segunda-feira, outubro 14, 2013

O Paraíso (perdido) da modernidade

Um sentimento profundo de abandono - a solidão como impropério de pilares ainda não reificados pela intenção civilizadora - terá levado o homem a criar os Deuses, face aos quais o desenvolvimento de uma dependência arquetípica urgiria como inevitável, a mesma que coisifica o h/Homem e que, simultaneamente, o condena à possibilidade do eterno retorno ao mesmo Princípio que o iniciou. O eterno retorno é o resultado da angústia de separação face a uma estrutura arquetípica rememorada como paradisíaca. Também pode ser a necessidade de renegociar com os fantasmas propiciadores de uma identidade ultrajada, os demónios de uma infância em que os pilares arquetípicos, se bem que existentes, se tornaram laxos. E se esses pilares são frágeis ou laxos, ora por défice de deuses ou amor, ora por excesso do mesmo, a angústia de castração surge muitas vezes no formato de uma agressividade, porque "o ataque é a melhor defesa", porque urge gritar o domínio de um Ego deficientemente integrado.
O comportamento do h/Homem é, a cada momento, o resultado determinístico da relação precoce com os seus deuses, e da relação dialéctica entre a última e o conjunto de outros "a prioris". E o homem do Espírito, o filósofo, é aquele que, de forma genuína, empreende a viagem mais radical no sentido de firmar os pilares arquetípicos, enganadoramente não tanto os do "Eu" pessoal mas mais os da Civilização, se bem que mesmo estes acabam mesmo por ser os do "Eu", a mesma subjectividade que preludiará a preferência por determinado paradigma e a escolha de um modelo filosófico em detrimento de outro.
Claro que o homem do Espírito se arrisca a manter-se como tal eternamente, pois que o adiamento indefinido da negociação com os fantasmas privados no formato de uma racionalização e projecção para matérias absolutistas e espirituais promete não ter resolução à vista. O homem bem seguro de si mesmo não se torna filósofo. Não pretende ser espiritual. Não tem sequer o sentimento de culpa de origem arquetípica necessário à disciplinação do pensamento e ao desiderato ético que subsume o desígnio do Espírito. A um nível radical urge o risco do Super-Homem i/amoral.
O próprio acto ético, tal como o comportamento perfeccionista, é alimentado pelo fantasma castrador, aquele deus fantasmático que, ao invés de permitir a âncora securizante, alimenta o "Big Brother" interno. Fica o ser destinado a agradar ao seu próprio Pater fantasmático, processo não resolúvel sem a viagem terapêutica aos infernos, residência dos demónios recalcados. A "obra ao negro" saturnina inicia o caminho de progressão, aquele que não é sentido como necessário ao que se possui a si mesmo e a um atraente ancoradouro do Princípio.
O Arché é assim causa de saúde e patologia, harmonia e desarmonia, é o início e o fim, o que inicia e o que reinicia, o Pai fantasmático e o Ego tornado Pai. O presente do ser, um pouco como o Eterno Presente do Espírito, só é possível depois do Arché ter sido purificado. Sem a eliminação das impurezas castradoras e da poluição da relatividade carnal íntima à temporalidade entrópica é impossível atingir a Pedra filosofal, a sensação de completude que promete a Imortalidade.
O tempo moderno pressente-se livre de Deus e da castração religiosa. Mas ilude-se ao admitir a liberdade e a evolução. Uma nova religião tomou as rédeas do controlo das consciências: a ciência, o liberalismo económico. O homem tem uma fixação pela zona de conforto, recalcitra em procrastinar o momento do encontro com o Si. Uma Histórico-Sócio-Psicanálise é requerida e o desiderato de uma Ética Espiritual afecta à presunção da Nova Era arrisca fazer regressar o Homem ao Arquétipo religioso, ao domínio de um novo Dogma. Nada de espantar, atendendo a que o eterno retorno cíclico há muito condenou o Homem a repetir sempre os mesmos erros...
A Espiritualidade só pode sê-lo se conluiada com a eticidade, mas a ausência de um critério falsificabilista que permita ao "não sábio" fazer a distinção entre o verosimilhante e o não verosimilhante exponencia o risco de uma nova dogmatização mefistofélica.
A própria modernidade científica possui já esse pendor fáustico, promete dar ao Homem a capacidade de se autodestruir, nem que seja pela promessa "médica" da vida eterna, ou porque é a própria Inteligência artificial que promete vir a ser o novo Deus. A tecnologização produz a indústria dos mortos-vivos. A máquina e o homem são um só corpo, como transparece nos filmes de Cronenberg. E ainda há-de vir o tempo em que o Homem pensará que terá sido o computador a criá-lo a ele e não o contrário.
É que o tempo modifica a própria História, e são os Valores do presente que constroem e demonizam os Valores do passado.
A própria noção moderna de espírito não corresponde verdadeiramente à noção de Espírito da sabedoria perene. Pois a linearidade Judaico-Cristã-Aristotélica igualiza espírito e alma e contribui para individualizar aquilo que só fazia sentido na perspectiva da Totalidade Ética. O liberalismo vem iniciar decisivamente a temporalidade, matando o Arquétipo, matando Deus, com a vantagem da morte do mau dogma, com a desvantagem da morte do bom dogma, com a vantagem da destituição do Deus exotérico e religioso, com a desvantagem da destituição de um certo panteísmo de continuidades, e lá se trocou definitivamente a noção de Uno pela noção de Separatividade, afecta à cientificidade das disciplinas e descontinuidades e ao espírito da individualidade político-económica.
O próprio espírito autorístico e a obsessão pelo «Eu» é uma criação do Ocidente e da modernidade. As Luzes vão reificar o racionalismo com vista ao paradigma de um Ouro liberal. Na Ciência, é a Razão empirista dos anglo-saxónicos e o cartesianismo corpo-mente. Na Educação, a massificação dos conteúdos cria a Pedagogia e reitera o racionalismo humanista, e a razão Espiritual que justifica o Ensino magistrocêntrico perde-se e até acaba por ser demonizada. A obsessão pelo «Eu» na Educação moderna levou inclusive à perda da noção do verdadeiro objecto da Universidade, quando, na verdade, esta não é sequer Educação, nem lhe compete visar a criação de competências ou profissões.
O mercado e a cultura da celeridade industrial e plastificada parecem querer dar o toque final na dessacralização dos tempos modernos. Mas desenganem-se os que pensam que esta cultura dessacralizada é isenta de deuses. O Big Brother tecno-científico e industrial aí está repleto de força, a ditadura do mercado dita a degeneração final do que vale per si; as coisas já não valem o que valem, elas valem o valor que lhes é imputado, e esse valor é decidido pelo mercado, e ficam assim o clássico e o sagrado destituídos da sua qualidade, porque o mercado os acha "antiquados", coisas do passado, quando o eterno não é passado, presente ou futuro, mas a modernidade diz também que o eterno não existe, é a ilusão do homem do Espírito, o mesmo que teve necessidade de criar o Eterno por temer a sua própria destruição. Esquece o homem moderno que também ele teme a sua destruição. Matou os deuses, mas inventou outros instrumentos pseudo-arquetípicos, mas que, não sendo sagrados, não param o tempo, não securizam, não pacificam.
Às tantas, mais vale o arquétipo controlador do tipo ético, do que aquele que faz a violência. Mas é que o Homem está condenado a transformar qualquer Arquétipo inicialmente bom numa estrutura de conforto alienante e castrador. Demanda o tempo entrópico que o homem volte sempre a fazer asneira. A entropia é a fisiologia do eterno retorno. Para que, transpondo a condição humana, o próprio Arché demande a evolução, a mesma que poderíamos querer gorar, mas que estamos destinados a não o conseguir desejar. E como estamos condenados a tornar-nos deuses mesmo que o não queiramos, poderíamos sempre tentar a vanidade da vontade, a desistência do caminho, mas é que a nossa condenação itera a própria desistência da desistência, senão a ilusão da liberdade...
A eterna repetição é a regra de um Ocidente que opta por manter a ilusão de que a actualidade é evoluída face ao passado, quando é o próprio mecanismo temporal que obriga ao desgaste da estrutura do Princípio paradisíaco. É mais uma ilusão, a concorrer com a ilusão etnocêntrica - que implica a noção da superioridade da cultura ocidental, assim como a ideia de que a Europa é o velho mundo, quando, na verdade, a cultura oriental é que é realmente o berço da Sabedoria - e a ilusão especista - que depreende que o ser humano é o único ser dono de consciência, sofrimento, e, como tal, de direitos ético-morais.
Há ainda a ilusão dos Valores estanques, aquela que permite avaliar o passado à luz dos valores actuais, sem que um esforço de adaptação hermenêutica tenha sido requerido. A mesma que permite considerar o passado como "atrasado" face ao presente, como "mau" relativamente ao "bem" do presente (como se o "bem" e o "mal" não tivessem sido sempre meros julgamentos de valores...), quando há somente uma incapacidade de perceber que não há verdade alguma senão a nossa verdade, o nosso contexto, e que a tentativa de nos colocarmos num outro contexto reitera a saída de nós mesmos, o exercício de uma racionalidade meta-egóica, e a necessária elevação na escada/escala da Consciência, o propósito da libertação da nossa condição, a tentativa de libertação de uma mente a partir da mesma mente de que nos pretendemos libertar. Oxalá a mente permita o funcionamento quântico, pois, de outra maneira, a libertação não terá outra resolução senão na morte da carne, na extinção do Eu, no encontro do Si-mesmo com o Nulo que somos incapazes de trazer à cognoscência.
 
Publicado na Revista "Triplov" (Dezembro de 2013) e também no livro «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma)

quinta-feira, outubro 10, 2013

O novo livro: «As Metamorfoses do Espírito. Sobre o mal, a psicologia da Filosofia e o Super-Homem», já disponível em http://edicoes-apeiron.blogspot.pt/

«A via do ‘Arché’ é a via do Demiurgo: alcançando os alicerces do manifesto, a tentação que se consome visa a duplicidade de um desejo do Inominável e de um desejo de Individualidade, como a criança que, na eterna saudade do ventre consolador, vislumbra a possibilidade de um devir que mais não é do que a solidão de uma aventura que, perpassando trevas, mas também recompensas e letargias, visa a Unidade do ‘Eu’, que, não sendo porventura a Totalidade, é a derradeira pacificação do Ego, que já não é Narciso porque consolidou o momento originário, o instante em que a consciência teve origem e já não era autoconsciência ou o era sem o ser porque era já o baldio de uma argamassa de Logoi desconformes, porque de outros que já outros não são, porque já são o ‘Eu’, que nunca ‘Eu’ será, mas que, todavia, é Ego afogado em sonhos, esperanças, desejos, ambições, necessidades, com tudo isto a ser o prelúdio da ilusão que se derrete no devaneio da identidade, na falsa noção de que se é num mundo em que nada É verdadeiramente, porque o Espírito tudo dilui, porque o Espírito se escoa num movimento perpétuo criando poros e fragmentos onde a densidade se permitia afirmar numa coisa irrealizável, porque o Espírito tudo é e subsume, tudo transtorna num Nada que é precisamente a Realidade tornada incognoscível pela pérfida incerteza, e esta a manar num fluxo permanente de relatividades, que pareciam ser somente desalentos, ou falta de talentos, e acabou por ser a Verdade colapsada no Vazio, de um caos que harmoniza as ordens incertas, irreparavelmente prementes da premência da iminência de Universos, coevos e derivados, que se parodiam de ser alguma coisa quando a Verdade não o é e mais se afirma pela frustração de querer ser o que É, quando Nada Ser é a derradeira fantasia.»
 
in "As Metamorfoses do Espírito. Sobre o mal, a psicologia da Filosofia e o Super-Homem", o novo livro que reflecte a problemática do mal, o corpo, a psicanálise, a Espiritualidade e a filosofia de Nietzsche, e que inclui o ensaio poemático e o fragmento aforístico como via de "comunicação".
Em breve nas livrarias Bertrand e já disponível para compra em http://edicoes-apeiron.blogspot.pt/ num preço promocional de lançamento, com a possibilidade de envio para qualquer país fora de Portugal, incluindo o Brasil e restantes países lusófonos.
 
 

segunda-feira, outubro 07, 2013

Crítica da Razão Clínica (tempo e Espiritualidade, medicinas, psicanálise e Alquimia)


«O fundamento do tempo é a memória»
Gilles Deleuze

«As Luzes que descobriram as liberdades inventaram também as disciplinas»
Michel Foucault


