sábado, outubro 27, 2007

Fisioterapeuta a cinco euros à hora...

Sim, é um facto! Chegámos ao ponto mais negro da nossa profissão. Na clínica Moifisa, onde trabalhou uma grande amiga minha e excelente fisioterapeuta durante uns anos, despediu a sua fisioterapeuta quando a coisa "não estava a render" (parece que tratar dez doentes à hora não era suficiente) e, agora, colocaram uma nova fisioterapeuta a cinco euros à hora. Era mesmo eu que iria trabalhar por tal quantia... Por cinco euros à hora, prefiro lavar escadas (aliás, receberia mais do que isso...)! Não há dúvidas de que os fisioterapeutas são os principais culpados de todos estes acontecimentos. Mais do que o fisiatra da respectiva clínica, o qual paga esta riqueza à funcionária, a culpa maior é mesmo da própria profissional que desceu ao ponto a que desceu. E parece que no Norte andam a entregar currículos nos quais o terapeuta refere que quer trabalhar e que não se importa de receber menos do que o terapeuta que lá trabalha... Não há mesmo dúvidas nenhumas: os fisioterapeutas são mesmo leais e moralmente íntegros! Já nem a Vergonha é suficiente... A propósito... ouvi dizer que cinco euros à hora é também o que um terapeuta ganha na Global Fisio. E é isto o que pagam numa empresa gerida pelo Sr. Dr. Luís Marques, fisioterapeuta de grande "dote ético" o qual advoga que, na sua empresa, "ser bom não é suficiente" (sic). Sim senhor! Se acrescentarmos à nossa profissão os "ricos" fisioterapeutas que aparecem nos concursos de televisão a fazerem "lindas figuras" culturais (como o que ontem apareceu no concurso "Sabe mais do que um miúdo de dez anos?" - aliás, concurso já por si estúpido e estupidificante), então posso dizer que a nossa profissão atingiu o Nirvana da excelência...

quinta-feira, outubro 11, 2007

O mobbing ou o assédio moral no trabalho

«Nas sociedades do nosso mundo ocidental altamente industrializado, o posto de trabalho constitui o último campo de batalha em que uma pessoa pode matar a outra sem nenhum risco de chegar às barras de um tribunal» (Heinz Leymann)

Grassa por esse mundo fora um conjunto copioso de formas diversas de agressão, do tipo psicológica e/ou moral, sendo que os mesmos fenómenos não têm sido suficientemente atendidos na sua importância na sociedade contemporânea. Mas é bem verdade que existe nas instituições modernas, em particular nas organizações portuguesas, o registo de um fenómeno social a que Hirigoyen deu o nome de “assédio moral”. Ora, é certo que o “assédio moral” tem sido traduzido por um conjunto de artefactos de “terrorismo psicológico”, constantes em diversos contextos, conhecidos por bullying nas organizações escolares e por mobbing nas organizações laborais. Se é certo que ambos os fenómenos são comuns, é preciso atender a que existe uma desigualdade no tipo de estudo dos mesmos, sendo que, se o bullying está particularmente visado por uma certa “tendência modal de estudos”, o mobbing continua a constituir uma temática praticamente “não estudada” em Portugal.
O termo mobbing foi introduzido na literatura, nos anos 80, por Heinz Leymann, psicólogo de origem alemã a viver na Suécia, para descrever formas severas de assédio nas organizações. Para Leymann, o mobbing consiste em actuações hostis frequentes e repetidas no local de trabalho, visando sistematicamente a mesma pessoa (a “vítima”). Segundo ele, o mobbing tem origem num conflito que degenera. Analisa-o como uma forma particularmente grave de stresse psicossocial.
O mobbing consiste, portanto, numa forma de agressão ou terrorismo, de natureza psicológica e/ou psicossocial, que é realizada no contexto de trabalho, por parte da entidade patronal (referente ao denominado “assédio vertical descendente”, segundo Hirigoyen), por colegas (“assédio horizontal”, segundo Hirigoyen) ou por um subordinado (“assédio ascendente”, segundo Hirigoyen).
É de referir as investigações clássicas de Leymann na Suécia e de Hirigoyen na França. Leymann estabeleceu que 3,5% dos assalariados suecos eram vítimas de assédio, tendo também estimado que 15% dos suicídios eram devidos a mobbing. O autor, o qual divulgou os seus dados na obra “Mobbing, la persécution au travail” (1996, Seuil), introduziu a seguinte definição conceptual de mobbing: “acções repetidas e repreensíveis, ou nitidamente negativas, dirigidas contra os empregados de uma maneira ofensiva e que podem conduzir ao seu afastamento da comunidade local de trabalho.” Já Hirigoyen divulgou os dados de um grande inquérito realizado em França na obra “Malaise dans le travail. Harcèlement moral: démêler le vrai du faux” (1998, Syros) (traduzido para português para “O assédio moral no trabalho. Como distinguir a verdade”, Edições Pergaminho): 29% de casos entre os 36 e os 45 anos, 43% entre os 46 e os 55 anos, e 19% após os 56 anos; 70% de mulheres vítimas para 30% de homens vítimas; em 58% dos casos, o assédio provinha da hierarquia; na maioria dos casos, o fenómeno originou a “baixa compulsiva”, tendo acabado em afastamento do local de trabalho (36% dos casos) ou despedimento (20%). Os grandes sectores de assédio moral são a “gestão, contabilidade, funções administrativas” (26%), a “saúde” (9%) e o “ensino” (9%).
O mobbing (Leymann) ou “assédio moral no trabalho” (Hirigoyen) é, portanto, um fenómeno de grande expressividade e não choca se for afirmado que o mesmo é bastante comum em Portugal, em particular nas grandes empresas e no contexto da saúde. Enquanto fisioterapeuta que sou, tenho assistido a muitas manifestações de mobbing na minha vida laboral, tanto no respeitante a terapeutas como no respeitante a enfermeiros, por parte de médicos e superiores hierárquicos.
Não posso esquecer o meu percurso de somente quatro meses de trabalho no Hospital Cuf Infante Santo. No serviço de Fisioterapia do respectivo hospital, as terapeutas coordenadoras sujeitavam os terapeutas trabalhadores a um tratamento verdadeiramente “patológico”, sendo que éramos vítimas de um trato animalesco, para além da total ausência de regras de deontologia profissional. Os doentes vinham para os terapeutas, passando pelas “chefes”, extremamente indispostos, tal era o tratamento recebido. Mas não tinham melhor tratamento por parte dos “súbditos”, pois estes viviam num constante ambiente de stresse e humilhação. Vi muitas vezes a minha “chefe” a desautorizar profissionais à frente dos doentes, em assuntos de carácter não laboral mas sim de ordem técnico-científica. Mais tarde, quando me insurgi contra o controlo provocado por uma terapeuta “mais velha”, fui chamado à atenção; nessa “chamada” foi-me dito que, enquanto profissional mais novo, devia respeito aos mais velhos, sendo que estes últimos “tinham mais direitos, por estarem há mais tempo na instituição”. Fui desconsiderado, tendo sido inclusive objecto da “mentira” e da “afronta”. O trato a que tive “direito” teve repercussões psíquicas tardias, tendo inevitavelmente atingido a minha auto-estima.
A vergonha e a humilhação a que tantos profissionais são sujeitos levam a que exista uma sensação de “perda do sentido”, e até mesmo à desvitalização psíquica, à “dissonância cognitiva” (Festinger), à angústia momentânea e à depressão crónica. O “assédio moral” no trabalho predomina no mercado português, atingindo muito particularmente os jovens licenciados, os mesmos que tanto lutaram nas Universidades para acabarem os seus cursos e agora labutam no “caminho da pedra” (na realidade laboral tão distante da realidade teorética que se apregoa nos cursos superiores...), no contexto do trabalho precário e num ambiente em que predomina a obrigatoriedade da “negação do Eu” identitário (Arno Gruen), transformados em “meros trabalhadores substituíveis” sem importância moral e fragrância científica.
O “assédio moral no trabalho” atinge tantos trabalhadores!... Mas a resposta dos mesmos labuta em silêncio. Temos, claro, a resposta mais global do subdesenvolvimento das empresas nacionais, nas quais qualquer tentativa de se ser “o melhor”, de se “ser criativo”, acaba por esbarrar na inveja e no tratamento aversivo.
______
Publicado parcialmente no 'Jornal de Negócios', dia 08 de Setembro de 2008

