sábado, agosto 17, 2013

Nietzsche e a psicologia do Super-Homem


"O homem é uma coisa que tem de ser superada"

"Anuncio-vos o Super-Homem, aquele que há-de dominar a Terra"

Nietzsche («Assim falava Zaratustra»)


Se considerarmos que a Espiritualidade conforma um terreno que se estende desde o desiderato da "Psicologia do auto-conhecimento" - e que inclui obviamente o papel da religião (e, claro, do mito) como retorno saudosista (à semelhança do que propende a Psicanálise), como "reactualização nostálgica das origens" (Mircea Eliade) - à moral martirizada da "renúncia" (que se reifica com o 'Nada' da Voz meditativa do Silêncio e concretiza derradeiramente com a morte pacificadora), podemos considerar que é sobretudo a primeira perspectiva mais "psicológica/psicanalítica" que interessa mais à noção do Super-Homem tal como apresentada por Nietzsche em «Assim falava Zaratustra»; este mesmo Super-Homem é, assim, o resultado derradeiro de todo um crescimento, um pouco como o produto finalizado de um processo de Gnose pessoal, a meta de um caminho epopeico, que é no fundo a tragédia da vida psicológica e intelectual.
Sabendo nós que a via Ética genuína implica a renúncia e que o verdadeiro amor reitera o abandono do Ego (o desapego que um certo Budismo refere), é igualmente vero que nenhuma via de auto-exclusão poderá fazer com que, de facto, um efectivo crescimento transpessoal e civilizacional possa ocorrer. E esta perspectiva não pode deixar de recolher o consentimento próprio da modernidade, que é, de algum modo, o contexto temporal por excelência da valorização das relações inter-pessoais e mundanas, acrescentando-lhe por detrás o cenário de uma valoração científica materialista que há muito contribuiu para dessacralizar o tecido social e igualmente de uma valoração política liberal que veio contribuir para reificar uma dupla perspectiva de vida Individualista vs. Igualitarista.
E é precisamente a imersão neste contexto liberal empossado pela moda "darwinista" e reaccionado pela revolução Socialista que veio dar a Nietzsche uma força motriz elevada na geração da sua perspectiva do Super-Homem, que viria a ser um dos pré-requisitos históricos capitais da criação das teorias de Freud e de uma parte significante da Psicodinâmica.
Influenciado pela revolução científica do séc. XIX, e bem consciente da há muito anunciada "Morte de Deus", Nietzsche viria a contribuir para uma avalanche "secular" verdadeiramente dessacralizadora, tendo contribuído, como nenhum outro, para demolir as noções "românticas" do Espiritualismo e de todas as Metafísicas, e também para mostrar que todo o Idealismo tinha por trás a razão própria de cada um, a necessidade doentia de cada Ego, a projecção psicológica de uma ilusão, enfim... contribuiu para denunciar a aspiração Espiritual como meramente "humana, demasiado humana".
A pretensão da renúncia seria assim vista como doença do crescimento, medo da evolução, necessidade de totalização de um Eu que tem a fobia da aventura de ser; e, tal como defendido em «A Genealogia da Moral», a moral cristã seria somente o resultado da destituição de um tipo de moral mais antiga, que é a "moral dos fortes", a "moral aristocrática".
Para Nietzsche, o homem é sobretudo uma condição intermédia entre o animal e o Super-Homem, e o ser humano está destinado a crescer e a "tornar-se". O que vem em abono da perspectiva da evolução pessoal, do crescimento do nosso Eu, o qual irá implicar o "retorno", o recuo às memórias, e até o "marca passo", para que, no fim, após um caminho realizado enquanto "Odisseia", todos os condicionamentos tenham sido vencidos e a Liberdade (ou, pelo menos, a sensação da liberdade) tenha sido obtida.
Esta meta seria a do Super-Homem, ou seja o homem que foi capaz de se transcender - se bem que não tenho a certeza se este caminho possui um "fim" - obtendo-se um Ser capaz de criar os seus próprios Valores, que podemos interpretar como o homem maduro que se torna criador, de obra ou dos seus filhos.
Ora, se bem que existe uma tentação de associar ao Super-Homem aquilo que seria o resultado de um longo trabalho de divã psicanalítico (que pode ser interpretado como o caminho próprio de transmutação que todos estamos destinados a perpetrar no devir das nossas vidas), não posso deixar de acrescentar que esta é uma interpretação, que apesar de se manter válida e aceitável, não condiz, ainda assim, com a perspectiva que Nietzsche apresenta a partir de «Para além de Bem e Mal», em que o Super-Homem é apresentado enquanto Elite aristocrática destinada por várias gerações à grandeza, e portanto não alcançável pelo "comum" (malgrado as filosofias liberais e igualitaristas pouco aceites pelo filósofo); por outro lado, se bem que concebo que a via do crescimento e da formação do Super-Homem acaba por permitir a eticidade, este tipo de moral não corresponde, de facto, ao tipo de "moral darwinista" com a propensão competitiva da Vida que Nietzsche tanto parece estimar.
Os aspectos das obras de Nietzsche posteriores a «Assim falava Zaratustra» não implicam que não possamos dar livre interpretação a essa fantástica obra que propende que o homem está destinado a ser ultrapassado, de modo a criar o «Super-Homem», que, a meu ver pessoal, existe em potência em cada um de todos nós, e que, sendo alcançado (ou "desvelado"), permitirá a harmonia, no sentido em que a fixação da estrutura fálica ou o pilar fundamental do Eu levará automaticamente à capacidade do Eu de se virar para fora de si (é um facto, que a tolerância e a dedicação aos outros não podem ser obtidos sem que primeiro o Eu se encontre a si mesmo).
Penso que, na actual fase de "défice narcísico" da Humanidade, em que o egoísmo assumiu proporções desmedidas e o individualismo se tornou um valor dominante, é precisamente o alcance do Super-Homem (e só depois de uma "Super-Humanidade") que reitera a prioridade. Não do Super-Homem aristocrático e individualista, porque esse já o temos e em excesso! Mas do Super-Homem cheio de amor, primeiro do auto-amor do Super-Homem individual, e só depois do Amor Universal do Super-Homem colectivo.
Como já disse, a via implica o caminho próprio, até porque a verdadeira Sabedoria tem de ser "não mediada". Não se pode esperar que sejam os outros a fazer este caminho por nós; isso seria arriscar a substituição do Crescimento pelo Conforto, que, apelando à analogia com a Espiritualidade, é como substituir a espiritualidade esotérica pela religião exotérica (que, como sabemos, corresponde ao que de facto aconteceu com a Humanidade, principalmente desde as trevas cristãs).
Ora, percebemos, então, que a Espiritualidade inclui este "caminho" do "Auto-conhecimento", e que não é só o que Nietzsche nela quis identificar: a renúncia. O caminho ascético e a renúncia à mundaneidade são, apesar de tudo, caminhos nobres de Eticidade, mas parece-me que, não obstante a possibilidade de serem somente uma construção velada dos espiritualistas racionais (ou mera projecção psicológica do Idealismo), ancoram numa via final de silenciamento ou pacificação que a Humanidade não se encontra actualmente preparada para substantivar.
Assim, o crescimento, o silenciamento e o encontro do «Nada»/Absoluto - fases do "processo Espiritual" - poderiam corresponder precisamente às fases da vida do homem/Humanidade, em que o crescer da criança e do adulto (fase actual em que se encontra o Colectivo) seriam terminados pela pacificação da maturidade (e em que a entrada no silêncio sem a adequada integração do corpo egóico poderia implicar uma danosa "fuga para a frente", que os psicanalistas, de algum modo, denunciam nos que se "anulam a si mesmos", e em que, por outro lado, a vivência ad eternum do corpo egoísta destinaria o Homem ao temido "eterno retorno").
Empreendamos, consequentemente, o desejado caminho para o Super-Homem, que, ainda assim, estamos destinados a ser, nesta nossa impossibilidade de não sermos Amor.

 
in «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma)

quarta-feira, julho 10, 2013

Eu mesmo como o Infinito


«O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima»

(Corpus Hermeticum)