Atendo o absoluto da Singularidade divina enquanto Totalidade imanifestada do que as coisas são no sentido objectivo (para logo deixarem de o ser na perdição quântica do eterno presente e traduzirem o Nada do eterno movimento, no sentido heraclitiano de um repouso permanente), e o reino material arquetípico como a Totalidade manifestada do que as coisas são e estão quase a deixar de ser para outra coisa ser, não restam muitas dúvidas de que a temporalidade e a corrupção dos elementos por ela implicada são pertença do mundo da matéria, desse "inferior" que se inicia logo abaixo do Inefável para quedar luciferinamente no seu nível mais grotesco e saturnino, no quase esquecimento de um reino dantesco de demónios e fantasmas muitas vezes apelidados de "diabólicos".
O diabolismo, enquanto coisa que afasta ou desagrega, é menos o afã de um personagem secularmente demonizado por um certo cristianismo exotérico do que a qualidade implícita da carnalidade, o tecido inestético das leis da animalidade, a espessura própria do ser fenomenológico, do devir corruptor, do atrito desolador, enfim, a vestimenta veladora dos falsos absolutos, de um mundo em que a relatividade e a incerteza vão sendo alimentados pela corrente lodosa de uma temporalidade embriagadora.
Embriagação de um tempo que consome a perfeição paradisíaca de um "Princípio" arquetípico (Arché), porque a relatividade produz a multiplicação numa quase infinidade de acontecimentos, factores ou variáveis. Um tempo que remata o princípio do fim das origens, pondo ciclicamente fim ao sentimento vívido do Sagrado, colocando um termo no receptáculo da necessidade do conforto mítico.
O tempo, a História e a dialéctica têm o poder de fundear o Homem no eixo cabalístico dos contrários, numa reprodução incessante de dualidades instáveis, e somente a repetição cíclica do Princípio permite renovar a condição originária, aquela que, na perspectiva do "bom selvagem" de Rousseau, denuncia o carácter incondicionadamente benigno de um Homem ainda não traído pela maldade da temporalidade entrópica. Uma renovação revista na perspectiva do "in illo tempore" mítico (Mircea Eliade) ou do regresso cíclico à Era de Ouro indiferenciada, antecipada pela destruição diluviana da Era precedente (conspurcada pela soberba do poder de uma cientificidade fausticamente rendida à intenção de destruição mefistofélica).
Este "não tempo" do Princípio reitera a inocência, a liberdade do conforto de uma vivência despreocupada no Paraíso, portanto uma liberdade um tanto animalística, uma pseudoliberdade que requer o tempo para propender o caminho próprio de uma liberdade autónoma, trajecto destinado pelo próprio Arché, incluindo a necessidade saudosista de regresso ocasional à estrutura inicial.
A regressão indefinidamente perpetrada pelo passado mítico, um pouco diferente da perspectiva cíclica do Bramanismo/Sanathana Dharma, na qual o "eterno retorno" está destinado a deixar de o ser para que uma libertação genuína no sentido do Divino possa ser ciclicamente alcançada (o que não implica que um novo processo involutivo não velha igualmente a ocorrer, mas com a possibilidade deste "retorno" não o ser verdadeiramente porque a nova involução se dá no ventre de uma escala de evolução espiritual superior à que precedeu o grande ciclo temporal anterior). O retorno periódico ao conforto dos Deuses, Heróis ou Pais consoladores, que implica a diluição da "angústia de separação" do Homem face a um "Superior" que a Humanidade mítica requereu construir porque não conseguiu tolerar a solidão da sua Condição originária.
O tempo Histórico pode ser o que se iniciou há milénios, como também pode ser, reiterando a perspectiva de Michel Foucault, o que se inicia derradeiramente com o liberalismo, sobretudo no que à "Clínica" diz respeito.
O tempo é, assim, o sinónimo da profanação, da secularização, da dessacralização da Unidade primacial, com esta a ser submetida a um processo de fragmentação cognitiva, necessária de algum modo ao próprio processo de massificação secular dos saberes no contexto escolar e até das profissões (agora vistas numa perspectiva smithiana).
O tempo clássico, na perspectiva de Foucault, antecede o liberalismo, até ao qual o Sagrado se mantinha ainda como força dominante, se bem que há muitos séculos, senão milénios, que tinha assumido um formato exotérico de religiosidade popular confortadora e limitadora da liberdade de pensamento (estando a sabedoria profunda e esotérica reservada a uns poucos iniciados ou eleitos, e, particularmente desde os tempos medievos, sujeita a um tipo especial de secretismo, que teve a perseguição da cultura eclesiástica oficial enquanto catalizador).
Cedendo à tentação de estabelecer marcos históricos, há que reter particularmente o processo epistemológico de separação cognitiva entre Sujeito e Objecto, iniciada com o nascimento da Ciência moderna e reforçada esmagadoramente pelo Positivismo do séc. XIX, processo que reificará decisivamente a tragédia da separação dos saberes, incluindo a dessacralização e a desvinculação Ética de um saber adequadamente "científico". Como se a Ciência/Epistémi não fosse iniciaticamente todo o Conhecimento dito "racional", em oposição à Doxa, matéria opinativa e portanto irredutível ao julgamento da Razão...
O irredutível é assim reduzido e dividido pelo fluxo da temporalidade desorganizadora e relativizadora. Processo relembrado pelo orgulho de uma ciência que tem a fobia de ser confundida com o dogma religioso ou o dogma pagão que ainda vigorava na medicina do tempo anterior ao liberalismo, esta última tantas vezes parodiada nas comédias de Molière.
A nova ciência exclusivamente materialista assume o protagonismo no século de Darwin, retumbando esmagadoramente, ao ponto de até as matérias humanas e espirituais se tentarem assumir nos termos do tecido semiológico próprio do positivismo. A Sociologia e a Psicologia nascem enquanto ciências precisamente porque tentam explicar os fenómenos humanos mediante a utilização dos instrumentos da Física, e até a matéria espírita - interesse "lúgubre" dum século muito marcado pela atracção ocultista - se tenta definir em termos essencialmente científico-materialistas. O séc. XIX marca definitivamente a abertura à obsessão telúrico-individualista, e somente um certo Idealismo e algum Romantismo se manterão epistemicamente desligados da obsessão da concretude (mas não em termos políticos, com os mesmos a abraçarem algumas das pretensões "igualitaristas" da revolução liberal, e assumindo uma perspectiva utopista de uma nova Idade de ouro, de uma Sociedade "última" e renovada). O idealismo alemão manter-se-á parcialmente a salvo da pretensão do racionalismo científico das Luzes, se bem que a noção de um "fim da História" enquanto Utopia finalista de um tempo linearmente demarcado o aproxima da perspectiva Aristotélico-Judaico-Cristã de representação da Realidade, com esta escolástica a desempenhar, de algum modo, um mediador de proximidade e adaptabilidade da religião às perspectivas científicas da modernidade. Hegel propõe uma dialéctica do tempo que somente vê o seu "fim" na assunção do Espírito, nos termos de uma temporalidade "ocidentalizada", e o materialismo dialéctico vem substantivar a dialéctica mas destronar o idealismo com a presunção de encontrar a Utopia no "fim da História", mas agora numa perspectiva "adequadamente" profana e materialista (se bem que não positivista). Mesmo o relativismo do séc. XIX, nos termos de Schopenhauer e Nietzsche, não é do tipo "absolutista", mas somente ancora na perspectiva de que todo o Absoluto, todo o Espírito, se reduz a uma dinâmica de subjectividade, antecipando, de algum modo, a obsessão freudiana do séc. XX.
No século XX, a assomar à tónica subjectiva da Psicanálise - que propende, por um lado, a "relativização" da quimera do Absoluto e, por outro, a proposta "determinista" face aos comportamentos -, temos o relativismo "absolutizante" encaminhado pela nova Ciência quântica, que logo é aproveitado pelo Espiritualismo para coisificar a proposta libertarista do Homem (nunca se chegando a demonstrar adequadamente que aquilo que pertence à escala subatómica pode ter algo a dizer no respeitante à escala do homem, no seu sentido restrito), num sentido próximo do Idealismo hegeliano e ainda mais próximo do Idealismo Objectivo das antigas Espiritualidades, e quase grosseiramente usurpado pelo Pós-modernismo, que vem re-substantivar a aproximação entre Sujeito e Objecto, como se tal coisa fosse nova e não incluísse o tecido "cognitivo" do reino milenar das Espiritualidades.
Não obstante, o Pós-modernismo tem uma relação bastante mais próxima com o relativismo que o mundo das Espiritualidades, pois se o primeiro concebe a possibilidade de um libertarismo enquanto regra abrangente, negando um pouco a metafísica - coisa que assumirá um aspecto mais radical com o pós-estruturalismo e o desconstrucionismo -, o segundo não pretende negar a realidade literal (ou será um velo?) de um Absoluto meta-humano, reduzindo o relativismo ao humano "velado", prisioneiro da caverna da carnalidade, sobretudo se inquilino de um edifício pouco elevado da escala/escada da Consciência.
Não obstante, munido de uma série de influências bem contemporâneas - para além da ciência quântica e das filosofias idealistas e relativistas, o pós-marxismo, o subjectivismo, a psicanálise, a ciência cognitiva, entre outras -, o Pós-modernismo vem marcar a aurora de um ensombramento, que é o da ciência realista, positivista, ainda actualmente convencida de que a Realidade externa pode ser estudada em independência face ao observador. Podemos dizer que o Pós-modernismo é, então, uma "reactualização nostálgica das origens" espirituais (perdoe-me Mircea Eliade por repetir tanto as suas palavras), e, nesse sentido, é impossível não vislumbrar na Pós-modernidade o ensejo da Nova Era, daquela que rematará o regresso ao Espírito (resta saber se a Nova Era que se aproxima corresponderá a um "simples" retorno à Era mítica, ou se a corrupção dos tempos modernos levará à destruição diluviana, com a possibilidade de a Nova Era ser também o tempo de uma nova "raça" - isto, claro, segundo a visão teosófica, e não me atrevendo eu a referir tempos concretos).
O "eterno retorno" parece figurar perpetuamente como a Regra da temporalidade dialéctica. E isto inclui, sabidamente, a própria História da Filosofia e das Ideias, com um faseamento triplo de "Idades humanas" (que tanto podem ser as do Homem civilizacional, como as do homem singular no sentido ontogenético) em cíclica e constante repetição: (1) a infância, a idade mítica, arquetípica, em que os Deuses/Pais ainda desempenham o papel de protectores, e em que a religião fortemente exotérica ainda assume a dianteira face à esotérica e profunda; pode ser o tempo pré-histórico ou até mesmo a arqueologia foucaultiana, a idade clássica anterior à modernidade liberal. Um tempo que não exclui as excepções da espiritualidade esotérica para uns tantos eleitos e uma mística ocidentalizada por meio de uma Grécia assumidamente platónica e de um Idealismo que será sempre o modelo dominante da História da Filosofia, espiritualidade, arte e literatura ocidentais até que o domínio aristotélico comece a tomar a dianteira. (2) a juventude/adultícia, a idade moderna, científico-materialista, aquela em que o Homem utiliza o cepticismo científico enquanto instrumento de assunção de uma fúria libertadora face ao Paraíso agora visto como castrador (de facto, se a "angústia de separação" da criança é o quesito dominante do apego ao Arché, a "angústia de castração" do jovem domina no (novo) apego ao dogma científico, com este "re-apego" a ser prova de uma falsa Luz, de um Arché reinventado, igualmente protector, mas agora mais apologético de uma nova automomização que não viu, contudo, a sua realização integral, senão o perigo da eterna manutenção na compulsão da materialidade). A idade ainda dominante nos tempos em que vivemos, em que o Homem, desconhecendo o verdadeiro e prístino objecto da Espiritualidade (porque a "doutrina" oficial insiste somente na visão dessa enquanto sinónimo de religião "mediada", exotérica, literalizada, viciosamente cultuada), pressupõe a laicização enquanto estratégia de independentização face aos Deuses/Pais. Não entende que a sociedade de consumo, a mundaneidade prazenteira, a overdose de informação, a quimera tecnológica e a indústria cultural das "massas" exercem a violência castradora de um modo semelhável a qualquer outra forma de castração inquisitorial. Queixa-se dos tempos do Sagrado e parece não reagir à "normalidade" do tempo moderno do Big Brother. Confunde Cânone e Dogma (no bom sentido) com aprisionamento e contenção, permanecendo alienadamente refastelado num mundo em que as Estruturas e os Pilares civilizacionais sofrem a humilhação dessa inútil e trôpega juventude pseudo-reaccionária (e isto inclui aqueles que padecem da "doença infantil do Comunismo", que, pretendendo-se livres do sufoco religioso, não se reconhecem nos termos tentaculares da prisão ideológica). Um tempo em que, face à ausência do conforto religioso, destruídos (pelo menos aparentemente) os pilares da protecção arquetípica, o Homem mergulha, mais do que nunca, no jogo de quimeras, ilusões placebetárias, feitiços mentais plastificados, dificilmente controvertidos pela força de uma Infância (que, de qualquer modo, já não existe, pois já nem os pais ou as famílias existem...) ou do divã do psicanalista, quase sempre mais necessitado de terapia do que capaz de propiciar a evolução mental do seu "paciente". (3) a maturidade (a pós-modernidade), a fase verdadeiramente evolutiva, aquela que remete para o arquetípico, mas que propende o avanço para o arquétipo próprio, para o Demiurgo que existe veladamente e em potência no próprio homem, senão Deus-Homem Ele mesmo enquanto Civilização, Totalidade, Unidade, Indiferencialidade.
Ora, revendo a temática do "eterno retorno", vide o número interminável de vezes em que estas três idades se verificam (e repetem) na História do Homem, incluindo as fases da vivência helénica: fase homérica (mítica), fase moderna (transposta, por exemplo, nas obras de Eurípides, marcando uma certa emancipação face aos deuses míticos) e fase pós-moderna (o helenismo propriamente dito, a fase fulgurante de uma Alexandria enquanto foco centrípeto das mais ricas culturas, não olvidando os saberes milenares profundos e herméticos). Veja-se também a própria História da Filosofia, que vive intermitentemente a transmutação "paradigmática" do Idealismo em materialismo e este em Idealismo...
Esta vivência da temporalidade dualista, em que a Idade Síntese (Esotérica) poderá resultar do confronto dialéctico entre uma Idade Tese (Arquetípica) e uma Idade Antítese (Moderna/Liberal/Materialista) realça particularmente a tendência inalienável para a Existência se conceber nos termos de uma odisseia de perpétuo e inextinguível movimento dinâmico, em que o eterno retorno parece ser quase a regra, incluindo as grandes Idades míticas (desde a Idade de Ouro à Idade de Ferro), e até, de certo modo, os grandes processos cíclicos, tal como vislumbrados pela antiga filosofia da Índia. Uma simples discussão filosófica perpetrada entre dois simples seres poderá ser bem exemplificativa da forma como a temporalidade dinâmica de uma instabilidade perpétua ou "não concordância" poderá originar um mecanismo "ad eternum", sem solução final e aparente à vista...
Daí que a própria noção de Idade de Ouro enquanto Utopia do "fim da História" poderá parecer mera quimera, pois não há mundo Ideal que sempre dure e que sobreviva à necessidade de mudança ou transposição. Tal como não há existência Utópica que permaneça eternamente incorrupta e imaculada, até porque é a própria entropia que demanda o desgaste temporal do que parecia incorruptível.