sábado, setembro 29, 2007

A indústria do corpo e a sociedade de consumo

O corpo humano ocupa um lugar de destaque nas sociedades modernas. A tentativa de o dominar e transformar é, actualmente, maior do que alguma vez foi. Aliás, os homens necessitam de dominar o seu próprio corpo de modo a sentirem que todo o espaço por ele ocupado é igualmente objecto de domínio. Para além dos espaços físicos e do conjunto prolixo das diversas mundividências em que se move o ser humano, o controlo da “forma” do corpo, e das sensações emanadas pela sua concretude, protagoniza uma das grandes metas do homem moderno. Na realidade, o homem hodierno pretende transformar o seu corpo num objecto maquinal, capaz de responder às mais incessantes necessidades estéticas e de prazer. Dentro desta dimensão transformista e reformista do objecto corporal, o corpo torna-se verdadeiramente um “objecto de consumo”, sendo que se torna vulnerável às mais opressivas culturas industriais e de mercado.
Segundo Jean Baudrillard, a descoberta do corpo, “após uma era milenária de puritanismo, sob o signo da libertação física e sexual, a sua omnipresença na publicidade, na moda e na cultura das massas – o culto higiénico, dietético e terapêutico com que se rodeia, a obsessão pela juventude, elegância, virilidade/feminilidade, cuidados, regimes, práticas sacrificiais que com ele se conectam, o Mito do Prazer que o circunda – tudo hoje testemunha que o corpo se tornou objecto de salvação, substituindo literalmente a alma nesta função moral e ideológica. Significa isto que o corpo não é uma evidência, o corpo é um facto de cultura.”
O corpo é, portanto, palco de uma série de destemperos próprios da fenomenologia social, estando os respectivos fenómenos ou artefactos do “uso corpóreo” estritamente associados à indústria, ao mercado e à cultura de massas. Em particular, a linha de corpo enquanto “forma”, tem dominado todos os sectores da sociedade contemporânea, até um ponto em que, a meu ver, o corpo e as práticas narcisistas com ele associadas podem ser incluídas no grupo das “indústrias culturais” de Adorno.
Falando, então, da “indústria do corpo” enquanto forma, ou seja, da utilização do corpo como objecto narcísico (ao serviço pleno do “princípio do prazer”), podemos referir três grandes culturas industriais que têm tomado palco na nossa sociedade de uma forma assaz sub-reptícia: a indústria do “bem estar”, as medicinas não convencionais e o condicionamento físico.
A indústria do “bem-estar” tem ganho tantos adeptos que tem-se tornado fonte de lucro incomensurável para imensos “profissionais”. Esteticistas, massagistas e terapeutas proponentes de imensas “técnicas orientais” têm possibilitado a edificação de um conceito artificial de “saúde”, levando a que o termo perca o seu estatuto em prol de uma certa ideia de “prazer efémero”. E não são poucas as vezes que as pessoas, pobres para o Serviço Nacional de Saúde e as mais variadas terapêuticas do sistema, demonstram possuir meios para realizarem as suas massagens relaxantes e/ou de emagrecimento (para além das incontáveis depilações, saunas, limpezas de pele, tratamentos anti-celulíticos, spas e outros “feitiços da mente”), assim como as massagens Tui-na ou ayurvédica, ou para receberem os seus toques de Shiatsu e de reflexologia (estas ditas de “massagens terapêuticas”... mas “terapêuticas” em quê?... naquilo que advogam ou no padrão de relaxação e escapismo que concedem?...). Neste último ponto, a indústria do “bem-estar” colide com outra indústria (semelhável à primeira): a das medicinas ditas “não convencionais”.
As medicinas não convencionais são também, e sobretudo, a expressão de uma indústria cultural. Aparentemente são uma outra forma de “ciência”, uma alternativa recomendável ao tratamento de patologias refractárias aos tratamentos mais ortodoxos. Mas, na prática, consistem em terapias não radicalmente diferentes das mais convencionais, sendo que tendem a sobressair comercialmente única e exclusivamente devido ao poder da “imagem”; imagem essa que propõe um ícone místico a fenómenos parcialmente explanáveis pela ciência médica (obviamente, de forma menos “explosiva” e atractiva). Assim sendo, terapias progressivamente afamadas como a quiroprática, a termoterapia, a aeoroterapia, os banhos, a helioterapia, a cromoterapia, as massagens terapêuticas, a magnetoterapia, a terapia floral de Bach e a homeopatia possuem um poder social de fundo “estético” muito semelhável às alegóricas medicinas orientais (acupunctura, digitopunctura, auriculopunctura, reflexologia, iridologia, moxibustão, Qigong e Tai-chi, shiatsu, pulsos chineses, ioga e Ayurveda), podendo inclusive roçar a “seriedade” da medicina tradicional indígena (curandeirismo, xamanismo, macumbas, espiritismo, bruxaria) e de um certo “poder curativo da mente” (relaxamento, hipnotismo, toques curativos, sofrologia, magia e cartomancia).
Resta falar da indústria do “condicionamento físico”. Desde tempos imemoriais que o homem tenta medir os seus limites físicos, tentando aperceber-se das barreiras que constrangem o corpo humano. Essa tem sido a filosofia das Olimpíadas e de todas as competições desportivas realizadas. Mas, na realidade, o desporto de competição existe sobretudo para alimentar uma “certa ideia de cultura”, nomeadamente a cultura menos ortodoxa e mais simplista do gesto motor. Por mais que tentemos justificar epistemologicamente a natureza do esforço físico, não conseguimos dar uma razão aceitável a quem não aceita os perigos da actividade física ilimitada. E por mais desculpas que os adeptos da prática física arranjem para sustentar a prática de actividades de fitness, esta não consegue afirmar-se sem o apoio de uma grande máquina comercial e imagética. Na realidade, a maioria das actividades do dito fitness desrespeitam o corpo e as leis posturais pelas quais ele se rege, mas a assunção de um artefacto estético-narcisista tem levado a que tantas práticas sejam realizadas sem dó nem piedade. Portanto, step, cycling, body sculpt, powerfit, body pump, body push, body defense, totalfitness, new balance, X55, são tudo sinónimos do mesmo alarvismo com que tantos instrutores tentam “delinear” o corpo dos utentes. Claro que há também o Pilates, o Yoga, o Chi-Kung e o Tai-chi, entre outras modalidades ditas “holísticas”... Mas quando será que vamos perceber que até mesmos essas modalidades aparecem impiedosamente desenhadas sob o jugo de um marketing eticamente inaceitável? Quando vamos perceber que o verdadeiro holismo se centra numa coisa muito mais profunda – e decerto menos pop – do que uma modalidade de treino corporal?...
Temos, portanto, que o corpo humano parece estar a ser consumido pela cultura do “kitsch”. O corpo, essa matéria tão frágil e tão “humana”, parece estar a ser desvirtuado, simplificado, desmemoriado, pelo poder de uma indústria sem limites, pelo poder de uma imagem... imagem falsa de uma realidade tornada pseudo-realidade. Nesta pseudo-realidade, tornada real a tantos olhos, o corpo e a mente passam a ser urdidos de uma forma telúrica e carnal, mas não menos solipsista e farsista. Esta realidade constitui o palco de mitos e ilusões publicitárias, ícones de uma sociedade alienada, acrítica e doente. Como proceder para evitar isto? Como obrigar as pessoas a tomarem consciência da verdadeira realidade? E como havemos de proceder para proteger as pessoas da sua própria ignorância?...
-------
(versão original integral)
Publicada uma versão reduzida e ligeiramente alterada deste artigo no 'Expresso' de 06 de Outubro, sob o título "A indústria do corpo e a ideia de consumo".
Publicada uma versão aumentada deste artigo no "Semanário" de 12 de Setembro de 2008, sob o título "A indústria do corpo e a sociedade de consumo: as três 'indústrias culturais'".

