segunda-feira, setembro 16, 2013

Manifesto sobre a emergência de uma Fisioterapia pós-moderna

«Já não sou eu, mas outro que mal acaba de começar»
Samuel Beckett

O início do séc. XXI assume a sua risibilidade ao permitir o cruzamento de estradas políticas e económicas aparentemente antagónicas. E de um modo semelhável, trajectos incomensuráveis de pensamento autorizam-se numa plêiade de paradigmas e sistemas, vituperando o novo tempo a miscelânea de orientações e a relatividade de escolhas. Não fosse a ameaça de um relativismo claudicante, daquele mesmo tipo que perspectiva a verosimilhança no que é quase inaceitável, e o multiverso dos novos tempos seria quase como o preceito há muito desejado da liberdade, senão do tipo "puro", ao menos do pleno livre-arbítrio. Liberdade que, na textura da Singularidade filosófica e espiritual (portanto, noética, no plano platónico), não pode deixar de se conceber como condição necessária, flagrantemente obrigatória, do esculpir de um "corpus", há muito procrastinado, de pensamento "fisioterapêutico", do "pensar" em torno da Fisioterapia, dos seus métodos, das suas práticas, da sua Ética, da sua cientificidade, enfim... em torno de uma «Epistemologia da Fisioterapia», que, malgrado a resistência dos profissionais àquilo que consideram como "irrelevante", urge como requisito pungente da evolução da Fisioterapia enquanto arte e profissão autónomas. Assim sendo, oponho à crescente relativização consequente da reprodução de multiplicidades quase sempre desfasadas de um adequado tecido racional o desiderato de um núcleo de reflexão em torno da Fisioterapia, o pólo de uma «Filosofia da Fisioterapia», sem a qual a Fisioterapia e os fisioterapeutas se arriscam a cair num profundo caos de inteligibilidade acrítica, que é o mesmo de que empresas carnívoras se aproveitam para vender "métodos" como produtos de hipermercado, que é o mesmo também que vitima o fisioterapeuta à compreensão muitas vezes trôpega, francamente enviesada, da natureza funcional do paciente. Esta «Filosofia da Fisioterapia» é pré-requisito obrigatório da assunção de uma nova Fisioterapia, de uma Fisioterapia do novo milénio, da Nova Era, do tempo pós-moderno, que é o tempo das meta-narrativas, aquele que afirma a epifania de um pensamento resultante da dialéctica entre o multi-perspectivismo e o Cânone, o Caos e a Ordem, o Múltiplo e o Uno, o Relativo e o Absoluto.
Não é este nosso "manifesto" senão um esboço, um discurso, um ensaio quase experimental que se pretende fazer valer na representação de um certo pensar "fisioterapêutico" não limitável necessariamente por países ou continentes, e, como tal, ambiciosamente "universal", se bem que a realidade portuguesa acaba por aqui obter certa ponderação, coisa sana ao objecto do discurso, visto que a realidade da Fisioterapia portuguesa é provavelmente das mais amargas da Europa, senão da própria Lusofonia.
E com este ensaio pretendo igualmente contrapor-me a uma nova, recém-nascida, geração de profissionais que, não obstante a agressividade e a motivação "guerreira", revela um franco desentendimento do que é verdadeiramente a Fisioterapia, uma parca compreensão da sua natureza mais globalizante e humanitária, o que não pode deixar de contrastar com os excessos de um certo discurso ("hipermoderno") psicologizante que pretende ver a "entidade Holística" em tudo o que diz respeito ao corpo e às terapias, como se nada mais existisse senão o holismo, quando a verdade é que jamais o verdadeiro Holismo poderá residir numa entidade psico-física que permaneça despida da sua extensão Espiritual, com esta última a ser algo de dimensão também ela indefinida (quiçá porque indefinível), se bem que a perspectiva materialista prefira continuar a conceber o imensurável ou o desconhecido como inexistente.
Seria quase irónico indicar a respeito do Holismo a franca dificuldade em definir a Fisioterapia em independência de outras terapias do tipo "psico-físico", até porque é precisamente a perspectiva do Todo que repreende a visão fragmentária do Corpo, dos métodos ou dos modelos, o que contrasta, de algum modo, com a tentação superlativa e obsidiante do fisioterapeuta (enquanto profissional socialmente representado e com vista a um crescendo dessa mesma representação) de definir a sua actividade com vista a autonomizá-la de outras como a Osteopatia, a Quiroprática, a Acupunctura, ou mesmo a Terapia Psicomotora, a Terapia Ocupacional e a Educação Física. O que me leva a considerar que a Fisioterapia encarada na perspectiva "institucional" e até mesmo "sócio-política" não pode facilmente compatibilizar-se com uma visão "filosófica", senão "antropológica", da Fisioterapia, a perspectiva de uma Racionalidade que visa a Totalidade, a impartibilidade, a infinita continuidade, os ditirambos de um Corpo que urge como Unidade irredutível a categorias, classificações, nomeações, ou mesmo sistematizações patológicas, metodológicas e sistemáticas.
Ousa ser tão artificial quanto as definições socio-políticas das profissões e actividades referidas a visão científico-materialista do Corpo, reificada de modo retumbante pela Medicina nascente com o liberalismo político e económico, perspectiva assumidamente importante para a Medicina prescritivista e até uma parte da Enfermagem, decididamente indispensável na aprendizagem do estudante de Fisioterapia que mergulha nos livros de Anatomia, Fisiologia, Patologia e Biomecânica e que requer a "divisão" abstracta do movimento nas primeiras observações e análises cinesiológicas (de outro modo, seria extraordinariamente difícil reificar as primeiras aprendizagens no plano analítico dos estudos do Movimento), igualmente necessária ao jovem profissional inexperiente no tracto do doente e, como tal, demasiado agarrado às construções da Academia (pois que nele não habitam ainda outras referências), mas esmagadoramente limitadora da visão avaliadora e da liberdade e criatividade de intervenção no palco de um paciente que opera como totalidade, unidade complexa em que as diferentes componentes do corpo funcionam como peças de um puzzle, com este a reiterar um sentido somente quando completo e finalizado, integrado num Eureka gestáltico em que o Todo grita euforicamente a autonomia perante as partes destituídas de "ser" e de "sentir".
O fisioterapeuta experiente sabe aquilo a que me refiro. O verdadeiro fisioterapeuta aprende a re-observar o corpo do paciente, destituído de marcos, quase esquecendo os mapas anátomo-funcionais, visando o "ser" na sua prístina nudez, na sua indiferencialidade e inseparatividade, permitindo-se, ousando, ver o corpo do seu paciente como se contemplasse um corpo pela primeiríssima vez, à imagem de uma criança que lança o olhar ingénuo perante a robustez de um mundo que se pretende obra acabada, humanamente definida e ordenada.
O fisioterapeuta "criança" não é obviamente um selvagem (no sentido algo rousseauniano da palavra), pois que a sua virgindade de olhar constitui menos uma virgindade primeva do que uma "virgindade readquirida", capaz de firmar a sobreposição da criatividade e da heurística na avaliação e na intervenção, com estas duas a serem uma só, e o próprio terapeuta e o paciente a serem um só.
A Pós-modernidade demanda precisamente a síntese de um caminho dialéctico em que a cientificidade teve o seu papel. Mas o tempo da intervenção não é o tempo da cientificidade académica, se bem que o raciocínio clínico tem algo (muito, aliás...) do método científico. O tempo da intervenção reterá talvez a cientificidade do tipo de uma racionalidade noética, uma cientificidade pós-moderna que permite cruzar num só olhar indiferenciado uma pluralidade de olhares e perspectivas quase infinitamente transfiguradas. Porventura, o risco de firmar como verdadeiro o que é caricato existe, à semelhança do risco do "relativismo dogmático" (Popper), o que lá nos leva a requerer como igualmente indispensável o "corpus" de saberes tradicionalmente científicos, que, no plano recente da nossa profissão, tem ganho o aspecto de um tumulto de estudos do tipo "estatístico-probabilístico", que tanto obcecam os nossos jovens na sua visita diária ao Pubmed. Mas igualmente ridículo é obviar uma intervenção com base no que os "estudos" dizem ou deixam de dizer. Confio mais rapidamente nas leis da Biomecânica e nos princípios do Raciocínio Clínico baseados nos pressupostos anátomo-funcionais (malgrado o princípio baconiano da observação - "ingénua" - que lhe está implícito), se bem que de nada serve utilizar um modelo sem a adequada adaptação à idiossincrasia do paciente...
É conveniente desconfiar desse multiverso de estudos que preenche os olhos dos académicos, dos estudantes e dos jovens terapeutas. As lacunas, a falência metodológica e epistemológica, a fraude enquanto regra de execução de investigações quase sempre movidas por intenções de título ou grau académico, todo um manancial de epifenómenos associados à aventura da publicação em revistas quase sempre comprometidas com interesses, um pouco à semelhança das motivações empresariais da investigação, que rememoram o conluio que filósofos como Marcuse, Habermas ou Lyotard reiteraram na relação comprometedora entre ciência, técnica, política e ideologia capitalista.
A dependência de estudos ou de "guidelines" enquanto instrumentos orientadores e catalizadores da intervenção clínica não pode deixar de se semelhar à plena acção massificada do terapeuta, que, entretanto, deixou de o ser, para que se transformasse num "guia de exercícios" ou num "instrutor de classes", que é como vender a alma ao diabo, porque já a Fisioterapia deixou de o ser no momento em que o "terapeuta" substituiu a visão idiossincrática do Universo-Sujeito pela visão probabilística do Universo-Grupo. Quem ousa controlar um Grupo nada controla, nem sequer nenhum dos seus elementos. Como se um só elemento não fosse ele já todo um complexo Universo em permanente transformação, um infindável interpolar de variáveis, capaz de ousar a impossibilidade de controlo ou terapêutica, porque a quase infinita sucessão de acontecimentos que concorrem para uma só manifestação reivindica a impossibilidade de alguma coisa controlarmos, percebermos ou influirmos (?)...
Reduzir o nosso Universo-Paciente a um conjunto de regras ou de itens orientadores, esquecendo que os estudos de índole estatístico-probabilística falam somente de "tendências", "ponderações" e "generalizações", o que significa que podem não ser representativos de uma só unidade subjectiva, enfim, reduzir a complexa dinâmica psico-morfo-analítica a um quadro de médias e de jogos ponderativos é de tal modo ridículo que até poderia ficar admirado pelo facto de muitos dos nossos jovens terapeutas não desconfiarem de que "o Rei vai nu". Mas é precisamente disto que se trata... Quando todos querem ver o Rei nu com roupa acabam mesmo por vê-lo vestido, e da mesma maneira, os nossos jovens terapeutas têm por costume sair das escolas e Universidades com a cabeça mais absorta do que plena de Conhecimento, cumulada mais de conceitos do que prenhe de Sabedoria. Anos e anos de aprendizagens feitas mais em livros e mediante instrumentos artificiais do que propriamente por meio da aprendizagem activa da Vida acabam por fazer com que os Saberes optem por valer por si mesmos e não pelo seu objecto de conhecimento e desvelamento da Realidade. Quão triste é ter uma cabeça repleta de estudos, classificações e conceitos que, ao invés de aproximarem Sujeito e Objecto, o Eu do Paciente, o Ego da Totalidade, mais contribuem para toldar e agigantar o caminho que se pretende substantivar. No caso dos novos jovens terapeutas, a obsessão pela cientificidade não pode deixar de ser vista como alienadora, já para não falar das deficiências nas habilidades relacionais e tal-qualmente no respeitante à aptidão compreensiva das necessidades do paciente.
Imputo grandemente aos académicos boa parte da culpa da referida alienação, com a Fisioterapia científica a ser muitas vezes vítima do divórcio da realidade do próprio paciente, como se a vontade deste fosse vã face à totipotência da Técnica e do Terapeuta. Muitos de nós não nos admiramos com este tipo de "desenvolvimento", até porque muitos dos professores das citadas técnicas não chegaram sequer a ser terapeutas (no sentido "profissional" do termo), realidade anedótica que foi crescendo em Portugal e na Europa na mesma proporção do crescimento exponencial do número de escolas criadas para formar os ditos "terapeutas". E é este clima alienadamente científico que se prescreve aos futuros terapeutas, um pouco como se a Universidade servisse mais a esclerose do pensamento e do cepticismo do que o exercício da Inteligência Criadora e a defesa das Estruturas, Valorativas e Intemporais. Uma escola de Fisioterapia que não forneça ao Terapeuta os instrumentos do espírito crítico e as matrizes fundamentais do exercício de uma Fisioterapia consciente, criativa e criadora, auto-inventiva e auto-reflexiva, não tem direito a ser "Superior", mas somente a consubstanciar-se na redução de uma "profissionalização" com um mote de dependência de outras profissões e outros profissionais.
A leitura de estudos e a efectuação de formações e/ou de pós-graduações, ou seja, o termo corrente de aprofundamento de saberes, não é suficiente para que o Terapeuta se reifique enquanto tal (apesar de desempenhar um papel importante no processo...). Diria até que é pouco importante face a outra coisa que considero verdadeiramente decisiva, senão a única coisa que fará do terapeuta um profissional verdadeiramente autónomo, um homem no sentido ontológico do termo. Refiro-me à Sabedoria, a qual é, por definição dos antigos, conhecimento "não mediado". 'Sophia', para ser mais preciso, e que se refere a um Conhecimento do tipo "Gnose" e que respeita ao conteúdo Interno ("Eso"), profundo, do saber, o qual tem de ser necessariamente vivenciado, sofrido, percorrido pelos estrépitos de uma reflexão que dói, que intimida, que assusta, mas que não pode ser atalhada, porque quem a ela está destinado dela não pode fugir. E o terapeuta, o verdadeiro terapeuta, dela também não pode ousar fugir. Não pode utilizar estudos, guias e sistemas de regras indefinidamente enquanto paliativos de um saber verdadeiramente vívido do Ser. Não pode adiar para sempre o encontro inexorável com a intimidade do paciente, que é a sua própria intimidade ontológica, que é também a intimidade Ética da Humanidade e a intimidade Metafísica da Meta-Humanidade. Nada disto, nenhuma desta profundidade ontológica pode dispensar a Filosofia como pré-requisito central do acto fisioterapêutico. Nenhuma desta intimidade prístina do "auto-encontro com o outro" (Ricoeur) pode despender da privacidade reflexiva e de anos de sofrimento de auto-encontro. Em suma, nenhum fisioterapeuta genuíno pode deixar de ser um filósofo, assim como nenhum homem verdadeiro pode viver a vida sem o pré-requisito do pensamento e da Palavra.
A Palavra feita Verbo, e se "No Princípio era o Verbo" é porque a Palavra é o início de todo o acto criador. A palavra é pensamento e o pensamento é a Palavra. E o terapeuta que observa, testa, avalia, toca, modela, verifica, retesta, mobiliza, manipula, transfere, orienta, ensina, aconselha, reavalia, sente, faz-se sentir, ouve mais do que se faz ouvir, é quase como que um demiurgo, um construtor, um escultor, que tem no paciente o seu Deus, o seu Divino, porque é o paciente que possui a pura Liberdade e a Pura Necessidade. E é assim que, se é o Terapeuta o principal decisor do plano de tratamento, é o paciente o supremo decisor dos objectivos da intervenção. E nunca nenhuma parte do processo deveria ousar ser traída em nome de uma suposta cientificidade ou em nome de um qualquer "deve ser", pois que o "deve" deixa de "dever" com a velocidade de uma décima de segundo, com a concupiscência de uma reacção química.
