sexta-feira, março 25, 2011

O corpo industrial

Artigo publicado no Jornal 'Avante!', dia 24/03/2011
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Enquanto componente da História humana, a história do corpo não pode deixar de ser atendida na sua relação muita significativa com o capital e a industrialização. Apesar de ter sido relegada para segundo plano por um ainda bem vivo platonismo milenar, a historicidade corpórea não deixa de se consubstanciar como significante, ainda mais porque existe um paralelo entre a actividade laboral e ocupacional humana e a forma como o corpo é usado, tratado e investido; paralelo que expressa quase sempre uma noção de instrumentalização, num objecto corporal que foi tantas vezes fortemente maltratado, seja num sentido utilitário, seja num sentido mais abstracto.
Se numa época feudal o corpo foi usualmente escravizado (mas ainda mantinha o seu contexto natural de inserção), numa época posterior, iniciada com a primeira revolução industrial, o corpo não deixou de ser usado primacialmente como uma máquina capaz de produzir e fabricar (correspondente ao que Hannah Arendt designa de homo faber), e posteriormente como invólucro de conservação de energia e conversão e propulsão (homo motor), o que designa que o corpo foi tratado em função da sua utilidade produtiva, transformando-se numa máquina mecânica naturalmente desenraizada.
Esta época de modernidade já concebe o corpo humano como um sistema biomecânico que tem determinadas funções. Quando avariadas essas funções, o corpo deixa de possuir qualquer sentido, e uma figura de autoridade (médica) precisa de restaurar a função em perda. Já aqui, tanto a funcionalidade quanto a saúde do corpo apelavam a um conjunto de relações de poder (aqui é relevante o trabalho de Foucault) e à sempre inexistente relação de autonomia para com os “mecânicos do corpo”.
Por outro lado, na época actual de pós-modernidade e de “hiperconsumo” (Lipovetsky), o corpo perdeu parcialmente o seu estatuto de máquina produtiva, exceptuando claro as profissões fortemente manuais, mas ainda assim não perdeu o estatuto de “corpo industrial” ou “corpo do capital”. É que, na verdade, novas “indústrias culturais” agitam estes tempos de vivência do supérfluo... Certas terapias, como o Wellness ou determinadas medicinas não convencionais, assim como o Fitness, esse conjunto de práticas físicas que violentam um corpo posturalmente frágil, são marcas de um capitalismo impiedoso em que o objecto corpóreo passa a funcionar como um receptáculo passivo da efemeridade. Efemeridade, seja pelo prazer alienante a que se induz o corpo (capaz de funcionar como um antídoto para a sofreguidão dos dias de trabalho e também para a necessidade de manter a necessária alienação face ao poder do determinismo liberal), seja pela mistificação a que se submetem terapêuticas que tentam a subjugação do cliente/doente face ao poder de uma prática “divina” ou “mágica” (tendo como intermediários agentes do “poder”, que fazem uso do dogma ou até mesmo da “banha da cobra”), artifício de um sempre inebriante e sufocativo marketing de pendor hipnótico.
Em particular, o Fitness reduz o corpo vivido e com história a um mero artefacto que só importa no sentido quantitativo... Um corpo que deveria ser objecto histórico e fenomenológico, no sentido em que é fenómeno sempre complexo, único e irrepetível, necessariamente criativo, intencional e inventivo, é transformado num vale de capacidades e classificações, numa lógica que é a do resultado e nunca a do processo (quando, no fundo, o caminho importa sempre mais que o destino...). O corpo é reduzido a um desempenho quantificável, quando só deveria ser visto enquanto ente em constante renovação heurística...
É este corpo, que é aparentemente vivido e experienciado, mas na verdade não verdadeiramente integrado, que tende a ser negado todos os dias, numa cultura que é, por natureza, de negação e desaproximação do Eu. Merleau-Ponty referia a dicotomia “Tenho um corpo” versus “Sou um corpo”. É pouco dubitável que a primeira parte da dicotomia continua a vencer o estatuto do corpo como parte da própria identidade.
O corpo expressivo, o corpo intencional, o corpo cúmplice que ama e se associa em comunidade... O corpo livre de paternalismos e de artifícios quiméricos... O corpo feito comuna... É este corpo global que propende à verdadeira descoberta do sentido de um Eu verdadeiro para consigo e para com os outros.

sexta-feira, março 11, 2011

A ‘Geração à rasca’ e o ensino superior

Muito se tem falado actualmente na “geração à rasca” e muito se tem, de facto, elidido acerca da mesma. É certo que esta nova geração, à qual eu mesmo pertenço, possui elementos com grande capacidade de trabalho e até alguma cultura, mas é também certo que esse facto é mais a excepção do que a regra...
Na verdade, a nova geração possui uma evolução diferente das gerações anteriores, sendo que foram as gerações pretéritas, as quais se desenvolveram numa sociedade em que um curso superior fazia toda a diferença, que nos motivaram a pegar nos livros e nos convenceram que o nosso futuro dependeria do avanço escolar obtido; a nova geração não se desenvolveu na luta contínua das gerações anteriores... Nós tivemos acesso privilegiado aos livros e pudemos dedicar-nos exclusivamente a eles. E de tal modo pudemos intelectualizar-nos que muitos de nós tornámo-nos inseguros e fomos fazendo cursos e avançando nos graus académicos, adiando a hora de inserção no mercado de trabalho.
É claro que o boom de licenciados era inevitável, até porque, percebendo que havia ali uma grande fonte de negócio, as instituições de ensino superior reproduziram-se, a si mesmas e aos seus cursos, como cogumelos. Ora, se é certo que o mercado português deveria ter crescido mais do que realmente aconteceu, também é certo que esta cultura excessivamente obcecada pela formação superior não pragmática, num ensino superior crescentemente facilitado, fez com que um número insuportável de mestres e doutores, menos cultos e com menores capacidades de trabalho, e sobretudo com menor capacidade de luta e criação de auto-emprego, surgisse e viesse reclamar aquilo que as velhas gerações prometeram e o novo paradigma económico-financeiro do país já não pode dar.
Obviamente a formação superior é e será sempre uma vantagem, mas também é certo que o problema da nova geração passa pela existência de um novo paradigma económico e laboral que implica uma mudança de atitude que ainda não se verificou. Por mais que custe, é preciso largar a formação excessiva e enganosa e “pôr as mãos à obra” nesta hora em que vale mais o empreendedorismo do que a passividade.

Publicado como carta no jornal "i", 09/03/2011

quinta-feira, março 10, 2011

História da medicina: ecos e relativismo

Uma História especificamente racional do corpo e da medicina é tarefa impossível! Ou, no mínimo, improvável! Uma multiplicidade de visões e de mundividências é mais afecta à realidade. Uma realidade que é feita de um tecido de inumeráveis epistemis, num confluir sempre inconstante de fronteiras só aparentemente racionalizáveis. A História da medicina, aliás as histórias das medicinas só podem perfazer-se pelo encontro inexaurível com o sempre volúvel estatuto de uma (in)adequada cientificidade.
Na realidade, a História da medicina é um reflexo da História da própria ciência, atendendo a que as práticas tanto etiológicas quanto prognósticas e terapêuticas da profissão acarretam a mesma matriz básica que o tecido que constitui a própria trama científica: um objecto de estudo e um método reconhecido como científico.
À semelhança do método científico propriamente dito enquanto componente da história da ciência, o método que podemos designar de “médico-científico” sofre inúmeras mutações com o tempo, sendo que aquilo que é considerado como científico num tempo ou numa comunidade determinada, deixa de ser visto como tal num tempo subsequente ou numa comunidade com padrões de desenvolvimento metodológico e/ou tecnológico mais modernos.
Não admira que aquilo que já foi visto como prática científica e “séria” no passado seja comummente visto na actualidade como prática mística, ou mesmo mágica, própria do que muitas vezes vemos como pseudociência, “banha da cobra” ou charlatanice... Esta mesma charlatanice ganhava frequentemente ecos de manipulação psicológica (à semelhança do que acontece com muitas práticas místico-dogmáticas actuais), fazendo com que práticas como as sangrias e as trepanações fossem aceites acriticamente como “normais”, mesmo quando não pareciam resultar. Veja-se o exemplo literário singular e paradigmático inesquecível de “Le malade imaginaire” de Molière...
Como sabemos, tanto a história da ciência como a história da medicina só viriam a possuir o aspecto “epistémico-metodológico” dos tempos actuais a partir da vivência do positivismo (e consequente mecanicismo concretista e materialista) do século XIX (sabidamente, no respeitante ao exemplar paradigma cosmológico, uma História que inclui as obras de homens como Galileu ou Newton não foi suficiente para superar prematuramente uma certa escolástica aristotélico-cristã...). Mesmo no mundo contemporâneo, muitas práticas terapêuticas que podemos designar de “pré-científicas”, incluindo algumas socialmente mais aceites ou reconhecíveis como a osteopatia e a acupunctura (para não citar outras práticas corporais que José Gil refere no seu “Metamorfoses do corpo” como sendo uma forma de violentar o corpo), fazem eco das práticas físicas “dogmáticas” (algumas quase demiúrgicas...) do tempo pretérito, tendo pessoalmente defendido há uns anos atrás que alguns terapeutas “não convencionais” chegam a sofrer do que apelido de “Complexo de Jesus Cristo”... “complexo” que vai sendo justificado e legitimado com base numa suposta globalidade ‘bio-psico-social’ (ancorada num pretenso raciocínio clínico que perspectiva o ‘doente’ em desmérito da ‘doença’, relevando de elementos que descomprometem a perspectiva da “classificação da(s) doença(s)” e da categorização das terapêuticas, em favor de uma actuação terapêutica de índole fenomenológica e funcional, e portanto heurística, espontânea e criativa) que a ciência médica ortodoxa supostamente não possui...
Mas não nos iludamos! Mesmo na medicina canónica ou na fisioterapia convencional, existe um certo nível de acientificismo, agindo muitas vezes a tradição e até a autoridade enquanto fontes legitimadas de conhecimento... e de poder.
O estatuto epistemológico da medicina, da fisioterapia e de todas as práticas da “Salud” continuará, portanto, sempre a necessitar de uma necessária translocação de pragmáticas e metodologias pré-científicas em pragmáticas e metodologias adequadamente científicas... entendendo-se, claro, como ‘científicas’ aquelas que são racionalmente irmanáveis. Por outro lado, a sempre desejada visão holística do doente, necessária à afirmação de certas práticas de saúde em relação à mais “limitada” medicina ortodoxa, nem sempre se compatibiliza com a “medicina baseada na evidência”, por premiar as já referidas práticas que apelam ao “relativismo dogmático”. Estas são, numa certa perspectiva, a consequência lógica das práticas de carácter ideográfico, nas quais a preocupação pela ‘qualidade’ “desconstrói” a preocupação com a quantidade e a mensurabilidade.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A propósito de “Egas Moniz: Uma Biografia”

