domingo, dezembro 09, 2012

Enfermagem de Reabilitação e Fisioterapia: perceção de uma ameaça

Decorrido, entre os dias 6 e 8 de Dezembro, o mais recente Congresso da Associação Portuguesa de Enfermeiros de Reabilitação, e tendo aflorado na Comunicação Social algumas notícias sobre a importância e novas oportunidades relativas à atividade em questão, vozes de contestação por parte de colegas fisioterapeutas fizeram-se soar ao ponto de uma antiga querela, de uma antiga polémica, parecer agora renascer com força amplamente recrudescida. Não obstante a minha visão dura e flagrantemente crítica dos fisioterapeutas e da sua realidade, não posso deixar de me solidarizar com as referidas vozes; é que, no caso em questão, os fisioterapeutas têm toda a razão na sua contestação, ainda mais porque somente neste nosso país do “cada um por si” os decretos legais poderiam concretizar a possibilidade de existirem duas atividades cujos objetivos e planos de intervenção são potencialmente confundíveis e interpoláveis.
Não concordo com vozes acaloradas por parte de colegas que se sentem – justamente – injustiçados, ainda que as compreenda. Os enfermeiros – esses sim – são mestres nesse tipo de reações irracionais, típicas de uma classe cuja insegurança “psicodinâmica” requer uma reatividade em “alcateia”. Também não vejo que a apresentação de estudos relativos à nossa intervenção resolva a questão “de quem tem razão” ou “deixa de o ter”; os enfermeiros também os possuem, se bem que os fisioterapeutas contêm um tamanho incomensuravelmente maior de investigações potencialmente justificativas de uma intervenção do tipo “Evidenced Based Practice” (a comparação seria até ridícula, com a profissão a ser identificada com um mundo incalculável de publicações e de linhas imensas de investigação); de qualquer modo, possuo sabidamente uma desmedida desconfiança relativamente a este tão propalado mundo de estudos que não perdem o seu mero carácter “estatístico-probabilístico” (para não falar das incontáveis limitações dos ditos estudos, assim como as fraudes existentes neste tipo de investigações…). Por outro lado, dispenso justificações legais por parte dos proponentes das duas profissões, pois que ambas são baseadas em “decretos legais” aparentemente transparentes. Assim como também dispenso a lógica do “ovo e da galinha”, até porque tanto a Enfermagem como a Fisioterapia foram inicialmente criadas no contexto da medicina (o que não significa que não possam afastar-se desse mesmo contexto e ganhar o direito à autonomia; assumir que tal não é possível é o mesmo que assumir que os filhos de determinados pais não possuem o direito a sair de casa e a ter os seus próprios filhos). É certo, isso sim, que a nível internacional, tais divergências legais não existem, e a profissão de Fisioterapeuta parece ter um nível de reconhecimento crescente, com as atividades de “enfermagem de reabilitação”, “técnico auxiliar de Fisioterapia” e “médico fisiatra” a não existirem ou em amplo processo de “extinção”…
Recentemente publiquei no site do Expresso um artigo intitulado «Médicos, enfermeiros e afins: poder e capitalismo» (http://expresso.sapo.pt/medicos-enfermeiros-e-afins-poder-e-capitalismo=f744055) onde apresento o essencial do que defendo (o que vai muito para além da consideração óbvia de que as lutas entre os profissionais de saúde são, como tudo ou quase tudo o que acontece ao nível do animalismo humano, lutas em nome do Poder, o que, em última análise, já foi o grande desiderato da obra filosófica de Michel Foucault) e que é o seguinte: Acredito, sobretudo, que a autonomização das profissões de Enfermagem ou de Fisioterapia passa essencialmente pela afirmação de um modelo próprio, autónomo da Medicina, consistente numa perspetiva holística de um “Todo” do doente, em que, ao invés de o vermos como um conjunto de peças ou sistemas desarticulados, o passamos a conceber como uma Totalidade interdependente (um pouco como o paradigma da Reeducação Postural – e também os modelos neurológicos –, que há muito defendo, preconiza), o que significa, em última análise, que a autonomização das profissões em questão depreende necessariamente o abraçar de um Modelo Epistemológico renovado que, mesmo existindo na Teoria, está longe de se verificar na Prática (visitem-se, no caso específico da nossa profissão, as diferentes Clínicas de Fisioterapia do nosso país, assim como muitos outros contextos em que a Fisioterapia mantém o seu modelo médico-prescritivista, porque ainda fortemente praticada segundo um modelo de Códigos). Acredito, igualmente, que o abraçar desse novo modelo exige uma nova Cultura, uma nova atitude, um renovado interesse pelos modelos filosófico-epistemológicos (que os meus colegas muitas vezes acusam de nada servirem, não obstante o facto de há muito defender a sua importância e de “picar” os colegas para se agarrarem aos livros e aos Clássicos e não somente à prática da Fisioterapia propriamente dita), que, como já disse, são a única porta de acesso à merecida autonomização profissional. Acredito, também, que a Fisioterapia se encontra numa posição privilegiada para abraçar esse mesmo modelo Holístico, até porque a natureza psico-motricista e posturológica da sua Intervenção é ímpar no que respeita à preconização de uma prática específica e verdadeiramente autónoma (e que só pode resultar se for de facto “autónoma”, pois sendo a intervenção do tipo totalizante e metamórfica/fluídica, não pode ser reduzida a prescrições e/ou a outras inconcebíveis limitações).
Ora, perante tudo o que se apresenta, e atendo as práticas, as experiências e a tão grande formação do Fisioterapeuta em termos de um quase inexprimível potencial de avaliação e intervenção neuro-musculo-esquelética, é quase ridículo pressupor que um Enfermeiro possa realizar uma prática semelhável à do Fisioterapeuta. Até porque, por mais que a Enfermagem também se considere holística e autónoma, parece óbvio que a dita profissão está muito longe de alcançar o já apresentado modelo Totalizante do doente. É que, mesmo que a Enfermagem se conceba como biopsicossocial, não possui a tal visão de um “Todo neuro-músculo-esquelético” que somente um Fisioterapeuta pode ter e que as (suas) formações específicas do tipo neurológico e reeducativo necessariamente enriquecem. Trata-se, portanto, de uma diferença essencialmente de Natureza Epistemológica, em que o Corpo de um Todo interdependente e em constante transformação (como já defendi nos meus livros e em artigos recentes: http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blogs/para-uma-fisioterapia-pos-moderna-em-portugal) está longe de ser adequadamente compreendido pelo enfermeiro (principalmente, porque a formação e intervenção do enfermeiro continua a ser essencialmente “médica”, na sua perspetiva basilarmente epistemológica).
Ora, a reforçar a minha noção de que a Enfermagem continua a possuir uma natureza essencialmente «Prescritivista-Patológica-Médica» vem o conjunto recente de “ambições” da dita classe profissional: pretendem ter o poder de prescrever exames e medicamentos. Ora, a visão de um Fisioterapeuta é (ou deverá ser) necessariamente Não prescritivista, porque se vê o corpo como um Todo não fragmentado (recomendo o artigo do Expresso.pt: http://expresso.sapo.pt/capitalismo-e-medicina-o-corpo-fragmentado=f726745), o que, mesmo não estando completamente presente na atual e não-ideal intervenção do Fisioterapeuta, pode e (acredito eu) virá a estar presente, pois que, pela sua formação e especificidade, o Fisioterapeuta possui a Natureza Epistemológica e Profissional ideal e necessária.
Admitir que uma Especialidade (por mais tempo que ela dure) torna um Enfermeiro capaz de possuir a visão e a Potencialidade de um Fisioterapeuta é admitir que um Enfermeiro é capaz de deixar de o ser para se tornar um Fisioterapeuta. Ora, se é de uma mudança profissional que se trata, é preferível que o dito Enfermeiro mude simplesmente de profissão, aconselhando-o a tirar uma nova licenciatura. Ou vamos assumir que uma Especialização poderá dar ao enfermeiro a riqueza de visões e até de métodos que possui um Fisioterapeuta? Saberá o enfermeiro de Reabilitação o que é o PNF, o método Bobath, a Reeducação Postural, entre tantos outros? Compreenderá o enfermeiro que todos estes métodos são passíveis de se entrosar num Corpus que somente o Fisioterapeuta – pela sua formação tão abrangente e multiparadigmática – poderá adequadamente compreender? Não perceberá o enfermeiro de Reabilitação que uma adequada intervenção terapêutica requer uma compreensão de múltiplos modelos, que somente um profissional adequadamente tocado pela riqueza e até as lutas entre Métodos e Paradigmas poderá tentar “dominar”?
Ora, é indiscutível que a única coisa que interessa ao Enfermeiro de Reabilitação é a tentativa de se “safar” neste nosso mercado e país em crise, independentemente de estar ou não a respeitar uma determinada Ética, ou de estar ou não a ser minimamente cortês para com outros profissionais de saúde (que, aliás, muitos enfermeiros desconsideram, pois que muitos deles têm por certo que um Fisioterapeuta não é um profissional de saúde…). Por outro lado, é já por si mesmo ridículo que um enfermeiro de Reabilitação possa achar que é um Terapeuta capaz de ter a riqueza de visões que somente os Terapeutas (Fisioterapeutas, Terapeutas Ocupacionais e Terapeutas da Fala, entre poucos outros) podem ter, e isto inclui a ideia de que os enfermeiros de “Reabilitação” também operam ao nível da Prevenção (afinal de contas, o enfermeiro de “Reabilitação” reabilita ou é também um mestre dos “Cuidados primários”?).
Não gostaria de cair aqui nas limitações egomaníacas e lobistas das “especializações profissionais”, até porque podemos conceber perfeitamente a intervenção em Equipa, e, dentro desta, a eventualidade de um modelo transdisciplinar (por mais que a Realidade persista em não o admitir), em que os diferentes profissionais partilham e entrosam as suas capacidades e papéis. Mas é preciso igualmente ter uma adequada noção de Especialização, tal como a consequente noção de respeito pelas capacidades e potencialidades de cada profissão (a nível Sociológico, poderíamos apontar a limitação relativa à existência de diferentes papéis sociais, mas igualmente poderíamos referir a incontornabilidade da sua existência, pois que sem a “especificidade” não há Organização Social possível, pelo menos nos termos da Sociedade moderna em que vivemos). Neste contexto, é notório que estes Enfermeiros não se encontram disponíveis para respeitar um terreno rico, mas específico, que é dos terapeutas. Isso não indica somente Egomania, desprezo, ignorância e desonestidade intelectual. Indica uma profundíssima incapacidade de cortesia, uma verdadeira tendência infantil para querer tudo Ser e, sobretudo, tudo Ter!