Associamos frequentemente a palavra "Espírito" ao que em nós há de mais etéreo, à essência suprema sentida como coisa elevada, quando, na verdade, nem o "Espírito" é sinónimo de "Alma", nem o que ao "Eu" diz respeito tem a ver necessariamente com a matéria espiritual. Na maioria das Espiritualidades antigas, o "Espírito" acaba por adoptar um cunho de transcendência, que, a determinada altura, leva o "Espiritual" a ter mais a ver com a Totalidade e o Infinito que tudo e todos inclui do que propriamente com a matéria da carne que nos cerca, possui e domina. Por outro lado, essas mesmas Espiritualidades aceitam igualmente que o Espírito da Totalidade existe em cada um de nós, um pouco como se o nosso 'Eu' mais subtil - o Superior que há em nós - fosse a extensão ou o espelho do Divino, o que não deixa de, para já, vir confundir um pouco as hostes.
É inegável que grande parte da espiritualidade antiga, nomeadamente o Sanathana Dharma (conhecido popularmente como Hinduísmo), tinha como mote fundamental a "extinção do sofrimento", o que, a determinada altura, poderia passar pela superação do Corpo, do 'Eu' pessoal, carnal e até psíquico, de modo a que o 'EU' superior, já não pessoal mas colectivo, já não carnal mas espiritual e impalpável, pudesse ter lugar. Claro que o trajecto obvia um caminho que passa pelo 'Eu' carnal, emocional e psíquico; caminho "que se faz caminhando", com a espontaneidade própria do trajecto evolutivo, com as necessárias dores do crescimento, a via do peregrino que se chega a arrojar pelo atrito do trilho pedregoso, uma verdadeira epopeia pessoal inclusa de avanços e recuos (pequenos céus e pequenos infernos), a tragédia da vida que conhece quedas subterrâneas e aviltamentos de luz; mas tudo isto, toda esta evolução, visava a superação deste Corpo que parece arrastar-se eternamente, para que um novo estado (iniciático) de Luz espiritual pudesse ser alcançado. Nessa Luz, o 'EU' superior que parece ter vencido a necessidade de novos caminhos (aliás, novos regressos reencarnativos), poderá finalmente libertar-se da dor, do sofrer.
Daí que, ao contrário do que muitas pessoas julgam, e conhecem através de certas formas de espiritualidade e/ou religiosidade popular (ou seja, exotérica, relativa ao exterior), o "Espírito", no verdadeiro ("esotérico", interior) sentido do termo, tem mais a ver com uma Totalidade já não pessoal mas colectiva, com algo que já não é 'Eu' no sentido da consciência pessoal ou das sensações psíquicas, do que propriamente com a matéria de que trata grande parte da Psicologia individual (pois a mente ainda se mantém ao nível do Corpo); passei uma boa parte do tempo do meu recentemente publicado «O Corpo e o Nada» (Apeiron Edições) a explicá-lo, se bem que, para tal, posso ter utilizado processos mais ou menos indirectos. A própria meditação passa por ser, de certo modo, um processo de morte da auto-consciência. O que, obviamente, mais começa a parecer a fuga do corpo (um pouco o contrário do que pretende grande parte da psicanálise) e o alcance do 'Nada'.
Por outro lado, existe igualmente a necessidade de se conceber uma representação "individual" do Espírito (porque, afinal de contas, "o homem foi feito à imagem de Deus"), segundo o ponto de vista de que cada um de nós possuiria um nível superior, um "EU" eterno que se mantém "entre vidas", aquele que precisa de ser reificado com a actividade evolutiva do "Eu" inferior (este, sim, a diferenciar-se nas múltiplas reencarnações), o que quase nos leva, de algum modo, a atentarmos numa arriscada analogia entre o desiderato da Psicologia e o desiderato da Espiritualidade. Não será que tanto a Psicologia moderna quanto a antiga Espiritualidade têm simplesmente em comum a preocupação com o crescimento do homem, que, às tantas, à força de descobrir a sua substância primária, se securiza e engrandece, podendo vir a tocar construtivamente o Outro, um pouco como o espírito individual a ser Espírito no sentido da Totalidade e do Infinito?... Teríamos, aqui, até a possibilidade de tanto a Psicanálise como a Espiritualidade poderem constituir dois formatos histórico-conceptuais com um objecto comum, se bem que, no livro que já citei, já terei defendido que o desígnio ético da Psicanálise parece não ter a grandeza da Espiritualidade esotérica...
E este objecto passa em grande parte pela redescoberta do momento gerador, do Início da matéria, da vida, da consciência, que é disto que fala o "Arché" dos gregos, correspondente ao "Princípio" bíblico, o mesmo que necessitou de uma ordem divina, o Verbo de Deus (o Logos dos gregos), que pode ser a dor da mãe que dá à luz ou a voz do Pai criador e consolador, de uma consolação que relembra a religião dogmática ou a espiritualidade "terapêutica". E é esta redescoberta ou reactualização das Origens que leva à criação da certeza de que somos Pessoa, que somos Ser, agora tornado livre, tornado Deus, futuro Deus-Pai criador. E é disto tudo que tratam todas as Espiritualidades, que, ao contrário do que muitos pensam, têm muito em comum e em interdependência: a filosofia da Índia, incluindo o próprio Budismo e o Jainismo, o Tao dos chineses, as religiões de mistérios, o Hermetismo e a Gnose, o mitraísmo da Pérsia, a mitologia grega, o Pitagorismo, o Platonismo, e o Esoterismo que nos é mais próximo, no formato da alquimia, da verdadeira astrologia, do rosa-crucianismo, da maçonaria, da teosofia moderna, e também o que há de mais profundo nas religiões do Livro (Judaísmo - incluindo a Cabala -, Cristianismo - incluindo o gnosticismo e os textos apócrifos -, Islamismo - incluindo o sufismo), e tantos outros formatos, jangadas que visam, pela via da filosofia Racional (que, obviamente, transpõe muito o domínio da fé e até o domínio do que geralmente entendemos por Razão...), o alcance da Verdade (o momento em que o 'Eu' e o 'Outro' se tornam um só), que não é alcance nenhum porque o Absoluto nunca deixou de estar em nós, e só não o víamos porque éramos homens corporeamente aprisionados nas nossas cavernas de carne, nos nossos presentes de materialismo tecnocrático.
Parece difícil aquilo que escrevo mas tudo será sentido como simples depois de realizado o necessário desvelamento; porque a Verdade (velada) está em nós, e, alcançando-a, transpomos o nosso Ego, e é por isso que o Espírito é visto como Transcendência, como coisa que transpõe o 'Eu' para passar a ser o Infinito. O que não significa que tudo isto não passe de um 'Eu' iludido e alterado no seu estado de consciência... o que, em última análise, lá nos leva a submergir novamente no 'Eu' que somos, no 'Eu' que queremos ser, no 'Eu' que já é o Outro, no 'Eu' mesmo como o Infinito.
Se tudo isto pode "doer" por dentro, se quem me lê já sente essa dor, então já terá sido iniciado mais um caminho pedregoso do peregrino, mais um passo no sentido da desocultação do Oculto, e quem me lê é já, de certo modo, um "iniciado", num caminho que convido a fazerem comigo, se bem que só posso ajudar na "revelação" ("revelar" significa, na verdade, "mostrar que está velado") mas nunca no "desvelar" (a verdadeira Sabedoria tem de ser vivenciada pelo próprio, não pode ser mediada por algo ou alguém, incluindo bem intencionados, mentores, terapeutas ou Igrejas... malgrado a heresia presente...). Se pretendem uma paz imediata, então talvez não a consigam de tanto a desejarem; acabo com as palavras bíblicas, associadas a Jesus: «Não vim para trazer a paz, mas sim a espada».
 
(Texto escrito num contexto introdutório)

quinta-feira, junho 06, 2013

O enfermeiro português será um Super-homem?

«Acusar os outros de ignorância porque desconstroem as realidades fabricadas na aparência é, no mínimo, ser escravo e disso ter orgulho» (in ‘O Corpo e o Nada’, 2013, Apeiron Edições)
 
O facto de se viver em Portugal um clima de profunda depressão psicossocial e económica justifica a eventualidade de certas lutas corporativistas serem vividas com inédita agressividade mas não justifica que essas mesmas lutas assumam o aspeto de uma tentativa de conquista da própria Realidade. É bem sabido que o contexto dos sistemas de saúde é, como sempre foi, dado às lutas de poder e aos conflitos interdisciplinares (ao mesmo tempo que uma certa ética das “boas práticas” reitera a importância do trabalho em equipe), mas uma situação única, verdadeiramente inédita no Mundo, está a suceder e tem criado, agora mais do que nunca, um enorme cisma entre os profissionais de saúde. Trata-se do fenómeno do “enfermeiro” enquanto Super-homem (no sentido quase nietzscheniano do termo) que se arroga a capacidade de poder praticamente substituir o trabalho de todas as outras profissões de saúde, situação que ganhou um crivo particularmente consternador com a recente saída da Circular Normativa n.º 19/2013/DPS de 15 de Abril de 2013 da ACSS relativa à “Uniformização dos Registos de Enfermagem em Cuidados de Saúde Primários”circular-normativa-19-2013-DPS.pdf.
Se é já algo conhecida a intenção do enfermeiro de “substituir” o médico em muitas das suas competências, o que inclui a ambição do primeiro de vir a ater o poder de “receitar” exames complementares e medicamentos – o que é estranho, atendendo ao discurso do (mesmo) enfermeiro enquanto profissional “holístico” e “não médico”, apologia da autonomia que deveria ser compatível com um espírito “clínico” menos prescritivista – é provável que muitos portugueses não tenham ainda uma grande consciência de que a ambição a longo prazo do enfermeiro passa por vir a substituir muitos outros profissionais nas suas diversas habilitações. E, observada e estudada a Circular em questão, as competências que se apresentam como sendo “do enfermeiro” incluem muitas das atividades normais do fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, terapeuta da fala, psicomotricista e psicólogo, profissões cuja especialização permite, com obviedade, a execução das ditas atividades com um grau bastante mais elevado de competência. Competência obtida a partir de um modelo de expertise que tem por trás anos e anos de formação graduada e pós-graduada, experiência e treino específicos, assomados a formações e vivências singulares, que honram o espírito da “arte”/”ciência” em questão na sua densidade científico-académica e técnica e na sua maturação humana e espiritual num ponto comparativo que é o do nível dos pares internacionais… com tudo isto, toda esta riqueza concetual e multiparadigmática, dada por anos de vivências insubstituíveis por parte dos mesmos profissionais que criaram, pensaram ou amadureceram grande parte dos métodos referidos no documento, a ser ridicularizada, pretensamente “diminuída”, por uma Circular (apadrinhada por interesses particulares e economicistas) que adota a falaciosa teoria da “Polivalência”, que, de tão “Poli” pouco terá de “Valência”.
É certo que a Circular só se refere aos ‘Cuidados de Saúde Primários’, mas é um precedente que se abre agora e se torna aparentemente “legal” e que não pode deixar de se sentir como o início de uma nova Era em Saúde no nosso país (aliás em todo o Mundo), em que o enfermeiro – outrora um profissional “auxiliar” (se bem que de importância inquestionável) – passará a ser praticamente “O Profissional” único e heroico dos Serviços de Saúde; passe-se a lógica ego-maníaca e classista da coisa que, mesmo sendo um “arquétipo” incluso do animalismo humano, assume proporções desmedidas e pouco inteligentes neste nosso país de “padrinhos”…
Relativamente à Circular, ao que parece, a partir de agora, nos Centros de Saúde, o enfermeiro passará a poder ser responsável por atividades como “Testes de Psicomotricidade”, “Exames de alterações da fala e da linguagem”, “Cinesiterapia Corretiva Postural”, “Reeducação Funcional de cada membro com análise simultânea do movimento e registo”, “Treino de Equilíbrio e Marcha”, “Terapia Ocupacional”, “Treino de escrita à mão ou à máquina de escrever/computador”, “Execução de ligaduras funcionais ou gessos”, “Reabilitação Cardíaca Individual”, “Reabilitação Otolítica”, “Sessões Psico-Educacionais familiares em grupo (…)”, “Terapia Ocupacional em Psiquiatria”, entre muitas outras que, pelo seu elevado grau de especialização, exigiriam muito mais do que um “simples” profissional de enfermagem (cuja “especialidade” não é suficientemente “específica” e simultaneamente abarcante, a não ser, claro, que este profissional tenha passado a augurar de capacidades sobre-humanas).
As diferentes atividades a que a Circular se refere requerem um número elevado de profissionais e uma gestão dos Cuidados feita de modo a que diferentes serviços ou centros possuam dissemelhantes valias e equipes diferentemente constituídas. É um tipo de “multiplicidade” nem sempre favorável à noção de Uno (que é apanágio da Totalidade, de um “holos” que reside no próprio paciente e sobretudo na sua “transcendência”), mas necessária à organização cognitiva dos saberes e à pragmática psicossocial das atividades, cujos conteúdos são demasiadamente abarcantes para poderem ser geridos por um só ser humano.
Os enfermeiros defendem-se com a suposta legalidade da situação e com a grande compatibilidade da mesma com a crise (pois os serviços serão geridos por profissionais mais polivalentes), quando, durante anos defenderam a importância da existência e exercício de uma equipe inclusiva de diferentes valências. Que é, na verdade, basicamente o que existe em todos os outros países, nos quais as leis são mais claras e os diferentes profissionais coexistem, e todos os que citei lá em cima possuem real existência e inclusão no nível mais elevado da Classificação Internacional das Profissões.
Ora, se o nosso país é único no respeitante a esta situação alarmante e que tem preocupado milhares de jovens terapeutas que já tantas dificuldades possuem em arranjar emprego ou em realizar atividades minimamente prestigiantes e edificantes, é porque os enfermeiros têm sabido escalar e ocupar lugares robustos no tecido governamental e organizacional português. Não que desmereçam esses lugares ou que não possuam grandes valências, assim como qualidades indiscutíveis, mas, de facto, o poder do enfermeiro no nosso país não tem paralelo e está a crescer de um modo tal que coloca em perigo os lugares e valências de outros profissionais igualmente qualificados e com níveis importantes de competências específicas.
A situação tem provocado grandes conturbações entre as associações e grupos profissionais dos diferentes terapeutas e técnicos de saúde, pelo sentimento de profunda injustiça perante tal ilegitimidade. Também já há quem augure que os enfermeiros pretendem vir a efetuar atividades relativas ao Serviço Social, à Terapia Familiar, entre tantas outras que requerem uma preparação especial. E ao mesmo tempo que os enfermeiros vão passando anúncios na televisão bem “alusivos”, uma petição (http://www.peticaopublica.com/pview.aspx?pi=P2013N40825) de cujo texto base eu próprio sou autor (petição base da Terapeuta Leonor Lainho) já circula com milhares de assinaturas.
Temos, assim, que uma classe profissional outrora maltratada passa de “cordeiro” a “lobo”, com aparente traição de muitos dos princípios holísticos e de “humildade” que, ainda há poucos anos, vinham a defender, o que nos leva a pensar que, mais uma vez, tudo não passa de uma lógica de poder e que os injustiçados de hoje passam a ser os injustos de amanhã.
 