O primeiro livro do conhecido neurocirurgião João Lobo Antunes não constituído por um agregado de ensaios consiste nessa recente obra que tem permitido encher algumas manchetes de jornais e revistas, assim como tops de livrarias: “Egas Moniz: Uma Biografia” (Gradiva). Acerca desta muito pode ser dito, mas bastante mais poderá ser explorado segundo o ponto de vista dos possíveis conteúdos epistemológicos, se quisermos de algum modo aprofundar os temas que a obra concilia.
Deixemos bem claro... Enquanto ensaísta, João Lobo Antunes é um escritor ímpar. Quem já leu os seus livros de ensaios “avulsos” sabe que, por vezes, o autor consegue algo que poucos alcançam e com que muitos matricialmente discordam: a conciliação de uma escrita de rigor (quase) científico com os elementos que a tornam mais bela que a melhor literatura. De resto, ninguém melhor que João Lobo Antunes para dar relevo à famosa frase de Álvaro de Campos: “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo” (frase que, aliás, marca a Carta que o mesmo autor escreve para “De Profundis, Valsa Lenta” de José Cardoso Pires, livro que também explora a alma e a literatura de uma condição neuropatológica). Também a tentação de romancear conteúdos que se querem rigorosos, científicos e desapaixonados existe em “Egas Moniz: Uma Biografia”, mas de forma alguma está presente nesta “Biografia” a mesma estética rítmica e serpenteante que marca alguns dos melhores ensaios de Lobo Antunes. A “Biografia” aparece com maior sobriedade e menor aprumo estetizante, vertida aliás numa linguagem singela, extraordinariamente simples e directiva – como, de resto, deve ser, evidentemente, a de uma biografia, que se pretende objectiva (apesar de a biografia ser um género “literário” especialmente tocado por um certo teor “construtivista” do historiador) –, mas não menos aliciante e ambiciosa, e de leitura consequentemente voraz e contagiante. De resto, a “Biografia” é nada menos do que uma obra que roça o perfeccionismo, de conteúdos cirurgicamente dissecados e alojados, numa ordem que expressa uma visão perspicaz e não cem por cento desinteressada.
A “Biografia” marca, de forma paralela e não cronologicamente linear, importantes elementos referentes a diferentes papéis preconizados por Egas Moniz. São de especial realce os aspectos referentes a Egas enquanto “político” e a Egas enquanto “clínico”. A mim interessou-me especialmente toda a pormenorização daquilo que podemos irmanar como a “história da medicina” da primeira metade do século XX. Desde os detalhes acerca da excepcional exigência do curso da Universidade de Coimbra (capaz de fazer envergonhar o mais exigente dos cursos actuais) até ao vislumbrar de uma curiosa matriz de médicos que actualmente conhecemos como nomes de hospitais ou de ruas, a descrição das interligações entre os clínicos aparece durante a quase totalidade da obra, principalmente quando se entrevêem todos os aspectos “sociais” que se movem enquanto tecido sustentador das duas grandes “descobertas” de Egas: a angiografia cerebral e a leucotomia pré-frontal.
Pois, na realidade, muito mais do que duas grandes descobertas (Lobo Antunes prefere o termo “invenções”) obtidas a partir de uma actividade científica necessariamente “ingénua” e “objectiva”, aquelas duas criações do corpus científico de Egas levantam uma série de questões, tanto éticas quanto epistemológicas, que tornam a tarefa “historiográfica” de Lobo Antunes necessariamente injusta. O que quero dizer é que, à semelhança do que já tenho defendido/discutido nestas páginas (relativo à importância da diferenciação entre ciência enquanto realidade racional “descoberta” pelo Homem versus ciência enquanto criação do cientista, pessoa necessariamente provida de expectativas e preconceitos), e um pouco de acordo com o modelo epistemológico kuhniano (que diz que a “Verdade” só faz sentido no interior de um ‘paradigma’ determinado), a tarefa de ‘descoberta’ científica nunca é plenamente racional, sendo, de certo modo, redutível a toda uma sociologia histórica, coisa que figura de forma clara nesta “Biografia” (de resto, é óbvio que a própria ciência histórica, à semelhança das diversas “ciências sociais e humanas”, se sente mais confortável no domínio da “lógica relativista dos paradigmas”). Pois acaso Egas teria tido todo o sucesso que teve na divulgação das suas “invenções” se não possuísse uma relação favorecida com os políticos e a Imprensa? Teria Egas conseguido a aceitação dos seus métodos se não existisse a relação privilegiada deste com a Comunidade médico-científica europeia? Teria Egas conseguido o prémio Nobel se não tivesse havido, por parte das diferentes Comunidades científicas (e políticas), portuguesa e europeia, a defesa obstinada de uma “campanha”, de um “lóbi” referente aos seus feitos?...
Não deixa claro todo este esforço desmistificador e desconstrucional de se exaurir numa excrescência que não tira o mérito a um homem que, ainda assim, contribuiu para o crescimento daquilo que, mais tarde, viria a ser mais conhecido por “neuropsicologia cognitiva” (potencialmente definível como a ciência da “materialização da alma”). E nem mesmo o facto de sabermos que Egas era arrivista e sempre desejou a glória pessoal provoca o desmérito de um homem que tanto contribuiu, à semelhança da “fina-flor” médica portuguesa daquela época, para marcar o lugar do nosso país na cena investigacional além-portas. E nem mesmo a tentação de alguns de abjurar o criador de uma técnica de exame que viria a causar a morte por cancro a tantas pessoas (angiografia cerebral) poderá desvirtuar a importância de um dos criadores de uma investigação que, nas suas inovações recentes, poderá ajudar a dar respostas às questões epistémicas mais preliminares. E, terminando, nem mesmo a tentativa recente para “tirar o Nobel” ao pai da psicocirurgia, por ter aberto as portas a uma prática que hoje consideramos cruel e abusiva (e, acrescento que, ao contrário do que tantos críticos têm afirmado, não existe - a meu ver - necessariamente um esforço de reabilitação histórico-moral do biografado por parte de Lobo Antunes; antes existe um esforço de compreensão realista de que os padrões de Ética da época da “lobotomia cerebral” são necessariamente diferentes dos que vigoram no paradigma epocal actual), faz com que deixemos de ver o nosso tão olvidado Egas como uma das mais ínclitas e significativas personalidades da nossa história.