Publicado no site do Expresso: http://expresso.sapo.pt/enfermagem-de-reabilitacao-e-fisioterapia-percecao-de-uma-ameaca=f773168

segunda-feira, novembro 26, 2012

Crítica do corpo ausente

Os novos discursos acerca do papel que o desporto ocupa na sociedade hipermoderna parecem ter o mérito de atribuir ao Corpo um lugar novo que milénios de pudor lhe haviam negado. Mas, não obstante uma consciência renovada e otimista relativa ao mérito da atividade física e/ou desportiva, parece-me que continua a faltar uma certa atitude sintetizante, uma visão integrada que não obste a ver o corpo na sua transcendência, no conjunto das suas potencialidades que propendem um Uno imbatível, pois que se tende a preferir e a exaurir o discurso de um corpo utilitário, de uma máquina fragmentada e despersonalizada, despedaçada pelo cinismo de um modelo de vida que reduz as essências a meras categorias eternamente numeráveis. Perante a visão de um corpo hipermoderno, reduzido a conjuntos de peças desarticuladas, porque necessariamente catalogáveis e redutíveis a um preço, na visão deste corpo que se ausenta, porque se pretende fazer dele mercadoria ou indústria, na perspetiva de um corpo clínico violentado por uma medicina materialista que mantém o conluio com o capitalismo iniciado há mais de dois séculos, prefiro infinitamente mais a visão de uma corporeidade personalizada, de uma motricidade que se agarra teimosamente ao primor de um sentido, duma práxis que não se converta em mera competitividade predatória.
É certo que um discurso filosófico abarcante da visão de uma Motricidade Humana capaz de prescrever uma corporeidade com um novo sentido do Todo, num Homem melhorado e evoluído em que a perspetiva apelidadamente cartesiana de um corpo desagarrado da alma teria sido derradeiramente ultrapassada, teve já origem há umas tantas décadas, um pouco em paralelo com o recrudescer do discurso das neurociências que têm vindo a dar ao corpo um papel radical na construção da Consciência e da Razão. Mas também é certo que esse discurso “monista” não conseguiu ainda singrar verdadeiramente, antes tem sido traiçoeiramente instrumentalizado para favorecer o papel imagético de um corpo coisificado e de uma atividade física e desportiva elevada à ditadura de um objeto tão só económico.
Tal instrumentalização capitalista é bem visível na forma como o desporto tende ainda a ser conduzido nas escolas e até em muitos ginásios, sendo inclusivamente possível estender esta visão à prática ainda obsidiante de uma Medicina (e também Enfermagem e Fisioterapia) obcecada pelo cumprimento de um modelo de intervenção que reduz o corpo à imagem de uma máquina desmembrada.
De certo modo, até os grandes problemas relacionados com a desmotivação na prática desportiva se prendem muito com o facto de o desporto (e a atividade física em geral) não ter sido muitas vezes transformado numa devida e desejada extensão do Eu, pois que se pretende manter a descontinuidade entre a “forma” e o “espírito”, pois que o novo discurso filosófico (e cognitivo) persiste em não ser adequadamente entendido e conformado, pois que a sociedade hipermoderna não facilita qualquer visão de um corpo integrado, sentido, vivenciado, tornado uma extensão natural e saudável de uma mente que se pretende agarrada ao fluxo da vida e da natureza.
Um modelo melhorado de desporto e atividade física é um desejo para a «Nova Era», um tempo pós-moderno que promoverá o regresso ao Espírito, mas de um Espírito que não pode jamais negligenciar a sua liga carnal. Uma «Nova Era» em que será possível sonhar com um desporto e uma competição desportiva regressados ao modelo “Olímpico” e mítico da Grécia antiga...
É verdade que esse mesmo tempo antigo conformava um discurso espiritual, modelarmente platónico, que tendia a ver o corpo como uma entidade menos digna que a mente e que o Espírito (que não são, na realidade, sinónimos), pois que a “carne” se situaria hierarquicamente a uma enorme distância do elemento divino, mas também é verdade que a mesma antiguidade espiritual tendia a considerar o corpo como parte desse mesmo divino (ou o divino como estando no corpo), o que, desde cedo precipitou a antropomorfização dos Deuses e a edificação de uma visão de um Homem Uno em que a matéria integraria o Espírito. Por outro lado, já não faz sentido falar de uma racionalidade desprovida do sentir, o que, em última análise, nos poderia levar a rever algumas das construções espirituais que tendem a retirar importância ao concreto, assim como também já ninguém nega que esse mesmo sentir (incluindo as considerações do inconsciente, do corpóreo irracional) é parte construtiva e integrante da cognição e de todas as outras formas de crescimento/desenvolvimento.
O que nos leva a considerar que a Psicologia do Desporto e da Atividade Física, vista nas suas diversas vertentes emocionais, cognitivas e desenvolvimentais, só pode ser concebida se, de uma vez por todas, um modelo do Uno «Corpo-mente» puder ser reificado e passado à prática, levando a que as experiências violentas e mecanizadas sejam substituídas por outras mais expressivas e “psicomotrizes”, fazendo com que a atividade desportiva típica seja integrada numa vontade genuína do desportista e sempre desprovida de intenções oportunistas, ajudando a criar uma visão da atividade física que não colida com a visão de um corpo frágil (e até patológico), que, de resto, significa que o desporto e a “Clínica” deverão andar de mãos dadas.
Queremos, portanto, que o corpo fale, que se exprime, o que implica que a visão de um corpo mecânico deverá ser substituída pela perspetiva de um corpo psíquico, de um corpo espiritual, de um corpo simbólico. Queremos que a forma passe a significar-se, e que o gesto desportivo seja a extensão de um Ser em que significante e significado consintam em interpolar-se e surpreender-se.
E mesmo nos termos clínicos, ou nos termos de um corpo patológico, gostaria que a essência do rótulo classificatório e de um corpo analítico fosse substituída pela elegância de um corpo-psique-Espírito que é continuidade absoluta, fluxo permanente, imparável metamorfose do tipo heraclitiano em que cada momento presente se perde para gerar outro momento que já deixou de o ser para outro e outro ser. Pois que tudo é relativo, que o mesmo é dizer que tudo é movimento no Absoluto, e o corpo de um momento já não é o corpo do momento seguinte, mas ainda assim é o mesmo corpo, de um mesmo movimento (que é feito de uma infinidade de posturas), de uma mudança que não cessa.
Daí que a prática desportiva não é a prática de um corpo sem Eu, mas sim a prática de um “corpo que somos”, e é esta perspetiva de um corpo consciencializado e fenoménico, dialético e idealizado, e até divinizado na intemporalidade do “impensável” e “inexprimível”, que deveria preludiar a visão de qualquer atividade física e/ou desportiva.

Publicado online na revista 'Pódio' (www.revistapodio.pt), Dezembro 2012
Também visível em http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blogs/cr-tica-do-corpo-ausente

sexta-feira, novembro 09, 2012

Para uma Fisioterapia Pós-moderna em Portugal

A analogia entre o mundo da “Clínica” e o Universo filosófico é evidente e tem como principal representante contemporâneo Michel Foucault. Para o filósofo, tanto a História como o início da “Clínica” se principiam no dealbar da modernidade liberal, cientificamente materialista/positivista e economicamente capitalista, algures nos finais do séc. XVIII ou início do séc. XIX, constituindo, por sua vez, esta mesma consciência da perda de um certo «Absoluto» a aurora de uma fase pós-moderna de contrastação da castradora «hipermodernidade». A «Hipermodernidade» da Medicina possui, decerto, a vantagem de se defender melhor de um certo conteúdo místico-dogmático assaz perigoso que prevaleceu milenarmente, mas iniciará, por sua vez, um reino de cientificidade – também ela dogmática à sua maneira – que, na sua extensão mais “mecanicista”, levará à criação de uma visão abstratíssima do corpo, porque desvirtuado da sua “continuidade” natural, porque transmutado num conjunto de “rótulos” e de “classificações”, porque pervertido num objeto sem alma e distante da realidade espiritual. Também a Fisioterapia – aliás, profissão inicialmente criada no contexto da Medicina – sofre do mesmo mal de excesso de “cientificidade” que, aliada à assunção de que desta necessita para o seu desenvolvimento no contexto socioprofissional, mantém a cegueira que a paralisa face à exigência de uma «Saúde» adaptada à Pós-modernidade.
A persistência da visão de um corpo fragmentado, em que as diferentes peças parecem desligadas de uma substância unitária que, na realidade, funciona como um Todo equilibrado sistemicamente, o mal de uma Fisioterapia híper-científica, que – ainda mais grave – acusa os grandes paradigmas de tratamento Global, como é o caso da Reeducação Postural, de uma anti-cientificidade dogmática/relativista (acusação condenável até porque a cientificidade dita “clássica” está longe de entender o verdadeiro significado epistémico de «cientificidade» e de «racionalidade» - dois conceitos conciliáveis na Epistéme-Noésis dos gregos), é agravado troficamente por um Sistema socioeconómico que sempre pretendeu capitalizar a profissão e que persiste no modelo de “fragmentação” de um Uno corpóreo por meio de um sistema de Gestão fisioterapêutica em que o corpo do doente (e não o doente em si-mesmo) é tratado sempre parcialmente, pois que o Serviço Nacional de Saúde e os Subsistemas pagam somente segundo códigos prescritivos (que – mantendo a irracionalidade da coisa – constituem ordens de um suposto médico fisiatra que à distância se mantém do dito corpo Uno do doente), os quais consistem em técnicas (pelos vistos, coisas separadas, quando, para mim, a Fisioterapia é igualmente um Todo integrado) limitadas a uma parte do corpo e a uma intervenção necessariamente circunscrita. Modelo de trabalho deplorável, mas utilizado massivamente pelos fisioterapeutas que não têm outra hipótese senão ceder ao jugo do Economato; o mesmo Economato que, associado aos interesses particulares e ao laissez-faire do Estado, permitiu a multiplicação de fisioterapeutas (muito associado à reprodução de escolas de formação básica muito questionáveis na sua qualidade) e o consequente agravar da sua situação financeira, o que, associado à inflexibilidade de um Mercado pouco promissor (não obstante as falácias relativas ao contrário por parte de uma inepta Associação Portuguesa de Fisioterapeutas que somente se preocupa em ser Ordem), ainda vem contribuir mais para a franca lassidão dos profissionais que, muitas vezes cegos pela mera necessidade de fazerem formações, não obstante tudo o que foi dito, teimam em não compreender a verdadeira natureza “holística” de uma nova Fisioterapia que persiste numa “não-revolução” conceptual e epistemológica (apesar de pretenderem ser profissionais holísticos, diferentes dos médicos e da Medicina supostamente “castradora”).
A Fisioterapia portuguesa precisa, de facto, de uma revolução. E essa deve ser essencialmente conceptual e epistemológica, antes de ser científica e metodológica. Sem essa, continuaremos a medrar num conjunto de métodos e técnicas solteiros, vazios de conteúdo e de Síntese. E – muito importante! – sem a desejada revolução epistemológica, a Fisioterapia não tem qualquer hipótese de se autonomizar e afirmar enquanto profissão e até enquanto Ciência (incluindo a relação e apresentação da mesma face a outras profissões de Saúde, com as quais muitas vezes se encontra em pleno confronto profissional e ideomático), sendo que a dita autonomização é fundamental para que uma nova Fisioterapia mais humana e menos “económica” tenha lugar. Antes de tudo, trabalhemos sobretudo para que mais fisioterapeutas possam dar tempo ao Conceito!...

quarta-feira, outubro 24, 2012

O lugar do «Corpo vs. Espírito» na eterna dialética «Emoção vs. Razão»

