quinta-feira, abril 24, 2008

Stretching Global Activo: A Reeducação Postural Global aplicada ao desporto

Artigo publicado na revista 'SportLife' em Julho de 2007 (finalmente publicado no blog), constituindo este uma súmula dos princípios do Stretching Global Activo de Souchard
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O conceito de “desportista completo” começa a despoletar-se na cabeça de todos quantos estão envolvidos numa determinada prática física. O trabalho de força e de resistência muscular costuma protagonizar os mais diversos tipos de treino de fitness, sendo que, muitas vezes, o trabalho de alongamento é deixado para segundo plano. Neste contexto, é importante afirmar que um desportista só terá uma relação de integridade para com a prática física se incluir nos seus treinos o trabalho de alongamento muscular. E dentro deste tipo de trabalho é preciso atender à importância do alongamento de grupos musculares organizados em cadeias, preterindo o trabalho de alongamento analítico, nomeadamente o trabalho clássico.
No contexto do que foi dito, a técnica do Stretching Global Activo apresenta-se como o método ideal para obter a singeleza muscular e a saúde que todos os desportistas podem e devem ter quando realizam uma actividade de maior ou menor impacto.

Bases históricas do método
Há milénios que o ser humano, de uma forma mais ou menos inconsciente, tem tendência para trabalhar determinadas “posturas” com vista à criação da harmonia corporal e psíquica. O Yoga aparece neste contexto como um exemplo fundamental.
Porém, o treino de alongamentos com vista à harmonização corporal só passou a ser visto de uma forma mais metódica, incluindo a criação de metodologias de treino, através da visão de Per Henrik Ling (1766-1839), sabidamente o pai dos grandes fundamentos da ginástica moderna.
Mas ainda assim não podemos falar de “alongamento global” e do conceito de “cadeia muscular” até chegarmos ao ano de 1947, aquele que é apontado como o ano de criação do método Mézières. Se há semelhanças teoréticas do mesmo conceito na técnica anglo-saxónica Rolfing (Ida Rolf), ainda assim devemos considerar a fisioterapeuta Françoise Mézières como a mãe dos métodos de Reeducação Postural.
O método Mézières teve como grande dádiva a criação de uma forma verdadeiramente revolucionária de ver o corpo e a postura (vide a obra clássica Révolution en Gymnastique Orthopédique), sendo que, ao contrário do que até aí vinha sendo propugnado, as deformidades posturais e os problemas ortopédicos passaram a ser vistos como o resultado de excessos musculares, ou seja, encurtamentos da musculatura (principalmente posterior).
O método Mézières teve um impacto tão grande que, a partir dele, geraram-se muitos outros métodos de reeducação postural: a “Antiginástica” de Thérèse Bertherat, o método das “Cadeias musculares e articulares” de Godelieve Denys-Struyf, a “Morfoanálise” de Peyrot, a “Reeducação Postural Global” de Souchard, o método “Corpo e consciência” de Courchinoux, o método das “Cadeias musculares” de Busquet e a “Reconstrução Postural” de Nisand.
É indubitável que o mais famoso desses métodos é a Reeducação Postural Global de Philippe Souchard. E é a partir deste excelente método de trabalho de alongamento postural global que desembocará um outro método mais prático, passível de ser praticado individualmente ou em grupo, e adaptado à realidade desportiva: o Stretching Global Activo (SGA). É claro que são vários os princípios que norteiam o trabalho das posturas de SGA, muitos deles atípicos e contra-intuitivos. É disso que iremos falar seguidamente.

Princípios do Stretching Global Activo
O alongamento muscular apresenta-se como o mecanismo de treino mais importante para a criação de um corpo livre de tensão, reeducado no ponto de vista morfológico e postural. Sem o alongamento é impossível conseguir alterar a forma do corpo, no ponto de vista que norteia a sua correcta postura e alinhamento. O movimento, a força, o equilíbrio e a direccionalidade corpórea estão dependentes da capacidade de alongamento dos músculos (e também, muito importante, das fáscias – contributo de Ida Rolf). Fica, agora, a pergunta. Que tipos de músculos alongar?