Esta tendência para considerar as coisas incorruptíveis também merece um certo esgar ou sorriso. É a própria ilusão (mayávica) da carnalidade que demanda que as coisas pareçam "obra acabada", objectos do Absoluto (quando é a própria História que acaba por demonstrar que aquilo que parecia inicialmente um Valor incorruptível demonstra ser, mais tarde, um pequeno valor relativo ao tempo que somente alguns pretenderam absolutizar movidos por insegurança interna - necessidade milenar dominante do espírito em querer ser Espírito - e/ou intenções menos benevolentes). Como se o Absoluto pudesse sequer ser contemplado pelas nossas mentes relativisticamente determinadas. Como se o Divino estivesse ao alcance das mentes humanas, escolar e cognitivamente treinadas para serem "uma coisa e não outra". Como se o pensamento e a linguagem, que são necessariamente relativos, ousassem sequer reflectir o Irreflectível e pensar o Impensável, que é como dar coloração ou qualidade ao Inefável, Inqualificável, Inexprimível, à Totalidade imanifestada, ao Nada da Singularidade quântica.
A dialéctica do "eterno retorno" apela obviamente a um tipo de relativismo não comparável à noção de uma certa irrepetibilidade fenomenológica (como no "Dasein" de Heidegger), com esta a ser, de algum modo, a regra da existência interior, pensada como tendo um início e um fim definidos, se bem que esta "consciência linear" pode ser a norma do íntimo de cada ciclo, fase, Idade ou Era.
Por meio dessa irrepetibilidade lá vai o homem alimentando a noção de que ele é o mundo, de que é livre e indeterminado, de que ele é o responsável único pela História, responsabilidade rapidamente abandonada para um "outro" (homem ou Deus), no preciso momento em que o peso inexorável de um destino escabroso revela acontecimentos históricos dificilmente suportáveis por uma mente arquetipicamente oca (passe-se a incoerência da "insustentável leveza do ser"...). A lógica do homem tem sido essa: livre para o que consegue fazer com mérito ou quando as coisas correm bem, determinado para a incapacidade ou quando as coisas não correm pelo melhor.
A irrepetibilidade fenomenológica nutre obviamente a sensação de liberdade necessária a uma não desistência do caminho face ao devir. É ela que possibilita o antes e o depois requeridos à evolução. Por outro lado, a evolução implica o reencontro arquetípico, mas este deve ser um "retorno" essencialmente temporário, de modo a que o "iniciado" possa firmar a aurora da sua libertação. Este "prelúdio" precisará do Outono amadurecido da vida. Requererá a superação dos condicionamentos que citei nas fases da Primavera (Infância/Era mítica) e do Verão (Adultícia/Modernidade materialista), com vista a uma lentificação da temporalidade, em que a síntese esotérica se aproxima de algum modo da fase infantil arquetípica (o que é o mesmo que dizer que a evolução demanda o regresso à infância, ao útero materno, ao paraíso do "Pater"... para que uma "infância própria" possa ser (re)criada).
Este retorno rememora, obviamente, e num tom mais profano, o objecto da Psicanálise, e também o objecto da Fisioterapia reeducativa (tal como a concebo, enquanto voz minoritária), com estas a assumirem o aspecto de uma verdadeira Alquimia transmutadora. Não se pretende, obviamente, que estas terapias forneçam somente um placebo que, ao promover a mitigação do sofrimento das "dores de crescimento", mais implica a "não evolução" do que o necessário crescimento espiritual. A Psicanálise tem sido muitas vezes aplicada com o intuito de mitigar o sentimento de culpa face à tentação "teomaníaca" do homem querer melhorar-se de forma ética e redentora. Aí, estaria a assumir um papel semelhável ao da religiosidade exotérica, confortadora do sofrimento, com este último a poder constituir-se como a "espada" necessária ao crescimento («Não vim para trazer a paz, mas sim a espada»). Da mesma maneira, a Fisioterapia e a medicina convencionais são usadas maioritariamente enquanto estratégias de minoração da dor/sofrimento, como quem pretende calar a raiz de um sofrer mais profundo. Obviamente que o conforto importa, tanto quanto importa regressar ao Arché paradisíaco, com este a ser capaz de minorar a dor e de proporcionar algum alívio prazenteiro. E é no seio desse mesmo Arché que pode e deve ser buscado o elo requerido ao caminho próprio. Mas o risco de uma perpetuação de residência no paraíso em que o Pater é um "outro" é extraordinariamente grande, e é nisso que tanto o mito quanto a religião exotérica se fundem numa proximidade de "eterno regresso" (uma neurose, no sentido psicopatológico), senão até de um mal maior que é a eterna manutenção na infância (a alienação da psicose). É certo que é uma requerida "atemporalidade", mas quer-se igualmente o momento da realização integral, que, no sentido terreno (portanto, do "quaternário inferior"), é o Homem superior (quiçá o Super-Homem) capaz de criar ele mesmo o seu Arché, e portanto de ser criador, Pai Demiurgo.
Não obstante a ligação das antigas terapias ao princípio espiritual da libertação (incluindo, com obviedade, a meditação) - subjacente, muitas vezes, a um trabalho feito no sentido Superior > Inferior - dificilmente podemos considerar que a Psicanálise e a Fisioterapia reeducativa ultrapassam o elemento "alma" do quaternário inferior. O excesso de materialismo que as consome (porque surgidas institucionalmente na época moderna) leva-as a ousar, na melhor das hipóteses, a criação do Demiurgo no próprio paciente. O que não invalida que elas não devam ser o mais "holísticas" e totalizantes que for possível. Coisa que, no contexto da medicina e fisioterapia convencionais, ainda está longe de se verificar.
A Psicanálise e a Fisioterapia verdadeiramente holísticas (que, no caso da última, é uma raridade, não obstante aquilo que se advoga) podem ser vistas, então, como uma reactualização da Alquimia, se bem que, considerando que se mantêm ao nível da "manifestação humana", não deverão ir para além da mera "purificação mercurial" (ou seja, o retorno à matéria prima). Assumindo que o ser encarnado está inextrincavelmente ligado a uma "condição humana" de determinação, não posso deixar de conceber que, mais do que a libertação (no seu sentido literal), o homem somente conseguirá, no melhor dos casos (portanto, na condição de homem completo), escalar até ao topo da montanha de Consciencialização (quiçá, alcançando uma sensação de completude, não desejará sequer a suposta "libertação" face à Totalidade, pois que já se sente como Total, narcisicamente compensado, um Sísifo pacificado...). O que significa a obtenção de uma adequado nível de Noésis, mas jamais a verdadeira Totalização do Ser.
O ouro alquímico não é, então, o desiderato das modernas terapias e psicanálises. Terá sido o objecto de outros tempos, anteriores à corrupção da idade mítica pela temporalidade da modernidade liberal. Poderá vir, igualmente, a ser o objecto da pós-modernidade, aquela que acredito vir a criar a derradeira redenção da Espiritualidade esotérica (será possível acreditar que ainda actualmente, no tempo hipermoderno, existem no nosso Portugal profundo pessoas que acreditam ser a maçonaria, a alquimia, o rosa-crucianismo ou a teosofia obra do Diabo?... Se for obra o Diabo, é somente porque os níveis saturninos são a rampa de lançamento da iniciação. Talvez ainda possamos encontrar nessas terras alguns rituais mistéricos, e ainda mais provavelmente "crentes" "ortodoxos" com uma atracção pelo fogo... E não é tudo isto a maravilha das trevas medievas, aquelas a que ainda se associa a suposta origem "recente" da Alquimia?).
Claro que a obtenção do "Ouro" tem como pré-requisito a progressiva consciencialização e "libertação" face ao condicionamento relativista associado ao velo da carnalidade. O que significa que há, de algum modo, uma relação de proporcionalidade directa entre a consciencialização, a libertação, a subtilização (em que o corpo começa, de algum modo, a deixar de o ser) e a lentificação gradual do tempo. No estado final, obtém-se a Totalidade, que é como abandonar a escala da materialidade (ou seja, a condição humana) e abraçar a escala quântica da Energia imanifesta. Que é como tornar-nos Deus, ou simplesmente pertencer ao Divino, que é o Éter que tudo É e atravessa, que em tudo jaz e tudo controla; é o Testemunho e portanto a Totipotência; ou será simplesmente o Nada, Não Ser Total sem consciência ou livre arbítrio (apesar de possuir pura Liberdade)?
Será certamente a ausência de "antes e depois", de atrito, de sofrimento, de devir, e também de individualidade, de separatividade, de subjectividade; e é por isso que alguns psicanalistas antipatizam com o objecto da Espiritualidade: preferem a felicidade do Eu na Terra, de um Eu pacificado, quiçá Demiurgo ou Super-Homem (Nietzsche), mas desprezam maioritariamente o ensejo do esvaziamento egóico, do sacrifício ético, da perda da consciência própria em nome de uma Totalidade indiferenciada. Alguma vez no contexto da teoria clássica de Freud poderia ser concebido o "andrógino" ou o "Hermafrodita" enquanto ser "psicanaliticamente acabado", ainda mais quando o período "final" do seu "desenvolvimento psicossexual" é o da diferenciação genital?
A esta perspectiva podemos assomar a interpretação psicanalítica da "construção Espiritual" que, valha-nos o elemento meramente interpretativo, poderia ser o objecto crucial da Psicanálise Jungiana. Porque em Jung, tanto o Arquétipo como o Inconsciente Colectivo podem ser materialisticamente interpretados como uma Consciência Civilizacional/Colectiva no contexto do qual as construções religioso-espirituais dos diferentes povos teriam origem no mero facto de possuírem genéticas comuns e também relações comparáveis com o seu ambiente exterior. Será isto suficiente para explicar tamanhas similitudes entre construções espirituais de diferentes religiões, mesmo entre aquelas que dificilmente poderão ter sido culturalmente miscigenadas?
Esta é uma interpretação materialista que tem sido muitas vezes apresentada, e que assomada ao facto de muitas construções supostamente esotéricas terem resvalado para o lado da fraude, coloca muitas vezes a Espiritualidade numa situação de alguma delicada reputabilidade (temos de admitir que a impossibilidade de podermos utilizar um qualquer critério falsificabilista de modo a distinguir o "verosimilhante" do "não verosimilhante" na matéria pertencente ao domínio da Noésis pode levar a alguns excessos e, sobretudo, ao engano dos mais desavisados ou nescientes... Isto é também a fraqueza de uma apregoada "não cientificidade" do método pós-moderno, incluindo a possibilidade de um certo "relativismo interpretativo" com intenções parciais e não cunháveis com a Ética criar o "mau dogma" e a dominação a partir daquilo que seria no máximo um "bom dogma" do Espírito, o que nos rememora o objectivo do critério falsificabilista de Popper e dos "liberais"). Como convencer as pessoas, as massas presas à carnalidade, da "obviedade" das construções do Idealismo enquanto Obra maior da Sophia (pelo menos para os "destinados" ou "eleitos" a uma compreensão do que pode ser visto como reminiscência platónica)? Não será talvez por isso que, em tempos passados, um certo secretismo mistérico permitia o acesso dos saberes profundos somente aos eleitos, aos mais preparados e já mais desalienados?
Mantendo a visão da crítica materialista, é possível afirmar que, de algum modo, uma certa perspectiva psicanalítica poderá advogar que a Espiritualidade é somente o resultado da generalização do Inferior mental individual para o Superior Civilizacional e Supergóico. Desse modo, o Arché é como a Origem do ser (o útero, o nascimento ou o início da consciência), o Paraíso é a casa dos pais, Deus é o Pai, e as fases da vida individual podem ser os inúmeros ciclos a que já me referi, ou simplesmente os inúmeros processos reencarnativos; o eterno retorno corresponde ao regresso constante aos nossos fantasmas infantis e que preludia o neuroticismo da vida, assim como a evolução corresponde ao crescimento individual, e a obtenção do próprio Arché, ou seja, a chegada ao topo da montanha (o mercúrio alquímico enquanto matéria impoluta), pode ser a sensação de completude da maturidade ou, antes disso, o momento de o homem se tornar ele mesmo Pai de um ser vindouro (coisa não facilmente alcançável pelo ser que não se redimiu a si mesmo no confronto com os fantasmas impregnados pela fixação arquetípica e que podem ser a angústia de uma prisão de recalcamentos). A lógica das analogias podia ser requerida eternamente, e se o materialismo vai sempre advogar que é o homem que fez Deus à sua imagem, o Espiritualismo vai sempre defender que Deus é que fez o homem à sua imagem, para que o verdadeiro sábio não queira sequer importar-se muito com estas questões (e divisões) e prefira somente viver simbolicamente os processos, e crescer, libertando-se, ou ter a sensação de descondicionamento (esta liberta, mesmo sendo nominalmente uma ilusão, porque uma certa dependência arquetípica, a ligação à condição animal, se mantém na persistência da materialidade). Também poderíamos entender a questão da Totalidade ética e do Eterno Presente como o resultado normal do ser pacificado, porque libertado do processo de Eterno Retorno. Livre da neurose e da vivência contínua do passado, o ser vive finalmente pacificado no presente, capaz de amar porque se sente amado e securizado (segurança obviamente dependente do encontro, fixação decisiva e redenção do Arché infantil enquanto pré-requisito da Estrutura própria, aquela que dará ao ser uma sensação de "firmeza" suficientemente grande para aniquilar o excesso de defesas sublimatórias ou mesmo destrutivas e maleficentes e igualmente de modo a permitir tolerar melhor a diferença relativamente ao outro, ao Grupo e a uma Sociedade que rebola eternamente na intenção de controlo supergóico de uma "liberdade individual" potencialmente diluidora da estabilidade e da previsibilidade, senão da intenção político-económica de dominação maquiavélica alienadora; tudo isto significa que o ser não poderá ser pacificado na relação com o outro e fusão com o Todo, sem que primeiro aceite a sua própria condição relativa e se perdoe a si mesmo no abaulamento das defesas primitivas, as mesmas que são constantemente recrutadas no mais pequeno gesto ou relação do Eu com os acontecimentos diários e que repercutem a condição de uma determinação que visa a "libertação para trás" num plano sequencial em que a obtenção da "matéria prima" deve antecipar a superação do próprio corpo e em que a frustração do processo pela tentativa precipitada de "calar o corpo" reitera a "fuga para a frente" que, mais a mais, ajudará, de certo modo, a perpetuar a neurose do "eterno retorno" [entretanto, e saindo da analogia "microscópica", devo acrescentar que também a própria Espiritualidade entende a eterna manutenção na manifestação à imagem do ideal da Psicanálise também como eterno retorno....... o que nos leva a encarar a possibilidade de a Psicanálise ver no Superego civilizacional a defesa - no sentido psicodinâmico - de um processo evolutivo na carne, da mesma maneira que a Espiritualidade vê no adiamento da libertação uma "defesa" para a não evolução na Globalidade....... dito de outra maneira, a Liberdade do Eu, na verdade condição do filósofo e do Super-Homem, é a meta da Psicanálise mas o meio-termo da Espiritualidade, enquanto que a Liberdade do Todo é a meta da Espiritualidade e, de algum modo, o sufoco castrador da Psicanálise, obviamente mais no aspecto de uma religiosidade exotérica edipianamente protectora - até porque esta acaba mesmo por perder o nível ético do Espírito para abraçar o apriosionamento do "Grande Inquisidor" (Dostoiévski) - do que no aspecto da Espiritualidade esotérica, se bem que mesmo esta pode ser vista nos termos de um objecto Civilizacional que, na perspectiva de Freud, é supra causa da "neurose de várias épocas culturais"]).
