quarta-feira, agosto 10, 2011

Capitalismo e medicina: o corpo fragmentado (1º)

«Os classificadores de coisas, que são aqueles homens de ciência cuja ciência é só classificar, ignoram, em geral, que o classificável é infinito e portanto se não pode classificar» (Bernardo Soares/Fernando Pessoa, in «O Livro do Desassossego»)


No território dessa tão prolífica matéria que trata da «filosofia da corporeidade», é possível conceber múltiplos discursos sobre a forma como o corpo tem sido histórica e racionalmente substanciado, correntes de pensamento que se tornam subitamente mais ricas no alvorecer da «modernidade», época que, num contexto de ainda mal nascido liberalismo subjugador, conforma o surgimento de um novo modelo «epistemológico» (ou seja, relativo à teoria do conhecimento) do «espírito do tempo» (conhecido como «episteme», segundo a gíria de Michel Foucault) que irá modificar radicalmente a forma como o «corpo» passará a ser conceptualizado. Encararemos, no contexto desta mudança, algumas das características que definem a forma como a medicina (e outras profissões/práticas de saúde) concebe o «físico», assim como o seu princípio definidor, funestamente rendido à máquina capitalista.
Para a nossa discussão é especialmente pertinente ter em conta a concepção dos tempos segundo a perspectiva dos já referidos «modelos epistemológicos» de Foucault - utilizando como referência base a obra «As palavras e as coisas» (1966) - definindo cada um deles a forma de uma época determinada conceber/manipular o objecto do conhecimento (ademais, de modo a abarcar especificamente a «realidade clínica», a referência «O nascimento da clínica» - Foucault, 1963 - é de mor importância).
Assim sendo, releva referir que a principal mudança ocorrida no início dos tempos modernos (por volta do início do séc. XIX) na forma como podemos conceber o próprio conhecimento consta na transformação de uma visão do mundo feita de «continuidades» numa visão que, por científica (no sentido clássico do termo) se pretender, tudo dilui, secciona e categoriza, levando a uma inevitável descaracterização do objecto do conhecer. O corpo e a medicina que dele se ocupa não são excepção ao confluir desta nova «episteme» e, assim, uma medicina «global» que vê o corpo como uma totalidade funcional/sistémica - e também psico-física - (que não deixa, contudo, de ter subsistido enquanto prática artesanal, com traços de dogmatismo mistificador) transforma-se numa medicina «científica», que, com o objectivo de dilucidar e «reduzir» intelectualmente o seu objecto de estudo, divide e fragmenta «racionalmente» o corpo em sistemas progressivamente mais especializados e relacionalmente desligados.
O paralelismo existente entre esta «fragmentação» racional e as necessidades de uma nova ciência e de uma emergente economia rigidamente quantitativas não é difícil de estabelecer, ainda mais porque subsiste até ao tempo corrente esta tão grande «conspiração» que grassa entre a «medicina científica» e o capitalismo.
Esta pode ser exemplificada de inúmeras maneiras, sendo que um dos seus caracteres modelares reside na forma como é gerido o Serviço Nacional de Saúde, incluindo a relação entre uma medicina que cura e reabilita os cidadãos e as necessidades de um Sistema que está francamente dependente da produtividade de trabalhadores saudáveis.
Por outro lado, o próprio modelo «biomédico» de saúde, que concebe o corpo como uma máquina que deve ser mecanicamente reparada nas suas funções relativamente independentes entre si, coaduna-se facilmente com as necessidades de uma medicina de âmbito essencialmente curativo (portanto, sem grandes preocupações com a prevenção e reabilitação bio-psico-social), que propende o lucro e que se pretende rápida e funcional no atendimento do doente, sem grandes preocupações de âmbito «espiritual».
Esta mesma medicina «estrutural» e «científica» pende uma visão da patologia como conjunto de rótulos/classificações aplicados enquanto generalizações de «casos» semelhantes (depositários de «leis»), cujos corpos, desprovidos de subjectividade e unicidade, são também eles desideratos de classificações anátomo-funcionais. A este corpo doente são aplicadas prescrições curativas, desempenhando estas um trato do corpo rigidamente quantitativo.
Outras profissões de saúde, tal como a Fisioterapia ou a Enfermagem, tendem, apesar de tudo, a conceber uma relação mais «holística» com o corpo, sendo que, quando autonomizadas relativamente à medicina propriamente dita, essas profissões poderão exercer uma intervenção que visa o corpo na sua totalidade (tanto nos seus diversos sistemas físicos quanto numa totalidade mente-corpo); esta intervenção implica uma perspectiva qualitativa do corpo em desprimor de uma visão mais quantitativa e categorizada, a qual tem sido usada privilegiadamente pela medicina no sentido de reforçar as características do Sistema vigente (capitalista e também poderosamente de índole quantitativa), ao qual se encontra adaptada, incluindo a assunção de um estatuto que se alimenta de hierarquias e de relações de poder (que são, em última análise, legitimadas pelo próprio Sistema).
As referidas relações de poder fundamentam-se, então, tradicionalmente, num jogo de subjugação dos profissionais de saúde não médicos, assumindo, muitas vezes, a medicina um papel dogmático e mistificador, o que a torna, ironicamente, semelhável à medicina pré-moderna. Mas, em última análise, a relação de poder dominante é aquela que se estabelece com o próprio doente, e que se converte numa relação de posse do seu corpo, o que transfigura o doente numa entidade passiva e pouco auto-consciente, senão alienada, porque esvaziada da sua «autonomia ética» e grandeza «humana».

Publicado no site do 'Expresso'

domingo, julho 31, 2011

A modernidade capitalista e a eterna dialéctica entre emoção e razão

Quando se define o ser humano como “animal racional” parece que, numa certa perspectiva, se medra numa pungente contradição; pois, se a condição animal se define essencialmente pelo comportamento instintivo, afecto às emoções que não ambicionam a consciência, a condição especificamente humana remete, supostamente, para uma racionalidade que, em última análise, representa o nível mais evoluído de um agir que visa a auto-preservação. Esta sempre imperecível contradição «emoção versus razão» representa, não obstante o facto de as duas se entrelaçarem de um modo bastante mais complexo do que aquele que é muitas vezes atendido, a relação dialéctica mais importante do momento de caracterização da outra nossa familiar dialéctica, nomeadamente «capitalismo versus marxismo».
Tanto o capitalismo como o marxismo se pretendem racionais, mas o facto é que a dialéctica «emoção versus razão» nem sempre se consegue escalpelizar com objectividade aquando do exercício de caracterização da época moderna, era reconhecidamente liberal.
Por exemplo, a modernidade aparece marcadamente conotada com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, assim como com a demarcação de um pensamento categorizado, de índole quantitativa e materialista, o que, aparentemente nos leva a ver a modernidade como um resultado da actividade racional. Por outro lado, visto que as pessoas possuem uma relação espontânea e, portanto, irreflectida com os objectos da tecnologia, limitando-se a fazer uso alienado do «bem-estar» que os luxos do capitalismo propiciam, é indubitável que a emocionalidade parece ser a regra de funcionamento dominante do ser humano da era moderna.
O facto de possuir uma relação privilegiada com o suposto progresso científico e tecnológico, associado à assunção de que o liberalismo possui uma base teórica justificativa científica (no sentido das ciências «duras», «exactas» e «positivas»), leva a que o capitalismo se assuma como racional, incluindo a suposição, tantas vezes defendida, de que a democracia só é compatível com os sistemas liberais. No entanto, é impossível não reconhecer no comportamento competitivo e egotista do «cada um por si» dos «filhos da burguesia» todos os caracteres adstritos à animalidade básica e instintiva com vista à sobrevivência. De resto, a relação entre o capitalismo e as características da sobrevivência animal previstas pela teoria de Darwin terá sido compreendida pelo próprio Marx melhor do que qualquer outro. Poderíamos acrescentar a isto o apelo às emoções e «sensações» que o comércio e o marketing efectuam de forma não menos que doentia.
Na sua compreensão «sociológica» dos factores psicossociais que contribuem para as desigualdades sociais e económicas, não pode o Socialismo deixar de ser visto como um eterno contributo para a verdade racional das coisas, mesmo que o método marxiano propriamente dito, que pouco tem a ver com o método das ciências «exactas» (ao contrário do que o próprio Marx defendia), seja incluído no conjunto dos argumentos dos capitalistas esgrimidos em apologia dele como «método» irracional e acientífico (coisa que, de resto, deixa de fazer sentido face à visão da ciência pós-moderna, o que inclui a fragilidade das ciências «positivas»...).
Não se pretende, de qualquer modo, defender que a emocionalidade é necessariamente má, até porque esta não deixa de constituir a matriz básica de uma racionalidade consciente. Pretende-se, sim, fazer o apelo de uma emocionalidade evoluída, e portanto sentimental, a qual só pode fazer sentido numa sociedade onde residam certos padrões de solidariedade e onde a lógica «quantitativa» tenha, de uma vez por todas, sido entendida como inimiga do verdadeiro «progresso».
Assim sendo, pretende-se que o marxismo se faça acompanhar pela sempre eterna busca de equilíbrio entre uma emocionalidade que permite a cooperação entre pares (em desprimor dos instintos egotistas de sobrevivência) e a racionalidade que permite a aproximação de uma forma o mais puramente objectiva de Justiça.