É assim a Fisioterapia como a pura alquimia transformadora, auto e inter transmutadora, que não se limita a dar ao paciente alguma habilidade ou a toldar o seu sofrimento; pretende, de igual maneira, presentear o paciente com a totalidade das ferramentas necessárias à sua transformação com vista à perfectibilidade, processo quase nunca inteiramente coisificado, raramente pretendido ou desejado, mas ambição da relação terapeuta-paciente, a única que uma Ética unificadora e construtiva poderá proclamar genuinamente. A Fisioterapia é, então, muito mais do que uma simples demanda de um Terapeuta Demiurgo. É a plena capacitação do paciente de tudo aquilo que pode Ser e já É mas somente não consegue vê-lo ou reconhecê-lo, é a totalização de um processo que unicamente o paciente poderá concluir, pois que se trata da busca de um Sentido próprio, do encontro com o seu "Princípio" fundacional e arquetípico, aquele que nunca deixou de estar presente.
Não pode obviamente o paciente iniciar um caminho de auto-encontro se estiver toldado pela dor e o sofrer, o que demanda que, desde o primórdio da relação terapêutica, o fisioterapeuta não pode deixar de se sacrificar em nome do seu paciente, permitindo que a entropia do corpo deste seja transmitida à entropia do corpo do próprio terapeuta. E não pode igualmente tal transmissão "energética" ocorrer verdadeiramente se o terapeuta se limitar a tratar uma parte do corpo ou um "locus" sintomático, pois que isso somente permitirá transmitir a entropia duma parte do corpo do paciente para outra parte do mesmo corpo.
Daí que tenha sempre visto na Reeducação Postural e no raciocínio verdadeiramente holístico a solução preventora de tais substituições sintomáticas ou compensações patológicas. À semelhança do que acontece com a Psicanálise no respeitante à complexa dinâmica da Psique, também a Reeducação Postural permite conceber a interpretação causativa de uma simples manifestação num círculo psico-morfo-dinâmico que poderá não ter sequer um fim realista senão aquele que consideramos como mais relevante ou significante para a situação em causa.
Posso dar um exemplo, entre um infinidade dos que poderia evocar. Uma simples tendinite do tendão da longa porção do bicípite, que seria tratada na maioria das Clínicas e até mesmo dos Hospitais com recurso a tecnologias ou manuseamentos com um efeito anti-inflamatório local, poderá ser o resultado de uma dinâmica postural extraordinariamente mais complexa, no sentido inclusivamente anamnésico/histórico: a tendinite poderá ter origem na sobrecarga biomecânica do tendão associada à utilização "viciosa" da articulação do ombro, que poderá ter o contributo de uma alteração postural como a hipercifose dorsal; por sua vez, a hipercifose dorsal poderá ter uma série de origens, assumindo que não se trata de uma verdadeira e estruturada malformação congénita: compensação da hiperlordose lombar, retracção do diafragma, encurtamento das cadeias musculares ântero-internas, insuficiência muscular dos músculos inter-escapulares, entre outras, com as referidas a poderem estar presentes em conjunto ou isoladamente; entretanto, cada uma daquelas alterações poderia estar associada a um conjunto extensíssimo de outras alterações... por exemplo, a hiperlordose lombar poderia ser o resultado do encurtamento da musculatura paravertebral e/ou do encurtamento do diafragma e/ou do encurtamento do psoas, e poderia estar associada a uma alteração do alinhamento dos membros inferiores com ou sem dismetria, aumentando o risco de certas artroses ou de certos processos inflamatórios... E poderíamos continuar eternamente, pois à semelhança do que acontece com o "efeito borboleta", uma causa ou manifestação muito simples poderá estar associada, causativa ou consequentemente, a todo um outro conjunto de alterações, com o ciclo vicioso resultante a poder não ter um fim realista em vista, o que nos pode até levar a pensar que toda a tentativa de intervencionar a um nível postural acaba por ser inútil, dado que não podemos controlar um número considerável de variáveis ou factores envolvidos (tenho dito o mesmo relativamente à Psicanálise e à tentação do psicanalista de alterar "positivamente" o estado de uma "psicodinâmica"). Daí que se um qualquer Demiurgo ou Super-Homem (utilizo o termo no sentido evocativo de Nietzsche) poderia ser o Ente capaz de controlar a totalidade ou a quase totalidade de factores e dinâmicas envolvidas, o Terapeuta, enquanto simples homem que é (se bem que a sua plena maturação enquanto terapeuta não perde de vista o topo da montanha, residência apaziguadora do Super-Homem), nunca poderá ambicionar mais do que o controlo dos principais factores, daqueles que ele mesmo enquanto profissional identifica como mais relevantes ou significativos, o que, de algum modo, aumenta ainda mais a responsabilidade do terapeuta. O que não implica que não possa tentar controlar um número elevado de factores ou variáveis, o que, acrescentando-lhe as possíveis contra-indicações de certos métodos para o paciente em causa, as variáveis orgânicas, e as próprias necessidades do paciente, leva, por um lado, mais uma vez, à extrema dificuldade em controlar perfeitamente um estado clínico (malgrado a tendência dos cidadãos para pensarem que, em Saúde, tudo é óbvio e fácil, racional e absoluto, quando o "relativo" é que é a regra dominante) - coisa que mais provavelmente o levaria à perfeita loucura -, e por outro, à diminuição do conjunto de opções disponíveis em termos de métodos ou técnicas a utilizar (dependendo da condição do utente, haverá decerto métodos, posições e recursos terapêuticos que deverão ser utilizados preferencialmente, entre outros que deverão ser esquivados).
A imprescindibilidade de um profissional de saúde ser adequadamente formado prende-se sobretudo com esta lógica de super-controlo, coisa menos provável de existir nos pseudo-profissionais, se bem que é teoricamente aceitável que um simples auxiliar de Fisioterapia ou de acção médica domine determinada técnica ou temática melhor que um terapeuta adequadamente licenciado (para não falar do conjunto imenso de terapeutas "mal" licenciados)...
Relativamente aos resultados obtidos, lembremos que a própria "melhoria" ou "agravamento" de uma condição ou manifestação não deixa de ter algo de interpretativo, no sentido de um julgamento de valores. O que é melhor para o terapeuta pode até nem ser melhor para o paciente, ou o que o paciente deseja pode não ser aquilo que achamos que é melhor para ele. E lembremos que respeitar a autonomia do paciente não significa necessariamente fazer tudo o que ele deseja, tal como tratar um filho que se ama incondicionalmente não implica que o mimemos exageradamente ou lhe façamos todas as vontades. Aparentes contradições à parte, o bom terapeuta precisa do necessário bom-senso requerido para equilibrar um conjunto de pressupostos e de decisões aparentemente antagónicos. Não é decerto nos estudos ou na Academia que o terapeuta irá recolher este tipo de sensibilidade (até porque, por maior que seja a prolixidade de estudos realizados e lidos, nunca poderá ser realisticamente preenchida a necessidade de controlo de um número relevante de variáveis em jogo, no respeitante aos momentos avaliativo e de tratamento; se assim fosse, num qualquer futuro utópico, um computador seria capaz de nos substituir na nossa actividade, o que me parece quase impossível, pois que, mesmo no plano de uma visão "determinista", o número extraordinariamente elevado de factores jogados inquina a possibilidade de um bom trabalho terapêutico poder ser feito por um autómato autista). Seria mais provável que o recolhesse nas fontes literárias e filosóficas, se bem que é a própria vida de relação e de auto-crescimento que fixará a palavra última e mais valiosa.
Infelizmente nem a inteligência filosófico-conceptual poderá acautelar o abraçar de certas atitudes mais dogmáticas, sendo que, muitas vezes, o maior dogmatismo reside precisamente no ventre dos mais importantes Sistemas, os mesmos que tenho pretendido valorizar. Popper diagnosticava o "relativismo dogmático" na Psicanálise, no Platonismo, e também em Hegel e Marx, e, se conhecesse, por exemplo, o método Mézières ou o método Bobath, não estaria muito longe de identificar neles alguns aspectos do dogmatismo relativista (se bem que estes métodos possuem bases seguras em leis da Biomecânica... o que os torna, de algum modo, incomparáveis aos modelos de teor mais mentalista)... o mesmo relativismo pós-moderno que também requeremos para a necessária complexificação filosófico-espiritual da Fisioterapia, aquela que os fisioterapeutas ainda estão longe de reter, aquela que urge como obrigatória para a emergência de uma Fisioterapia auto-reflexiva, assumindo que a intervenção mais "responsável" e Humana será aquela que ancora num conjunto de bases como as que venho sublinhando.
Assumir a ausência de um adequado "corpus" de Saber epistemológico dentro da Fisioterapia é antever o caos da própria Fisioterapia enquanto arte "científica", senhora de um conjunto quase inesgotável de métodos e paradigmas muitas vezes desnudados de uma matriz reflexiva e contextualizadora. Neste momento, em Portugal, apesar de existirem quase duas dezenas de instituições de ensino graduado e pós-graduado em Fisioterapia, não se conhece nenhum corpo de investigação filosófica e epistemológica em Fisioterapia, tal como redundam no vazio possíveis investigações casuísticas de mote hermenêutico.
Um estudo de caso em Fisioterapia ou em qualquer outra área clínica não deveria ser consumado só de aspectos quantitativos mas igualmente se deveria preencher de aspectos interpretativos, com alicerce numa hermenêutica (ou analítica) do paciente, numa "exegese" da fenomenologia da sua transformação qualitativa, semiológico-proxémica (vide a importância da análise semiótica...) e funcional (incluindo os aspectos do movimento representativo-funcional, numa óptica psicomotora e motricista). Assumir, como assume a grande maioria dos novos fisioterapeutas, que tudo o que não é mensurável não tem valor é assumir alienada e orgulhosamente a limitação do paradigma científico-liberal e o condicionamento mental na obsessão do concretismo materialista. Nada de grave se estivéssemos a falar de fenómenos estritamente físicos e de número comensurável e finito de variáveis integrantes. Muito grave se nos referirmos ao ser humano e se recalcitrarmos na obsessão dos estudos estatístico-probabilísticos, que são, a meu ver, a grande fraqueza das Ciências Sociais desde a sua frustre tentativa de assunção de Cientificidade sob os auspícios da moda positivista no séc. XIX.
Como já terei demonstrado em «Corpo e pós-modernidade» (2012), a dialéctica e o paradigma pós-moderno são os pré-requisitos do entendimento de uma Fisioterapia da Nova Era, se bem que não será propriamente necessário abraçar certos exageros pós-modernos (que eu próprio perfilhei no dito livro) ou até mesmo espiritualistas (como terei perfilhado em obras posteriores). Entendo, por exemplo, a epistemologia científica como um terreno tão relevante quanto a Ética, incluindo o estudo dos Paradigmas à luz de Kuhn, enquanto matriz conceptual necessária ao futuro e actual fisioterapeuta. Matérias já bem presentes nos cursos de Psicologia ou Enfermagem, mas muitas vezes considerados "excedentários", simples excrescências, no contexto da Fisioterapia.
Se é bem verdade que "quem só de Fisioterapia sabe nem de Fisioterapia sabe", tal não se esgota no contexto dos saberes filosóficos, psicológicos ou espirituais. Será, porventura, assim tão despropositado referir a importância dos saberes literários, artísticos e musicais para a formação e engrandecimento de um fisioterapeuta? Se é normal assumir que um médico os possua porque parece tão "a despropósito" no contexto de um fisioterapeuta? Se até há cerca de 20 anos os pré-requisitos da formação de um fisioterapeuta poderiam explicar, de algum modo, uma certa falência intelectual, como explicar a nova ignomínia dos jovens terapeutas, quando estes possuem altos graus de escolaridade e até perdura uma certa exigência na nota de entrada para o ensino superior e a suposição de uma exigência mínima da frequência e conclusão deste último? Que esperar da Fisioterapia portuguesa quando os jovens terapeutas revelam tamanha ignorância literária e reflexiva? Como propor a competitividade da Fisioterapia enquanto profissão e a assertividade dos fisioterapeutas no contexto de uma Equipe multidisciplinar, se os terapeutas se limitam ao estudo de alguns aspectos mais quantitativos da Fisioterapia, relevando para segundo plano os clássicos, sejam os da área, sejam os do Universo filosófico-literário? Como conseguir que a "mística científica" da Fisioterapia consiga destronar a "mística espiritual" das "medicinas" não convencionais, se o terapeuta se define pelo vazio de conteúdos do reino do Inteligível? E, sobretudo, como ter esperanças que, somente por meio de uma cientificidade estatístico-probabilística, o terapeuta se possa afirmar intelectual e profissionalmente junto dos pacientes e no contexto da própria Sociedade? Como conseguir que a Fisioterapia consiga munir-se de "representações sociais" mais "aceitáveis" se não há sequer um empenho de mitificação, senão somente o esforço de forçar estudos a assumirem resultados "suspeitos", assim como o esforço ego-maníaco e narcisista de preencher o Currículo de formações e de graus académicos? Não reconhecerá o jovem académico a insegurança narcísica no eterno adiar da vida profissional, nesse eterno "ser-se estudante", nesse inacabável enchimento de mestrados e doutoramentos que não possuem qualquer utilidade "operática" para a Fisioterapia?
A Fisioterapia do futuro precisa decerto de investigações, mas até estas requerem a Epistemologia para que possam ser realizadas com um rigor e uma dimensão que ainda não são os que se desejam. E a Fisioterapia precisa, muito mais ainda, de um rigor crítico, de pensamento, de uma prática auto-reflexiva, de homens capazes de questionar, de profissionais com a coragem de ousar, de desafiar, de controverter, de revolucionar. E, obviamente, esse mesmo pensamento, essas ideias deverão passar à prática, por meio de Obras, de projectos inovadores, conceitos vanguardistas, todo um manancial de "Óperas" em que esteja presente o cruzamento do clássico com o "nunca visto", até porque a Pós-modernidade é o tempo "fora do tempo" em que todos os modelos, estruturas e narrativas podem ser aceites e jogados no desafio do futuro e da tolerância, é o tempo da "desconstrução", da re-interpretação, da "neo-construção".
E perante este fluxo de possibilidades, o que fazem os nossos jovens? Formações e mais formações, muitas vezes não integradas numa soma cumulativa que só servirá o caos, a confusão cognitiva, a intoxicação mental e interventiva. Mestrados e Doutoramentos que servem somente o estúpido orgulho narcísico, numa Europa em que só mesmo Portugal liga aos graus e aos títulos, pois que tais pós-graduações pouco servem à experiência e até à reflexão. Participações nos mundos do marketing, da publicidade, numa tentativa "multicolorida" de exprimir a Fisioterapia pelo "lugar comum" dos desportos, dos atletas famosos, das Clínicas prestigiadas e luxuosas para uns poucos burgueses ou novos-ricos (senão políticos de algibeira, como os que temos neste nosso país da bananeira), como se o melhor fisioterapeuta fosse o mais rico, como se a melhor fisioterapia não fosse a que sai das nossas mãos, como se toda a Fisioterapia fosse a reabilitação do futebolista ou a preparação do atleta olímpico, quando a verdade é que estes são precisamente os "clientes" mais perturbados, porque, em nome da fama ou do dinheiro, escolhem voluntariamente fazer a violência aos seus corpos, com a estúpida conivência dos "fisioterapeutas do desporto", que mais não fazem que ajudar na perpetuação de uma lesão, e se sentem vitoriosos por que a "sua" equipe venceu uma Taça, um bocado de lata que nem ao orgulho patriótico serve. O alargamento da Fisioterapia para territórios como a Estética, os spas, como se tudo isto - os feitiços da mente - fosse Saúde, como se o simples "relaxamento" psico-físico não integrado em algo maior pudesse confundir-se sequer com uma Psicanálise bem realizada ou com uma integração reflexivo-espiritual só acessível às mentes residentes num certo patamar de Consciência...