Será o esoterismo uma construção simbolicamente velada relativa à vida do homem singular? Ou será que isto existe desta maneira por causa da lei das analogias, porque "Atman é Brahman e Brahman é Atman" ou porque "O que está em cima é como o que está em baixo, o que está em baixo é como o que está em cima"?...
Parece-me, no entanto, que não deixa a perspectiva materialista de se conceber como eventualmente perigosa, isto no prisma da Ética e do comportamento moral. Aceitar simultaneamente que todo o altruísmo é unicamente o resultado final de uma injecção hormonal prazenteira e ego-maníaca, que a moral se resume a uma construção relativa ao tempo, lugar ou até mesmo à classe (Nietzsche) e que o Espírito é somente o produto de uma mente conturbada, tudo isto importa menos pela sua potencial verdade nominal do que pela sua latente consequência na desconstrução do Arquétipo/Pater moralizador, sem o qual o ser deixa de encerrar uma força de contenção supergóica requerida à abolição da própria empresa de imoralidade. Obviamente, que, apelando mais uma vez à perspectiva analógica, não é muito difícil ver os efeitos de uma certa relativização radical no mundo moderno: não é só Deus que morreu, é também a consciência da importância dos Valores, do Cânone, das Estruturas. A Pátria e a Família passaram a ser "verbos de encher", o que não é particularmente perigoso para a nossa visão de homens feitos e minimamente morais. Mas que consequências terá isso na "Consciência moral" da Humanidade futura? E não poderá ser encontrada nesta desestruturação dos pilares sócio-familiares do Princípio infantil, assim como na excessiva relativização dos novos tempos em que nada se mantém ou perdura e tudo é instável, inseguro e efémero, um dos grandes fundamentos do exponencial crescimento da psicopatologia das neuroses e "depressões", já para não referir a clássica "loucura da normalidade" (Arno Gruen)?...
A Psicanálise advoga a importância da evolução, mas, por vezes, abusa na "ideologia" do descondicionamento. Pretende muitas vezes esvaziar o ser de todo o sentimento de culpa, o que não é coisa perigosa se efectivado num ser com uma forte "angústia de separação", mas, tornando-se "moda", pode ajudar a criar - como já está a acontecer - seres desprovidos de barreiras, e por isso mesmo, incapazes de se auto-civilizarem e amputados do processo de evolução no verdadeiro sentido do termo.
A amputação do Espírito tem o resultado que se vê: a criação de uma Sociedade em que não existe a consciência do "outro" (coisa que, como já vimos, não é a consequência obrigatória da actividade do divã). Todos se sentem Super-Homens, e jazem já numa luta contínua pela supremacia. O neoliberalismo é apenas um sinal clínico deste mundo em que a Hiper-modernidade toma o aspecto de um vírus, altamente contagioso, que infecta o próprio cérebro das suas vítimas e que não levou muito tempo a manifestar-se numa pandemia globalizada (lembremos que somente um tiro no cérebro é capaz de "matar" o morto-vivo, com esta "morte" a possibilitar a eventualidade platónica de uma verdadeira vida).
Nas mãos da modernidade viral, a própria ciência e o saber podem adquirir um pendor fáustico, verdadeiramente destrutivo. E, perante isso, a engenharia genética, que poderia parecer a "Obra mercurial", e a Física quântica, que poderia ser o prelúdio do Ouro da "Obra ao Vermelho", perdem tal estatuto, porque, ao invés de nos conduzirem à merecida Totalidade diluidora do sofrimento, mais rapidamente nos conduzem à destruição diluviana.
Ora, este é apenas um dos resultados mais visíveis da dessacralização da Ciência. Ao fragmentar e dividir os saberes, esvaziando-os do seu conteúdo Espiritual, os corpus científicos da modernidade prometem criar uma espécie de Admirável Mundo Novo em que somente uns poucos terão acesso à Utopia, relegando para muitos a parca fatia da realidade de sofrimento. Para além disso, parece-me que os poucos que terão atingido a "libertação" não terão provavelmente essa qualidade de ajuda a todos os outros que estão "no caminho" e que o "Buda Dharma" tanto apregoa no formato da Compaixão.
A própria Bioética surgiu com o intuito de criar alguma consciencialização nas matérias da Vida, incluindo as várias medicinas, coisa que não faria sequer sentido no antigo tempo milenar, especialmente no Oriente, onde a divisão entre os saberes não integrava o tecido cognitivo daqueles povos.
Esta divisão pode parecer a "normalidade" dos nossos tempos, mas isso não significa que estejamos perante o ideal de sanidade. Há uma diferença muito grande entre as três qualidades "normal", "são" e "moral" e vislumbra-se um paradigma de "normalidade" que poderá atrasar indefinidamente a entrada no mais "são" e "moral" paradigma civilizacional da Nova Era.
É triste notar que os novos profissionais de saúde já não concebem a sabedoria plena enquanto encontro não mediado com o Outro e a sua arte.
A obsessão pela Cientificidade parece ser a regra e o afastamento da realidade do próprio paciente aumenta exponencialmente. Pretende-se trocar o terreno supostamente imensurável do Paciente Uno pelo terreno enganadoramente mensurável do Grupo, tal como reificado pelos estudos estatístico-probabilísticos a que a nova geração presta culto (estudos que, não obstante a "evidência" dos erros e da fraude, não deixam de espoletar uma certa forma de dogma científico).
Vende-se massivamente a noção de "bem estar", no plano de uma espécie de eudaimonia endorfínica, advogando a suposta holisticidade de métodos psico-corporais, perpetrando a noção de uma falsa espiritualidade e os aspectos embriagadores e alienantes de uma suposta mística, e criando a ilusão de que o Esoterismo é este acerbo de feitiços mercantilistas (como se a ignorância relativamente à palavra não fosse já monstruosa...).
Cria-se a fantasia de que o caminho para o "Ser" passa somente pelo exercício do auto-encontro, repleto de "boas sensações" e de "iluminações pacificantes", quando, na verdade se há "alguém" em específico que se sente iluminado então é porque não está definitivamente na Iluminação. Ilusão agravada pela noção de que as necessidades de um Ego carente são uma prioridade, como se o "caminho" não implicasse necessariamente o desígnio ético. Caminho do peregrino, via da pedra, do deserto ou da floresta, de uma Gnose subterrâneo-filosófica (ou, se preferirmos, inferno-espiritual) que quase sempre aduz o "sofrimento" como ingrediente inevitável (lembremos que o "caos" sofredor é um pré-requisito obrigatório, se bem que insuficiente, para a concepção do filósofo; como obter o nascimento do Espírito sem as necessárias dores de parto?... as mesmas que agora se pretendem suprimir a todo o custo, substituindo-as pela quimera de um produto "final" nem por sonhos finalizado).
A terapia verdadeiramente holística não é como os feitiços da mediania que vão ajudando a viver no "eterno retorno" de uma infância castrada e alienada, "medicada" para a perpetuação da doença de um sofrimento meramente atenuado. O terapeuta que age como "paliativo" ou "placebo" não é um verdadeiro terapeuta, é mais como o fraudulento de um certo "esoterismo" que não é verdadeiramente "esoterismo". Uma terapia que não busca o retorno conciliatório com as Origens não tem direito a denominar-se de "Terapia", e uma Psicanálise que pretende evitar o sofrimento a todo o custo não é decerto uma Psicanálise no verdadeiro e Total sentido do termo. É certo que a rapidez de resultados e o fogo de artifício da quimera de terapias atraentes atrai mais o paciente que quase deseja ser alienado (até porque o peso da Realidade pode ser esmagador, e é nesse sentido que uma cuidadosa e lenta revelação deve antecipar um ainda mais lento desvelar, não vá a Luz fazer cegar ou enlouquecer o "iniciado"...) e o terapeuta que deseja prosperar no negócio. Mas o caso é que tanto o Espírito como até a Mãe Natureza sempre requereram grandes períodos de tempo para se efectivarem como Obras (quase) plenamente firmadas. Quem deseja o Eterno Presente não deve ambicionar o rápido futuro. Arrisca manter-se eternamente no passado.
A medicina afecta ao paradigma "científico-liberal" é, de algum modo, o mal necessário à estruturação cognitiva dos saberes. Mas assumir que um médico, e sobretudo um terapeuta, não conseguiu transpor e desconstruir o Verão das "disciplinas" para alcançar o Outono da Totalidade de um Corpo visto como entidade bio-psico-espiritual é, no mínimo, preocupante. Obviamente a esmagadora maioria dos profissionais não consegue reificar tal desconstrução e a moda do "holístico" passa por ser mais publicitada do que genuinamente exercitada e integralmente compreendida. Pudera!... Com um aparelho educativo (na verdade, doutrinador) comprometido com a cientificidade "dianóica" do saber, para além da obsessão pelas categorizações e classificações, não admira que a "normalidade" social maioritária pareça cada vez mais "louca" (se bem que, para eles, somos nós os loucos). A ciência moderna parece agradar mais ao Sistema e à Economia que as matérias "inúteis" da Filosofia e da Espiritualidade... com estas a representarem até um potencial inimigo da "ordem social"...
O Sistema nutre um compromisso dominante nas sociedades modernas: medicina, ciência, indústria e tecnologia. A medicina/terapia trata de manter os actores sociais (se preferirem, os proletários) "activos" e "funcionais" para que possam produzir a "indústria", auxiliada pela tecnologia que a ciência "pensou"; por outro lado, a ciência precisa da tecnologia para ser "praticada" e a indústria necessita de "actores sociais" funcionais e ricos para consumirem. E o que é que os actores sociais tanto consomem agora? Tecnologias e medicinas (nos formatos dominantes de "bem estar", terapias e Fitness). Por outro lado, também a medicina precisa da Tecnologia para ser praticada e da ciência para se legitimar. E visto que o "esgotamento" do modelo keynesiano está a liberalizar cada vez mais a medicina, importa que a mesma seja cada vez mais "produtora de resultados", coisa em que a ciência médica materialista domina, principalmente por meio da utilização das tecnologias, as mesmas que a ciência pensou e que requereram as tecnologias para as ter pensado. Os resultados surgem, o cliente fica satisfeito, a engrenagem do Sistema mantém o seu alimento, e ninguém precisa de se preocupar com as consequências a longo prazo do processo, seja para o corpo em que muitas vezes são alienadas as verdadeiras causas da doença ou disfunção, seja para o Sistema em que a engrenagem acabará, mais cedo ou mais tarde, por entrar em falência, por efeito da já referida temporalidade entrópica (associada ao ciclo vicioso acrescido pelo "efeito borboleta" afecto à Sistémica da referida engrenagem). Este sistema está feito para que o paciente se mantenha enquanto tal eternamente, o que também significa que se mantém perpetuamente cliente da medicina e da sua indústria, legitimados pela mesma ciência que não assume tal "conluio", até porque "o método científico é cego a intenções".
Mas é precisamente porque o novo espírito liberal "racionalizou" (cuidado, muito cuidado com este termo) a ciência que ela se tornou cega à intenção Ética e Espiritual. E é também porque a medicina se cientificou que ela perdeu o contacto com a psique, e sobretudo com a Psique Divina. Se Sujeito e Objecto não são um único elo porquê a preocupação ético-moral da medicina científica ou por que há-de a Psicologia/Psicoterapia se inquietar com mais do que respeita ao bem-estar emocional do seu paciente? Se a medicina científica possui qualidades de "falsificabilidade" por que há-de retroceder aos tempos do dogmatismo? Ignora que também o período moderno e a sua cientificidade acusam dogmatismo. O dogmatismo de quem diz que a Realidade externa existe "absolutamente" e que é possível aceder-lhe objectivamente. O mesmo dogmatismo que criou a mesma Psicologia cognitiva que admite a subjectividade do percepto e não quer muitas vezes assumir a introdução decisiva do método hermenêutico entre as suas "metodologias" de investigação científica.
O mais curioso é que se torna bem notório para quem trabalha em Saúde que não é a Razão científica aquilo que impera no sistema de avaliação, decisão e intervenção clínica. O relativismo é que é a regra do funcionamento em saúde, e isto inclui tanto a complexidade dialéctica de um corpo em contínua metamorfose (e, portanto, dificilmente compreensível na sua totalidade fenomémica pelo profissional de saúde, por mais que este seja demiurgicamente sabedor e experiente "Testemunha"), quanto o lado mais idealista/"pós-moderno"/psicologista de um profissional de saúde que constrói e interpreta o seu paciente, na perspectiva de uma complexa matriz dialéctica interna ao profissional (a mesma que apela ao Espírito, pelo menos no seu sentido subjectivo) que integra a síntese entre as referências internas e as referências do Paradigma intervencional que ele advoga (que começa e acaba também por ser interno). Isto não é obviamente estranho à problemática discursiva e do Poder, segundo a perspectiva estruturalista de Foucault. E deveria, a meu ver, ser um foco essencial da reflexão dos profissionais de saúde, coisa que tende a ser indefinidamente procrastinada pela noção que estes profissionais têm de que o discurso filosófico-hermenêutico é uma excrescência inútil e catalizada pelas necessidades de um Sistema (pelo menos o público) que até aqui sempre ousou tratar o utente como (mais uma) mercadoria, agrilhoada fatalmente à engrenagem da Indústria do tratamento célere, "eficaz" e produtivo.
Claro que a lentidão de um gesto terapêutico único e fenomenologicamente irrepetível (e, portanto, dificilmente prescrevível ou distantemente vivenciável), tecido na perspectiva de um acto puro, lento e sagrado com vista ao "Opus" alquímico (na verdade, um Opus conjunto do paciente, do terapeuta, da Mónada que os indiferencia, da própria medicina/terapia enquanto projecto de crescimento na pós-modernidade), parece estar fora de questão nos termos de um contexto em que o "descartável" é adulado. E, por vezes, até há quem, "espiritual" se diga, requeira que o corpo não interessa e que é matéria inerte, como se o Espírito não requeresse a encarnação e o jogo dialéctico da temporalidade precisamente para propiciar uma possibilidade de evolução, esculpida dos níveis mais involutivos/saturninos para os níveis mais "solares", como se a carne não fosse o palco da transposição, da suma prova cabalística da dualidade polar, do caminho de avanços e retornos (céus e infernos) do peregrino pelo deserto afoito, da escalada do homem superior no encalce do topo da montanha, o tecido mental da purificação do mercúrio da matéria primeira, o nível iniciático da escala com vista ao Ouro da Indiferencialidade... o Nada da ausência de Eu, e portanto, de sofrimento, terapeutas, filósofos e de tempo...
Termino dizendo que o novo paradigma hermenêutico que desejo para as Ciências da Saúde não deverá, no entanto, rejeitar a realização de estudos científicos segundo a perspectiva das "tendências estatísticas" (se bem que mesmo para estes desejo um novo paradigma de rigor, tanto na execução quanto na publicação), até porque a última coisa que desejo para a Nova Era é que um novo dogma imbuído de "mau relativismo" intolerante tome a dianteira (note-se que a fase outonal da Espiritualidade é a síntese das fases mítica e científico-liberal, requerendo-as e, de algum modo, integrando-as, jamais as excluindo categoricamente). Desejo, mais do que tudo, o empolar da reflexão, o respeito pelas Estruturas, a revalorização do Cânone de Valores filosófico-Espirituais, e o reaproximar fenomenológico do terapeuta ao seu paciente, do ser ao ser e destes ao Ser, do Eu ao outro, do Ego ao Espírito, evitando que a Clínica das disciplinas venha dividir o que, de algum modo, nunca deixou de estar aglutinado numa extensão de impartibilidade divina.