Num plano inicial, exclusivo de minuciosidades técnicas relativas aos dados provenientes da neuropsicologia cognitiva, não é possível conceber – malgrado o desejo de muitos partidários de “espiritualidades terapêuticas” – uma grande compatibilidade entre o “corpo psíquico” – expressão que pretendo representativa daquela parte do psiquismo de que se ocupa o estudo dominante da Psicologia e da Psicanálise – e a Espiritualidade (tal como é entendida pela Sabedoria Universal). Tal facto perturba muitas consciências que pretendem encontrar na “Espiritualidade” uma solução “salvífica” para problemáticas interiores (ou até mesmo exotéricas), assim como abala certas considerações relativas ao lugar da Razão no mundo moderno em que vivemos e agimos.
Atendendo à Hierarquia dos Modos de Conhecimento de Platão (“esquema” que, a meu ver, decalca com muita precisão a Realidade cognitiva do ser-humano), não podemos deixar de conceber que o corpo se pretende sobretudo ao nível da Dóxa, um nível de “dignidade ontológica” inferior ao da Epistéme, o que pressupõe que o nível a que atuam grande parte das terapêuticas psico-corporais (incluindo a mais séria Psicanálise) ainda tem pouco a ver com a Racionalidade (mesmo que, num plano de conhecimento neurobiológico recente, possamos conceber a proximidade da Racionalidade relativamente ao corpo e ao sentir). Ora, acontece que a Espiritualidade, no sentido que a antiga Sabedoria Universal sempre lhe atribuiu, é qualquer coisa que se inicia principalmente no nível mais elevado da Epistéme, correspondente a um tipo de Razão contemplativa (Noésis) que pressupõe, de algum modo, a superação do “sortilégio carnal e exotérico”, mesmo que o caminho para esse nível elevado de Consciência e Liberdade pressuponha uma relação dialética (eventualmente temporária) com a entidade corpórea. Isto significa, portanto, que o “Espírito” depreende um alto nível de Racionalidade, superior inclusive ao tipo mais conhecido e “popular” de racionalidade científica (correspondente ao nível mais baixo de Epistéme, a Diánoia), no qual o mundo tecnológico e capitalista se encontra flagrantemente imergido.
Isto significa, por um lado, que a verdadeira Espiritualidade tem pouco a ver com esse mundo fortemente mercantilizado e mistificado de terapêuticas psico-corporais, as quais, não obstante o valor holístico revisto na forma sintética como compreendem a relação corpo-mente, não têm por costume propugnar suficientemente a entrada no nível mais elevado de Racionalidade, que é apanágio do encontro “iniciático” (ou pré-iniciático) do homem com o Divino (mesmo que se suponha que este “Divino” exista dentro do próprio homem e enquanto sua criação abstrata); podem, por um lado, facilitar o processo de “sofrimento” e “consciencialização” que é condição necessária ao “crescimento espiritual” e ao trepar da hierarquia platónica (isto ocorre quando se exerce uma terapêutica verdadeiramente holística e que, em última análise, permita um certo tipo de gnose, coisa vivificável exemplificativamente na meditação), mas o que acontece muitas vezes é que essas mesmas terapias acabam por servir como meros paliativos e/ou placebos, que mais rapidamente atuam como ‘fatores’ de “bem-estar” e como anestesiadores da consciência.
Neste contexto, a Psicanálise talvez possua um lugar especial nessa capacidade de Gnose necessária ao crescimento espiritual, mas ainda assim correntemente se verifica que a Terapia Psicodinâmica tende muitas vezes para o exercício de motivação ao exotérico e mundano, entendendo aquilo que compreendemos como verdadeira Espiritualidade como uma mera “racionalização” defensiva, eventualmente “patológica”. Daí que defenda a Psicanálise se concebida como exercício dialético corpo-mente que não obste à racionalização, enquanto estratégia eventualmente temporária de acesso aos níveis mais elevados de racionalidade, mas nunca se concebida como estratégia de gestão das emoções capaz de eternizar o posicionamento do sujeito nos níveis mais baixos de “racionalidade”, que o mesmo seria perpetuar o lugar do ser-humano num “não crescimento” – correspondente , em termos esotéricos, ao “eterno retorno” carnal do homem nas sucessivas Eras de vivência (reencarnações) –, numa imutável resistência exotérica de acesso do homem aos níveis mais próximos do Divino.
Ao propugnar a gestão dos processos psico-corporais, a Psicanálise pressupõe, de facto, que o homem se deve manter sempre no seu nível mais Ego-maníaco, adiando perpetuamente o encontro do Eu com o Não-Eu (com o Todo Universal). E aí mantém-se a Psicanálise – à semelhança das diversas Terapias Psico-corporais – numa relação de conluio com a Eticidade egoísta e com um tipo de Liberdade dita “individualista”, o que, mesmo concebendo o resultante de um qualquer tipo de Ética relacional ou comportamento (aparentemente) altruísta, jamais poderão ser elididos o óbvio interesseirismo e o evidente egoísmo dos comportamentos em questão. Pois que é um facto que, ao nível do Eu, ao nível do corpo, tudo é Egoísmo, mesmo o comportamento aparentemente mais altruísta. O altruísmo verdadeiramente desinteressado e desprovido de “ansiedades interiores” só existe ao nível do Todo Universal, num nível em que as grilhetas do corpo e daquele “Caos interior necessário para parir uma estrela que dança” de que falava Nietzsche já tenham sido superados e vencidos. Portanto, a Ética é necessariamente racional, restando para o campo das emoções a possibilidade de surgirem emoções positivas e aparentemente éticas (porque socialmente adaptativas ou meramente bem-vistas), com esta Via (a emocional) a corresponder, na minha perspetiva, a um caminho tenebroso e pouco confiável (para além de, como já dissemos, obviamente interesseiro). É, de facto, um caminho de “prazer”, mas que possui – ali muito por perto – o outro lado da moeda – o “desprazer”, com isto a significar que, mesmo parecendo o caminho mais fácil e natural (porque respeitador da natureza instintiva), o mundo do Corpo constitui uma “escolha” tremendamente obtusa e traiçoeira.
Facilmente se depreende que este mesmo “caminho do corpo” é naturalmente temporal e dialético, funcionando numa dinâmica de dualidades, com o equilíbrio mediano sintético a cuidar-se como “ideal” e desejável (mas muitas vezes inalcançável), quando o caminho mais “árduo” – o que pretende o escalar da Hierarquia platónica – pressupõe uma via mais segura – e a única genuinamente ética – de alcançar a verdadeira Felicidade.
Daqui resulta uma possibilidade de tipologia das “felicidades”, com as duas referidas – a “emocional” e a “racional” – a parecerem igualmente promissoras e igualmente devedoras de Liberdade, quando, na verdade, existe uma décalage monumental entre as duas. No contexto da «Liberdade», podemos atender ao facto de que o caminho “psico-corporal” atenta num tipo de “liberdade” completamente diferente da que se pretende no caminho “racional”, pois que, na primeira, se pretende uma “liberdade” mais “corpórea”, que rememora o “bom selvagem” de Rousseau, enquanto que, na segunda, a Liberdade é feita num caminho progressivo, “para o interior e para cima”. Em ambas se pretende a libertação face a um conjunto de falsas e castradoras doutrinações “disciplinadoras” (que, no plano da modernidade dessacralizada/exotérica, liberal, capitalista, híper-científica e tecnológica, abundam ao ponto de se assumirem como pura fonte de alienação… de um tipo de alienação que, a meu ver, provém de uma ação dialética entre o “corpóreo-instintivo” e a razão analítica/Diánoia). Na via “corpórea” pretende-se a fusão com a natureza. Na via “racional” pretende-se a fusão com o Divino. A primeira acaba por ser reducionista. A segunda acaba por ser holista. A primeira resulta numa liberdade regressiva (que, a ser mantida, perpetua ad infinitum os ciclos reencarnativos), uma pseudoliberdade. A segunda resulta numa liberdade progressiva e verdadeiramente evolutiva.
É certo que aquilo que a Psicanálise propõe tem mais a ver com o tipo de liberdade “individual” a que estamos habituados a apelidar de “liberdade”. Um tipo de liberdade que se aproxima da perspetiva “liberal”, no sentido tanto filosófico (com plena representação no Existencialismo, apesar da negação deste das realidades determinísticas apregoadas pela Psicanálise “diagnóstica”, que, eventualmente, são moralmente desresponsabilizadoras), quanto económico do termo, e que tendeu historicamente a antagonizar o tipo de liberdade “coletiva” (semelhável à que preconizamos) que havia sido (e ainda é) advogado pelo Marxismo. Um tipo de liberdade que não compreende o outro tipo de liberdade, que depreende a relação com o Todo, sendo que esta última, na sua relação íntima com a Racionalidade, poderia até propor o encontro conceptual do Marxismo com a Espiritualidade, não fosse a distância monumental entre as duas “Estruturas” no ponto de vista do ‘acesso’ à citada Liberdade. É que o Marxismo pretende manter a Liberdade ao nível dos homens e ao nível da historicidade dialética (é temporal), num plano científico claramente materialista (apesar de não positivista) e num plano metafísico “determinista” e materialista (trata-se, de facto, de “trazer o Céu para a Terra”, trazer o “paraíso” aos homens), enquanto que a Espiritualidade pretende levar os homens a alcançar o plano do divino e do intemporal (no eterno, perdem-se as dualidades conflituais, perde-se a dialética), e isto num plano científico já mais contemplativo (a tal Noésis) e num plano metafísico inicialmente determinista (nomeadamente, no sentido individual) e, num momento “final”, libertarista (no sentido do Todo Universal). Obviamente, a Liberdade no sentido Espiritual tem pouco a ver com a Liberdade no sentido do Ego. E a plenitude do encontro metanóico (ou seja, para além da Noésis) tem pouco a ver com o bem-estar psico-corporal, o tal que muitos procuram nas já citadas terapêuticas pretensamente espirituais (e que, como já percebemos, de verdadeiramente Espirituais têm pouco).
Resta falar agora do que muda (?) em todas estas perspetivas, se tivermos em conta os novos dados da neurobiologia, segundo os quais existe uma relação íntima entre as estruturas cerebrais responsáveis pela dita Razão intuitiva e as áreas cerebrais apelidadas de somato-sensoriais (e que são responsáveis pela receção e análise de vários dados relativos às sensações corporais e quinestésicas). Ou, dito de outro modo, será que tudo o que dissemos se torna diferente se pensarmos que a velha dicotomia Corpo vs. Mente ou Emoção vs. Razão tende atualmente a ser atenuada pela evidência neurocientífica que pretende colocar a Consciência mais elevada na direta dependência das sensações corporais (muito particularmente as internas) e dos sentimentos (que passam por emoções tornadas conscientes)? Para mim, a resposta é essencialmente “Não”, pois que a perspetiva filosófica apresentada mantém-se essencialmente a mesma, porque devedora de uma projeção fundamental do funcionamento do Homem enquanto Consciência Universal (ou seja, no plano Existencial, tudo se mantém tão válido como antes!...). O que não implica que não possamos, de algum modo, conceber que existe, de facto, um corpo “consciente”, um corpo feito “alma”, um corpo que tende para o “Espírito”, algo como uma dialética entre o Corpo (Dóxa) e a Razão (Noésis) que exclui a passagem pela Razão analítica (ou Diánoia), traduzível na perceção de um “Corpo bio-psico-social” que grande parte da Medicina (entre profissões afins) ainda não reconhece (pois que persiste em ver o corpo segundo uma perspetiva de racionalismo científico/dianóico, que o reduz a uma “máquina” segmentada, pouco afoita a uma visão do corpo “Uno” enquanto “metamorfose permanente”), qualquer coisa que a semiótica entende como “proxémica” e que atesta o lado mais simbólico (e até ritualístico) de uma Estrutura que aparentemente constituiria um mero Significante.
Este “Corpo Espiritual”, devedor de uma relação próxima com a Racionalidade, este Corpo que “Somos” e não “Temos” (Merleau-Ponty), este “Corpo noético”, este sim, podemos apregoar, não tanto como um designativo da verdadeira Espiritualidade (porque, ao nível do Absoluto, não existe tal materialidade concreta, objetiva e individualizada), mas mais como um passo significante nesse tão longo (mas desejavelmente mais curto) caminho que empreendemos na busca do Divino em nós, do «EU Total e Eterno» que já não é ‘Eu’.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Esoterismo e Psicanálise: encontros e oposição