terça-feira, setembro 11, 2007

A respiração: sua importância

Todas as pessoas têm bem presente na sua mente a importância que reside no acto vital da respiração. Já o mesmo não se pode dizer no respeitante às peculiaridades fisiológicas do acto, assim como às suas particulares vicissitudes.
Não importa, pois claro, gastar muitas letras a explicar o acto da respiração enquanto processo fisiológico. Chegará, talvez, dizer que o processo respiratório se faz de dois tempos: (a) a inspiração, que corresponde à entrada do ar e subsequente expansão pulmonar, a qual resulta da contracção do diafragma e descida da sua parte central ou tendinosa (o centro frénico), e (b) a expiração, que corresponde à saída do ar, normalmente um processo passivo que resulta do relaxamento dos músculos inspiratórios e à recuperação da amplitude elástica dos pulmões.
Também não será muito importante falar da complexidade anatómica do aparelho respiratório, mas talvez seja relevante referir que, em termos físicos, desportivos e terapêuticos, ou melhor dizendo em termos mecânicos, nos podemos referir a três tipos de respiração: a respiração costal superior (que se faz sobretudo ao nível do tórax superior), a respiração costal inferior (que muitos referem como respiração torácica, por se efectuar numa zona relativamente ampla do tórax) e a respiração diafragmática (a qual se faz sobretudo nas zonas abdómino-diafragmáticas).
Em termos históricos, os dissemelhantes tempos respiratórios, assim como os distintos tipos mecânicos de respiração, têm sido diferentemente valorizados, tanto por diferentes culturas como em tempos determinados.
É tão grande a quantidade de funções que dependem directa ou indirectamente de uma boa ventilação que desde sempre, a respiração, símbolo da vida e da saúde, esteve no centro das preocupações do Homem. A cada época a medicina preocupou-se com isto desde a mais longínqua antiguidade. Chineses e hindus começaram por privilegiar o desenvolvimento da expiração. Depois, no Ocidente e durante o século XX, foi a vez da inspiração; aliás, a ginástica clássica moderna obstinou-se a reforçar o volume torácico e a força dos músculos inspiratórios... negligenciando completamente o facto de que para encher os pulmões é necessário antes esvaziá-los do seu ar viciado (Souchard).
De facto, quase todos os desportos contemporâneos se centram no desenvolvimento da capacidade inspiratória. Mesmo na Fisioterapia respiratória, é comum utilizarem-se diversas modalidades e/ou técnicas de inspiração forçada ou profunda, sendo que só ultimamente se tem dado alguma atenção ao tempo expiratório.
Podemos ver, por exemplo, pelo Yoga, a importância que certas medicinas menos convencionais dão ao acto respiratório amplo, inclusivo de uma inspiração profunda, feita do abdómen para o tórax (contemplativa, portanto, de diversos tipos respiratórios mecânicos) e de uma expiração igualmente profunda, feita em sentido inverso.
Na realidade, os métodos de reeducação postural, como o método Mézières e os de Souchard, centram-se num tipo de respiração completamente diferente desta última. Estes métodos dão primazia à expiração, sendo que tentam inibir o processo inspiratório activo. Ou seja, podemos dizer que a última grande atitude científica e reeducativa relativamente ao tipo de respiração praticada se centra, efectivamente, na efectuação de uma respiração torácica superior, com um tempo expiratório máximo e activo (dependente da contracção abdominal), o qual pode ser realizado estufando a barriga (permitindo ao máximo o prolongamento da expiração), contraindo os músculos abdominais essencialmente dinâmicos (rectos e oblíquos do abdómen) ou recolhendo o ventre (permitindo a contracção do músculo transverso abdominal e soalho pélvico), seguido de uma inspiração passiva. Ou seja, a reeducação postural centra o processo respiratório a um nível costal (à semelhança do Pilates), mas a um nível muito profundo no respeitante ao tempo expiratório; como o tempo expiratório é máximo, a inspiração subsequente é fundamentalmente passiva e não activa. Portanto, o que estou a dizer é que a respiração apropriada, ou seja, aquela que podemos considerar como de carácter reeducativo (no sentido postural do termo), corresponde à respiração inversa àquela que temos tendência a realizar no nosso dia a dia.
A respiração do dia a dia é essencialmente corrente, mas com tendência para inspirações mais prolongadas, principalmente quando são realizados esforços. Acontece que essa é uma função normal e hegemónica, a qual, num tempo reeducativo, tem de ser distorcida ou desembaraçada. Isto significa que, durante o processo de intervenção reeducativa, a respiração que se realiza durante horas e horas a fio tem de ser tornada paradoxal, com ênfase na expiração. E isto porquê? Porque a respiração com ênfase na inspiração, a qual mantemos em grande parte do tempo da nossa vida, tende a fixar o diafragma numa posição de bloqueio inspiratório. E este mesmo bloqueio está na origem das mais diversas deformidades posturais. Não devemos esquecer que a cadeia respiratória é central a todas as outras cadeias musculares. O alongamento global das cadeias só poderá ser realizado durante a expiração, quando o diafragma está a ser adequadamente distendido.
Assim sendo, também é fundamental sublinhar que todos os grandes esforços deverão ser realizados em expiração. Só assim se evita o bloqueio diafragmático e, simultaneamente, se facilita a contracção abdominal indutora de estabilidade vertebral. E aqui estamos todos no mesmo barco, pois é certo que os exercícios de musculação ou as diferentes actividades de fitness tendem a valorizar a expiração nas fases de maior esforço muscular.
Muitas pessoas não imaginam qual a importância do diafragma na construção de deformidades posturais e/ou patologias respiratórias.
Pela sua relação privilegiada com a coluna lombar e dorsal inferior, e uma relação indirecta com a cervical (feita através do sinergismo com os músculos inspiratórios da escápula e da nuca), o diafragma é um músculo lordosante. E obviamente que a necessária deslordose só se consegue pela expiração (e isto deve contemplar todas as irredutíveis compensações imanescentes). Pela sua relação íntima com as diversas cadeias musculares, o diafragma serve de transporte a compensações musculares deformadoras, entre a cadeia posterior e as cadeias anteriores. Por exemplo, a cifose torácica pode ter origem na retracção dessas cadeias anteriores, mas essas mesmas retracções tiveram necessária origem a nível posterior. Eventualmente, a directa retracção do diafragma ou dos músculos inspiratórios acessórios levam a que as aumentadas lordoses cervical e lombar se pareçam com uma (falsa) cifose torácica.
A lordose aumentada, derivada da contracção diafragmática na inspiração, é também o resultado da relação de sinergia entre o músculo inspiratório e o conjunto dos músculos paravertebrais (mas também esta relação pode ser perspectivada como um exemplo das já aludidas ligações entre o diafragma e as diversas cadeias musculares).
A respiração correcta é também apanágio do bom funcionamento do aparelho respiratório. No mundo da fisioterapia é comum dizer-se que patologias restritivas (como a atelectasia ou certos quadros infecciosos) se devem tratar com recurso à inspiração forçada e que as patologias obstrutivas (como a asma ou a doença pulmonar obstrutiva crónica) se devem tratar por meio da expiração forçada. Mas eu diria que ambos os tipos de patologia ganham se forem tratadas com recurso a uma expiração prolongada. Esta permitirá o correcto alongamento da musculatura inspiratória, facilitando o seu trabalho e evitando a retracção indutora de insuficiência respiratória e consequente hiperventilação.
Ficam, então, presentes as vantagens de se realizar uma boa respiração, que tende cada vez mais a ser feita em torno de um percurso expiratório máximo.

-------

Publicado na 'Saúde Actual', Setembro/Outubro 2007

sexta-feira, agosto 31, 2007

A indústria do fitness (II) – o exemplo do Holmes Place

Na quinta-feira, dia 27 de Agosto do presente ano, foi publicado no Público um artigo meu intitulado “A indústria do fitness: a falácia da nova medicina”. Ao que parece, e muito ao contrário do que esperava, o artigo teve um grande impacte, sobretudo sobre uma certa classe, dita de “ensino da motricidade”. Fiquei surpreendido com tal impacte. Primeiro, porque a classe dos trainers não costuma ser muito dada à leitura de jornais a sério (para alguns, terá sido, indubitavelmente, a primeira vez que compraram o Público). Segundo, porque, a meu ver, o conjunto das afirmações que proferi não visava um grupo profissional especificado. Gostaria, se me fosse possível, de me explicar perante tal conjunto de “ofendidos”, pois uma clarificação urge ser realizada.
O mundo do fitness e do “bem estar” constitui uma das mais hostis indústrias da sociedade moderna. Movidos por uma série de mitos, associados a um certo conceito de beleza e à necessária vivência de uma série de sensações físicas mais ou menos efémeras, um determinado tipo de público, cada vez mais numeroso em Portugal e na maioria dos países ocidentais, tem acorrido ao consumo, cada vez mais intrépido, de “produtos” relacionados com a prática gímnica e a utilização de “Health Clubs”.
Desde os desportos mais clássicos até às actividades dos modernos estúdios de fitness, saliento, tal como o fiz no artigo anteriormente referido, que desporto algum foi construído visando a saúde dos seus praticantes. Aliás, o conceito de “condicionamento” está mais de acordo com aquilo que podemos objectivar na prática desportiva contemporânea, e não tanto o conceito de “saúde”. Porém, uma certa necessidade de legitimação da actividade física, acrescentada por um crescente ensejo de reconhecimento profissional do “professor de educação física”, tem levado a que os instrutores de fitness tenham adquirido o hábito de se imiscuírem nos conceitos de “saúde” e “bem estar”, sem que possuam preparação ou formação adequada para tal. Mas, a questão não releva só da preparação do instrutor de fitness. A questão é exponencialmente mais revolucionária e emblemática do que aquilo que foi entendido pelos críticos do artigo citado.
Quando, no relativo ao artigo de dia 27, referi as diversas consequências deletérias do desporto, estava a referir-me sobretudo ao contexto músculo-esquelético da realidade corpórea. Acontece que, perante as recentes teorias da Reeducação Postural (que surgiram, inicialmente, nos anos 40, pela mente da Madame Françoise Mézières), tornou-se concreta a ideia de que a saúde esquelética do corpo está dependente da boa saúde da sua estrutura ou arquitectura ósteo-muscular. Ou seja, ao contrário do que se poderia pensar, no respeitante às estruturas músculo-esqueléticas do corpo, não é tanto a função motriz que faz o “órgão” funcionar bem, mas sim o “órgão”, adequadamente bem estruturado, que permite a função harmoniosa. As teorias que refiro inscrevem-se na ideia de que o corpo – e respectiva arquitectura óssea – está dependente do equilíbrio estrutural de um conjunto de grupos musculares de natureza postural, chamados de “cadeias musculares”. O método Mézières, o qual revolucionou o campo da medicina e ginástica ortopédica em França a partir dos anos 40, veio criar a noção, actualmente cientificamente comprovada, de que as deformidades posturais se devem a excessos musculares e não a fraquezas musculares, ou seja, as alterações posturais ou estruturais do corpo têm origem no excesso de força de determinados músculos, os quais têm tendência para desenhar uma cadeia na zona posterior do corpo (cadeia posterior). Ora, vários estudos dos anos 90 do século passado demonstraram que a assunção de autores como Mézières e discípulos (Bertherat, Souchard, Busquet), segundo a qual todos os esforços musculares contribuem para a deformidade, está absoluta e inegavelmente correcta; significa isto que a saúde estrutural do nosso sistema músculo-esquelético depende sobretudo de actividades que favoreçam o alongamento e o relaxamento, e não de actividades que favoreçam a força e a resistência muscular.
Os dados apresentados, e subsistidos por diversos estudos bem recentes, levam a concluir que a realização da maioria dos desportos ou actividades de fitness existentes poderá acarretar a tendência inequívoca para a deformidade postural. Isto, só por si, já justifica a minha atitude relativamente a tantos e tantos desportos efectuados, os quais, quase todos, valorizam a realização de esforços intrépidos. Em particular, não posso deixar de condenar o médico que encaminha o utente que sofre de dores lombares para um personal trainer de musculação, ou o professor de Yoga que força a extensão da coluna de um utente com escoliose, desconhecendo que tal postura é absolutamente contra-indicada à condição existente. E estes são apenas dois exemplos bem paradigmáticos. E exemplos não faltam!... Será necessário citar o impacto muscular acrescido de tantas actividades físicas, associado àqueles esforços que estão ligados às “lesões por esforço repetido”... Por exemplo, quem se atreve a considerar a ginástica acrobática ou os trampolins como um desporto saudável, mesmo para quem não sofre da coluna (mas passará, decerto, a sofrer...)? Quem se atreve a negligenciar os recentes estudos que associam a presença de deformidades à realização de desportos como o voleibol, o basquetebol e outros de carácter assimétrico? E quem se atreve a negar que o desporto de alta competição constitui um artefacto só eventualmente explicável por um excelente profissional de saúde mental?...
Devo, portanto, dizer que, mesmo os melhores instrutores de fitness, mesmo aqueles que concebem o melhor modelo de saúde e segurança para o utente, todos eles se movem por teorias da prática física que remontam a anos muito anteriores aos da revolução mézièrista anteriormente mencionada. Daí que a actividade de fitness passe por ser condenável per si, mesmo que tenhamos em conta instrutores de alta qualidade. Ora, podemos imaginar como tudo se torna tão mais grave perante todas aquelas situações em que a prática física é comandada pelo eixo da estultícia. Instrutores não licenciados, professores licenciados mas sem adequada formação em saúde/patologia, tudo assomado às condições definidas por uma indústria sabidamente agressiva e arrivista, tudo isto concorre para o facto inegável de que o fitness é incompatível com a saúde.
Mas tenhamos em conta um exemplo bem paradigmático de uma “indústria do fitness”: vamos atender ao exemplo flagrante do Holmes Place.
O Holmes Place constitui uma multinacional dedicada ao fitness, fervorosamente competitiva e brutalmente agressiva. Basta ver como se comportam os seus funcionários. Parecem tirados da América taylorista. Todos vestidos da mesma forma, todos a falarem da mesma maneira, todos com o mesmo esgar e atitude, como se fossem todos clones de um qualquer sistema mercenário. Acontece que, desde aquele funcionário que nos vem convencer a realizar um contrato (utilizando todas as estratégias possíveis para que não percebamos que se trata efectivamente de um contrato, associado à obrigatoriedade de se pagar um ano inteiro de prestações por transferência bancária) até ao próprio instrutor, todos os funcionários do Holmes Place parecem seres robóticos, iguais aos clones do “Admirável Mundo Novo” ou aos seres “sub-terrestres” do ‘Metropolis’ de Fritz Lang. Em especial, os instrutores de fitness, muitos deles não licenciados, visto serem formados pelo próprio Holmes Place, acabam por agir todos da mesma maneira errónea; por exemplo, o mesmo alongamento dos músculos ísquiotibiais feito de forma não alinhada é realizado por todos a todos da mesma maneira, perpetuando-se o erro. Mas continuemos... Os instrutores das aulas em grupo parecem também todos clones sem criatividade, e o pior de tudo é que estes mesmos instrutores não estão preparados para fazer face a situações inesperadas (e não vale a pena argumentarem que possuem um curso de ‘primeiros socorros’, pois isso só serve a situações muito particulares...). Aliás, eles parecem mais concentrados em promover as aulas do que em primarem pela perfeição técnica.
Ora, será que tudo é mau e não há solução à vista? Claro que há. E se muitos dos indivíduos que me criticaram estivessem atentos a tantas outras coisas que tenho publicado (sobretudo em revistas técnicas e no blog), poderiam perceber que muito tenho lutado para se criar um novo conceito de treino, mais centrado na qualidade pessoal do instrutor ao serviço da saúde do corpo, segundo as leis da sua dinâmica postural. A resposta está, portanto, na realização de “actividades de baixo impacto”, com especial preocupação com o alongamento segundo as leis de Mézières (ora, é claro que isto pressupõe que os instrutores deixem de ser verdadeiros ignorantes em matérias de “Postura” e de treino de “alongamento”, passando a obter, sabe-se lá como, mais formação do que aquela que têm recebido; pois, para o caso de ainda não terem entendido, “postura” é muito mais do que “endireitar” determinada pessoa).
Resta desejar a todos os meus críticos as maiores felicidades na respectiva vida pessoal. No respeitante à vida “profissional”, não parecem ser suficientemente felizes. A grande taxa de respostas e de reacções perante o meu artigo só demonstra que “algo não está bem”. Bem, tanto que fica por dizer!... Mas, em breve, irão ouvir falar mais do meu movimento “anti-fitness”.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Clarificação