Spas, "Bem estar", Fitness, "indústrias do corpo" que ajudam a anestesiar o poder de uma sociedade doente e opressiva. Paliativos da saúde mental, placebos bem-vindos à ansiedade que estrangula. Os jovens fisioterapeutas contentam-se frequentemente com isto, ao mesmo tempo que criticam os anti-depressivos e os ansiolíticos, como se não fossem todos eles estratégias de sobrevivência num mundo que sufoca o crescimento e oprime a consciencialização (e será que a ilusão não é também necessária à felicidade? Será que a consciencialização é assim tão redentora? Não será tudo relativo? Não chega a Terapia a ser somente um consciencializar do que se deseja e requer e um não consciencializar das verdades mais inóspitas?...).
Quer-se mais, requer-se uma Fisioterapia adaptada a uma Era onde a contemplação estética e a evolução espiritual sejam a regra de todos os seres e não somente de uns afortunados pela educação ou a sociedade. Requer-se uma Fisioterapia como palco somático do crescimento, em que o Corpo Físico (relevando o eixo moderno/performativo/denotativo do "homo faber", numa lógica de desempenho e produção, clinicamente associado ao modelo biomédico e pragmaticamente ao controlo prioritário das manifestações sintomáticas por meios predominantemente paliativos ou placebetários) perde terreno para o Corpo Soma (com este a relevar o horizonte pós-moderno/reflexivo-simbólico/narrativo do "homo sapiens", numa lógica de entendimento e integração projectivo-fantasmática psicossomática, clinicamente associado ao modelo bio-psico-social, senão ao modelo sócio-psico-neuro-músculo-esquelético, pragmaticamente relacionado com os processos psicomotrizes, os métodos de domínio neuro-motor e o longo prazo estrutural consumado no conjunto dos modelos que perspectivam um corpo enquanto palco de Cadeias musculares, senão enquanto única Cadeia neuro-mio-fascial ou mesmo Una Cadeia psico-organo-neuro-mio-fascial... portanto modelos que valorizam mais as técnicas de "inibição do corpo hegemónico" - por meio exemplificativo do relaxamento muscular e do alongamento fascial - do que as técnicas de reforço, obsessão ainda dominante no mundo da Fisioterapia e da Actividade física em geral, coisa explicável pela tónica na performance, vista como instintiva e esteticamente prazenteira e produtiva e profissionalmente pertinente, fixações do próprio Sistema industrial e da Sociedade organizada segundo os preceitos da competitividade animalizada), em que o Instinto se torna pulsão, e o sexo sexualidade (e.g. Freud) e erotismo (Bataille), em que a acção se transmuta em intenção e esta em representação, e o movimento se transtorna Motricidade. Solicita-se uma Fisioterapia integrativa dos diversos planos da existência, concorrendo o plano somático e astral para o desenvolvimento do plano espiritual e humanitário. Uma Fisioterapia que transponha os diversos planos da Sociedade e os diferentes cuidados e sistemas de Saúde, auxiliando no jogo de gestão das oscilações do mundo material, permitindo o apaziguamento psico-físico requerido à etapa pacificadora do Outono da Vida. Enfim, uma Fisioterapia enquanto meio de crescimento, pessoal e colectivo, egóico e supergóico, individual e social, pulsional e moral, familiar e civilizacional, na História, nas Eras, nos tempos, aqui, agora e sempre.
Vejo, como sempre vi, nos grandes modelos e narrativas da Fisioterapia neurológica e da Fisioterapia de Reeducação Postural o tecido fundacional de uma Fisioterapia narratológica irredutível ao discurso médico-prescricionista, vinculadamente neoliberal em termos económicos. Meta-narrativas da Fisioterapia que obviam a visão de um corpo em que as pequenas afecções, e até alguns traumas, são explicados pela idiossincrasia postural (e pelo movimento visto como totalidade "psicodramática"), com esta a incluir tanto os aspectos morfológicos como os caracteres relativos aos desequilíbrios neuro-mio-fasciais vistos como causativos dos anteriores. Meta-narrativas de uma Fisioterapia do passado, da Nova Era, do tempo arquetípico que é um "não tempo", uma arqueologia que Michel Foucault identificava como tempo "clássico", anterior ao liberalismo e à revolução industrial, prévio à transformação das 'Artes', cuja transmissão de saberes e valores relevava uma relação do mestre com o discípulo ajustada às necessidades próprias do último e à dinâmica ritualística do passado mediada por iniciações e "passagens", em 'Profissões', com sobreposição de uma lógica de massificação do ensino que a recente tomada de uma atitude hiper-facilitista por parte das escolas e Universidades somente veio agravar... relativamente a este ponto, escasseiam as palavras suficientemente duras que permitam a crítica às escolas de Fisioterapia que se permitiu surgirem como fungos nos últimos 15 anos: vende-se a noção de Cientificidade como mote de desenvolvimento de uma Fisioterapia do Futuro, permitindo escoar a ideia de que é esta a base própria e adequada do Academismo, num esquecimento daninho de que as Universidades foram construídas como base de prossecução dos "Universais", dos Valores, do grande Conhecimento, no sentido da grande Racionalidade noética... como se a Fisioterapia académica não necessitasse precisamente dos seus grandes Sistemas, dos seus ilustres Autores, da sua Teoria enquanto Testemunho, das suas Narrativas conceptuais e reflexivas, sem as quais a cientificidade per si não passará dum amontoado desorganizado e acrítico de estudos (informação massiva, um pouco à imagem dos novos tempos internéticos que preconizam a overdose de informação descentrada dum núcleo interpretativo, crítico, comparativo, organizativo, meditativo); temos escolas sem tradição académica com conteúdo, permitindo-se confundir os grandes Valores da Academia, a tradição no seu sentido nobre, com estúpidas práticas de praxe, reificadas por estudantes imbecis, sem palco de cultura, sem referências intelectuais, a não ser que consideremos como "cultura" ou "referência" a estúpida capa ou batina que o ainda mais ignóbil e vazio estudante veste num exercício de arrogância, que até poderia ser aceitável se tivesse por trás uma mente reforçada de Valores e contextos, mas somente tem por trás o parasita que o novo estudante universitário constitui; nunca as escolas tiveram tantos cursos, mestrados e doutoramentos, nunca os seus corpos docentes foram tão graduados, e nunca houve tamanha ignomínia, tanta incultura e desfaçatez por parte dos novos docentes (com óbvias excepções), num desmazelo conceptual que nos faz ter saudades dos tempos do velho Alcoitão, num passado em que ainda se ensinava que de facto "cada caso é um caso", em que os velhos mestres sabiam passar - com conhecimento pessoal, vívido, experiencial - os saberes dos grandes paradigmas e dos antigos modelos, em que existia mais exigência no exercício dos saberes, dos conceitos e das práticas no antigo e extraordinariamente difícil Bacharelato do que nas novas licenciaturas do "faz de conta", em que notas e passagens são servidas numa bandeja de prata, como se o curso estivesse garantido a quem tem meramente a possibilidade de o pagar, em que, inclusivamente, um trabalho final de curso deixou de ser uma Monografia enquanto investigação verdadeiramente realizada para passar a ser um projecto ou anteprojecto que se faz em dias, as aulas deixaram de ter por base os livros, os clássicos e até os artigos e passaram a valorizar os slides desse epifenómeno chamado "PowerPoint", num exercício de estimulação da preguiça, porque o aluno não lê nem pesquisa, somente "marra" tópicos, o que, mais a mais, nos leva a não nos admirarmos que, mais tarde, os novos fisioterapeutas pensem que a Fisioterapia é algo que possa ser praticado a partir de regras e linhas estritas, como se a complexidade multi-paradigmática não existisse, como se só existissem realidades certas e objectivas, receitas rígidas e respostas fixas para a intervenção. Pois que, mesmo nos termos de um só paciente ou condição, várias respostas terapêuticas podem ser recrutadas, com este relativismo a depender mais do paradigma inerente ao Terapeuta que "constrói" o paciente do que da condição do paciente em "si mesma", que o terapeuta mais ecléctico ou maduro, e sobretudo paradigmaticamente descomprometido, saberá (?) ver com maior objectividade. E pois que é precisamente a complexidade multi-paradigmática presente idealmente no ensino das escolas e Universidades que permite a adequada compreensão da multidimensionalidade do paciente, dos métodos, do próprio fisioterapeuta, base inerente à entidade de um terapeuta que pensa e complexifica - pré-requisitos da vivência meditativa não mediada -, prólogo de uma Fisioterapia enquanto matéria pensante e pensada que não pode ser decidida nos termos de uma consulta médica mas somente mediante a actividade pensante e de "livre escolha"/"livre-arbítrio" de um fisioterapeuta capaz de avaliar e decidir os meios de actuação a partir da necessária dialéctica interna entre aquilo que identifica no paciente e aquilo que é o seu próprio acervo cognitivo de métodos e paradigmas.
Será a desejável Fisioterapia da Nova Era possível no conjunto do mundo ou somente na ilha da Utopia? Trará a Clínica o Admirável Mundo Novo somente a uns poucos ou ao conjunto da Civilização que se pretende pacificada?
Será preciso repetir o que está à vista de todos? Não está o secular e renascido sistema neoliberal a querer perpetuar a visão do doente como número e da Fisioterapia como um conjunto desconjuntado de técnicas previstas num agrupado de códigos prescritivos? Não está a Fisioterapia do presente feita para agradar ao Sistema, com um conjunto inútil de intermediários - incluindo essa especialidade serôdia da Fisiatria - a comerem à custa do esforço intrépido de terapeutas afogados em trabalho e das carteiras de pacientes afogados em dívidas? Que Sistema é este que, em Portugal, permite o tratamento feito num número ilimitado de pacientes em simultâneo (num modelo de "fisioterapia de ginásio" que roça o cómico, com o terapeuta a parecer muitas vezes mais o instrutor físico que ordena exercícios do que o profissional que manuseia e se relaciona com o paciente)? Que Sistema é este que, no nosso país, permite a profunda confusão entre terapeutas licenciados, falsos terapeutas, terapeutas "não convencionais", imiscuindo-os num caos de leis inexistentes ou mal construídas? Que país é este que se exclui do controlo do funcionamento do ensino superior, permitindo a abertura indiscriminada de escolas de formação, sem que haja uma adequação entre os números de formandos e as promessas do mercado? Que Fisioterapia poderá ser realizada por terapeutas a trabalharem quase a título gratuito? Que tipo de Fisioterapia poderá existir no país se somente o Privado permite a prática dos métodos nobres e se só uns poucos privilegiados poderão ter acesso a estes mesmos métodos, já depois de também os próprios terapeutas terem tido um acesso enviesado às formações, dada a sua elevadíssima custosidade?
Recentemente os fisioterapeutas começaram a identificar uma potencial linha de lucro na criação de empresas de formação. É um pouco como viver à custa do engano dos próprios formandos. Mas quando alertados para o facto, alguns dos jovens terapeutas vituperam que os recém-formados são adultos e donos de si. O que é curioso, porque no momento em que os mesmos jovens terapeutas se decidem à mesquinhez de "denunciar" pseudo-profissionais com base no pressuposto da "defesa do interesse dos utentes", aí as regras do jogo mudam e já as pessoas passaram a ser umas pobres coitadas que precisam de ser protegidas. É o mesmo tipo de coerência que leva os jovens terapeutas a deificar os estudos fisioterapêuticos e a, no imediato momento seguinte, a demonizar os estudos farmacológicos, referindo os supostos "conflitos de interesses" das empresas e das indústrias; como se os estudos fisioterapêuticos não estivessem também eles repletos de erros, invenções, plágios, descaracterizações ecológicas, "interesses empresariais", com muitos estudos a referirem resultados positivos no relativo a um método que foi criado pelo próprio autor do estudo, o mesmo que pretende vender o seu método à mesma empresa que subsidia o estudo.
Perante isto não posso deixar de pensar no "efeito Édipo" referido por Popper e na importância do seu critério falsificabilista enquanto proposta de distinção entre o verosimilhante/científico e o não verosimilhante/não científico, um conteúdo da temática epistemológica entre muitos outros que poderiam ajudar o fisioterapeuta a ser um melhor investigador (e também um melhor clínico), mas que, face a uma "educação superior" em Fisioterapia mais centrada nos aspectos metodológicos do que nos aspectos epistemológicos da Investigação, manter-se-ão enquanto resíduo de desconhecimento, plena nesciência.
Urge fornecer ao jovem estudante de Fisioterapia uma adequada educação filosófica, muito particularmente na área da Epistemologia científica e da Filosofia da Ciência, eventualmente compartilhável no exacto momento em que lhe são dados alguns instrumentos de análise metodológica. Sem essas bases nunca o fisioterapeuta poderá seriamente fazer ciência e pensar a Ciência... e aqui utilizo o termo no seu sentido grego de «Epistémi», que significa "Conhecimento", "Razão" (sendo que, na escala platónica, a "Epistémi" se perfaz de dois níveis: um nível de "Dianóia", que tem mais a ver com o terreno científico - aqui, no sentido convencional/clássico e materialista do termo - e até clínico com que os terapeutas estão mais familiarizados, e um nível de "Noésis", que diz respeito ao nível de Razão que advogo, ao nível de Ciência - não entendida enquanto tal na sociedade moderna - que aproxima, e não distancia, Sujeito e Objecto, Investigador e Realidade Objectiva).
Haja, então, uma adequada aproximação do terapeuta/investigador ao terreno da Razão no seu sentido mais subtil, noético, que é precisamente aquele que aproxima, que funde, que torna tudo uma só coisa, sem divisões, fragmentações, inúteis abstracções. Reconheça-se a realidade inexorável do marketing a velar a realidade menos obscura dos métodos e das técnicas; dispam-se os métodos dos seus nomes e do fogo de artifício mercantilista, das suas teorias dogmáticas e estudos muitas vezes falseados, e espreite-se a natureza dos "signos" desses métodos... entender-se-á que há muitos significantes para um punhado coeso, parcimonioso e unitário de significados, muitos formatos para um conteúdo comum, muitas técnicas e modas para que, no fim, uma natureza "nua" do corpo Uno ouse gritar o seu domínio fenoménico, o único que importa ao terapeuta experiente, que deve ser aquele que vê a essência por trás de tantos véus, ilusões, aparências (o esotérico vale mais do que o exotérico, o interno vale mais do que o externo, o profundo vale mais do que o superficial, o Uno vale mais que o múltiplo, o Eterno vale mais que o Impermanente, o Princípio/Arché vale mais do que o tempo). É, decerto, um campo de trabalho aparentemente contra-intuitivo, até porque a educação ao estilo ocidental condiciona e doutrina as nossas cabeças para pensar somente nos termos do mensurável, do concreto, do dividido, do individual, do "separado", da "peça", do "corpo máquina"... E parece bem certo que, se o futuro trará a tecnologização compulsiva, a engenharia genética virá a ser fundamentalmente uma medicina de tipo "individual", adaptada à idiossincrasia genealógica de cada indivíduo, de cada alma. E é precisamente nesse momento, no puro momento em que os próprios conceitos de "alma" ou "Espírito" perderão a sua razão de ser, que o futuro trará a plena pacificação do sofrimento, pelo aprimoramento da resiliência genética face ao atrito do mundo exterior, o que significa que o homem hiper-racional, no sentido dado por milénios de construção filosófica e espiritual, terá o seu derradeiro desabrochar no palco da medicina e da farmacologia do futuro. Mas, mesmo nesse momento, lá continuará o fisioterapeuta a funcionar enquanto elemento do ambiente exterior, ajudando a desenhar o fenótipo, o design mais finalizado do sujeito, algo que não pode ser substituído por qualquer químico, pelo menos no palco que se vislumbra no século presente.