Publicado no Jornal 'As Artes Entre As Letras', 16/03/2011

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

A morte do Serviço Nacional de Saúde

Este texto foi publicado hoje como carta no jornal 'i'.
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Perante a actual crise do ‘Estado social’, há um certo lóbi neoliberal que advoga que esta está relacionada com a insustentabilidade matricial do ‘Estado-providência’, quando é apenas a má gestão do mesmo que leva à sua aparente incompatibilidade com o desenvolvimento económico. Eis que, recentemente, foram sugeridas e têm sido obviadas medidas que vão levar a que um Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito passe a ser pago e de forma bastante cara, poupança aparente que só levará à pobreza dos cidadãos e ao desinvestimento no país (mas, claro, permitirá o enriquecimento de outros, como os sistemas de seguros e dos subsistemas privados).
Enquanto fisioterapeuta que sou, e trabalhando com doentes que fazem Fisioterapia pelo SNS, vejo que, ano após ano, os meus doentes vão trazendo cada vez menos ‘credenciais’, ficando estes com menos tratamentos e eu com menos doentes e o emprego em risco. A solução tem passado pela ‘racionalização dos recursos’, com as clínicas que por aí abundam a tratar mais doentes por hora com recurso a ‘terapeutas’ sem qualidade, pagos a recibos verdes a cinco euros à hora. Se as pessoas soubessem que a verdadeira Fisioterapia, bem aplicada, necessariamente qualificada, por especializada e individualizada, levaria a melhorias dos doentes mais rápidas e perduráveis!...
Sempre achei que o próprio Sistema não está bem gerido, por, por exemplo, serem realizados demasiados exames complementares para chegar às mesmas conclusões que podem ser obtidas com um mero exame clínico. São também inúmeros os profissionais mal racionalizados, sendo que há demasiados clínicos dedicados aos papeis e às burocracias. Para além disso, o fraco investimento nos cuidados de saúde primários e continuados, os quais permitiriam a poupança de dinheiro nos cuidados hospitalares, é bem demonstrativo do que se continua a fazer: má gestão e falta de estratégia a longo prazo, que é, apesar de menos ‘eleitoralista’, bastante mais eficaz, por económica e eticamente sustentável.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

O corpo e o poder

A história da medicina é também a história de um corpo comummente aprisionado, tratado como um objecto maquinal, desiderato de intenções falazmente racionalistas, prenhas de uma perspectiva biomecânica elevada ao facciosismo. Os médicos de Molière não são específicos da época do cómico francês; são, na realidade, a essência da medicina até que esta, em finais do século XIX, se prende à aura de uma cientificidade aparentemente desmistificadora. Mas mesmo no século XX e parcialmente no actual, existe uma certa medicina paternalista, cometida frequentemente com aquela mistificação própria de uma ciência que se pretende superior e dogmática, e que, munida de um espírito de controlo, denuncia um conjunto de relações de poder.
Essa prática algo “mística” está associada, na realidade, já menos à medicina ortodoxa (apesar de certos médicos continuarem a insistir no facto de os seus doentes serem seu objecto de pertença), mas mais ao conjunto do que podemos denominar de “terapias”. Em particular, as terapias não complementares e até certas psicoterapias são praticadas com recurso à mistificação compulsiva e ao paternalismo intolerável.
Não é por acaso que Michel Foucault, o filósofo de um pós-modernismo contemporâneo emergente, adveio de uma formação psicoterapêutica, e escreveu obras como “A história da loucura na idade clássica” (1961), “A história da sexualidade” (1976 e 1984) e “O poder psiquiátrico” (relativo a 1973-1974), nas quais concebe a história do corpo e da patologia enquanto conjunto de artefactos, modelados não por um quadro específico de valores relativamente estanques e invariantes (subjacente a uma racionalidade que se pretende critério de objectividade), mas por um quadro de “valores” e práticas assaz cambiantes dos diferentes contextos. O filósofo utilizou sobretudo a experiência da psicanálise e a de uma certa psiquiatria como exemplos da forma como, nas relações entre terapeutas e doentes, nas diversas épocas históricas em vigência, está em jogo sobretudo um conjunto de relações que expressam domínio.
Essas “relações de poder”, presentemente, não são apanágio só da luta que estabelecemos pelo nosso direito a um medicamento mais eficaz ou mais barato, ou de um certo conflito existente no processo de consulta médica (para citar alguns exemplos triviais). Essas “relações de poder” põem em jogo a questão subjacente à autonomia do paciente (princípio fundamental da bioética emergente), assim como a própria dinâmica dos modelos de saúde-doença que são atendidos e preconizados na relação profissionais-utentes.
Os terapeutas gostam de dizer que, ao contrário dos médicos, são utilizadores de um modelo de saúde bio-psico-social, mais respeitador da totalidade ética do doente. Mas esta “ética do doente” pode ser bastante enganadora. Veja-se o exemplo dos psicanalistas. Com base num método de trabalho acientífico (porque não falsificável), certos psicanalistas agem como xamãs, interpretando uma sintomatologia (de forma que, muitas vezes, faz mais sentido para o analista do que para o analisando), fazendo muitas vezes juízos de valor relativamente às escolhas e expectativas do doente e, o que é mais grave, interferindo muitas vezes em certos aspectos da vida futura do analisando.
Claro que as relações de poder a que me refiro complicam-se com a questão dos modelos de práticas e das dissemelhantes “epistemis” (Foucault) que enformam o acto avaliativo/interventivo em saúde, não sendo de desprezar a confusão e desorientação do doente perante o acerbo de opiniões divergentes, por parte de profissionais que se munem de diferentes paradigmas de análise, mesmo dentro da mesma especialização teorética. Veja-se o caso de um analisando que visita posteriormente um psicoterapeuta de orientação cognitivo-comportamental ou o caso modelar de um diagnóstico que varia segundo os diferentes médicos da mesma especialidade. No mundo da Fisioterapia temos diferentes exemplos: a diferenciação entre terapeutas “globais” e terapeutas “convencionais”, terapeutas manuais ou reeducadores posturais, terapeutas de neurologia ou terapeutas de ortopedia, mézièristas ou RPGistas, etc.
No meio de tudo isto, somente a educação, a busca activa de informação e a consciencialização para a complexidade das práticas de saúde e dos diferentes paradigmas orientadores da acção clínica poderão ajudar o doente na manutenção da sua autonomia. Por outro lado, a existência de métodos terapêuticos cuja cientificidade não é tradicional, mas podem ser vistos enquanto “Verdade” adstrita a uma ciência pós-moderna, poderá levar, mais uma vez, à desorientação do doente, pela proximidade entre o logro e a verdade. Mas aí a nossa discussão volta, no seio de uma certa circularidade, à temática inicial da mistificação. Em termos práticos, a experiência demonstra que, por vezes, é muito difícil perceber onde está a verdade; aliás, os pacientes que procuram uma solução para os seus problemas só costumam parar a sua busca quando o paradigma do terapeuta se entrosa ou compatibiliza com o paradigma do doente e/ou patologia. De resto, fica a esperança de que o próprio terapeuta, mesmo que afecto a um paradigma específico, seja capaz de vencer a tentação do facciosismo e até mesmo de um potencial fanatismo, de modo a poder encaminhar objectivamente o doente para os caminhos apropriados, mesmo que estes contrariem a orientação do decisor clínico...

Publicado no jornal 'As Artes Entre As Letras', dia 12/01/2011

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Ciência(s) da educação e o objecto do conhecimento

O domínio conteudístico actual da comunicação mediática, aquela que tem sempre um impacto assaz peculiar na opinião pública, tem sido o do “economês”. Mas, em tempos em que a temática da crise económica não estava tão inflacionada, era o “eduquês” que parecia dominar as discussões dos sábios que propalam a “salvação intelectual” nos programas de debate do horário nobre televisivo. Sabemos que este termo tem sido utilizado com um certo intuito pejorativo, e isto acontece porque a visão peculiar da temática educacional parece ser tão idiossincrática e singular quanto é igualmente a discussão, sempre polémica, da existência de uma ou várias ciências da educação.
Tendo sempre sentido um forte chamamento para a tarefa do ensino (mesmo assumindo que essa acarreta uma certa pretensão de moldagem tirana das consciências do “bom selvagem” à maneira de Rousseau, face às pretensões de um Sistema valorativo politicamente determinado...), foi sempre grande o meu cepticismo acerca da possibilidade de “ensinar a ensinar”, pois sempre senti que um talento natural não pode ser criado artificialmente. Daí que tenha sempre esculpido um olhar desconfiado sobre a “pedagogia” dos peritos do ensino, assim como achei sempre perdulária a discussão daquilo que se pode designar como o “fundamento epistemológico da pedagogia”.
Este último respeita ao carácter mais ou menos científico de uma suposta “ciência pedagógica” que alguns ainda não reconhecem como ente autonómico, sendo que, ao invés de nos acercarmos de uma “ciência da educação”, muitos autores preferem falar de um conjunto de ciências que arquitectam o pensar da Pedagogia. Mialaret, em “As ciências da educação” (1980), organiza as referidas em três conjuntos: 1. Ciências que estudam as condições gerais e locais da instituição escolar (História da educação, Sociologia escolar, Demografia escolar, Economia da educação, Educação comparada); 2. Ciências que estudam a relação pedagógica e o próprio acto educativo (Ciências que estudam as condições imediatas do acto educativo: Fisiologia da educação, Psicologia da educação, Psicossociologia dos pequenos grupos, Ciências da comunicação; Ciências da didáctica das diferentes disciplinas; Ciências dos métodos e técnicas; Ciências da avaliação); e 3. Ciências da reflexão e da evolução (Filosofia da educação e Planificação da educação e teoria dos modelos).
A falta de “estatuto científico” relativo à tarefa dos pedagogos é também, em certa medida, intensificada pela dificuldade que há em objectivar os resultados do ensino e o objecto de aprendizagem. E, como bem sabemos, os números nem sempre reflectem a realidade real. E esta pode ser percepcionada de muitas maneiras...
Penso que há dois fenómenos paralelos que estão a ocorrer no mundo da Educação, sendo que pretendo assumir o risco de acreditar que existe um correlato entre ambos. O primeiro fenómeno diz respeito às novas atitudes pedagógicas, bem visíveis nos diversos graus de ensino, secundário incluído. Estas revelam a preferência pelo “ensino global”, as quais premeiam obstinadamente as novas teorias da educação humanistas e existencialistas, focadas num ensino em que a psicologização e a pedagogização superam a necessidade de aumentar o próprio objecto do conhecimento. É verdade que este tipo de ensino é mais ético, menos intrusivo e mais respeitante da própria etimologia da palavra “educar”, mas também é verdade que ele tem acarretado a infantilização do próprio saber. Se a “educação emocional” é essencial, também é verdade que a escola não pode desvirtuar o objecto dos saberes científicos e literários em nome de uma tarefa que deveria pertencer ao domínio preferencial da família. O segundo fenómeno diz respeito ao facto notório da estupidificação compulsiva das novas massas de educandos. Pois é bem sabido que, a par da diminuição da exigência do ensino, os jovens sabem cada vez menos e são cada vez mais acríticos e nescientes.
A polémica relativa às aulas de Português no básico e secundário expressa bem a infantilização a que me refiro lá em cima. É certo que, segundo uma certa “ciência pedagógica”, parece ser mais eficaz a aprendizagem da língua por meio das leituras de jornais do que por meio da leitura de Camões, Camilo ou do Eça, mas também é certo que desvirtuando a leitura dos clássicos é toda uma cultura e todo um mundo de conhecimento e arte que tendem para a desaparição. É preciso saber escrever, mas também é preciso contactar com o verdadeiro objecto do saber, o qual não pode deixar de ser classicista, defendendo eu que este exercício acabará por ter resultados finais mais expressivos em termos do saber, mesmo que erroneamente expressos em números.
E o que mais assusta é que esta mesma cultura da ignomínia e do facilitismo, magnificamente parodiada pelo “Novas Oportunidades”, já perpassou também para o mundo das Universidades. Nestas, o “eduquês” também já faz vítimas, e as práticas de ensino infantilizado, tão bem exemplificadas pelo recurso aos slides coloridos e aos efeitos de circo do PowerPoint, associadas à epidemia das sebentas e dos resumos, contribuem para desvitalizar o próprio objecto do conhecimento “universal”.
Não quero de forma alguma atirar pedras aos pedagogos, educólogos e psicólogos, mas há dias em que o antigo ensino tradicional e magistrocêntrico, reforçado pelas visitas às bibliotecas poeirentas e enformado pelo exercício de um conhecimento puro e absoluto dos antigos mestres, provoca uma certa “eterna” saudade.