Relativamente ao artigo que hoje foi publicado no Jornal Público e que se encontra em baixo no blog ("Indústria do fitness: a falácia da nova medicina"), é importante tornar algumas coisas mais claras. Eu não sou necessariamente contra o conjunto das práticas do fitness. Eu sou é contra a forma como essas práticas são realizadas correntemente nos ginásios. Ainda ontem tratei um doente, com problemas de ordem postural, que tinha sido encaminhado por um médico para um personal trainer de musculação no Holmes Place. Ora, malvados sejam estes médicos ignorantes que desconhecem por completo aquilo que se faz nos ginásios (para além do facto de não entenderem que o paradigma musculação está quase sempre errado na questão do tratamento de deformidades)!
Em termos práticos, gostaria de ver a indústria do fitness ser preenchida por profissionais de nível qualificado. Os fisioterapeutas são, regra geral, profissionais bem formados, bem capazes de ser excelentes instrutores de fitness (neste caso fitness seguro), assim como brilhantes personal trainers (neste caso, poderiam dar uma componente “clínica” ao treino); seria óptimo para muitos fisioterapeutas que não têm grandes oportunidades de trabalho, tal como seria ideal para os próprios atletas. Portanto, apesar de não corresponder bem ao nosso desejo de trabalho, a intervenção no fitness e na indústria do bem estar (não deixando sempre de ser uma verdadeira indústria) constitui uma oportunidade de trabalho para os fisioterapeutas.

terça-feira, agosto 21, 2007

Só existe a cadeia posterior!

Para todas aquelas pessoas que continuam a duvidar que tudo no nosso corpo (e postura) depende fundamentalmente da nossa cadeia posterior, não deixem de se lembrar da “lição da cobra”. É um ser extremamente flexível, capaz de grandes deformações corpóreas. Consegue elevar-se e, quando se prepara para o ataque, coloca uma verdadeira postura cifo-lordótica. A lordose sustenta-a e a cifose (“abertura de asas”) surge como uma compensação. Como resultado, a serpente horizontaliza o seu olhar. Ora, atenção ao seguinte facto: a serpente não possui musculatura anterior, somente posterior. A serpente só tem cadeia posterior e, não fosse a sua grande flexibilidade, ela teria a tal postura cifo-lordótica “estruturada”. Ora, é um dado interessante para quem duvida que uma cifose pode ter origem num encurtamento da cadeia posterior. Aprendamos, portanto, com a natureza e sua parcimónia. Para mais, nós já fomos, outrora, seres reptilianos; o desenvolvimento da "cadeia anterior" constitui algo muito recente, falando em termos filogenéticos (ela adveio do nosso bipedismo). Já a cadeia posterior corresponde a algo dominante na natureza (não fosse essa a condição necessária ao "levantamento estatutário")...

quinta-feira, agosto 16, 2007

A toca do tigre

É o nome do quarto livro de Thérèse Bertherat, o qual acabo agora de ler. É o meu preferido, a seguir ao primeiro “Le corps a ses raisons”. É o mais pragmático de todos, incluindo diversos dados sobre o “tigre” que a todos nos controla (o “tigre” corresponde, obviamente, à dominante “cadeia muscular posterior”). Fala abertamente dos perigos da prática física tal como ela é realizada nos ginásios, insistindo num ponto preciso: todos os esforços, mesmo os da musculatura anterior, contribuem para fortalecer o nosso “tigre”; aliás, Bertherat aponta constantemente para a ambiguidade existente na palavra “forma”, sendo que a mesma palavra possui sentidos dissemelhantes para o terapeuta (mézièrista) e para o desportista. Bertherat descreve relativamente bem, apesar de forma bastante simplista, a constituição do “tigre”, diferenciando-o de outros músculos (ou cadeias) menos poderosos. Refere também os “cúmplices” do tigre, nomeadamente os rotadores internos dos membros e o diafragma. Apresenta, igualmente, imagens de alongamentos, compensações, testes e métodos de estiramento correcto.
Este livro de Bertherat, o mais ilustrado de todos, constitui uma referência obrigatória de todos os terapeutas que se interessam pela “postura”. Aliás, constitui ou devia constituir uma referência obrigatória para todos os que estão, de alguma maneira, envolvidos no tratamento ou treino do corpo. Ela é bem explícita a explicar por que é que os diferentes desportos contribuem mais para a “deformação do corpo” do que para a sua saúde... Ela está bem determinada em mostrar a realidade real das coisas, tão pouco conhecidas desse mundo incrédulo e impiedoso que é o do “fitness”.
Livros como este, esquecidos no tempo e num qualquer lugar soturno, compõem a “verdade” das coisas, tal como já ninguém reconhece. São livros revolucionários, escritos por pessoas corajosas, mas infelizmente são desprezados em prol de uma forma de ver a actividade física claramente “militar” (dominante no mundo contemporâneo). Quem reconhecerá que a “verdade dos factos” não está nesse mundo do “fitness”, onde os fisioterapeutas têm papel quase ausente, mas sim nos imbricados caminhos da “Reeducação Postural”?...

segunda-feira, agosto 06, 2007

Para reflectir

Remunerações

Fisioterapeuta (pelo menos bacharel): ganha no máximo 10 euros/hora numa clínica privada (poucos ganham mais)
Instrutor de musculação + cardio (não precisa de ser licenciado): ganha pelo menos 15 euros/hora no Holmes Place (nível 1)
Instrutor de Pilates/Fitness (tb não precisa de ser licenciado): de 15 euros a 25 euros/aula, sem ter em conta "cursos" privados

Não há dúvidas, tenho de me render ao mundo do fitness: trabalhamos menos, temos menos responsabilidades, divertimo-nos mais e não temos de aturar as "mordomias" de certos profissionais...

domingo, agosto 05, 2007

"Ab King" e outras idiotices do “fitness”