Reconheço que os organismos políticos não são sensíveis à visão de uma Fisioterapia pensada para um utente, para o seu corpo enquanto totalidade, para o trabalho realizado nas condições requerentes de uma (politicamente pouco desejável) consciencialização. Para o político vale somente o número de uma espécie de quantidades que possam ser medidas por si, pelos seus e sobretudo pelos eleitores. E à imagem desta perspectiva redutora, a Fisioterapia é pouco mais do que a massagem feita ao membro "dorido" ou do que a máquina que permitirá calar o sintoma funcionalmente limitador. Perante isto, como convencer as entidades de que um trabalho feito na totalidade, pensado com a necessária complexidade, poderá ter uma vantagem gigantesca em termos de prevenção da recidiva e de novas lesões, da "transmissão sintomática" e da recaída no já parco sistema português do optimismo individual?
Como demonstrar que o longo prazo importa, que a qualidade e o sentido de vida são o sumo da existência, que não há já ninguém que queira reduzir a sua vida ao estrago do labor obsessivo de uma precariedade de trabalho incessante?
Imagino o momento futuro de aproximação da Fisioterapia do modelo psicoterapêutico/psicanalítico: uma fisioterapia paga à sessão e não segundo códigos de métodos ou técnicas, uma fisioterapia decidida por quem faz, porque, no acto de fazer está o acto de avaliar, no acto de observar está o acto de tratar, no acto de manipular está o acto de testar; mais uma vez à semelhança da Psicoterapia, segundo o modelo "psicodinâmico", idealizo uma Fisioterapia em que a sessão de um só utente confunde propositadamente avaliação, registo e intervenção, num todo em que os métodos e técnicas "com vários nomes" perdem os seus rótulos para originar o acto "fisioterapêutico" como um todo e pago pelo utente ou pelo Sistema ou subsistema enquanto tal. Obviamente que valorizo a Fisioterapia no seu lado mais "artesanal", manipulativo, postural e motriz, relegando para segundo plano a quimera tecnológica que, a meu ver, sugestiona mais do que trata (se bem que, em certos contextos mais "desesperados", um placebo pode, de algum modo, ser um tratamento legítimo).
Imagino o momento futuro em que o fisioterapeuta será capaz de dispor de um franco capital de inteligibilidade, pelo menos um que lhe permita fazer jogos de raciocínio e  compreender as vicissitudes da "dinâmica" de um paciente, pois que, na ausência de capacidade analítica, fica flagrantemente comprometido todo o processo de intervenção, tratamento incluído. Mais importante do que "boas mãos", boas capacidades manipulativas previamente automatizadas no terapeuta experiente, é ter "mãos intencionadas por uma mente dona de um poderoso domínio do Raciocínio Clínico"; estas últimas cumulam a boa capacidade manipulativa com a flexibilidade sempre requerida à adaptação à nova situação clínica do paciente... e, a um nível microscópico, novas situações clínicas surgem a cada momento, com a possibilidade da infinitude do decrescer da escala e da dízima no espaço entre dois momentos imediatos... o corpo está em permanente - heraclitiana - metamorfose, e o terapeuta deverá ser a suprema "Testemunha" dessa fenomenologia da continuidade, desse paciente enquanto "existência a preceder a essência" (Kierkegaard), "ser que existe" (Sartre), "ser com intencionalidade" (Husserl), "ser-aí" (Heidegger), dessa transcendência na liberdade (Jaspers) ou auto-percepção corpórea (Merleau-Ponty). O corpo fala continuamente e o terapeuta interpreta a sua linguagem, ajustando ininterruptamente as mãos e a práxis à necessidade de um corpo cuja desarmonia requer reequilibração, cujo desequilíbrio ordena ao terapeuta a reposição do "mais" ou do "menos" que prenuncia o regresso à homeostase. A dialéctica subsiste no seio de tais transformações, e também na intimidade do canal que liga o objecto-Terapeuta ao objecto-Paciente. Já no meu «Corpo e pós-modernidade» me referi à dialéctica materialista e ao Idealismo dialéctico, duas vertentes que concorrem para a Unidade Terapeuta-paciente, na realidade dois pacientes, e, no fim, que também pode ser o Princípio ou qualquer (não) momento sem tempo, Um só paciente, uma Unidade intemporal, metafísica e não metafísica, pura fenomenologia que cruza o fenómeno Paciente com o fenómeno perceptivo num só Fenómeno que, apesar de terreno e concreto no sentido interpretativamente materialista, se torna Ideal Subjectivo tornado Objectivo, porque o que se passa dentro da mente do terapeuta se torna uma realidade per si, um fenómeno em si, que até poderia ser "sonho", mas, que, tal como diz o poema de António Gedeão, "(...) é uma constante da vida/ Tão concreta e definida/ Como outra coisa qualquer".
Perante isto, no testemunho da complexidade do Uno fenomenológico que preside à realidade interna do fisioterapeuta em constante e irrepetível transformação ôntica (como no "Dasein" de Heidegger), não é legítimo conceber que se conhece adequadamente um paciente - o seu corpo, a sua dinâmica sempre renovada - no tempo limitado de uma "consulta". E da mesma maneira é risível que se aceite que um médico fisiatra possa "prescrever" Fisioterapia, seja porque a Fisioterapia não é prescrevível, seja porque o conhecimento da infinita complexidão do paciente requer a infinita presença, o infinito manuseamento, a inextinguível e sempre perdurável relação de "intimidade" com o "outro". Nada que possa ser exaurido num tempo-limite da consulta de um médico que se sente tentado a não tocar no paciente. Nada que possa ser decidido por quem nada entende dos métodos precisamente mais holísticos, totalizantes... pudera... se o médico se mantém anquilosado no terreno da visão biomédica e prescritivista, como conceber que o mesmo conheça e domine métodos e modelos de uma mínima complexidade dialéctica? O máximo que o médico poderá prescrever, que é também aquilo que encontramos nos Códigos prescritivos, são técnicas desgarradas, com vista à sua utilização numa parte ou segmento do corpo, que, de qualquer modo, é o que os Seguros pagam, e não ouse o terapeuta tratar mais do que o membro, mesmo que a cervical esteja implicada, não ouse o terapeuta fazer algo que não esteja prescrito, pois é conveniente dividir as responsabilidades... Mas que responsabilidade é esta quando tudo parece ser decidido pelas regras do Sistema, muito mais do que pelo que identificamos no paciente?...
Como toda a percepção, como toda a cognição, como toda a fenomenologia, também o paciente é "construído" pelo terapeuta, com a subjectividade deste a condicionar a escolha de um paradigma interventivo e com este paradigma a ser muitas vezes imposto ao paciente que se pretende ver como extensão do modelo que se propugna. É a questão da subjectividade no seu sentido pós-moderno, tal como já referi neste ensaio e tratei com maior pormenor em «Corpo e pós-modernidade». E, diga-se, é, apesar de tudo, um mal menor. Pior do que isso é a "construção do paciente", num sentido mais consciente, mediada pelas pressões do Sistema e pelo afã de lucro. Muitos fisioterapeutas vivem correntemente situações anedóticas nas Clínicas de Fisioterapia. Todos sabemos, por exemplo, que é comum sermos forçados a tratar diferentemente doentes provindos de diferentes seguros. O utente do Serviço Nacional de Saúde é provavelmente aquele que tem direito a menos tempo e a menos "luxos", enquanto que o utente particular é tratado em gabinete particular, talvez com direito a tecnologias avançadas. Mas, independentemente da proveniência do doente, é comum a "prescrição" de métodos ser feita em função de factores irrisórios, à imagem da tendência massiva para "receitar" uma "manipulação vertebral" a quem dela pouco precisa só porque é uma técnica "bem paga", ou a tendência para evitar "receitar" Ultra-sons, porque o prejuízo do material e o tempo perdido pelo profissional não compensam o potencial lucro; há uns anos, ouvi a seguinte justificação: a doente X, por vir à hora Y, não teria direito ao laser, porque a essa hora, "os lasers estavam todos ocupados". Por outro lado, como sabemos, a utilização massiva de calores húmidos prende-se sobretudo por ser algo que dispensa a atenção e o tempo do profissional (frequentemente o auxiliar, aquele que não pode praticar legalmente a Fisioterapia), e a necessidade de rentabilizar o tempo do profissional que ganha à hora tem a primazia, não vá a Clínica dar prejuízo.
Pode parecer paradoxal que um "médico", supostamente dono de tamanho número de anos de formação, possa ser (claro que nem sempre) tão pouco ético e muitas vezes incompetente, mas os cidadãos ficariam consternados se imaginassem a quantidade imensa de maus diagnósticos, a incapacidade grotesca em fazer um exame objectivo, o alarve do exagero do pedido de exames complementares de diagnóstico inúteis. As excepções existem, é claro, mas, por vezes, parece-me que a regra dos diferentes profissionais - fisioterapeutas incluídos - é a incapacidade para se dar o máximo que se pode dar em nome do cidadão, dono do "corpo frágil".
Muitas destas temáticas são sabidamente foucaultianas, principalmente no que à temática do Poder diz respeito, pois que alguma desta incompetência tem por trás o desiderato de uma competitividade bacoca entre os profissionais com vista ao domínio do corpo do paciente. Não nos deixemos iludir: a grande maioria das lutas em prol de direitos por parte dos profissionais de saúde tem por trás a ambição animalesca, o ideal do domínio. Um Hospital é uma verdadeira sociedade hierarquizada, com os profissionais a respeitarem as decisões e os pareceres em função do lugar que ocupam na Hierarquia, nos termos dum papel de maior ou menor protagonismo.
Vã ilusão a dos cidadãos que imaginam poder confiar no seu profissional de saúde, que perdem a voz activa e o livre-arbítrio em nome da decisão "consciente" do seu clínico. O caos parece ser quase a regra e os serviços de saúde portugueses carecem de uma organização, de adequados critérios que permitam a aproximação à desejada Racionalidade. E se eles não existem é porque os interesses e as corporações falam sempre mais alto, e pretendem sempre vilipendiar a presunção de uma Ordem.
E já que de "Ordem" falamos, e sabendo nós que os fisioterapeutas carecem deste organismo profissional, quase não posso conter a minha curiosidade face aos critérios que uma Ordem dos Fisioterapeutas teria de criar para poder em si incluir os profissionais legítimos... Esperemos que os critérios não sejam muito rigorosos, se é que alguns virão a existir. É que o fisioterapeuta e a fisioterapia tal como existem no nosso país não são capazes de sobreviver a critérios de franca exigência...
Sejamos frontais. A Fisioterapia portuguesa situa-se na Era do Ferro (à semelhança com a quinta raça, que é, de facto, aquela em que nos encontramos), a mais baixa das Eras mitológicas. Faltam leis, falta uma Ordem, faltam profissionais de excelência (temos alguns, mas são ainda poucos), falta uma adequada representação intelectual, falta um trajecto de investigação académica, faltam publicações, faltam instituições de referência, assim como falta uma política de Saúde adequada que permita a utilização da grande Fisioterapia de vanguarda. Falta também um núcleo duro de representação da Intelligentsia fisioterapêutica portuguesa, incluindo o que considero urgente: a reflexão desprovida de poluição emocional, o exercício da Racionalidade no seu sentido Superior, Universal, e também construtivo, sugestivo duma mudança de Paradigma, quiçá, uma mudança de todo o Paradigma português e europeu, a começar pela reforma da mentalidade muito portuguesa que é ímpar no "bota-abaixismo", na crítica desconexa, no cepticismo mal dirigido, no pessimismo secular, na inveja dolorosa, na valorização das "aparências", no "enchimento de troféus inúteis", na pura cagança irrealista, no popularuchismo de natureza latina, no orgulho bacoco e na mais profunda inércia, no "deixa para depois", no "não vale a pena", no "não podes mudar o mundo". Mas, se assim é, se assim se pretende ser, porquê tanto queixume, porquê a tendência lamentável para o terapeuta português sempre se lamentar numa lamentação lamentavelmente lamentável?
Esquece frequentemente o cidadão português que o Direito é a consequência natural de uma luta, do exercício brioso de um conjunto de deveres, da demanda do mérito e dos aspectos algo contundentes com este relacionados. A luta e a ambição, o esforço de progressão, reiteram o seu lugar enquanto quesitos de afirmação, não podendo deixar de assumir o ridículo desta nova tendência para se avocar o preceito dos Direitos automáticos, porque legalmente instituídos, sem que tenha sido primeiramente demonstrado o seu merecimento. A Autonomia é um direito próprio do profissional que assume a complexidade de Ser e pensar, a inteireza da avaliação e intervenção enquanto pressupostos da plena assertividade do clínico; assertividade que importa mais pela Pessoa completa que urge enquanto tecido ontológico de suporte ao clínico do que propriamente pelo papel do profissional propriamente dito, com este último a ser muitas vezes o ser pessoal acrítico que, na defesa dos direitos da Corporação ou do Grupo parcelar, perde a natural liberdade de pensamento, a autonomia de Ser e "Tornar-se", que é, como sabemos, pré-requisito do Terapeuta verdadeiramente Total.
Assim, o "livre-pensador", um pouco à semelhança do preceito racionalista, não pode deixar de ser visto como condição obrigatória do Terapeuta, se bem que a sua Autonomia não implica a Independência, a impermeabilidade, a incomunicabilidade hermética. Antes pelo contrário, a assunção do profissional autónomo é pré-requisito obrigatório da assunção do membro da equipe, do grupo, da Sociedade, da Cultura, um pouco como a criança que requer a securização do seu Self para que possa dar-se, relacionar-se, amar e ser amor.
A autonomização e a complexificação da entidade profissional "Fisioterapeuta" (e igualmente do "acto fisioterapêutico", com este a dever ser único e irrepetível, como se uma intervenção devesse sempre ser feita como se fosse a "derradeira" e a "sublime"... Sagrada, porque repleta de significado, capaz de ser o momento único em que o tempo pára para deixar fluir uma quantidade massiva de Sentido, o momento em que tudo está plenamente pensado, nada a mais nem nada a menos, tudo com a sua "razão de ser", e portanto tudo escrupulosamente decidido e determinado, numa determinação para a liberdade da dança da Mónada Paciente-Terapeuta, alimentada pelo fluir em que os Corpos, o Corpo, se transtornam de pura Arte, harmonia do movimento perfeito e puramente livre. Resumidamente, o tratamento de um doente não é uma questão de tempos, pagamentos, sistemas ou qualquer outra coisa mundana e/ou profana; é um momento Sagrado, e portanto relativo à Pureza dum acto Criador, da Palavra/Logos enquanto Verbo do Princípio/Arché) urge, assim, enquanto condição prévia duma Totalização em que os membros de uma equipe, incluindo o paciente e sua família, se fundem num só elemento, já não equipe mas sim Uno fenoménico. É um pouco como as etapas da "salvação" do Eu, individual e colectivo, com um primeiro momento de assunção plena do 'Eu' demiurgo, do Super-Homem, e um momento final de diluição do 'Eu' no Todo, de transfiguração quântica das fronteiras da pessoalidade individual e grupal, para que soçobre a melopeia da infinita transformação, o murmúrio da voz de Deus feito caos embriagador da matéria dos sentidos transviados.
O orgulho de se ser terapeuta deverá, na extensão dessa elipse de prístina liberdade, cingir o eco da plena libertação do Eu, do outro, do mundo, logo feitos movimento perpétuo, uma sucessão de infinidade de posturas, e a postura a ser uma infinidade de movimentos, dança permanente da harmonia de um Universo em cíclica transformação, um entre muitos, uns dentro de outros, e outros tantos mais, numa sucessão infinda de infinidades, de parcas e ilusórias fronteiras.