'Avante!', dia 23/07/2011

terça-feira, junho 14, 2011

Marxismo e psicanálise: corpo e dialéctica

As relações conceptuais estabelecidas entre o marxismo (e o pós-marxismo) e a teoria psicanalítica, cuja compreensão é especialmente relevante para o entendimento - sempre necessário à concepção sociológica da teoria marxista - das «necessidades» do mundo moderno, têm sido concebidas por diferentes autores de maneiras muito díspares e nem sempre compatibilizáveis. A complexidade da questão reside na dificuldade em estabelecer uma relação não ambígua entre o imperativo da razão Socialista e a tentativa assaz frustrada de conceber uma racionalidade ao nível da corporeidade. Iremos, de seguida, tentar dar luz a um conjunto de contradições, envolvente de dissemelhantes conceitos de racionalidade e das diferentes formas «marxistas» de lhe dar resposta.
Ora, se concebermos a racionalidade como molde de afastamento da raiz instintiva do homem (e necessária aproximação ao comportamento eticamente reflectido) e a irracionalidade como a aproximação à mesma actividade instintiva, podemos desde já deparar-nos com um aparente paradoxo relativo à natureza do Capitalismo (1) versus Socialismo (2): (1) os capitalistas asseguram que o liberalismo é racional, no sentido em que a economia de molde quantitativo que é propugnada faz eco de um suporte metodológico substantivado por uma ciência positivista, fortemente determinista, capaz de atestar a construção do «bem-estar» social com base na industrialização e numa ciência tecnicamente aplicada. Por outro lado, qualquer análise grosseira poderá levar-nos facilmente a estabelecer, tal como consta na teoria marxiana, uma relação entre este mundo concorrencial do «cada um por si» e as necessidades instintivas de luta com vista à «sobrevivência do mais apto». Assim sendo, o racionalismo liberal só pode ser visto pelo marxismo como uma forma travestida de comportamento «animal» que nos afasta da verdadeira essência de ser-se especificamente «humano». (2) o marxismo concebe a edificação de uma sociedade regida por padrões valorativos básicos, advogando o incremento de certas condições básicas de humanização, tornadas mais valorizáveis que os aspectos estritamente quantitativos do desenvolvimento económico. Fazendo apelo aos Valores, aproxima-se da racionalidade. Mas, também por fazer uso das considerações determinísticas de uma ciência relativamente segura de si própria (necessária à justificação metodológica da teoria marxista, presente sobretudo na teoria original de Marx, e à «determinação social» em que o Socialismo ancora), faz segundo uso da racionalidade. Por outro lado, o seu distanciamento à ciência quantitativa do liberalismo, defensado em especial pela tradição britânica originária do neoliberalismo (vide as obras de Popper e de Hayek), é interpretado pelos capitalistas como um fundamento do irracionalismo da teoria marxista, raiz de uma Ideologia com conteúdos dogmáticos [não há, de facto, por parte dos capitalistas, a compreensão de que os aspectos qualitativos, realmente menos mensuráveis - porque muito mais complexos e, portanto, apelativos de uma maior reflexividade - da construção de um Estado superam racional e eticamente os princípios estritamente numéricos do desenvolvimento. Esta compreensão manter-se-á sempre difícil, em especial por parte das «massas», pois implica a descolagem de um conjunto de códigos (capitalistas e enaltecedores da ciência quantitativa) no seio dos quais fomos «educados» e permanecemos agrilhoados].
Deste modo, as diferentes formas como desiguais teorias políticas tratam o conceito de racionalidade complexificam deveras os termos de toda esta discussão, o que enreda a tentativa de associar teoreticamente «marxismo» e «psicanálise».
Assim sendo, advogando de certo modo o reencontro do homem com a sua essência instintiva, a psicanálise pode, segundo certa perspectiva, contrapor ao marxismo, pelo facto de ser precisamente este género de irracionalismo que preside ao processo basilar da competitividade liberal. Por outro lado, ao tentar lutar contra o efeito da «castração» dos códigos burgueses, assim como da industrialização massiva com efeito alienante, a psicanálise pode também fazer apelo aos valores do Socialismo.
A obra de Herbert Marcuse é, neste contexto, especialmente relevante. Este filósofo pós-marxista advoga que a consumação de um conjunto massivo de novas necessidades industriais, inscritas num «colectivo mental» fortemente alienado, leva ao afastamento dos indivíduos da sua real natureza íntima. É certo que o «bem-estar» do capitalismo se move no território do prazer, mas esse é um «prazer» artificioso, porque obtido fora das condições de aproximação do homem à natureza mais primordial da sua condição.
No referente ao meu próprio conceito de «corpo pós-moderno», Marcuse também terá tido em conta o aparente paradoxo existente no respeitante às novas indústrias do wellness, centrado no facto de estas parecerem, à primeira vista, possibilitar uma aproximação «terapêutica» ao inconsciente basilar do ser humano, a qual acaba por se revelar uma mera quimera, reificada pelos contextos mercantilistas de «realidade virtual» que são aplicados, auxiliadores do «escape à realidade», alienação que camufla a origem dos problemas e que serve plenamente o capitalismo no «anestesiamento» da dureza da realidade do trabalho e das condições do massacre da vida moderna.
Os aparentes paradoxos são bem visíveis e possibilitam uma crítica às diferentes visões. Na realidade, eles podem advir do facto de podermos estar a falar de diferentes tipos de racionalidade/emocionalidade, possibilitando a existência de curto-circuitos semânticos que seriam mais facilmente evitados com uma melhorada clarificação dos conceitos; esta talvez pudesse ajudar a evitar a existência de atitudes tão díspares na relação conceptual entre o marxismo e a psicanálise, pois, se é certo que alguns marxistas vêem na psicanálise a essência da sua teoria, também é certo que, em circunstâncias históricas específicas, o Socialismo chegou a adversar o freudianismo.

sexta-feira, maio 13, 2011

Marxismo e o pós-modernismo: a «conspiração» entre ciência e capitalismo

O final do séc. XVIII e o início do séc. XIX reconhecem-se, sabidamente, no nascimento daquilo que, no plano do tempo corrente, apelidamos de «modernidade», referência «conceptual» que localiza o nascimento do capitalismo liberal e a afirmação da burguesia, num contexto de industrialização massiva crescente. Esta industrialização expansiva é acompanhada, no sentido duplamente causal e consequente, da afirmação incomparável da ciência, radicando esta não só na componente técnica determinante, mas também na assunção de um novo modelo (epistemológico) de prática científica - positivista, determinista e mecanicista -, o qual, correspondente ao modelo de ciência «clássica» que tradicionalmente concebemos como «ciências físicas/naturais/exactas», ainda vigora dominantemente no presente.
No contexto «modernista», a ciência perde a sua função de descrição «ingénua» da realidade e passa a mover-se progressivamente em função da mera criação e aprimoração de tecnologias, as quais são postas ao serviço do novo modelo económico (capitalista) que, com base no paradigma positivista recentemente afirmado, se vai reconhecendo como «científico». Para além disso, um novo espírito «público» de «comportamento egoísta» desperta como consequência lógica da recente valorização do «livre-arbítrio» social e económico. Obviamente é impossível separar a «nova ciência» e o «novo espírito» da percepção, por parte dos cidadãos, de novas necessidades comerciais e financeiras interpretadas alienadamente como indispensáveis.
O surgimento deste novo espírito de egoísmo/individualismo não deixa, no entanto, de ser conceptualmente objectado pela filosofia de homens que podemos considerar como precursores do «pós-modernismo», modelo que propõe contrariar o modernismo capitalista e o paradigma científico positivista já descritos. Alguns desses homens são referidos na importante obra do filósofo Jürgen Habermas, «O discurso filosófico da modernidade» (1985), sendo de destacar Hegel, Marx e outros hegelianos como vários filósofos (pós)marxistas ou até alguns existencialistas, e também Nietzsche, Heidegger, Derrida, Bataille e Foucault.
Entre eles, Marx é, talvez, curiosamente, o menos significante na construção do espírito «pós-moderno», visto o seu «Socialismo científico» ser interpretado pelo próprio como «materialista», paralelo ao modelo clássico positivista, apesar de um pouco menos mecanicista que este último. Por outro lado, a filosofia (pós)marxista que «prolonga» a teoria marxiana, sobretudo a da escola de Frankfurt, possui uma significância capital.
Homens como Herbert Marcuse, Max Horkheimer e Theodor Adorno, e o próprio Habermas (todos eles filósofos que abarcam sobretudo a segunda metade do séc. XX), contribuem para a concepção do domínio afirmativo do paradigma «pós-moderno», na medida em que, reconhecendo a ciência no seu papel de produtora das tecnologias que sustentam a indústria e substituem a mão de obra («conluio» ou «conspiração» que pode inclusive levar a que certas necessidades políticas protagonizem as prioridades da investigação e a orientação das expectativas dos cientistas), realçam um lado mais subjectivo e menos isento da actividade científica.
Essa dimensão «subjectivista» da ciência constitui um dos grandes motes do pós-modernismo, não sendo, portanto, de espantar que o novo paradigma epistemológico, que visa um conhecimento da realidade mais «compreensivo» e menos «positivo»/«determinista», possua, tal como o Socialismo, uma visão pragmática com enfoque na construção de uma (nova) sociedade regida por Valores.