Eis que assiste tanto ao desiderato corrente das diferentes religiões como ao tecido ideomático que releva e transpõe as dissemelhantes escolas e tendências da Psicanálise esse objeto comum que se constitui no caminho quase perpétuo (se não verdadeiramente infinitesimal) e “alquímico” que direciona o homem na via da perfectibilidade espiritual, se bem que ambas as “vias” proponham, para o decurso da “iluminação” a alcançar, diferentes linguagens, assim como diferentes predisposições quase “prescritivistas”, que, não obstante os pontos ontologicamente semelháveis, ainda assim não deixam de, a determinado ponto, se reciprocamente negarem.
Pois que a Liberdade, entendida como o despimento das amarras psicossociais necessariamente – porque social e disciplinarmente – tecidas, enceta o caminho tanto de uma teoria psicanalítica convertida pragmaticamente em psicoterapia dinâmica como da maior parte das Estruturas espirituais que, por si mesmas, se convertem em exercícios religiosos mais ou menos desalienadores, mais ou menos dogmáticos. Uma Liberdade entendida como o caminho do homem feito simultaneamente para a frente e para trás, progressivo porque se trata de uma evolução, de um crescimento, mas regressivo porque busca teleologicamente a natureza imaculada e selvagem de um ser ainda humanamente intocado. Uma liberdade que pressupõe o acesso a Deus, feito progressivamente no sentido de o homem assumir-se a si mesmo como Deus (tomando, simbolicamente o lugar do pater, num processo que a psicanálise freudiana entende como “parricida” e que, em termos literários, Dostoiévski tão bem representou em «Os irmãos Karamázov»), feito regressivamente no sentido da desocultação do caminho babélico para o paraíso original. Uma liberdade que se faz caminhando para a frente no recuo persistente ao passado, numa via eterna ou quase eternamente perfeita na busca da perfeição que exigirá necessariamente o retorno, a reminiscência, a negociação com o conjunto intrépido e quase inesgotável de fantasmas que ladeiam o paraíso da casa-Mãe inconsciente e cognitivamente representado por um sempre complexificável Eu.
Não obstante a importância do “eterno retorno” e da “reactualização nostálgica das origens” (Mircéa Eliade) tanto no exercício psicodinâmico como na prática da religião pessoalmente exercitada ou coletivamente organizada, eis que, a um nível pragmático, tanto o destino como a Ética de ambas as vias se diferenciam quase radicalmente, ao ponto de, eventualmente, os dois “discursos” poderem obstar-se ou inimizar-se.
De facto, a psicanálise propende a libertação face à estrutura supermoral, supergóica, o que – bem entendido – permitirá centrar o homem no plano íntimo da sua individualidade, o que subjaz a uma liberdade com vista à felicidade, mais a do próprio do que a do Eu coletivo. Daqui sobra uma “Espiritualidade” essencialmente egoísta, feita para as necessidades imediatas e o tecido de uma vida específica. No máximo, o homem tornar-se-á um Deus livre e libertador, mas não social e Humanamente edificador. Para além do mais, o plano da mundanidade e do Eros farão perder muitas vezes o objeto do Conhecimento e do Espírito no mais peculiar sentido do termo.
Por outro lado, o plano da Espiritualidade, no sentido do verdadeiro Esoterismo – o que pode ou não incluir o exercício de uma religião particular ou institucionalmente organizada – pretende que a via da Libertação não fique pelo caminho no (re)acesso a Deus, que não se esgote no plano diretivo da felicidade individual e da prescrição hedonista, mas que permita esgotar-se somente quando a Iluminação genuinamente ontológica tenha tido lugar, com esta a requerer um processo intermédio de sofrimento que é condição necessária a um crescimento que se fará no ventre de uma plenitude coletiva. O horizonte é, portanto, mais alargado do que aquele que se obtém com a Psicanálise, pois se na Psicodinâmica o exercício emocional pode, pelo menos no processo e/ou caminho que tende para a Libertação, excluir-se de uma obrigação Ética, já na Espiritualidade esotérica a via terá sempre de ser Ética, pois que a “emocionalidade” do Eu terá de ser simultaneamente individual e coletiva, para além de compulsivamente conluiada com o plano da Razão, Razão pós-moderna de uma «racionalidade ética/estética» pós-científica [Claro que, tanto o plano do “sofrimento-crise”, como o plano da racionalidade e da felicidade coletiva são também reivindicações do exercício psicodinâmico, as quais, não sendo negáveis, ainda assim não assumem o plano teleológico de abrangência da espiritualidade esotérica].
Não nego, portanto, que o objeto final da Psicanálise permita também a Eticidade e a harmonização do tecido social (até porque a felicidade individual possibilita a construção de relações mais harmoniosas, em que os mecanismos de defesa parecem perder parte da sua “agressividade” e em que o “egoísmo sublimatório” perderá naturalmente força, com todas as consequências positivas que isso tem para a (des)construção de novos recalcamentos). Porém, o caminho para essa Libertação ética passa muitas vezes pela procura (assaz temporária) da consumação da individualidade ego-maníaca e até do exercício mundano da carnalidade espiritualmente desirmanada, “meios” que trairão o fim Ético que nos pretendemos como um todo social. Já o plano da Espiritualidade esotérica pretende o exercício compulsivo da Eticidade e a busca de um Sentido que dificilmente (ou só controvertidamente) poderá ser obtido com a traição da racionalidade ética (aqui a felicidade individual surge não como um meio mas como uma consequência natural de uma vida ética; o que significa que, na Psicanálise, parte-se do Eu para o Nós, enquanto que na Espiritualidade parte-se do Eu coletivo para o Eu individual). Seria este, inclusivamente, o plano da Religião organizada canónica, não fossem os preceitos rígidos da matriz de uma Ética exigente virem a ser processados num formato de transliteração “carnal” proibicionista que acabou, a um nível essencialmente Histórico, por transformar em dogma, crime e destruição aquilo que somente deveria pertencer ao plano da Liberdade e da Beleza (de resto o já conhecido papel da Religião como – ela-mesma – socialmente castradora – como a própria psicanálise freudiana tantas vezes terá referenciado, já na senda da filosofia de Feuerbach, Nietzsche ou Marx –, e portanto traidora da sua intenção basilar).
Obviamente, neste nosso mundo moderno dessacralizado e compulsivamente mundanizado, a exigência de um regresso ao Sagrado e ao Espírito urge como desígnio da Pós-modernidade e como necessidade fulcral de uma nova Racionalidade. O caminho exige o Esoterismo, e não tanto a Psicodinâmica que, até agora, se tem preocupado sobretudo com o plano da felicidade individual. O caminho exige, eventualmente, até o Sacrifício, a negação de certas formas de felicidade em prol de um Bem maior e de um Eu maior. Desafio óbvio no contexto de um tempo de valoração excessivamente psicologizante, em que o Eu individual é tratado como um pobre coitado, repleto de insuficiências e sedento de Direitos, e em que tudo e todos obstam ao sofrimento e procuram o caminho “moderno”, que é sempre o que custa menos e o que possibilita os resultados mais céleres. Desafio imenso neste nosso mundo em que o ser que troca o prazer pela estoicidade, o hedonismo pela disciplina, o bem-estar pelo sacrifício e o Direito do “Eu individual” pelo Direito do “Eu global” é visto como um extraterrestre desumano e alienado (louco, diferente, anormal, excêntrico, etc.), quando é precisamente o comportamento sacrificial e ético que subjaz à verdadeira Racionalidade, condição fundamental da Humanidade.
Um dia voltaremos a querer o percurso mais longo e mais difícil, pois que neste perduraremos por muito mais tempo! Um dia voltaremos ao tempo do Sagrado e ao tempo do Classicismo! E rezaremos para que o Homem possa, de facto, augurar uma verdadeira evolução, para que não volte – como que arrebatado por um ciclo temporal vicioso – a cair nos erros próprios daqueles tempos clássicos e sacralizados. É que, caindo nesses erros, o Homem já não estará de facto num verdadeiro tempo do Sagrado!
Em última análise, o que se pretende decisivamente é o encontro do Homem com o Universal e o Intemporal, o que acarreta a fusão do ser humano com o tecido valorativo da “Cidade de Deus” (que não deixa de ser, em última instância, uma criação do próprio Homem), e, sobretudo, a negação (e desapego) dos “valores” próprios do tempo específico em que vive, que são quase sempre apanágio de necessidades superficiais e mundanas que só fazem sentido face a um contexto forçosamente parcial e redutor.
Sejamos, então, definitivamente, o Homem sem Tempo, o Homem fora do tempo, o Homem feito “causa incausada”! (mesmo que tal ensejo reifique uma crónica oposição contra a moda, e uma tendência inescapável para o ascetismo e o isolamento de um ser eternamente “estrangeiro” – um “homem sem qualidades” no sentido de Musil –, uma desadaptação social muitas vezes encarada por uma certa psicanálise e por boa parte da Psiquiatria como precursora, senão manifesta de um comportamento psicopatológico, clinicamente diagnosticável como “perturbação” e até social e juridicamente afrontada como uma excentricidade ou até mesmo como um tipo de reacionarismo antissocial).
O contrato Espiritual passa obviamente pela via do Amor e esta pelo exercício sacrificial (diferente da visão erótica do Amor no sentido psicanalítico, em que a relação com os outros é vista em termos das necessidades do “Eu”, se bem que o ser “amado” pelos progenitores tenda a ser capaz de amar construtivamente o “outro”). Bases de edificação do homem do Espírito, que, dada a via das infindas tolerância e benignidade existentes num mundo onde tais qualidades são vistas como pouco “competitivas”, pode muitas vezes ser encarado como um “idiota” (no sentido dostoiévskiano do termo), e, dada a via preferencial de negação da carnalidade (onde, de facto, reside a fonte do Mal), pode muitas vezes ser visto como um ser casto e “castrado”, o qual, segundo certa intenção psicanalítica, carece de uma libertação face ao “fantasma materno” com o qual o “monge” sem líbido possui uma relação fantasmaticamente incestuosa traduzida presumivelmente numa “fixação edipiana”… libertação que poderia levar ao resultado oposto ao da Libertação no sentido “espiritual”, pois que a afirmação do Eu individual implica, de algum modo, a assunção da malignidade própria da instintividade egotista, necessariamente destruidora de um plano imediato de Eticidade abrangente (de facto, ao propor uma explicação para o sentimento de culpa que jaz na base do sacrifício – e à imagem do que a Psicologia e as neurociências têm feito… – a Psicanálise pretende, de algum modo, erradicar esse mesmo sentimento de culpa, por meio de um exorcismo que tem o mote tanto da mera justificação racional como da própria atividade no divã; a erradicação do sentimento de culpa pode facilitar o bem-estar psíquico individual, mas funcionará inevitavelmente como um meio de desconstrução das bases da Ética a “longo prazo”, assim como da “Obra”, a qual tende a resultar de um certo desiderato sublimatório de compensação narcísica). Que o mesmo será dizer que a libertação do inconsciente possui uma menor simbiose com o plano moral e portanto racional, enquanto que a libertação da “alma” (de carácter inclusivo essencialmente consciente) possui – semelhantemente ao revisto no plano da inevitabilidade da Liberdade responsável propalado pelos existencialistas (pois que, no plano da consciência, em que “a existência precede a essência”, a responsabilidade moral antecipa qualquer tipo de preocupação determinística a priori indireta capaz de agir como viático de desresponsabilização moral) – uma maior relação com a eticidade.
Ficam, portanto, nimiamente expostos pontos de contacto e pontos de oposição entre a teoria psicanalítica (predominantemente clássica) e o reino da ascensão espiritual, nos seus termos essencialmente “aplicados” e “terapêuticos”.