Publicado em 'Hospital do Futuro'

sexta-feira, maio 10, 2013

Nota final a «O Corpo e o Nada. mini-ensaios teofilosóficos» (Ensaio poemático)


Se bem que uma certa Espiritualidade esotérica – e em particular a Teosofia de Blavatsky – pretenda fazer do aparente binómio «Corpo – Espírito» uma Mónada de substancialidade espiritual em que tudo é Uno e em que o Uno é o Absoluto, a tentação de contrapor a tal coerente monismo o protótipo de uma dualidade do tipo «Espírito vs. Matéria» não pode deixar de ser sentida enquanto produto de uma natural devassa interna, que é aquela que, urgindo o mecanismo de defesa de cariz psicanalítico, contenta a natural aversão à Unidade e a atração à transubstanciação de fronteiras.
Jaz já, então, a tentação demoníaca nesta tão grotesca tendência para a fragmentação de uma Unidade, na qual toda a diversidade e todo o movimento conspiram nos termos de um jogo de ilusões, teatro de máscaras que apela à multiplicidade de um Demiurgo que se contenta com a quimera do livre-arbítrio decisor.
A tentação a apelar à queda babélica no mundo do “Relativo”, perfeito na Matéria das diferentes línguas e distintos paradigmas, e a assumir que a Origem divina está em Deus, que o Governo está no Demiurgo e que estes encenam um “Arché” que, quando o é já não o é, que quando se subsume na concretude é já o animismo consubstanciado, a vida – porque movimento – tornada Terra, Água, Ar e Fogo, e estes a esculpirem a divergência a partir do “Logos”, na estúpida certeza de que a saudade do “Princípio” e a nostalgia das Origens rematará o ensejo de uma luta, feita epopeia, ‘ethos’ convertido em tragédia heroica, que mais não visa do que recuperar o momento do “Arché”, para que este deixe de o ser e para que, após a morte de Deus, o “Eu” – que nunca deixou de o ser – passe a acusar o seu próprio “Princípio” - “Logos” - “Divino”, na sempre eterna certeza de que estamos destinados a ser Deuses por mais que não o desejemos.
É o próprio “Logos” que, partindo de uma qualquer Ordem cósmica racional e hierarquicamente superior, determina que o destino de Cristo, Buda ou Deus se inteirize em cada um de nós, com o adiamento da via crística a preludiar a neurose do “eterno retorno”, e a concretizar-se numa rota de pecados ou falhanços de um caminho que mais não é do que o do desvelamento (ou tentativa de) do Princípio ou do encontro com o verdadeiro ‘Arché’.
E é indubitavelmente da busca do ‘Princípio’ de que se trata no corpus das diferentes manifestações espirituais e nunca nada passou disso, da busca das Origens que habitam o ‘Eu’, do encontro com o ‘Eu’ incondicionado, com o ‘Eu’ que só pode criar e amar se se descobrir na Estrutura virginal e imaculada, não de uma virgindade selvagem e intocada, mas de uma virgindade readquirida – portanto, uma desconstrução que requer a prévia construção – uma indeterminabilidade que postula a revelação sapiente (e já não “sapiente”, porque de uma “douta ignorância”) do molde arquetípico que nos conforma, não descurando a relação dialética do modelo originário com o cumular das experiências que transcrevem a vivência no mundo da substância.
É desta alquimia de “autotransformação” que se subjaz a possibilidade real de uma Ética, da via fraterna que só pode ser concebida como resultado da descoberta e securização iniciática do ‘Eu’. Pois que não pode “o outro” existir e ser investido sem que o ‘Eu’ se propicie e descubra a si-mesmo, nas suas múltiplas potencialidades luciferinas, potenciadoras de um devir, que acabará por ser o de toda uma “Civitas”. E é também daqui que surge a “fé em Deus”, com a lógica analogia com a “fé” na capacidade de mudança, na Palavra capaz de “mover montanhas”, no Verbo que se reifica de tanto ser crido e repetido, como se só uma imagem já transpusesse todas as possibilidades de um ‘Eu’, que só pode ser Deus-Amor depois de ter sido amado e reconhecido pelo Deus-Mater-Pater, pelo Outro e, sobretudo, por Si-mesmo.
A via do ‘Arché’ é a via do Demiurgo: alcançando os alicerces do manifesto, a tentação que se consome visa a duplicidade de um desejo do Inominável e de um desejo de Individualidade, como a criança que, na eterna saudade do ventre consolador, vislumbra a possibilidade de um devir que mais não é do que a solidão de uma aventura que, perpassando trevas, mas também recompensas e letargias, visa a Unidade do ‘Eu’, que, não sendo porventura a Totalidade, é a derradeira pacificação do Ego, que já não é Narciso porque consolidou o momento originário, o instante em que a consciência teve origem e já não era autoconsciência ou o era sem o ser porque era já o baldio de uma argamassa de Logoi desconformes, porque de outros que já outros não são, porque já são o ‘Eu’, que nunca ‘Eu’ será, mas que, todavia, é Ego afogado em sonhos, esperanças, desejos, ambições, necessidades, com tudo isto a ser o prelúdio da ilusão que se derrete no devaneio da identidade, na falsa noção de que se é num mundo em que nada É verdadeiramente, porque o Espírito tudo dilui, porque o Espírito se escoa num movimento perpétuo criando poros e fragmentos onde a densidade se permitia afirmar numa coisa irrealizável, porque o Espírito tudo é e subsume, tudo transtorna num Nada que é precisamente a Realidade tornada incognoscível pela pérfida incerteza, e esta a manar num fluxo permanente de relatividades, que pareciam ser somente desalentos, ou falta de talentos, e acabou por ser a Verdade colapsada no Vazio, de um caos que harmoniza as ordens incertas, irreparavelmente prementes da premência da iminência de Universos, coevos e derivados, que se parodiam de ser alguma coisa quando a Verdade não o é e mais se afirma pela frustração de querer ser o que É, quando Nada Ser é a derradeira fantasia.
No oceano da ilusão do Éter que tudo atravessa, em que o grande é como o pequeno, e o superior como o inferior, derretem-se as dimensões a uma Unidade que, sendo Absoluta, já não relaciona ou se compara, o que é o mesmo que dizer que já não há sequer o grande ou o pequeno, o superior ou o inferior, porque as escalas e os mapas servem só para dirigir o que inevitavelmente acabará por ser um homem desamparadamente aprisionado. Assim mesmo, o peregrino que se inicia e se transcende não cederá jamais às diretrizes da Realidade tornada irreal, pois já peregrino não seria se o mapeamento viesse antepor uma via que não seria decerto a Via, uma só, porque só uma rareia na já rara perscrutação do Horizonte que é de facto a Verdade revelada e esta o adiamento consentido da Luz.
A via final evoca temporalmente os níveis inferiores, os níveis infernais que são pouco mais que o mais que são os demónios que nos dominam, os fantasmas que chegam a transcender as nossas fronteiras exteriores para ansiar o controlo do comportamento, do instintivo ao racional, do pulsional ao supergóico, do individual ao coletivo. Estas trevas do ‘Eu’, este ‘Inferno’ da Individualidade, o nível menos manifesto do patamar mais manifesto, este submundo que preside ao que é tornado comum, este mito entrosado por um Inconsciente Coletivo que teve o seu prelúdio na diáspora do ‘Eu’ que se extrapola, a alegoria, o símbolo, os contos de fadas e os instrumentos de um Imaginário lunar, os noturnos de uma Arte feita Harmonia, que milénios de construção pictórica, musical e poética viriam enaltecer, este mundo que reúne o helenismo, a epopeia greco-latina, os romances iniciáticos de Petrónio e Apuleio, a poesia de Dante, Milton e Blake, as depravações de Sade ou de Boccaccio, o espírito romântico de Novalis, Hölderlin, Goethe e Schiller, o ambiente “noir” de Poe, Hoffmann e Gogol, o romance francês e o Surrealismo em arte e poesia, e até mesmo o cinema, desde os musicais “inocentes” ao “radicalismo” de Buñuel e Pasolini, todas estas obras entre muitas que fazem o hino ao Inferno, ao caminho da floresta que o crescimento exige e denuncia, ao Deus feminino, Pandora embriagante, a via que se anuncia em Prometeu, a condenação da via Crística que exige mérito mas nunca desejo ou ambição, este caminho que a Fortuna já anunciava e que o mesmo Destino obstaculiza, para gáudio de uma incompreensão, que é aquela que reside no “Para quê tudo isto?”.