Postura como movimento, movimento enquanto posturas

«Movendo-se, descansa (o fogo etéreo do corpo humano)»
Heraclito de Éfeso

O gesto lento, prolongado quase infinitamente numa dança em que o corpo do terapeuta e o corpo do paciente se transfiguram numa dinâmica quase promíscua, nua, íntima, plena, repleta de significação, lotada de um "locus" de sentido em que a possibilidade de trair o caminho para o equilíbrio é severíssima.
Um gesto a mais ou a menos, um pouco mais de força do que deve ser, um pouco menos de insistência do que o desejável, tudo isto pode comprometer decisivamente o caminho terapêutico, podendo magoar, ferir os resultados até ali obtidos, ou mesmo aniquilar a possibilidade de uma continuidade. O bom-senso, a razoabilidade, qualidades difíceis de definir, de mensurar, mas obrigatórias ao terapeuta que se assume como tal. Dimensões que revelam a quintessência da Fisioterapia, o seu lado mais qualitativo e irredutível a sistematizações, a regras de conduta ou a guias de prática, mas que são a "última palavra" que decide o terapeuta que irá sê-lo no verdadeiro sentido do termo, ao invés de um "terapeuta" que nunca conseguirá verdadeiramente ser um clínico capaz de "viver" o seu paciente, capaz de "tornar-se" o seu paciente, na plena coesão de um "ouvir", de um "sentir compreensivo", de um "ser capaz de se colocar no lugar do outro".
Dimensões que resvalam continuamente nas mãos de terapeutas que limitam o seu acto ao reduto de um "é assim que manda a regra" ou "o exercício é feito deste modo obrigatório", como se o manusear não devesse ser arte internamente criativa, como se a Fisioterapia não devesse ser puramente arte, dançaterapia, escultura em movimento, como se cada momento do "toque" não pudesse firmar a procura do derradeiro instante de prístino Belo, sagrado desvelo, momento de fusão com a irrefutabilidade da presteza divina. E é assim que o acto ou gesto fisioterapêutico deve ser lento, moderado e contido numa estoicidade embriagadora, vivido e prestado necessariamente por um ser controlado, livre, esvaziado de oscilações mentais e instabilidades internas, portanto sereno, pacificado, capaz de imprimir ao paciente a direcção de um momento de alívio, de libertação face ao agrilhoamento da tensão e da dor. E é assim que o acto ou gesto fisioterapêutico deverá sempre que possível ser longo, prolongado num tempo jamais programado ou mundanamente limitado, dono da lentidão própria das coisas da natureza, porque esta última, na sua inalienável sabedoria, sabe tecer a perfeição com a lentidão de um tempo "perdido" (Proust), porque as coisas belas e perfeitas requerem tempo, e já a impaciência, a pressa e a rudeza são inimigos declarados da perfeição. E é assim, finalmente, que o acto ou gesto fisioterapêutico deve evitar o mais possível a dor, o sacrifício, o sofrimento muitas vezes imputado como "marca" do fisioterapeuta e de uma terapia vista como necessariamente qualificada.
A dor alimenta a apreensão, o espasmo, as defesas, promete tornar a Fisioterapia um momento criador de outras necessidades fisioterapêuticas, como se o momento da terapia quisesse trair a qualidade de vida em nome de uma função quantitativamente louvável; como se só os números contassem e a dor fosse o único modo proficiente de alcançar resultados, quando é a persistência e a temporalidade que fazem a Obra. Não, não vejo como conceber um corpo de pedra ou uma argamassa biomecânica destinada a levantar pesos e a esforçar-se como que imbuído de competitividade atlética. O corpo é frágil, uma verdadeira rosa de cristal dona de limites que não pretendemos ver corrompidos por uma estúpida cultura do "No pain, no gain" que confunde sacrifício físico sem sentido com o sacrifício espiritual do peregrino que caminha descalço no "deserto dos tártaros". Queremos um corpo respeitado, tratado como elemento do Sagrado que o próprio acto fisioterapêutico reitera. Não queremos o momento sacrificial trôpego que o paciente rapidamente imprime em si como aquela hora do dia em que será sujeito à tortura, ao maquiavelismo de um "princípio sem fim" ou de um acto destituído de um "fim em si".
Daí que o fisioterapeuta não pode jamais deixar de ser poeta, psicanalista, bailarino, escultor, músico, pensador, capaz de fazer do movimento-postura o momento profundamente expressivo da intenção do alcance de um Sentido, coisa risível para quem transforma o movimento nos padrões mecânicos de uma máquina destituída de conteúdo e para quem traveste o seu paciente de um levantador de pesos ou de um atleta como "coisa acabada" (quando nunca nada é coisa definitivamente "acabada") capaz de se lançar alienadamente na produção industrial dos movimentos repetidos incessantemente na fusão com a cultura massificada e plastificada dos "tempos modernos".
E cuidai que o fisioterapeuta que se move nas entranhas desta cultura, como aquele que permite ao atleta competitivo produzir a acção destruidora e violenta, somente porque a máquina do Sistema assim manda e demanda, é um cúmplice de um crime, do crime de fazer a violência ao corpo cristalizado que tantos anos requereu para atingir um certo estado de riqueza práxica.
O fisioterapeuta que se envolve neste crime não é mais um profissional de saúde. É somente (mais) um agente de um Sistema que tresanda a nulidade de um paradigma económico também ele a tresandar a desgaste e a putrefacção. Tenho vergonha por estes fisioterapeutas e por este Sistema. Tenho vergonha que a Fisioterapia mais "mediática" seja precisamente esta que produz "máquinas" da diversão das massas, na pletora de um modelo "moderno" que alguns pressupõem "evoluído", numa estúpida incapacidade de distinguir "modernidade" de "evolução", "desenvolvimento económico" de "desenvolvimento humano", "capital financeiro" de "capital de felicidade", "felicidade quimérica" de "felicidade espiritual", "ilusão" de "revelação".
O tempo alimenta a entropia, o envelhecimento e o desgaste, e a modernização e o suposto desenvolvimento implicam mais a confusão de vozes e a relativização e multiplicação de gestos do que propriamente uma adequada evolução - muitas vezes confundida com o avanço temporal -, com esta a requerer o retorno à Estrutura arquetípica, a paragem do tempo no paraíso do "Eterno presente". O terapeuta que actua no paciente não deve reificar a secularidade, numa atitude de "eterno retorno" ou "eterna dialéctica" que permite somente criar a ilusão placebetária ou a resignação da vivência na dor; deve, sobretudo, ser o Super-Homem capaz de fazer do paciente outro Super-Homem, um Ser genuíno retornado ao Arquétipo da Consciência pura e desalienada, dono de um corpo enquanto extensão antecipatória da Idade de Ouro, aquela que ousa a beatitude do Nada, da ausência de atrito, de "mal" ou sofrimento, e portanto da ausência da própria evolução, porque já nada requer libertação, porque o Nada é já a Liberdade transtornada num caos de escalar quântico.
Pretende-se um corpo "paciente", que, na perspectiva do "eterno presente" intemporal, é movimento perpétuo, sucessão infinita de pontos ou posturas, e a postura a ser infinito movimento, tudo é o mesmo, tudo é uma só coisa, e também o eterno devir e o eterno retorno são o eterno presente, assim como a liberdade pura, o Ser Total, é o Nada, o Não Ser, e o Absoluto é o Caos, o Inefável, o Irredutível.
Logicamente que o momento da Fisioterapia não é o Absoluto, se bem que se aproxima e reitera o Arquetípico, e, à semelhança do que acontece com o mito, pretende renovar o "Princípio", repetir o "acto criador", retornar ao Arché enquanto modelo exemplar, e é por isso que o acto fisioterapêutico deve ser um acto sagrado, porque renova a condição originária, porque reinicia a perfeição da Criação, e é também por isso que o fisioterapeuta é um demiurgo e tanto o seu corpo como o seu acto devem ser puros, prístinos, extensões do que se pretende reificar no corpo do próprio paciente.
O tempo bem aproveitado desempenha a função descondicionadora, recriadora, alquímica, gnóstica, e, no percurso do processo expansivo, tornar-se-á mais lento, na mesma medida em que o aumento da consciência abre o Ser à pureza atemporal do Arché.
Erros, defeitos, más escolhas, dúvidas são também um elemento necessário, até porque o terreno maculado e inconsciente das trevas subterrâneas e saturninas imiscui a estrutura arquetípica de pureza virginal com os fantasmas do condicionamento castrador de um mundo de temporalidade carnal e deterministicamente relativo.
À semelhança do que acontece com as Eras do Esoterismo, o tempo arquetípico é um "não tempo" paradisíaco, mas em que a liberdade animalística e infantil, como no "bom selvagem" de Rousseau, funciona como uma pseudoliberdade, no sentido em que o conforto operado pela condição primitiva implica a dependência do modelo primário dos deuses/pais; e o tempo histórico é o tempo do condicionamento que ora desagrega, relativiza, desabsolutiza, vela, macula e carnaliza, ora civiliza e imprime a consciencialização ética, significando isto que a História tem uma dupla vertente destrutiva e evolutiva, relativizadora e organizadora, diacrónica e sincrónica, diabólica e simbólica, maleficente e beneficente, pecaminosa e accionadora, veladora e reveladora, com o aspecto segundo (da Luz) a permitir o aumento gradual do patamar de consciência, o mesmo que consentirá ao ser atingir o estado de Demiurgo/Super-Homem/Pai e criar o seu próprio Arché ou Totalidade noética manifesta (numa fase em que teria conseguido libertar-se do processo cíclico de "eterno retorno" e, portanto, do arquétipo modelar do pater... se bem que o seu próprio Arché se encontra no paraíso desse pater e, portanto, o encontro do "Princípio" autonómico reitera o encontro arquetípico primevo, no seio da odisseia do regresso ao lar), o seu próprio paraíso, senão a sua própria condição divina de pura liberdade (aqui já não demiurgo, mas sim Deus Totalidade imanifesta e irredutível), com esta a ser problematizada pela perspectiva pessimista de um fatalismo de determinismo materialista que opõe a caverna da corporeidade ao intento da libertação, ao puro "Nous" e, obviamente, à obtenção de níveis de evolução metanóica.
Não me alongarei em temas que tratei mais pormenorizadamente nos meus livros «O Corpo e o Nada» (2013) e «As Metamorfoses do Espírito» (2013), até porque a perspectiva pessimista - igualmente apresentada - do eterno retorno e do regresso cíclico às trevas involutivas (cunhada especialmente em «As Metamorfoses (...)») poderia desanimar o terapeuta que se pretende motivado na "recriação" do "Opus" alquímico do seu paciente, se bem que a óptica esotérica pretende que a evolução cíclica propicia um "regresso" a um ponto mais alto, mais evoluído, mais próximo do topo da montanha.
E se o fisioterapeuta pretende reactualizar o momento inicial no seu paciente tal não será possível sem que a própria Fisioterapia inicie o seu íntimo caminho evolutivo, a sua própria gnose, a sua própria Obra alquímica, no contexto da entrada na Nova Era, na pós-modernidade que é, de algum modo, a reactualização dos antigos tempos de valorização da Espiritualidade profunda.
Caminho que irá requerer inicialmente o Singular, para mais tarde uma mudança mais profunda de paradigma ser internamente compreendida por um grupo mais abrangente, quiçá toda uma Classe profissional (imediatamente antes do tempo em que a própria divisão em profissões e classes deixará de fazer sentido, porque a ambição da Totalidade itera a diluição das categorias, e portanto a transformação da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade numa "transUnidade").
A singularidade do momento único de uma Fisioterapia pensada no jogo da multiplicidade de factores, na diversidade de olhares, em que a visão de uma "razão dialéctica" (Sartre) do relativo não abandona jamais o seu caminho, simultaneamente de retorno e evolutivo, no sentido da afirmação do Espírito, no sentido inicialmente subjectivo, no sentido derradeiro de uma Totalidade que nunca deixámos de ser.
É essa Fisioterapia enquanto prática espiritualizada, no seu sentido esotérico pós-moderno, que desejo para o futuro próximo, para o futuro da Nova Era, o mesmo que permitirá cruzar todas as estruturas e narrativas no ensejo valioso de criar toda uma Meta-narrativa de base canónica e categórica e de ápice desconstrutiva e pluridimensional... uma Fisioterapia sem medo de se pensar nas suas múltiplas problemáticas, com vista à sacralização do acto de "tratar", do instante de "tocar".
 
Publicado em 'Hospital do Futuro': http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blog/show?id=1967198%3ABlogPost%3A40449 e no livro «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma)

quinta-feira, agosto 29, 2013

A triagem dos enfermeiros nas urgências hospitalares

A propósito das declarações do Bastonário da Ordem dos Médicos acerca da menor competência dos enfermeiros para realizar as triagens das urgências hospitalares, acto basilar do processo da equidade no atendimento, não posso ignorar a necessária ressalva face a mais uma ignóbil e frustre polémica, que, a bem ver, nada mais é do que o aproveitamento de casos excepcionais do funcionamento dos Serviços de Saúde para fazer valer um lóbi face a uma Corporação em emergente crescimento.
Sou insuspeito, até porque ainda há pouco tempo era eu o autor de uma polémica que contrapunha terapeutas a enfermeiros, assumindo eu um pouco a salvaguarda dos direitos dos terapeutas face à crescente prepotência dos enfermeiros e da figura do enfermeiro "Super-Homem". Mas eis que, atendo a nova polémica das "triagens", não posso deixar de dar razão aos enfermeiros e de condenar as afirmações e actos do Bastonário da Ordem dos Médicos.
Enquanto fisioterapeuta que sou, com treino aturado na compreensão do raciocínio clínico, o qual inclui a relação dialéctica da capacidade de diagnóstico (clínico e funcional) e da capacitação de realização do exame subjectivo e objectivo do paciente, posso assegurar que, muitas vezes, é impossível compreender completamente a situação clínica do doente, mesmo no decorrer de diversas consultas ou sessões de tratamento. É que o paciente compreende todo um Universo semiológico, para não falar da complexidade da relação dos sistemas orgânicos entre si e em relação com o "Sistema psicossocial", e muitas vezes situações aparentemente simples, como manifestações clínicas específicas, escondem processos complexos, que chegam a nem sequer ser adequadamente compreendidos no decurso de uma ou mais consultas.
A presunção de que há uma relação directa entre a patologia e a manifestação vigora somente entre quem não entende que o mundo da Saúde envolve todo um manancial de sistemas, modelos, paradigmas, e também multi-valências, com os consequentes conflitos interdisciplinares (quando o funcionamento da Equipe continua a ser defendido como ideal, no seio de outros horizontes...), os quais, na verdade, não deixam de escamotear o desiderato do poder.
O mundo da Saúde tem muito mais a ver com o irracional do que os cidadãos possam sequer imaginar, e presumir que há modelos perfeitos é, no mínimo, vogar no desconhecimento ou na hipocrisia. Daí que não posso deixar de condenar as afirmações do Bastonário da Ordem dos Médicos, até porque também os médicos conhecem as referidas dificuldades de diagnóstico e vogam em todo um mundo de relativismos e incertezas (malgrado a petulância de alguns profissionais que se afirmam como totipotentes, e que, por isso mesmo, acabam por errar ainda mais).
As afirmações referidas não passam de todo um aproveitamento contextual, que é o mesmo que é utilizado para fazer guerra a profissões que se encontram em situação de definição emergente. Quem trabalha em Saúde, sabe que este género de oportunismo é frequente, tal como a constância da luta entre profissionais em nome do domínio do Sistema e da "posse" do paciente.
O Sistema de Triagem não pode jamais ser perfeito, até porque não se trata de um contexto de diagnóstico mas somente de um processo de selecção da ordem do atendimento. Face ao que já disse, e acrescentando-lhe as condições e os tempos bizarros de atendimento do paciente, não podem restar dúvidas de que é impossível que a tarefa dos enfermeiros possa ser desempenhada com total ausência de erros. E nada garante que a maior formação dos médicos implique que os mesmos erros diminuam significativamente; a não ser que esse atendimento fosse feito em muito mais tempo e com uma acuidade muito superior... o que não deixa de ser risível, pois deixaríamos de ter uma triagem e aproximar-nos-íamos do modelo actual (e, diga-se, pouco benemérito) de consulta médica.