(a publicar na revista 'Biosofia')

quarta-feira, setembro 26, 2012

Biosofia

É o nome da revista onde acabo de publicar um dos meus mais recentes inéditos («A Pós-modernidade ou o regresso ao Espírito»). Trata-se de uma publicação de suma qualidade dedicada ao terreno que considero como o desencadear da "evolução" natural de alguém que assumiu a dupla face "modernista" »»» "Pós-modernista", para aceitar, neste nosso "dealbar da Pós-modernidade", o Renascimento de uma antiga/nova Espiritualidade... Esta "nova" Espiritualidade, aliás mais do que um processo de evolução pós-científica e pós-moderna, é, na realidade, o desiderato de um Uno cultural que propõe o objecto comum de inter-relação das diferentes estruturas religiosas e espirituais, canónicas ou apócrifas, teístas ou não teístas. Trata-se, portanto, do assumir de uma Espiritualidade no sentido sério e não institucional da questão, no formato do Esoterismo, segundo padrões que terão sido esgrimidos de uma forma mais formal e reveladora pela tradição teosófica, e que, em Portugal, tem como representante principal o Centro Lusitano de Unificação Cultural (CLUC), o Organismo que publica a "Biosofia".
Devo dizer que, após tantos anos de estudo da Ciência e sobretudo da Psicologia, Neuropsicologia cognitiva e Filosofia (principalmente no terreno da Ética e da Epistemologia), o que encontro nas primeiras leituras esotéricas (nomeadamente, por meio dos textos presentes em www.biosofia.net ou em www.centrolusitano.org e também através dos livros do CLUC, principalmente aqueles que apresentam a escrita apaixonante e extremamente didáctica do Prof. José Manuel Anacleto) faz-me lembrar a noção de Platão da "reminiscência" ou a ideia de Popper de que só observamos e aprendemos aquilo que desejamos de facto observar e aquilo que de facto já sabemos e desejamos reconhecer no sentido de uma confirmação, pois que tudo na Perspectiva Esotérica parece fazer sentido e até confirmar muito do que já desconfiava e que vem sendo dito por gerações de pensadores.
Encontro, portanto, um Sentido familiar nas perspectivas teosóficas, sentido este que, de algum modo, aparece já preludiado em muitos dos meus artigos, se bem que talvez devesse ter falado de "Espírito" em muitas das vezes que falava de "Marxismo" ou talvez devesse ter falado de "Nova Era" quando me referia ao "Dealbar da Pós-modernidade".
Convido-vos, então, a visitar este "Novo/Velho" mundo e a comparar muitas das coisas que se encontram nele com muitos dos conteúdos do que já tenho dito sobre corpo, indústrias (anestésicas) do corpo, capitalismo e pós-modernismo, tendo em conta sempre que o Esoterismo nada tem a ver com quase tudo o que vulgarmente se pensa dele (devendo ser distinguido de parapsicologias vendilheiras e bruxarias curativas), e mantendo sempre a mente aberta, aceitando os conteúdos esotéricos essencialmente como realidade simbólica.
A revista Biosofia poderá e deverá ser também um meio de mergulhar neste nosso "cosmos" espiritual, estando presente em muitas bancas e também no CLUC. O novo número é extremamente interessante e acaba de ser publicado.
 
Abraço! 

terça-feira, setembro 18, 2012

Homossexualidade e psicanálise: doença ou dogmatismo?

Enquanto fisioterapeuta que sou, estudioso não só de “terapias” e de “indústrias do corpo”, mas igualmente reivindicativo de um estudo já há muito por mim enformado na área da psicologia e da psicanálise, não posso deixar de, todos os dias, me impressionar com o conjunto de disposições assaz “relativistas” respeitantes ao mundo do corpo e das terapêuticas que com este se preocupam. Na verdade, a medicina, a fisioterapia e a psicologia/psicanálise, mais do que matérias dadas a uma pretensa e unidimensional objetividade racional/clínica, relevam para temáticas com grande nível de ambiguidade e um interminável veículo de paradigmas e de dimensões e escalas do olhar.
Pois que não existe somente a Medicina canónica, tal como não existe uma Psicologia ou uma Fisioterapia, mas sim várias Medicinas, várias Psicologias e várias Fisioterapias. E, não obstante o valor científico das ditas profissões/ciências que dominam o panorama do trabalho clássico nestas matérias, a verdade é que a experiência racional, associada a uma certa sensibilidade estética e ética, vem comummente demonstrar que o conhecimento de certas especialidades e/ou escolas minoritárias está mais próximo da Verdade (se é que esta é de algum modo definível…) do que aquilo que a grande maioria dos profissionais advoga e/ou pratica.
O caso da Psicanálise é, de algum modo, paradoxal, pois que, não sendo o modelo dominante de prática diagnóstica em medicina psiquiátrica e até em psicologia clínica, não deixa de constituir uma teoria interpretativa de importância crescente e de reconhecimento social já bem entrosado. Por outro lado, releva referir que, à semelhança do que foi dito relativamente aos “paradigmas clínicos”, também não há uma Psicanálise, mas sim múltiplas psicanálises, modelos diversos de escolas e autores também eles muito diversos… o que já por si nos deveria alertar para o elevado grau de subjetividade que tal modelo de explicação do comportamento poderá empreender.
Não obstante a existência de múltiplos paradigmas de análise clínica (que, apesar da possibilidade de confundir o terapeuta e/ou o doente nas suas decisões, poderiam – ou deveriam – teoricamente facilitar o processo de flexibilização interpretativa e interventiva), é comum os grandes e “minoritários” modelos de intervenção, tal como as grandes escolas de pensamento, possuírem uma certa tendência dogmática, o que não é necessariamente defeito, pois que grandes teorias podem significar grandes Verdades que teimam em se querer afirmar muitas vezes como “boas novas” anti-Sistema, mas que pode ser um defeito se, mesmo depreendendo a aparência axiomática dos princípios e “leis” subjacentes à ‘escola’ em questão, o dogma esbarra com premissas erróneas, que, associadas à recalcitrância da sua defesa intempestiva, resultam numa atividade própria de um “relativismo” de “gurus” ou “vendilheiros”.
Ora, é nestas alturas que a defesa da cientificidade tende a ser adotada (leia-se uma cientificidade do tipo clássica e quantificativa), pois que ela poderá significar um maior número de critérios que possibilitem a objetividade, a medição de resultados terapêuticos e até a prevenção da prática “excessiva” ou interesseira. Por outro lado, reside sempre a problemática da maior ou menor relevância de obter resultados facilmente mensuráveis em matéria de comportamento humano ou bem-estar psico-emocional – qualquer coisa que revela sempre uma subjetividade adstrita a uma matriz que cruza um número quase infinito de fatores e/ou variáveis – o que é, bem sabido, uma das temáticas centrais da polémica que opõe várias escolas de psicoterapia, como a diatribe «Terapia cognitivo-comportamental versus Psicoterapia dinâmica».
Ora, agarrando na temática psicanalítica – e assumindo que as suas diversas “escolas” adotam como dominante a verdade psicossexual, segundo a qual o modelo da identidade sexual é obtido fortemente a partir dos padrões de comportamento e vivência com os pais e a conjugação destes com o sexo biológico descoberto nos primeiros e em si-mesmos – deparamo-nos, de facto, com uma das temáticas mais polémicas das ditas “interpretações clínicas dogmáticas”, a qual se prende – para ser mais específico – com a interpretação psicanalítica da causalidade da Homossexualidade. Mais uma vez se sublinha que esta tem tanto de potencial Verdade dogmática quanto de potencial Falsidade dogmática, pois que, na verdade, a cientificidade clássica das asserções psicanalíticas acerca da Homossexualidade é ainda extremamente débil… o que, obviamente, não recolhe o acordo dos psicanalistas, os quais, defendem o seu dogma como científico, mas de um tipo de cientificidade certamente diferente da “clássica”…
A temática é de extrema importância, até porque a resolução de outra temática dita “fraturante” – a questão da adoção de crianças por parte de casais homossexuais – parece depender fortemente da opinião destes profissionais da “Psicologia”… opinião que, como sabemos (e já não é difícil perceber porquê), está longe da consensualidade.
Ora, eis que sugiro aos leitores a análise do texto “Homossexualidade”, de Jaime Milheiro, da obra «Novos desafios à Bioética» (Porto Editora), referência que considero fundamental e verdadeiramente paradigmática. Tentarei resumir a abordagem do autor.
O psicanalista começa por explicar, de forma resumida, a importância das experiências precoces e das vivências com os pais na formação da identidade sexual, colocando no padrão de relação com os pais (e no padrão de comportamento destes com as crianças) a causalidade da identificação da criança em geral, tal como da identificação sexual em particular, num conjunto de múltiplos fatores: género, escolha, prazer, encontro e idealização. Logo a seguir, cite-se «Se o desenvolvimento se processar em moldes comuns, a identificação global ao progenitor do mesmo sexo acontecerá sem grandes turbulências. Se houver inibição com angústias perturbadoras, podem desenrolar-se dinamismos característicos e consequências. Poderão acontecer fixações em patamares transitórios, pontos de passagem do amadurecimento. A homossexualidade será disso um exemplo.» Sublinhe-se que o autor parece ser proponente da clássica teoria freudiana do desenvolvimento da personalidade, o que, já por si, é discutível e eventualmente criticável. Continuando a citar: «Costumo dizer que isso acontece quando a criança não teve capacidade de “reivindicar” o seu próprio sexo, ao discutir consigo própria a diferença entre os dois. E não terá tido essa capacidade, conferida pela série animal aos seus elementos, porque alguém lha retirou. Porque um clima relacional perturbado e crónico, por excesso ou por defeito, a sufocou. Não lhe terá permitido o exercício da formatação indutiva natural, porque ela se prejudicou nas malhas onde se meteu. Mães grandiosas e possessivas, determinantes de tudo o que a criança será, incluindo a sua identidade e género sexual, terão especial relevo». É uma teoria interpretativa possível, mas não deixa de ter forte carácter hipotético, com múltiplas possibilidades, múltiplos questionamentos possíveis… Reparemos que se o modelo de “mãe possessiva e pai ausente” poderá “criar” filhos homossexuais, pois a dominância da mãe cala a assunção identitária do filho (ou da filha, mas nesta o processo é menos grave, pois tratar-se-ia de um elemento do mesmo sexo), de igual maneira também o modelo de “pai dominante” poderá criar rapazes homossexuais (e, sobretudo, raparigas homossexuais), pois que o domínio do pai evita a assunção identitária do filho…
Eis outra citação de destaque: «Agressividades não elaboradas, fragilidades narcísicas, angústias de separação, medos de destruição da mãe, figura primordial de quem a criança totalmente depende. Identificações maciças com essa mãe nos dois sexos para a manter dentro de si em perspetivas fusionais são de observação corrente, o que acarreta no adulto uma idealização dela quase absoluta, muito visível na maior parte dos homossexuais, masculinos ou femininos, ou, em contrapartida, uma desvalorização reativa do mesmo grau, igualmente quase absoluta.» Mais uma vez esta tendência para dizer que a causa pode ser uma coisa ou o seu contrário, o que até pode ser entendido numa perspetiva de explicação teorética, mas dificilmente pode ser aceitável em algo que se diz “científico”… Claro que também será necessário ter em conta a questão estatística e probabilística. Será que todas as mães dominantes produzem rapazes gays? (Qual o número necessário para considerar a existência de uma relação de causa-efeito?...) Não existirão outros fatores importantes? A fixação edipiana que produz a homossexualidade não deveria também produzir, numa boa parte dos casos, alguma forma de neurose? Não seria de esperar que o homossexual tivesse (quase sempre) alguma perturbação de ansiedade? E se a tivesse, não poderia ser uma consequência da forma como é tratado pela Sociedade? Será que a explicação psicanalítica difere para gays “ativos” versus “passivos”? Os gays passivos terão maior nível de identificação com a mãe? Ou serão só os gays com tiques e maneirismos?... (Enfim… Será que alguma destas questões precisa mesmo de ser respondida?... E se quisermos mesmo responder a estas questões, não teremos que estabelecer primeiro uma série de critérios, de fronteiras e de definições operacionais? Mas não será tal rigor próprio de uma ciência? Será que tal rigor é possível ou simplesmente aceitável?...)
A temática teria, decerto, que ser bem trabalhada, refletida, e de algum modo estudada, sempre tentando sobrepor o discurso racional ao discurso da preferência e do preconceito. Até que é precisamente a ideia de que o bom equilíbrio “Pai – Mãe” é necessário à produção de um ser “normal” que leva a que, muitas vezes, se produza o conhecido preconceito contra a adoção por casais homossexuais… Pergunto eu: e que fazemos com os casais heterossexuais em que existe um desequilíbrio na “supremacia” de um dos elementos? Proibimos a reprodução nos casais matriarcais? Punimos as mães dominantes? Multamo-las quando produzem filhos homossexuais? (Cobramos às mães possessivas o dinheiro gasto no “divã”?) Mas não será já tudo isto um preconceito?... Pois, afinal de contas, a homossexualidade não é uma doença… Ou é? Será que para os psicanalistas de que nos ocupamos a homossexualidade deveria voltar a constar dos manuais de psiquiatria? E será que, se isso acontecesse, alguma coisa mudava na realidade do próprio homossexual? Mesmo que fosse uma “doença”, não seria a homossexualidade uma parte da natureza do indivíduo? Deve uma natureza ser modificada (com base em pressupostos de “anormalidade” versus “normalidade” que podem estar errados)? Deve uma “Estrutura” ser alterada? Pode uma “Estrutura” ser considerada “anormal” (concebendo que existiria um modelo de “normalidade”…)?
Na extensão das perguntas anteriores, resta-nos questionar a fidedignidade das psicoterapias que usamos no tratamento das nossas neuroses… Pois, que confiança posso ter neste tipo de terapias quando o grau de incerteza parece sobrepor-se ao grau de cientificidade? E que fazer perante tantos e tantos casos em que o psicoterapeuta interfere diretamente nas opções e escolhas do doente? Será isto legítimo? Não será perigoso mexer com a vida de outrem? Não será incoerente, por exemplo, um psicoterapeuta ser “paternalista” e protetor relativamente ao doente, quando é a autonomia do paciente que deverá tomar a dianteira do processo terapêutico? Um psicoterapeuta paternalista não atuará ele mesmo como um “pai/mãe” dominante? Não era desse género de Ente que era “suposto” libertar-nos?...
Reparemos que muitas das questões que temos feito só fazem sentido se tivermos como ponto de partida o facto de a homossexualidade ser uma coisa a extirpar… Será que não é toda uma visão social que tem de mudar? Pois que tudo é contexto, tudo é relativo!