O fim da economia e o primeiro homem

No último texto que aqui publiquei, criei uma associação, que de qualquer modo não deixa margem para grandes dúvidas, entre a ciência económica e o neoliberalismo. Mesmo sem ser grande apoiante do capitalismo liberal, reconheço que a ciência de Adam Smith, David Ricardo ou Thomas Malthus se revê com precisão verdadeiramente falsificável (e verosimilhança de metodologia) no neoliberalismo da escola de Chicago; o mesmo que, segundo o autor de “O caminho para a servidão” (Hayek, 1944), esboça o verdadeiro caminho para a democracia. É, de resto, maioritariamente aceite, segundo uma certa ciência clássica e utilitarista, que a ciência económica consubstancia o caminho necessário da teoria política, visão tornada flagrantemente reiterada por tudo e por todos, principalmente desde que uma certa eloquência anticomunista considerou o socialismo morto com a queda da União Soviética nos anos 80 do século passado.
É certo que o socialismo tem mais a ver com política do que com economia. E também é certo que, mais do que um caminho que pretende o desenvolvimento económico-financeiro, o socialismo tem sobretudo a aspiração a uma forma de Bem que poucos compreendem. De certo modo, o socialismo tem pouco a ver com ciência económica, mas é precisamente aí que reside o grande erro atitudinal relativamente à teoria socialista: é que, apesar do trabalho de Marx, principalmente em “O Capital”, incluir uma poderosa análise económica, segundo (como sabemos) os padrões hegelianos do materialismo histórico, o socialismo é mais uma teoria da consciencialização histórica e da revolução do bem-estar global do que uma teoria que se pretende científica. Claro que o próprio Marx pretendia que o socialismo era “científico”, mas, segundo o que já temos dito aqui sobre a temática epistemológica, e à visão de uma filosofia contemporânea do pragmatismo, o socialismo só poderá ser considerado científico se enquadrado na dimensão de uma ciência “pós-moderna”.
Um pouco mais próximo de uma visão científica tradicional, mas sem possuir o mesmo grau de rigor metodológico que o neoliberalismo, o capitalismo keynesiano enquadra-se numa espécie de meio-termo entre o Socialismo e o Capitalismo (daí a relevância do termo “economia mista”, cujas “diatribes” históricas são analisadas por Paul Mattick na obra “Marx and Keynes”, 1955). Mas desenganem-se os socialistas, pois Keynes era um conservador e era um verdadeiro capitalista. O seu “socialismo” não deixa de ser um “socialismo de mercado”. Aliás, como pode ser lido nas obras de Tony Judt (principalmente no recente “Tratado sobre os nossos actuais descontentamentos”, 2010, Edições 70), o próprio conceito de Estado-providência foi criado por conservadores. E diga-se em boa verdade que tanto o keynesianismo como a teoria da “social-democracia” (que, como sabemos, propugna a importância do Estado-providência) surgem historicamente ligados a uma reacção às crises provocadas pela banca e pelos excessos dos grandes grupos económicos afectos ao neoliberalismo mais radical.
Sabemos que a crise actual tem propiciado reacções de todos os tipos. Os neoliberais dizem que o mercado tem capacidade de auto-regulação. Os comunistas dizem que afinal a utopia socialista nunca esteve tão perto. E os proponentes da social-democracia continuam a achar que a crise actual não é uma crise do Estado-providência. (E, na verdade, a meu ver, não é mesmo uma crise do Estado-providência, pois o défice - e a falta de recursos - advém mais dos excessos de Governos incompetentes e corruptos do que propriamente da própria “falência” do Estado-providência, requerendo-se, portanto, uma maior competência na gestão e na liderança, incluindo a consumação de um Orçamento que não seja feito ao jeito dos grandes interesses económicos).
Falemos do socialismo radical ou do socialismo de mercado, contrariando um certo tipo de desenvolvimento económico-financeiro radicado na teoria do “livre-arbítrio” e numa certa propensão de animalidade egotista e competitiva, a esquerda continua a ser o único lado que consubstancia o ser humano como falível e objecto de um certo determinismo epigenético e sócio-cultural (é aqui que reside o erro da “meritocracia” neoliberal, pois esta esquece que as capacidades de cada um reproduzem as desigualdades sociais previamente existentes; de certo modo o neoliberalismo pressupõe a perpetuação das mesmas desigualdades que enformam a sociedade de classes).
Mesmo não constituindo uma ciência no sentido tradicional, e estando mais próximo da teoria política do que da ciência económica propriamente dita (subentendendo uma “epistemis-processos” a destronar uma “epistemis-produto”), o advento do socialismo é determinante no sentido ético e humanístico, detendo como mensagem principal que “os meios são mais importantes que os fins”. Se isto dá ao socialismo o estatuto de uma “sociologia pós-moderna” (passe-se o potencial pleonasmo!...) pouco rigorosa e muito criticável, então prefiro correr o risco de me aglutinar com a realidade real, dando a primazia ao ser humano na sua globalidade psicossocial e trans-histórica.

sábado, outubro 23, 2010

"Mézières’ method and muscular chains’ theory: from postural re-education’s physiotherapy to anti-fitness concept"

Um novo artigo foi publicado na Acta Reumatológica Portuguesa. Desta vez em inglês...para facilitar a "internacionalização" do conceito de Reeducação Postural. E escrevo isto aqui na Terceira, Açores, a caminho do último dia do I Congresso Internacional de Desporto e Actividade Física de Angra do Heroísmo. A cidade é maravilhosa, assim como têm sido dias interessantes, incluindo a amizade e sapiência do Prof. Paulo Araújo e do seu PNF-Chi.
Mas, entretanto, deixo-vos com o link do artigo intitulado "Mézières’ method and muscular chains’ theory: from postural re-education’s physiotherapy to anti-fitness concept": http://www.spreumatologia.pt/sites/spreumatologia.pt/files/publications/articles/27._LE_-_Mezieres_ARP2010.78LE.pdf.