Onde estará o maior mal? Na via do Inferno que tem de ser vivida necessariamente ou na via do Inferno que se pretende eternizar, porque é o próprio “eterno retorno” que se tornou uma tentação, porque a compreensão da ausência de sentido de todo o Caminho comprometeu decisivamente toda a vontade genuína de crescer (quando, no fundo, nem existe uma vontade autêntica de crescimento, pois a vontade e a ambição matam a própria possibilidade de evolução)?...
Onde estará o maior mal? Na via do ‘Eu’ feito demiurgo ou na via do ‘Eu’ feito ‘Deus’ e portanto já Não ‘Eu’? O primeiro governa e pacifica mas não é livre. É homem com desejo e consciência, apela ainda à matéria e à encarnação. O segundo é a liberdade propiciadora, possui todas as potencialidades, todos os Logoi em si transcorrem, mas não é ninguém em particular, não é consciência de si ou de outrem, é só Consciência pura e total, que é uma Não Consciência, o Todo Nada irredutível.
Ser ‘Deus’ ou ‘Demiurgo’, ou ser homem simplesmente, a tentação de estar “para além do Bem e do Mal” augura a dialética da existência, quando o destino de nada ser lobriga a hipótese de redenção face ao sofrimento eternamente adiado.
Quando o sofrimento é a confluência do vazio e a confrontação da angústia com a cognoscibilidade de um corpo depuradamente emasculado, porque infecundado da vitalidade de um Eros que é já, desde o primeiro sopro, pérfida entropia… Um sofrimento que perspetiva a sua resolução acima de todas as outras necessidades, uma transposição que se fará recrutar pelo instrumento anestésico, que só será alquimia profunda se a fisiologia da celeridade não tiver surtido um efeito razoavelmente embriagador.
Quando a verdadeira embriagação é somente aquela que denuncia a renúncia ao caminho, a anquilose da carne transtornada em Ego compulsado em megalomania de um Narciso que mergulha incessantemente nas águas da ilusão, feito já Sísifo a arrastar o seu próprio mundo como uma pedra espelhada de um teatro que é do tamanho de um Atlas, titã da efeméride de uma forma que não cede ao Espírito, que permanece pura escatologia terrena no “eterno retorno” que mais não é do que neurose de uma obsessivo-compulsividade em que a retroatividade positiva subjaz ao “regresso” sem sentido, aquele que um mal compreendido Nietzsche viria conceber e parodiar, para que, mais a mais, todos nós, “pós-Nietzsches”, viéssemos a sucumbir à vergonha de encontrarmos o Nada na nossa Caverna sem que nada encontrássemos de forma primeva, mesmo que o nosso a priori pareça ter sido descoberta recheada de plenitude narcisicamente masturbatória… (vã ilusão a de pensarmos que ainda há algo que não tenha sido pensado ou sonhado) …
E já a nossa caverna é toda a Caverna do Mundo, que é realidade de conceitos, prescrições, fronteiras que não são Sabedoria, porque esta não é distância mas proximidade, porque esta é conhecimento puro, como se isso fosse possível, pois a consciência pura, razão da Testemunha, transpõe toda a Razão (quando esta é feita de conceitos que são jangadas de um rio lodoso que vai do Eu ao Outro, do Sujeito ao Objeto), que já Razão não era, porque só há a nossa razão, porque o conhecimento é todo íntimo, como a observação é apenas um olhar para dentro, porque neste vislumbre se encandeia a impossibilidade de olhar o que as coisas são, se é que são alguma coisa, se é que nós mesmos somos alguma coisa, se é que há alguma coisa, quando o ato desta escrita e do tolo que me lê nada são, porque tudo é inútil, mas já a consciência da inutilidade é apenas consciência, uma entre tantas que se perdem no conforto da droga mundana, que é a mesma droga a que quero sucumbir, mas já o sentimento de culpa me limita o mergulho, com este a ser ilusão, e esta a ser compulsão, com a linguagem a transcorrer e a não conseguir pará-la, tudo se mistura e não há ordem, mas o Caos é a incausalidade, não é o que queremos a liberdade,
Porquê o medo de nos arrancarmos
À súbita ausência de limites
Porquê o medo do infinito
Quando tudo é sem fim
Expansão e retroação
Evolução e involução
Nesta paródia dos devas
Imponderáveis que pretendem saciar o caminho
Sancionar a aparição de um fim que é início, de um fim que é somente fim de um fim, início de um fim do fim, fim de um início de um fim de um início de um fim de um início de um fim de um início de um início de um início de um fim de um início, com tudo isto a precisar de ser parado, por uma dor que esmaga pela ansiedade, pelo bloqueio que impede o suicídio, e este a ser tão desejado, o maior direito do homem, o direito a dispor do fim,
Para uma nova angústia urgir,
Pois se não há fim da Consciência,
Haverá o fim merecido da angústia?
Pois se esta pode cessar porque morre a mente na morte do corpo, pode, afinal de contas, expirar a busca?
Não terei eu o direito de não buscar,
De não transpor, de não acolher a Totalidade,
Porque quero ser Eu para a eternidade,
Mas sendo Eu e estando na busca,
Já começo a ser o Outro e o Infinito,
Que cessará a minha consciência,
E com essa cessação, findará a minha busca, mas nem cheguei ao consolo do Eu, porque quando o encontrei já Eu não era, daí que nada tenha encontrado, para o ter feito era preciso ser Eu, para ter de facto encontrado já não podia ser Eu, já não podia desejar sequer, quando este ‘Eu’ que escreve tem desejos e vislumbres, mas se o Todo é o não desejo, como desejar o não desejo, sendo o Eu a desejar nada ser, condição da impossibilidade de ser Todo querendo sê-lo, e lá continua a angústia da busca imbecil, filosofia da doença, fisiologia da filosofia da doença que é fisiopatologia da filosofia,
Vou medicar esta doença
Calar o fogo ruminativo
Quando não ruminar é condição de não crescer, e não crescer é condição de eternidade na carne, mas ruminar é condição fisiológica, necessidade de um Ego cujo transtorno requer superação e a superação reitera crescimento e o crescimento demanda transtorno,
O Ego a precisar de si mesmo para não o Ser
Nada Ser em separado, o Todo a requerer o Todo,
O Todo a ordenar a superação da Parte,
E este superar a ter o requerimento da Parte,
Como atingir a via final do Não Ser desligando a determinação do Ser que deseja, e porque deseja É, e porque É não pode SER? Somente pelo Livre-arbítrio poderíamos explicar o afetar de uma Liberdade que nem sequer existia e até precisava de existir para o Livre-arbítrio assomar.
E o sufoco de não saber explicar a Liberdade, porque ser Livre é já não requerer Deuses, porque aí somos nós os Deuses, mas o caminho é feito sob o repto dos Deuses, os que não somos mas queremos ser, os que criaram o Arché que somos, o Arché que limita a Liberdade,
O Arché que condiciona o próprio mérito,
E, portanto, condiciona a própria ambição, a própria possibilidade de evoluir (ou uma não ambição e/ou o desejo de ser Eu, condição saturnina a trazer o prazer e este a ser tentação só ultrapassável pela existência da dor).
Com o Mal a ser a única garantia de crescimento, quando este é o mal próprio – o sofrimento – e não o mal do Outro. Com o Mal a ser a única garantia de ser o Outro, porque o desejo de o Inferno abandonar reside somente no desejo de não sofrer, e é por isso que toda a Espiritualidade se resume a um Eu que pretende a salvação, uma Bem-aventurança que o Eu não percebeu já não ser Vida, não ser Eu, não ser Autoconsciência. É portanto o Mal que leva ao Espírito. E não o ‘bem’, pois se este existisse perpetuamente nunca auguraríamos abandonar o Ego, porque a via Crística que há em nós é pura determinação egóica, porque o Deus que estamos destinados a ser só pode ser obtido quando queremos ser Eros (mas um Eros afrodítico, terreno). Porque a Ética é ilusão e tudo é fuga do Eu que sofre, do Eu que se dissolve, e escrevo isto neste desejo de que tamanha ruminação nunca tivesse ocorrido, nesta perfeita certeza de que o diabólico é condição do simbólico, de que o demoníaco é condição da Perpetuidade, muito mais do que mera contraparte do Espírito, e por estas e por outras, as religiões se voltam a aproximar, temos o desejado “religare”, com tudo a ser pó, tudo a ser partículas, o Divino a igualar o Caos quântico, e o Caos quântico a ser feito das múltiplas e caóticas ordens terrenas (falsos absolutos, ilusões de permanência), e o Caos final a ser nutrido pelo combustível demoníaco, para concluirmos, no fim, que tudo isto é o mesmo, e que o único diabolismo é o conjunto das etiquetas, por que tudo é a mesmidade, tudo é Uno, tudo é:… .. .