Publicado em 'Hospital do Futuro': http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blog/show?id=1967198%3ABlogPost%3A40517 e em «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma)

segunda-feira, setembro 16, 2013

Manifesto sobre a emergência de uma Fisioterapia pós-moderna

«Já não sou eu, mas outro que mal acaba de começar»
Samuel Beckett

O início do séc. XXI assume a sua risibilidade ao permitir o cruzamento de estradas políticas e económicas aparentemente antagónicas. E de um modo semelhável, trajectos incomensuráveis de pensamento autorizam-se numa plêiade de paradigmas e sistemas, vituperando o novo tempo a miscelânea de orientações e a relatividade de escolhas. Não fosse a ameaça de um relativismo claudicante, daquele mesmo tipo que perspectiva a verosimilhança no que é quase inaceitável, e o multiverso dos novos tempos seria quase como o preceito há muito desejado da liberdade, senão do tipo "puro", ao menos do pleno livre-arbítrio. Liberdade que, na textura da Singularidade filosófica e espiritual (portanto, noética, no plano platónico), não pode deixar de se conceber como condição necessária, flagrantemente obrigatória, do esculpir de um "corpus", há muito procrastinado, de pensamento "fisioterapêutico", do "pensar" em torno da Fisioterapia, dos seus métodos, das suas práticas, da sua Ética, da sua cientificidade, enfim... em torno de uma «Epistemologia da Fisioterapia», que, malgrado a resistência dos profissionais àquilo que consideram como "irrelevante", urge como requisito pungente da evolução da Fisioterapia enquanto arte e profissão autónomas. Assim sendo, oponho à crescente relativização consequente da reprodução de multiplicidades quase sempre desfasadas de um adequado tecido racional o desiderato de um núcleo de reflexão em torno da Fisioterapia, o pólo de uma «Filosofia da Fisioterapia», sem a qual a Fisioterapia e os fisioterapeutas se arriscam a cair num profundo caos de inteligibilidade acrítica, que é o mesmo de que empresas carnívoras se aproveitam para vender "métodos" como produtos de hipermercado, que é o mesmo também que vitima o fisioterapeuta à compreensão muitas vezes trôpega, francamente enviesada, da natureza funcional do paciente. Esta «Filosofia da Fisioterapia» é pré-requisito obrigatório da assunção de uma nova Fisioterapia, de uma Fisioterapia do novo milénio, da Nova Era, do tempo pós-moderno, que é o tempo das meta-narrativas, aquele que afirma a epifania de um pensamento resultante da dialéctica entre o multi-perspectivismo e o Cânone, o Caos e a Ordem, o Múltiplo e o Uno, o Relativo e o Absoluto.
Não é este nosso "manifesto" senão um esboço, um discurso, um ensaio quase experimental que se pretende fazer valer na representação de um certo pensar "fisioterapêutico" não limitável necessariamente por países ou continentes, e, como tal, ambiciosamente "universal", se bem que a realidade portuguesa acaba por aqui obter certa ponderação, coisa sana ao objecto do discurso, visto que a realidade da Fisioterapia portuguesa é provavelmente das mais amargas da Europa, senão da própria Lusofonia.
E com este ensaio pretendo igualmente contrapor-me a uma nova, recém-nascida, geração de profissionais que, não obstante a agressividade e a motivação "guerreira", revela um franco desentendimento do que é verdadeiramente a Fisioterapia, uma parca compreensão da sua natureza mais globalizante e humanitária, o que não pode deixar de contrastar com os excessos de um certo discurso ("hipermoderno") psicologizante que pretende ver a "entidade Holística" em tudo o que diz respeito ao corpo e às terapias, como se nada mais existisse senão o holismo, quando a verdade é que jamais o verdadeiro Holismo poderá residir numa entidade psico-física que permaneça despida da sua extensão Espiritual, com esta última a ser algo de dimensão também ela indefinida (quiçá porque indefinível), se bem que a perspectiva materialista prefira continuar a conceber o imensurável ou o desconhecido como inexistente.
Seria quase irónico indicar a respeito do Holismo a franca dificuldade em definir a Fisioterapia em independência de outras terapias do tipo "psico-físico", até porque é precisamente a perspectiva do Todo que repreende a visão fragmentária do Corpo, dos métodos ou dos modelos, o que contrasta, de algum modo, com a tentação superlativa e obsidiante do fisioterapeuta (enquanto profissional socialmente representado e com vista a um crescendo dessa mesma representação) de definir a sua actividade com vista a autonomizá-la de outras como a Osteopatia, a Quiroprática, a Acupunctura, ou mesmo a Terapia Psicomotora, a Terapia Ocupacional e a Educação Física. O que me leva a considerar que a Fisioterapia encarada na perspectiva "institucional" e até mesmo "sócio-política" não pode facilmente compatibilizar-se com uma visão "filosófica", senão "antropológica", da Fisioterapia, a perspectiva de uma Racionalidade que visa a Totalidade, a impartibilidade, a infinita continuidade, os ditirambos de um Corpo que urge como Unidade irredutível a categorias, classificações, nomeações, ou mesmo sistematizações patológicas, metodológicas e sistemáticas.
Ousa ser tão artificial quanto as definições socio-políticas das profissões e actividades referidas a visão científico-materialista do Corpo, reificada de modo retumbante pela Medicina nascente com o liberalismo político e económico, perspectiva assumidamente importante para a Medicina prescritivista e até uma parte da Enfermagem, decididamente indispensável na aprendizagem do estudante de Fisioterapia que mergulha nos livros de Anatomia, Fisiologia, Patologia e Biomecânica e que requer a "divisão" abstracta do movimento nas primeiras observações e análises cinesiológicas (de outro modo, seria extraordinariamente difícil reificar as primeiras aprendizagens no plano analítico dos estudos do Movimento), igualmente necessária ao jovem profissional inexperiente no tracto do doente e, como tal, demasiado agarrado às construções da Academia (pois que nele não habitam ainda outras referências), mas esmagadoramente limitadora da visão avaliadora e da liberdade e criatividade de intervenção no palco de um paciente que opera como totalidade, unidade complexa em que as diferentes componentes do corpo funcionam como peças de um puzzle, com este a reiterar um sentido somente quando completo e finalizado, integrado num Eureka gestáltico em que o Todo grita euforicamente a autonomia perante as partes destituídas de "ser" e de "sentir".
O fisioterapeuta experiente sabe aquilo a que me refiro. O verdadeiro fisioterapeuta aprende a re-observar o corpo do paciente, destituído de marcos, quase esquecendo os mapas anátomo-funcionais, visando o "ser" na sua prístina nudez, na sua indiferencialidade e inseparatividade, permitindo-se, ousando, ver o corpo do seu paciente como se contemplasse um corpo pela primeiríssima vez, à imagem de uma criança que lança o olhar ingénuo perante a robustez de um mundo que se pretende obra acabada, humanamente definida e ordenada.
O fisioterapeuta "criança" não é obviamente um selvagem (no sentido algo rousseauniano da palavra), pois que a sua virgindade de olhar constitui menos uma virgindade primeva do que uma "virgindade readquirida", capaz de firmar a sobreposição da criatividade e da heurística na avaliação e na intervenção, com estas duas a serem uma só, e o próprio terapeuta e o paciente a serem um só.
A Pós-modernidade demanda precisamente a síntese de um caminho dialéctico em que a cientificidade teve o seu papel. Mas o tempo da intervenção não é o tempo da cientificidade académica, se bem que o raciocínio clínico tem algo (muito, aliás...) do método científico. O tempo da intervenção reterá talvez a cientificidade do tipo de uma racionalidade noética, uma cientificidade pós-moderna que permite cruzar num só olhar indiferenciado uma pluralidade de olhares e perspectivas quase infinitamente transfiguradas. Porventura, o risco de firmar como verdadeiro o que é caricato existe, à semelhança do risco do "relativismo dogmático" (Popper), o que lá nos leva a requerer como igualmente indispensável o "corpus" de saberes tradicionalmente científicos, que, no plano recente da nossa profissão, tem ganho o aspecto de um tumulto de estudos do tipo "estatístico-probabilístico", que tanto obcecam os nossos jovens na sua visita diária ao Pubmed. Mas igualmente ridículo é obviar uma intervenção com base no que os "estudos" dizem ou deixam de dizer. Confio mais rapidamente nas leis da Biomecânica e nos princípios do Raciocínio Clínico baseados nos pressupostos anátomo-funcionais (malgrado o princípio baconiano da observação - "ingénua" - que lhe está implícito), se bem que de nada serve utilizar um modelo sem a adequada adaptação à idiossincrasia do paciente...
É conveniente desconfiar desse multiverso de estudos que preenche os olhos dos académicos, dos estudantes e dos jovens terapeutas. As lacunas, a falência metodológica e epistemológica, a fraude enquanto regra de execução de investigações quase sempre movidas por intenções de título ou grau académico, todo um manancial de epifenómenos associados à aventura da publicação em revistas quase sempre comprometidas com interesses, um pouco à semelhança das motivações empresariais da investigação, que rememoram o conluio que filósofos como Marcuse, Habermas ou Lyotard reiteraram na relação comprometedora entre ciência, técnica, política e ideologia capitalista.
A dependência de estudos ou de "guidelines" enquanto instrumentos orientadores e catalizadores da intervenção clínica não pode deixar de se semelhar à plena acção massificada do terapeuta, que, entretanto, deixou de o ser, para que se transformasse num "guia de exercícios" ou num "instrutor de classes", que é como vender a alma ao diabo, porque já a Fisioterapia deixou de o ser no momento em que o "terapeuta" substituiu a visão idiossincrática do Universo-Sujeito pela visão probabilística do Universo-Grupo. Quem ousa controlar um Grupo nada controla, nem sequer nenhum dos seus elementos. Como se um só elemento não fosse ele já todo um complexo Universo em permanente transformação, um infindável interpolar de variáveis, capaz de ousar a impossibilidade de controlo ou terapêutica, porque a quase infinita sucessão de acontecimentos que concorrem para uma só manifestação reivindica a impossibilidade de alguma coisa controlarmos, percebermos ou influirmos (?)...
Reduzir o nosso Universo-Paciente a um conjunto de regras ou de itens orientadores, esquecendo que os estudos de índole estatístico-probabilística falam somente de "tendências", "ponderações" e "generalizações", o que significa que podem não ser representativos de uma só unidade subjectiva, enfim, reduzir a complexa dinâmica psico-morfo-analítica a um quadro de médias e de jogos ponderativos é de tal modo ridículo que até poderia ficar admirado pelo facto de muitos dos nossos jovens terapeutas não desconfiarem de que "o Rei vai nu". Mas é precisamente disto que se trata... Quando todos querem ver o Rei nu com roupa acabam mesmo por vê-lo vestido, e da mesma maneira, os nossos jovens terapeutas têm por costume sair das escolas e Universidades com a cabeça mais absorta do que plena de Conhecimento, cumulada mais de conceitos do que prenhe de Sabedoria. Anos e anos de aprendizagens feitas mais em livros e mediante instrumentos artificiais do que propriamente por meio da aprendizagem activa da Vida acabam por fazer com que os Saberes optem por valer por si mesmos e não pelo seu objecto de conhecimento e desvelamento da Realidade. Quão triste é ter uma cabeça repleta de estudos, classificações e conceitos que, ao invés de aproximarem Sujeito e Objecto, o Eu do Paciente, o Ego da Totalidade, mais contribuem para toldar e agigantar o caminho que se pretende substantivar. No caso dos novos jovens terapeutas, a obsessão pela cientificidade não pode deixar de ser vista como alienadora, já para não falar das deficiências nas habilidades relacionais e tal-qualmente no respeitante à aptidão compreensiva das necessidades do paciente.
Imputo grandemente aos académicos boa parte da culpa da referida alienação, com a Fisioterapia científica a ser muitas vezes vítima do divórcio da realidade do próprio paciente, como se a vontade deste fosse vã face à totipotência da Técnica e do Terapeuta. Muitos de nós não nos admiramos com este tipo de "desenvolvimento", até porque muitos dos professores das citadas técnicas não chegaram sequer a ser terapeutas (no sentido "profissional" do termo), realidade anedótica que foi crescendo em Portugal e na Europa na mesma proporção do crescimento exponencial do número de escolas criadas para formar os ditos "terapeutas". E é este clima alienadamente científico que se prescreve aos futuros terapeutas, um pouco como se a Universidade servisse mais a esclerose do pensamento e do cepticismo do que o exercício da Inteligência Criadora e a defesa das Estruturas, Valorativas e Intemporais. Uma escola de Fisioterapia que não forneça ao Terapeuta os instrumentos do espírito crítico e as matrizes fundamentais do exercício de uma Fisioterapia consciente, criativa e criadora, auto-inventiva e auto-reflexiva, não tem direito a ser "Superior", mas somente a consubstanciar-se na redução de uma "profissionalização" com um mote de dependência de outras profissões e outros profissionais.
A leitura de estudos e a efectuação de formações e/ou de pós-graduações, ou seja, o termo corrente de aprofundamento de saberes, não é suficiente para que o Terapeuta se reifique enquanto tal (apesar de desempenhar um papel importante no processo...). Diria até que é pouco importante face a outra coisa que considero verdadeiramente decisiva, senão a única coisa que fará do terapeuta um profissional verdadeiramente autónomo, um homem no sentido ontológico do termo. Refiro-me à Sabedoria, a qual é, por definição dos antigos, conhecimento "não mediado". 'Sophia', para ser mais preciso, e que se refere a um Conhecimento do tipo "Gnose" e que respeita ao conteúdo Interno ("Eso"), profundo, do saber, o qual tem de ser necessariamente vivenciado, sofrido, percorrido pelos estrépitos de uma reflexão que dói, que intimida, que assusta, mas que não pode ser atalhada, porque quem a ela está destinado dela não pode fugir. E o terapeuta, o verdadeiro terapeuta, dela também não pode ousar fugir. Não pode utilizar estudos, guias e sistemas de regras indefinidamente enquanto paliativos de um saber verdadeiramente vívido do Ser. Não pode adiar para sempre o encontro inexorável com a intimidade do paciente, que é a sua própria intimidade ontológica, que é também a intimidade Ética da Humanidade e a intimidade Metafísica da Meta-Humanidade. Nada disto, nenhuma desta profundidade ontológica pode dispensar a Filosofia como pré-requisito central do acto fisioterapêutico. Nenhuma desta intimidade prístina do "auto-encontro com o outro" (Ricoeur) pode despender da privacidade reflexiva e de anos de sofrimento de auto-encontro. Em suma, nenhum fisioterapeuta genuíno pode deixar de ser um filósofo, assim como nenhum homem verdadeiro pode viver a vida sem o pré-requisito do pensamento e da Palavra.
A Palavra feita Verbo, e se "No Princípio era o Verbo" é porque a Palavra é o início de todo o acto criador. A palavra é pensamento e o pensamento é a Palavra. E o terapeuta que observa, testa, avalia, toca, modela, verifica, retesta, mobiliza, manipula, transfere, orienta, ensina, aconselha, reavalia, sente, faz-se sentir, ouve mais do que se faz ouvir, é quase como que um demiurgo, um construtor, um escultor, que tem no paciente o seu Deus, o seu Divino, porque é o paciente que possui a pura Liberdade e a Pura Necessidade. E é assim que, se é o Terapeuta o principal decisor do plano de tratamento, é o paciente o supremo decisor dos objectivos da intervenção. E nunca nenhuma parte do processo deveria ousar ser traída em nome de uma suposta cientificidade ou em nome de um qualquer "deve ser", pois que o "deve" deixa de "dever" com a velocidade de uma décima de segundo, com a concupiscência de uma reacção química.
É assim a Fisioterapia como a pura alquimia transformadora, auto e inter transmutadora, que não se limita a dar ao paciente alguma habilidade ou a toldar o seu sofrimento; pretende, de igual maneira, presentear o paciente com a totalidade das ferramentas necessárias à sua transformação com vista à perfectibilidade, processo quase nunca inteiramente coisificado, raramente pretendido ou desejado, mas ambição da relação terapeuta-paciente, a única que uma Ética unificadora e construtiva poderá proclamar genuinamente. A Fisioterapia é, então, muito mais do que uma simples demanda de um Terapeuta Demiurgo. É a plena capacitação do paciente de tudo aquilo que pode Ser e já É mas somente não consegue vê-lo ou reconhecê-lo, é a totalização de um processo que unicamente o paciente poderá concluir, pois que se trata da busca de um Sentido próprio, do encontro com o seu "Princípio" fundacional e arquetípico, aquele que nunca deixou de estar presente.
Não pode obviamente o paciente iniciar um caminho de auto-encontro se estiver toldado pela dor e o sofrer, o que demanda que, desde o primórdio da relação terapêutica, o fisioterapeuta não pode deixar de se sacrificar em nome do seu paciente, permitindo que a entropia do corpo deste seja transmitida à entropia do corpo do próprio terapeuta. E não pode igualmente tal transmissão "energética" ocorrer verdadeiramente se o terapeuta se limitar a tratar uma parte do corpo ou um "locus" sintomático, pois que isso somente permitirá transmitir a entropia duma parte do corpo do paciente para outra parte do mesmo corpo.
Daí que tenha sempre visto na Reeducação Postural e no raciocínio verdadeiramente holístico a solução preventora de tais substituições sintomáticas ou compensações patológicas. À semelhança do que acontece com a Psicanálise no respeitante à complexa dinâmica da Psique, também a Reeducação Postural permite conceber a interpretação causativa de uma simples manifestação num círculo psico-morfo-dinâmico que poderá não ter sequer um fim realista senão aquele que consideramos como mais relevante ou significante para a situação em causa.
Posso dar um exemplo, entre um infinidade dos que poderia evocar. Uma simples tendinite do tendão da longa porção do bicípite, que seria tratada na maioria das Clínicas e até mesmo dos Hospitais com recurso a tecnologias ou manuseamentos com um efeito anti-inflamatório local, poderá ser o resultado de uma dinâmica postural extraordinariamente mais complexa, no sentido inclusivamente anamnésico/histórico: a tendinite poderá ter origem na sobrecarga biomecânica do tendão associada à utilização "viciosa" da articulação do ombro, que poderá ter o contributo de uma alteração postural como a hipercifose dorsal; por sua vez, a hipercifose dorsal poderá ter uma série de origens, assumindo que não se trata de uma verdadeira e estruturada malformação congénita: compensação da hiperlordose lombar, retracção do diafragma, encurtamento das cadeias musculares ântero-internas, insuficiência muscular dos músculos inter-escapulares, entre outras, com as referidas a poderem estar presentes em conjunto ou isoladamente; entretanto, cada uma daquelas alterações poderia estar associada a um conjunto extensíssimo de outras alterações... por exemplo, a hiperlordose lombar poderia ser o resultado do encurtamento da musculatura paravertebral e/ou do encurtamento do diafragma e/ou do encurtamento do psoas, e poderia estar associada a uma alteração do alinhamento dos membros inferiores com ou sem dismetria, aumentando o risco de certas artroses ou de certos processos inflamatórios... E poderíamos continuar eternamente, pois à semelhança do que acontece com o "efeito borboleta", uma causa ou manifestação muito simples poderá estar associada, causativa ou consequentemente, a todo um outro conjunto de alterações, com o ciclo vicioso resultante a poder não ter um fim realista em vista, o que nos pode até levar a pensar que toda a tentativa de intervencionar a um nível postural acaba por ser inútil, dado que não podemos controlar um número considerável de variáveis ou factores envolvidos (tenho dito o mesmo relativamente à Psicanálise e à tentação do psicanalista de alterar "positivamente" o estado de uma "psicodinâmica"). Daí que se um qualquer Demiurgo ou Super-Homem (utilizo o termo no sentido evocativo de Nietzsche) poderia ser o Ente capaz de controlar a totalidade ou a quase totalidade de factores e dinâmicas envolvidas, o Terapeuta, enquanto simples homem que é (se bem que a sua plena maturação enquanto terapeuta não perde de vista o topo da montanha, residência apaziguadora do Super-Homem), nunca poderá ambicionar mais do que o controlo dos principais factores, daqueles que ele mesmo enquanto profissional identifica como mais relevantes ou significativos, o que, de algum modo, aumenta ainda mais a responsabilidade do terapeuta. O que não implica que não possa tentar controlar um número elevado de factores ou variáveis, o que, acrescentando-lhe as possíveis contra-indicações de certos métodos para o paciente em causa, as variáveis orgânicas, e as próprias necessidades do paciente, leva, por um lado, mais uma vez, à extrema dificuldade em controlar perfeitamente um estado clínico (malgrado a tendência dos cidadãos para pensarem que, em Saúde, tudo é óbvio e fácil, racional e absoluto, quando o "relativo" é que é a regra dominante) - coisa que mais provavelmente o levaria à perfeita loucura -, e por outro, à diminuição do conjunto de opções disponíveis em termos de métodos ou técnicas a utilizar (dependendo da condição do utente, haverá decerto métodos, posições e recursos terapêuticos que deverão ser utilizados preferencialmente, entre outros que deverão ser esquivados).