Tenho já manifestado muitas vezes o meu desconsolo relativamente aos exercícios e actividades realizados no conceito do “fitness”, mas nunca me dei ao trabalho de criticar por escrito aquela que é uma das piores invenções, nomeadamente em termos de máquinas de abdominais.
Muitas vezes, tenho realçado a importância da criação de um órgão de regulação ética da publicidade; o que, infelizmente, permanece sem existir... isto num país cujo Governo está cada vez mais interessado em aumentar as hostes de controle da Comunicação Social. Mas adiante... Uma das mais comuns “brincadeiras” da publicidade, um “engano de alma” absoluto, corresponde aos anúncios das máquinas de abdominais. Que fique desde já esclarecido que, no ponto de vista dos modelos fisioterapêuticos de Reeducação Postural, os músculos abdominais devem ser fortalecidos, mas com recurso à respiração e não a exercícios abdominais! Mas mesmo que pudéssemos considerar saudável a realização de exercícios abdominais – e não esquecendo que o conceito de “abdominais” é extremamente abrangente (não será o Pilates um trabalho de abdominais? É, mas um trabalho abdominal profundo), e os exercícios a que se referem os anúncios incluem essencialmente o treino dos músculos rectos do abdómen (musculatura superficial) – posso dizer que não há qualquer necessidade de utilizar máquinas de abdominais para realizar um trabalho dessa musculatura. Há, sim, necessidade de se ser bem instruído no respeitante à realização desses exercícios... algo que raramente é feito!
Eventualmente, poderíamos conceber que algumas máquinas abdominais poderiam ser vantajosas, no sentido de certos objectivos como o apoio da cabeça durante a realização do trabalho do tronco... Mas, uma máquina em particular, o “Ab King”, máquina cujo anúncio tem passado na televisão com muita regularidade, constitui a coisa mais idiota inventada em termos de realização de abdominais. Isto porque a máquina em si e o movimento que ela proporciona não permite realizar a flexão do tronco, mas sim flexão das ancas, pois o movimento constitui um fechamento do ângulo compreendido entre as ancas e o tronco sem praticamente flexão alguma da coluna dorsal (portanto, não há "abdominal"). E, como se a dita máquina não fosse já por si extremamente mal pensada num ponto de vista biomecânico, ainda por cima a dita permite a realização de extensão da coluna para além do neutro. Ou seja, aquilo que os publicitários referem como uma vantagem da máquina, a possibilidade de trabalhar também os músculos extensores, não só contraria todos os princípios que defendemos em Reeducação Postural (fortalecer musculatura hipertónica para quê?...), como permite a realização de um “erro de sistema” que até os instrutores mais ignorantes podem reconhecer: a determinado momento, o desportista realiza hiperlordose da coluna lombar (vejam-se as imagens televisivas, com a coluna lombar lordosada e bem longe de estar apoiada), não só porque os membros inferiores estão muito descidos mas também porque existe puro e duro exagero da amplitude.
Ora, será que vale a pena estar a “destruir” o corpo em nome de uma barriga mais lisa (o que é por si um grande mito, pois perdemos barriga se perdermos gordura corporal, e perdemos gordura se realizarmos actividade aeróbia prolongada, não perdemos gordura numa área do corpo pelo facto de estarmos a trabalhar especificamente aquela área... ou seja, de uma vez por todas, as pessoas que aprendam que “fazer abdominais para reduzir a barriga” é puro mito, pura patetice)? E quem serão os “génios” que inventaram tal máquina? Será que os mesmos conhecem o termo “biomecânica”? E onde estão os profissionais de saúde e de Educação Física para explicar que a dita máquina é um engodo publicitário (mais um entre tantos!...)? Onde está a responsabilidade profissional? As pessoas devem ser protegidas de anúncios como estes, principalmente quando não as podemos proteger da sua própria ignorância...

quinta-feira, agosto 02, 2007

A indústria do fitness: a falácia da nova medicina

Em primeiro lugar, é preciso salientar que, aparte esse tão usado e reciclado estrangeirismo (“fitness”), também as palavras “nova” e “medicina” deveriam vir acompanhadas de aspas, porventura incontáveis aspas e reticências; isto porque não só a prática gímnica não constitui verdadeira “nova arte”, como o termo “medicina” se refere a uma actividade profissional de cambiantes constituintes extremamente complexas e multidimensionais. Mas este texto não pretende definir conceitos. Este é mais um texto de alerta, de um “alerta” que desfalece, que desprimora, que raramente ousa tocar os augúrios conteudísticos da comunicação social ou da opinião pública. E falo de um alerta relevante: falo do perigo da prática gímnica, tal como preconizada actualmente na nossa sociedade.
Desde tempos imemoriais que a prática física tem acompanhado o evoluir da sociedade, em inúmeros aspectos mais ou menos formais. Por exemplo, com o surgimento das cidades-estados na antiguidade do século VIII a.C., os jogos tornaram-se uma actividade comum e importante da vida em sociedade. Chamados para a guerra a qualquer momento, os cidadãos das cidades-estados guerreiras procuravam sobreviver através de uma boa preparação física e coragem. Por outro lado, os Gregos tinham uma unidade de língua e cultura que celebravam com festivais abrilhantados por competições de atletismo, sendo que o mais importante tinha lugar em Olímpia, principal templo de Zeus.
Durante milénios, a prática física perpetuou-se, estando sempre mais ou menos associada à prática de um ou mais desportos específicos, actividades físicas de certo modo sincopadas segundo um código determinado. Mais recentemente, a prática física tem sido vista sobretudo enquanto prática motora, sendo que o conceito de Educação física tem sido preterido a favor do conceito de “ciência da motricidade”, com origem em Merleau-Ponty e continuidade nacional em Manuel Sérgio. Nos seus livros sobre “epistemologia da motricidade humana”, Manuel Sérgio reforça o carácter holístico da pragmática desportiva, vista como prática multimodal e multi-existencial.
Independentemente de ter sido ou não bem sucedido o esforço de alguns de transformar a “prática desportiva” numa arte da condição humana, é inegável que a realização de desportos tem influenciado marcadamente a evolução da nossa sociedade.
Acontece que nunca e em tempo algum se realizou um esforço tão grande como o actual para estudar e divulgar os efeitos e benefícios do desporto sobre a saúde humana. É talvez por isso que certas especialidades médicas começam a proliferar – como a medicina desportiva – e certos cursos de “ciências da motricidade” começam a virar-se para a dimensão da saúde e do bem estar. É talvez agora relevante sublinhar que jamais um desporto foi concebido em termos das suas potencialidades para a saúde do Homem. Todos os desportos ditos “clássicos” possuem uma história própria que não passa, de forma alguma, pela estruturação de um conjunto de gestos com vista à saúde do sistema esquelético do Homem.
É, portanto, aqui que começa a problemática da tão aspirada síntese entre desporto e saúde. A saúde não pode ser conseguida somente pela prática suave de determinados desportos, pois, efectivamente, não há, em termos biomecânicos e cinesiológicos, um desporto que possa ser considerado como uma actividade perfeita (em termos fundamentais de saúde esquelética do Homem). Para além disso, também é frustre a pretensão de se querer que um instrutor de “fitness” constitua um profissional de saúde. O desporto possui inúmeros benefícios, mas esses mesmos benefícios só são conseguidos pela prática arraigada de componentes específicas e bem estudadas de treino desportivo. E ainda devemos considerar que a obtenção de saúde num plano do corpo (ex. cardiovascular) acarrete prejuízo de outro plano corpóreo (ex. músculo-esquelético)...
Muito mais grave que a prática mais ou menos formal de um desporto é a massificação do treino dito de “fitness”. Refiro-me à musculação e a todos os variados ingredientes de uma massa acrítica de actos embrutecidos (com nomes todos eles o mais estrangeiros possíveis). Com gravidade muitas vezes não valorizada, o utente dos ginásios é atendido e seguido por um instrutor muitas vezes sem formação superior, num ritual de treino profundamente desmesurado. Todos os dias observo, nos meus próprios treinos físicos, o erro e a palermice de tantos e tantos exercícios “prescritos” ao desportista. São os exercícios de “fortalecimento das costas” (forçando a obtenção de posturas anormais e claramente patológicas), os alongamentos feitos rapidamente e sem controlo do alinhamento, os movimentos não fisiológicos, os gestos forçados e repetitivos sem qualquer razão de ser, para não citar mais coisas... Pelo que tenho visto, e pela minha avaliação de fisioterapeuta, a grande maioria das actividades realizadas no contexto de ginásio são impróprias para a saúde humana.
Mas, ao mesmo tempo que ocorre a massificação da prática desportiva, com quase meio milhão de portugueses a praticar uma qualquer actividade e com milhares de ginásios abertos ao público, a medicina dita “clássica”, aquela que se preocupa com a fisiologia normal e não tanto com o corpo “condicionado”, perde uma já longa e polémica batalha. Os atestados médicos, indispensáveis desde 1999 para quem queria inscrever-se num ginásio, deixaram de ser obrigatórios, cabendo ao cliente responsabilizar-se pelo seu estado saudável, uma medida que, logicamente, os proprietários das academias desportivas aplaudem.
Ora, é preciso entender que ao retirar por completo a responsabilidade do médico à actividade desportiva do utente, estamos a promover o abandono da sua saúde e a sua perda nos meandros da máquina confrangedora do “fitness” e seus “profissionais”. Estamos, portanto, a entregar um potencial doente cardíaco às mãos de um instrutor não licenciado ou fracamente licenciado que subordina o cliente a correr numa passadeira sem controlo adequado de determinados parâmetros. Estamos a entregar uma doente com uma artrose dos membros inferiores aos famosos “saltinhos” daqueles estúpidos mini-trampolins de VivaFits e companhia. Estamos a entregar um indivíduo com perturbações posturais a um “personal trainer” ou outro instrutor que pensa que reeducação postural consiste em endireitar à força o seu cliente (como tantas vezes tenho visto em aulas de Yoga ou de Pilates). E assim por diante...
Temos, portanto, o mundo do “fitness” ao serviço incrédulo da saúde dos portugueses. E ao que parece os portugueses gostam destas actividades, pois não pára de crescer o número de clientes das academias desportivas. O que muitas destas “vítimas” não sabem é que a indústria do “fitness” é extremamente agressiva. E não possui a mínima vergonha da forma como trata os seus clientes. A meu ver, é impossível separar o mundo do desporto do mundo da saúde. Para mim, que sou profissional de saúde e motricidade, não consigo ver as coisas sem a perspectiva da motricidade e da postura ao serviço da saúde humana. Não corro pelo condicionamento, como ninguém deveria correr ou fazer correr. Corro pela saúde das pessoas e pelo respeito às suas capacidades.
---
Publicado no Jornal Público, dia 23 de Agosto de 2007