(Publicado na revista literária «Sítio»)

sábado, abril 20, 2013

O novo livro («O corpo e o Nada») disponível em Maio!!



O novo trabalho, resultante do meu contacto com o mundo da Espiritualidade esotérica e a Sabedoria perene. Uma reactualização da Filosofia do Corpo-Espírito no tempo da pós-modernidade. Uma introdução sintética ao mundo do 'Espírito' na dupla visão espiritualista e materialista, incluindo as temáticas cabalística, hermética, platónica, mitológica, alquímica e também o esoterismo milenar/oriental e o judaico-cristão, assim como a Teosofia. É, mais uma vez, um cômputo de artigos que interagem entre si com vista a uma lógica... que é a de partilhar algumas das minhas reflexões primárias subjacentes ao mundo da Filosofia da Espiritualidade. Este livro vai estar disponível até ao mês de Maio!! Abraço!

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Evidências...

Os novos terapeutas pretendem reduzir a Fisioterapia à Evidência científica. Esquecem-se que a Evidência fisioterapêutica, baseada fortemente em estudos de carácter estatístico, refere-se a médias e a Tendências (grupais) e alude a variáveis funcionais quase sempre relativas ao “aqui e agora”. Que tem esta Evidência a dizer sobre as variáveis estruturais do “longo prazo” e do doente visto na sua História (fundamental de se compreender num sentido evolutivo, para que também o Raciocínio Clínico e o Plano de Tratamento possuam o mesmo género de lógica evolutiva)? O Doente constitui um complexo Universo Singular, incluso de um conjunto avultadíssimo de variáveis que interagem entre si numa complexa dialética, e com elas a interagirem com o ambiente externo (e o terapeuta a fazer parte da secção mais íntima deste ambiente supostamente exterior). Parece-me que uma Fisioterapia centrada no Doente é mais do que Ciência ou Tecnologia, passa sobretudo por descobrir algo sobre o Universo particular do Doente e a forma como este interage com um Universo mais perene que o transcende. Em última instância, é a perenidade que interessa e esta obriga à capacidade de fazer parar o tempo. O fisioterapeuta do futuro não pode ser o fisioterapeuta tecnológico, mas sim aquele que, à semelhança dos antigos e dos xamãs, souber fazer parar o tempo, o tempo íntimo do encontro com o doente que já não é um “outro”, mas sim uma extensão do Eu.

domingo, fevereiro 10, 2013

Desabafo niilista

«No Princípio [Arché] era o Verbo [Logos].» E o Logos, que, numa escala de olhar permutável, se perspetiva no livro de instruções do Demiurgo, passou a reiterar o comando tiranizado dos homens. Dupla tirania: os homens estão condenados a serem o que são, os homens estão condenados a serem livres; os homens são jograis de uma subjetividade que lhes foi imposta, os homens são jograis da ilusão de que essa subjetividade nasce de si-mesmos e é controlado por si-mesmos; os homens são determinados e estão determinados a serem livres, ou a pensarem que o são. Dupla determinação: determinação eidética e determinação subjetiva; determinação de facto e determinação para a ilusão da liberdade. A determinação é uma condição necessária da matéria, mas como cada ser se traveste do seu próprio jogo de fatalidade, o que resulta é um tumulto, uma batalha de linguagens e de modelos, que leva a matéria determinada a ter o aspeto de um caos de acontecimentos jamais suscetíveis de determinação. Daí que o determinismo demiúrgico passe a transmutar-se num cenário de múltiplas possibilidades, com todas estas a assumirem uma forma de relativismo, que morre na perspetiva de um controle automatizado e superinteligente do conjunto quase imenso, mas não infinito, de potencialidades. O humano concreto só pode ambicionar o escalar de uma pirâmide de consciência, mas não pode, mesmo assim, ambicionar a liberdade, somente a ilusão dessa liberdade, para que, escalando no patamar da consciência, possa ir aumentando a sua sensação de uma falsa liberdade, falsa porque se sente uma coisa que não o é e só pode sê-lo no abandono do corpo, falsa porque o abandono do corpo, o tornar-se Deus, é igualmente ilusório, e advém da quimera esotérica, que é a ilusão de que há, no fim, uma maneira de sermos livres, quando o esforço para tal é já por si condicionado, de um condicionamento que advém da insegurança, de uma falha narcísica que não pode jamais ser preenchida.
Não obstante, escrevo nesta sempre certa certeza de que o passado tornou este ato de escrita necessário e obrigatório, tal como o pensamento que se enrola de se tentar libertar da mesma grilheta que o leva a se tentar libertar.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Sobre a crise (e emergência) da Fisioterapia em Portugal