Publicado no Site do Jornal 'Expresso'

sábado, julho 07, 2012

Sobre a (des)importância da Educação Física no ensino secundário

Recentemente, dada a intenção governamental de que a nota da disciplina de Educação Física deixe de ser contabilizada para a média de entrada para a Universidade, têm sido tecidos diversos discursos acerca da importância da “matéria” em questão – desde a quase total irrelevância à quase endeusificação que, de qualquer modo, atravessa paralelamente as diversas “indústrias do corpo” –, muitas vezes desprovidos de uma ligação franca e coesa à realidade.
De algum modo, o meu papel enquanto estudante do ensino básico e secundário contraria o meu papel enquanto praticante de atividade física e a minha profissão de fisioterapeuta, pois que, revendo o passado, não posso deixar de lembrar o quase “inferno” que as aulas de Educação Física sempre representaram para mim, dado que um certo “mau-jeito” para as coisas do físico sempre serviu de mote ao agravamento de um “bullying” do qual fui vítima ininterrupta durante muitos anos.
Não representou, todavia, tal experiência um abandono da prática física, antes me apaixonei por esse tipo de atividade, ao ponto de ter influenciado a escolha do meu curso de Fisioterapia. Curso e profissão que valoriza, logicamente, as atividades ligadas à motricidade e ao treino, mas somente num tipo de representação maioritária e académica, pois que, nos últimos anos, após estudos realizados no domínio de um paradigma fisioterapêutico muito específico, nomeadamente o modelo da “Reeducação Postural”, me tornei novamente adversário de um vasto leque de atividades físicas (mas não da totalidade das mesmas) e um representante da necessidade de uma “revolução epistemológica” no domínio da Educação Física e da Fisioterapia.
A temática possui certos cambiantes complexos que não importa discutir agora, até porque, acerca da fraqueza do “fitness” enquanto “nova medicina” já terei escrito há vários anos (em textos que são, agora, feitos renascer no meu recentemente publicado «Corpo e pós-modernidade»), mas releva afirmar que, segundo o modelo “clínico”, e se tivermos em conta as leis biomecânicas pelas quais se rege o corpo e a postura, a esmagadora maioria das atividades físicas – principalmente aquelas que fazem uso da força e da resistência musculares – não possui real valor para a saúde. O que não implica que todas as práticas sejam igualmente más, até porque não cesso de valorizar as atividades físicas holísticas e de baixo impacto (principalmente aquelas que fazem uso do alongamento e do relaxamento psicossomático) e as atividades de domínio cardiovascular, das quais eu próprio sou acérrimo praticante.
Não retiro, portanto, importância à atividade física, afirmo, sim, que o tipo de atividade que é praticado regularmente, incluindo as aulas de Educação Física, possui, de facto, pouca relevância no sentido clínico da questão. Bem sabemos que as aulas de Educação Física estão veiculadas flagrantemente para a prática de desportos, o que, não deixando de possuir certas vantagens no respeitante às competências relacionais e “psicomotrizes”, ainda assim representa um conjunto de esforços particularmente improfícuos, até porque muitas destas práticas não são explicadas, adequadas à realidade diária e “práxica”, contextualizadas numa cultura de higiene corporal e de prevenção da doença; em última análise, a Educação Física tende a ser encarada como uma forma de “alienação” do currículo escolar, fonte de desadaptação e até sofrimento para os alunos mais “mentalmente meritórios” e de afirmação dos alunos que muitas vezes só na Educação Física conseguem ter algum tipo de mérito. Com a prática e manutenção deste tipo de modelo de Educação Física, e para desconforto de certos lóbis de académicos que sempre tendem a defender-se com linhas de estudos cuja fragilidade metodológica é gritante, estou de facto a favor da nova atitude governamental.
Por outro lado, tudo poderia ser diferente, e aí faria sentido que a nota de Educação Física tivesse um maior pendor valorativo, se houvesse uma franca revolução no modelo de prática das aulas, com vista a adaptar a lógica da atividade física a uma metodologia mais ligada à Saúde e menos à “performance”, incluindo o ensino de práticas de higiene do corpo e até de princípios básicos da medicina e da fisiologia (gerais e do exercício) e da adequada complexificação e relativização dos efeitos do exercício (com evitamento de “lugares-comuns” que obstam à inteligência dos estudantes), e o esforço por sensibilizar os alunos para a importância da continuação da prática física (incluindo a possibilidade de criar mecanismos que permitam a atividade física fora – e para além – da escola e até o prolongamento dessa atividade pelo máximo período de tempo) e da adequação desta à prática das atividades da vida diária, sempre complexificadas pela vivência de um pouco sadio e ativo envelhecimento.
Requerem-se novas metodologias (com estas a reclamarem uma reflexão e uma mudança no seio dos conteúdos da própria realidade académica que lança as bases para a formação dos profissionais da motricidade), a gestão de uma relação diferenciada entre os colegas, a prevenção do “bullying” e do preconceito, a ênfase no modelo de aulas “teórico-práticas” e, sobretudo, o desfazer progressivo de uma imagem da prática física conluiada com o exercício “militar”, estúpido e alienado da vida “real”; este tipo de exercício, ainda existente no formato de professores que se comportam como “sargentos da tropa”, tem de desaparecer, pois que, ao invés de encorajar a prática da atividade física, antes contribui para a visão (ainda muito) negativa do exercício, a qual, ao contrário do que muitas vezes é afirmado, ainda é a regra da grande parte da “confortável” população portuguesa (excetuando, talvez, as novas gerações que, de qualquer modo, realizam atividade física mais por imposições de “bem parecer” e/ou de “bem-estar” e/ou “bem trabalhar”/”bem produzir” do que propriamente por terem tido uma grande experiência de encorajamento no ensino secundário). Reformule-se a Educação Física e aí talvez a disciplina passe a ser mais valorizada e acreditada.

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quarta-feira, junho 27, 2012