Publicado em 'Hospital do Futuro': http://www.hospitaldofuturo.com/profiles/blogs/a-triagem-dos-enfermeiros-nas-urg-ncias-hospitalares

quarta-feira, agosto 21, 2013

As Metamorfoses do Espírito: em breve...

Desde já anuncio a saída, para breve, do meu próximo livro, do qual revelo o título: «As Metamorfoses do Espírito. Sobre o Mal, a psicologia da Filosofia e o Super-Homem. Ensaios poemáticos e fragmentos luciferinos» (pela Apeiron Edições).
 
Vão alimentando a ideia de ler um livro politicamente incorrecto e muito pouco convencional!!...
 
 

sábado, agosto 17, 2013

Nietzsche e a psicologia do Super-Homem


"O homem é uma coisa que tem de ser superada"

"Anuncio-vos o Super-Homem, aquele que há-de dominar a Terra"

Nietzsche («Assim falava Zaratustra»)


Se considerarmos que a Espiritualidade conforma um terreno que se estende desde o desiderato da "Psicologia do auto-conhecimento" - e que inclui obviamente o papel da religião (e, claro, do mito) como retorno saudosista (à semelhança do que propende a Psicanálise), como "reactualização nostálgica das origens" (Mircea Eliade) - à moral martirizada da "renúncia" (que se reifica com o 'Nada' da Voz meditativa do Silêncio e concretiza derradeiramente com a morte pacificadora), podemos considerar que é sobretudo a primeira perspectiva mais "psicológica/psicanalítica" que interessa mais à noção do Super-Homem tal como apresentada por Nietzsche em «Assim falava Zaratustra»; este mesmo Super-Homem é, assim, o resultado derradeiro de todo um crescimento, um pouco como o produto finalizado de um processo de Gnose pessoal, a meta de um caminho epopeico, que é no fundo a tragédia da vida psicológica e intelectual.
Sabendo nós que a via Ética genuína implica a renúncia e que o verdadeiro amor reitera o abandono do Ego (o desapego que um certo Budismo refere), é igualmente vero que nenhuma via de auto-exclusão poderá fazer com que, de facto, um efectivo crescimento transpessoal e civilizacional possa ocorrer. E esta perspectiva não pode deixar de recolher o consentimento próprio da modernidade, que é, de algum modo, o contexto temporal por excelência da valorização das relações inter-pessoais e mundanas, acrescentando-lhe por detrás o cenário de uma valoração científica materialista que há muito contribuiu para dessacralizar o tecido social e igualmente de uma valoração política liberal que veio contribuir para reificar uma dupla perspectiva de vida Individualista vs. Igualitarista.
E é precisamente a imersão neste contexto liberal empossado pela moda "darwinista" e reaccionado pela revolução Socialista que veio dar a Nietzsche uma força motriz elevada na geração da sua perspectiva do Super-Homem, que viria a ser um dos pré-requisitos históricos capitais da criação das teorias de Freud e de uma parte significante da Psicodinâmica.
Influenciado pela revolução científica do séc. XIX, e bem consciente da há muito anunciada "Morte de Deus", Nietzsche viria a contribuir para uma avalanche "secular" verdadeiramente dessacralizadora, tendo contribuído, como nenhum outro, para demolir as noções "românticas" do Espiritualismo e de todas as Metafísicas, e também para mostrar que todo o Idealismo tinha por trás a razão própria de cada um, a necessidade doentia de cada Ego, a projecção psicológica de uma ilusão, enfim... contribuiu para denunciar a aspiração Espiritual como meramente "humana, demasiado humana".
A pretensão da renúncia seria assim vista como doença do crescimento, medo da evolução, necessidade de totalização de um Eu que tem a fobia da aventura de ser; e, tal como defendido em «A Genealogia da Moral», a moral cristã seria somente o resultado da destituição de um tipo de moral mais antiga, que é a "moral dos fortes", a "moral aristocrática".
Para Nietzsche, o homem é sobretudo uma condição intermédia entre o animal e o Super-Homem, e o ser humano está destinado a crescer e a "tornar-se". O que vem em abono da perspectiva da evolução pessoal, do crescimento do nosso Eu, o qual irá implicar o "retorno", o recuo às memórias, e até o "marca passo", para que, no fim, após um caminho realizado enquanto "Odisseia", todos os condicionamentos tenham sido vencidos e a Liberdade (ou, pelo menos, a sensação da liberdade) tenha sido obtida.
Esta meta seria a do Super-Homem, ou seja o homem que foi capaz de se transcender - se bem que não tenho a certeza se este caminho possui um "fim" - obtendo-se um Ser capaz de criar os seus próprios Valores, que podemos interpretar como o homem maduro que se torna criador, de obra ou dos seus filhos.
Ora, se bem que existe uma tentação de associar ao Super-Homem aquilo que seria o resultado de um longo trabalho de divã psicanalítico (que pode ser interpretado como o caminho próprio de transmutação que todos estamos destinados a perpetrar no devir das nossas vidas), não posso deixar de acrescentar que esta é uma interpretação, que apesar de se manter válida e aceitável, não condiz, ainda assim, com a perspectiva que Nietzsche apresenta a partir de «Para além de Bem e Mal», em que o Super-Homem é apresentado enquanto Elite aristocrática destinada por várias gerações à grandeza, e portanto não alcançável pelo "comum" (malgrado as filosofias liberais e igualitaristas pouco aceites pelo filósofo); por outro lado, se bem que concebo que a via do crescimento e da formação do Super-Homem acaba por permitir a eticidade, este tipo de moral não corresponde, de facto, ao tipo de "moral darwinista" com a propensão competitiva da Vida que Nietzsche tanto parece estimar.
Os aspectos das obras de Nietzsche posteriores a «Assim falava Zaratustra» não implicam que não possamos dar livre interpretação a essa fantástica obra que propende que o homem está destinado a ser ultrapassado, de modo a criar o «Super-Homem», que, a meu ver pessoal, existe em potência em cada um de todos nós, e que, sendo alcançado (ou "desvelado"), permitirá a harmonia, no sentido em que a fixação da estrutura fálica ou o pilar fundamental do Eu levará automaticamente à capacidade do Eu de se virar para fora de si (é um facto, que a tolerância e a dedicação aos outros não podem ser obtidos sem que primeiro o Eu se encontre a si mesmo).
Penso que, na actual fase de "défice narcísico" da Humanidade, em que o egoísmo assumiu proporções desmedidas e o individualismo se tornou um valor dominante, é precisamente o alcance do Super-Homem (e só depois de uma "Super-Humanidade") que reitera a prioridade. Não do Super-Homem aristocrático e individualista, porque esse já o temos e em excesso! Mas do Super-Homem cheio de amor, primeiro do auto-amor do Super-Homem individual, e só depois do Amor Universal do Super-Homem colectivo.
Como já disse, a via implica o caminho próprio, até porque a verdadeira Sabedoria tem de ser "não mediada". Não se pode esperar que sejam os outros a fazer este caminho por nós; isso seria arriscar a substituição do Crescimento pelo Conforto, que, apelando à analogia com a Espiritualidade, é como substituir a espiritualidade esotérica pela religião exotérica (que, como sabemos, corresponde ao que de facto aconteceu com a Humanidade, principalmente desde as trevas cristãs).
Ora, percebemos, então, que a Espiritualidade inclui este "caminho" do "Auto-conhecimento", e que não é só o que Nietzsche nela quis identificar: a renúncia. O caminho ascético e a renúncia à mundaneidade são, apesar de tudo, caminhos nobres de Eticidade, mas parece-me que, não obstante a possibilidade de serem somente uma construção velada dos espiritualistas racionais (ou mera projecção psicológica do Idealismo), ancoram numa via final de silenciamento ou pacificação que a Humanidade não se encontra actualmente preparada para substantivar.
Assim, o crescimento, o silenciamento e o encontro do «Nada»/Absoluto - fases do "processo Espiritual" - poderiam corresponder precisamente às fases da vida do homem/Humanidade, em que o crescer da criança e do adulto (fase actual em que se encontra o Colectivo) seriam terminados pela pacificação da maturidade (e em que a entrada no silêncio sem a adequada integração do corpo egóico poderia implicar uma danosa "fuga para a frente", que os psicanalistas, de algum modo, denunciam nos que se "anulam a si mesmos", e em que, por outro lado, a vivência ad eternum do corpo egoísta destinaria o Homem ao temido "eterno retorno").
Empreendamos, consequentemente, o desejado caminho para o Super-Homem, que, ainda assim, estamos destinados a ser, nesta nossa impossibilidade de não sermos Amor.

 
in «A Clínica do Sagrado. Medicina e Fisioterapias, Psicanálise e Espiritualidade» (Edições Mahatma)

quarta-feira, julho 10, 2013

Eu mesmo como o Infinito


«O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima»

(Corpus Hermeticum)


Associamos frequentemente a palavra "Espírito" ao que em nós há de mais etéreo, à essência suprema sentida como coisa elevada, quando, na verdade, nem o "Espírito" é sinónimo de "Alma", nem o que ao "Eu" diz respeito tem a ver necessariamente com a matéria espiritual. Na maioria das Espiritualidades antigas, o "Espírito" acaba por adoptar um cunho de transcendência, que, a determinada altura, leva o "Espiritual" a ter mais a ver com a Totalidade e o Infinito que tudo e todos inclui do que propriamente com a matéria da carne que nos cerca, possui e domina. Por outro lado, essas mesmas Espiritualidades aceitam igualmente que o Espírito da Totalidade existe em cada um de nós, um pouco como se o nosso 'Eu' mais subtil - o Superior que há em nós - fosse a extensão ou o espelho do Divino, o que não deixa de, para já, vir confundir um pouco as hostes.
É inegável que grande parte da espiritualidade antiga, nomeadamente o Sanathana Dharma (conhecido popularmente como Hinduísmo), tinha como mote fundamental a "extinção do sofrimento", o que, a determinada altura, poderia passar pela superação do Corpo, do 'Eu' pessoal, carnal e até psíquico, de modo a que o 'EU' superior, já não pessoal mas colectivo, já não carnal mas espiritual e impalpável, pudesse ter lugar. Claro que o trajecto obvia um caminho que passa pelo 'Eu' carnal, emocional e psíquico; caminho "que se faz caminhando", com a espontaneidade própria do trajecto evolutivo, com as necessárias dores do crescimento, a via do peregrino que se chega a arrojar pelo atrito do trilho pedregoso, uma verdadeira epopeia pessoal inclusa de avanços e recuos (pequenos céus e pequenos infernos), a tragédia da vida que conhece quedas subterrâneas e aviltamentos de luz; mas tudo isto, toda esta evolução, visava a superação deste Corpo que parece arrastar-se eternamente, para que um novo estado (iniciático) de Luz espiritual pudesse ser alcançado. Nessa Luz, o 'EU' superior que parece ter vencido a necessidade de novos caminhos (aliás, novos regressos reencarnativos), poderá finalmente libertar-se da dor, do sofrer.
Daí que, ao contrário do que muitas pessoas julgam, e conhecem através de certas formas de espiritualidade e/ou religiosidade popular (ou seja, exotérica, relativa ao exterior), o "Espírito", no verdadeiro ("esotérico", interior) sentido do termo, tem mais a ver com uma Totalidade já não pessoal mas colectiva, com algo que já não é 'Eu' no sentido da consciência pessoal ou das sensações psíquicas, do que propriamente com a matéria de que trata grande parte da Psicologia individual (pois a mente ainda se mantém ao nível do Corpo); passei uma boa parte do tempo do meu recentemente publicado «O Corpo e o Nada» (Apeiron Edições) a explicá-lo, se bem que, para tal, posso ter utilizado processos mais ou menos indirectos. A própria meditação passa por ser, de certo modo, um processo de morte da auto-consciência. O que, obviamente, mais começa a parecer a fuga do corpo (um pouco o contrário do que pretende grande parte da psicanálise) e o alcance do 'Nada'.
Por outro lado, existe igualmente a necessidade de se conceber uma representação "individual" do Espírito (porque, afinal de contas, "o homem foi feito à imagem de Deus"), segundo o ponto de vista de que cada um de nós possuiria um nível superior, um "EU" eterno que se mantém "entre vidas", aquele que precisa de ser reificado com a actividade evolutiva do "Eu" inferior (este, sim, a diferenciar-se nas múltiplas reencarnações), o que quase nos leva, de algum modo, a atentarmos numa arriscada analogia entre o desiderato da Psicologia e o desiderato da Espiritualidade. Não será que tanto a Psicologia moderna quanto a antiga Espiritualidade têm simplesmente em comum a preocupação com o crescimento do homem, que, às tantas, à força de descobrir a sua substância primária, se securiza e engrandece, podendo vir a tocar construtivamente o Outro, um pouco como o espírito individual a ser Espírito no sentido da Totalidade e do Infinito?... Teríamos, aqui, até a possibilidade de tanto a Psicanálise como a Espiritualidade poderem constituir dois formatos histórico-conceptuais com um objecto comum, se bem que, no livro que já citei, já terei defendido que o desígnio ético da Psicanálise parece não ter a grandeza da Espiritualidade esotérica...
E este objecto passa em grande parte pela redescoberta do momento gerador, do Início da matéria, da vida, da consciência, que é disto que fala o "Arché" dos gregos, correspondente ao "Princípio" bíblico, o mesmo que necessitou de uma ordem divina, o Verbo de Deus (o Logos dos gregos), que pode ser a dor da mãe que dá à luz ou a voz do Pai criador e consolador, de uma consolação que relembra a religião dogmática ou a espiritualidade "terapêutica". E é esta redescoberta ou reactualização das Origens que leva à criação da certeza de que somos Pessoa, que somos Ser, agora tornado livre, tornado Deus, futuro Deus-Pai criador. E é disto tudo que tratam todas as Espiritualidades, que, ao contrário do que muitos pensam, têm muito em comum e em interdependência: a filosofia da Índia, incluindo o próprio Budismo e o Jainismo, o Tao dos chineses, as religiões de mistérios, o Hermetismo e a Gnose, o mitraísmo da Pérsia, a mitologia grega, o Pitagorismo, o Platonismo, e o Esoterismo que nos é mais próximo, no formato da alquimia, da verdadeira astrologia, do rosa-crucianismo, da maçonaria, da teosofia moderna, e também o que há de mais profundo nas religiões do Livro (Judaísmo - incluindo a Cabala -, Cristianismo - incluindo o gnosticismo e os textos apócrifos -, Islamismo - incluindo o sufismo), e tantos outros formatos, jangadas que visam, pela via da filosofia Racional (que, obviamente, transpõe muito o domínio da fé e até o domínio do que geralmente entendemos por Razão...), o alcance da Verdade (o momento em que o 'Eu' e o 'Outro' se tornam um só), que não é alcance nenhum porque o Absoluto nunca deixou de estar em nós, e só não o víamos porque éramos homens corporeamente aprisionados nas nossas cavernas de carne, nos nossos presentes de materialismo tecnocrático.
Parece difícil aquilo que escrevo mas tudo será sentido como simples depois de realizado o necessário desvelamento; porque a Verdade (velada) está em nós, e, alcançando-a, transpomos o nosso Ego, e é por isso que o Espírito é visto como Transcendência, como coisa que transpõe o 'Eu' para passar a ser o Infinito. O que não significa que tudo isto não passe de um 'Eu' iludido e alterado no seu estado de consciência... o que, em última análise, lá nos leva a submergir novamente no 'Eu' que somos, no 'Eu' que queremos ser, no 'Eu' que já é o Outro, no 'Eu' mesmo como o Infinito.
Se tudo isto pode "doer" por dentro, se quem me lê já sente essa dor, então já terá sido iniciado mais um caminho pedregoso do peregrino, mais um passo no sentido da desocultação do Oculto, e quem me lê é já, de certo modo, um "iniciado", num caminho que convido a fazerem comigo, se bem que só posso ajudar na "revelação" ("revelar" significa, na verdade, "mostrar que está velado") mas nunca no "desvelar" (a verdadeira Sabedoria tem de ser vivenciada pelo próprio, não pode ser mediada por algo ou alguém, incluindo bem intencionados, mentores, terapeutas ou Igrejas... malgrado a heresia presente...). Se pretendem uma paz imediata, então talvez não a consigam de tanto a desejarem; acabo com as palavras bíblicas, associadas a Jesus: «Não vim para trazer a paz, mas sim a espada».
 
