científicos, têm reconhecido melhor o meu esforço científico e curricular do que os próprios colegas. Dentro do mundo da Fisioterapia, a inveja é regra e não excepção. Já vi muitos fisioterapeutas criticarem um colega pelo simples facto de estar a fazer mestrado. Há pouco tempo ouvi fisioterapeutas a chamarem “pedante” ao prof. Raúl Oliveira pelo simples facto de ser professor e ter evoluído. E quantos não riem do Paulo Araújo, chamando-o maluco pelas suas “inovações”, ou do prof. António Manuel Fernandes Lopes (“E até o tratam por Doutor” – como me dizia há pouco uma colega), pela sua invejável posição no mundo da Fisioterapia. À presidente da nossa APF chamam muitas vezes de “Tia”. E ainda há uns dois anos atrás, determinado chefe de serviço dizia-me que “a Isabel de Sousa Guerra está a levar nas lonas no Egas Moniz com o novo sistema hospitalar”... E a Prof. Doutora Gomes da Silva que se dá ao luxo de utilizar o título de “Professora Doutora”... “É por isso que estamos como estamos” – dizia-me outro chefe de serviço.
É verdade! Há muita intriga no meio da nossa classe. Muita inveja dos que ainda vão fazendo alguma coisa. É verdade que a APF constitui uma elite, mas mil vezes a elite inteligente, que vai tentando fazer alguma coisa por nós, do que aqueles pacóvios invejosos que enchem os serviços dos hospitais ou os outros fisioterapeutas hipócritas que são, por exemplo, directores de serviços.
Saiba-se que o futuro da fisioterapia pertence aos jovens e inteligentes fisioterapeutas da actualidade... refiro-me, claro, aos que ainda vão tendo a dignidade de percorrer determinado percurso científico e laboral, sem aceitar qualquer contexto de trabalho e desenvolvimento. Dentro da “nova classe” temos fisioterapeutas bem formados, mas com grandes dificuldades de inserção profissional. É de reparar que, dentro da “velha classe”, são muitos os fisioterapeutas desactualizados e sem grande maturidade intelectual e académica. Refiro-me não aos fisioterapeutas que fizeram a Fisioterapia singrar, mas a todos aqueles que se sentaram à sombra da bananeira, aqueles que só dizem mal dos velhos colegas que se mexem e dos novos que são promissores.
E não me venham com a conversa da Experiência. E com o argumento de que “o velho é que é bom”. O bom fisioterapeuta não pode ter muita experiência, pois, no nosso país, quanto mais experiência se possui mais se chafurda (e por mais tempo) no que a Fisioterapia tem de mau. É preciso ser-se profissional de várias experiências, não necessariamente de muitos anos, mas sim de diversos contextos. O fisioterapeuta experiente não é aquele que se mantém no mercado por mais tempo. É sim aquele que luta durante mais tempo por um lugar onde pode ser um fisioterapeuta digno!!! E aquele que vive mais a experiência que possui. Aquele que investiga, aquele que lê, que estuda, que “pensa”, que luta sem medo daqueles que se acham “donos do sistema”. O bom fisioterapeuta será sempre um ser inconformado, como o foram os grandes mestres da humanidade. Mas, no nosso país, tende a barrar-se o caminho aos inconformados, chamando-os de pedantes e criticando a sua experiência, e acusando-os de lançar o ódio à classe.
O meu blog tem sido mais criticado e atacado do que perspectivado com optimismo. Por vontade de muitos colegas, eu não escreveria o que escrevo. Também por vontade de muitos colegas eu não tinha publicado metade do que já publiquei. Lembro-me que há uns anos atrás umas “especialistas” em neurologia, fisioterapeutas experientes, acusavam-me de não saber o que dizia acerca das minhas críticas ao sistema de Bobath. As mesmas senhoras alegaram que era impossível constituir um artigo sobre a intervenção do fisioterapeuta na espasticidade. Aquilo que alguns fisioterapeutas do Hospital de São José e outros do CMR Alcoitão consideraram impossível de se fazer foi conseguido por mim e outros co-autores num artigo que agora está publicado na revista Sinapse. E nós não somos especialistas!...
E podia contar muitas outras histórias, como aquela em que certa fisioterapeuta chorou no dia em que falei dos “rolos de reeducação postural” no meu blog. Que mal ter desmistificado determinada prática!... Para os fisioterapeutas da “velha classe”, ou nada se faz ou se fez de mais... Não se pode é chamar a atenção. Arriscamo-nos a ser engolidos pelo sistema!...