Médicos, enfermeiros e afins: poder e capitalismo

Não é preciso ser um especialista na filosofia de Michel Foucault para saber, ou, no mínimo, desconfiar que a História do corpo, talvez mais do que as outras modalidades da Historicidade, se faz constituir mais por uma fenomenologia do irracional e até do dogma, do que propriamente por uma suposta objetividade científica e/ou clínica. Essa irracionalidade aparece travestida, sobretudo, de uma problemática de poder, com este a exercer-se sobre o corpo e aparelho decisional do doente, mas bastante mais no formato de uma querela interdisciplinar que, tradicionalmente, opõe médicos a enfermeiros e/ou outros profissionais de saúde não médicos. Atualmente, a presente “altercação” atinge um limite nunca vivido, com um desenlace que parece já adivinhar-se e que, mais do que expressão de uma escolha refletida e racional, é, na verdade, o resultado do próprio paradigma económico emergente.
É bem certo que, mesmo sendo difícil de acreditar por parte das “maiorias” a que vulgarmente chamamos de “opinião pública”, um olhar mais analítico poderá permitir identificar uma série de questões complexas que parecem não ter existência, mas são, na realidade, o fundamento de qualquer decisão política e/ou institucional consciente. O meu duplo papel de fisioterapeuta e de ensaísta de pendor marxista promete complicar ainda mais as múltiplas questões que se levantam, essencialmente porque o interesse do “profissional” parece contrapor a atitude do ensaísta.
Não obstante, tal contraponto parece até nem existir, e vejamos porquê… Ora, tal como referi em «Corpo e pós-modernidade» (Esfera do Caos Editores), é inegável que, com o advento do liberalismo, teve lugar o surgimento de uma medicina com carácter científico que, mesmo possuindo uma maior probabilidade de se desenvolver enquanto ciência “séria” e “não dogmática”, viria a marcar o início de uma perspetivação do corpo que não mais mudou globalmente até ao presente. Refiro-me à criação de uma visão “mecânica” do corpo, que, subjacente ao modelo que apelidamos de “biomédico”, pressupõe a divisão em peças, a categorização semiológica e/ou a decomposição estrutural de uma entidade que não pode nem deve deixar de ser vista na sua globalidade sistémica. A fragmentação do corpo tem a vantagem inquestionável de facilitar a “educação clínica” e até a especialização médica, mas é o processo que permite epistemológica e inquestionavelmente a estruturação absoluta do conluio entre a medicina e o capitalismo. Pois que havendo que transformar a Saúde em mercadoria e o corpo em indústria, o modelo biomédico encaixa-se na perfeição, e é precisamente esta “conspiração” que permitirá reforçar o papel dogmático de um “médico-Deus”, dono e senhor do doente, um “Doutor” do corpo, na realidade em constante despreocupação com a “alma” e até com uma certa intenção de subjugação paternalística desta.
Ora, é bem certo que o aparecimento das profissões de saúde não médicas fez-se neste mesmo contexto de modelo “biomédico”, sendo certo que uma parca formação e a “falta de oportunidade política” manteve atividades como a enfermagem e a fisioterapia numa posição subsidiária. Entretanto, como quem é filho de determinados pais, ainda assim tem direito à saída do “paraíso original”, uma certa carência de autonomização não poderia deixar de se buscar numa necessidade de educação e graduação bastante fortalecida. Esse crescimento da exigência da formação é uma realidade inquestionável, e cá estou eu para garantir os meus vários anos de grande sofrimento com vista à mera licenciatura. Portanto, que os profissionais de saúde não médicos têm já uma formação “médica” robusta é inegável e a assunção do contrário revela somente ignorância. Obviamente que, perante tal exigência de formação, é impossível o profissional de saúde não médico não se sentir, de algum modo, frustrado perante a pouca autonomia que lhe é reservada. O crescimento das ditas profissões parece, assim, possuir até uma certa e justa pertinência!... No entanto, parece-me que tal crescimento, feito em subjacência ao “modelo médico”, apenas vai levar a que os enfermeiros e outros profissionais se tornem novos médicos. E, verdade seja dita, bem me parece que a luta pela autonomia não passa de mera luta pelo poder. E de que serve mais poder se este vai servir para alimentar um novo lóbi profissional, o qual pretende manter o mesmo tipo de intervenção que se mantém numa relação de cumplicidade com o liberalismo? Parece-me que, assim sendo, somente se transferirão “competências”, sendo que, a acrescentar aos tantos e tantos “médicos-burocratas”, passaremos a ter (como, de facto, já temos) os “enfermeiros-burocratas”. Por outro lado, a assunção de que tal transferência permitirá poupar dinheiro ao Estado é, de algum modo, enganosa, pois, não só os enfermeiros estão prestes a ganhar financeiramente mais do que sempre ganharam, como a mera possibilidade de “passarem exames” vai levar a mais um “inflacionar” do processo de realização de exames desnecessários, que, a bom saber, é já, no mínimo, escandaloso.
Ora, não deixo, no entanto, de estar de acordo com a autonomização dos profissionais de saúde não médicos. Mas acredito que tal “caminho” deverá passar necessariamente pelo trabalho no sentido da mudança de paradigma. Ou seja, a autonomia deverá basear-se num modelo epistemológico de intervenção também ele autónomo do modelo “biomédico”. Somente na “diferença” fará sentido qualquer tipo de autonomização! Ora, reconheço que, nas últimas décadas, o paradigma “biomédico” tem sido sujeito a revisões e cuidada reflexão. E o resultado é que cada vez mais os profissionais de saúde – médicos incluídos – pretendem-se mais “humanos” e “globais”. E a consciência de que a autonomia dos profissionais de saúde não médicos passa pela referida mudança de paradigma é tal que, de facto, os enfermeiros e terapeutas se têm pretendido “holísticos”. O grande problema reside precisamente aqui. É que, independentemente do que tem sido “vendido”, a esmagadora maioria da atividade dos enfermeiros e terapeutas não pode ser considerada holística, pois que uma visão “nosológica”, “mecânica” e “fragmentada” do corpo persiste em manter-se teimosamente arraigada aos profissionais de saúde. Culpa sobretudo do paradigma económico, bem o sabemos, pois que é impossível tratar o “todo” do doente quando simultaneamente o neoliberalismo pretende transformar o “utente” num artigo catalogável e descartável.
Bem sei que, pessoalmente, vejo o doente na sua “totalidade”; a minha intervenção visa o corpo por inteiro, sendo que o tratamento de uma área do corpo poderá significar o tratamento da totalidade do doente e até a intervenção psico-emocional. Mas também sei que, para poder praticar esta intervenção, tive de abandonar o Sistema, e, não havendo contexto de Clínica ou Hospital que permita uma intervenção que vise a verdadeira holisticidade (pois que tais instituições trabalham segundo o modelo das prescrições de tratamento de partes do corpo divididas), sou automaticamente obrigado a trabalhar enquanto sempre inseguro trabalhador “independente”.
A prometida liberalização do SNS vai, de facto, possibilitar o crescimento das ditas profissões não médicas, pois que há a perceção de que tal “distribuição estatutária” permitirá tornar os serviços mais baratos, mas, como já terei dito, a médio e longo prazo, o utente, aliás cada vez mais “cliente”, acabará por perder, porque o paradigma epistémico e económico básico continua o mesmo… mas agora nas mãos de um punhado de profissionais que, verdade seja dita, possuem uma formação intelectual e cultural ainda muito deficiente; o risível desta questão é que é precisamente essa mesma pobreza racional e epistémica que continuará a manter os profissionais pregados ao desiderato do poder, assim como continuará a impedir a consciência necessária ao abraçar de um novo modelo de tratamento e compreensão do “doente-Pessoa”.

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sexta-feira, junho 01, 2012

A pós-modernidade ou o regresso ao Espírito («Corpo e pós-modernidade» revisitado)

Mesmo concebendo que o Universal e a Estrutura denunciam o que do Homem há, em primeira e imatura análise, de mais ontologicamente verosímil, não podemos simplesmente ignorar essa fenomenologia das contingências, esse historicismo a que nos obriga qualquer pretensão de redução fenoménica escalar, e que, de uma forma quase intuitiva, parece revelar a nossa evolução enquanto processo dialético, de natureza essencialmente cíclica e circular, de um todo triárquico que se divide nas três idades que já identifiquei em «Corpo e pós-modernidade» (Esfera do Caos Editores) enquanto idade do sagrado, idade científico-positivista e idade pós-moderna.
Com a pós-modernidade a resultar enquanto síntese de um processo dialético que inclui necessariamente as duas idades anteriores, ainda assim não podemos deixar de notar a semelhança que a idade pós-moderna tem com a idade do sagrado, com estas duas fases da evolução a reportarem uma fenomenologia da continuidade e uma perspetiva panteísta de Deus, e a deixarem a idade positiva a morigerar nessa grande insignificância paternalista de uma realidade que persiste em ser fragmentada por uma necessidade própria de uma modernidade obsessivamente categorizadora e inadvertidamente falaciosa; temos, então, que a idade tese e a idade síntese parecem residir mais na Estrutura, enquanto que a idade científico-positiva, na qual ainda atualmente globalmente nos encontramos, parece predispor ao historicismo – necessariamente materialista, seja num sentido epistemologicamente positivista e mecanicista (que importa mais ao cientificismo base do capitalismo e também do neoliberalismo), seja num sentido epistemologicamente dialético (que importa mais ao hegelianismo e, sobretudo, ao método marxiano) –, com toda a semelhança que esta conceção tem com o pensamento de Foucault, para o qual a origem da História se descobria no advento do liberalismo, prelúdio da modernidade, página de mudança que tinha até ali sido constituída por uma mera arqueologia de saber.
Sabemos já que o conluio entre a cientificidade clássica e a economia capitalista, cuja obsessão com a quantificação perpassa em pleno século XXI, desnaturaliza a realidade, porque a perversão da transdimensionalidade dos objetos é atida como visão epistémica preferencial (porque em subjacência ao princípio pedagógico/organizativo da conservação da energia), e subverte a intenção de um mundo Ético – em que a gestão dos Valores passaria para primeiro plano – confinando-nos aparentemente a um inamovível híper-modernismo de pendor tecnocrata e flagrantemente imoral… em resumo, um mundo sem esperança!...
Mas sabemos também que na mente de certos homens cuja estoicidade permite vencer a tentação da mundanidade prazenteira da hipermodernidade reside já esse mundo de uma pós-modernidade (que diferencio de hipermodernidade, que é para mim o que para muitos outros significa erradamente a pós-modernidade), na qual a verdadeira e peculiar Liberdade poderá ter origem. Não é esta obviamente a liberdade epistémica que o liberalismo económico propugna, com base em teorias libertaristas pouco inocentes que pretendem que somos flagrantemente responsáveis pelas nossas condições sociais e económicas, é antes uma Liberdade de raiz fenoménica primordialmente “simbólica”, que mesmo não deixando de poder ser ontologicamente verdadeira (com todas as repercussões ideomáticas que tal tem para uma epistemologia das ciências de cunho “sócio-hermenêutico”), é genuína sobretudo no sentido de uma intencionalidade cuja propensão ético-moral não poderá jamais ser negligenciada.
Mesmo podendo estar a confundir três conceitos não obrigatoriamente auto-implicativos – holismo, consciência e livre-arbítrio – ainda assim todos eles parecem ter responsabilidade decisiva nessa tão desejada “utopia” (será?...) de uma harmonia pós-moderna. Esta “harmonização” terá sido parcialmente compreendida pelos idealistas dialéticos – cujos principais pioneiros são Kant, na realidade genuína, e Hegel, na realidade mais completa e cabalmente aceite, – mas só verdadeiramente integrada mediante a ajuda do “pós-marxismo”, existencialismo, pós-estruturalismo e também das ciências cognitivas, cuja contribuição determinante para a construção da visão de um Eu consciente e intencional não poderia jamais ser elidida. Assim sendo, e não podendo já ninguém negar o papel de um Eu construtor ativo da realidade “real” (mesmo assumindo que o “interno” também é real…), sob os vórtices de um positivismo (“realisticamente ingénuo”) que se afirma fortemente pela via económica, mas jaz já ideomaticamente moribundo, esta tão adversada “pós-modernidade”, tão erradamente confundida com “relativismo moral”, não pode já deixar de se imiscuir com a necessidade de uma nova/velha Espiritualidade.
É certo que esta mesma Espiritualidade possui mais pendor fenoménico mentalista do que propriamente corpóreo-instintivo, até porque, decisivamente, a origem do mal não pode deixar de ser encontrada nos instintos e também na necessária relação dialética que estes estabelecem com a consciência ética de um mal que é visto enquanto tal (só esta consciência nos torna, supostamente, moralmente responsabilizáveis e legalmente imputáveis… coisa sempre eternamente discutível, se aceitarmos a ontologia de um “determinismo absoluto”, implicativamente desresponsabilizador) – o que nos tenta ao renascimento de um Platão que coloca no corpo a culpa de um agrilhoamento, aniquilamento da visão das essências, só na morte material potencialmente resolúvel, de resto condição vivificável pelo filósofo que exercita a renúncia aos prazeres carnais ou – para citar Kierkegaard – “estados eróticos imediatos” –, mas, ainda assim, não deixa de se poder conceber enquanto desiderato de um processo (também ele dialético) de equilibração monadística entre o corpo e a mente, a corporeidade pulsional e a consciência ética/racionalidade “gestáltica” (ou mais propriamente entre o corpo sentimental/proxémico e a consciência que, de qualquer modo, precisa dele para existir… monismo factual que as neurociências vieram, de algum modo, confirmar), o Eros e o Tânatos, o id e o superego, de resto uma harmonização que, como já se percebeu, a psicanálise/psicodinâmica viria a entender de modo peculiar e “respeitosamente” profano.
Daí que concebo que o crescimento da civilização no sentido de uma verdadeira pós-modernidade acarreta um trabalho de “divã”, potencialmente obtenível pelo exercício de uma religiosidade, a qual, mais do que manter o ser humano anquilosado num processo de neurótico “eterno retorno” às origens cosmogónicas (que se revêm nos rituais de reactualização das “origens”, revisitação regressiva que se pretende exorcizadora da angústia de separação perante a perda do “paraíso primordial”), deverá potenciar o desempenho de uma verdadeiramente evolutiva re-harmonização do Eu – individual e/ou coletivo – com o objetivo de, recuperando temporalmente o Absoluto, reencontrar o Homem com o paraíso original, no qual a verdadeira Liberdade e eticidade poderão ter lugar. Leia-se neste “reencontro do paraíso” não a reassunção do papel de Adão que a religião judaico-cristã proponente de um Deus relativamente omnipotente e babelicamente castigador propende (e que certas correntes gnósticas perceberam como erróneo nesse refluir da instituição de uma Igreja conluiada com o Poder e até a carnalidade) – até porque isto não significaria a Libertação –, mas antes a assunção da fusão com um Deus que tudo é e em tudo existe (semelhante à perspetiva funcionalista de Spinoza), que parece ser apanágio de religiões como o Budismo (apesar de esta religião ser de um panteísmo não teocêntrico), o que, em última análise, pressupõe que o Eu passa a ser o seu próprio Deus, e a Humanidade passa a ser a consciência criadora, instituidora da sua própria evolução, algo congénere com “o Superior a comandar o inferior”, citação de um Antero de Quental de «Tendências gerais da filosofia da segunda metade do século XIX» quase mediúnico, daquela mediunicidade rara que viria a ter o seu mais alto expoente “pós-moderno” em Fernando Pessoa (é certo que esta “iluminação” também existe em inúmeros homens do século XXI, mas também é certo que a nova aceitação da pós-modernidade, que a Física quântica viria legitimar em termos de tecido de uma “mor respeitável” cientificidade “neoclássica”, torna a nossa própria “mediunicidade” menos meritória).
Temos, assim, que, mais do que o encontro com o Sagrado, a assunção da pós-modernidade passa pela pura individuação ética do Eu individual e coletivo, que precisa mais do mito e do simbólico do que propriamente da instituição religiosa, sendo que passa para a “ordem do dia” tanto o relativismo epistemológico (morre o relativismo moral) quanto o absolutismo axiológico (morre o absolutismo epistemológico), com estes, numa visão mais rebuscada, a significarem o desafio da própria Física determinística, tanto em termos epistémicos quanto nos termos reais que a “levitação” parece representar; levitação, não só enquanto aproximação espiritual ao etéreo dos Deuses, mas enquanto acontecimento real que alguns propõem ser conseguido por certos budistas que, de algum modo, alcançaram a libertação ou iluminação absoluta (a qual, no mínimo, é preludiada pela perda dessa tão ridícula dependência – tradicionalmente ocidental – dos prazeres terrenos e dos bens telúricos).
Eis que a História passa a ser excrescência do Universal, tal como os ciclos de expansão e retração do Universo parecem ser de mote ad infinitum, com este Universo em que vivemos a ser talvez uma partícula integrativa de um Universo maior, e com esse Universo maior a ser partícula de outro Universo ainda maior, tudo isto ad infinitum, e com a base “micro-escalar” num caos quântico de partículas eternamente pequenas, divisíveis/decomponíveis ad infinitum em partículas perpetuamente mais pequenas. O homem está, tanto escalarmente quanto em termos de consciência livre e criadora de sentido, no centro do mundo e do Universo, o que, de algum modo, pressupõe – no momento futuro da individuação/libertação total e, portanto, no “fim da História” – a “morte de Deus”, a fusão da Vida com a Morte e também, eventualmente, a morte desse sentimento de solidão – o qual terá sempre alimentado a reactualização nostálgico-neurótica das origens mediante a prática ainda fulgente de rituais religiosos (só com o advento do liberalismo entretanto substituídos pela prática dos rituais próprios da modernidade capitalista, no formato da assunção de novas necessidades prazenteiras de consumo) – que deixa de existir, para passar a abraçar um novo “antropo-Centro”, este sim justo porque digno de uma consciência só feita de Valores e de transcendência.