A imprescindibilidade de um profissional de saúde ser adequadamente formado prende-se sobretudo com esta lógica de super-controlo, coisa menos provável de existir nos pseudo-profissionais, se bem que é teoricamente aceitável que um simples auxiliar de Fisioterapia ou de acção médica domine determinada técnica ou temática melhor que um terapeuta adequadamente licenciado (para não falar do conjunto imenso de terapeutas "mal" licenciados)...
Relativamente aos resultados obtidos, lembremos que a própria "melhoria" ou "agravamento" de uma condição ou manifestação não deixa de ter algo de interpretativo, no sentido de um julgamento de valores. O que é melhor para o terapeuta pode até nem ser melhor para o paciente, ou o que o paciente deseja pode não ser aquilo que achamos que é melhor para ele. E lembremos que respeitar a autonomia do paciente não significa necessariamente fazer tudo o que ele deseja, tal como tratar um filho que se ama incondicionalmente não implica que o mimemos exageradamente ou lhe façamos todas as vontades. Aparentes contradições à parte, o bom terapeuta precisa do necessário bom-senso requerido para equilibrar um conjunto de pressupostos e de decisões aparentemente antagónicos. Não é decerto nos estudos ou na Academia que o terapeuta irá recolher este tipo de sensibilidade (até porque, por maior que seja a prolixidade de estudos realizados e lidos, nunca poderá ser realisticamente preenchida a necessidade de controlo de um número relevante de variáveis em jogo, no respeitante aos momentos avaliativo e de tratamento; se assim fosse, num qualquer futuro utópico, um computador seria capaz de nos substituir na nossa actividade, o que me parece quase impossível, pois que, mesmo no plano de uma visão "determinista", o número extraordinariamente elevado de factores jogados inquina a possibilidade de um bom trabalho terapêutico poder ser feito por um autómato autista). Seria mais provável que o recolhesse nas fontes literárias e filosóficas, se bem que é a própria vida de relação e de auto-crescimento que fixará a palavra última e mais valiosa.
Infelizmente nem a inteligência filosófico-conceptual poderá acautelar o abraçar de certas atitudes mais dogmáticas, sendo que, muitas vezes, o maior dogmatismo reside precisamente no ventre dos mais importantes Sistemas, os mesmos que tenho pretendido valorizar. Popper diagnosticava o "relativismo dogmático" na Psicanálise, no Platonismo, e também em Hegel e Marx, e, se conhecesse, por exemplo, o método Mézières ou o método Bobath, não estaria muito longe de identificar neles alguns aspectos do dogmatismo relativista (se bem que estes métodos possuem bases seguras em leis da Biomecânica... o que os torna, de algum modo, incomparáveis aos modelos de teor mais mentalista)... o mesmo relativismo pós-moderno que também requeremos para a necessária complexificação filosófico-espiritual da Fisioterapia, aquela que os fisioterapeutas ainda estão longe de reter, aquela que urge como obrigatória para a emergência de uma Fisioterapia auto-reflexiva, assumindo que a intervenção mais "responsável" e Humana será aquela que ancora num conjunto de bases como as que venho sublinhando.
Assumir a ausência de um adequado "corpus" de Saber epistemológico dentro da Fisioterapia é antever o caos da própria Fisioterapia enquanto arte "científica", senhora de um conjunto quase inesgotável de métodos e paradigmas muitas vezes desnudados de uma matriz reflexiva e contextualizadora. Neste momento, em Portugal, apesar de existirem quase duas dezenas de instituições de ensino graduado e pós-graduado em Fisioterapia, não se conhece nenhum corpo de investigação filosófica e epistemológica em Fisioterapia, tal como redundam no vazio possíveis investigações casuísticas de mote hermenêutico.
Um estudo de caso em Fisioterapia ou em qualquer outra área clínica não deveria ser consumado só de aspectos quantitativos mas igualmente se deveria preencher de aspectos interpretativos, com alicerce numa hermenêutica (ou analítica) do paciente, numa "exegese" da fenomenologia da sua transformação qualitativa, semiológico-proxémica (vide a importância da análise semiótica...) e funcional (incluindo os aspectos do movimento representativo-funcional, numa óptica psicomotora e motricista). Assumir, como assume a grande maioria dos novos fisioterapeutas, que tudo o que não é mensurável não tem valor é assumir alienada e orgulhosamente a limitação do paradigma científico-liberal e o condicionamento mental na obsessão do concretismo materialista. Nada de grave se estivéssemos a falar de fenómenos estritamente físicos e de número comensurável e finito de variáveis integrantes. Muito grave se nos referirmos ao ser humano e se recalcitrarmos na obsessão dos estudos estatístico-probabilísticos, que são, a meu ver, a grande fraqueza das Ciências Sociais desde a sua frustre tentativa de assunção de Cientificidade sob os auspícios da moda positivista no séc. XIX.
Como já terei demonstrado em «Corpo e pós-modernidade» (2012), a dialéctica e o paradigma pós-moderno são os pré-requisitos do entendimento de uma Fisioterapia da Nova Era, se bem que não será propriamente necessário abraçar certos exageros pós-modernos (que eu próprio perfilhei no dito livro) ou até mesmo espiritualistas (como terei perfilhado em obras posteriores). Entendo, por exemplo, a epistemologia científica como um terreno tão relevante quanto a Ética, incluindo o estudo dos Paradigmas à luz de Kuhn, enquanto matriz conceptual necessária ao futuro e actual fisioterapeuta. Matérias já bem presentes nos cursos de Psicologia ou Enfermagem, mas muitas vezes considerados "excedentários", simples excrescências, no contexto da Fisioterapia.
Se é bem verdade que "quem só de Fisioterapia sabe nem de Fisioterapia sabe", tal não se esgota no contexto dos saberes filosóficos, psicológicos ou espirituais. Será, porventura, assim tão despropositado referir a importância dos saberes literários, artísticos e musicais para a formação e engrandecimento de um fisioterapeuta? Se é normal assumir que um médico os possua porque parece tão "a despropósito" no contexto de um fisioterapeuta? Se até há cerca de 20 anos os pré-requisitos da formação de um fisioterapeuta poderiam explicar, de algum modo, uma certa falência intelectual, como explicar a nova ignomínia dos jovens terapeutas, quando estes possuem altos graus de escolaridade e até perdura uma certa exigência na nota de entrada para o ensino superior e a suposição de uma exigência mínima da frequência e conclusão deste último? Que esperar da Fisioterapia portuguesa quando os jovens terapeutas revelam tamanha ignorância literária e reflexiva? Como propor a competitividade da Fisioterapia enquanto profissão e a assertividade dos fisioterapeutas no contexto de uma Equipe multidisciplinar, se os terapeutas se limitam ao estudo de alguns aspectos mais quantitativos da Fisioterapia, relevando para segundo plano os clássicos, sejam os da área, sejam os do Universo filosófico-literário? Como conseguir que a "mística científica" da Fisioterapia consiga destronar a "mística espiritual" das "medicinas" não convencionais, se o terapeuta se define pelo vazio de conteúdos do reino do Inteligível? E, sobretudo, como ter esperanças que, somente por meio de uma cientificidade estatístico-probabilística, o terapeuta se possa afirmar intelectual e profissionalmente junto dos pacientes e no contexto da própria Sociedade? Como conseguir que a Fisioterapia consiga munir-se de "representações sociais" mais "aceitáveis" se não há sequer um empenho de mitificação, senão somente o esforço de forçar estudos a assumirem resultados "suspeitos", assim como o esforço ego-maníaco e narcisista de preencher o Currículo de formações e de graus académicos? Não reconhecerá o jovem académico a insegurança narcísica no eterno adiar da vida profissional, nesse eterno "ser-se estudante", nesse inacabável enchimento de mestrados e doutoramentos que não possuem qualquer utilidade "operática" para a Fisioterapia?
A Fisioterapia do futuro precisa decerto de investigações, mas até estas requerem a Epistemologia para que possam ser realizadas com um rigor e uma dimensão que ainda não são os que se desejam. E a Fisioterapia precisa, muito mais ainda, de um rigor crítico, de pensamento, de uma prática auto-reflexiva, de homens capazes de questionar, de profissionais com a coragem de ousar, de desafiar, de controverter, de revolucionar. E, obviamente, esse mesmo pensamento, essas ideias deverão passar à prática, por meio de Obras, de projectos inovadores, conceitos vanguardistas, todo um manancial de "Óperas" em que esteja presente o cruzamento do clássico com o "nunca visto", até porque a Pós-modernidade é o tempo "fora do tempo" em que todos os modelos, estruturas e narrativas podem ser aceites e jogados no desafio do futuro e da tolerância, é o tempo da "desconstrução", da re-interpretação, da "neo-construção".
E perante este fluxo de possibilidades, o que fazem os nossos jovens? Formações e mais formações, muitas vezes não integradas numa soma cumulativa que só servirá o caos, a confusão cognitiva, a intoxicação mental e interventiva. Mestrados e Doutoramentos que servem somente o estúpido orgulho narcísico, numa Europa em que só mesmo Portugal liga aos graus e aos títulos, pois que tais pós-graduações pouco servem à experiência e até à reflexão. Participações nos mundos do marketing, da publicidade, numa tentativa "multicolorida" de exprimir a Fisioterapia pelo "lugar comum" dos desportos, dos atletas famosos, das Clínicas prestigiadas e luxuosas para uns poucos burgueses ou novos-ricos (senão políticos de algibeira, como os que temos neste nosso país da bananeira), como se o melhor fisioterapeuta fosse o mais rico, como se a melhor fisioterapia não fosse a que sai das nossas mãos, como se toda a Fisioterapia fosse a reabilitação do futebolista ou a preparação do atleta olímpico, quando a verdade é que estes são precisamente os "clientes" mais perturbados, porque, em nome da fama ou do dinheiro, escolhem voluntariamente fazer a violência aos seus corpos, com a estúpida conivência dos "fisioterapeutas do desporto", que mais não fazem que ajudar na perpetuação de uma lesão, e se sentem vitoriosos por que a "sua" equipe venceu uma Taça, um bocado de lata que nem ao orgulho patriótico serve. O alargamento da Fisioterapia para territórios como a Estética, os spas, como se tudo isto - os feitiços da mente - fosse Saúde, como se o simples "relaxamento" psico-físico não integrado em algo maior pudesse confundir-se sequer com uma Psicanálise bem realizada ou com uma integração reflexivo-espiritual só acessível às mentes residentes num certo patamar de Consciência...
Spas, "Bem estar", Fitness, "indústrias do corpo" que ajudam a anestesiar o poder de uma sociedade doente e opressiva. Paliativos da saúde mental, placebos bem-vindos à ansiedade que estrangula. Os jovens fisioterapeutas contentam-se frequentemente com isto, ao mesmo tempo que criticam os anti-depressivos e os ansiolíticos, como se não fossem todos eles estratégias de sobrevivência num mundo que sufoca o crescimento e oprime a consciencialização (e será que a ilusão não é também necessária à felicidade? Será que a consciencialização é assim tão redentora? Não será tudo relativo? Não chega a Terapia a ser somente um consciencializar do que se deseja e requer e um não consciencializar das verdades mais inóspitas?...).
Quer-se mais, requer-se uma Fisioterapia adaptada a uma Era onde a contemplação estética e a evolução espiritual sejam a regra de todos os seres e não somente de uns afortunados pela educação ou a sociedade. Requer-se uma Fisioterapia como palco somático do crescimento, em que o Corpo Físico (relevando o eixo moderno/performativo/denotativo do "homo faber", numa lógica de desempenho e produção, clinicamente associado ao modelo biomédico e pragmaticamente ao controlo prioritário das manifestações sintomáticas por meios predominantemente paliativos ou placebetários) perde terreno para o Corpo Soma (com este a relevar o horizonte pós-moderno/reflexivo-simbólico/narrativo do "homo sapiens", numa lógica de entendimento e integração projectivo-fantasmática psicossomática, clinicamente associado ao modelo bio-psico-social, senão ao modelo sócio-psico-neuro-músculo-esquelético, pragmaticamente relacionado com os processos psicomotrizes, os métodos de domínio neuro-motor e o longo prazo estrutural consumado no conjunto dos modelos que perspectivam um corpo enquanto palco de Cadeias musculares, senão enquanto única Cadeia neuro-mio-fascial ou mesmo Una Cadeia psico-organo-neuro-mio-fascial... portanto modelos que valorizam mais as técnicas de "inibição do corpo hegemónico" - por meio exemplificativo do relaxamento muscular e do alongamento fascial - do que as técnicas de reforço, obsessão ainda dominante no mundo da Fisioterapia e da Actividade física em geral, coisa explicável pela tónica na performance, vista como instintiva e esteticamente prazenteira e produtiva e profissionalmente pertinente, fixações do próprio Sistema industrial e da Sociedade organizada segundo os preceitos da competitividade animalizada), em que o Instinto se torna pulsão, e o sexo sexualidade (e.g. Freud) e erotismo (Bataille), em que a acção se transmuta em intenção e esta em representação, e o movimento se transtorna Motricidade. Solicita-se uma Fisioterapia integrativa dos diversos planos da existência, concorrendo o plano somático e astral para o desenvolvimento do plano espiritual e humanitário. Uma Fisioterapia que transponha os diversos planos da Sociedade e os diferentes cuidados e sistemas de Saúde, auxiliando no jogo de gestão das oscilações do mundo material, permitindo o apaziguamento psico-físico requerido à etapa pacificadora do Outono da Vida. Enfim, uma Fisioterapia enquanto meio de crescimento, pessoal e colectivo, egóico e supergóico, individual e social, pulsional e moral, familiar e civilizacional, na História, nas Eras, nos tempos, aqui, agora e sempre.
Vejo, como sempre vi, nos grandes modelos e narrativas da Fisioterapia neurológica e da Fisioterapia de Reeducação Postural o tecido fundacional de uma Fisioterapia narratológica irredutível ao discurso médico-prescricionista, vinculadamente neoliberal em termos económicos. Meta-narrativas da Fisioterapia que obviam a visão de um corpo em que as pequenas afecções, e até alguns traumas, são explicados pela idiossincrasia postural (e pelo movimento visto como totalidade "psicodramática"), com esta a incluir tanto os aspectos morfológicos como os caracteres relativos aos desequilíbrios neuro-mio-fasciais vistos como causativos dos anteriores. Meta-narrativas de uma Fisioterapia do passado, da Nova Era, do tempo arquetípico que é um "não tempo", uma arqueologia que Michel Foucault identificava como tempo "clássico", anterior ao liberalismo e à revolução industrial, prévio à transformação das 'Artes', cuja transmissão de saberes e valores relevava uma relação do mestre com o discípulo ajustada às necessidades próprias do último e à dinâmica ritualística do passado mediada por iniciações e "passagens", em 'Profissões', com sobreposição de uma lógica de massificação do ensino que a recente tomada de uma atitude hiper-facilitista por parte das escolas e Universidades somente veio agravar... relativamente a este ponto, escasseiam as palavras suficientemente duras que permitam a crítica às escolas de Fisioterapia que se permitiu surgirem como fungos nos últimos 15 anos: vende-se a noção de Cientificidade como mote de desenvolvimento de uma Fisioterapia do Futuro, permitindo escoar a ideia de que é esta a base própria e adequada do Academismo, num esquecimento daninho de que as Universidades foram construídas como base de prossecução dos "Universais", dos Valores, do grande Conhecimento, no sentido da grande Racionalidade noética... como se a Fisioterapia académica não necessitasse precisamente dos seus grandes Sistemas, dos seus ilustres Autores, da sua Teoria enquanto Testemunho, das suas Narrativas conceptuais e reflexivas, sem as quais a cientificidade per si não passará dum amontoado desorganizado e acrítico de estudos (informação massiva, um pouco à imagem dos novos tempos internéticos que preconizam a overdose de informação descentrada dum núcleo interpretativo, crítico, comparativo, organizativo, meditativo); temos escolas sem tradição académica com conteúdo, permitindo-se confundir os grandes Valores da Academia, a tradição no seu sentido nobre, com estúpidas práticas de praxe, reificadas por estudantes imbecis, sem palco de cultura, sem referências intelectuais, a não ser que consideremos como "cultura" ou "referência" a estúpida capa ou batina que o ainda mais ignóbil e vazio estudante veste num exercício de arrogância, que até poderia ser aceitável se tivesse por trás uma mente reforçada de Valores e contextos, mas somente tem por trás o parasita que o novo estudante universitário constitui; nunca as escolas tiveram tantos cursos, mestrados e doutoramentos, nunca os seus corpos docentes foram tão graduados, e nunca houve tamanha ignomínia, tanta incultura e desfaçatez por parte dos novos docentes (com óbvias excepções), num desmazelo conceptual que nos faz ter saudades dos tempos do velho Alcoitão, num passado em que ainda se ensinava que de facto "cada caso é um caso", em que os velhos mestres sabiam passar - com conhecimento pessoal, vívido, experiencial - os saberes dos grandes paradigmas e dos antigos modelos, em que existia mais exigência no exercício dos saberes, dos conceitos e das práticas no antigo e extraordinariamente difícil Bacharelato do que nas novas licenciaturas do "faz de conta", em que notas e passagens são servidas numa bandeja de prata, como se o curso estivesse garantido a quem tem meramente a possibilidade de o pagar, em que, inclusivamente, um trabalho final de curso deixou de ser uma Monografia enquanto investigação verdadeiramente realizada para passar a ser um projecto ou anteprojecto que se faz em dias, as aulas deixaram de ter por base os livros, os clássicos e até os artigos e passaram a valorizar os slides desse epifenómeno chamado "PowerPoint", num exercício de estimulação da preguiça, porque o aluno não lê nem pesquisa, somente "marra" tópicos, o que, mais a mais, nos leva a não nos admirarmos que, mais tarde, os novos fisioterapeutas pensem que a Fisioterapia é algo que possa ser praticado a partir de regras e linhas estritas, como se a complexidade multi-paradigmática não existisse, como se só existissem realidades certas e objectivas, receitas rígidas e respostas fixas para a intervenção. Pois que, mesmo nos termos de um só paciente ou condição, várias respostas terapêuticas podem ser recrutadas, com este relativismo a depender mais do paradigma inerente ao Terapeuta que "constrói" o paciente do que da condição do paciente em "si mesma", que o terapeuta mais ecléctico ou maduro, e sobretudo paradigmaticamente descomprometido, saberá (?) ver com maior objectividade. E pois que é precisamente a complexidade multi-paradigmática presente idealmente no ensino das escolas e Universidades que permite a adequada compreensão da multidimensionalidade do paciente, dos métodos, do próprio fisioterapeuta, base inerente à entidade de um terapeuta que pensa e complexifica - pré-requisitos da vivência meditativa não mediada -, prólogo de uma Fisioterapia enquanto matéria pensante e pensada que não pode ser decidida nos termos de uma consulta médica mas somente mediante a actividade pensante e de "livre escolha"/"livre-arbítrio" de um fisioterapeuta capaz de avaliar e decidir os meios de actuação a partir da necessária dialéctica interna entre aquilo que identifica no paciente e aquilo que é o seu próprio acervo cognitivo de métodos e paradigmas.
Será a desejável Fisioterapia da Nova Era possível no conjunto do mundo ou somente na ilha da Utopia? Trará a Clínica o Admirável Mundo Novo somente a uns poucos ou ao conjunto da Civilização que se pretende pacificada?
Será preciso repetir o que está à vista de todos? Não está o secular e renascido sistema neoliberal a querer perpetuar a visão do doente como número e da Fisioterapia como um conjunto desconjuntado de técnicas previstas num agrupado de códigos prescritivos? Não está a Fisioterapia do presente feita para agradar ao Sistema, com um conjunto inútil de intermediários - incluindo essa especialidade serôdia da Fisiatria - a comerem à custa do esforço intrépido de terapeutas afogados em trabalho e das carteiras de pacientes afogados em dívidas? Que Sistema é este que, em Portugal, permite o tratamento feito num número ilimitado de pacientes em simultâneo (num modelo de "fisioterapia de ginásio" que roça o cómico, com o terapeuta a parecer muitas vezes mais o instrutor físico que ordena exercícios do que o profissional que manuseia e se relaciona com o paciente)? Que Sistema é este que, no nosso país, permite a profunda confusão entre terapeutas licenciados, falsos terapeutas, terapeutas "não convencionais", imiscuindo-os num caos de leis inexistentes ou mal construídas? Que país é este que se exclui do controlo do funcionamento do ensino superior, permitindo a abertura indiscriminada de escolas de formação, sem que haja uma adequação entre os números de formandos e as promessas do mercado? Que Fisioterapia poderá ser realizada por terapeutas a trabalharem quase a título gratuito? Que tipo de Fisioterapia poderá existir no país se somente o Privado permite a prática dos métodos nobres e se só uns poucos privilegiados poderão ter acesso a estes mesmos métodos, já depois de também os próprios terapeutas terem tido um acesso enviesado às formações, dada a sua elevadíssima custosidade?