(Dedico este texto a todos os fisioterapeutas que, à minha semelhança, têm sofrido com o jugo de poder e inveja de muitos dos nossos colegas – e isto inclui velhos e novos profissionais. O pior inimigo do Fisioterapeuta é o próprio fisioterapeuta, disso não tenhamos dúvidas... Os que tentam “progredir” vêem os seus esforços ser diluídos num mar de desilusões!!!)

quinta-feira, abril 12, 2007

Morfoanálise e algumas reflexões

Se é justo considerar o método Mézières como a “psicanálise do corpo”, visto que é esse o método que constitui o veículo de intervenção global ao nível da arquitectura e arqueologia corporal, não é de espantar que exista um método mézièrista denominado de “morfoanálise”. De certa maneira, é o nome mais adaptado àquilo que fazemos em Reeducação Postural: uma contínua análise da postura, associado ao necessário e consequente Reajuste Postural.
À semelhança de certos métodos grupais como a Antiginástica e o método Corpo e Consciência, a morfoanálise desenvolveu-se sobretudo como método psicossomático. Aliás, o seu axioma corresponde ao seguinte: “O bom equilíbrio está directamente ligado ao desenvolvimento da sensibilidade física e emocional”. É, portanto, mais um dos variados métodos que propugnam a indecomponível ligação corpo-mente.
Elaborado por Serge Peyrot, não parece constituir mais do que uma outra interpretação das variadas cambiantes do método Mézières. Aliás, tal como todos os outros métodos mézièristas, o terapeuta morfoanalista trata um ser total, uma unidade corpo-mente, favorecendo o trabalho da sensibilidade proprioceptiva e a reequilibração do tónus.
É, como tal, semelhante à Reconstrução Postural, com a desvantagem de ser mais teoria do que ciência.
Mas a propósito da grande generatividade do método Mézières, não posso deixar de reflectir sobre algo que todos os métodos mézièristas têm em comum, que é a “lentidão” do processo de trabalho terapêutico. Ou seja, tal como a psicanálise auxilia na “reconstrução” e “reinterpretação” psíquica do sujeito ao longo de vários e longos anos, também os métodos de reeducação postural actuam longa e lentamente, o que pode originar diversas dúvidas ou questões de ordem ética e metodológica.
Refiro-me àquela persistente dúvida que o terapeuta guarda no seu mais íntimo ser que é a seguinte: “Vale a pena todo este trabalho?”. Ora, é verdade que a intervenção em reeducação postural demora tempo, muito tempo. Por vezes, o mero trabalho de redução da tensão sem originar compensações leva vários meses. Por exemplo, tenho uma doente com uma escoliose, que possui tal tensão muscular a nível de toda a cadeia posterior que passo grande parte do tratamento a tentar reduzir a tensão da nuca e restante porção superior da cadeia posterior. Não vejo, portanto, a hora de conseguir “desfazer” a retracção que origina a escoliose. Vejo-me tentado a afirmar que o trabalho de reeducação postural sério precisa de ser realizado com uma temporalidade superior àquela que tem sido defendida. Ou seja, se muitos teóricos têm defendido que o trabalho de Mézières é para ser feito no máximo uma vez por semana, eu diria que não há razões verdadeiras para que o trabalho de alongamento global não se faça pelo menos uma vez por dia, todos os dias sem excepção!!! Refiro a minha experiência pessoal: se há um ano atrás possuía franco encurtamento da minha cadeia posterior, um trabalho persistente e diário de treino de posturas de alongamento global fez com que eu progredisse mais de 20 cm no teste “sit and reach”. Mas ainda assim, num ano de trabalho, com tal progresso da minha flexibilidade, apesar de ter melhorado da minha tendência cifótica dorsal, certos caracteres posturais (como os meus joelhos valgos) não se modificaram por aí além. Não quer isto significar que não conseguirei ter outro género de progressos com mais tempo ainda de trabalho postural.
Mas vejamos bem o tempo que é necessário para conseguir resultados... E com intervenção diária! Será que as minhas classes de “ginástica postural” ou os meus tratamentos mézièristas semanais não serão uma espécie de “engodo” para os meus doentes?... Não será minha obrigação explicar-lhes que o trabalho de reeducação postural é extremamente prolongado e moroso, e que resultados consideráveis só poderão ser conseguidos com a utilização de tempo e dinheiro de uma quantidade inacessível a muitos?... E questão ainda mais importante!... Será que vale a pena ser um terapeuta de “reeducação postural”? Não será mais “realista” para todos se for um terapeuta de tratamento sintomático, daqueles que resolvem as coisas rapidamente, apesar de nunca chegarem às causas dos problemas?... De qualquer maneira, a intervenção causal pode demorar toda uma vida a dar resultados concretos...
Que fazer quanto às dúvidas? Serei um bom terapeuta se começar a duvidar dos meios que estão ao meu dispor? Será que vale a pena continuar pelo o mesmo caminho? Ou será que vale sempre a pena lutar pela Verdade, por mais longínqua que ela se situe???...
Tantas dúvidas, tantas questões... E tão poucos são aqueles que reflectem nestes aspectos... Vale ou não a pena?... Ser ou não ser?... Eis a questão... Questão aporética, que muitos respondem com o que acreditam e não com a lógica da resposta madura...

segunda-feira, abril 09, 2007

Global Fisio e afins – é esta a nossa situação!