No seio do paradigma económico-político atual, em que a entrada na Pós-modernidade das meta-narrativas – em que todos os “ismos”, certezas e latitudes terão sido derradeiramente desconstruídos – persiste em ser adiada pela afirmação da crueza de um “neoliberalismo de mercado” contumaz, a discussão em torno do futuro do Serviço Nacional de Saúde (SNS), assim como dos Subsistemas por muitos considerados “alternativos”, volta a marcar forçosamente a linha de um horizonte sentido como “de todos” e “para todos”; este mesmo horizonte é incluso de um tecido de profissões de saúde, nas quais, não obstante as nem sempre afirmativas representações sociais dos portugueses, a Fisioterapia e o Fisioterapeuta representam um papel fulcral e até inexpugnável. Daí que o desconhecimento nacional relativamente à situação algo dramática que os fisioterapeutas portugueses estão a viver presentemente só pode ser considerado como um pressuposto de uma atitude social acrítica, por parte de um tecido social que, direta e indiretamente, poderá vir a pagar uma fatura cara por tal nesciência. Este texto pretende, obviamente, contrapor a tal, contribuindo para dar uma visão, necessariamente sintética, mas nimiamente inclusiva, daquilo que é a Fisioterapia que se pratica em Portugal e de um drama que persiste, e que assim persistindo, contribuirá para agravar (ainda mais) o “bem-estar” dos cidadãos.
Importa, antes, reafirmar aquilo que todos já sabem mas que poucos reconhecem: a fatalidade alusiva ao que somos e ao que sentimos (algo que intitulo por “determinação subjetiva”) não pode deixar de determinar a posição que qualquer cidadão ou profissional prefere considerar como “racional”, mas que, na verdade, é sempre o desiderato de uma complexa teia de sensações, conjeturas, sentimentos, crenças, entre tantos outros poluidores daquilo que deveria ser apresentado como Uno e permanente; daí que, querendo eu evitar tal subjetividade, combustível para mais um rol de discussões intermináveis que acabam por colocar os próprios agentes da mesma profissão numa turba de contradições e aporias, mas não podendo nem devendo eu fazer uma qualquer projeção da minha pessoa como Ente objetivo e absoluto (até porque estaria, mais uma vez, a cair no mesmo tipo de ilusão de suposta “racionalidade” a que já aludi), tentarei, dentro do possível, apresentar uma visão realista e inclusiva, se bem que dificilmente desapaixonada ou descomprometida.
A maioria dos portugueses já terá, decerto, tido algum tipo de experiência “fisioterapêutica” numa qualquer Clínica das muitas que (ainda) por aí abundam. Mas é provável que só alguns desses cidadãos se tenham dado ao trabalho de comparar a qualidade dos seus tratamentos com o tipo de subsistema com que são servidos ou com o tipo de subsistemas com que a Clínica em questão se apresenta comprometida. O caso paradigmático de uma Clínica com acordo com o SNS é flagrante, pois é precisamente neste tipo de clínicas que é mais provável o doente ser tratado em conjunto com mais quatro, cinco ou mais doentes, por um terapeuta logicamente fatigado e muitas vezes limitado nas suas capacidades de avaliação, decisão e tratamento. O número de doentes é quase sempre excessivo – a intervenção é, de facto, massificada (o que chega a fazer com que o fisioterapeuta apareça travestido numa espécie de “educador físico”, “sargento de exercícios”) – e este número é função do preço dos doentes, com este preço a ser, por si, função das prescrições de tratamento que lhes são impregnadas, com estas a possuírem mais ou menos valor dependendo do “valor” do seguro ou subsistema com que o utente se apresenta. O utente possui, de facto, um valor, e é muito comum o fisioterapeuta ser “instruído” para dar uma qualidade diferenciável aos doentes, presumindo-se sempre que o doente do SNS terá direito a “menos tempo” que o doente do seguro (e dentro dos seguros, tudo dependerá do tipo de seguro). Ora, a problemática do “valor” do utente não é independente da problemática das prescrições fisiátricas…
Apesar de a Fisioterapia constituir um território epistemológica e profissionalmente autónomo da Medicina, a maioria dos sistemas de saúde requer a existência de um fisiatra prescritor, com este a “criar” prescrições terapêuticas (limitadas pelos estatutos próprios de cada sistema) cujo tipo e número decidirão o já referido “valor” do doente. A situação é risível até porque, não podendo o doente deixar de constituir um “Todo”, com a óbvia limitação da sua divisão em peças (já muito falei disto no livro «Corpo e Pós-modernidade», 2012), a prescrição de tratamento para uma área do corpo apela a uma quase “amputação” do utente dos cuidados, agravada ainda mais pelo facto de ser “decidida” ou “prescrita” por um agente que não é aquele que participa diariamente na complexa e sempre metamórfica realidade fenomenológica do corpo do doente. Pois que a Fisioterapia possui uma natureza epistemológica muito diferente da Medicina científica, e, não obstante constituir igualmente um território científico, a sua essência prática não pode deixar de se conceber nos termos de uma Arte (baseada na Observação contínua tornada práxis, no Raciocínio Clínico ininterruptamente perpetrado, na avaliação e ajuste constante de um corpo em permanente metamorfose, na vivência de uma intimidade de intercorporeidade em que o corpo do doente se torna uma extensão do corpo do terapeuta)! Limitar esta riqueza quase Humanista em que o ‘físico’ se torna ‘motor’ e este ‘psicomotor’, o corpo se transtorna em Soma e Motricidade e estes em Psicossomático e Psicomotricidade, o Corpo-ação renasce Corpo-intenção e este renasce Corpo-representação, o “corpus” moderno/performativo/denotativo do “homo faber” se transmuta no “corpus” pós-moderno/reflexivo-simbólico/narrativo do “homo sapiens”, e o ‘biomédico’ se transmuta em ‘biopsicossocial’ e este em ‘sócio-psico-neuro-músculo-esquelético’, a um conjunto de códigos prescritivos ou a um conjunto de indicações mais ou menos quantificáveis é, no mínimo, curto-circuitar a realidade.
Claro que a massificação dos doentes é menos a consequência da vontade do fisiatra deífico do que do fraco valor das já citadas prescrições. E é precisamente o desvalor do doente que obriga tanto à sua massificação como à suposta utilização de profissionais “mais baratos”, os técnicos auxiliares de Fisioterapia, que, não obstante não poderem legalmente praticar Fisioterapia, abundam nas clínicas já aludidas (o que faz com que, muitas vezes, o tal “fisioterapeuta” que tratou o nosso vizinho ou familiar não seja de facto um fisioterapeuta). Entretanto, a questão dos citados técnicos parece vir a resolver-se de forma automática pelo próprio Sistema: precisavam de existir até há uns anos atrás, mas neste nosso presente em que os fisioterapeutas persistem em ser “multiplicados” exponencialmente pelas quase duas dezenas de instituições de ensino (com muitas a terem sido criadas sem controlo ou pudor, com um tipo de cinismo mercantil muito condenável numa matéria tão “sagrada” quanto a do Ensino Superior), a crescente desvalorização profissional/financeira do terapeuta leva a que possam ser utilizados sem grandes “dificuldades”, se bem que para “obedecerem” a uma Entidade que muitas vezes reconhecem como tendo um poder absoluto (poucos terapeutas arriscariam o seu emprego tentando negociar as já citadas prescrições, o número de doentes ou o prestígio da intervenção utilizada…); daí que a existência de perto de dez mil profissionais só pode significar o desemprego (na verdade, genuinamente pandémico) ou o emprego precário; por outro lado, a pressa de “arranjar emprego” facilita a aceitação das mais desprestigiantes propostas, e o facto de existir tal aceitação vai, por sua vez, facilitar ainda mais o “abaixar da fasquia” da qualidade dos empregos; por sua vez, o facto de os terapeutas ganharem menos irá levar a que estes não possam suprir as suas necessidades de formação, o que leva automaticamente a uma redução da qualidade dos serviços, o que, para muitas entidades patronais, não é necessariamente grave, pois que a quantidade de doentes, tratados apenas com recurso a métodos pobres e técnicas anti-sintomáticas (técnicas que, mais uma vez, persistem em dividir o doente-Pessoa em fragmentos, estilhaços desgovernados), é aquilo que parece importar.
Esta situação leva a que, consequentemente, a maior riqueza de métodos e paradigmas da Fisioterapia, aquela que é a verdadeira Fisioterapia, fique reservada aos doentes que possuem capacidade financeira para recorrer ao sistema Privado, o que reduz as perspetivas de (re)conhecimento público das nossas possibilidades/potencialidades. Este mesmo meio Privado promete, de algum modo, vir a crescer, até porque, como sabemos, apesar de o valor das já citadas prescrições fisioterapêuticas se manter o mesmo em termos de “lucro para a Instituição”, a parte que cabe ao pagamento por parte do próprio doente tende a aumentar cada vez mais; daí que a tendência é para se falar cada vez menos do utente dos serviços de saúde, substituindo-se muitas vezes este conceito pelo malogrado termo de “cliente” (em breve, o próprio SNS será constituído por “clientes”, e esse mesmo SNS tornar-se-á melhor, não por imposição do Estado, mas por imposição do cliente pagador); claro que o crescimento do “Privado” tem de ser relativizado, não seja vero o facto de, após inúmeras sessões de calores, pedaleiras ou maquinismos inúteis (feitos não se sabe muito bem por quem), o tal cliente pagador, pensando que a Fisioterapia se resume a tais fracas experiências, prefere simplesmente mudar de “paradigma” (quando não passa a multiplicar-se num rol de reviravoltas de “opiniões profissionais” e multi-perspetivas que o alienam progressivamente da realidade da sua condição), passando a recorrer a certas “alternativas” “não convencionais”, que, não obstante a sua inalienável importância, seriam decerto mais sérias e aceitáveis se cortassem na dose de misticismo e no alimento placebetário.
Nos termos das soluções propostas pelos próprios fisioterapeutas para que a situação apresentada possa “mudar”, podemos identificar o mesmo tipo de divisão que se encontra tradicionalmente na economia política:
- A solução protecionista: assenta no conjunto das leis, estatutos, regras que a Classe, e a sua ainda não fatível mas desejada Ordem, pode e deve impor para estruturar as práticas (estigmatizando as pseudo-práticas de pseudoprofissionais, assim como as tentativas de diminuir a autonomia da profissão já prevista pela Lei), um mínimo de remuneração, e um conjunto de padrões éticos pelos quais os terapeutas terão de se respeitar (a si-mesmos e aos doentes) nos adequados termos de uma cortesia profissional. Trata-se, de algum modo, de uma solução mais coletivista, que, na perspetiva de alguns, diminui a liberdade individual ou não se adequa ao contexto liberal em que vivemos ou a um país onde as leis se fizeram para não ser cumpridas.
- A solução liberal: assenta no esforço individual do próprio profissional, na tentativa de, enquanto representante da profissão, aumentar o seu prestígio e representação social (incluindo a atitude de contraposição às situações e contextos que desprestigiam financeira e institucionalmente a Fisioterapia). Obrigando ao mérito e à responsabilidade individual, desejado decerto por quem o tem e muito particularmente pelas empresas de formação profissional e pós-graduada que pretendem ganhar no esforço de contribuírem para que o próprio terapeuta se torne um ganhador, é visto por alguns como criador de um estado de crua e pouco cortês competitividade inter-pares.
Logicamente, a solução liberal é fundamental no sentido em que o esforço individual é imprescindível para que o profissional possa autonomizar-se e, sobretudo, aprofundar-se e especializar-se (por sua vez, condições da autonomização); a ausência desse esforço mataria a parte mais nobre e bela da Fisioterapia, precisamente a mesma que não tende a ser do amplo conhecimento dos cidadãos. O que significa que, de certo modo, é inútil apelar à responsabilidade de/da Classe, sem que a própria Fisioterapia melhore intrinsecamente a sua qualidade… (o que, ainda assim, não garante a melhoria da “condição profissional” do terapeuta dentro da instituição – razão da até compreensível inércia de muitos colegas – mas cria um nível de consciencialização no profissional capaz de produzir neste um aumentado estado de desconforto ou “dissonância cognitiva”). Por outro lado, o esforço individual não coíbe a criação e estruturação de alguns princípios regulamentadores fundamentais (porventura uma solução organizacional que compromete pessoalmente menos o terapeuta dentro da organização que o “vitimiza”), sem os quais o “cada um por si” matará decididamente o “contrato social” em que ancora a noção da profissão.
Uma possível solução “compatibilista” e sustentável merece ser pensada e, logicamente, ajustada à Realidade. Muitos passos estão já a ser dados, muito particularmente por parte da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas e também por parte de outros projetos recentes como o grupo facebookiano Fisioterapeuta.PT (https://www.facebook.com/#!/groups/Fisioterapeuta.PT/), grupo criado na senda da intensa polémica e partilha do artigo «Enfermagem de reabilitação e Fisioterapia (…)» publicado pelo Expresso.pt, e do Diretório Nacional de Fisioterapeutas – www.fisioterapeutas.pt (que pretende ser dirigido aos cidadãos/utentes), mas é obviamente indubitável a importância do esforço Singular. Não posso todavia fazer qualquer tipo de apologia mais concreta; já basta que a lógica das predileções e dos paradigmas seja marcada pela fatalidade da preferência individual… não seja o homem, singular ou coletivo, prenhe de relatividade.
 

domingo, fevereiro 03, 2013

O alinhamento postural/articular como fator de previsão da saúde articular: Modelo reeducativo de intervenção em Fisioterapia