quarta-feira, julho 25, 2007

Levantando pesos: o grande modelo de treino terapêutico e desportivo

A musculação é provavelmente o mais praticado dos desportos ou actividades de ginásio. Independentemente se nos referimos ou não à sua versão intitulada “Culturismo”, não há quase nenhum praticante de actividades gímnicas que não tenha levantado uns pesos, assim como não há quase nenhum fisioterapeuta que não tenha empregue o trabalho de pesos na recuperação dos seus doentes. Percebamos que o trabalho de pesos pode ajudar no ganho de vitalidade e controlo motor; será fundamental na recuperação de fracturas e todas as condições que tendam à flacidez, assim como será condimento obrigatório de todo o desportista que queira cultivar um corpo mais “belo”. Mas o treino de pesos não é obrigatório para a maioria das condições de trabalho em fisioterapia. Daí não se perceber por que é que o fisioterapeuta persiste numa obsessão irracional de “fortalecer”, quando, na realidade, o doente quase sempre necessita é de uma “reeducação funcional” (seja o doente ortopédico, seja o doente neurológico).
Muitos fisioterapeutas deveriam perceber que jamais o treino de resistências pode ser utilizado com vista à melhoria da Postura, assim como é impossível conseguir uma melhoria do alinhamento de uma articulação por meio do treino de pesos. O treino de força possui uma metodologia muito interessante mas é desnecessário à maioria das condições com que lida o fisioterapeuta, principalmente se o mesmo treino for de cariz analítico e não funcional.
Mas deixemos as coisas bem claras! Enquanto praticante que sou de actividade desportiva, posso dizer que, por vezes, não consigo resistir ao levantamento de pesos. Como antigo praticante de culturismo, posso dizer que, para mim, a musculação é o mais interessante dos desportos existentes (e é mesmo um desporto com cariz próprio e autónomo). Adoro a musculação e já fui viciado na mesma. Enquanto pessoa, possuo um gosto inefável pelo treino de pesos e outros irracionais. Contudo, enquanto terapeuta, e ainda mais enquanto terapeuta que se interessa por Reeducação Postural, tenho muito pouco a defender na prática do treino de força. E não tenho reservas em dizer que, quase sempre, o treino de força possibilita uma certa estética, em detrimento da saúde!

sábado, julho 21, 2007

As estações do corpo

“As estações do corpo”. É o título do terceiro livro de Thérèse Bertherat, criadora da “antiginástica”. É, provavelmente, o mais enfadonho dos três que já li da autora. Tem uma certa qualidade literária, mas, talvez por isso mesmo, não consegue fugir à maçada de uma leitura pouco técnica, pouco “terapêutica”. A obra não fala de métodos, não fala de casos. Esboça a temática das “estações comportamentais do corpo” ou da forma como o corpo reage e funciona nas diferentes estações do ano, e segundo diferentes ritmos (inicialmente externos e depois internos). Neste ponto, a obra, assim como todo o método de Bertherat, antecipa a inclusão de questões relacionadas com a “medicina tradicional chinesa” nos métodos de Reeducação Postural (assim sendo, o senhor Courchinoux não é, de forma alguma, iniciático no tratamento destas questões). Com um tom bastante pessoal, e um tanto afectivo, a obra toca-nos, apesar de não possuir o esplendor técnico dos seus primeiros livros.
A propósito da temática das “cadeias musculares”, gostaria de passar um excerto de um capítulo do livro, o qual fala da natureza das cadeias posterior e anterior do corpo (repare-se na natureza apriorística da informação seguinte, real nos seus preâmbulos, mas um tanto fora de prazo no seu desenvolvimento):
“Se, em lugar de lendas, prefere a realidade anatómica, saiba que temos na parte de trás do corpo uma possante cadeia muscular, que vai do crânio aos calcanhares, e mais além, pois ela prende-se sob os pés e segura os dedos na sua trama.
Essa cadeia, como um tecido sem falha, estende milhares de fibras de um lado ao outro do corpo, mas somente na parte de trás. As fibras dessa cadeia muscular prendem-se nos nossos ossos por tendões sólidos. Encaixam-se umas nas outras, sobrepõem-se em camadas ajustadas, estão admiravelmente dispostas, com simetria, de cada lado das vértebras.
Ao se contraírem, comandam todas as articulações, todos os movimentos. As fibras musculares dessa cadeia – posterior – têm uma constituição muito robusta, excepcional. São capazes de se contraírem com força e, quando contraídas, é muito difícil afrouxarem.
Com efeito, essa cadeia pode tornar-se uma verdadeira cilada na qual nos atiramos. Ficamos emaranhados nas fibras dos nossos músculos, presos como o coelho que cai na armadilha cujos laços vão-se apertando à medida que ele se debate.
Na frente, tudo é bem diferente. Não há cadeia anterior [aqui está um ponto discutível...], mas sim músculos isolados que caminham separados ao longo, (...), sobre o nosso pescoço, peito, abdómen e parte dianteira das coxas. (...)
Atrás, os músculos da cadeia posterior, bem organizados, agrupados, solidários entre si, pretendem participar de todos os nossos movimentos. (...) Ao se contrair, forçosamente [a cadeia posterior] diminui de comprimento. Se a musculatura estiver permanentemente contraída estará permanentemente mais curta.
A composição química e a aparência dos músculos modifica-se. De apenas rígidos, tornam-se contraídos, encolhidos. Os nossos músculos, repito, comandam as articulações; são eles que fazem mexer os ossos do esqueleto e, por conseguinte, são eles, e somente eles, que dão ao nosso corpo a forma que tem. Ao aproximar as articulações, os músculos são capazes de dobrar a coluna, mantê-la arqueada, exagerar as curvaturas e achatar as vértebras.
As bordas ósseas das vértebras, juntadas à força, comprimem os nossos “discos” delicados, sensíveis, e a raiz dos nervos, mais sensível ainda. (...)
Enquanto atrás se desenrola esta cena – dramática – o que fazem os músculos da frente? Bocejam, os músculos da frente. Estão inibidos pelos seus parceiros-antagonistas que os proíbem de agir. Aumentam de volume, ficam mais pesados entre os seus tendões. Diante dos olhos, lá os temos flácidos e molengas. Concluímos apressadamente que toda a nossa musculatura é muito fraca e precisa de ser corrigida.
Na verdade, a musculatura gosta de ser tratada com tacto e inteligência. Gosta de ser compreendida. Os músculos que ficam atrás só precisam de ser afrouxados, alongados. Os músculos da frente não precisam de nada. [outra parte questionável...]. Se são fracos é porque as contracções dos seus antagonistas impedem que, por sua vez, eles se contraiam. São, desse jeito, submetem-se a essa lei, a esse mecanismo peculiar. Solte a cadeia aferrolhada que existe atrás e verá que, na frente, os músculos deixados em liberdade conseguirão, sozinhos, mudar de forma, mudar de aspecto.
É detrás que a forma do nosso corpo se decide [princípio mézièrista basilar]. Somos esculpidos por trás e quase sempre amassados sem complacência.”