domingo, outubro 17, 2010

A doutrina económica enquanto ciência pós-moderna

Em tempos fiz, no espaço deste jornal, a defesa do neo-liberalismo enquanto modelo de salvação da crise portuguesa e, em geral, do Modelo Social Europeu. Estaria enformado pela ideia de um profissional de saúde que trata o enfermo segundo as manifestações clínicas presentes: em linguagem económica, servir-se-ia o keynesianismo a países fortemente neo-liberais (é o caso de Obama nos EUA) e servir-se-ia o neo-liberalismo a países fortemente keynesianos (como os países da Europa do sul). Daí “receitar” o neo-liberalismo a Portugal e à dormente função pública portuguesa. Também fiz a defesa de que esse mesmo modelo de Hayek é que constituiria a verdadeira ciência no sentido em que é entendido por Popper e muitos dos que preenchem os quadros académicos da London School of Economics. Mas, à semelhança daquilo que tenho feito nos diversos textos deste jornal – o esboçar do pretenso conflito entre uma ciência “exacta” propriamente dita e uma ciência “pós-moderna” por muitos entendida por pseudociência – pretendo dar agora a outra face da moeda.
Pois se é certo que a ciência económica propriamente dita parece mais de acordo com as análises doutrinárias “clássicas” do liberalismo iniciadas pelos fisiocratas e essencialmente por Adam Smith, o pai do capitalismo, e seus “associados” (como David Ricardo e Thomas Malthus), e com o contemporâneo neo-liberalismo, também é certo que essa mesma “ciência propriamente dita” só o é enquanto “método” ou “produto”, esbarrando contra a parede da Ética no momento de falarmos dos “processos” ou do “caminho”. A verdade é que não podemos simplesmente ignorar a realidade histórica e não podemos ignorar que a história das doutrinas económicas inclui reacções proteccionistas e intervencionistas do Estado, incluindo a teoria socialista, que é, em última análise, a mais determinante teoria económica que alguma vez se constituiu.
Sabemos que, tal como defendido por muitos liberais, o socialismo não é científico, não obstante a beleza da sua conteudística humanista. Mas também sabemos que a Verdade verdadeira e real pode, eventualmente, estar naquilo que uma medição científica não quantifica: a estética do “caminho” e a beatitude dos processos humanos envolvidos na teoria do socialismo.
Enquanto fisioterapeuta que sou, defensor da teoria mézièrista das Cadeias musculares e da Reeducação Postural, que acarreta implicações que contrariam a ciência fisioterapêutica partilhada por mais de 99% dos profissionais da área, sempre pensei que é possível que estas “maiorias científicas” da imprensa que advogam a morte do Socialismo e da utopia colectivista estivessem errados, porque potencialmente enfermos da doença da “ciência clássica”. Estando bem patente em mim a contradição de quem já muito defendeu Popper e o falsificacionismo de demarcação entre ciência e pós-ciência, e não deixando nunca de admirar e de admitir a pragmática positiva e utilitária da obra do autor de “A pobreza do historicismo”, não posso deixar de pensar que a Verdade real pode eventualmente estar na ciência dita historicista, pós-moderna e relativista, que é, na Economia, representada, no seu máximo expoente, pela visão marxista.
Sabendo que o socialismo não é feito só de Marx e Engels (sendo que há outros nomes importantes na história do socialismo como Saint-Simon, Robert Owen, Charles Fourier, Louis Blanc ou Proudhon), sabendo também que a obra de Marx tem sido mal interpretada, e admitindo que existe uma via mais contemporânea de socialismo que se denomina de “socialismo de mercado”, “social-democracia” ou “terceira via” (Anthony Giddens), não podemos deixar de ter em conta o humanismo de uma teoria que esboça a importância do ser humano enquanto verdadeiro “alvo” do capital.
É certo que esse humanismo esboça uma ética exigente que, para ser construída, fez (e faz) uso de muitos sistemas totalitários. É também certo que o socialismo parece ser considerado, pelas tais “maiorias científicas”, como morto, pelo menos desde a queda da “cortina de ferro”. Mas também é certo que, mesmo admitindo a falência do Modelo Social Europeu e a necessidade da criação de um novo modelo de gestão dos Estados Sociais (que nunca deverão perder este cunho), o advento do socialismo de mercado continua a parecer o mais aceitável, se é que queremos respeitar as verdadeiras características falibilistas do ser humano.
É que, ao preconizar o “cada um por si” e a premiação do mérito e das capacidades individuais de cada um, o neo-liberalismo esquece um facto importante: as desigualdades de mérito e capacidades reproduzem as desigualdades sociais; e estas são função de um certo determinismo genealógico e histórico-social. Mesmo a Educação universal e gratuita não pode produzir a igualdade social, pois as crianças levam para as escolas as culturas familiares e intelectuais de que são basilarmente vítimas. A educação e o insucesso escolar é vítima das desigualdades sociais, e o contrário é menos verdade.
Ora, mesmo assumindo que o socialismo radical produziu resultados medíocres ou mesmo antitéticos, não posso deixar de assumir que o “socialismo científico”, mesmo que de “científico” tenha pouco (e de pós-moderno tenha eventualmente muito), possui uma mensagem determinante para a humanidade: é que os meios continuam a ser mais importantes que os fins.

A propósito da crise e da ciência económica

Parece que já tudo foi dito sobre a crise e a situação económico-financeira desta nossa pobre nação. Todos vituperam e todos receitam soluções. E, não bastasse a Economia ser uma temática de tão complexos detalhes e inumeráveis explicações do tipo “ciclo vicioso”, também as ciências política e sociológica parecem com aquela ter inumeráveis ligações difíceis de descortinar. É pena que a teoria subjacente à “Intelligentsia económica” tenha estado a ser tão pouco aludida e tão descaradamente negligenciada pelos profissionais e intelectuais da área.
Há coisas do campo da epistemologia científica que importam ao reino da Economia. Importa, por exemplo, clarificar se a ciência económica é do tipo “exacta”, com uma capacidade mínima de previsão, ou se, à semelhança da História e de uma certa sociologia, é do tipo “social”, onde pode abundar o conjunto de imprecisões capazes, em última instância, de uma aproximação a um certo tipo de relativismo pós-moderno.
A julgar pelos diálogos entre os economistas a propósito da crise portuguesa e da crise internacional, mais parece que a ciência económica parece indissolúvel do “Caos” financeiro dos mercados. Este “relativismo” é visível até na forma como as “ideologias económicas” são defendidas. Por exemplo, com a crise internacional de 2008, houve, nesse mesmo ano, quem defendesse o keynesianismo como a solução para a crise do capitalismo anglo-saxónico. Os liberalistas, entretanto, defenderam-se com a “teoria dos ciclos económicos”. Com a resolução parcial da crise americana e o agravamento da crise europeia, parece que volta a haver uma defesa do neo-liberalismo e uma regressão defensiva das teorias de Keynes e dos “excessos” do Modelo Social Europeu...
A questão das ideologias remete-nos para o campo do dogmatismo e este para o terreno do relativismo e do acientificismo. Por exemplo, os teóricos da London School of Economics foram grandes críticos das “falsas” ideologias, perigosas por se confundirem com a ‘Verdade’ das ciências. Popper critica o ‘socialismo científico’ do marxismo e Hayek, o pai do neo-liberalismo, apresenta o “planeamento central” e a “estatização” como males basilares dos colectivismos ditatoriais, tanto o socialismo como o fascismo (este outra forma de “socialismo”...). Em particular o autor de “O caminho para a servidão”, em conjunto com outros liberais, como Milton Friedman, os quais viriam a ser conhecidos como a “escola de Chicago”, advoga como caminho para a democracia o mercado de livre iniciativa, a competitividade e a privatização. Este viria a ser até anunciado como a nova forma de democracia, pendente enquanto “fim da história” (Fukuyama), com a queda do socialismo enquanto sistema, em finais dos anos 80.
Ora, tendo necessariamente em conta certos critérios como princípios de “demarcação científico – não científico” (Popper), necessários à aproximação da Economia à categoria de verdadeira ciência (e ao afastamento relativamente às ideologias dogmáticas e pré-científicas) – sendo esta uma condição da edificação de fórmulas bem sucedidas de “bem estar económico” das civilizações e da diminuição do grau de “incerteza” relativista que permite a corrupção e a libertinagem de políticos mal intencionados –, é certo que a ciência económica propriamente dita parece mais próxima do pragmatismo neo-liberal do que do keynesianismo ou da ideologia socialista (ou mesmo do “socialismo de mercado” ou da “terceira via” de Anthony Giddens). Segundo Guy Sorman, mesmo fazendo uso de meios mais cruéis, os resultados do neo-liberalismo apontam este “capitalismo” de “mercado livre” como solução para a crise financeira e para a criação de um Estado mínimo (subjacente à ideia de que é impossível haver saúde, educação e segurança social acessíveis às classes sem haver riqueza).
Por mim, acredito que, em específico, certos luxos do Estado Social português, como as mordomias da Função Pública, não se coadunam com o Estado mínimo. Aliás, enquanto alguns ganham ordenados milionários e têm direito a subsídios de férias e de Natal, enquanto que outros não possuem quaisquer direitos, é impossível falar de igualdade e é impossível continuar a falar por muito mais tempo, por exemplo, de Educação gratuita ou da sustentação de um Serviço Nacional de Saúde.
Mesmo constituindo o pesadelo da “esquerda”, e admitindo a necessária mudança estrutural do paradigma cultural e psicanalítico de Portugal e do seu povo (o que inclui o aumento do espírito de combatividade e de autonomia e a perda do espírito do “coitadinho”, todos estes dependentes de uma evolução assaz prolongada na matriz da estrutura educacional e intelectual dos portugueses), acredito que só um conjunto de estratégias verdadeiramente neo-liberais (incluindo o ganho de vencimentos variáveis segundo a produtividade), desde que éticas e centradas na qualidade de vida da Pessoa (não queremos o capital pelo capital), pode salvar o nosso país e manter a mínima (porque “absoluta” é impossível) “igualdade de oportunidades”: educação obrigatória, saúde básica, qualidade de vida básica e segurança social tendencialmente gratuitas para os escalões economicamente mais baixos da sociedade classista portuguesa.

