quinta-feira, junho 11, 2009

Manifesto de um fisioterapeuta de Reeducação Postural sobre as artroses

As artroses, assim como as diversas variantes de artropatia degenerativa, são o resultado do acumular de diferentes factores nosológicos de importância reumatológica. Mas, na maioria dos casos, a presença de artroses específicas explica-se pela existência de determinada postura ou alinhamento. Pois é verdade, por exemplo, que o alinhamento do membro inferior condiciona a maior ou menor compressão de certas superfícies articulares. O alinhamento da articulação tíbio-társica e da articulação do joelho (nomeadamente, a fémuro-tibial) está fortemente relacionado com o alinhamento geral do membro inferior. E este mesmo alinhamento está relacionado fortemente com o estado de tensão das estruturas musculares. Por exemplo, a postura do pé ou da tíbio-társica depende muito do estado de tensão do tendão de Aquiles e da fáscia plantar, os quais podem ter ou não uma grande ligação com o estado de tensão da restante cadeia muscular posterior. A postura do joelho valgo vs. varo tende, geralmente, a relacionar-se com o estado de tensão das estruturas musculares que pertencem à geografia muscular do joelho. O varismo, mais comum nas senhoras de idade, tende a estar associado a um maior estado de tensão dos abdutores e/ou da banda iliotibial, enquanto que o valgismo relaciona-se mais predominantemente com a retracção dos adutores e/ou também com a retracção da banda iliotibial. O joelho recurvatum tende a provocar lordose lombar excessiva e/ou lordose dorsal. Por outro lado, o estado de conflito da articulação do ombro (conflito sub-acromial) ou da articulação da anca tende a estar associado respectivamente à cifose dorsal e à hiperlordose lombar com báscula anterior da bacia. Daí que um problema de coluna, associado a uma hiperlordose lombar e/ou dorsal, se relacione muitas vezes com a artrose da anca. Mas, no meio de todo um conjunto avultadíssimo de possibilidades, podíamos continuar eternamente a referir exemplos de possíveis correlações, que provavelmente não possuem verdadeiro significado científico (pois, na prática, há todo um conjunto multimodal de casos possíveis, sendo que é sempre preferível conhecer a integralidade da postura de cada doente individualmente, sempre com base numa filosofia de observação e análise idiossincrática).
Mas de uma coisa eu tenho a certeza: é que os diferentes sistemas de eixos de alinhamento da coluna e dos membros, os quais se influenciam uns aos outros, vão condicionar um funcionamento vicioso da articulação, com possibilidades de perturbação biomecânica. Ora, é muito comum os fisioterapeutas realizarem trabalho de mobilidade da articulação com artrose. Considero que tal prática é um erro. Ora, se a articulação possui um alinhamento vicioso, isso significa que o trabalho funcional dessa articulação sem realinhamento prévio pode representar uma sobrecarga de determinadas estruturas articulares. Vejamos o exemplo do joelho valgo. Este significa a existência de uma maior compressão das superfícies articulares externas da articulação fémuro-tibial. Ora, sempre que o doente realizar alguma tarefa funcional, por mais simples que ela seja (exemplo: andar), o doente estará a desgastar aquelas superfícies articulares. Daí que, para mim, é preferível, ao invés de trabalhar, dia após dia, a mobilidade e força daquela estrutura, propiciando grande sofrimento ao doente, mais vale tentar influenciar o sistema de eixos da articulação... desde claro que se entenda o que se está a fazer. Daí que, por mim, realizaria um trabalho de alongamento global, pelo menos da totalidade do bloco inferior da cadeia muscular posterior, tentando propiciar o realinhamento do joelho (mesmo que munido de algum conjunto de manobras mais analíticas de terapia manual... sempre dentro da postura global). Só depois de o ecossistema muscular do joelho ter sido relaxado (e o tónus inibido) e o alinhamento ter sido readquirido (mesmo que parcialmente) é que faz sentido dar mobilidade aquele joelho artrósico.
As artroses são, em todos os indivíduos, uma potencialidade, visto que todos possuímos, em maior ou menor nível, um jogo viciado de tensões musculares e de compressões articulares assimétricas. Somente num indivíduo com equilíbrio angular total, alinhamento absoluto, e total simetria corpórea, o jogo de tensões articulares estaria saudavelmente distribuído. Aí, era preciso que os outros factores contributivos para a artrose - factores hormonais, osteoporose, obesidade, etc. - fossem de expressão muito elevada.
A realização de uma Fisioterapia centrada na mobilidade articular sem prévio trabalho postural é, a meu ver, um absurdo. E, se essa Fisioterapia incluir o trabalho de força muscular, o absurdo é ainda maior, pois esse trabalho de força leva ao aumento do jogo total de tensões musculares (fortalecem-se músculos fracos, mas também se fortalecem músculos hipertónicos das cadeias musculares, pois, como já foi explicado em vários sítios, o princípio do isolamento do trabalho muscular não passa de um mito), contribuindo para fomentar mais desequilíbrio e mais desalinhamento. É certo que uma articulação com artrose é geralmente uma articulação com músculos fracos, mas essa fraqueza tem mais a ver com a fraca qualidade de alinhamento articular, e portanto com a fraca capacidade funcional da articulação, do que com uma real falta de potência muscular. Se o equilíbrio e o alinhamento forem readquiridos, a articulação aumenta a sua capacidade funcional, aumentando automaticamente a força dos seus músculos pela "normal" prática funcional.
A ordem que defendo para a "prescrição" de um trabalho fisioterapêutico para uma articulação com artrose é a mesma que defendo para o trabalho geral em Fitness: alongamento » mobilidade » força » alongamento.
Sei que o tempo que o Sistema nos delega aos doentes não permite o trabalho postural verdadeiramente abrangente, mas como seria bom realizar umas quatro ou cinco sessões bem feitas, com princípio, meio e fim, do que dezenas e dezenas de sessões multiplicadas, constituídas pelo exercício mormente activo (visto que o terapeuta pouco tempo tem para tocar no doente).
A visão das artroses como resultado de desequilíbrios musculares e de uma distribuição assimétrica das forças, associada ao desalinhamento do sistema de eixos articulares, leva, a meu ver, à revolução na forma como são tratadas, não só as artroses, mas a totalidade das artropatias. Por outro lado, o trabalho postural global poderia, a meu ver, prevenir uma boa parte das artroses que se acabam por desenvolver, assim como acho que, no sentido oposto, o trabalho muscular intrépido associado às práticas desportivas modernas e massificadas, poderá levar ao desenvolvimento mais célere da patologia degenerativa.
No meu mundo eutópico, a intervenção postural com base nos métodos holísticos e mézièristas de alongamento global, será suficiente para preservar ou corrigir (mesmo que parcialmente) o bom estado de simetria e alinhamento de um corpo, em que o jogo de forças será o mais perfeito possível.