quarta-feira, julho 11, 2007

Fortalecendo o corpo de dentro para fora: Pilates sim, Musculação não

Em diferentes culturas, a capacidade de força muscular é vista de diferentes maneiras, com base em conceitos dissemelhantes. Afinal de contas, não é muito difícil de perceber que a força envolvida nas artes marciais, nomeadamente a força explosiva, é diferente da força envolvida no treino de um culturista (treino de hipertrofia muscular); a força de um ciclista que sobe a montanha (resistência muscular) é obviamente diferente da força do halterofilista que eleva uma grande quantidade de peso acima dos seus ombros (potência muscular). E se todas estas formas de força compreendem o conjunto de actividades que integram a utilização de contracções musculares completas, inclusivas de uma fase de aproximação das inserções musculares (contracção concêntrica) e de uma fase de afastamento das inserções musculares (contracção excêntrica), o que diremos daquelas actividades que empregam contracções sem movimento aparente (contracções estáticas), como ocorre no Yoga?...
Parecem possuir vantagens distintas as actividades em que é mantida a realização de posturas de força mantida e resistente, somadas ao alongamento global de determinadas cadeias musculares. Só através deste tipo de actividades é possível empreender um trabalho muscular inclusivo das massas musculares profundas, grupos musculares com uma grande importância na estabilidade central do corpo e no controlo postural.
Neste contexto, de forma mais ou menos intuitiva, no início do século XX, um homem chamado Joseph Pilates viria a criar um sistema de exercícios que teria como principal objectivo o treino da força muscular profunda. Este homem não tinha qualquer tipo de formação na área da saúde, mas demonstrou-se extremamente intuitivo no momento de criar um conjunto de exercícios com uma série de vantagens para as mais dissemelhantes pessoas.
Joseph Pilates permitiu que o seu sistema de treino atravessasse o oceano atlântico, tendo criado estúdios na América e permitido a criação de uma linhagem extensa de alunos e discípulos. O método Pilates viria a obter um extenso sucesso, sendo que se tornaria provavelmente o mais famoso método de fitness. Interessou a bailarinos e, mais tarde, a fisioterapeutas e professores. Manteve-se na mira dos sérios praticantes de exercício físico, inclusive famosos actores e personalidades públicas, ao mesmo tempo que a prática de levantamento de pesos em ginásios mantinha o seu estatuto de desporto de cadastrados e dissidentes.
O método Pilates veio a tornar-se uma verdadeira compulsão da moda, sendo que, ainda actualmente, apresenta-se como um método vistoso, de natureza quase esotérica e milagrosa. As pessoas advinham no método uma espécie de panaceia do total bem estar físico e espiritual, para além de verem nele a resolução única dos seus problemas. É, provavelmente, mais um efeito perverso do diabólico marketing.
Ao contrário do que se poderá pensar, o método Pilates não é necessariamente a melhor solução para os problemas de coluna. Aliás, quando nos referimos a “problemas de coluna”, podemos estar a incluir inúmeras condições clínicas, sendo que algumas dessas situações podem não ganhar, mas sim perder, com a prática de Pilates.
Por outro lado, a melhor virtude do Pilates não tem sido suficientemente aludida pelos profissionais. Trata-se precisamente da possibilidade de realização de um treino de força profunda, de natureza estática a nível abdominal e excêntrica a nível periférico, fazendo com que exista uma melhoria da estabilidade corporal sem que se verifique um necessário aumento de tensão.
A prática de musculação leva irremediavelmente à perca da flexibilidade, seja porque a prática é feita com posturas impróprias, seja porque inclui a utilização de cargas extremamente elevadas que sobrecarregam o trabalho muscular na fase de aproximação das inserções do músculo. Digam o que disserem alguns autores de livros de musculação/culturismo, a perda de flexibilidade no treino de pesos compreende uma realidade insofismável. Para além disso, o treino de cargas tende a perpetuar ou fixar os desequilíbrios posturais previamente existentes.
A utilização de pesos, tanto em fitness como em fisioterapia, é extremamente comum, mas releva de alguma ignorância profissional. O treino de força deveria ter sempre uma componente funcional, com atenção especial ao controlo motor. Daí que os fisioterapeutas só deveriam utilizar terapias de força com base no treino excêntrico, mediante a realização de actividades lúdicas e que envolvam especial controlo neuromuscular (como já vai sendo feito no seio das terapias neurológicas).
Já na antiguidade grega, o corpo, considerado uma forma ideal, símbolo de valor e juventude, constituía um pleno de beleza e vitalidade, com massas musculares moderadas e proporcionadas. Mesmo Miguel Ângelo, no renascimento, viria a idealizar o corpo como uma estrutura de grande densidade central, pleno de força, energia e flexibilidade, com a presença de massas musculares salientes mas não exageradas.
O método Pilates possui a inaudita vantagem de permitir o treino de força em posições de alongamento, com controlo do centro abdominal e coordenação permanente da respiração. Baseia-se fundamentalmente em exercícios de controlo central do tronco, sendo que se aproxima de certos dados da fisioterapia neurológica, segundo os quais sem estabilidade central (do tronco) é impossível obter estabilidade proximal (dos membros) e sem esta é impossível obter mobilidade periférica (das extremidades).
Não é, contudo, isento de perigos e/ou inseguranças. Comummente, diversos instrutores de Pilates, de diversas escolas e/ou tradições práxicas, abusam na realização dos exercícios, sobrepujando o esforço abdominal dos praticantes. Se o treino abdominal profundo, nomeadamente do músculo transverso abdominal e do diafragma pélvico, permite a estabilização fisiológica da coluna, se realizado com moderação e sensatez (sem a presença de compensações musculares), o mesmo treino, se for realizado com esforço acrescido, poderá levar ao arqueamento da coluna e à solicitação de uma série de músculos que não interessa esforçar (é o caso da musculatura paravertebral extensora da coluna).
Um dos objectivos da existência de uma musculatura abdominal profunda resistente consiste na possibilidade de evitar a utilização da musculatura paravertebral na realização de uma série de actividades que exigem equilíbrio. Porém, o treino sobrepujado dos abdominais leva a que a coluna seja utilizada como ponto móvel no exercício, ao invés de se manter como ponto fixo. A utilização da musculatura extensora leva a que a lordose ou retracção da cadeia muscular posterior, principalmente da região tóraco-lombar da coluna, aumente ao ponto de se fixar numa postura extensora. Assim sendo, o método Pilates, se utilizado com exagero e/ou fraco controlo leva à criação de uma postura anormal, muitas vezes confundida com uma boa postura, pelo facto de a pessoa estar aparentemente mais “direita” ou menos “corcunda”.
A permanência de um tipo de postura extensora, seja ela atitudinal ou estruturada, é muito comum nos instrutores de fitness. Segundo a perspectiva de Godelieve Denys-Struyf, a escolha deste tipo de atitude favorece a ideação e a acção, “fazendo dela uma estrutura que procura prever e garantir um certo controlo sobre os acontecimentos, pelo saber e pelo poder”. É, portanto, uma atitude de defesa corporal, muitas vezes difícil de desbloquear, mesmo através do alongamento global progressivo.
Para mim, a prática de Pilates deveria ser feita sempre com a coluna lombar completamente apoiada, ao invés do que muitas escolas de Pilates tendem a advogar (nomeadamente, a utilização de uma posição neutra da coluna). O apoio total da coluna facilita a compreensão do controlo do centro abdominal, para além de permitir evitar a manutenção de uma postura anormal.
A prática de Pilates apresenta-se, assim, como especialmente vantajosa, mas apenas se mediada por um instrutor sensato e relevantemente formado, que consiga atender às diferenças posturais e comportamentais das diferentes pessoas. Como tal, resta dizer que um bom instrutor de Pilates ou, em geral, de fitness, não é necessariamente o melhor modelo, aquele que faz melhor os exercícios; é sim aquele que faz com que as pessoas, essas sim, façam bem os exercícios e consigam obter as sensações óptimas inerentes aos mesmos.

segunda-feira, junho 25, 2007

Por que não publicam os fisioterapeutas portugueses?

Aqui está uma questão que me faço diariamente e para a qual não possuo resposta evidente. Por que razão há tão poucos artigos de fisioterapeutas em revistas de referência nacional ou internacional?... Esta questão, sempre que a faço, leva-me a níveis de angústia indescritíveis. Temos por aí uma longa e escamosa faixa de fisioterapeutas académicos, que dão aulas nas mais ou menos prestigiosas escolas superiores de saúde e Fisioterapia, homens e mulheres sem um verdadeiro sentido do dever académico; dão aulas, fazem os seus testes, mas não investigam, ou então, se investigam não publicam aquilo que estudaram.
Por que razão os fisioterapeutas têm tanto medo de publicar? Será que não sabem escrever?... Mas a linguagem científica é tão simples... Será que não têm conhecimentos suficientes de estatística e de metodologia de investigação?... Mas teriam sempre os artigos de revisão bibliográfica e outros de opinião... Será que estão desmotivados?... Nos Estados Unidos da América, os professores que não publicam são convidados a sair das universidades... Será esta uma motivação suficiente? Ou falta simplesmente a vontade de dar nas vistas?...
Ora, eu já há muito que perdi todas as ilusões relativamente à pertença a um clima académico. Os meios académicos são somente para os “amigos”, para os “filhos”, para os “apadrinhados”... E, por isso, temos por aí tantas escolas de Fisioterapia onde impera a fraca formação científica e a total incapacidade de produção de publicações (que é, no fundo, a única prova decente de um trabalho académico de qualidade).
Também não percebo por que é que as monografias de final de curso das diversas escolas existentes, assim como as teses de mestrado (ex. mestrado em Ciências da Fisioterapia), não se transformam num artigo numa publicação de referência... A única área onde ainda se vai publicando qualquer coisa é a “Fisioterapia no desporto”, mas mesmo assim os artigos desta área não são facilmente encontráveis em revistas como a Acta Reumatológica Portuguesa e outras de qualidade insofismável. Não percebo realmente por que há tão pouco interesse, tão pouco orgulho, na produção articulista. É uma falha considerável da parte dos fisioterapeutas portugueses. A criação de estudos e a sua respectiva publicação compõe uma fonte indubitável de respeitabilidade interdisciplinar. Mas como os fisioterapeutas têm as suas vidas familiares e pessoais muito cheias e, portanto, não se dedicam à produção científica, eis que os outros profissionais continuam a achar que os nossos métodos são inexistentes ou ineficazes... Não os censuro, pois não têm onde ler sobre o que fazemos...

sexta-feira, junho 22, 2007

O estado das publicações científicas portuguesas

Sempre achei que a qualidade de um investigador se revia pelo “estado da arte” da sua produção científica em forma de artigos em publicações especializadas. Na realidade, aquilo que define uma boa investigação não é a respectiva publicação da mesma em livro ou catálogo, mas sim num artigo científico numa revista que inclui revisores de qualidade, assim como critérios de revisão objectivos.
Ora, se a qualidade da investigação irá reflectir-se na qualidade da publicação, não pode deixar de se considerar que o contrário também é verdadeiro e que, portanto, a qualidade do artigo irá denunciar a qualidade do trabalho subjacente. Mas é aqui que residem todos os males. Se a qualidade de investigação em Portugal é indubitavelmente crescente o mesmo não se pode dizer acerca da qualidade das nossas publicações científicas.
Por minha parte posso dizer que tenho a minha pequena quota parte de artigos publicados e não sinto qualquer motivação para voltar a publicar. E esta desmotivação, esta clara falta de vontade, advém em muito de experiências que tenho tido no campo da publicação científica.
Como se já não bastasse o facto de todas as publicações possuírem regras próprias para o tratamento e avaliação do artigo, incluindo as regras de escrita das referências bibliográficas (as quais deveriam ser universais, dentro de cada campo de estudo especializado), não se pode compreender a razão pela qual muitas publicações possuem tempos de revisão do artigo que ascendem a um ano. Por que leva tanto tempo um revisor a fazer a respectiva revisão de um artigo? Será por ter muitas outras responsabilidades? Então diminuam-se os seus “cargos”, para poder melhor desempenhar os “poucos” que possui. O facto de a revisão de um artigo demorar quantidades enormes de tempo constitui um factor de óbvia desactualização da publicação.
Gostaria de contar uma experiência que considero muito negativa. No início do ano passado submeti um artigo à Revista Motricidade, sendo que determinado responsável declarou que não deveria deixar passar o prazo de meio ano, sendo que findo esse prazo deveria questionar acerca do estado do artigo. Ora, é isso mesmo que aconteceu; findo o prazo enviei uma mensagem perguntando-me acerca do artigo em questão, sendo que recebi como resposta qualquer coisa como “o seu artigo encontra-se em revisão”. Esta mesma resposta foi-me dada três meses depois, e outros três meses depois. Achei estranho tal “revisão demorada” do artigo, pois um outro artigo que tinha mandado posteriormente para a revista (cerca de dois meses após o primeiro) resultou num envio das correcções cerca de seis ou sete meses após a sua submissão. Há cerca de um mês, mais de um ano após ter submetido o primeiro artigo e cerca de um ano após ter submetido o segundo, não tinha notícias de qualquer um dos artigos, pelo que enviei nova mensagem. Eis o resultado: não sabiam do primeiro artigo e quanto ao segundo estavam a enviar-me as respectivas correcções (exactamente as mesmas que já me tinham enviado vários meses antes). Mais tarde, pedem-me que faça a revisão do formato do segundo artigo (não me explicando o que pretendiam) e afirmar, relativamente ao primeiro artigo, que o mesmo foi rejeitado em Outubro do ano passado. Ora, levaram portanto todos estes meses para me dizerem que o artigo foi rejeitado e ainda por cima não apresentaram qualquer justificação acerca da respectiva rejeição. Quanto ao segundo artigo, ainda procuro que dêem notícias sobre o “estado de publicação” do mesmo.
Ora, este tipo de tratamento dos manuscritos de um investigador não pode ser admitido. E tenho tido experiências semelhantes com outras revistas. Por exemplo, a Revista Psicologia prometeu-me há três meses que no prazo máximo de um mês um artigo meu enviado e corrigido seria finalmente aceite ou rejeitado. Mais de dois meses depois de findo o prazo, ainda não sei nada sobre o respectivo artigo.
E também poderia contar imensas coisas sobre a aceitação de artigos com tratamentos estatísticos incorrectos. E também sobre a formatação incorrecta da linguagem ou aspecto finais de artigos enviados e entretanto publicados.
O estado da publicação científica em Portugal é profundamente calamitoso. Não admira que não possuamos publicações de referência internacional! O que acontece é que o abandalhamento tipicamente português também predomina na nossa divulgação científica.
----
Publicado em Cartas ao Director do Jornal Público, dia 24 de Junho de 2007