Publicado, numa versão ligeiramente simplificada, na revista 'Biosofia', nº 41

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Deus/homem, Holismo/Reducionismo e Determinismo/Livre-arbítrio: improviso dialético

Se bem que alguns dos termos presentes no título do presente texto não obstem comumente à natural compreensão do filósofo, é comum tecer considerações – de cunhos diversos – que, inevitavelmente, demonstram que nem sempre certos conceitos são ou foram adequadamente compreendidos e distinguidos, tarefa, na verdade, hercúlea, se nos aventurarmos pelo território da dialética existente entre o Divino e o homem singular.
Sabemos, de um modo até bastante científico (leia-se de um tipo de cientificidade materialista, eventualmente positivista), que o mundo é essencialmente determinado por um conjunto de Leis prévias, com estas a perpassarem por um forte mecanismo de condicionamento do comportamento do homem, pelo menos na relação deste com o meio, e até no conjunto das suas relações psicossociais, isto se aceitarmos que estas são de carácter essencialmente demiúrgico, não obstante a franca complexidade de um conjunto quase inesgotável (mas não infinito) de intersubjetividades (estando já aqui presente o exemplo de um holismo que não acarreta libertarismo, se bem que a complexidade das variáveis relacionais em jogo possa induzir enganosamente a ideia de que existe libertarismo onde somente encontramos um tipo de indeterminismo virtual, que resulta da mera dificuldade ou até impossibilidade – temporária – de determinação, mas não da impossibilidade absoluta – pelo menos, ninguém, com toda a certeza, o poderá afirmar – da mesma determinação). Por qualquer motivo estranho, a identificação destas mesmas Leis conduziu muitas vezes ao ateísmo, não se percebendo muito bem por que forma é que a identificação das Leis do Universo e/ou do Homem poderá ser confundida com a existência ou inexistência de Deus.
Sabemos, igualmente, que as recentes descobertas da Física quântica são – ou tendem a ser – um desiderato interpretativo favorável à ideia de que existe o Livre-arbítrio, não obstante a possibilidade de o “Princípio da incerteza” ter sido mal compreendido, por mais uma vez se ter confundido Indeterminismo virtual com Indeterminismo de facto. Este mesmo ‘Livre-arbítrio’, que dificilmente poderá ser aceite como dominante no explicativo da ação humana (até porque pode simplesmente resultar de um erro de interpretação), é tido muitas vezes como “base científica” de um modelo epistemológico que podemos denominar de Pós-moderno, modelo que, no passado, já terei considerado como base da aceitação de um “regresso ao Espírito” (Biosofia n.º 41), no sentido em que o Pós-modernismo acarreta a assunção do ser-humano como um construtor ativo da (sua) Realidade.
Ora, é conveniente explicitar que esta perspetiva pode ser, de algum modo, reducionista, no sentido em que é proposto que o homem é o grande construtor da entidade divina, sendo que para esta edificação espiritual concorreria a relação dialética que o ser-humano Doxa (corpo) estabelece com o ser-humano Epistéme (mente) (segundo a “hierarquia do conhecimento” de Platão). Acrescentar-se-ia, até, que o nível ontologicamente mais elevado do “ser-humano Epistéme”, a Noésis (correspondente à razão intuitiva e contemplativa) é, segundo os dados neurobiológicos recentes, na verdade, igualmente dependente do corpo, no sentido em que a “Inteligência filosófica” (como muitas vezes prefiro apelidar) parece depender de uma relação neuropsicológica que se estabelece entre os níveis mais elevados da cognição e o resultado do sentir (adveniente dos dados obtidos por meio do corpo e captados nas áreas sómato-sensoriais do cérebro). Daí que, no livro «Corpo e pós-modernidade» (2012) tenha utilizado o conceito de racionalidade estética para me referir ao “Nous” platónico. Voltando à questão do reducionismo, este estaria presente (e até poderia ser compatível com o Livre-arbítrio), se, de facto, concebermos que a realidade Espiritual resulta da mera atividade pensante do homem, ampliada para um tipo de consciência coletiva e sociocultural de cunho apelidadamente “religioso”. Sublinhar-se-ia, aqui, que a semelhança entre os conteúdos da Espiritualidade e a fenomenologia do comportamento do Homem poderia ser explicada pelo processo de projeção no Espiritual (coletivo e religioso) do funcionamento neuropsicológico individual.
Contrariamente a essa visão reducionista (segundo a qual o Inferior explica o Superior), a visão Esotérica é dona de um maior holismo, pois que concebe que a atividade (noiética) do homem o aproxima do Divino, mas não o iguala a Deus, se não que o aproxima ou fusiona(rá) ao indizível. Assim, a visão ‘Esotérica’ propõe uma solução que força a humildade do homem, pois que o relaciona necessariamente com o Ser/Não Ser que o transcende e o explica. A visão ‘Esotérica’ não é sequer necessariamente libertarista, se bem que o Divino possa ser concebido como pura Liberdade (sobretudo liberdade relativamente ao separatismo dos níveis de maior materialidade e relatividade), pelo que a realidade “quântica” não é um pré-requisito obrigatório à aceitação do ‘Esoterismo’, antes é qualquer coisa que ajuda à aceitação do paradigma científico-epistemológico (pós-moderno e de natureza hermenêutica) que permitirá aceitar o tal – anteriormente apregoado – “regresso à Nova/Velha Espiritualidade”. Assim sendo, no Esoterismo, poderemos aceitar que existe Holismo/Uno associado a Determinismo, se bem que no nível mais monadístico já podemos conceber a existência de uma Liberdade, mas de um tipo diferente do Livre-arbítrio (a Liberdade resulta do Uno, mas o homem – individual ou coletivo – não possui uma liberdade de ação ou decisão, pelo menos segundo o ponto de vista “exotérico” a que estamos mais habituados; a tal Liberdade existe – sim – em Deus, porque somente este seria o Absoluto Ser e Não Ser, o que nos leva a pensar que, o número de Universos possíveis, ou seja, o número possível de potencialidades e, portanto, de Demiurgos, poderá ser, de facto, infinito).
Aponte-se que tanto a perspetiva ‘reducionista’ (mais próxima de um tipo de racionalidade científica a que o Ocidente nos habituou recentemente), quanto a perspetiva ‘holista’ são compatíveis com o comportamento moral, mas somente a visão ‘Esotérica’ permite a descentração antropocêntrica e ego-maníaca requeridas para a vivência Ética mais plena. Por outro lado, a vertente fortemente determinista que o nível da vivência Humana implica (por parte do Divino) obriga-nos – ou deveria obrigar-nos – à vivência mais compreensiva e harmónica, enfim… no Amor e na tolerância, pois que a consciência de uma Determinação “superior” e de uma responsabilidade prévia (Karma) desculpabiliza (?) as falhas de determinada encarnação… coisa que mais obriga à Compaixão do que à estulta desresponsabilização moral.

(Texto adicional de revisão ao primeiro apresentado, no prelo para publicação na revista 'Biosofia')