Publicado no jornal 'Avante!', 12/05/2011

quinta-feira, abril 14, 2011

Medicina, terapias e poder: ciência e historicismo

Sabidamente, é quase inútil procurar encontrar uma ordem racional no discurso histórico. A História é feita de factos, mas qualquer tentativa de os categorizar conduz-nos comummente a um relativismo inescapável, o qual apela a um conjunto intrincado de relações entre os homens, as facções e os interesses. No domínio da História do corpo e da medicina, a presença de mitos e contradições leva a que o necessário objectivismo requerido ao trabalho de um historiador profissional não passe de um desejo transfigurado em quimera. A verdade é que a história das relações médicas e das terapias não se revê sempre numa necessária actuação clínica objectiva; antes é palco de uma complexa matriz de relações de poder, as quais foram sempre estabelecidas entre os médicos e os seus doentes, com vista à criação de uma autoridade paternalista de possíveis conotações “mágicas” que permitisse a manutenção de determinado estatuto.
Assim como Marx interpretou as ligações entre os homens como relações de exploração de significado classista, também Michel Foucault, filósofo do século XX, interpretou a história do corpo, especialmente da loucura e da sexualidade, enquanto palco de relações de poder que visavam o controlo social do “outro” por meio da prescrição de uma autoridade médica. Assim sendo, ao longo da história, os médicos e as suas terapias foram pregando o seu autoritarismo, muitas vezes com recurso a terapias que viriam mais tarde a revelar-se como “pseudo-científicas”, sendo que estas não podem deixar de nos fazer pensar em muitas das terapias “místico-dogmáticas” utilizadas por terapeutas do “bem-estar” em pleno tempo presente (algumas delas, como certas psicoterapias e a própria psicanálise, possuem actualmente até um certo cunho de respeitabilidade, até porque propõem uma visão holística do homem - daí a “mística” que referi - a qual concebe o doente ao invés da doença - coisa que a medicina canónica actual não faz, apresentando-se esta demasiadamente convertida ao diagnóstico “localizacionista” biomecânico e à mensurabilidade capitalista -, mas nem por isso deixam de prescrever uma forma de domínio do doente...).
A psicanálise e a própria psiquiatria fazem apelo ao tempo ainda bastante recente em que muitos partidários do Socialismo, vistos como perigosos para o Sistema capitalista, eram diagnosticados como loucos e enclausurados em instituições onde pudessem ter a mínima influência social possível. As suas interpretações sociológicas poderiam ser facilmente interpretadas como delírios, sendo mais fácil acreditar que o louco seria este ser movido de “consciência social” do que todas as outras maiorias saudáveis (que, na realidade poderiam sofrer da, para utilizar as palavras de Arno Gruen, “loucura da normalidade”...). Este tempo remete para uma reacção “revolucionária” a toda esta institucionalização compulsiva, a que se deu o nome de Anti-psiquiatria, a qual permitiu revelar muitas das atrocidades que se operavam nos asilos e hospitais psiquiátricos.
Não é preciso ser muito clarividente para ver a semelhança entre o tema e os títulos das obras de Michel Foucault “A história da loucura na idade clássica” (1961) e “O poder psiquiátrico” (relativo a 1973-1974). De facto, este intelectual (curiosamente psicólogo, psicanalista, homossexual, e de esquerda...) é especialmente relevante para a nossa discussão, e também para a temática do “relativismo”, ainda mais porque a sua obra tem sido vastas vezes interpretada como exemplar da barganha intelectual...
E, fazendo um exercício de comparação pertinente, é um facto que também como intrujões têm sido vistos muitas vezes Hegel e Marx, assim como os diferentes filósofos contemporâneos da pós-modernidade (como Derrida ou Rorty). Na realidade, para muitos “cientistas clássicos”, estes homens “historicistas” (para utilizar o termo de Karl Popper) remetem para um tipo de relativismo que faz uso de asserções falaciosas e pouco rigorosas. E se Marx tem sido muitas vezes visto como um falso profeta ou um falso cientista, também Foucault tem sido visto por muitos como o pai da maior vigarice intelectual do séc. XX (o pós-modernismo). Curiosamente, o marxismo e a psicanálise eram precisamente o terreno de eleição de Karl Popper, para o qual eles tratavam de pseudociências adstritas ao “relativismo dogmático”. E se, por um lado, o rigor científico é necessário para a sempre importante demarcação entre terapia legítima e pseudociência, por outro lado, não tenho dúvidas de que a ciência “clássica” possui certas limitações na forma como concebe tanto o marxismo (que é auto-evidente em muitos dos seus pressupostos) como certas realidades pragmáticas mais facilmente compreensíveis pela “escala do olhar” qualitativa da “ciência pós-moderna”.
Para além disso, notemos que o relativismo respeitante às terapêuticas que está em questão não é de forma alguma defendido pelos próprios métodos “históricos” em análise. Antes pelo contrário! Não confundamos, portanto, o relativismo factual das terapêuticas (este com carácter negativo, porque releva da pseudociência e da possível fraude) com o “relativismo” do método que visa a compreensão histórica dessas terapêuticas, o qual é condição da compreensão de certas realidades mais “sócio-humanas”. Portanto, pelo menos por agora, enquanto a ciência clássica ainda não possui o labor contextual suficientemente inclusivo das ciências ditas “sociais”, vamos tentar aceitar algumas das evidências que o tal “historicismo” nos dá, principalmente na forma tão clara como as terapêuticas psico-físicas parecem ecoar um rol de relações de submissão que se estabelecem entre os homens, estas não muito diferentes das relações exploratórias que identificam o animalismo da sociedade capitalista e que foram estudadas pelo “historicismo marxiano”. E já agora, só para complicar e para manter a analogia que já vínhamos a realizar, devo acrescentar que aceitar que o método do “Socialismo científico” de Marx é dado à especulação historicista, relativista e pós-moderna não deixa de ser paradoxal, visto que, foi sempre sua intenção identificar algumas das “leis da História”, as quais parecem ser tão inexoráveis, tanto que até são paralelas ao evolucionismo biológico de Darwin, que não podem deixar de se aproximar de um certo “objectivismo”, próprio das ciências exactas.

Publicado no Jornal 'Avante!', dia 14/04/2011

sexta-feira, março 25, 2011

O corpo industrial

Artigo publicado no Jornal 'Avante!', dia 24/03/2011
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Enquanto componente da História humana, a história do corpo não pode deixar de ser atendida na sua relação muita significativa com o capital e a industrialização. Apesar de ter sido relegada para segundo plano por um ainda bem vivo platonismo milenar, a historicidade corpórea não deixa de se consubstanciar como significante, ainda mais porque existe um paralelo entre a actividade laboral e ocupacional humana e a forma como o corpo é usado, tratado e investido; paralelo que expressa quase sempre uma noção de instrumentalização, num objecto corporal que foi tantas vezes fortemente maltratado, seja num sentido utilitário, seja num sentido mais abstracto.
Se numa época feudal o corpo foi usualmente escravizado (mas ainda mantinha o seu contexto natural de inserção), numa época posterior, iniciada com a primeira revolução industrial, o corpo não deixou de ser usado primacialmente como uma máquina capaz de produzir e fabricar (correspondente ao que Hannah Arendt designa de homo faber), e posteriormente como invólucro de conservação de energia e conversão e propulsão (homo motor), o que designa que o corpo foi tratado em função da sua utilidade produtiva, transformando-se numa máquina mecânica naturalmente desenraizada.
Esta época de modernidade já concebe o corpo humano como um sistema biomecânico que tem determinadas funções. Quando avariadas essas funções, o corpo deixa de possuir qualquer sentido, e uma figura de autoridade (médica) precisa de restaurar a função em perda. Já aqui, tanto a funcionalidade quanto a saúde do corpo apelavam a um conjunto de relações de poder (aqui é relevante o trabalho de Foucault) e à sempre inexistente relação de autonomia para com os “mecânicos do corpo”.
Por outro lado, na época actual de pós-modernidade e de “hiperconsumo” (Lipovetsky), o corpo perdeu parcialmente o seu estatuto de máquina produtiva, exceptuando claro as profissões fortemente manuais, mas ainda assim não perdeu o estatuto de “corpo industrial” ou “corpo do capital”. É que, na verdade, novas “indústrias culturais” agitam estes tempos de vivência do supérfluo... Certas terapias, como o Wellness ou determinadas medicinas não convencionais, assim como o Fitness, esse conjunto de práticas físicas que violentam um corpo posturalmente frágil, são marcas de um capitalismo impiedoso em que o objecto corpóreo passa a funcionar como um receptáculo passivo da efemeridade. Efemeridade, seja pelo prazer alienante a que se induz o corpo (capaz de funcionar como um antídoto para a sofreguidão dos dias de trabalho e também para a necessidade de manter a necessária alienação face ao poder do determinismo liberal), seja pela mistificação a que se submetem terapêuticas que tentam a subjugação do cliente/doente face ao poder de uma prática “divina” ou “mágica” (tendo como intermediários agentes do “poder”, que fazem uso do dogma ou até mesmo da “banha da cobra”), artifício de um sempre inebriante e sufocativo marketing de pendor hipnótico.
Em particular, o Fitness reduz o corpo vivido e com história a um mero artefacto que só importa no sentido quantitativo... Um corpo que deveria ser objecto histórico e fenomenológico, no sentido em que é fenómeno sempre complexo, único e irrepetível, necessariamente criativo, intencional e inventivo, é transformado num vale de capacidades e classificações, numa lógica que é a do resultado e nunca a do processo (quando, no fundo, o caminho importa sempre mais que o destino...). O corpo é reduzido a um desempenho quantificável, quando só deveria ser visto enquanto ente em constante renovação heurística...
É este corpo, que é aparentemente vivido e experienciado, mas na verdade não verdadeiramente integrado, que tende a ser negado todos os dias, numa cultura que é, por natureza, de negação e desaproximação do Eu. Merleau-Ponty referia a dicotomia “Tenho um corpo” versus “Sou um corpo”. É pouco dubitável que a primeira parte da dicotomia continua a vencer o estatuto do corpo como parte da própria identidade.
O corpo expressivo, o corpo intencional, o corpo cúmplice que ama e se associa em comunidade... O corpo livre de paternalismos e de artifícios quiméricos... O corpo feito comuna... É este corpo global que propende à verdadeira descoberta do sentido de um Eu verdadeiro para consigo e para com os outros.

sexta-feira, março 11, 2011

A ‘Geração à rasca’ e o ensino superior

Muito se tem falado actualmente na “geração à rasca” e muito se tem, de facto, elidido acerca da mesma. É certo que esta nova geração, à qual eu mesmo pertenço, possui elementos com grande capacidade de trabalho e até alguma cultura, mas é também certo que esse facto é mais a excepção do que a regra...
Na verdade, a nova geração possui uma evolução diferente das gerações anteriores, sendo que foram as gerações pretéritas, as quais se desenvolveram numa sociedade em que um curso superior fazia toda a diferença, que nos motivaram a pegar nos livros e nos convenceram que o nosso futuro dependeria do avanço escolar obtido; a nova geração não se desenvolveu na luta contínua das gerações anteriores... Nós tivemos acesso privilegiado aos livros e pudemos dedicar-nos exclusivamente a eles. E de tal modo pudemos intelectualizar-nos que muitos de nós tornámo-nos inseguros e fomos fazendo cursos e avançando nos graus académicos, adiando a hora de inserção no mercado de trabalho.
É claro que o boom de licenciados era inevitável, até porque, percebendo que havia ali uma grande fonte de negócio, as instituições de ensino superior reproduziram-se, a si mesmas e aos seus cursos, como cogumelos. Ora, se é certo que o mercado português deveria ter crescido mais do que realmente aconteceu, também é certo que esta cultura excessivamente obcecada pela formação superior não pragmática, num ensino superior crescentemente facilitado, fez com que um número insuportável de mestres e doutores, menos cultos e com menores capacidades de trabalho, e sobretudo com menor capacidade de luta e criação de auto-emprego, surgisse e viesse reclamar aquilo que as velhas gerações prometeram e o novo paradigma económico-financeiro do país já não pode dar.
Obviamente a formação superior é e será sempre uma vantagem, mas também é certo que o problema da nova geração passa pela existência de um novo paradigma económico e laboral que implica uma mudança de atitude que ainda não se verificou. Por mais que custe, é preciso largar a formação excessiva e enganosa e “pôr as mãos à obra” nesta hora em que vale mais o empreendedorismo do que a passividade.