sexta-feira, junho 15, 2007

Stretching Global Activo em artigo na Sportlife

É com enorme prazer que anuncio a saída de um artigo meu sobre Stretching Global Activo, explicativo dos principais princípios do método e de imagens das principais posturas de alongamento, na revista Sportlife do próximo mês (Julho 2007). Penso que é de subscrever a realização de artigos como este, os quais têm a população desportiva como principal alvo informativo e educativo.
Entretanto, este blog irá passar a ser mais conhecido, pois virá referido no artigo. Por motivos de boa educação e de sensatez geral, e de modo a evitar quadros desastrosos já antes ocorridos, resolvi proibir a entrada de comentários anónimos no blog. Assim, se mais alguém pretender realizar um comentário ofensivo será obrigado a denunciar o seu nome, assim como outros dados. Penso que, tendo em conta que dou a cara e o corpo neste blog, não é injusto pedir o mesmo dos outros.

sábado, junho 02, 2007

O correio do corpo. Novas vias da antiginástica

É o título do segundo grande livro de Thérèse Bertherat. E que posso eu dizer desta obra que pode, eventualmente, ser encomendada pela Internet?... Muita coisa, visto que a mesma é simplesmente fantástica na forma de ver os terapeutas corporais e os fundamentos do método Mézières.
Num dos capítulos do livro, Bertherat fala de outras terapias. Contesta a eficácia de Feldenkrais e de outras técnicas funcionais, assumindo que as mesmas permitem a função de forma batoteira e compensada. Contesta igualmente a eficácia das técnicas de relaxamento, por assumir que as mesmas estão enfocadas somente nos sintomas (tratados pelo poder persuasivo da voz do terapeuta) e não nas causas. E, por outro lado, elogia o Rolfing, realizando aquela fantástica comparação entre este método e o método Mézières (que muitos poderiam ter feito, mas ainda actualmente não tende a ser realizada).
Gostaria de citar a seguinte passagem do livro: “O rolfing é praticamente, que eu saiba, a única técnica ocidental que não contradiz os princípios de base do método Mézières: já é muito. Ida Rolf sabe como é importante alongar o conjunto da musculatura (...). E, lógico, construiu o seu método a partir da ideia de que a estrutura determina a função, e não o inverso. Mas... Não sei como dizer de outro modo. Ida Rolf não é Françoise Mézières. Ela não fez a mesma descoberta. Pode-se dizer que Ida Rolf foi mais longe nas suas pesquisas [sobretudo por ter dado grande importância ao papel das fáscias], mas no seu percurso não se deteve o suficiente diante do que considero primordial: a anatomia da musculatura posterior que faz com que ela esteja, inevitavelmente, na origem de toda a deformação adquirida. Ida Rolf morreu sem conhecer a descoberta de Françoise Mézières.”
É fantástica a forma como Bertherat explicou que tem sido vaiada por muitos mézièristas que não compreendem a amplitude da sua visão biopsicossocial do ser humano. Para Bertherat, o método Mézières é fantasticamente mais Global do que aquilo que é pressuposto por muitos mézièristas.
Como é tão bom possuir a inteligência criadora capaz de fomentar a comparação entre técnicas. Por exemplo, Bertherat não o diz na sua obra mas vale a pena dizer que terapias funcionais como Bobath e a técnica Alexander não se interessam pela estrutura mas somente pela facilitação da função; daí não serem verdadeiras terapias com vista à causalidade. E, por exemplo, ninguém tem a ousadia de comparar a visão das fáscias da abordagem dos “Trilhos anatómicos” com o método de Busquet (“Cadeias musculares”)? Dizer que o primeiro método é “rolfista” e que o segundo é “mézièrista” é expressar muito pouco de uma natureza teorética de métodos tão prolífica!
A verdadeira intelectualidade expressa-se pela criatividade com que comparamos, e criamos o eclectismo visionário das coisas. Obras como a da Bertherat, em que a mesma realiza tais comparações, são de leitura obrigatória.

terça-feira, maio 29, 2007

A Reeducação Postural é segura para as hérnias discais?

Se há grupo de doentes que tenho medo de encontrar nas minhas classes de reeducação postural são aqueles que possuem uma condição álgica aguda. O modelo mais flagrante corresponde à existência de hérnia discal lombar em fase aguda com ou sem ciatalgia. Diga-se de passagem que o princípio da deslordose pode ser flagrantemente perigoso no caso destes doentes. Os tradicionais “queixo ao peito” e “retroversão da bacia” não parecem dar grandes resultados no respeitante aos sintomas de fase aguda de herniação. Aliás, já tive maus resultados no tratamento de hérnias cervicais com a utilização de certas posturas do RPG. Daí que possua muitas reservas quanto à utilização de posturas de reeducação postural, paradigmaticamente realizadas em flexão, nos casos de doentes com hérnias de disco.
E mais uma vez refiro que não acredito muito na osteopatia ou na quiroprática para o bom tratamento de hérnias discais. A meu ver, a simples tracção manual constitui a melhor forma de tratar hérnias cervicais. Podem referir Maitland, McKenzie, Mulligan, Janda, Cyriax, Kaltenborn, o que quiserem, mas para as hérnias cervicais só utilizo duas coisas: tensão neural adversa para avaliação inicial e reavaliação + tracção manual. Os resultados costumam ser imediatos. Terapias manuais podem ser fantásticas para outras condições. Mas não para as hérnias da cervical.
Relativamente às hérnias lombares, a história já é um pouco diferente. Aqui acredito que o método de Maitland é o mais eficaz, sendo que dispenso as tracções e também as extensões passivas.
É claro que a ordem de preferências dos diversos terapeutas dependerá, em grande parte, da formação básica e profissional que possuam, para além de uma certa subjectividade preferencial.
Não é muito comum um fisioterapeuta da área reeducativa, como é o meu caso, interessar-se por terapias manuais. Há obviamente excepções mas, para mim, a reeducação postural é tudo, preferindo a prevenção ao tratamento manipulativo eventualmente deletério.
Ainda assim, admiro o bom terapeuta manual. E entregar-me-ia muito mais rapidamente a um destes terapeutas do que a um osteopata formado aqui em Portugal (obviamente, não comparável com o osteopata formado, por exemplo, em Oxford). Também aceito que as diferentes técnicas de “terapia manual” encarnam um certo marketing, difícil de explicar. Por exemplo, já alguém se deu ao trabalho de comparar as técnicas de Cyriax com as de McKenzie? Ou as de Maitland com as de Kaltenborn? Há diferenças, obviamente. E só o leigo é incapaz de as reconhecer. Mas será que as diferenças inerentes aos próprios métodos resultam em diferenças relevantes nos resultados? Em relação a isso, provavelmente, só os especialistas da área poderão responder...

 

sexta-feira, maio 18, 2007

"O Corpo Humano como nunca o viu…”

É o título de uma exposição que está, neste momento, a decorrer em Lisboa, na Rua da Escola Politécnica, aquela rua onde tantas vezes visitei o museu de História Natural...
Apesar de estar a decorrer uma série de campanhas de promoção de bilhetes para a exposição, não pode deixar de se sublinhar que a visita à mesma acarreta preços proibitivos, com os bilhetes a custarem cerca de vinte euros cada. A questão agora é simples: será que vale a pena?... E a resposta é também simples: vale a pena para quem estuda anatomia, não vale a pena para quem já estudou anatomia. Ou seja, esta é uma exposição interessante para os iniciados nos estudos anatómicos, principalmente para todos aqueles que queiram apropriar-se de uma visão realista e proporcionada das estruturas anatómicas, mas é uma exposição um tanto infantil para todos aqueles que já têm experiência de estudo de manuais anatómicos, principalmente se, como é o meu caso, estudaram por livros de cadáveres.
A exposição é um tanto infantil, possuindo informações extremamente lineares para quem é profissional de saúde. Por outro lado, podemos considerar que é uma exposição obrigatória para todos os interessados, principalmente aqueles curiosos que não são da área.
Uma consideração a ter em conta: a nónima do que é mostrado. Talvez a parte mais infeliz da exposição corresponde aos termos anatómicos utilizados. Infelizmente não são termos portugueses, mas sim brasileiros. Por exemplo, o “vasto interno do quadricípete” é designado por “vasto medial do quadríceps”, e assim por diante. Não tenho nada contra os termos brasileiros, ainda mais porque estes são, nada mais nada menos, que a tradução portuguesa dos termos americanos. Mas os termos anatómicos estão anos luz mais adaptados à nossa cultura tal como aparecem, por exemplo, nos manuais “Anatomia humana da...” de Esperança Pina.