Recentemente os fisioterapeutas começaram a identificar uma potencial linha de lucro na criação de empresas de formação. É um pouco como viver à custa do engano dos próprios formandos. Mas quando alertados para o facto, alguns dos jovens terapeutas vituperam que os recém-formados são adultos e donos de si. O que é curioso, porque no momento em que os mesmos jovens terapeutas se decidem à mesquinhez de "denunciar" pseudo-profissionais com base no pressuposto da "defesa do interesse dos utentes", aí as regras do jogo mudam e já as pessoas passaram a ser umas pobres coitadas que precisam de ser protegidas. É o mesmo tipo de coerência que leva os jovens terapeutas a deificar os estudos fisioterapêuticos e a, no imediato momento seguinte, a demonizar os estudos farmacológicos, referindo os supostos "conflitos de interesses" das empresas e das indústrias; como se os estudos fisioterapêuticos não estivessem também eles repletos de erros, invenções, plágios, descaracterizações ecológicas, "interesses empresariais", com muitos estudos a referirem resultados positivos no relativo a um método que foi criado pelo próprio autor do estudo, o mesmo que pretende vender o seu método à mesma empresa que subsidia o estudo.
Perante isto não posso deixar de pensar no "efeito Édipo" referido por Popper e na importância do seu critério falsificabilista enquanto proposta de distinção entre o verosimilhante/científico e o não verosimilhante/não científico, um conteúdo da temática epistemológica entre muitos outros que poderiam ajudar o fisioterapeuta a ser um melhor investigador (e também um melhor clínico), mas que, face a uma "educação superior" em Fisioterapia mais centrada nos aspectos metodológicos do que nos aspectos epistemológicos da Investigação, manter-se-ão enquanto resíduo de desconhecimento, plena nesciência.
Urge fornecer ao jovem estudante de Fisioterapia uma adequada educação filosófica, muito particularmente na área da Epistemologia científica e da Filosofia da Ciência, eventualmente compartilhável no exacto momento em que lhe são dados alguns instrumentos de análise metodológica. Sem essas bases nunca o fisioterapeuta poderá seriamente fazer ciência e pensar a Ciência... e aqui utilizo o termo no seu sentido grego de «Epistémi», que significa "Conhecimento", "Razão" (sendo que, na escala platónica, a "Epistémi" se perfaz de dois níveis: um nível de "Dianóia", que tem mais a ver com o terreno científico - aqui, no sentido convencional/clássico e materialista do termo - e até clínico com que os terapeutas estão mais familiarizados, e um nível de "Noésis", que diz respeito ao nível de Razão que advogo, ao nível de Ciência - não entendida enquanto tal na sociedade moderna - que aproxima, e não distancia, Sujeito e Objecto, Investigador e Realidade Objectiva).
Haja, então, uma adequada aproximação do terapeuta/investigador ao terreno da Razão no seu sentido mais subtil, noético, que é precisamente aquele que aproxima, que funde, que torna tudo uma só coisa, sem divisões, fragmentações, inúteis abstracções. Reconheça-se a realidade inexorável do marketing a velar a realidade menos obscura dos métodos e das técnicas; dispam-se os métodos dos seus nomes e do fogo de artifício mercantilista, das suas teorias dogmáticas e estudos muitas vezes falseados, e espreite-se a natureza dos "signos" desses métodos... entender-se-á que há muitos significantes para um punhado coeso, parcimonioso e unitário de significados, muitos formatos para um conteúdo comum, muitas técnicas e modas para que, no fim, uma natureza "nua" do corpo Uno ouse gritar o seu domínio fenoménico, o único que importa ao terapeuta experiente, que deve ser aquele que vê a essência por trás de tantos véus, ilusões, aparências (o esotérico vale mais do que o exotérico, o interno vale mais do que o externo, o profundo vale mais do que o superficial, o Uno vale mais que o múltiplo, o Eterno vale mais que o Impermanente, o Princípio/Arché vale mais do que o tempo). É, decerto, um campo de trabalho aparentemente contra-intuitivo, até porque a educação ao estilo ocidental condiciona e doutrina as nossas cabeças para pensar somente nos termos do mensurável, do concreto, do dividido, do individual, do "separado", da "peça", do "corpo máquina"... E parece bem certo que, se o futuro trará a tecnologização compulsiva, a engenharia genética virá a ser fundamentalmente uma medicina de tipo "individual", adaptada à idiossincrasia genealógica de cada indivíduo, de cada alma. E é precisamente nesse momento, no puro momento em que os próprios conceitos de "alma" ou "Espírito" perderão a sua razão de ser, que o futuro trará a plena pacificação do sofrimento, pelo aprimoramento da resiliência genética face ao atrito do mundo exterior, o que significa que o homem hiper-racional, no sentido dado por milénios de construção filosófica e espiritual, terá o seu derradeiro desabrochar no palco da medicina e da farmacologia do futuro. Mas, mesmo nesse momento, lá continuará o fisioterapeuta a funcionar enquanto elemento do ambiente exterior, ajudando a desenhar o fenótipo, o design mais finalizado do sujeito, algo que não pode ser substituído por qualquer químico, pelo menos no palco que se vislumbra no século presente.
Reconheço que os organismos políticos não são sensíveis à visão de uma Fisioterapia pensada para um utente, para o seu corpo enquanto totalidade, para o trabalho realizado nas condições requerentes de uma (politicamente pouco desejável) consciencialização. Para o político vale somente o número de uma espécie de quantidades que possam ser medidas por si, pelos seus e sobretudo pelos eleitores. E à imagem desta perspectiva redutora, a Fisioterapia é pouco mais do que a massagem feita ao membro "dorido" ou do que a máquina que permitirá calar o sintoma funcionalmente limitador. Perante isto, como convencer as entidades de que um trabalho feito na totalidade, pensado com a necessária complexidade, poderá ter uma vantagem gigantesca em termos de prevenção da recidiva e de novas lesões, da "transmissão sintomática" e da recaída no já parco sistema português do optimismo individual?
Como demonstrar que o longo prazo importa, que a qualidade e o sentido de vida são o sumo da existência, que não há já ninguém que queira reduzir a sua vida ao estrago do labor obsessivo de uma precariedade de trabalho incessante?
Imagino o momento futuro de aproximação da Fisioterapia do modelo psicoterapêutico/psicanalítico: uma fisioterapia paga à sessão e não segundo códigos de métodos ou técnicas, uma fisioterapia decidida por quem faz, porque, no acto de fazer está o acto de avaliar, no acto de observar está o acto de tratar, no acto de manipular está o acto de testar; mais uma vez à semelhança da Psicoterapia, segundo o modelo "psicodinâmico", idealizo uma Fisioterapia em que a sessão de um só utente confunde propositadamente avaliação, registo e intervenção, num todo em que os métodos e técnicas "com vários nomes" perdem os seus rótulos para originar o acto "fisioterapêutico" como um todo e pago pelo utente ou pelo Sistema ou subsistema enquanto tal. Obviamente que valorizo a Fisioterapia no seu lado mais "artesanal", manipulativo, postural e motriz, relegando para segundo plano a quimera tecnológica que, a meu ver, sugestiona mais do que trata (se bem que, em certos contextos mais "desesperados", um placebo pode, de algum modo, ser um tratamento legítimo).
Imagino o momento futuro em que o fisioterapeuta será capaz de dispor de um franco capital de inteligibilidade, pelo menos um que lhe permita fazer jogos de raciocínio e  compreender as vicissitudes da "dinâmica" de um paciente, pois que, na ausência de capacidade analítica, fica flagrantemente comprometido todo o processo de intervenção, tratamento incluído. Mais importante do que "boas mãos", boas capacidades manipulativas previamente automatizadas no terapeuta experiente, é ter "mãos intencionadas por uma mente dona de um poderoso domínio do Raciocínio Clínico"; estas últimas cumulam a boa capacidade manipulativa com a flexibilidade sempre requerida à adaptação à nova situação clínica do paciente... e, a um nível microscópico, novas situações clínicas surgem a cada momento, com a possibilidade da infinitude do decrescer da escala e da dízima no espaço entre dois momentos imediatos... o corpo está em permanente - heraclitiana - metamorfose, e o terapeuta deverá ser a suprema "Testemunha" dessa fenomenologia da continuidade, desse paciente enquanto "existência a preceder a essência" (Kierkegaard), "ser que existe" (Sartre), "ser com intencionalidade" (Husserl), "ser-aí" (Heidegger), dessa transcendência na liberdade (Jaspers) ou auto-percepção corpórea (Merleau-Ponty). O corpo fala continuamente e o terapeuta interpreta a sua linguagem, ajustando ininterruptamente as mãos e a práxis à necessidade de um corpo cuja desarmonia requer reequilibração, cujo desequilíbrio ordena ao terapeuta a reposição do "mais" ou do "menos" que prenuncia o regresso à homeostase. A dialéctica subsiste no seio de tais transformações, e também na intimidade do canal que liga o objecto-Terapeuta ao objecto-Paciente. Já no meu «Corpo e pós-modernidade» me referi à dialéctica materialista e ao Idealismo dialéctico, duas vertentes que concorrem para a Unidade Terapeuta-paciente, na realidade dois pacientes, e, no fim, que também pode ser o Princípio ou qualquer (não) momento sem tempo, Um só paciente, uma Unidade intemporal, metafísica e não metafísica, pura fenomenologia que cruza o fenómeno Paciente com o fenómeno perceptivo num só Fenómeno que, apesar de terreno e concreto no sentido interpretativamente materialista, se torna Ideal Subjectivo tornado Objectivo, porque o que se passa dentro da mente do terapeuta se torna uma realidade per si, um fenómeno em si, que até poderia ser "sonho", mas, que, tal como diz o poema de António Gedeão, "(...) é uma constante da vida/ Tão concreta e definida/ Como outra coisa qualquer".
Perante isto, no testemunho da complexidade do Uno fenomenológico que preside à realidade interna do fisioterapeuta em constante e irrepetível transformação ôntica (como no "Dasein" de Heidegger), não é legítimo conceber que se conhece adequadamente um paciente - o seu corpo, a sua dinâmica sempre renovada - no tempo limitado de uma "consulta". E da mesma maneira é risível que se aceite que um médico fisiatra possa "prescrever" Fisioterapia, seja porque a Fisioterapia não é prescrevível, seja porque o conhecimento da infinita complexidão do paciente requer a infinita presença, o infinito manuseamento, a inextinguível e sempre perdurável relação de "intimidade" com o "outro". Nada que possa ser exaurido num tempo-limite da consulta de um médico que se sente tentado a não tocar no paciente. Nada que possa ser decidido por quem nada entende dos métodos precisamente mais holísticos, totalizantes... pudera... se o médico se mantém anquilosado no terreno da visão biomédica e prescritivista, como conceber que o mesmo conheça e domine métodos e modelos de uma mínima complexidade dialéctica? O máximo que o médico poderá prescrever, que é também aquilo que encontramos nos Códigos prescritivos, são técnicas desgarradas, com vista à sua utilização numa parte ou segmento do corpo, que, de qualquer modo, é o que os Seguros pagam, e não ouse o terapeuta tratar mais do que o membro, mesmo que a cervical esteja implicada, não ouse o terapeuta fazer algo que não esteja prescrito, pois é conveniente dividir as responsabilidades... Mas que responsabilidade é esta quando tudo parece ser decidido pelas regras do Sistema, muito mais do que pelo que identificamos no paciente?...
Como toda a percepção, como toda a cognição, como toda a fenomenologia, também o paciente é "construído" pelo terapeuta, com a subjectividade deste a condicionar a escolha de um paradigma interventivo e com este paradigma a ser muitas vezes imposto ao paciente que se pretende ver como extensão do modelo que se propugna. É a questão da subjectividade no seu sentido pós-moderno, tal como já referi neste ensaio e tratei com maior pormenor em «Corpo e pós-modernidade». E, diga-se, é, apesar de tudo, um mal menor. Pior do que isso é a "construção do paciente", num sentido mais consciente, mediada pelas pressões do Sistema e pelo afã de lucro. Muitos fisioterapeutas vivem correntemente situações anedóticas nas Clínicas de Fisioterapia. Todos sabemos, por exemplo, que é comum sermos forçados a tratar diferentemente doentes provindos de diferentes seguros. O utente do Serviço Nacional de Saúde é provavelmente aquele que tem direito a menos tempo e a menos "luxos", enquanto que o utente particular é tratado em gabinete particular, talvez com direito a tecnologias avançadas. Mas, independentemente da proveniência do doente, é comum a "prescrição" de métodos ser feita em função de factores irrisórios, à imagem da tendência massiva para "receitar" uma "manipulação vertebral" a quem dela pouco precisa só porque é uma técnica "bem paga", ou a tendência para evitar "receitar" Ultra-sons, porque o prejuízo do material e o tempo perdido pelo profissional não compensam o potencial lucro; há uns anos, ouvi a seguinte justificação: a doente X, por vir à hora Y, não teria direito ao laser, porque a essa hora, "os lasers estavam todos ocupados". Por outro lado, como sabemos, a utilização massiva de calores húmidos prende-se sobretudo por ser algo que dispensa a atenção e o tempo do profissional (frequentemente o auxiliar, aquele que não pode praticar legalmente a Fisioterapia), e a necessidade de rentabilizar o tempo do profissional que ganha à hora tem a primazia, não vá a Clínica dar prejuízo.
Pode parecer paradoxal que um "médico", supostamente dono de tamanho número de anos de formação, possa ser (claro que nem sempre) tão pouco ético e muitas vezes incompetente, mas os cidadãos ficariam consternados se imaginassem a quantidade imensa de maus diagnósticos, a incapacidade grotesca em fazer um exame objectivo, o alarve do exagero do pedido de exames complementares de diagnóstico inúteis. As excepções existem, é claro, mas, por vezes, parece-me que a regra dos diferentes profissionais - fisioterapeutas incluídos - é a incapacidade para se dar o máximo que se pode dar em nome do cidadão, dono do "corpo frágil".
Muitas destas temáticas são sabidamente foucaultianas, principalmente no que à temática do Poder diz respeito, pois que alguma desta incompetência tem por trás o desiderato de uma competitividade bacoca entre os profissionais com vista ao domínio do corpo do paciente. Não nos deixemos iludir: a grande maioria das lutas em prol de direitos por parte dos profissionais de saúde tem por trás a ambição animalesca, o ideal do domínio. Um Hospital é uma verdadeira sociedade hierarquizada, com os profissionais a respeitarem as decisões e os pareceres em função do lugar que ocupam na Hierarquia, nos termos dum papel de maior ou menor protagonismo.
Vã ilusão a dos cidadãos que imaginam poder confiar no seu profissional de saúde, que perdem a voz activa e o livre-arbítrio em nome da decisão "consciente" do seu clínico. O caos parece ser quase a regra e os serviços de saúde portugueses carecem de uma organização, de adequados critérios que permitam a aproximação à desejada Racionalidade. E se eles não existem é porque os interesses e as corporações falam sempre mais alto, e pretendem sempre vilipendiar a presunção de uma Ordem.
E já que de "Ordem" falamos, e sabendo nós que os fisioterapeutas carecem deste organismo profissional, quase não posso conter a minha curiosidade face aos critérios que uma Ordem dos Fisioterapeutas teria de criar para poder em si incluir os profissionais legítimos... Esperemos que os critérios não sejam muito rigorosos, se é que alguns virão a existir. É que o fisioterapeuta e a fisioterapia tal como existem no nosso país não são capazes de sobreviver a critérios de franca exigência...
Sejamos frontais. A Fisioterapia portuguesa situa-se na Era do Ferro (à semelhança com a quinta raça, que é, de facto, aquela em que nos encontramos), a mais baixa das Eras mitológicas. Faltam leis, falta uma Ordem, faltam profissionais de excelência (temos alguns, mas são ainda poucos), falta uma adequada representação intelectual, falta um trajecto de investigação académica, faltam publicações, faltam instituições de referência, assim como falta uma política de Saúde adequada que permita a utilização da grande Fisioterapia de vanguarda. Falta também um núcleo duro de representação da Intelligentsia fisioterapêutica portuguesa, incluindo o que considero urgente: a reflexão desprovida de poluição emocional, o exercício da Racionalidade no seu sentido Superior, Universal, e também construtivo, sugestivo duma mudança de Paradigma, quiçá, uma mudança de todo o Paradigma português e europeu, a começar pela reforma da mentalidade muito portuguesa que é ímpar no "bota-abaixismo", na crítica desconexa, no cepticismo mal dirigido, no pessimismo secular, na inveja dolorosa, na valorização das "aparências", no "enchimento de troféus inúteis", na pura cagança irrealista, no popularuchismo de natureza latina, no orgulho bacoco e na mais profunda inércia, no "deixa para depois", no "não vale a pena", no "não podes mudar o mundo". Mas, se assim é, se assim se pretende ser, porquê tanto queixume, porquê a tendência lamentável para o terapeuta português sempre se lamentar numa lamentação lamentavelmente lamentável?
Esquece frequentemente o cidadão português que o Direito é a consequência natural de uma luta, do exercício brioso de um conjunto de deveres, da demanda do mérito e dos aspectos algo contundentes com este relacionados. A luta e a ambição, o esforço de progressão, reiteram o seu lugar enquanto quesitos de afirmação, não podendo deixar de assumir o ridículo desta nova tendência para se avocar o preceito dos Direitos automáticos, porque legalmente instituídos, sem que tenha sido primeiramente demonstrado o seu merecimento. A Autonomia é um direito próprio do profissional que assume a complexidade de Ser e pensar, a inteireza da avaliação e intervenção enquanto pressupostos da plena assertividade do clínico; assertividade que importa mais pela Pessoa completa que urge enquanto tecido ontológico de suporte ao clínico do que propriamente pelo papel do profissional propriamente dito, com este último a ser muitas vezes o ser pessoal acrítico que, na defesa dos direitos da Corporação ou do Grupo parcelar, perde a natural liberdade de pensamento, a autonomia de Ser e "Tornar-se", que é, como sabemos, pré-requisito do Terapeuta verdadeiramente Total.
Assim, o "livre-pensador", um pouco à semelhança do preceito racionalista, não pode deixar de ser visto como condição obrigatória do Terapeuta, se bem que a sua Autonomia não implica a Independência, a impermeabilidade, a incomunicabilidade hermética. Antes pelo contrário, a assunção do profissional autónomo é pré-requisito obrigatório da assunção do membro da equipe, do grupo, da Sociedade, da Cultura, um pouco como a criança que requer a securização do seu Self para que possa dar-se, relacionar-se, amar e ser amor.
A autonomização e a complexificação da entidade profissional "Fisioterapeuta" (e igualmente do "acto fisioterapêutico", com este a dever ser único e irrepetível, como se uma intervenção devesse sempre ser feita como se fosse a "derradeira" e a "sublime"... Sagrada, porque repleta de significado, capaz de ser o momento único em que o tempo pára para deixar fluir uma quantidade massiva de Sentido, o momento em que tudo está plenamente pensado, nada a mais nem nada a menos, tudo com a sua "razão de ser", e portanto tudo escrupulosamente decidido e determinado, numa determinação para a liberdade da dança da Mónada Paciente-Terapeuta, alimentada pelo fluir em que os Corpos, o Corpo, se transtornam de pura Arte, harmonia do movimento perfeito e puramente livre. Resumidamente, o tratamento de um doente não é uma questão de tempos, pagamentos, sistemas ou qualquer outra coisa mundana e/ou profana; é um momento Sagrado, e portanto relativo à Pureza dum acto Criador, da Palavra/Logos enquanto Verbo do Princípio/Arché) urge, assim, enquanto condição prévia duma Totalização em que os membros de uma equipe, incluindo o paciente e sua família, se fundem num só elemento, já não equipe mas sim Uno fenoménico. É um pouco como as etapas da "salvação" do Eu, individual e colectivo, com um primeiro momento de assunção plena do 'Eu' demiurgo, do Super-Homem, e um momento final de diluição do 'Eu' no Todo, de transfiguração quântica das fronteiras da pessoalidade individual e grupal, para que soçobre a melopeia da infinita transformação, o murmúrio da voz de Deus feito caos embriagador da matéria dos sentidos transviados.
O orgulho de se ser terapeuta deverá, na extensão dessa elipse de prístina liberdade, cingir o eco da plena libertação do Eu, do outro, do mundo, logo feitos movimento perpétuo, uma sucessão de infinidade de posturas, e a postura a ser uma infinidade de movimentos, dança permanente da harmonia de um Universo em cíclica transformação, um entre muitos, uns dentro de outros, e outros tantos mais, numa sucessão infinda de infinidades, de parcas e ilusórias fronteiras.