Publicado como carta no jornal "i", 09/03/2011

quinta-feira, março 10, 2011

História da medicina: ecos e relativismo

Uma História especificamente racional do corpo e da medicina é tarefa impossível! Ou, no mínimo, improvável! Uma multiplicidade de visões e de mundividências é mais afecta à realidade. Uma realidade que é feita de um tecido de inumeráveis epistemis, num confluir sempre inconstante de fronteiras só aparentemente racionalizáveis. A História da medicina, aliás as histórias das medicinas só podem perfazer-se pelo encontro inexaurível com o sempre volúvel estatuto de uma (in)adequada cientificidade.
Na realidade, a História da medicina é um reflexo da História da própria ciência, atendendo a que as práticas tanto etiológicas quanto prognósticas e terapêuticas da profissão acarretam a mesma matriz básica que o tecido que constitui a própria trama científica: um objecto de estudo e um método reconhecido como científico.
À semelhança do método científico propriamente dito enquanto componente da história da ciência, o método que podemos designar de “médico-científico” sofre inúmeras mutações com o tempo, sendo que aquilo que é considerado como científico num tempo ou numa comunidade determinada, deixa de ser visto como tal num tempo subsequente ou numa comunidade com padrões de desenvolvimento metodológico e/ou tecnológico mais modernos.
Não admira que aquilo que já foi visto como prática científica e “séria” no passado seja comummente visto na actualidade como prática mística, ou mesmo mágica, própria do que muitas vezes vemos como pseudociência, “banha da cobra” ou charlatanice... Esta mesma charlatanice ganhava frequentemente ecos de manipulação psicológica (à semelhança do que acontece com muitas práticas místico-dogmáticas actuais), fazendo com que práticas como as sangrias e as trepanações fossem aceites acriticamente como “normais”, mesmo quando não pareciam resultar. Veja-se o exemplo literário singular e paradigmático inesquecível de “Le malade imaginaire” de Molière...
Como sabemos, tanto a história da ciência como a história da medicina só viriam a possuir o aspecto “epistémico-metodológico” dos tempos actuais a partir da vivência do positivismo (e consequente mecanicismo concretista e materialista) do século XIX (sabidamente, no respeitante ao exemplar paradigma cosmológico, uma História que inclui as obras de homens como Galileu ou Newton não foi suficiente para superar prematuramente uma certa escolástica aristotélico-cristã...). Mesmo no mundo contemporâneo, muitas práticas terapêuticas que podemos designar de “pré-científicas”, incluindo algumas socialmente mais aceites ou reconhecíveis como a osteopatia e a acupunctura (para não citar outras práticas corporais que José Gil refere no seu “Metamorfoses do corpo” como sendo uma forma de violentar o corpo), fazem eco das práticas físicas “dogmáticas” (algumas quase demiúrgicas...) do tempo pretérito, tendo pessoalmente defendido há uns anos atrás que alguns terapeutas “não convencionais” chegam a sofrer do que apelido de “Complexo de Jesus Cristo”... “complexo” que vai sendo justificado e legitimado com base numa suposta globalidade ‘bio-psico-social’ (ancorada num pretenso raciocínio clínico que perspectiva o ‘doente’ em desmérito da ‘doença’, relevando de elementos que descomprometem a perspectiva da “classificação da(s) doença(s)” e da categorização das terapêuticas, em favor de uma actuação terapêutica de índole fenomenológica e funcional, e portanto heurística, espontânea e criativa) que a ciência médica ortodoxa supostamente não possui...
Mas não nos iludamos! Mesmo na medicina canónica ou na fisioterapia convencional, existe um certo nível de acientificismo, agindo muitas vezes a tradição e até a autoridade enquanto fontes legitimadas de conhecimento... e de poder.
O estatuto epistemológico da medicina, da fisioterapia e de todas as práticas da “Salud” continuará, portanto, sempre a necessitar de uma necessária translocação de pragmáticas e metodologias pré-científicas em pragmáticas e metodologias adequadamente científicas... entendendo-se, claro, como ‘científicas’ aquelas que são racionalmente irmanáveis. Por outro lado, a sempre desejada visão holística do doente, necessária à afirmação de certas práticas de saúde em relação à mais “limitada” medicina ortodoxa, nem sempre se compatibiliza com a “medicina baseada na evidência”, por premiar as já referidas práticas que apelam ao “relativismo dogmático”. Estas são, numa certa perspectiva, a consequência lógica das práticas de carácter ideográfico, nas quais a preocupação pela ‘qualidade’ “desconstrói” a preocupação com a quantidade e a mensurabilidade.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A propósito de “Egas Moniz: Uma Biografia”

O primeiro livro do conhecido neurocirurgião João Lobo Antunes não constituído por um agregado de ensaios consiste nessa recente obra que tem permitido encher algumas manchetes de jornais e revistas, assim como tops de livrarias: “Egas Moniz: Uma Biografia” (Gradiva). Acerca desta muito pode ser dito, mas bastante mais poderá ser explorado segundo o ponto de vista dos possíveis conteúdos epistemológicos, se quisermos de algum modo aprofundar os temas que a obra concilia.
Deixemos bem claro... Enquanto ensaísta, João Lobo Antunes é um escritor ímpar. Quem já leu os seus livros de ensaios “avulsos” sabe que, por vezes, o autor consegue algo que poucos alcançam e com que muitos matricialmente discordam: a conciliação de uma escrita de rigor (quase) científico com os elementos que a tornam mais bela que a melhor literatura. De resto, ninguém melhor que João Lobo Antunes para dar relevo à famosa frase de Álvaro de Campos: “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo” (frase que, aliás, marca a Carta que o mesmo autor escreve para “De Profundis, Valsa Lenta” de José Cardoso Pires, livro que também explora a alma e a literatura de uma condição neuropatológica). Também a tentação de romancear conteúdos que se querem rigorosos, científicos e desapaixonados existe em “Egas Moniz: Uma Biografia”, mas de forma alguma está presente nesta “Biografia” a mesma estética rítmica e serpenteante que marca alguns dos melhores ensaios de Lobo Antunes. A “Biografia” aparece com maior sobriedade e menor aprumo estetizante, vertida aliás numa linguagem singela, extraordinariamente simples e directiva – como, de resto, deve ser, evidentemente, a de uma biografia, que se pretende objectiva (apesar de a biografia ser um género “literário” especialmente tocado por um certo teor “construtivista” do historiador) –, mas não menos aliciante e ambiciosa, e de leitura consequentemente voraz e contagiante. De resto, a “Biografia” é nada menos do que uma obra que roça o perfeccionismo, de conteúdos cirurgicamente dissecados e alojados, numa ordem que expressa uma visão perspicaz e não cem por cento desinteressada.
A “Biografia” marca, de forma paralela e não cronologicamente linear, importantes elementos referentes a diferentes papéis preconizados por Egas Moniz. São de especial realce os aspectos referentes a Egas enquanto “político” e a Egas enquanto “clínico”. A mim interessou-me especialmente toda a pormenorização daquilo que podemos irmanar como a “história da medicina” da primeira metade do século XX. Desde os detalhes acerca da excepcional exigência do curso da Universidade de Coimbra (capaz de fazer envergonhar o mais exigente dos cursos actuais) até ao vislumbrar de uma curiosa matriz de médicos que actualmente conhecemos como nomes de hospitais ou de ruas, a descrição das interligações entre os clínicos aparece durante a quase totalidade da obra, principalmente quando se entrevêem todos os aspectos “sociais” que se movem enquanto tecido sustentador das duas grandes “descobertas” de Egas: a angiografia cerebral e a leucotomia pré-frontal.
Pois, na realidade, muito mais do que duas grandes descobertas (Lobo Antunes prefere o termo “invenções”) obtidas a partir de uma actividade científica necessariamente “ingénua” e “objectiva”, aquelas duas criações do corpus científico de Egas levantam uma série de questões, tanto éticas quanto epistemológicas, que tornam a tarefa “historiográfica” de Lobo Antunes necessariamente injusta. O que quero dizer é que, à semelhança do que já tenho defendido/discutido nestas páginas (relativo à importância da diferenciação entre ciência enquanto realidade racional “descoberta” pelo Homem versus ciência enquanto criação do cientista, pessoa necessariamente provida de expectativas e preconceitos), e um pouco de acordo com o modelo epistemológico kuhniano (que diz que a “Verdade” só faz sentido no interior de um ‘paradigma’ determinado), a tarefa de ‘descoberta’ científica nunca é plenamente racional, sendo, de certo modo, redutível a toda uma sociologia histórica, coisa que figura de forma clara nesta “Biografia” (de resto, é óbvio que a própria ciência histórica, à semelhança das diversas “ciências sociais e humanas”, se sente mais confortável no domínio da “lógica relativista dos paradigmas”). Pois acaso Egas teria tido todo o sucesso que teve na divulgação das suas “invenções” se não possuísse uma relação favorecida com os políticos e a Imprensa? Teria Egas conseguido a aceitação dos seus métodos se não existisse a relação privilegiada deste com a Comunidade médico-científica europeia? Teria Egas conseguido o prémio Nobel se não tivesse havido, por parte das diferentes Comunidades científicas (e políticas), portuguesa e europeia, a defesa obstinada de uma “campanha”, de um “lóbi” referente aos seus feitos?...
Não deixa claro todo este esforço desmistificador e desconstrucional de se exaurir numa excrescência que não tira o mérito a um homem que, ainda assim, contribuiu para o crescimento daquilo que, mais tarde, viria a ser mais conhecido por “neuropsicologia cognitiva” (potencialmente definível como a ciência da “materialização da alma”). E nem mesmo o facto de sabermos que Egas era arrivista e sempre desejou a glória pessoal provoca o desmérito de um homem que tanto contribuiu, à semelhança da “fina-flor” médica portuguesa daquela época, para marcar o lugar do nosso país na cena investigacional além-portas. E nem mesmo a tentação de alguns de abjurar o criador de uma técnica de exame que viria a causar a morte por cancro a tantas pessoas (angiografia cerebral) poderá desvirtuar a importância de um dos criadores de uma investigação que, nas suas inovações recentes, poderá ajudar a dar respostas às questões epistémicas mais preliminares. E, terminando, nem mesmo a tentativa recente para “tirar o Nobel” ao pai da psicocirurgia, por ter aberto as portas a uma prática que hoje consideramos cruel e abusiva (e, acrescento que, ao contrário do que tantos críticos têm afirmado, não existe - a meu ver - necessariamente um esforço de reabilitação histórico-moral do biografado por parte de Lobo Antunes; antes existe um esforço de compreensão realista de que os padrões de Ética da época da “lobotomia cerebral” são necessariamente diferentes dos que vigoram no paradigma epocal actual), faz com que deixemos de ver o nosso tão olvidado Egas como uma das mais ínclitas e significativas personalidades da nossa história.