(Texto escrito num contexto introdutório)

quinta-feira, junho 06, 2013

O enfermeiro português será um Super-homem?

«Acusar os outros de ignorância porque desconstroem as realidades fabricadas na aparência é, no mínimo, ser escravo e disso ter orgulho» (in ‘O Corpo e o Nada’, 2013, Apeiron Edições)
 
O facto de se viver em Portugal um clima de profunda depressão psicossocial e económica justifica a eventualidade de certas lutas corporativistas serem vividas com inédita agressividade mas não justifica que essas mesmas lutas assumam o aspeto de uma tentativa de conquista da própria Realidade. É bem sabido que o contexto dos sistemas de saúde é, como sempre foi, dado às lutas de poder e aos conflitos interdisciplinares (ao mesmo tempo que uma certa ética das “boas práticas” reitera a importância do trabalho em equipe), mas uma situação única, verdadeiramente inédita no Mundo, está a suceder e tem criado, agora mais do que nunca, um enorme cisma entre os profissionais de saúde. Trata-se do fenómeno do “enfermeiro” enquanto Super-homem (no sentido quase nietzscheniano do termo) que se arroga a capacidade de poder praticamente substituir o trabalho de todas as outras profissões de saúde, situação que ganhou um crivo particularmente consternador com a recente saída da Circular Normativa n.º 19/2013/DPS de 15 de Abril de 2013 da ACSS relativa à “Uniformização dos Registos de Enfermagem em Cuidados de Saúde Primários”circular-normativa-19-2013-DPS.pdf.
Se é já algo conhecida a intenção do enfermeiro de “substituir” o médico em muitas das suas competências, o que inclui a ambição do primeiro de vir a ater o poder de “receitar” exames complementares e medicamentos – o que é estranho, atendendo ao discurso do (mesmo) enfermeiro enquanto profissional “holístico” e “não médico”, apologia da autonomia que deveria ser compatível com um espírito “clínico” menos prescritivista – é provável que muitos portugueses não tenham ainda uma grande consciência de que a ambição a longo prazo do enfermeiro passa por vir a substituir muitos outros profissionais nas suas diversas habilitações. E, observada e estudada a Circular em questão, as competências que se apresentam como sendo “do enfermeiro” incluem muitas das atividades normais do fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, terapeuta da fala, psicomotricista e psicólogo, profissões cuja especialização permite, com obviedade, a execução das ditas atividades com um grau bastante mais elevado de competência. Competência obtida a partir de um modelo de expertise que tem por trás anos e anos de formação graduada e pós-graduada, experiência e treino específicos, assomados a formações e vivências singulares, que honram o espírito da “arte”/”ciência” em questão na sua densidade científico-académica e técnica e na sua maturação humana e espiritual num ponto comparativo que é o do nível dos pares internacionais… com tudo isto, toda esta riqueza concetual e multiparadigmática, dada por anos de vivências insubstituíveis por parte dos mesmos profissionais que criaram, pensaram ou amadureceram grande parte dos métodos referidos no documento, a ser ridicularizada, pretensamente “diminuída”, por uma Circular (apadrinhada por interesses particulares e economicistas) que adota a falaciosa teoria da “Polivalência”, que, de tão “Poli” pouco terá de “Valência”.
É certo que a Circular só se refere aos ‘Cuidados de Saúde Primários’, mas é um precedente que se abre agora e se torna aparentemente “legal” e que não pode deixar de se sentir como o início de uma nova Era em Saúde no nosso país (aliás em todo o Mundo), em que o enfermeiro – outrora um profissional “auxiliar” (se bem que de importância inquestionável) – passará a ser praticamente “O Profissional” único e heroico dos Serviços de Saúde; passe-se a lógica ego-maníaca e classista da coisa que, mesmo sendo um “arquétipo” incluso do animalismo humano, assume proporções desmedidas e pouco inteligentes neste nosso país de “padrinhos”…
Relativamente à Circular, ao que parece, a partir de agora, nos Centros de Saúde, o enfermeiro passará a poder ser responsável por atividades como “Testes de Psicomotricidade”, “Exames de alterações da fala e da linguagem”, “Cinesiterapia Corretiva Postural”, “Reeducação Funcional de cada membro com análise simultânea do movimento e registo”, “Treino de Equilíbrio e Marcha”, “Terapia Ocupacional”, “Treino de escrita à mão ou à máquina de escrever/computador”, “Execução de ligaduras funcionais ou gessos”, “Reabilitação Cardíaca Individual”, “Reabilitação Otolítica”, “Sessões Psico-Educacionais familiares em grupo (…)”, “Terapia Ocupacional em Psiquiatria”, entre muitas outras que, pelo seu elevado grau de especialização, exigiriam muito mais do que um “simples” profissional de enfermagem (cuja “especialidade” não é suficientemente “específica” e simultaneamente abarcante, a não ser, claro, que este profissional tenha passado a augurar de capacidades sobre-humanas).
As diferentes atividades a que a Circular se refere requerem um número elevado de profissionais e uma gestão dos Cuidados feita de modo a que diferentes serviços ou centros possuam dissemelhantes valias e equipes diferentemente constituídas. É um tipo de “multiplicidade” nem sempre favorável à noção de Uno (que é apanágio da Totalidade, de um “holos” que reside no próprio paciente e sobretudo na sua “transcendência”), mas necessária à organização cognitiva dos saberes e à pragmática psicossocial das atividades, cujos conteúdos são demasiadamente abarcantes para poderem ser geridos por um só ser humano.
Os enfermeiros defendem-se com a suposta legalidade da situação e com a grande compatibilidade da mesma com a crise (pois os serviços serão geridos por profissionais mais polivalentes), quando, durante anos defenderam a importância da existência e exercício de uma equipe inclusiva de diferentes valências. Que é, na verdade, basicamente o que existe em todos os outros países, nos quais as leis são mais claras e os diferentes profissionais coexistem, e todos os que citei lá em cima possuem real existência e inclusão no nível mais elevado da Classificação Internacional das Profissões.
Ora, se o nosso país é único no respeitante a esta situação alarmante e que tem preocupado milhares de jovens terapeutas que já tantas dificuldades possuem em arranjar emprego ou em realizar atividades minimamente prestigiantes e edificantes, é porque os enfermeiros têm sabido escalar e ocupar lugares robustos no tecido governamental e organizacional português. Não que desmereçam esses lugares ou que não possuam grandes valências, assim como qualidades indiscutíveis, mas, de facto, o poder do enfermeiro no nosso país não tem paralelo e está a crescer de um modo tal que coloca em perigo os lugares e valências de outros profissionais igualmente qualificados e com níveis importantes de competências específicas.
A situação tem provocado grandes conturbações entre as associações e grupos profissionais dos diferentes terapeutas e técnicos de saúde, pelo sentimento de profunda injustiça perante tal ilegitimidade. Também já há quem augure que os enfermeiros pretendem vir a efetuar atividades relativas ao Serviço Social, à Terapia Familiar, entre tantas outras que requerem uma preparação especial. E ao mesmo tempo que os enfermeiros vão passando anúncios na televisão bem “alusivos”, uma petição (http://www.peticaopublica.com/pview.aspx?pi=P2013N40825) de cujo texto base eu próprio sou autor (petição base da Terapeuta Leonor Lainho) já circula com milhares de assinaturas.
Temos, assim, que uma classe profissional outrora maltratada passa de “cordeiro” a “lobo”, com aparente traição de muitos dos princípios holísticos e de “humildade” que, ainda há poucos anos, vinham a defender, o que nos leva a pensar que, mais uma vez, tudo não passa de uma lógica de poder e que os injustiçados de hoje passam a ser os injustos de amanhã.
 
Publicado em 'Hospital do Futuro'

sexta-feira, maio 10, 2013

Nota final a «O Corpo e o Nada. mini-ensaios teofilosóficos» (Ensaio poemático)