Postura como movimento, movimento enquanto posturas

«Movendo-se, descansa (o fogo etéreo do corpo humano)»
Heraclito de Éfeso

O gesto lento, prolongado quase infinitamente numa dança em que o corpo do terapeuta e o corpo do paciente se transfiguram numa dinâmica quase promíscua, nua, íntima, plena, repleta de significação, lotada de um "locus" de sentido em que a possibilidade de trair o caminho para o equilíbrio é severíssima.
Um gesto a mais ou a menos, um pouco mais de força do que deve ser, um pouco menos de insistência do que o desejável, tudo isto pode comprometer decisivamente o caminho terapêutico, podendo magoar, ferir os resultados até ali obtidos, ou mesmo aniquilar a possibilidade de uma continuidade. O bom-senso, a razoabilidade, qualidades difíceis de definir, de mensurar, mas obrigatórias ao terapeuta que se assume como tal. Dimensões que revelam a quintessência da Fisioterapia, o seu lado mais qualitativo e irredutível a sistematizações, a regras de conduta ou a guias de prática, mas que são a "última palavra" que decide o terapeuta que irá sê-lo no verdadeiro sentido do termo, ao invés de um "terapeuta" que nunca conseguirá verdadeiramente ser um clínico capaz de "viver" o seu paciente, capaz de "tornar-se" o seu paciente, na plena coesão de um "ouvir", de um "sentir compreensivo", de um "ser capaz de se colocar no lugar do outro".
Dimensões que resvalam continuamente nas mãos de terapeutas que limitam o seu acto ao reduto de um "é assim que manda a regra" ou "o exercício é feito deste modo obrigatório", como se o manusear não devesse ser arte internamente criativa, como se a Fisioterapia não devesse ser puramente arte, dançaterapia, escultura em movimento, como se cada momento do "toque" não pudesse firmar a procura do derradeiro instante de prístino Belo, sagrado desvelo, momento de fusão com a irrefutabilidade da presteza divina. E é assim que o acto ou gesto fisioterapêutico deve ser lento, moderado e contido numa estoicidade embriagadora, vivido e prestado necessariamente por um ser controlado, livre, esvaziado de oscilações mentais e instabilidades internas, portanto sereno, pacificado, capaz de imprimir ao paciente a direcção de um momento de alívio, de libertação face ao agrilhoamento da tensão e da dor. E é assim que o acto ou gesto fisioterapêutico deverá sempre que possível ser longo, prolongado num tempo jamais programado ou mundanamente limitado, dono da lentidão própria das coisas da natureza, porque esta última, na sua inalienável sabedoria, sabe tecer a perfeição com a lentidão de um tempo "perdido" (Proust), porque as coisas belas e perfeitas requerem tempo, e já a impaciência, a pressa e a rudeza são inimigos declarados da perfeição. E é assim, finalmente, que o acto ou gesto fisioterapêutico deve evitar o mais possível a dor, o sacrifício, o sofrimento muitas vezes imputado como "marca" do fisioterapeuta e de uma terapia vista como necessariamente qualificada.
A dor alimenta a apreensão, o espasmo, as defesas, promete tornar a Fisioterapia um momento criador de outras necessidades fisioterapêuticas, como se o momento da terapia quisesse trair a qualidade de vida em nome de uma função quantitativamente louvável; como se só os números contassem e a dor fosse o único modo proficiente de alcançar resultados, quando é a persistência e a temporalidade que fazem a Obra. Não, não vejo como conceber um corpo de pedra ou uma argamassa biomecânica destinada a levantar pesos e a esforçar-se como que imbuído de competitividade atlética. O corpo é frágil, uma verdadeira rosa de cristal dona de limites que não pretendemos ver corrompidos por uma estúpida cultura do "No pain, no gain" que confunde sacrifício físico sem sentido com o sacrifício espiritual do peregrino que caminha descalço no "deserto dos tártaros". Queremos um corpo respeitado, tratado como elemento do Sagrado que o próprio acto fisioterapêutico reitera. Não queremos o momento sacrificial trôpego que o paciente rapidamente imprime em si como aquela hora do dia em que será sujeito à tortura, ao maquiavelismo de um "princípio sem fim" ou de um acto destituído de um "fim em si".
Daí que o fisioterapeuta não pode jamais deixar de ser poeta, psicanalista, bailarino, escultor, músico, pensador, capaz de fazer do movimento-postura o momento profundamente expressivo da intenção do alcance de um Sentido, coisa risível para quem transforma o movimento nos padrões mecânicos de uma máquina destituída de conteúdo e para quem traveste o seu paciente de um levantador de pesos ou de um atleta como "coisa acabada" (quando nunca nada é coisa definitivamente "acabada") capaz de se lançar alienadamente na produção industrial dos movimentos repetidos incessantemente na fusão com a cultura massificada e plastificada dos "tempos modernos".
E cuidai que o fisioterapeuta que se move nas entranhas desta cultura, como aquele que permite ao atleta competitivo produzir a acção destruidora e violenta, somente porque a máquina do Sistema assim manda e demanda, é um cúmplice de um crime, do crime de fazer a violência ao corpo cristalizado que tantos anos requereu para atingir um certo estado de riqueza práxica.
O fisioterapeuta que se envolve neste crime não é mais um profissional de saúde. É somente (mais) um agente de um Sistema que tresanda a nulidade de um paradigma económico também ele a tresandar a desgaste e a putrefacção. Tenho vergonha por estes fisioterapeutas e por este Sistema. Tenho vergonha que a Fisioterapia mais "mediática" seja precisamente esta que produz "máquinas" da diversão das massas, na pletora de um modelo "moderno" que alguns pressupõem "evoluído", numa estúpida incapacidade de distinguir "modernidade" de "evolução", "desenvolvimento económico" de "desenvolvimento humano", "capital financeiro" de "capital de felicidade", "felicidade quimérica" de "felicidade espiritual", "ilusão" de "revelação".
O tempo alimenta a entropia, o envelhecimento e o desgaste, e a modernização e o suposto desenvolvimento implicam mais a confusão de vozes e a relativização e multiplicação de gestos do que propriamente uma adequada evolução - muitas vezes confundida com o avanço temporal -, com esta a requerer o retorno à Estrutura arquetípica, a paragem do tempo no paraíso do "Eterno presente". O terapeuta que actua no paciente não deve reificar a secularidade, numa atitude de "eterno retorno" ou "eterna dialéctica" que permite somente criar a ilusão placebetária ou a resignação da vivência na dor; deve, sobretudo, ser o Super-Homem capaz de fazer do paciente outro Super-Homem, um Ser genuíno retornado ao Arquétipo da Consciência pura e desalienada, dono de um corpo enquanto extensão antecipatória da Idade de Ouro, aquela que ousa a beatitude do Nada, da ausência de atrito, de "mal" ou sofrimento, e portanto da ausência da própria evolução, porque já nada requer libertação, porque o Nada é já a Liberdade transtornada num caos de escalar quântico.
Pretende-se um corpo "paciente", que, na perspectiva do "eterno presente" intemporal, é movimento perpétuo, sucessão infinita de pontos ou posturas, e a postura a ser infinito movimento, tudo é o mesmo, tudo é uma só coisa, e também o eterno devir e o eterno retorno são o eterno presente, assim como a liberdade pura, o Ser Total, é o Nada, o Não Ser, e o Absoluto é o Caos, o Inefável, o Irredutível.
Logicamente que o momento da Fisioterapia não é o Absoluto, se bem que se aproxima e reitera o Arquetípico, e, à semelhança do que acontece com o mito, pretende renovar o "Princípio", repetir o "acto criador", retornar ao Arché enquanto modelo exemplar, e é por isso que o acto fisioterapêutico deve ser um acto sagrado, porque renova a condição originária, porque reinicia a perfeição da Criação, e é também por isso que o fisioterapeuta é um demiurgo e tanto o seu corpo como o seu acto devem ser puros, prístinos, extensões do que se pretende reificar no corpo do próprio paciente.
O tempo bem aproveitado desempenha a função descondicionadora, recriadora, alquímica, gnóstica, e, no percurso do processo expansivo, tornar-se-á mais lento, na mesma medida em que o aumento da consciência abre o Ser à pureza atemporal do Arché.
Erros, defeitos, más escolhas, dúvidas são também um elemento necessário, até porque o terreno maculado e inconsciente das trevas subterrâneas e saturninas imiscui a estrutura arquetípica de pureza virginal com os fantasmas do condicionamento castrador de um mundo de temporalidade carnal e deterministicamente relativo.
À semelhança do que acontece com as Eras do Esoterismo, o tempo arquetípico é um "não tempo" paradisíaco, mas em que a liberdade animalística e infantil, como no "bom selvagem" de Rousseau, funciona como uma pseudoliberdade, no sentido em que o conforto operado pela condição primitiva implica a dependência do modelo primário dos deuses/pais; e o tempo histórico é o tempo do condicionamento que ora desagrega, relativiza, desabsolutiza, vela, macula e carnaliza, ora civiliza e imprime a consciencialização ética, significando isto que a História tem uma dupla vertente destrutiva e evolutiva, relativizadora e organizadora, diacrónica e sincrónica, diabólica e simbólica, maleficente e beneficente, pecaminosa e accionadora, veladora e reveladora, com o aspecto segundo (da Luz) a permitir o aumento gradual do patamar de consciência, o mesmo que consentirá ao ser atingir o estado de Demiurgo/Super-Homem/Pai e criar o seu próprio Arché ou Totalidade noética manifesta (numa fase em que teria conseguido libertar-se do processo cíclico de "eterno retorno" e, portanto, do arquétipo modelar do pater... se bem que o seu próprio Arché se encontra no paraíso desse pater e, portanto, o encontro do "Princípio" autonómico reitera o encontro arquetípico primevo, no seio da odisseia do regresso ao lar), o seu próprio paraíso, senão a sua própria condição divina de pura liberdade (aqui já não demiurgo, mas sim Deus Totalidade imanifesta e irredutível), com esta a ser problematizada pela perspectiva pessimista de um fatalismo de determinismo materialista que opõe a caverna da corporeidade ao intento da libertação, ao puro "Nous" e, obviamente, à obtenção de níveis de evolução metanóica.
Não me alongarei em temas que tratei mais pormenorizadamente nos meus livros «O Corpo e o Nada» (2013) e «As Metamorfoses do Espírito» (2013), até porque a perspectiva pessimista - igualmente apresentada - do eterno retorno e do regresso cíclico às trevas involutivas (cunhada especialmente em «As Metamorfoses (...)») poderia desanimar o terapeuta que se pretende motivado na "recriação" do "Opus" alquímico do seu paciente, se bem que a óptica esotérica pretende que a evolução cíclica propicia um "regresso" a um ponto mais alto, mais evoluído, mais próximo do topo da montanha.
E se o fisioterapeuta pretende reactualizar o momento inicial no seu paciente tal não será possível sem que a própria Fisioterapia inicie o seu íntimo caminho evolutivo, a sua própria gnose, a sua própria Obra alquímica, no contexto da entrada na Nova Era, na pós-modernidade que é, de algum modo, a reactualização dos antigos tempos de valorização da Espiritualidade profunda.
Caminho que irá requerer inicialmente o Singular, para mais tarde uma mudança mais profunda de paradigma ser internamente compreendida por um grupo mais abrangente, quiçá toda uma Classe profissional (imediatamente antes do tempo em que a própria divisão em profissões e classes deixará de fazer sentido, porque a ambição da Totalidade itera a diluição das categorias, e portanto a transformação da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade numa "transUnidade").
A singularidade do momento único de uma Fisioterapia pensada no jogo da multiplicidade de factores, na diversidade de olhares, em que a visão de uma "razão dialéctica" (Sartre) do relativo não abandona jamais o seu caminho, simultaneamente de retorno e evolutivo, no sentido da afirmação do Espírito, no sentido inicialmente subjectivo, no sentido derradeiro de uma Totalidade que nunca deixámos de ser.
É essa Fisioterapia enquanto prática espiritualizada, no seu sentido esotérico pós-moderno, que desejo para o futuro próximo, para o futuro da Nova Era, o mesmo que permitirá cruzar todas as estruturas e narrativas no ensejo valioso de criar toda uma Meta-narrativa de base canónica e categórica e de ápice desconstrutiva e pluridimensional... uma Fisioterapia sem medo de se pensar nas suas múltiplas problemáticas, com vista à sacralização do acto de "tratar", do instante de "tocar".
 
Publicado em 'Hospital do Futuro': http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blog/show?id=1967198%3ABlogPost%3A40449 e no livro «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma)