Decorrido, entre os
dias 6 e 8 de Dezembro, o mais recente Congresso da Associação Portuguesa de
Enfermeiros de Reabilitação, e tendo aflorado na Comunicação Social algumas notícias
sobre a importância e novas oportunidades relativas à atividade em questão,
vozes de contestação por parte de colegas fisioterapeutas fizeram-se soar ao
ponto de uma antiga querela, de uma antiga polémica, parecer agora renascer com
força amplamente recrudescida. Não obstante a minha visão dura e flagrantemente
crítica dos fisioterapeutas e da sua realidade, não posso deixar de me
solidarizar com as referidas vozes; é que, no caso em questão, os fisioterapeutas
têm toda a razão na sua contestação, ainda mais porque somente neste nosso país
do “cada um por si” os decretos legais poderiam concretizar a possibilidade de
existirem duas atividades cujos objetivos e planos de intervenção são
potencialmente confundíveis e interpoláveis.
Não concordo com
vozes acaloradas por parte de colegas que se sentem – justamente –
injustiçados, ainda que as compreenda. Os enfermeiros – esses sim – são mestres
nesse tipo de reações irracionais, típicas de uma classe cuja insegurança “psicodinâmica”
requer uma reatividade em “alcateia”. Também não vejo que a apresentação de
estudos relativos à nossa intervenção resolva a questão “de quem tem razão” ou “deixa
de o ter”; os enfermeiros também os possuem, se bem que os fisioterapeutas
contêm um tamanho incomensuravelmente maior de investigações potencialmente
justificativas de uma intervenção do tipo “Evidenced Based Practice” (a
comparação seria até ridícula, com a profissão a ser identificada com um mundo
incalculável de publicações e de linhas imensas de investigação); de qualquer
modo, possuo sabidamente uma desmedida desconfiança relativamente a este tão
propalado mundo de estudos que não perdem o seu mero carácter “estatístico-probabilístico”
(para não falar das incontáveis limitações dos ditos estudos, assim como as
fraudes existentes neste tipo de investigações…). Por outro lado, dispenso
justificações legais por parte dos proponentes das duas profissões, pois que
ambas são baseadas em “decretos legais” aparentemente transparentes. Assim como
também dispenso a lógica do “ovo e da galinha”, até porque tanto a Enfermagem
como a Fisioterapia foram inicialmente criadas no contexto da medicina (o que
não significa que não possam afastar-se desse mesmo contexto e ganhar o direito
à autonomia; assumir que tal não é possível é o mesmo que assumir que os filhos
de determinados pais não possuem o direito a sair de casa e a ter os seus
próprios filhos). É certo, isso sim, que a nível internacional, tais
divergências legais não existem, e a profissão de Fisioterapeuta parece ter um
nível de reconhecimento crescente, com as atividades de “enfermagem de
reabilitação”, “técnico auxiliar de Fisioterapia” e “médico fisiatra” a não
existirem ou em amplo processo de “extinção”…
Recentemente
publiquei no site do Expresso um artigo intitulado «Médicos, enfermeiros e
afins: poder e capitalismo» (http://expresso.sapo.pt/medicos-enfermeiros-e-afins-poder-e-capitalismo=f744055)
onde apresento o essencial do que defendo (o que vai muito para além da
consideração óbvia de que as lutas entre os profissionais de saúde são, como
tudo ou quase tudo o que acontece ao nível do animalismo humano, lutas em nome
do Poder, o que, em última análise, já foi o grande desiderato da obra
filosófica de Michel Foucault) e que é o seguinte: Acredito, sobretudo, que a autonomização das profissões de Enfermagem
ou de Fisioterapia passa essencialmente pela afirmação de um modelo próprio,
autónomo da Medicina, consistente numa perspetiva holística de um “Todo” do
doente, em que, ao invés de o vermos como um conjunto de peças ou sistemas
desarticulados, o passamos a conceber como uma Totalidade interdependente (um
pouco como o paradigma da Reeducação Postural – e também os modelos
neurológicos –, que há muito defendo, preconiza), o que significa, em última
análise, que a autonomização das profissões em questão depreende
necessariamente o abraçar de um Modelo Epistemológico renovado que, mesmo
existindo na Teoria, está longe de se verificar na Prática (visitem-se, no caso específico da nossa profissão, as
diferentes Clínicas de Fisioterapia do nosso país, assim como muitos outros
contextos em que a Fisioterapia mantém o seu modelo médico-prescritivista,
porque ainda fortemente praticada segundo um modelo de Códigos). Acredito,
igualmente, que o abraçar desse novo modelo exige uma nova Cultura, uma nova
atitude, um renovado interesse pelos modelos filosófico-epistemológicos (que os
meus colegas muitas vezes acusam de nada servirem, não obstante o facto de há
muito defender a sua importância e de “picar” os colegas para se agarrarem aos
livros e aos Clássicos e não somente à prática da Fisioterapia propriamente
dita), que, como já disse, são a única porta de acesso à merecida autonomização
profissional. Acredito, também, que a Fisioterapia
se encontra numa posição privilegiada para abraçar esse mesmo modelo Holístico,
até porque a natureza psico-motricista
e posturológica da sua Intervenção é
ímpar no que respeita à preconização de uma prática específica e
verdadeiramente autónoma (e que só pode resultar se for de facto “autónoma”,
pois sendo a intervenção do tipo totalizante
e metamórfica/fluídica, não pode ser
reduzida a prescrições e/ou a outras inconcebíveis limitações).
