domingo, setembro 14, 2008

Notas de acesso ao ensino superior em cursos de saúde: Da medicina à fisioterapia - Carta endereçada ao Jornal Público

Enquanto profissional de saúde que sou, nomeadamente fisioterapeuta, interesso-me (ainda) pelas notas dos últimos colocados em cursos de saúde. E todos os anos vejo a evolução dessas mesmas notas e assisto ao ressurgimento contínua de uma poderosa facécia ilusória. Refiro-me às notas de entrada para os cursos de Fisioterapia. Como é possível que as notas de acesso a este curso sejam tão elevadas, num contexto de desemprego quase obrigatório dos fisioterapeutas? Como é possível que a Comunicação Social não contribua para dar da Fisioterapia a mesma imagem que tem sido dada da Enfermagem, ou seja, uma imagem de crescente desemprego e precariedade.
A verdade é que as notas de 17,6 em Fisioterapia em Coimbra e no Porto jamais poderão justificar-se, ainda mais porque o curso de Medicina possui como nota mais baixa de acesso, em Lisboa, 17,9. As diferenças de notas entre Fisioterapia e Medicina são cada vez mais espúrias, mas, na realidade clínica e no contexto profissional, a realidade de um fisioterapeuta é totalmente negra, enquanto que a realidade profissional de um médico continua a ser quase paradisíaca.
Não há realmente justificação para as crescentes notas do curso de Fisioterapia. É urgente informar os jovens estudantes que uma poderosa máquina financeira – ligada à formação de futuros e recém formados fisioterapeutas – ganha muito com a existência de um tão grande número de profissionais. Pois, na realidade, quando os “novos” fisioterapeutas saem dos cursos – quase sempre muito inseguros relativamente ao seu futuro profissional – são possuídos pelo pensamento de que devem realizar muita formação contínua e/ou pós-graduada para conseguirem singrar. Tal é uma absoluta ilusão, visto que a realidade é que são gastos milhares de euros em formação que não é adequadamente reconhecida e valorizada pelos postos de trabalho.
É “obrigatório” informar estes “novos alunos” e “futuros fisioterapeutas” que o número destes profissionais vai chegar aos 10 mil até ao final da década (previsão recente da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas), e que o desemprego constitui, face às actuais necessidades de mercado, uma realidade obrigatória. É também “obrigatório” informar que, neste momento, há fisioterapeutas a trabalhar em clínicas de fisioterapia por 3 e 4 euros à hora, e, como se isso não bastasse, já há fisioterapeutas a oferecerem-se para trabalhar (temporariamente) de graça para muitas e variadas clínicas. E, por fim, é preciso informar que o número de escolas – públicas e privadas – de Fisioterapia atinge quase o número de 20; o que significa um excesso de fisioterapeutas no mercado de trabalho. Estas várias escolas de Fisioterapia foram criadas, muitas delas, com legislação suspeita e sem qualquer tipo de controlo das futuras necessidades comerciais. Ou será que os responsáveis por estas escolas previram o número excessivo de profissionais no mercado? E terão tido em conta a existência de tantas outras profissões que competem comercialmente com a Fisioterapia como os “técnicos auxiliares de fisioterapia” (em muito maior número nas clínicas, pois ganham significativamente menos que os fisioterapeutas... pelo menos, por enquanto...), enfermeiros de reabilitação, osteopatas e diversos terapeutas das medicinas não convencionais?...
O que a realidade profissional me tem ensinado é que, não sendo a Fisioterapia um terreno particularmente prestigiado pelo Estado, as remunerações dos terapeutas são progressivamente mais baixas, assim como mais baixo é o seu reconhecimento. Eu, que finalizei o meu curso em 2003, ainda agora trabalho num sistema de “recibos verdes”, numa situação profissional em que as minhas competências ainda não são assaz compreendidas e valorizadas.
Acabo dizendo que é obrigação da Comunicação Social relatar esta problemática ao público em geral, pois parece que a situação menos privilegiada dos enfermeiros, constituindo cada vez mais tema de telejornais, já foi compreendida, o que pode ser constado pela relevante descida das médias de entrada para o curso de Enfermagem.

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