2 comentários:

Fabiano Piassarollo disse...

Olá Luis!

Sou educador físico e atuo com treinamento funcional, sempre visando a especificidade do aluno para potencializar a sua capacidade funcional para as AVDS e modalidade esportiva.
Há alguns anos, ganhei de uma aluna de minha turma de fitball, que é fisioterapeuta e osteopata, o livro do Grau SGA. Em função de outras prioridades, li um pouco desse livro por cima, mas agora estou relendo o mesmo, e acredito muito nos conceitos e metodologia do SGA. Procurando sobre SGA encontrei seu blog, e com grande satisfação e surpesa, o blog esta "recheado" de posts muito interessantes, e agora tenho o mesmo em meus favoritos, pois é uma excelente ferramenta de estudo e aperfeiçoamento. Ainda mais em se tratando de um educador físico, pois nossa formação aborda ESSES TEMAS MAIS INTRÍNSECOS E "GLOBAIS" DO SER HUMANO de forma muito restrita, e isso quando aborda. Mas partilho de seu pensmento em outro post, o homem precisa ir buscar, ser um pensador, e nesse caso, não adianta pegar as coisas prontas, principalmente por que na parte científica, alguns fatores emocionais, mentais e espirituais não são considerados, e sabemos queestes tem garnde influência na totatlidade do ser.
Quanto ao seu manifesto sobre as artroses,eu realmente acredito, que fora os fatores hormonais e também pela osteoporose, que esta patologia tem relação com desequilíbrios musculares e desvios posturais, acarretando mais tensão nas articulações. E nesse caso, como colocastes sabiamente, não adianta fortalecer músculos desalinhados, pois só iremos fortalecer o desvio gerando mais sintomas no indivíduo. mas para o leigo, e para os profissionais, as causas da osteoporose, são os fatores hormonais e a osteoporose, não escutei nenhum colega levantar essa possibilidade de ser causada também por desvios musculares. Então, não basta nos determos apenas a uma afirmação, temos de ir mais fundo e buscar outras possibilidades, e por isso eu parabenizo o seu profissionalismo e forma de defender suas idéias, mesmo em alguns casos sendo considerado radical, assim como, eu muitas vezes já fui por defender o treinamento funcional em relação ao tradicional treinamento de força realizado de forma a isolar músculos.
Acesse: www.treinofuncional.blogspot.com

Sucesso!

Fabiano Piassarollo
fabianopiassarollo@terra.com.br

Suelen disse...

Ola Luis Coelho!
Estou fascinada com seus artigos, me pergunto por que não os encontrei antes! Concordo plenamente com sua opinião ao dizer que é absurdo mobilidade articular e trabalho de força muscular sem prévio trabalho postural! Tenho um artigo que descreve uma pesquisa sobre artrose de joelho realizado com 3 grupos: 1/ Grupo controle; 2/ Grupo com trablalho de fortalecimento muscular; 3/ Grupo com alongamento nas cadeias musculares. Depois de um ano, os grupos foram reavaliados, e grupo que teve melhora foi o 3º grupo. Eu estou me identificando muito com o que escreve, alias já pensou em escrever um livro??? Para dar uma atualizada na abordagem fisioterapêutica!!! Pense com carinho...
:)