sábado, março 08, 2008

Formação pós-graduada: necessidade ou ilusão?

Uma grande percentagem dos licenciados portugueses possui uma necessidade primorosa de realizar formação contínua e/ou pós-graduada, como meio de complemento metodológico e conteudístico das matérias curriculares basilares. Em particular, no mundo dos profissionais de saúde, existe uma tendência enorme para a realização de formações complementares, assim como outras de índole mais académica. As necessidades de formação complementar e ou pós-graduada são vistas como de índole obrigatória para o normal e sapiente progresso profissional, mas não deixa de estar latente, no registo dessas mesmas multi-formações, uma enorme cabala comercial.
Deixemos bem sublinhado que, sendo insuficiente a formação curricular de base, há, verdadeiramente, uma grande necessidade de realizar formação avançada e/ou pós-graduada, isto se se quiser constituir um profissional de excelência. Nesse sentido, toda a formação constitui um investimento no futuro profissional.
Porém, nem sempre se dá atenção ao “outro lado” da realidade das formações pós-graduadas: o lado do marketing abusivo ligado à grande máquina comercial que medeia todo o processo e linhas de formação.
Deixemos bem claro que os grandes contribuintes para o aparelho comercial de formação pós-graduada constituem os recém licenciados; os mesmos, que, tendo acabado de sair das escolas e universidades, e tendo sido lançados impunemente no agressivo mercado de trabalho, se sentem bastante inseguros relativamente às suas capacidades e competências profissionais. São estes mesmos jovens que têm grandemente contribuído para encher as “vagas” de pós-graduações, para além de formações avançadas diversas. São eles os grandes contribuintes financeiros das empresas de “formação avançada”. Sem grande consciência da máquina comercial que medeia a “indústria das formações”, assim como das necessidades financeiras das universidades que criam mais e mais pós-graduações, os jovens recém licenciados, enchem os seus currículos de mais e mais certificados com vista ao preenchimento de uma qualquer falha narcísica mais primitiva.
Quer isto dizer que, aparte a grande necessidade de formação contínua e avançada, há uma grande indústria de formação profissional e académica que tende a encher-se de dinheiro a partir dos bolsos dos pais dos jovens inseguros. Que grande ilusão! Mais e mais certificados não irão trazer o merecido emprego. Irão somente contribuir para dar mais competências a jovens que irão mais certamente realizar actividades não qualificadas. Irão também contribuir para a multiplicação de mestres e doutores num país que valoriza cada vez menos essas qualificações e emprega cada vez menos licenciados.
É preciso agir face a tal oferta de formações. É preciso agir no sentido de informar, alertar os formandos para a realidade da máquina comercial que medeia as escolas e institutos de formação avançada. A formação é fundamental, mas deve ser bem gerida e adequada às reais necessidades dos formandos e do mercado a que as mesmas se destinam.
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Publicado parcialmente no site do Expresso (Cartas dos Leitores)

3 comentários:

Rosa Maria disse...

Boa tarde!
Embora não venha muito a propósito do seu texto, achei que lhe poderia fazer uma pergunta neste espaço... Tem conhecimento de alguma literatura científica que relacione diplopia e hérnia cervical? Há artigos sobre a relação da diplodia e do estrabismo e torcicolo de posição, datados dos anos 50 do séc XX (mas nessa altura não existiam os meios diagnósticos actuais). Obrigada pela atenção dispensada
Rosa Maria

Luís Coelho disse...

Olá Ex.a Rosa Maria. Há, realmente, referências literárias que relacionam as perturbações visuais com as perturbações músculo-esqueléticas da coluna. Há, inclusive, referências ao trabalho centrado nos olhos para tratar perturbações posturais. Infelizmente, a maioria dessas referências não possui estatuto científico.

Rosa Maria disse...

Obrigada pelo seu rápido esclarecimento! Se por acaso souber de alguma referência com valor científico agradecia que me dissesse, se não o maçar muito (como me parece um fisioterapeuta esclarecido e cheio de curiosidade científica, acalento esperanças na sua colaboração). O meu e-mail´é: ps.rosamaria@gmail.com