Publicado no jornal 'As Artes Entre As Letras', dia 15/12/2011

quarta-feira, outubro 13, 2010

A propósito da Fisioterapia em Portugal... para brasileiros

Tenho absoluta consciência de que, desde a sua criação, o meu blogue tem sido visitado sobretudo pela população brasileira. Não é difícil perceber porquê, visto que o blogue é sobre ‘Reeducação Postural’ e especificamente a ‘Reeducação Postural Global’ está (há muito tempo) inflacionada no Brasil enquanto tema dominante, e visto também o meu blogue ser “internacional”, por pertencer ao ‘Google’. Devo dizer que tenho, à custa das visitas dos colegas brasileiros, esboçado muitos conhecimentos, assim como tenho feito amigos e companheiros de ‘MSN’. E já no passado publiquei aqui um texto em que falava um pouco sobre o meu conceito de Fisioterapia no Brasil, o qual é bastante positivo; na realidade, a Fisioterapia no Brasil apresenta um nível de desenvolvimento científico, tecnológico, interdisciplinar, académico (incluindo a existência de ‘especializações’, as quais não existem em Portugal) e social muito superior ao de Portugal.
Tudo isto vem a propósito de uma questão que me é feita muitas vezes pelos fisioterapeutas brasileiros: a situação da profissão e da formação em Fisioterapia em Portugal. O objectivo – claro – é o de alguns dos colegas do “país irmão” visitarem Portugal e, eventualmente, trabalharem cá. Ora, pretendo, neste texto, responder precisamente aos colegas brasileiros que têm essa pretensão...
Na realidade, nada me dá mais prazer do que receber colegas de profissão aqui no nosso pais. Mas, não querendo de forma alguma ter quaisquer segundas intenções ou frustrar a vinda dos colegas, devo desde já dizer que, a cada segundo que passa, merece cada vez menos a pena visitar Portugal.
Há uns anos atrás, arranjar emprego em Fisioterapia em Portugal era relativamente fácil, mas, precisamente porque havia grande oferta de empregos, e também devido à falta de legislação associada a múltiplos corporativismos, o número de escolas de Fisioterapia passou de quatro ou cinco para 17. Ora, isto fez com que, em poucos anos, o número de fisioterapeutas aumentasse exponencialmente. Temos, efectivamente, no tempo presente, fisioterapeutas a mais para as necessidades actuais do mercado português (e este evolui à velocidade da tartaruga...). E, acrescentando a isso a emergente crise económica do nosso país e a consequente desvalorização monetária e social da Fisioterapia (e das suas tabelas financeiras), a profissão é cada vez mais mal paga. Para além disso, a situação da maioria dos fisioterapeutas portugueses é precária, com entradas para a Função Pública há muito congeladas.
Mas os males da Fisioterapia em Portugal não se ficam por aqui. Por exemplo, o curso de Fisioterapia ainda está ao nível do politécnico (apesar de já existirem muitos mestrados e doutoramentos universitários na área), sem especializações, e com um investimento conceptual e tecnológico pobre. Em tudo, ou quase tudo, a Fisioterapia brasileira está mais evoluída que a portuguesa, incluindo o facto de áreas como a ergonomia, a osteopatia e a quiroprática serem, como acredito que devem ser, especialidades da Fisioterapia no Brasil, enquanto que aqui são profissões autónomas, que advogam uma pretensa autonomia profissional e também teorética e metodológica. Posso acrescentar também que, aqui em Portugal, os cursos são crescentemente mal dirigidos (como todos os cursos de outras áreas), com recurso cada vez maior ao facilitismo, incluindo professores sem qualquer “obra académica”.
Poderia acrescentar que os fisioterapeutas portugueses são mal reconhecidos e mal representados socialmente na mente dos próprios portugueses, e que a profissão não possui Ordem ou qualquer tipo de influência política ou corporativa. Nos Hospitais, por exemplo, a Fisioterapia não costuma ter Serviço próprio, é apenas um Departamento integrado num Serviço de ‘Medicina Física e de Reabilitação’.
Ora, a realidade actual é precisamente a de que os fisioterapeutas são muitos e mal pagos, mal respeitados apesar de crescentemente sabedores e capacitados, e que o precário desenvolvimento económico do país não promete o crescimento do mercado e a mudança de mentalidades.
Por outro lado, na minha visão, a Fisioterapia no Brasil possui mais respeitabilidade, mais áreas de intervenção, mais coerência académica e disciplinar, e até mais suporte tecnológico e político-administrativo. É verdade que, à semelhança de Portugal, os fisioterapeutas brasileiros são muitos e que o mercado não absorve todos os que existem, existindo um desemprego pandémico entre os fisioterapeutas brasileiros. Mas essa mesma situação já está praticamente igualada em Portugal (ou para lá rapidamente caminha), com muitos fisioterapeutas portugueses a escolherem emigrar para a França, a Itália, a Suíça ou o Luxemburgo, locais onde as coisas correm aparentemente melhor.
É certo que o Brasil possui um mercado muito esgotado. Mas também é certo que, apesar de muitos brasileiros não o sentirem, a economia brasileira está a expandir-se de tal modo que é provável que a situação no Brasil venha a mudar muito nos próximos anos. Já a crise económica portuguesa não tem perspectivas de melhoras (actualmente até vivemos numa aproximação “virtual” à bancarrota e à implosão dos mercados financeiros nacionais e internacionais), e, portanto, a ideia de que “o mercado é que tem de mudar” não passa disso mesmo...de uma ideia.
Por tudo o que deixo dito, devo então concluir que, apesar de serem – pelo menos por mim – bem vindos a Portugal, é possível que alguns dos fisioterapeutas brasileiros não consigam ter sucesso neste nosso país em crise estrutural profunda. É sempre bom conhecer um país do velho Continente, até porque Portugal tem um lindo património histórico-cultural, mas as perspectivas de encontrar emprego ou boas formações em Portugal é pequena. E a perspectiva de se fazer uma pós-graduação em Portugal parece ‘positiva’, mas não me consigo lembrar de nenhuma área de intervenção da Fisioterapia portuguesa em que os brasileiros não estejam mais desenvolvidos; penso que a diferença poderá residir na própria ‘Reeducação Postural’, com métodos como a base do “Método Mézières” a terem formação em Portugal e sem formação no Brasil.
Por tudo o que fica dito, não posso, no entanto, deixar de desejar ‘Boa sorte’ a quem vem (e também a quem “lá” fica) e ainda mais a quem resolver visitar outros países europeus. Da minha parte, manter-se-ão sempre o apoio e as informações.

(Entretanto, outros aspectos sobre a Fisioterapia portuguesa estão incluídos no meu "Manifesto sobre a emergência de uma fisioterapia pós-moderna", consultável aqui no blog ou em  http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blogs/manifesto-sobre-a-emerg-ncia-de-uma-fisioterapia-p-s-moderna?xg_source=msg_appr_blogpost, texto incluído no meu último livro, «A Clínica do Sagrado (...)»: http://reeducacaopostural.blogspot.pt/2014/02/a-clinica-do-sagrado.html) 

quarta-feira, outubro 06, 2010

Novo artigo "Os efeitos da 'Reeducação Postural Global': uma revisão sistemática da literatura"

O meu novo artigo, intitulado "Os efeitos da 'Reeducação Postural Global': uma revisão sistemática da literatura", encontra-se publicado no nº IV do TDTonline. Pode ser consultado em http://www.tdtonline.org/articles.php?id=magazine&mode=view_news#visualizacao. Espero que este artigo seja o primeiro de muitos mais estudos originais e meta-análises que se façam em redor da temática da Reeducação Postural, pois, neste mundo "reeducativo" ainda faltam os estudos transversais de qualidade (e as revisões sistemáticas respeitantes aos mesmos) que ajudem a defender a Reeducação Postural como método legítimo de intervenção, centrado em "Evidenced Based Practice". 

sábado, setembro 18, 2010

Congresso Internacional de Desporto e Actividade Física de Angra do Heroísmo

De 21 a 23 de Outubro irá decorrer o I Congresso Internacional de Desporto e Actividade Física de Angra do Heroísmo, com presença de vários oradores, incluindo eu próprio e o icónico Prof. Paulo Araújo.
Prevê-se que a minha conferência se intitulará "Reeducação Postural e a teoria das Cadeias Musculares: Implicações para a prática desportiva" e se irá realizar dia 21. No dia 23 será a vez de se realizar um workshop intitulado "Reeducação Postural e Cadeias Musculares: fundamentos". Estes dados ainda são novos e vão ter mais desenvolvimentos.
As primeiras informações sobre o Congresso e o alojamento poderão ser encontradas no site http://www.cidafah.com/, sendo que há ainda vagas para a participação (as datas limite de inscrição foram adiadas).