Publicado no Jornal 'As Artes Entre As Letras', 16/03/2011

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

A morte do Serviço Nacional de Saúde

Este texto foi publicado hoje como carta no jornal 'i'.
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Perante a actual crise do ‘Estado social’, há um certo lóbi neoliberal que advoga que esta está relacionada com a insustentabilidade matricial do ‘Estado-providência’, quando é apenas a má gestão do mesmo que leva à sua aparente incompatibilidade com o desenvolvimento económico. Eis que, recentemente, foram sugeridas e têm sido obviadas medidas que vão levar a que um Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito passe a ser pago e de forma bastante cara, poupança aparente que só levará à pobreza dos cidadãos e ao desinvestimento no país (mas, claro, permitirá o enriquecimento de outros, como os sistemas de seguros e dos subsistemas privados).
Enquanto fisioterapeuta que sou, e trabalhando com doentes que fazem Fisioterapia pelo SNS, vejo que, ano após ano, os meus doentes vão trazendo cada vez menos ‘credenciais’, ficando estes com menos tratamentos e eu com menos doentes e o emprego em risco. A solução tem passado pela ‘racionalização dos recursos’, com as clínicas que por aí abundam a tratar mais doentes por hora com recurso a ‘terapeutas’ sem qualidade, pagos a recibos verdes a cinco euros à hora. Se as pessoas soubessem que a verdadeira Fisioterapia, bem aplicada, necessariamente qualificada, por especializada e individualizada, levaria a melhorias dos doentes mais rápidas e perduráveis!...
Sempre achei que o próprio Sistema não está bem gerido, por, por exemplo, serem realizados demasiados exames complementares para chegar às mesmas conclusões que podem ser obtidas com um mero exame clínico. São também inúmeros os profissionais mal racionalizados, sendo que há demasiados clínicos dedicados aos papeis e às burocracias. Para além disso, o fraco investimento nos cuidados de saúde primários e continuados, os quais permitiriam a poupança de dinheiro nos cuidados hospitalares, é bem demonstrativo do que se continua a fazer: má gestão e falta de estratégia a longo prazo, que é, apesar de menos ‘eleitoralista’, bastante mais eficaz, por económica e eticamente sustentável.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

O corpo e o poder

A história da medicina é também a história de um corpo comummente aprisionado, tratado como um objecto maquinal, desiderato de intenções falazmente racionalistas, prenhas de uma perspectiva biomecânica elevada ao facciosismo. Os médicos de Molière não são específicos da época do cómico francês; são, na realidade, a essência da medicina até que esta, em finais do século XIX, se prende à aura de uma cientificidade aparentemente desmistificadora. Mas mesmo no século XX e parcialmente no actual, existe uma certa medicina paternalista, cometida frequentemente com aquela mistificação própria de uma ciência que se pretende superior e dogmática, e que, munida de um espírito de controlo, denuncia um conjunto de relações de poder.
Essa prática algo “mística” está associada, na realidade, já menos à medicina ortodoxa (apesar de certos médicos continuarem a insistir no facto de os seus doentes serem seu objecto de pertença), mas mais ao conjunto do que podemos denominar de “terapias”. Em particular, as terapias não complementares e até certas psicoterapias são praticadas com recurso à mistificação compulsiva e ao paternalismo intolerável.
Não é por acaso que Michel Foucault, o filósofo de um pós-modernismo contemporâneo emergente, adveio de uma formação psicoterapêutica, e escreveu obras como “A história da loucura na idade clássica” (1961), “A história da sexualidade” (1976 e 1984) e “O poder psiquiátrico” (relativo a 1973-1974), nas quais concebe a história do corpo e da patologia enquanto conjunto de artefactos, modelados não por um quadro específico de valores relativamente estanques e invariantes (subjacente a uma racionalidade que se pretende critério de objectividade), mas por um quadro de “valores” e práticas assaz cambiantes dos diferentes contextos. O filósofo utilizou sobretudo a experiência da psicanálise e a de uma certa psiquiatria como exemplos da forma como, nas relações entre terapeutas e doentes, nas diversas épocas históricas em vigência, está em jogo sobretudo um conjunto de relações que expressam domínio.
Essas “relações de poder”, presentemente, não são apanágio só da luta que estabelecemos pelo nosso direito a um medicamento mais eficaz ou mais barato, ou de um certo conflito existente no processo de consulta médica (para citar alguns exemplos triviais). Essas “relações de poder” põem em jogo a questão subjacente à autonomia do paciente (princípio fundamental da bioética emergente), assim como a própria dinâmica dos modelos de saúde-doença que são atendidos e preconizados na relação profissionais-utentes.
Os terapeutas gostam de dizer que, ao contrário dos médicos, são utilizadores de um modelo de saúde bio-psico-social, mais respeitador da totalidade ética do doente. Mas esta “ética do doente” pode ser bastante enganadora. Veja-se o exemplo dos psicanalistas. Com base num método de trabalho acientífico (porque não falsificável), certos psicanalistas agem como xamãs, interpretando uma sintomatologia (de forma que, muitas vezes, faz mais sentido para o analista do que para o analisando), fazendo muitas vezes juízos de valor relativamente às escolhas e expectativas do doente e, o que é mais grave, interferindo muitas vezes em certos aspectos da vida futura do analisando.
Claro que as relações de poder a que me refiro complicam-se com a questão dos modelos de práticas e das dissemelhantes “epistemis” (Foucault) que enformam o acto avaliativo/interventivo em saúde, não sendo de desprezar a confusão e desorientação do doente perante o acerbo de opiniões divergentes, por parte de profissionais que se munem de diferentes paradigmas de análise, mesmo dentro da mesma especialização teorética. Veja-se o caso de um analisando que visita posteriormente um psicoterapeuta de orientação cognitivo-comportamental ou o caso modelar de um diagnóstico que varia segundo os diferentes médicos da mesma especialidade. No mundo da Fisioterapia temos diferentes exemplos: a diferenciação entre terapeutas “globais” e terapeutas “convencionais”, terapeutas manuais ou reeducadores posturais, terapeutas de neurologia ou terapeutas de ortopedia, mézièristas ou RPGistas, etc.
No meio de tudo isto, somente a educação, a busca activa de informação e a consciencialização para a complexidade das práticas de saúde e dos diferentes paradigmas orientadores da acção clínica poderão ajudar o doente na manutenção da sua autonomia. Por outro lado, a existência de métodos terapêuticos cuja cientificidade não é tradicional, mas podem ser vistos enquanto “Verdade” adstrita a uma ciência pós-moderna, poderá levar, mais uma vez, à desorientação do doente, pela proximidade entre o logro e a verdade. Mas aí a nossa discussão volta, no seio de uma certa circularidade, à temática inicial da mistificação. Em termos práticos, a experiência demonstra que, por vezes, é muito difícil perceber onde está a verdade; aliás, os pacientes que procuram uma solução para os seus problemas só costumam parar a sua busca quando o paradigma do terapeuta se entrosa ou compatibiliza com o paradigma do doente e/ou patologia. De resto, fica a esperança de que o próprio terapeuta, mesmo que afecto a um paradigma específico, seja capaz de vencer a tentação do facciosismo e até mesmo de um potencial fanatismo, de modo a poder encaminhar objectivamente o doente para os caminhos apropriados, mesmo que estes contrariem a orientação do decisor clínico...

Publicado no jornal 'As Artes Entre As Letras', dia 12/01/2011

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Ciência(s) da educação e o objecto do conhecimento