Ora, perante tudo o
que se apresenta, e atendo as práticas, as experiências e a tão grande formação
do Fisioterapeuta em termos de um quase inexprimível potencial de avaliação e
intervenção neuro-musculo-esquelética, é quase ridículo pressupor que um
Enfermeiro possa realizar uma prática semelhável à do Fisioterapeuta. Até
porque, por mais que a Enfermagem também se considere holística e autónoma,
parece óbvio que a dita profissão está muito longe de alcançar o já apresentado
modelo Totalizante do doente. É que, mesmo que a Enfermagem se conceba como biopsicossocial, não possui a tal visão
de um “Todo neuro-músculo-esquelético” que somente um Fisioterapeuta pode ter e
que as (suas) formações específicas do tipo neurológico e reeducativo
necessariamente enriquecem. Trata-se, portanto, de uma diferença essencialmente
de Natureza Epistemológica, em que o
Corpo de um Todo interdependente e em constante transformação (como já defendi
nos meus livros e em artigos recentes: http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blogs/para-uma-fisioterapia-pos-moderna-em-portugal)
está longe de ser adequadamente compreendido pelo enfermeiro (principalmente,
porque a formação e intervenção do enfermeiro continua a ser essencialmente “médica”,
na sua perspetiva basilarmente epistemológica).
Ora, a reforçar a
minha noção de que a Enfermagem continua a possuir uma natureza essencialmente «Prescritivista-Patológica-Médica» vem o
conjunto recente de “ambições” da dita classe profissional: pretendem ter o
poder de prescrever exames e
medicamentos. Ora, a visão de um Fisioterapeuta é (ou deverá ser)
necessariamente Não prescritivista,
porque se vê o corpo como um Todo não
fragmentado (recomendo o artigo do Expresso.pt: http://expresso.sapo.pt/capitalismo-e-medicina-o-corpo-fragmentado=f726745),
o que, mesmo não estando completamente presente na atual e não-ideal
intervenção do Fisioterapeuta, pode e (acredito eu) virá a estar presente, pois
que, pela sua formação e especificidade, o Fisioterapeuta possui a Natureza
Epistemológica e Profissional ideal e necessária.
Admitir que uma Especialidade
(por mais tempo que ela dure) torna um Enfermeiro capaz de possuir a visão e a
Potencialidade de um Fisioterapeuta é admitir que um Enfermeiro é capaz de
deixar de o ser para se tornar um Fisioterapeuta. Ora, se é de uma mudança
profissional que se trata, é preferível que o dito Enfermeiro mude simplesmente
de profissão, aconselhando-o a tirar uma nova licenciatura. Ou vamos assumir
que uma Especialização poderá dar ao enfermeiro a riqueza de visões e até de
métodos que possui um Fisioterapeuta? Saberá o enfermeiro de Reabilitação o que
é o PNF, o método Bobath, a Reeducação Postural, entre tantos outros?
Compreenderá o enfermeiro que todos estes métodos são passíveis de se entrosar
num Corpus que somente o Fisioterapeuta – pela sua formação tão abrangente e multiparadigmática
– poderá adequadamente compreender? Não perceberá o enfermeiro de Reabilitação
que uma adequada intervenção terapêutica requer uma compreensão de múltiplos
modelos, que somente um profissional adequadamente tocado pela riqueza e até as
lutas entre Métodos e Paradigmas poderá tentar “dominar”?
Ora, é indiscutível
que a única coisa que interessa ao Enfermeiro de Reabilitação é a tentativa de
se “safar” neste nosso mercado e país em crise, independentemente de estar ou
não a respeitar uma determinada Ética, ou de estar ou não a ser minimamente
cortês para com outros profissionais de saúde (que, aliás, muitos enfermeiros
desconsideram, pois que muitos deles têm por certo que um Fisioterapeuta não é
um profissional de saúde…). Por outro lado, é já por si mesmo ridículo que um
enfermeiro de Reabilitação possa achar que é um Terapeuta capaz de ter a
riqueza de visões que somente os Terapeutas (Fisioterapeutas, Terapeutas
Ocupacionais e Terapeutas da Fala, entre poucos outros) podem ter, e isto
inclui a ideia de que os enfermeiros de “Reabilitação” também operam ao nível
da Prevenção (afinal de contas, o enfermeiro de “Reabilitação” reabilita ou é
também um mestre dos “Cuidados primários”?).
Não gostaria de cair
aqui nas limitações egomaníacas e lobistas das “especializações profissionais”,
até porque podemos conceber perfeitamente a intervenção em Equipa, e, dentro
desta, a eventualidade de um modelo transdisciplinar (por mais que a Realidade
persista em não o admitir), em que os diferentes profissionais partilham e entrosam
as suas capacidades e papéis. Mas é preciso igualmente ter uma adequada noção
de Especialização, tal como a consequente noção de respeito pelas capacidades e
potencialidades de cada profissão (a nível Sociológico, poderíamos apontar a
limitação relativa à existência de diferentes papéis sociais, mas igualmente poderíamos
referir a incontornabilidade da sua existência, pois que sem a “especificidade”
não há Organização Social possível, pelo menos nos termos da Sociedade moderna
em que vivemos). Neste contexto, é notório que estes Enfermeiros não se encontram
disponíveis para respeitar um terreno rico, mas específico, que é dos
terapeutas. Isso não indica somente Egomania, desprezo, ignorância e
desonestidade intelectual. Indica uma profundíssima incapacidade de cortesia, uma
verdadeira tendência infantil para querer tudo Ser e, sobretudo, tudo Ter!
Publicado no site do Expresso: http://expresso.sapo.pt/enfermagem-de-reabilitacao-e-fisioterapia-percecao-de-uma-ameaca=f773168
Publicado no site do Expresso: http://expresso.sapo.pt/enfermagem-de-reabilitacao-e-fisioterapia-percecao-de-uma-ameaca=f773168