Partindo do pressuposto fundamental da Teoria das Cadeias Musculares1, paradigma de Fisioterapia reeducativa, de que é a “forma que regula a função” e de que a biomecânica é função das características posturais e de alinhamento articular, é racional presumir que o alinhamento articular é fator condicionante do desenvolvimento de patologia degenerativa (por exemplo, segundo a meta-análise de Tanamas et al.2, o alinhamento da articulação do joelho em valgo ou em varo, constitui variável independente para o desenvolvimento de artrose da articulação do joelho). O facto tem implicações determinantes para a prática da Fisioterapia, com uma intervenção do tipo “radical” (ou causativa) a ter de incluir o manuseamento das características de alinhamento articular, sem o qual, na perspetiva de Coelho3, o movimento articular poderá significar um nível de atrito aumentado e potencialmente implicativo de processos inflamatórios, e o treino de força muscular poderá implicar um aumento no conjunto prévio de desequilíbrios musculares.
Assim sendo, a lógica da Fisioterapia deverá ser essencialmente global, requerente de um trabalho, que, inclusivo dos métodos de Reeducação Postural3, 4, 5, sugere o seguinte esquema3: Relaxamento/Alongamento » Mobilidade acessória (Terapia Manual) » Mobilidade grosseira/funcional » Força (ou Resistência muscular), com o alongamento miofascial associado às terapias manipulativas a melhorar o alinhamento postural/articular e a anteceder o exercício dinâmico.
Seguindo a lógica prévia, Bernard Bricot6 sugere um conjunto de influências posturais ascendentes com origem no pé: pé varo = joelho varo, rotação externa da anca, inclinação posterior da bacia e diminuição das curvaturas vertebrais; pé valgo = joelho valgo, rotação interna da anca, inclinação anterior da bacia e aumento das curvaturas vertebrais; o que sugere uma intervenção reeducativa com igual origem no pé, seja a nível miofascial (ex. alongamento da fáscia plantar do pé), seja a nível neurológico (ex. utilização de palmilhas de integração sensitiva 6).
Por outro lado, a influência miofascial tende a ser advogada pela Teoria das Cadeias Musculares, assumindo que o joelho valgo (que é uma deformidade que aproxima as superfícies externas da articulação, dando a impressão de a rótula se encontrar internalizada) se associa frequentemente a um encurtamento dos adutores pubianos (músculos internos da coxa) e/ou da banda íleo-tibial (músculos externos da coxa) e o joelho varo (contrário ao do descrito no joelho valgo) se associa frequentemente ao encurtamento da banda íleo-tibial, com a intervenção a requerer uma prévia correção destes alinhamentos com a potencialidade da reunião de alongamento simultâneo à correção da “deformidade” por Terapia Manual.
No caso das curvaturas vertebrais, a Teoria das Cadeias Musculares concebe, por exemplo, que uma hiperlordose ou aumento da curvatura lombar (possíveis causas: encurtamento da musculatura lombar e/ou do diafragma e/ou do psoas) tende a estar associada a uma hiperlordose ou aumento da curvatura cervical, com possíveis consequências degenerativas para as zonas de transição da coluna (a nível inferior, pode implicar o desgaste da articulação da anca), com a cifose ou curvatura dorsal aumentada (e a sugerir um aumento do risco de conflito sub-acromial e/ou degeneração da articulação do ombro) por mera aparência ou por associação a outros fatores (como por exemplo o encurtamento das cadeias musculares ântero-internas, particularmente o músculo pequeno peitoral), o que explica o tripé de tratamento de Mézières de deslordose da coluna + desrotação dos membros + expiração (pelo facto de as deformidades significarem, pelo menos teoricamente, um misto sinérgico de aumento das curvaturas da coluna, rotação interna dos membros e bloqueio diafragmático em inspiração) 1, 3, 4, 5. Se bem que diferentes métodos de Reeducação Postural impliquem diferentes visões interventivas 3, com uma lógica de trabalho mais “ascendente” ou mais “descendente” 7, há também a possibilidade de um trabalho feito da periferia para a zona sintomática, com o exemplo de uma problemática cervical implicar um trabalho prévio no quadrante inferior + deslordose lombar, só depois seguido da mobilidade dorsal e da intervenção cervical propriamente dita, ou de uma diminuição das curvaturas vertebrais cervical e lombar a implicar o treino de posturas de deslordose dorsal.
Apesar de ser encarado muitas vezes como pré-científico, o modelo reeducativo pode ser visto como racional, a conceber uma intervenção em Fisioterapia Reumatológica também ela de uma racionalidade que transpõe a lógica dominantemente observada (que tende a corresponder sobretudo ao mero tratamento dos sintomas).
Por outro lado, não deve entender-se, a partir do que fica dito, que se presume que uma intervenção deve seguir regras prescritas, até porque, mais do que advogar uma intervenção do tipo “Prática Baseada na Evidência”, prefiro bastante mais uma Prática Baseada no Raciocínio Clínico, com este último a ser tão moldável quanto a condição igualmente mutável e continuamente metamórfica da unidade fenomenológica e irrepetível do doente.
Dentro do mesmo espírito fenomenológico, devemos também considerar que a idiossincrasia postural e de alinhamento articular passa por desempenhar o papel de preditivo tanto da saúde articular quanto do rendimento do atleta, o que, se, de algum modo, nos leva a pensar que há corpos naturalmente mais “preparados” para uma prática física com menos restrições, também nos leva a assumir que o trabalho de alongamento é, sobretudo para os atletas que não possuem corpos tão “posturalmente preparados”, condicionante de uma prática com menos riscos de desgaste articular (em última análise, diferentes posturas poderiam significar diferentes “prescrições” desportivas e/ou de atividade física, o que não implica que haja atividades normalmente mais ou menos agressivas do que outras).
                                       
Referências bibliográficas

1.      Mézières F. La révolution en gymnastique orthopédique. Paris: Vuibert, 1949.
2.      Tanamas S, Hanna F, Cicuttini F, Wluka A, Berry P, Urquhart D. Does knee malalignment increase the risk of development and progression of knee osteoarthritis? A systematic review. Arthritis & Rheumatism (Arthritis Care & Research) 2009;61;4:459-467.
3.      Coelho L. O anti-fitness ou o manifesto anti-desportivo. Introdução ao conceito de reeducação postural. Quinta do Conde: Editora Contra-Margem, 2008.
4.      Coelho L. Mézières’ method and muscular chains’ theory: From postural re-education’s physiotherapy to anti-fitness concept. Acta Reumatológica Portuguesa 2010;35:273-274.
5.      Nisand M. La méthode Mézières: un concept révolutionnaire. Paris: Éditions Josette Lyon, 2006.
6.      Bricot B. Posturologia (3ª edição). São Paulo: Ícone Editora, 2004 (edição brasileira).
7.      Bienfait M. Os desequilíbrios estáticos: fisiologia, patologia e tratamento fisioterápico. São Paulo: Summus editora, 1995.

(Publicado na revista 'Fisio' da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas)