O domínio conteudístico actual da comunicação mediática, aquela que tem sempre um impacto assaz peculiar na opinião pública, tem sido o do “economês”. Mas, em tempos em que a temática da crise económica não estava tão inflacionada, era o “eduquês” que parecia dominar as discussões dos sábios que propalam a “salvação intelectual” nos programas de debate do horário nobre televisivo. Sabemos que este termo tem sido utilizado com um certo intuito pejorativo, e isto acontece porque a visão peculiar da temática educacional parece ser tão idiossincrática e singular quanto é igualmente a discussão, sempre polémica, da existência de uma ou várias ciências da educação.
Tendo sempre sentido um forte chamamento para a tarefa do ensino (mesmo assumindo que essa acarreta uma certa pretensão de moldagem tirana das consciências do “bom selvagem” à maneira de Rousseau, face às pretensões de um Sistema valorativo politicamente determinado...), foi sempre grande o meu cepticismo acerca da possibilidade de “ensinar a ensinar”, pois sempre senti que um talento natural não pode ser criado artificialmente. Daí que tenha sempre esculpido um olhar desconfiado sobre a “pedagogia” dos peritos do ensino, assim como achei sempre perdulária a discussão daquilo que se pode designar como o “fundamento epistemológico da pedagogia”.
Este último respeita ao carácter mais ou menos científico de uma suposta “ciência pedagógica” que alguns ainda não reconhecem como ente autonómico, sendo que, ao invés de nos acercarmos de uma “ciência da educação”, muitos autores preferem falar de um conjunto de ciências que arquitectam o pensar da Pedagogia. Mialaret, em “As ciências da educação” (1980), organiza as referidas em três conjuntos: 1. Ciências que estudam as condições gerais e locais da instituição escolar (História da educação, Sociologia escolar, Demografia escolar, Economia da educação, Educação comparada); 2. Ciências que estudam a relação pedagógica e o próprio acto educativo (Ciências que estudam as condições imediatas do acto educativo: Fisiologia da educação, Psicologia da educação, Psicossociologia dos pequenos grupos, Ciências da comunicação; Ciências da didáctica das diferentes disciplinas; Ciências dos métodos e técnicas; Ciências da avaliação); e 3. Ciências da reflexão e da evolução (Filosofia da educação e Planificação da educação e teoria dos modelos).
A falta de “estatuto científico” relativo à tarefa dos pedagogos é também, em certa medida, intensificada pela dificuldade que há em objectivar os resultados do ensino e o objecto de aprendizagem. E, como bem sabemos, os números nem sempre reflectem a realidade real. E esta pode ser percepcionada de muitas maneiras...
Penso que há dois fenómenos paralelos que estão a ocorrer no mundo da Educação, sendo que pretendo assumir o risco de acreditar que existe um correlato entre ambos. O primeiro fenómeno diz respeito às novas atitudes pedagógicas, bem visíveis nos diversos graus de ensino, secundário incluído. Estas revelam a preferência pelo “ensino global”, as quais premeiam obstinadamente as novas teorias da educação humanistas e existencialistas, focadas num ensino em que a psicologização e a pedagogização superam a necessidade de aumentar o próprio objecto do conhecimento. É verdade que este tipo de ensino é mais ético, menos intrusivo e mais respeitante da própria etimologia da palavra “educar”, mas também é verdade que ele tem acarretado a infantilização do próprio saber. Se a “educação emocional” é essencial, também é verdade que a escola não pode desvirtuar o objecto dos saberes científicos e literários em nome de uma tarefa que deveria pertencer ao domínio preferencial da família. O segundo fenómeno diz respeito ao facto notório da estupidificação compulsiva das novas massas de educandos. Pois é bem sabido que, a par da diminuição da exigência do ensino, os jovens sabem cada vez menos e são cada vez mais acríticos e nescientes.
A polémica relativa às aulas de Português no básico e secundário expressa bem a infantilização a que me refiro lá em cima. É certo que, segundo uma certa “ciência pedagógica”, parece ser mais eficaz a aprendizagem da língua por meio das leituras de jornais do que por meio da leitura de Camões, Camilo ou do Eça, mas também é certo que desvirtuando a leitura dos clássicos é toda uma cultura e todo um mundo de conhecimento e arte que tendem para a desaparição. É preciso saber escrever, mas também é preciso contactar com o verdadeiro objecto do saber, o qual não pode deixar de ser classicista, defendendo eu que este exercício acabará por ter resultados finais mais expressivos em termos do saber, mesmo que erroneamente expressos em números.
E o que mais assusta é que esta mesma cultura da ignomínia e do facilitismo, magnificamente parodiada pelo “Novas Oportunidades”, já perpassou também para o mundo das Universidades. Nestas, o “eduquês” também já faz vítimas, e as práticas de ensino infantilizado, tão bem exemplificadas pelo recurso aos slides coloridos e aos efeitos de circo do PowerPoint, associadas à epidemia das sebentas e dos resumos, contribuem para desvitalizar o próprio objecto do conhecimento “universal”.
Não quero de forma alguma atirar pedras aos pedagogos, educólogos e psicólogos, mas há dias em que o antigo ensino tradicional e magistrocêntrico, reforçado pelas visitas às bibliotecas poeirentas e enformado pelo exercício de um conhecimento puro e absoluto dos antigos mestres, provoca uma certa “eterna” saudade.

O fim da economia e o primeiro homem

No último texto que aqui publiquei, criei uma associação, que de qualquer modo não deixa margem para grandes dúvidas, entre a ciência económica e o neoliberalismo. Mesmo sem ser grande apoiante do capitalismo liberal, reconheço que a ciência de Adam Smith, David Ricardo ou Thomas Malthus se revê com precisão verdadeiramente falsificável (e verosimilhança de metodologia) no neoliberalismo da escola de Chicago; o mesmo que, segundo o autor de “O caminho para a servidão” (Hayek, 1944), esboça o verdadeiro caminho para a democracia. É, de resto, maioritariamente aceite, segundo uma certa ciência clássica e utilitarista, que a ciência económica consubstancia o caminho necessário da teoria política, visão tornada flagrantemente reiterada por tudo e por todos, principalmente desde que uma certa eloquência anticomunista considerou o socialismo morto com a queda da União Soviética nos anos 80 do século passado.
É certo que o socialismo tem mais a ver com política do que com economia. E também é certo que, mais do que um caminho que pretende o desenvolvimento económico-financeiro, o socialismo tem sobretudo a aspiração a uma forma de Bem que poucos compreendem. De certo modo, o socialismo tem pouco a ver com ciência económica, mas é precisamente aí que reside o grande erro atitudinal relativamente à teoria socialista: é que, apesar do trabalho de Marx, principalmente em “O Capital”, incluir uma poderosa análise económica, segundo (como sabemos) os padrões hegelianos do materialismo histórico, o socialismo é mais uma teoria da consciencialização histórica e da revolução do bem-estar global do que uma teoria que se pretende científica. Claro que o próprio Marx pretendia que o socialismo era “científico”, mas, segundo o que já temos dito aqui sobre a temática epistemológica, e à visão de uma filosofia contemporânea do pragmatismo, o socialismo só poderá ser considerado científico se enquadrado na dimensão de uma ciência “pós-moderna”.
Um pouco mais próximo de uma visão científica tradicional, mas sem possuir o mesmo grau de rigor metodológico que o neoliberalismo, o capitalismo keynesiano enquadra-se numa espécie de meio-termo entre o Socialismo e o Capitalismo (daí a relevância do termo “economia mista”, cujas “diatribes” históricas são analisadas por Paul Mattick na obra “Marx and Keynes”, 1955). Mas desenganem-se os socialistas, pois Keynes era um conservador e era um verdadeiro capitalista. O seu “socialismo” não deixa de ser um “socialismo de mercado”. Aliás, como pode ser lido nas obras de Tony Judt (principalmente no recente “Tratado sobre os nossos actuais descontentamentos”, 2010, Edições 70), o próprio conceito de Estado-providência foi criado por conservadores. E diga-se em boa verdade que tanto o keynesianismo como a teoria da “social-democracia” (que, como sabemos, propugna a importância do Estado-providência) surgem historicamente ligados a uma reacção às crises provocadas pela banca e pelos excessos dos grandes grupos económicos afectos ao neoliberalismo mais radical.
Sabemos que a crise actual tem propiciado reacções de todos os tipos. Os neoliberais dizem que o mercado tem capacidade de auto-regulação. Os comunistas dizem que afinal a utopia socialista nunca esteve tão perto. E os proponentes da social-democracia continuam a achar que a crise actual não é uma crise do Estado-providência. (E, na verdade, a meu ver, não é mesmo uma crise do Estado-providência, pois o défice - e a falta de recursos - advém mais dos excessos de Governos incompetentes e corruptos do que propriamente da própria “falência” do Estado-providência, requerendo-se, portanto, uma maior competência na gestão e na liderança, incluindo a consumação de um Orçamento que não seja feito ao jeito dos grandes interesses económicos).
Falemos do socialismo radical ou do socialismo de mercado, contrariando um certo tipo de desenvolvimento económico-financeiro radicado na teoria do “livre-arbítrio” e numa certa propensão de animalidade egotista e competitiva, a esquerda continua a ser o único lado que consubstancia o ser humano como falível e objecto de um certo determinismo epigenético e sócio-cultural (é aqui que reside o erro da “meritocracia” neoliberal, pois esta esquece que as capacidades de cada um reproduzem as desigualdades sociais previamente existentes; de certo modo o neoliberalismo pressupõe a perpetuação das mesmas desigualdades que enformam a sociedade de classes).
Mesmo não constituindo uma ciência no sentido tradicional, e estando mais próximo da teoria política do que da ciência económica propriamente dita (subentendendo uma “epistemis-processos” a destronar uma “epistemis-produto”), o advento do socialismo é determinante no sentido ético e humanístico, detendo como mensagem principal que “os meios são mais importantes que os fins”. Se isto dá ao socialismo o estatuto de uma “sociologia pós-moderna” (passe-se o potencial pleonasmo!...) pouco rigorosa e muito criticável, então prefiro correr o risco de me aglutinar com a realidade real, dando a primazia ao ser humano na sua globalidade psicossocial e trans-histórica.

sábado, outubro 23, 2010

"Mézières’ method and muscular chains’ theory: from postural re-education’s physiotherapy to anti-fitness concept"

Um novo artigo foi publicado na Acta Reumatológica Portuguesa. Desta vez em inglês...para facilitar a "internacionalização" do conceito de Reeducação Postural. E escrevo isto aqui na Terceira, Açores, a caminho do último dia do I Congresso Internacional de Desporto e Actividade Física de Angra do Heroísmo. A cidade é maravilhosa, assim como têm sido dias interessantes, incluindo a amizade e sapiência do Prof. Paulo Araújo e do seu PNF-Chi.
Mas, entretanto, deixo-vos com o link do artigo intitulado "Mézières’ method and muscular chains’ theory: from postural re-education’s physiotherapy to anti-fitness concept": http://www.spreumatologia.pt/sites/spreumatologia.pt/files/publications/articles/27._LE_-_Mezieres_ARP2010.78LE.pdf.