Se bem que uma certa Espiritualidade esotérica – e em particular a Teosofia de Blavatsky – pretenda fazer do aparente binómio «Corpo – Espírito» uma Mónada de substancialidade espiritual em que tudo é Uno e em que o Uno é o Absoluto, a tentação de contrapor a tal coerente monismo o protótipo de uma dualidade do tipo «Espírito vs. Matéria» não pode deixar de ser sentida enquanto produto de uma natural devassa interna, que é aquela que, urgindo o mecanismo de defesa de cariz psicanalítico, contenta a natural aversão à Unidade e a atração à transubstanciação de fronteiras.
Jaz já, então, a tentação demoníaca nesta tão grotesca tendência para a fragmentação de uma Unidade, na qual toda a diversidade e todo o movimento conspiram nos termos de um jogo de ilusões, teatro de máscaras que apela à multiplicidade de um Demiurgo que se contenta com a quimera do livre-arbítrio decisor.
A tentação a apelar à queda babélica no mundo do “Relativo”, perfeito na Matéria das diferentes línguas e distintos paradigmas, e a assumir que a Origem divina está em Deus, que o Governo está no Demiurgo e que estes encenam um “Arché” que, quando o é já não o é, que quando se subsume na concretude é já o animismo consubstanciado, a vida – porque movimento – tornada Terra, Água, Ar e Fogo, e estes a esculpirem a divergência a partir do “Logos”, na estúpida certeza de que a saudade do “Princípio” e a nostalgia das Origens rematará o ensejo de uma luta, feita epopeia, ‘ethos’ convertido em tragédia heroica, que mais não visa do que recuperar o momento do “Arché”, para que este deixe de o ser e para que, após a morte de Deus, o “Eu” – que nunca deixou de o ser – passe a acusar o seu próprio “Princípio” - “Logos” - “Divino”, na sempre eterna certeza de que estamos destinados a ser Deuses por mais que não o desejemos.
É o próprio “Logos” que, partindo de uma qualquer Ordem cósmica racional e hierarquicamente superior, determina que o destino de Cristo, Buda ou Deus se inteirize em cada um de nós, com o adiamento da via crística a preludiar a neurose do “eterno retorno”, e a concretizar-se numa rota de pecados ou falhanços de um caminho que mais não é do que o do desvelamento (ou tentativa de) do Princípio ou do encontro com o verdadeiro ‘Arché’.
E é indubitavelmente da busca do ‘Princípio’ de que se trata no corpus das diferentes manifestações espirituais e nunca nada passou disso, da busca das Origens que habitam o ‘Eu’, do encontro com o ‘Eu’ incondicionado, com o ‘Eu’ que só pode criar e amar se se descobrir na Estrutura virginal e imaculada, não de uma virgindade selvagem e intocada, mas de uma virgindade readquirida – portanto, uma desconstrução que requer a prévia construção – uma indeterminabilidade que postula a revelação sapiente (e já não “sapiente”, porque de uma “douta ignorância”) do molde arquetípico que nos conforma, não descurando a relação dialética do modelo originário com o cumular das experiências que transcrevem a vivência no mundo da substância.
É desta alquimia de “autotransformação” que se subjaz a possibilidade real de uma Ética, da via fraterna que só pode ser concebida como resultado da descoberta e securização iniciática do ‘Eu’. Pois que não pode “o outro” existir e ser investido sem que o ‘Eu’ se propicie e descubra a si-mesmo, nas suas múltiplas potencialidades luciferinas, potenciadoras de um devir, que acabará por ser o de toda uma “Civitas”. E é também daqui que surge a “fé em Deus”, com a lógica analogia com a “fé” na capacidade de mudança, na Palavra capaz de “mover montanhas”, no Verbo que se reifica de tanto ser crido e repetido, como se só uma imagem já transpusesse todas as possibilidades de um ‘Eu’, que só pode ser Deus-Amor depois de ter sido amado e reconhecido pelo Deus-Mater-Pater, pelo Outro e, sobretudo, por Si-mesmo.
A via do ‘Arché’ é a via do Demiurgo: alcançando os alicerces do manifesto, a tentação que se consome visa a duplicidade de um desejo do Inominável e de um desejo de Individualidade, como a criança que, na eterna saudade do ventre consolador, vislumbra a possibilidade de um devir que mais não é do que a solidão de uma aventura que, perpassando trevas, mas também recompensas e letargias, visa a Unidade do ‘Eu’, que, não sendo porventura a Totalidade, é a derradeira pacificação do Ego, que já não é Narciso porque consolidou o momento originário, o instante em que a consciência teve origem e já não era autoconsciência ou o era sem o ser porque era já o baldio de uma argamassa de Logoi desconformes, porque de outros que já outros não são, porque já são o ‘Eu’, que nunca ‘Eu’ será, mas que, todavia, é Ego afogado em sonhos, esperanças, desejos, ambições, necessidades, com tudo isto a ser o prelúdio da ilusão que se derrete no devaneio da identidade, na falsa noção de que se é num mundo em que nada É verdadeiramente, porque o Espírito tudo dilui, porque o Espírito se escoa num movimento perpétuo criando poros e fragmentos onde a densidade se permitia afirmar numa coisa irrealizável, porque o Espírito tudo é e subsume, tudo transtorna num Nada que é precisamente a Realidade tornada incognoscível pela pérfida incerteza, e esta a manar num fluxo permanente de relatividades, que pareciam ser somente desalentos, ou falta de talentos, e acabou por ser a Verdade colapsada no Vazio, de um caos que harmoniza as ordens incertas, irreparavelmente prementes da premência da iminência de Universos, coevos e derivados, que se parodiam de ser alguma coisa quando a Verdade não o é e mais se afirma pela frustração de querer ser o que É, quando Nada Ser é a derradeira fantasia.
No oceano da ilusão do Éter que tudo atravessa, em que o grande é como o pequeno, e o superior como o inferior, derretem-se as dimensões a uma Unidade que, sendo Absoluta, já não relaciona ou se compara, o que é o mesmo que dizer que já não há sequer o grande ou o pequeno, o superior ou o inferior, porque as escalas e os mapas servem só para dirigir o que inevitavelmente acabará por ser um homem desamparadamente aprisionado. Assim mesmo, o peregrino que se inicia e se transcende não cederá jamais às diretrizes da Realidade tornada irreal, pois já peregrino não seria se o mapeamento viesse antepor uma via que não seria decerto a Via, uma só, porque só uma rareia na já rara perscrutação do Horizonte que é de facto a Verdade revelada e esta o adiamento consentido da Luz.
A via final evoca temporalmente os níveis inferiores, os níveis infernais que são pouco mais que o mais que são os demónios que nos dominam, os fantasmas que chegam a transcender as nossas fronteiras exteriores para ansiar o controlo do comportamento, do instintivo ao racional, do pulsional ao supergóico, do individual ao coletivo. Estas trevas do ‘Eu’, este ‘Inferno’ da Individualidade, o nível menos manifesto do patamar mais manifesto, este submundo que preside ao que é tornado comum, este mito entrosado por um Inconsciente Coletivo que teve o seu prelúdio na diáspora do ‘Eu’ que se extrapola, a alegoria, o símbolo, os contos de fadas e os instrumentos de um Imaginário lunar, os noturnos de uma Arte feita Harmonia, que milénios de construção pictórica, musical e poética viriam enaltecer, este mundo que reúne o helenismo, a epopeia greco-latina, os romances iniciáticos de Petrónio e Apuleio, a poesia de Dante, Milton e Blake, as depravações de Sade ou de Boccaccio, o espírito romântico de Novalis, Hölderlin, Goethe e Schiller, o ambiente “noir” de Poe, Hoffmann e Gogol, o romance francês e o Surrealismo em arte e poesia, e até mesmo o cinema, desde os musicais “inocentes” ao “radicalismo” de Buñuel e Pasolini, todas estas obras entre muitas que fazem o hino ao Inferno, ao caminho da floresta que o crescimento exige e denuncia, ao Deus feminino, Pandora embriagante, a via que se anuncia em Prometeu, a condenação da via Crística que exige mérito mas nunca desejo ou ambição, este caminho que a Fortuna já anunciava e que o mesmo Destino obstaculiza, para gáudio de uma incompreensão, que é aquela que reside no “Para quê tudo isto?”.
Onde estará o maior mal? Na via do Inferno que tem de ser vivida necessariamente ou na via do Inferno que se pretende eternizar, porque é o próprio “eterno retorno” que se tornou uma tentação, porque a compreensão da ausência de sentido de todo o Caminho comprometeu decisivamente toda a vontade genuína de crescer (quando, no fundo, nem existe uma vontade autêntica de crescimento, pois a vontade e a ambição matam a própria possibilidade de evolução)?...
Onde estará o maior mal? Na via do ‘Eu’ feito demiurgo ou na via do ‘Eu’ feito ‘Deus’ e portanto já Não ‘Eu’? O primeiro governa e pacifica mas não é livre. É homem com desejo e consciência, apela ainda à matéria e à encarnação. O segundo é a liberdade propiciadora, possui todas as potencialidades, todos os Logoi em si transcorrem, mas não é ninguém em particular, não é consciência de si ou de outrem, é só Consciência pura e total, que é uma Não Consciência, o Todo Nada irredutível.
Ser ‘Deus’ ou ‘Demiurgo’, ou ser homem simplesmente, a tentação de estar “para além do Bem e do Mal” augura a dialética da existência, quando o destino de nada ser lobriga a hipótese de redenção face ao sofrimento eternamente adiado.
Quando o sofrimento é a confluência do vazio e a confrontação da angústia com a cognoscibilidade de um corpo depuradamente emasculado, porque infecundado da vitalidade de um Eros que é já, desde o primeiro sopro, pérfida entropia… Um sofrimento que perspetiva a sua resolução acima de todas as outras necessidades, uma transposição que se fará recrutar pelo instrumento anestésico, que só será alquimia profunda se a fisiologia da celeridade não tiver surtido um efeito razoavelmente embriagador.
Quando a verdadeira embriagação é somente aquela que denuncia a renúncia ao caminho, a anquilose da carne transtornada em Ego compulsado em megalomania de um Narciso que mergulha incessantemente nas águas da ilusão, feito já Sísifo a arrastar o seu próprio mundo como uma pedra espelhada de um teatro que é do tamanho de um Atlas, titã da efeméride de uma forma que não cede ao Espírito, que permanece pura escatologia terrena no “eterno retorno” que mais não é do que neurose de uma obsessivo-compulsividade em que a retroatividade positiva subjaz ao “regresso” sem sentido, aquele que um mal compreendido Nietzsche viria conceber e parodiar, para que, mais a mais, todos nós, “pós-Nietzsches”, viéssemos a sucumbir à vergonha de encontrarmos o Nada na nossa Caverna sem que nada encontrássemos de forma primeva, mesmo que o nosso a priori pareça ter sido descoberta recheada de plenitude narcisicamente masturbatória… (vã ilusão a de pensarmos que ainda há algo que não tenha sido pensado ou sonhado) …
E já a nossa caverna é toda a Caverna do Mundo, que é realidade de conceitos, prescrições, fronteiras que não são Sabedoria, porque esta não é distância mas proximidade, porque esta é conhecimento puro, como se isso fosse possível, pois a consciência pura, razão da Testemunha, transpõe toda a Razão (quando esta é feita de conceitos que são jangadas de um rio lodoso que vai do Eu ao Outro, do Sujeito ao Objeto), que já Razão não era, porque só há a nossa razão, porque o conhecimento é todo íntimo, como a observação é apenas um olhar para dentro, porque neste vislumbre se encandeia a impossibilidade de olhar o que as coisas são, se é que são alguma coisa, se é que nós mesmos somos alguma coisa, se é que há alguma coisa, quando o ato desta escrita e do tolo que me lê nada são, porque tudo é inútil, mas já a consciência da inutilidade é apenas consciência, uma entre tantas que se perdem no conforto da droga mundana, que é a mesma droga a que quero sucumbir, mas já o sentimento de culpa me limita o mergulho, com este a ser ilusão, e esta a ser compulsão, com a linguagem a transcorrer e a não conseguir pará-la, tudo se mistura e não há ordem, mas o Caos é a incausalidade, não é o que queremos a liberdade,
Porquê o medo de nos arrancarmos
À súbita ausência de limites
Porquê o medo do infinito
Quando tudo é sem fim
Expansão e retroação
Evolução e involução
Nesta paródia dos devas
Imponderáveis que pretendem saciar o caminho
Sancionar a aparição de um fim que é início, de um fim que é somente fim de um fim, início de um fim do fim, fim de um início de um fim de um início de um fim de um início de um fim de um início de um início de um início de um fim de um início, com tudo isto a precisar de ser parado, por uma dor que esmaga pela ansiedade, pelo bloqueio que impede o suicídio, e este a ser tão desejado, o maior direito do homem, o direito a dispor do fim,
Para uma nova angústia urgir,
Pois se não há fim da Consciência,
Haverá o fim merecido da angústia?
Pois se esta pode cessar porque morre a mente na morte do corpo, pode, afinal de contas, expirar a busca?
Não terei eu o direito de não buscar,
De não transpor, de não acolher a Totalidade,
Porque quero ser Eu para a eternidade,
Mas sendo Eu e estando na busca,
Já começo a ser o Outro e o Infinito,
Que cessará a minha consciência,
E com essa cessação, findará a minha busca, mas nem cheguei ao consolo do Eu, porque quando o encontrei já Eu não era, daí que nada tenha encontrado, para o ter feito era preciso ser Eu, para ter de facto encontrado já não podia ser Eu, já não podia desejar sequer, quando este ‘Eu’ que escreve tem desejos e vislumbres, mas se o Todo é o não desejo, como desejar o não desejo, sendo o Eu a desejar nada ser, condição da impossibilidade de ser Todo querendo sê-lo, e lá continua a angústia da busca imbecil, filosofia da doença, fisiologia da filosofia da doença que é fisiopatologia da filosofia,
Vou medicar esta doença
Calar o fogo ruminativo
Quando não ruminar é condição de não crescer, e não crescer é condição de eternidade na carne, mas ruminar é condição fisiológica, necessidade de um Ego cujo transtorno requer superação e a superação reitera crescimento e o crescimento demanda transtorno,
O Ego a precisar de si mesmo para não o Ser
Nada Ser em separado, o Todo a requerer o Todo,
O Todo a ordenar a superação da Parte,
E este superar a ter o requerimento da Parte,
Como atingir a via final do Não Ser desligando a determinação do Ser que deseja, e porque deseja É, e porque É não pode SER? Somente pelo Livre-arbítrio poderíamos explicar o afetar de uma Liberdade que nem sequer existia e até precisava de existir para o Livre-arbítrio assomar.
E o sufoco de não saber explicar a Liberdade, porque ser Livre é já não requerer Deuses, porque aí somos nós os Deuses, mas o caminho é feito sob o repto dos Deuses, os que não somos mas queremos ser, os que criaram o Arché que somos, o Arché que limita a Liberdade,
O Arché que condiciona o próprio mérito,
E, portanto, condiciona a própria ambição, a própria possibilidade de evoluir (ou uma não ambição e/ou o desejo de ser Eu, condição saturnina a trazer o prazer e este a ser tentação só ultrapassável pela existência da dor).
Com o Mal a ser a única garantia de crescimento, quando este é o mal próprio – o sofrimento – e não o mal do Outro. Com o Mal a ser a única garantia de ser o Outro, porque o desejo de o Inferno abandonar reside somente no desejo de não sofrer, e é por isso que toda a Espiritualidade se resume a um Eu que pretende a salvação, uma Bem-aventurança que o Eu não percebeu já não ser Vida, não ser Eu, não ser Autoconsciência. É portanto o Mal que leva ao Espírito. E não o ‘bem’, pois se este existisse perpetuamente nunca auguraríamos abandonar o Ego, porque a via Crística que há em nós é pura determinação egóica, porque o Deus que estamos destinados a ser só pode ser obtido quando queremos ser Eros (mas um Eros afrodítico, terreno). Porque a Ética é ilusão e tudo é fuga do Eu que sofre, do Eu que se dissolve, e escrevo isto neste desejo de que tamanha ruminação nunca tivesse ocorrido, nesta perfeita certeza de que o diabólico é condição do simbólico, de que o demoníaco é condição da Perpetuidade, muito mais do que mera contraparte do Espírito, e por estas e por outras, as religiões se voltam a aproximar, temos o desejado “religare”, com tudo a ser pó, tudo a ser partículas, o Divino a igualar o Caos quântico, e o Caos quântico a ser feito das múltiplas e caóticas ordens terrenas (falsos absolutos, ilusões de permanência), e o Caos final a ser nutrido pelo combustível demoníaco, para concluirmos, no fim, que tudo isto é o mesmo, e que o único diabolismo é o conjunto das etiquetas, por que tudo é a mesmidade, tudo é Uno, tudo é:… .. .

(Publicado na revista literária «Sítio»)

sábado, abril 20, 2013

O novo livro («O corpo e o Nada») disponível em Maio!!



O novo trabalho, resultante do meu contacto com o mundo da Espiritualidade esotérica e a Sabedoria perene. Uma reactualização da Filosofia do Corpo-Espírito no tempo da pós-modernidade. Uma introdução sintética ao mundo do 'Espírito' na dupla visão espiritualista e materialista, incluindo as temáticas cabalística, hermética, platónica, mitológica, alquímica e também o esoterismo milenar/oriental e o judaico-cristão, assim como a Teosofia. É, mais uma vez, um cômputo de artigos que interagem entre si com vista a uma lógica... que é a de partilhar algumas das minhas reflexões primárias subjacentes ao mundo da Filosofia da Espiritualidade. Este livro vai estar disponível até ao mês de Maio!! Abraço!

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Evidências...

Os novos terapeutas pretendem reduzir a Fisioterapia à Evidência científica. Esquecem-se que a Evidência fisioterapêutica, baseada fortemente em estudos de carácter estatístico, refere-se a médias e a Tendências (grupais) e alude a variáveis funcionais quase sempre relativas ao “aqui e agora”. Que tem esta Evidência a dizer sobre as variáveis estruturais do “longo prazo” e do doente visto na sua História (fundamental de se compreender num sentido evolutivo, para que também o Raciocínio Clínico e o Plano de Tratamento possuam o mesmo género de lógica evolutiva)? O Doente constitui um complexo Universo Singular, incluso de um conjunto avultadíssimo de variáveis que interagem entre si numa complexa dialética, e com elas a interagirem com o ambiente externo (e o terapeuta a fazer parte da secção mais íntima deste ambiente supostamente exterior). Parece-me que uma Fisioterapia centrada no Doente é mais do que Ciência ou Tecnologia, passa sobretudo por descobrir algo sobre o Universo particular do Doente e a forma como este interage com um Universo mais perene que o transcende. Em última instância, é a perenidade que interessa e esta obriga à capacidade de fazer parar o tempo. O fisioterapeuta do futuro não pode ser o fisioterapeuta tecnológico, mas sim aquele que, à semelhança dos antigos e dos xamãs, souber fazer parar o tempo, o tempo íntimo do encontro com o doente que já não é um “outro”, mas sim uma extensão do Eu.

domingo, fevereiro 10, 2013

Desabafo niilista

«No Princípio [Arché] era o Verbo [Logos].» E o Logos, que, numa escala de olhar permutável, se perspetiva no livro de instruções do Demiurgo, passou a reiterar o comando tiranizado dos homens. Dupla tirania: os homens estão condenados a serem o que são, os homens estão condenados a serem livres; os homens são jograis de uma subjetividade que lhes foi imposta, os homens são jograis da ilusão de que essa subjetividade nasce de si-mesmos e é controlado por si-mesmos; os homens são determinados e estão determinados a serem livres, ou a pensarem que o são. Dupla determinação: determinação eidética e determinação subjetiva; determinação de facto e determinação para a ilusão da liberdade. A determinação é uma condição necessária da matéria, mas como cada ser se traveste do seu próprio jogo de fatalidade, o que resulta é um tumulto, uma batalha de linguagens e de modelos, que leva a matéria determinada a ter o aspeto de um caos de acontecimentos jamais suscetíveis de determinação. Daí que o determinismo demiúrgico passe a transmutar-se num cenário de múltiplas possibilidades, com todas estas a assumirem uma forma de relativismo, que morre na perspetiva de um controle automatizado e superinteligente do conjunto quase imenso, mas não infinito, de potencialidades. O humano concreto só pode ambicionar o escalar de uma pirâmide de consciência, mas não pode, mesmo assim, ambicionar a liberdade, somente a ilusão dessa liberdade, para que, escalando no patamar da consciência, possa ir aumentando a sua sensação de uma falsa liberdade, falsa porque se sente uma coisa que não o é e só pode sê-lo no abandono do corpo, falsa porque o abandono do corpo, o tornar-se Deus, é igualmente ilusório, e advém da quimera esotérica, que é a ilusão de que há, no fim, uma maneira de sermos livres, quando o esforço para tal é já por si condicionado, de um condicionamento que advém da insegurança, de uma falha narcísica que não pode jamais ser preenchida.
Não obstante, escrevo nesta sempre certa certeza de que o passado tornou este ato de escrita necessário e obrigatório, tal como o pensamento que se enrola de se tentar libertar da mesma grilheta que o leva a se tentar libertar.