segunda-feira, janeiro 21, 2013

O corpo da esfinge: O argumento materialista perante o Espiritualismo

O desígnio das matemáticas sagradas e do número pitagórico não pode deixar de residir na sua componente demiúrgica, atestada daquela sagacidade logóica que os antigos panteístas e os atuais esotéricos atribuem aos devas, que os cristãos literalistas e atuais exotéricos atribuem aos demónios e que os materialistas reduzem à lógica, à linguagem e aos sistemas analíticos. A tentação de representar o Universo por meio de uma sonoridade matemática, que patenteie a Ordem Universal mediante a sua dimensionalidade mágica e criativamente imaginativa, é provavelmente tão grande quanto o desafio científico que o materialista tem de circunscrever matematicamente a Ordem cósmica a um conjunto de leis que pretendem traduzir as instruções que veiculam o funcionamento do Todo, ou daquela parte do Todo que podemos conceber como estável. Mas se a primeira tentação se perfaz de uma certa magicidade, quiçá superstição própria de iludidos sonhadores, a segunda constitui o retrato do mundo “aceitável”, daquele que a modernidade acalenta na sua “normalidade” um tanto baudelairianamente inebriante. Assim sendo, talvez prefira iniciar o caminho que proponho pela via da Testemunha, perfeito de um tipo de embriagação vertical com início num pináculo assaz inseguro de transcendência.
E já que apelamos ao veículo da Transcendência, e associando-lhe a noção de números mágicos de Pitágoras, é forçoso iniciar a viagem pela inevitabilidade da Trindade, desse ternário que tudo ladeia, premeia e enforma. Pois que o número “três” constitui, de facto, a fórmula logóica fundacional do Cosmos – na sua dupla essência de Uno e Diverso, Inteligível e Sensível, Espiritual e Material – pois que tanto traduz a Trindade Divina de Pai, Filho e Espírito Santo (que corresponde, como sabemos, à Trindade Âtman, Budhi e Manas do Sanãtana Dharma, o Hinduísmo primitivo, e também da Teosofia blavatskiana), como corresponde ao número das idades do devir da materialidade humana. O número “três” a parecer “fazer sentido” na dupla dimensão do Eterno Estrutural – considerado como a única realidade verdadeira pelos espiritualistas – e do Efémero Devir – considerado pelos mesmos espiritualistas como ilusão, quimera a pressupor a necessidade de um processo evolutivo de desvelamento desencarnador.
No plano deste citado Devir, constituído por um processo inalienavelmente dialético a contrapor dinamicamente os dois pólos de uma dualidade Expansão vs. Retração (à semelhança do que aparece figurado na árvore sefirótica da Cabala judaica), o “três” denuncia o número de idades do homem, a referir:
1ª Idade: a infância – o tempo em que o homem/Homem depende, de forma mais premente, dos pais/Deuses, com estes a constituírem o conjunto das leis prescritivas do funcionamento do mundo e dos códigos explicativos da realidade. Para o homem, é, em termos piagetianos, um período de operações psicomotoras e concretas, em que a Imaginação e o Simbólico aparecem ainda fortemente entrosados numa realidade percebida como literal. Já para o Homem, caracteriza-se por uma fase de forte crença nas estruturas do Sagrado, premiada pela compreensão muitas vezes carnalizada do mito, com este a ser vivenciado por meio de ritos que podem atingir o zénite sacrificial. Em certas culturas, e mais uma vez à semelhança da criança, o Homem pode vir a enaltecer o questionamento – essa mítica idade dos porquês – com consequências igualmente do foro do Sagrado, mas vividas no contexto de uma profundidade que não remete necessariamente para uma concretude idólatra e até destruidoramente dogmática (se bem que o mito pode, de qualquer modo, fazer-se notar por ritos que não são de menor importância do que aqueles que caracterizam as religiões exotéricas).
2ª Idade: a adolescência/idade adulta – o tempo de desdeificação, desmitificação, desmistificação, seguido do abraçar de uma concretização materialista, quase sempre de um tipo de cientificidade positivista, capaz de ser representada pela abstração da linguagem matemática. Para o homem, é, piagetianamente falando, um período fértil de abstração, e freudianamente nos referindo, um período de diferenciação heterossexual; os pais deixam de ser concebidos como deuses, perdem autoridade perante o jugo de uma autonomização que se faz pela via da materialidade científica, terreno aliás fértil para o exercício de um contra-moralismo, porque, sendo profano e não possuindo, à partida, cor ético-moral (porque o paradigma da Performatividade que veicula o exercício da investigação é isento de intenção teleológica ou de construção metafísica), satisfaz os novos códigos de desconstrução secular. Para o Homem, é indubitavelmente a fase em que vivemos atualmente, essencialmente laica e dessacralizada, com a ciência de mote positivo a conceber-se ainda como paradigma dominante, sem orientação ética, numa relação de plena simbiose com o capitalismo e a Técnica, e metafisicamente de domínio essencialmente determinista. É, de facto, a fase do desenvolvimento em que o paradigma laplaciano de renúncia aos Deuses é tomado à letra, com a fé a ser substituída por um tipo de racionalidade científica, platonicamente “Dianóica”, se bem que a emancipação do Divino é explicado menos pela prescrição de um (novo) Logos científico-materialista (que, de resto, não implicaria o desaparecimento do Divino) do que pela criação de um novo tipo de embriagação “salvadora” ou, no mínimo, com poder de distratibilidade egomaníaca (e daí a conotação marxista da religião e do Capital com o ópio).
3ª Idade: a maturidade – o tempo da desconstrução das certezas científicas, a verdadeira Pós-modernidade de reacção à fase anterior (moderna) e de possível reassunção da Espiritualidade. Para o homem, é o tempo da perda derradeira das ilusões científicas, o período de aceitação de uma incerteza permanente, reificada pelo estiolar de todas as garantias, se bem que não tenha esta fase de ser conotada com um qualquer tipo de fragilização, mas antes com a verdadeira e cabal Sabedoria. Para o Homem, a fase Pós-moderna, preludiada por certos pré-requisitos epistemológicos relativos sobretudo à ingenuidade do Realismo e à importancionalização da subjetividade e da intencionalidade, dá ênfase ao indeterminismo, seja de um tipo absoluto (correspondente, portanto, ao livre-arbítrio), seja de um tipo virtual (correspondente à mera incapacidade de determinação), paralelo à aceitação de um conjunto avultado de hipóteses argumentativas, num número eventualmente infinito, ou, no mínimo, indeterminado.
No ponto de vista do estruturalismo de Foucault, a primeira idade trata de uma arqueologia do saber, pois que a essência do Sagrado ancora sempre no intemporal, e somente com a idade moderna – correspondente ao início da modernidade liberal – se põe a História humana em verdadeira e perfídica marcha. O que, em última análise, aproxima a Sacralidade dos homens da intemporalidade do absoluto Divino… Passe-se a lógica das analogias!…
A coerência analógica é o ponto de partida fulcral para o termo a que pretendo chegar, pois, assim como existe um paralelismo entre o pequeno homem e o grande Homem – semelhante, não necessariamente correspondente, ao da ontogénese com o da filogénese – existe, igualmente, um paralelismo entre a realidade microcósmica (entendida como humana) e a realidade macrocósmica (entendida como divina), o teísta “assim na terra como no céu”, entendido precocemente pelo Hermetismo de “O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima” (Lei da Correspondência).
Penso que tanto o paradigma espiritualista como o paradigma materialista concordam que a analogia microscópico – macroscópico é derradeiramente real. Aquilo em que se diferenciam é na ordem de importância ou dependência dessa mesma sequência analógica: o modelo espiritualista coloca as origens no eterno, no céu etéreo ou no interior objetivo, e entende a materialidade como o resultado – desejado ou indesejado – de uma “queda” na substância, sendo que a vida material humana somente reproduz turvamente a imagem das Essências; o modelo materialista coloca a base explicativa de todas as realidades na sua matriz corpuscular, entendendo a realidade espiritual como mero exercício imaginativo, em que a essência do Divino é construída pelo e à imagem do H/homem. Trata-se, portanto, de saber se é o Superior/Deuses que constrói o Inferior/H/homem à sua imagem ou se é o Inferior/H/homem que constrói o Superior/Deuses à sua imagem.
Um dos argumentos fundamentais dos Espiritualistas para justificar as origens na base do deífico ou do demiúrgico (Superior > Inferior) consta da grande semelhança arquetípica, no sentido dos construtos mítico, divino e ritualístico, existente entre as diferentes religiões, sobretudo entre aquelas que, pela grande distância e separatividade geográfica, não poderiam ter sido culturalmente “miscigenadas”. Assim o facto de existirem certas semelhanças entre religiões de continentes diferentes poderia ser explicado pela essência da revelação divina ou, no mínimo, da revelação demiúrgica (no plano teosófico, o demiurgo pode ser entendido, de algum modo, como a sucessão de entidades ou raças anteriores à raça humana). Neste contexto, o mito, que na Era cristã é entendido sobretudo como mera alegoria, poderia consubstanciar uma realidade literal.
Ora, não pode o materialista deixar de ver nesta construção uma semelhança com o literalismo propugnado pelo (mais ingénuo) Cristianismo exotérico, o erro de se interpretar em termos divinos a matéria do Inconsciente Coletivo, a qual poderá ser explicada integralmente pela via da substancialidade material. Para o materialista, o simples facto de os diferentes homens de geografias muito distantes entre si possuírem corpos basilarmente iguais (porque são da mesma espécie, mesmo que de raças diferentes) justifica a construção de estruturas arquetípicas semelhantes, pois que cérebros semelhantes (com estruturas psicanalíticas e neuropsicológicas comparáveis) e relações semelháveis desses corpos/cérebros com o meio justificariam a efetuação de (também) semelhantes processos de projeção psicológica, com estes a constituírem a projeção da realidade psicanalítica (que inclui, como sabemos, um conjunto muito avultado de processos meta-narrativos, como os sonhos e restantes realidades simbólicas) ou das capacidades neuropsicológicas (que, na verdade, têm muito de Universal) na realidade do meio, da cultura e da sociedade (com todos estes, claro, a influenciarem-se reciprocamente, e a evoluírem muitas vezes de formas bastante diversificadas, com o meio geográfico e até as condições meteorológicas e geológicas a contribuírem para certas divergências culturais e, portanto, religiosas). O inconsciente cognitivo passaria, segundo esta perspetiva, a conceber-se como consciência coletiva, e o mito passaria a ser herdado por um processo cultural de difusão oral.
Ainda segundo a perspetiva materialista, e querendo, de algum modo, reduzi-la ainda mais (pois que, para muitos, o que se apresenta já enforma de um valente reducionismo), poderíamos dizer que o Inconsciente coletivo poderia ter sido iniciado no inconsciente individual, tornado coletivo (e aqui já seria consciente) por um mecanismo de difusão cultural provavelmente associado a certas formas de liderança ou de prolixidade personalística. E é precisamente neste ponto em que nos deparamos mais uma vez com a perspetiva cíclica das três idades humanas, que tanto podem ser do pequeno homem, como do grande Homem, com a potencialidade de se poder estender num conjunto de ciclos repetidos incessantemente na História do grande Homem, ao ponto de se poder conceber como estrutura arquetípica, muito provavelmente “alegorizada” por um mito. E será preciso referir o importante mito respeitante ao enigma da esfinge, podendo a sua resolução ser entendida tanto como as três idades do Homem como as três idades ou estados de vida por que passaria o próprio Édipo (a maturidade de Édipo não surge precisamente depois de, após o choque de uma abrupta consciencialização, vazar os olhos e passar a andar com a bengala?)?
Assim sendo, a construção mítico-religiosa passaria sobretudo por um processo de generalização ao coletivo e alegorização ao etéreo (que mais não faz do que glorificar ainda mais o efeito de coletividade e de potenciar o conjunto das suas possibilidades determinísticas e, portanto, deônticas e moralizadoras) daquilo que é a “tragédia” da vida ou a “Epopeia” da existência individual, pois que o Eu é e será sempre o ponto de partida liminar para o entendimento fenoménico do mundo. Daí que assumir exageradamente a partitura de certos códigos moralmente prescritivos para o Ente coletivo, no formato de estruturas religiosas castradoras ou de construções esotéricas desfeitas em exageros de superstição carnal – à semelhança do que terá, a determinada altura, acontecido com certos tipos de Ideologia política, enformados a partir de estruturas filosóficas particulares – pode revelar-se como profundamente erróneo, com consequências práticas não muito diferentes daquelas que adviriam da refutação radical de toda a mística ou mágica que prenunciam a profundidade das belas – mas sempre “relativas” e complexificáveis – construções éticas.
Se bem que, à semelhança dos arquétipos, também os Valores ético-morais podem ser concebidos como meras construções mentalmente projetivas tornadas coletivas (e legitimadas pelas leis de Sociedades que pretendem, de qualquer modo, sobreviver enquanto tal), não podemos deixar, todavia, de sublinhar a importância da existência pragmática desses mesmos Valores, pois que constituem o ancoradouro crucial de uma fraternidade, cujo transtorno poderia fazer com que a Civilização perecesse (ou já tivesse, há muito, perecido).
Daí que mesmo a pertinência moral da apresentação destes argumentos “materialistas” poderia ser questionada e justamente criticada, não fosse a minha convicção de que a problematização e a relativização constituem igualmente parte da argamassa moral, nem que seja porque nos leva a questionar as certezas que, num determinado contexto (mas muitas vezes não encarado como tal), se assumem como dogma. Em última análise, não é a Sabedoria a Arte de conseguir gerir todas estas Verdades, com a capacidade de questionamento constante, capazes de tornar a mais simples ação um verdadeiro suplício, porque a (in)decisão ética acaba por ser vergada pelo peso da multiplicidade de perspetivas?
Claro que é ingénua a suposição da existência de uma racionalidade decisora, até porque a objetividade não existe e tudo se perfaz de subjetividade (a própria busca da transcendência tende a ser veiculada pela totipotência do Ego) – não obstante, e como já dissemos, muitas das construções mítico-espirituais são somente a representação da tormenta da interioridade – mas, ainda assim, não podemos deixar de desejar o encontro com a Razão, a via para a Fraternidade, real porque complexificada pelas diatribes do caminho de “busca”… com esta a ser eternamente transtornada pela pluralidade das linguagens… daqui, a ideia da “queda” na materialidade como condenação, e a noção de “crescimento” a não se limitar a uma vida, mas ao “eterno retorno” na sucessão reencarnativa do h/Homem, interpretável, num plano menos alargado, como “reactualização nostálgica das origens” (Mircéa Eliade), vivificável pelo rito ou até a cerimónia aparentemente mais profana.