domingo, outubro 17, 2010

A doutrina económica enquanto ciência pós-moderna

Em tempos fiz, no espaço deste jornal, a defesa do neo-liberalismo enquanto modelo de salvação da crise portuguesa e, em geral, do Modelo Social Europeu. Estaria enformado pela ideia de um profissional de saúde que trata o enfermo segundo as manifestações clínicas presentes: em linguagem económica, servir-se-ia o keynesianismo a países fortemente neo-liberais (é o caso de Obama nos EUA) e servir-se-ia o neo-liberalismo a países fortemente keynesianos (como os países da Europa do sul). Daí “receitar” o neo-liberalismo a Portugal e à dormente função pública portuguesa. Também fiz a defesa de que esse mesmo modelo de Hayek é que constituiria a verdadeira ciência no sentido em que é entendido por Popper e muitos dos que preenchem os quadros académicos da London School of Economics. Mas, à semelhança daquilo que tenho feito nos diversos textos deste jornal – o esboçar do pretenso conflito entre uma ciência “exacta” propriamente dita e uma ciência “pós-moderna” por muitos entendida por pseudociência – pretendo dar agora a outra face da moeda.
Pois se é certo que a ciência económica propriamente dita parece mais de acordo com as análises doutrinárias “clássicas” do liberalismo iniciadas pelos fisiocratas e essencialmente por Adam Smith, o pai do capitalismo, e seus “associados” (como David Ricardo e Thomas Malthus), e com o contemporâneo neo-liberalismo, também é certo que essa mesma “ciência propriamente dita” só o é enquanto “método” ou “produto”, esbarrando contra a parede da Ética no momento de falarmos dos “processos” ou do “caminho”. A verdade é que não podemos simplesmente ignorar a realidade histórica e não podemos ignorar que a história das doutrinas económicas inclui reacções proteccionistas e intervencionistas do Estado, incluindo a teoria socialista, que é, em última análise, a mais determinante teoria económica que alguma vez se constituiu.
Sabemos que, tal como defendido por muitos liberais, o socialismo não é científico, não obstante a beleza da sua conteudística humanista. Mas também sabemos que a Verdade verdadeira e real pode, eventualmente, estar naquilo que uma medição científica não quantifica: a estética do “caminho” e a beatitude dos processos humanos envolvidos na teoria do socialismo.
Enquanto fisioterapeuta que sou, defensor da teoria mézièrista das Cadeias musculares e da Reeducação Postural, que acarreta implicações que contrariam a ciência fisioterapêutica partilhada por mais de 99% dos profissionais da área, sempre pensei que é possível que estas “maiorias científicas” da imprensa que advogam a morte do Socialismo e da utopia colectivista estivessem errados, porque potencialmente enfermos da doença da “ciência clássica”. Estando bem patente em mim a contradição de quem já muito defendeu Popper e o falsificacionismo de demarcação entre ciência e pós-ciência, e não deixando nunca de admirar e de admitir a pragmática positiva e utilitária da obra do autor de “A pobreza do historicismo”, não posso deixar de pensar que a Verdade real pode eventualmente estar na ciência dita historicista, pós-moderna e relativista, que é, na Economia, representada, no seu máximo expoente, pela visão marxista.
Sabendo que o socialismo não é feito só de Marx e Engels (sendo que há outros nomes importantes na história do socialismo como Saint-Simon, Robert Owen, Charles Fourier, Louis Blanc ou Proudhon), sabendo também que a obra de Marx tem sido mal interpretada, e admitindo que existe uma via mais contemporânea de socialismo que se denomina de “socialismo de mercado”, “social-democracia” ou “terceira via” (Anthony Giddens), não podemos deixar de ter em conta o humanismo de uma teoria que esboça a importância do ser humano enquanto verdadeiro “alvo” do capital.
É certo que esse humanismo esboça uma ética exigente que, para ser construída, fez (e faz) uso de muitos sistemas totalitários. É também certo que o socialismo parece ser considerado, pelas tais “maiorias científicas”, como morto, pelo menos desde a queda da “cortina de ferro”. Mas também é certo que, mesmo admitindo a falência do Modelo Social Europeu e a necessidade da criação de um novo modelo de gestão dos Estados Sociais (que nunca deverão perder este cunho), o advento do socialismo de mercado continua a parecer o mais aceitável, se é que queremos respeitar as verdadeiras características falibilistas do ser humano.
É que, ao preconizar o “cada um por si” e a premiação do mérito e das capacidades individuais de cada um, o neo-liberalismo esquece um facto importante: as desigualdades de mérito e capacidades reproduzem as desigualdades sociais; e estas são função de um certo determinismo genealógico e histórico-social. Mesmo a Educação universal e gratuita não pode produzir a igualdade social, pois as crianças levam para as escolas as culturas familiares e intelectuais de que são basilarmente vítimas. A educação e o insucesso escolar é vítima das desigualdades sociais, e o contrário é menos verdade.
Ora, mesmo assumindo que o socialismo radical produziu resultados medíocres ou mesmo antitéticos, não posso deixar de assumir que o “socialismo científico”, mesmo que de “científico” tenha pouco (e de pós-moderno tenha eventualmente muito), possui uma mensagem determinante para a humanidade: é que os meios continuam a ser mais importantes que os fins.

A propósito da crise e da ciência económica

Parece que já tudo foi dito sobre a crise e a situação económico-financeira desta nossa pobre nação. Todos vituperam e todos receitam soluções. E, não bastasse a Economia ser uma temática de tão complexos detalhes e inumeráveis explicações do tipo “ciclo vicioso”, também as ciências política e sociológica parecem com aquela ter inumeráveis ligações difíceis de descortinar. É pena que a teoria subjacente à “Intelligentsia económica” tenha estado a ser tão pouco aludida e tão descaradamente negligenciada pelos profissionais e intelectuais da área.
Há coisas do campo da epistemologia científica que importam ao reino da Economia. Importa, por exemplo, clarificar se a ciência económica é do tipo “exacta”, com uma capacidade mínima de previsão, ou se, à semelhança da História e de uma certa sociologia, é do tipo “social”, onde pode abundar o conjunto de imprecisões capazes, em última instância, de uma aproximação a um certo tipo de relativismo pós-moderno.
A julgar pelos diálogos entre os economistas a propósito da crise portuguesa e da crise internacional, mais parece que a ciência económica parece indissolúvel do “Caos” financeiro dos mercados. Este “relativismo” é visível até na forma como as “ideologias económicas” são defendidas. Por exemplo, com a crise internacional de 2008, houve, nesse mesmo ano, quem defendesse o keynesianismo como a solução para a crise do capitalismo anglo-saxónico. Os liberalistas, entretanto, defenderam-se com a “teoria dos ciclos económicos”. Com a resolução parcial da crise americana e o agravamento da crise europeia, parece que volta a haver uma defesa do neo-liberalismo e uma regressão defensiva das teorias de Keynes e dos “excessos” do Modelo Social Europeu...
A questão das ideologias remete-nos para o campo do dogmatismo e este para o terreno do relativismo e do acientificismo. Por exemplo, os teóricos da London School of Economics foram grandes críticos das “falsas” ideologias, perigosas por se confundirem com a ‘Verdade’ das ciências. Popper critica o ‘socialismo científico’ do marxismo e Hayek, o pai do neo-liberalismo, apresenta o “planeamento central” e a “estatização” como males basilares dos colectivismos ditatoriais, tanto o socialismo como o fascismo (este outra forma de “socialismo”...). Em particular o autor de “O caminho para a servidão”, em conjunto com outros liberais, como Milton Friedman, os quais viriam a ser conhecidos como a “escola de Chicago”, advoga como caminho para a democracia o mercado de livre iniciativa, a competitividade e a privatização. Este viria a ser até anunciado como a nova forma de democracia, pendente enquanto “fim da história” (Fukuyama), com a queda do socialismo enquanto sistema, em finais dos anos 80.
Ora, tendo necessariamente em conta certos critérios como princípios de “demarcação científico – não científico” (Popper), necessários à aproximação da Economia à categoria de verdadeira ciência (e ao afastamento relativamente às ideologias dogmáticas e pré-científicas) – sendo esta uma condição da edificação de fórmulas bem sucedidas de “bem estar económico” das civilizações e da diminuição do grau de “incerteza” relativista que permite a corrupção e a libertinagem de políticos mal intencionados –, é certo que a ciência económica propriamente dita parece mais próxima do pragmatismo neo-liberal do que do keynesianismo ou da ideologia socialista (ou mesmo do “socialismo de mercado” ou da “terceira via” de Anthony Giddens). Segundo Guy Sorman, mesmo fazendo uso de meios mais cruéis, os resultados do neo-liberalismo apontam este “capitalismo” de “mercado livre” como solução para a crise financeira e para a criação de um Estado mínimo (subjacente à ideia de que é impossível haver saúde, educação e segurança social acessíveis às classes sem haver riqueza).
Por mim, acredito que, em específico, certos luxos do Estado Social português, como as mordomias da Função Pública, não se coadunam com o Estado mínimo. Aliás, enquanto alguns ganham ordenados milionários e têm direito a subsídios de férias e de Natal, enquanto que outros não possuem quaisquer direitos, é impossível falar de igualdade e é impossível continuar a falar por muito mais tempo, por exemplo, de Educação gratuita ou da sustentação de um Serviço Nacional de Saúde.
Mesmo constituindo o pesadelo da “esquerda”, e admitindo a necessária mudança estrutural do paradigma cultural e psicanalítico de Portugal e do seu povo (o que inclui o aumento do espírito de combatividade e de autonomia e a perda do espírito do “coitadinho”, todos estes dependentes de uma evolução assaz prolongada na matriz da estrutura educacional e intelectual dos portugueses), acredito que só um conjunto de estratégias verdadeiramente neo-liberais (incluindo o ganho de vencimentos variáveis segundo a produtividade), desde que éticas e centradas na qualidade de vida da Pessoa (não queremos o capital pelo capital), pode salvar o nosso país e manter a mínima (porque “absoluta” é impossível) “igualdade de oportunidades”: educação obrigatória, saúde básica, qualidade de vida básica e segurança social tendencialmente gratuitas para os escalões economicamente mais baixos da sociedade classista portuguesa.