Lá porque escrevo neste blog e trato de assuntos que dizem respeito à fisioterapia especializada nem por isso deixo de ser um fisioterapeuta que trabalha somente em Part Time e que, como tal, busca mais tempo de trabalho. Na passada quinta-feira recebi um telefonema segundo o qual teria de estar presente numa entrevista segunda-feira às 09h30 na sede da Global Fisio em Telheiras. Esperava encontrar uma Clínica ou um escritório, onde pudesse ser entrevistado com tempo e condições, mas o que encontrei foi uma sala de formação já com diversos outros fisioterapeutas lá dentro, todos eles apanhados na mesma “ratoeira”. É que, ao contrário do que se podia esperar, ao invés de uma entrevista, fomos todos reunidos num grupo e fomos sujeitos a uma boa dose de “formação” acerca dos valores e objectivos da empresa. Mais tarde apresentámos oralmente um resumo dos nossos currículos (não sei bem para quê visto que a empresa já possuía os nossos currículos escritos). E depois de toda esta “farsa” percebi finalmente por que estávamos ali todos presentes. Aconteceu que foi-nos pedido para escrever numa folha de papel o nosso nome, dentro do qual deveríamos referir a importância pela qual desejávamos ser pagos. Muito interessante este sistema de selecção. As coisas chegaram a um ponto que as empresas deixaram de estabelecer um determinado preço, passaram antes a “comprar” o profissional mais barato. E a prova estava à vista: quando foi feita a “filtragem” de profissionais, ficaram três “sortudas” (será???) que não eram de forma alguma as três pessoas que, segundo o que pudemos constatar, apresentavam o melhor currículo. As pessoas que trabalhavam há mais tempo ou aquelas que estavam a fazer mestrado e outros cursos não passaram na “filtragem”... Então qual foi o critério de selecção? Claro que só pode ter sido a “quantidade” de dinheiro que os fisioterapeutas pediram. Pois é bom que saibamos que a nossa profissão não é mais uma profissão em que valha a pena ter bom currículo. As capacidades do profissional de nada lhe valem. Somente a capacidade para ser explorado! Estamos a caminho do FIM!