sábado, agosto 21, 2010

O mau jornalismo

A frase “A culpa é da comunicação social” aparece no artigo assinado por Henrique Monteiro no Expresso de 14/08/10. Com minha grande satisfação, Henrique Monteiro admite no seu texto que existe aquilo que podemos designar de um ‘mau jornalismo’. E não é precisamente esse mesmo ‘mau jornalismo’ que tem constituído o bode expiatório de tantos criminosos e governantes?... Não é precisamente também o ‘mau jornalismo’ que tem sido catapultado pelos governos como justificação para a censura ou simplesmente o ‘controlo prévio’ de informação?...
Penso que a temática tem sido pouco desenvolvida entre os leitores dos jornais e, principalmente, entre os próprios jornalistas. É que, a meu ver, o jornalismo é e será sempre a ‘pedra filosofal’ que permitirá o verdadeiro alcance da verdade, tanto em termos epistemológicos, como em termos pragmaticamente políticos e sociológicos. O jornalismo é verdadeiramente o instrumento das autênticas democracias e de uma certa justiça com verdadeiro sentido de ser. E, não tenho dúvidas, de que os jornalistas de hoje são os historiadores do amanhã.
Infelizmente, ou porque falta um verdadeiro sentido de ética, ou porque faltam critérios científicos de prática jornalística (não obstante a existência dos estatutos editoriais...), a grande maioria dos jornais, tanto da imprensa escrita como da televisão e outros media, pecam pelo absurdo, pela prática de um ‘jornalismo’ de sensações, caindo na armadilha da mentira, do exagero e, sobretudo, do desenquadramento lógico das notícias. Por exemplo, várias vezes tenho criticado o jornalismo por empolar um estudo polémico (portanto, mediático), ignorando centenas de outros estudos sérios que desmentem esse estudo isolado.
O jornalismo não pode ser espectáculo. O espectáculo não passa de entretenimento. O jornalismo não pode ser mero conjunto de ‘fait-divers’. O jornalismo não pode ser pura imagética ao serviço da lógica mercantilista. Mas, sendo-o na sua maioria, é necessário que os poucos jornais de qualidade ainda existentes continuem não só a expressar a sua qualidade, como deverão, mais do que têm feito, dar lugar à reflexão ética e voz objectiva e não censurada aos leitores e provedores do leitor. Defendo a criação e exposição dos critérios de prática do jornalismo do jornal em causa. Defendo também que os textos dos jornalistas e também dos leitores sejam sujeitos a critérios de qualidade que passem mais pela objectividade do que pela lógica editorial do jornal.

Publicado na Carta da Semana no Expresso de 21/08/10

sábado, julho 24, 2010

Mariano Gago e o realismo ingénuo

O artigo do Expresso de 17 de Junho de 2010 intitulado “Muitas vagas, pouco emprego” termina com a referência ao ministro Mariano Gago, relativa à necessidade – segundo o próprio – de termos dois milhões de licenciados em Portugal e relativo ao facto de que “quem completa uma formação superior tem mais facilidade em encontrar trabalho, fica menos tempo no desemprego e ganha bem mais do que quem tem habilitações inferiores”. Ora, tendo em conta a realidade com que todos os dias me deparo, questiono tanto a coerência quanto a lucidez mental de Mariano Gago.
Realmente é certo que os outros países europeus possuem 20% de licenciados, enquanto que nós nos mantemos pela metade dessa quota. Mas, também esses mesmos países possuem a capacidade para fomentar a criação de necessidades de mercado ao nível do número de licenciados. Ora, visto que o nosso país tem uma qualidade débil na criação de projectos e de novos postos de trabalho, e visto que o empreendedorismo é totalmente parco neste nosso país onde todos se encostam, perguntaria como é possível afirmar aquilo que Gago afirma. É que pouco interessa estar a formar licenciados ao nível dos outros países europeus, se as necessidades de mercado não acompanharem também a evolução económica desses mesmos outros países da Europa.
Tendo em conta que a evolução do mercado em Portugal se faz com uma lentidão sem paralelo, também a criação de vagas no ensino superior – assim como a criação de novos cursos – se deveria fazer com a mesma lentidão. Mas, na realidade, as vagas e os cursos criados, principalmente os do ensino privado, obedecem a uma lógica de corporativismo, sendo que os interesses existentes – em grande parte económicos – fazem com que os cursos estejam criados mais para os professores e as instituições do que para os alunos.
Falta rigor! Falta transparência! Falta imparcialidade na avaliação dos novos cursos! Falta, sobretudo, o realismo relativo aos milhares de licenciados no desemprego (lá vão fazendo os seus mestrados e doutoramentos, muitas vezes alimentando-se financeiramente à custa de bolsas atrás de bolsas) e relativo à recusa de emprego por “excesso de habilitações”. E falta termos um ministro que veja o país “real” que temos, e que não permaneça incompetentemente a falar de um “over the rainbow” que só o Governo consegue ver.

Publicado em "A carta da semana", no 'Expresso' de 24/07/2010

sexta-feira, julho 16, 2010

O mundo do wellness: indústria da alienação

Mais uma vez, o novo artigo que se apresenta também não possui grandes novidades para os seguidores do blog. Publico-o, por constituir um artigo publicado a 16/07/2010 no Jornal 'i'.
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Na inclusão das denominadas “indústrias do corpo”, o wellness adquiriu um lugar um tanto ou quanto privilegiado no seio do tecido social ocidental, levando a que um certo conceito de “saúde” ganhe contornos de verdadeira abrangência, infelizmente incluindo essa “indústria do bem-estar”, assaz “indústria cultural” (segundo a teoria dos filósofos da escola de Frankfurt), que se revela enquanto placebo psicológico e ilusório dos tempos modernos.
Esteticistas, massagistas e terapeutas proponentes de imensas “técnicas orientais” têm possibilitado a edificação de um conceito artificial de “saúde”, levando a que o termo perca o seu estatuto em prol de uma certa ideia de “prazer efémero”. E não são poucas as vezes que as pessoas, pobres para o Serviço Nacional de Saúde e as mais variadas terapêuticas do Sistema, demonstram possuir meios para realizarem as suas massagens relaxantes e/ou de emagrecimento (para além das incontáveis depilações, saunas, limpezas de pele, tratamentos anti-celulíticos, spas e outros “feitiços da mente”), assim como as massagens Tui-na ou ayurvédica, ou para receberem os seus toques de Shiatsu e de reflexologia (estas ditas de “massagens terapêuticas”...).
Uma citação de José Gil, da sua obra “Metamorfoses do corpo” resume a essência do epifenómeno “indústria do wellness”: «Assiste-se actualmente, depois do esforço psicanalítico, a uma verdadeira invasão do culto do corpo. Pretende-se fazer falar o corpo, descobre-se a propósito de tudo e de nada “um discurso do corpo”, pretende-se que ele se liberte ou se exprima. Como se o objectivo fosse, neste momento, descobrir uma língua do corpo à qual se subordinaria qualquer terapia ou outra forma de linguagem: artística, literária, teatral ou simplesmente comunitária. Muito estranhamente, na mesma altura em que esta voga testemunha uma sensibilização crescente pelos problemas do corpo tendente a afirmar a sua importância nos mais diversos domínios, retomam-se velhas ideias, velhos esquemas (...): este tornou-se o significante despótico que resolverá tudo, desde o declínio da cultura ocidental até aos menores conflitos intra-individuais. (...) Que corpo é este, em volta do qual se agitam estas terapias? Uma análise superficial revelaria neste campo uma maneira de fazer violência aos corpos – tomando, às vezes, as formas mais nuas de cinismo mercantil.»
O corpo, que deveria ser respeitado enquanto “ente”, segundo o mais complexificado sistema de pensamento fenomenológico-existencialista, vê-se crescentemente desvirtuado; ora é comummente substituído pela quimera da televisão ou da Internet, ora é enganadoramente “vivido”, numa crescente busca da abstracção do mundo concreto que não quer ser verdadeiramente vivido ou experienciado. Resta o adiamento da vivência perceptivo-motora, um dia tornada real por esse esforço diário que alguns profissionais de saúde e “motricidade” arvoram contra o fenómeno da descorporização.