Publicado no jornal 'As Artes Entre As Letras', dia 15/12/2011

quarta-feira, outubro 13, 2010

A propósito da Fisioterapia em Portugal... para brasileiros

Tenho absoluta consciência de que, desde a sua criação, o meu blogue tem sido visitado sobretudo pela população brasileira. Não é difícil perceber porquê, visto que o blogue é sobre ‘Reeducação Postural’ e especificamente a ‘Reeducação Postural Global’ está (há muito tempo) inflacionada no Brasil enquanto tema dominante, e visto também o meu blogue ser “internacional”, por pertencer ao ‘Google’. Devo dizer que tenho, à custa das visitas dos colegas brasileiros, esboçado muitos conhecimentos, assim como tenho feito amigos e companheiros de ‘MSN’. E já no passado publiquei aqui um texto em que falava um pouco sobre o meu conceito de Fisioterapia no Brasil, o qual é bastante positivo; na realidade, a Fisioterapia no Brasil apresenta um nível de desenvolvimento científico, tecnológico, interdisciplinar, académico (incluindo a existência de ‘especializações’, as quais não existem em Portugal) e social muito superior ao de Portugal.
Tudo isto vem a propósito de uma questão que me é feita muitas vezes pelos fisioterapeutas brasileiros: a situação da profissão e da formação em Fisioterapia em Portugal. O objectivo – claro – é o de alguns dos colegas do “país irmão” visitarem Portugal e, eventualmente, trabalharem cá. Ora, pretendo, neste texto, responder precisamente aos colegas brasileiros que têm essa pretensão...
Na realidade, nada me dá mais prazer do que receber colegas de profissão aqui no nosso pais. Mas, não querendo de forma alguma ter quaisquer segundas intenções ou frustrar a vinda dos colegas, devo desde já dizer que, a cada segundo que passa, merece cada vez menos a pena visitar Portugal.
Há uns anos atrás, arranjar emprego em Fisioterapia em Portugal era relativamente fácil, mas, precisamente porque havia grande oferta de empregos, e também devido à falta de legislação associada a múltiplos corporativismos, o número de escolas de Fisioterapia passou de quatro ou cinco para 17. Ora, isto fez com que, em poucos anos, o número de fisioterapeutas aumentasse exponencialmente. Temos, efectivamente, no tempo presente, fisioterapeutas a mais para as necessidades actuais do mercado português (e este evolui à velocidade da tartaruga...). E, acrescentando a isso a emergente crise económica do nosso país e a consequente desvalorização monetária e social da Fisioterapia (e das suas tabelas financeiras), a profissão é cada vez mais mal paga. Para além disso, a situação da maioria dos fisioterapeutas portugueses é precária, com entradas para a Função Pública há muito congeladas.
Mas os males da Fisioterapia em Portugal não se ficam por aqui. Por exemplo, o curso de Fisioterapia ainda está ao nível do politécnico (apesar de já existirem muitos mestrados e doutoramentos universitários na área), sem especializações, e com um investimento conceptual e tecnológico pobre. Em tudo, ou quase tudo, a Fisioterapia brasileira está mais evoluída que a portuguesa, incluindo o facto de áreas como a ergonomia, a osteopatia e a quiroprática serem, como acredito que devem ser, especialidades da Fisioterapia no Brasil, enquanto que aqui são profissões autónomas, que advogam uma pretensa autonomia profissional e também teorética e metodológica. Posso acrescentar também que, aqui em Portugal, os cursos são crescentemente mal dirigidos (como todos os cursos de outras áreas), com recurso cada vez maior ao facilitismo, incluindo professores sem qualquer “obra académica”.
Poderia acrescentar que os fisioterapeutas portugueses são mal reconhecidos e mal representados socialmente na mente dos próprios portugueses, e que a profissão não possui Ordem ou qualquer tipo de influência política ou corporativa. Nos Hospitais, por exemplo, a Fisioterapia não costuma ter Serviço próprio, é apenas um Departamento integrado num Serviço de ‘Medicina Física e de Reabilitação’.
Ora, a realidade actual é precisamente a de que os fisioterapeutas são muitos e mal pagos, mal respeitados apesar de crescentemente sabedores e capacitados, e que o precário desenvolvimento económico do país não promete o crescimento do mercado e a mudança de mentalidades.
Por outro lado, na minha visão, a Fisioterapia no Brasil possui mais respeitabilidade, mais áreas de intervenção, mais coerência académica e disciplinar, e até mais suporte tecnológico e político-administrativo. É verdade que, à semelhança de Portugal, os fisioterapeutas brasileiros são muitos e que o mercado não absorve todos os que existem, existindo um desemprego pandémico entre os fisioterapeutas brasileiros. Mas essa mesma situação já está praticamente igualada em Portugal (ou para lá rapidamente caminha), com muitos fisioterapeutas portugueses a escolherem emigrar para a França, a Itália, a Suíça ou o Luxemburgo, locais onde as coisas correm aparentemente melhor.
É certo que o Brasil possui um mercado muito esgotado. Mas também é certo que, apesar de muitos brasileiros não o sentirem, a economia brasileira está a expandir-se de tal modo que é provável que a situação no Brasil venha a mudar muito nos próximos anos. Já a crise económica portuguesa não tem perspectivas de melhoras (actualmente até vivemos numa aproximação “virtual” à bancarrota e à implosão dos mercados financeiros nacionais e internacionais), e, portanto, a ideia de que “o mercado é que tem de mudar” não passa disso mesmo...de uma ideia.
Por tudo o que deixo dito, devo então concluir que, apesar de serem – pelo menos por mim – bem vindos a Portugal, é possível que alguns dos fisioterapeutas brasileiros não consigam ter sucesso neste nosso país em crise estrutural profunda. É sempre bom conhecer um país do velho Continente, até porque Portugal tem um lindo património histórico-cultural, mas as perspectivas de encontrar emprego ou boas formações em Portugal é pequena. E a perspectiva de se fazer uma pós-graduação em Portugal parece ‘positiva’, mas não me consigo lembrar de nenhuma área de intervenção da Fisioterapia portuguesa em que os brasileiros não estejam mais desenvolvidos; penso que a diferença poderá residir na própria ‘Reeducação Postural’, com métodos como a base do “Método Mézières” a terem formação em Portugal e sem formação no Brasil.
Por tudo o que fica dito, não posso, no entanto, deixar de desejar ‘Boa sorte’ a quem vem (e também a quem “lá” fica) e ainda mais a quem resolver visitar outros países europeus. Da minha parte, manter-se-ão sempre o apoio e as informações.

(Entretanto, outros aspectos sobre a Fisioterapia portuguesa estão incluídos no meu "Manifesto sobre a emergência de uma fisioterapia pós-moderna", consultável aqui no blog ou em  http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blogs/manifesto-sobre-a-emerg-ncia-de-uma-fisioterapia-p-s-moderna?xg_source=msg_appr_blogpost, texto incluído no meu último livro, «A Clínica do Sagrado (...)»: http://reeducacaopostural.blogspot.pt/2014/02/a-clinica-do-sagrado.html) 

quarta-feira, outubro 06, 2010

Novo artigo "Os efeitos da 'Reeducação Postural Global': uma revisão sistemática da literatura"

O meu novo artigo, intitulado "Os efeitos da 'Reeducação Postural Global': uma revisão sistemática da literatura", encontra-se publicado no nº IV do TDTonline. Pode ser consultado em http://www.tdtonline.org/articles.php?id=magazine&mode=view_news#visualizacao. Espero que este artigo seja o primeiro de muitos mais estudos originais e meta-análises que se façam em redor da temática da Reeducação Postural, pois, neste mundo "reeducativo" ainda faltam os estudos transversais de qualidade (e as revisões sistemáticas respeitantes aos mesmos) que ajudem a defender a Reeducação Postural como método legítimo de intervenção, centrado em "Evidenced Based Practice". 

sábado, setembro 18, 2010

Congresso Internacional de Desporto e Actividade Física de Angra do Heroísmo

De 21 a 23 de Outubro irá decorrer o I Congresso Internacional de Desporto e Actividade Física de Angra do Heroísmo, com presença de vários oradores, incluindo eu próprio e o icónico Prof. Paulo Araújo.
Prevê-se que a minha conferência se intitulará "Reeducação Postural e a teoria das Cadeias Musculares: Implicações para a prática desportiva" e se irá realizar dia 21. No dia 23 será a vez de se realizar um workshop intitulado "Reeducação Postural e Cadeias Musculares: fundamentos". Estes dados ainda são novos e vão ter mais desenvolvimentos.
As primeiras informações sobre o Congresso e o alojamento poderão ser encontradas no site http://www.cidafah.com/, sendo que há ainda vagas para a participação (as datas limite de inscrição foram adiadas).

sábado, agosto 21, 2010

O mau jornalismo

A frase “A culpa é da comunicação social” aparece no artigo assinado por Henrique Monteiro no Expresso de 14/08/10. Com minha grande satisfação, Henrique Monteiro admite no seu texto que existe aquilo que podemos designar de um ‘mau jornalismo’. E não é precisamente esse mesmo ‘mau jornalismo’ que tem constituído o bode expiatório de tantos criminosos e governantes?... Não é precisamente também o ‘mau jornalismo’ que tem sido catapultado pelos governos como justificação para a censura ou simplesmente o ‘controlo prévio’ de informação?...
Penso que a temática tem sido pouco desenvolvida entre os leitores dos jornais e, principalmente, entre os próprios jornalistas. É que, a meu ver, o jornalismo é e será sempre a ‘pedra filosofal’ que permitirá o verdadeiro alcance da verdade, tanto em termos epistemológicos, como em termos pragmaticamente políticos e sociológicos. O jornalismo é verdadeiramente o instrumento das autênticas democracias e de uma certa justiça com verdadeiro sentido de ser. E, não tenho dúvidas, de que os jornalistas de hoje são os historiadores do amanhã.
Infelizmente, ou porque falta um verdadeiro sentido de ética, ou porque faltam critérios científicos de prática jornalística (não obstante a existência dos estatutos editoriais...), a grande maioria dos jornais, tanto da imprensa escrita como da televisão e outros media, pecam pelo absurdo, pela prática de um ‘jornalismo’ de sensações, caindo na armadilha da mentira, do exagero e, sobretudo, do desenquadramento lógico das notícias. Por exemplo, várias vezes tenho criticado o jornalismo por empolar um estudo polémico (portanto, mediático), ignorando centenas de outros estudos sérios que desmentem esse estudo isolado.
O jornalismo não pode ser espectáculo. O espectáculo não passa de entretenimento. O jornalismo não pode ser mero conjunto de ‘fait-divers’. O jornalismo não pode ser pura imagética ao serviço da lógica mercantilista. Mas, sendo-o na sua maioria, é necessário que os poucos jornais de qualidade ainda existentes continuem não só a expressar a sua qualidade, como deverão, mais do que têm feito, dar lugar à reflexão ética e voz objectiva e não censurada aos leitores e provedores do leitor. Defendo a criação e exposição dos critérios de prática do jornalismo do jornal em causa. Defendo também que os textos dos jornalistas e também dos leitores sejam sujeitos a critérios de qualidade que passem mais pela objectividade do que pela lógica editorial do jornal.

Publicado na Carta da Semana no Expresso de 21/08/10