quarta-feira, abril 04, 2007

Educação e Fisioterapia em Portugal

A discussão acerca da formação dos profissionais de saúde portugueses assume-se como um tema de estrita actualidade e necessária provocação discursiva, com base numa necessidade urgente de análise psicossociológica abrangente. É certo que o número de escolas superiores de enfermagem e de tecnologias de saúde aumenta de forma exponencial, mas menos incontroversa é a questão relativa à qualidade da formação gerida nessas mesmas instituições.
Num país em pleno crescimento como o nosso, não é irrealista considerar que a educação constitui a base do crescimento sócio-económico e cultural das empresas e instituições. Uma boa educação é e será sempre a base fundamental da cristalização de uma cultura fecunda e da morigeração de uma sociedade. Mas ainda assim, não podemos deixar de considerar o conjunto das necessidades recursivas e de mercado da sociedade ou sistema em questão (admitindo, claro, que essas mesmas necessidades variam consoante as modificações sofridas pela estrutura funcional do tecido social).
Ora, acontece que, por qualquer razão difícil de compreender, o discurso educacional do nosso país parece ancorar na estandardização imoral e na anquilose visionária; isto no sentido em que as nossas Instituições “vendem” um discurso apelativo à Educação, nomeadamente à realização de formação superior, sem que sejam tidas em conta as necessidades reais dos cidadãos especificamente formados. Simplificando, deve ficar bem explícito que o número de cursos superiores (e respectivas vagas de funcionamento), seja em universidades públicas seja em universidades privadas, é bastante superior às necessidades profissionais do mercado português. Claro que pode sempre ser afirmado que o que tem de mudar é o mercado e não o paradigma educacional, mas eu diria que a mudança do mercado exige a prescrição de mudanças sociais extremamente lentas (por mais dinâmico que seja determinado Governo), não assimiláveis pelo “crescimento numérico” das vagas do ensino superior.
É importante ter em conta que, desde o 25 de Abril, as universidades têm vivido um momento especial, em busca de ampliar a sua relevância social. Se as universidades eram muito respeitadas no Estado Novo, é certo que o seu papel social não era bem compreendido e que as necessidades universitárias não correspondiam às necessidades de mercado. Por outro lado, com a entrada na democracia, houve uma revolução nas “ciências da educação” e no modo de perspectivar as Universidades de tal modo célere e agigantada que rapidamente chegámos a um estado de caos no mundo da informação e da formação superior. Aliás, é importante atender ao facto de que muitos cursos médios passaram a constituir cursos superiores, com a democratização do sistema. Muitas escolas passaram a universidades. E as universidades cresceram a olhos vistos. E, claro, estando o sistema liberalizado, as universidades particulares multiplicaram-se sem controlo.
Infelizmente, no decorrer de todo este processo “histórico”, nunca foi criada legislação palpável acerca do número de vagas passíveis de serem criadas para os diversos cursos superiores, assim como nunca foi criado um sistema exigente e coercivo de regras de delimitação da criação de novos cursos nas diversas universidades.
Enquanto fisioterapeuta que sou, posso testemunhar o exemplo da educação em Fisioterapia, enquanto “modelo” da tendência sócio-histórica anteriormente referida. Lembro-me perfeitamente que no final da década de 1990, estava a iniciar o curso de Fisioterapia, o qual era considerado como sendo de “saídas fáceis” e de acessível inserção numa carreira do Serviço Público. Por esta altura, existiam, a nível nacional, cinco escolas de Fisioterapia: a Escola Superior de Saúde do Alcoitão (ESSA), a instituição mais antiga e de referência incontornável, as três escolas superiores de tecnologias de saúde (Lisboa, Coimbra e Porto) e uma escola num Instituto Piaget no norte. Posso garantir que, por esta altura, a Fisioterapia ainda estava ao nível do bacharelato e a única escola que possuía um corpo técnico especializado e de referência era a ESSA. Mesmo nesta escola, a grande maioria dos professores não possuía formação para além da CESE ou da DESE. E aproveito para dizer que, apesar de ser uma instituição privada, a ESSA possuía um nível de exigência de ensino notório, com uma educação do tipo “universitário”, mas com uma exigência superior à de muitas universidades (e públicas). Falo tanto como fisioterapeuta como alguém que realizou outras formações noutras universidades.
Por volta de finais de 2003 já estava no término do curso. Mas, em poucos anos, as coisas mudaram muito significativamente, e a realidade agora era outra. A Fisioterapia era agora uma licenciatura (do tipo bietápico), o que fez, em termos práticos com que diminuísse a carga horária de trabalho e com que as aulas teóricas passassem a ser de presença facultativa. A exigência geral do curso diminuiu, ao invés de aumentar. E muitos professores de referência “fugiram” para outras escolas... Outras escolas... Agora vem a grande “evolução”!... As escolas de ensino da Fisioterapia passaram de cinco para dezassete. E vem depois toda a panóplia de consequências...
Como é possível tantas escolas terem sido tão rapidamente aprovadas e legitimadas, com corpos docentes formados muitas vezes com fisioterapeutas sem qualquer tipo de competência académica?... É impossível perceber! Ora, é certo que o número de pessoas que necessitam de Fisioterapia é enorme, mas também é certo que a grande maioria dessas pessoas compreende uma classe idosa e dependente do Serviço Nacional de Saúde, o que faz com que sejam mais facilmente tratadas em “massa” e, muitas vezes, somente por auxiliares. Se a isto acrescentarmos o lógico aumento do número de fisioterapeutas, então podemos perceber que a Fisioterapia deixou de ser considerada uma “profissão de futuro”.
Sejamos concretos! O número actual de fisioterapeutas é superior a 4000. Há cinco anos era inferior a 3000. E a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas prevê um aumento do número de fisioterapeutas para um número próximo de 7000 até 2010. Como tal, todos aqueles que entram com notas de 16 e 17 nos cursos de Fisioterapia e que sonham com uma carreira de sucesso podem contar com a existência de uma profissão destinada ao desemprego. É claro que as coisas podem mudar. Um programa eficaz de crescimento dos cuidados de saúde primários e continuados pode ajudar a empregar muitos fisioterapeutas. Mas, ainda assim, é necessário haver um “corte” de raiz ao nível do número de vagas e do número de cursos. A entrada no processo de Bolonha poderia e deveria ajudar a aplicar o “golpe” necessário, através da criação de novas exigências de formação por parte dos corpos docentes. Porém, estamos a assistir a um contínuo adiamento do processo de aditamento dos princípios de Bolonha, sendo que se tem permitido a “evolução” académica do ensino dito politécnico (no qual se inclui grandemente a Fisioterapia), com a desvantagem de serem criadas as condições de legitimação das diversas instituições (e bem sabemos que é cada vez mais fácil fazer um mestrado ou um doutoramento...).
Como iremos mudar as coisas? Apenas com frieza! E muito rigor. É tempo de deixarmos de permitir a irracionalidade. É tempo de protegermos os nossos formandos, os jovens que mais tarde quererão trabalhar e viver de forma autónoma.
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Publicado parcialmente no boletim da APF de Setembro 2007
Publicado na revista 'Medicina e Saúde' de Fevereiro 2008