sexta-feira, julho 09, 2010

O mundo do fitness: a grande ilusão

Nota: Este artigo não apresenta grandes novidades para quem segue o blog há algum tempo, mas, visto que foi publicado no Jornal 'i' de 09/07/2010, aqui o apresento, até porque inclui certos melhoramentos conteudísticos.
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É bem sabido, por entre os périplos de um certo “zelo epistemológico”, que nem sempre o que é evidente é real, ou que a verdade é sinónimo de uma certa pretensão (utilitarista) das maiorias. A “questão do fitness”, como lhe poderia chamar, é o exemplo rematado de um fenómeno daqueles em que poucos vêem que o rei vai nu. Pois, se é certo que, a curto prazo, as práticas de fitness são compatíveis com um certo conceito de saúde, a realidade a longo termo demonstra que nem sempre esta “nova medicina” se consubstancia com a verdadeira saúde global.
É certo que, num ponto de vista funcional, estudos com metodologias “transversais” têm demonstrado os benefícios da prática desportiva a curto prazo. Mas também é certo que o conceito de saúde é bastante mais global que aquilo que é preconizado pela maioria dos educadores físicos. Aliás, mesmo a Fisioterapia clássica parece estar toda ela vocacionada para esse curto prazo, adequada e cientificamente “evidenciado”... Mas, como a realidade científica pura e dura acaba por ter mais a ver com a Física dos postulados do que com esses referidos estudos “médicos”, importante será dizer que não deixa a ciência “exacta” de estar mais próxima da verdade de um corpo que, pelas suas leis posturais de controlo anti-gravítico e pelas hegemonias neuromusculares com estas relacionadas, progride no verdadeiro conceito de saúde holística pelo trabalho das actividades físicas de baixo impacto (a eficácia, por exemplo, do Pilates e do Tai-chi assim o comprovam) e, essencialmente, pelo alongamento global segundo os preceitos da teoria das Cadeias musculares.
Eis que a teoria de Françoise Mézières, uma fisioterapeuta francesa que em 1947 viria a conceber uma “révolution en gymnastique orthopédique”, possui implicações únicas na forma de compreender a patologia neuro-músculo-esquelética (sendo que a patologia “especificamente” postural existe, na prática, em todos nós que somos “saudáveis”...), assim como na forma como podemos conceber a prática física, seja no sentido médico, fisioterapêutico ou desportivo.
E, a acreditar nessa “revolução”, as actividades físicas desses ginásios que cultivam a “indústria do corpo” apresentam-se, deveras, como um verdadeiro atentado àquilo que é a real saúde “neuro-mio-fascial”. Em particular, esses ginásios que fazem uso de poderosas e maquiavélicas indústrias de marketing contribuem para reduzir o conceito de saúde músculo-esquelética à mera performance, quando seria mais correcto conceber essa mesma “saúde” enquanto “morfologia” ou “postura”, segundo os preceitos de um longo prazo “psico-neuro-morfo-dinâmico”, tal como concebido pelos fisioterapeutas de reeducação postural.
Não deixemos, todavia, de praticar desporto!... Mas tenhamos em conta que as actividades como as centradas no relaxamento tónico e flexibilidade miofascial, posturalmente “não viciadas”, não só são mais benéficas para a saúde, como são uma forma de imputar essa propensão quimérica de uma certa “indústria cultural” (Theodor Adorno).

terça-feira, julho 06, 2010

O corpo e o pós-modernismo: Michel Foucault

Os profissionais de saúde, nos raros momentos em que discutem os modelos de saúde e doença, e dos paradigmas de intervenção médica versus bio-psico-social (por que se regem), nem se apercebem de que estão, na realidade, a perpassar pelo seio mais íntimo de uma certa tradição filosófica denominada pós-modernismo; nomeadamente, falamos da tradição desse controverso filósofo que foi Michel Foucault (1926-1984).
Pois é certo que, ao longo de anos, o modelo de intervenção médica foi denunciando um conjunto de práticas, ora pré-científicas, ora científicas, que abjuravam o domínio do doente relativamente à sua própria máquina carnal e biomecânica... E foi Foucault quem contribuiu para o estudo dessa redução do “concreto” ao “histórico” e ao “social”...
Continuando, ainda actualmente, na mesma sociedade onde se discute o valor da autonomia, assaz reencontrada com um modelo de saúde veiculado pela presunção da liberdade mais basilar do ser humano e conformado às novas exigências de uma bioética emergente e de um suposto modelo holístico inclusivo de uma coerência profissional transdisciplinar, se verificam diariamente situações em que a decisão do doente é forçosamente “igualada” à decisão do médico ou outro profissional de saúde.
Inicialmente, em várias das suas obras, como “A história da loucura na idade clássica” (1961) ou “A história da sexualidade” (1976 e 1984), Foucault traça, enquanto verdadeiro historicista, um retrato das diferentes formas como o corpo, na sua dimensão sexual, e na sua dimensão patológica, era visto e concebido, assim como manuseado e tratado. A visão de Foucault, enquanto verdadeira visão historicista, concebe a história do corpo e da patologia enquanto conjunto de artefactos, modelados não por um quadro específico de valores relativamente estanques e invariantes, mas por um quadro de valores e práticas assaz cambiantes dos diferentes contextos temporais e socioculturais.
Mas, como já vimos, as diferentes “epistemis” não se resumem a um “modelo” histórico-social, sendo que, independentemente do tempo a que aludimos, as relações profissional de saúde – doente podem, de facto, ser perspectivadas numa ontologia diferente desse suposto “racionalista” raciocínio médico. Não é – e não o vemos todos os dias – real que a medicina que é diariamente praticada depende enormemente duma mera questão de relações (de poder) que se estabelecem entre o médico e o doente? Quantas vezes o diagnóstico médico não depende unicamente da perspectiva e necessidades de um profissional que trata o doente como um objecto de pertença, ignorando que o doente-utente-cidadão é um fim em si?...
Relativamente à “interpretação da patologia” e das já citadas “relações de poder”, Foucault começou por analisar sobretudo a forma como foi interpretado o fenómeno da doença mental e, bastante mais tarde, acabou a falar do “poder psiquiátrico”, e da forma como, em certo tempo, a institucionalização e a patologização serviam as pretensões de um certo poder.
Enquanto fisioterapeuta que sou, reconheço a relevância que o estudo de Foucault tem para a compreensão de qualquer profissão de saúde, tanto no domínio sociológico, como no domínio clínico. Quantos desses enfermeiros e fisioterapeutas licenciados – ou mesmo médicos catedráticos – saberão discutir a filosofia de Foucault?...

domingo, junho 20, 2010

Classes de Reeducação Postural

As pessoas que seguem mais de perto o meu trabalho no CCR sabem que realizo várias classes de Reeducação Postural e Pilates por dia. Este trabalho não possui, obviamente, as mesmas virtudes que sessões necessariamente individuais. Porém, em matéria de motivação, é bastante mais fácil, tanto para mim como para o doente, a manutenção de um “trabalho” longo numa dinâmica grupal.
Esta mesma dinâmica – de grupo – é claramente diferente do trabalho da fisioterapia individual. Num certo sentido, o trabalho de grupo trai um pouco os princípios da Fisioterapia em geral e da Reeducação Postural em particular; por outro lado, atendendo ao trabalho cada vez mais massificado das clínicas, mesmo da Fisioterapia pretensamente individual, diria que prefiro o meu trabalho àquele que muitas vezes observo.
Mas, mantendo-me num certo percurso argumentativo, diria que a forma como trabalho poderá, de algum modo, trair muito do que digo há vários anos sobre Reeducação Postural. Não obstante tal traição, gosto deste meu trabalho e desta minha dinâmica. Mas, não deixa de haver um componente que muitas vezes me frustra: o componente pedagógico. É que as classes são, na realidade, o contexto excelente para a introdução de certas componentes de Ensino em Fisioterapia. Mas a verdade é que muitas das pessoas que participam nestas classes não entendem esse mesmo objectivo pedagógico, não querendo muitas vezes esforçar-se ou implicar-se num trabalho verdadeiramente “educativo”. E é com pena que muitas vezes me apercebo de que tudo aquilo que estive a ensinar entra em “saco roto”... Por outro lado, não deixa de ser algo intrincada esta coisa de realizar um trabalho de “Educação Física” em indivíduos que estão, na sua maioria, pobremente escolarizados...
O trabalho grupal é, num certo ponto de vista, o futuro da Fisioterapia, pois já é praticamente impossível subverter esta evolução – a que assistimos diariamente – da Fisioterapia convencional para um trabalho mais parecido com o Fitness globalizado. Não sei se é suposto resistirmos a esta evolução. Mas de uma coisa estou certo: é preferível fazermos a “diferença” no seio desta evolução, do que simplesmente nos deixarmos vencer. Daí que defendo, como já tanto o fiz, que os fisioterapeutas têm de estar envolvidos nas aulas daquilo que podemos denominar de “actividades de baixo impacto”. E se essas actividades implicarem a compreensão sincrética de uma semelhança no significado das diferentes actividades físicas, então estamos verdadeiramente no caminho do progresso. Veja-se o exemplo do PNF-CHI. Integra modelos aparentemente diferentes, apregoa a actividade motora “facilitatória”, e tudo num contexto de marketing poderosamente bem sucedido. Também o PNF-CHI parece entrar numa dinâmica de “Fitness” que não me agrada. Mas talvez seja este o caminho certo: ao invés de “lutarmos contra”, tentemos uma certa “integração”...
No dia a dia, quando efectuo as minhas classes, devo confessar que não me sinto “trair-me” pela inclusão de um “factor comercial” no meu trabalho. Isto acontece porque, não obstante estar a trabalhar no sentido contrário ao que moralmente apregoo, não deixo de gostar da dinâmica em que laboro no dia a dia.
Cada pessoa, cada terapeuta, deverá pensar todos estes elementos. Por exemplo, sei que há fisioterapeutas que preferem trabalhar na Fisioterapia convencional, mesmo que a baixos preços. Admiro essas pessoas, apesar de que também elas se vendem e vendem a própria Fisioterapia (desta vez pela mera razão de que estão a trabalhar a baixo custo...). E sei que há quem trabalhe em contextos complexos, mas sempre com amor pela profissão. Não sendo despicienda a existência de uma certa e potencial “alienação”, construída logo no decorrer dos cursos, ainda assim o que interessa verdadeiramente é a felicidade, a qual é, na realidade, a mesma coisa que a percepção pessoal da felicidade (não a percepção dos outros).