Que músculos alongar?
Neste ponto, é preciso atender à existência de dois grandes tipos de músculos no nosso corpo: os músculos estáticos, que compreendem dois terços do total da nossa musculatura, são tónicos, poliarticulares, e constitutivamente fibrosos, e possuem uma função essencialmente postural e anti-gravítica; e os músculos dinâmicos, que compreendem a musculatura do movimento de grande amplitude, e que são de natureza fásica. A distinção entre estes dois tipos de músculos é fundamental, pois a criação de equilíbrio muscular está dependente da realização de um trabalho dissemelhante para estes dois tipos de musculatura. A musculatura tónica é muito forte e deve ser, portanto, inibida e alongada. É o caso da cadeia muscular posterior. A musculatura fásica é de natureza dinâmica e deve ser fortalecida. É o caso dos abdominais e quadricípetes, músculos que contrariam, de alguma forma, a acção da musculatura postural (sendo portanto constantemente inibidos por essa musculatura), mas que não chegam a possuir um antagonismo puro relativamente aos mesmos (o que explica que, por exemplo, o treino dos abdominais não contrarie completamente a acção lordosante da musculatura espinhal; deve também acrescentar-se que é impossível, por meio do treino de força de determinado músculo fásico – ou mesmo tónico – contrariar a acção de determinada musculatura tónica dominante. Daí que o treino dos extensores da coluna jamais permitirá a correcção de uma cifose dorsal e o treino dos abdominais jamais permitirá corrigir uma lordose lombar exagerada).
Daqui podemos retirar princípios de intervenção, segundo Souchard (Le champs clos): (1º) Só as posturas activas em alongamento podem devolver aos músculos hipertónicos, rígidos e dolorosos, a sua força, o seu comprimento e a sua flexibilidade; (2º) É necessário alongar os músculos da estática e os músculos suspensores, encurtando-se os músculos da dinâmica; e (3º) Só as posturas de estiramento progressivo cada vez mais globais permitem alongar todos os músculos rígidos, assim como reencontrar a retracção de origem.
A visão algo revolucionária, protagonizada pelos modelos de intervenção da Reeducação Postural, permite perceber que o alongamento analítico, assim como aquele que é realizado de forma generalizada a todo o tipo de músculos sem os distinguir entre tónicos e fásicos, radica numa visão clássica um tanto sobrepujada.
Na visão de Norbert Grau (Le stretching global actif: au service du geste sportif), há quatro tipos de músculos que devem ser alongados: (a) os músculos que dificultam ou freiam o movimento, nomeadamente aqueles que se encontram organizados em cadeias musculares posturais, (b) os músculos que executam o movimento (uns mais importantes para uns desportistas do que para outros), pois “a qualidade da sua contracção dependerá muito da sua flexibilidade”, (c) os músculos que acarretam compensações, (d) e os músculos que permitem um relaxamento geral (referimo-nos aqui, sobretudo, ao diafragma, “centro temporal inconsciente” e à zona lombar, “centro somático inconsciente”).

Os cinco princípios básicos do método SGA
Existem, portanto, segundo Norbert Grau, cinco grandes princípios que diferenciam o SGA do alongamento convencional:
(1) Os músculos existem na forma de cadeias musculares (são, nomeadamente: a cadeia posterior, a cadeia anterior e as cadeias anexas), princípio que irá implicar que o alongamento realizado seja tão global quanto a natureza da cadeia a alongar.
(2) Cada músculo tem diversas fisiologias, ou seja, cada músculo realiza diversas acções musculares, o que implica que seja necessário alongar um músculo em todas as suas acções simultaneamente.
(3) O alongamento dos músculos obedece à mesma fórmula física que os materiais viscosos e elásticos, ou seja, a fluagem muscular (que é a capacidade de alongamento permanente de um músculo) está dependente do produto da força de alongamento pelo tempo de alongamento, divididos ao coeficiente de elasticidade. Ora, visto que quanto maior a força mais doloroso é o alongamento, o alongamento deve depender portanto de um tempo mínimo, que é, no caso do alongamento global, muito superior ao que classicamente é utilizado. Grau recomenda a utilização de 10 minutos para cada auto-postura de SGA. Para além disso, como o aquecimento (seja na forma de exercício, seja na forma de calor local) aumenta o coeficiente de elasticidade, este fará com que o alongamento permanente seja menor, o que nos leva a afirmar que todo o alongamento deverá ser realizado a frio, antes da realização de qualquer exercício. É, realmente, um princípio revolucionário, principalmente porque os desportistas e instrutores tendem a realizar os alongamentos como modo de relaxamento no fim do treino (o que não está por si errado), argumentando que a sua realização no início dos exercícios acarreta um perigo aumentado de lesões. Ora, acontece que não há absolutamente estudo algum que tenha demonstrado que o alongamento a frio constitua um perigo acrescido de lesões para o atleta. Por outro lado, multiplicam-se os estudos que demonstram que a administração de calor antes da realização de alongamentos não aumenta a capacidade global de flexibilidade.
(4) Os nossos alongamentos serão sempre activos, ou seja, o alongamento em SGA deverá ser realizado por meio do trabalho activo e excêntrico da musculatura a alongar.
(5) A respiração é fundamental. Importa afirmar que o diafragma, em conjunto com outros músculos acessórios da inspiração, constitui uma cadeia muscular lordosante, sinérgica de todas as outras cadeias de músculos estáticos e posturais. Como tal, o alongamento só é globalmente possível se for acompanhado do relaxamento do diafragma. Por isso, todos os alongamentos devem ser realizados em expiração máxima.
São estes os princípios que norteiam a realização de alongamento em SGA. Em termos gerais, a auto-postura de alongamento deve ser realizada durante o tempo suficiente que permita a “deformação” dos tecidos, de uma forma activa (no contexto individual ou grupal) e respeitando a anatomia dos grupos musculares e o treino expiratório. O alongamento deve, igualmente, ser lento e progressivo.
Atente-se às figuras descritivas das diversas autoposturas de alongamento, assim como aos desportos em que os mesmos devem ser realizados.

Bibliografia recomendada (traduzida para português do Brasil):
Grau, N. (2003). SGA a serviço do esporte. Stretching global ativo. São Paulo: É realizações.
Souchard, Ph-E. (1996). O stretching global ativo. A reeducação postural global a serviço do esporte. São Paulo: Editora Manole LTDA.

8 comentários:

Lima disse...

Parabens pelo seu Blog! Artigo muito interssante que vale bem a pena ser lido. Com o seu consentimento, gostaria de o referenciar no meu blog: www.fisioduvidas.blogspot.com
Já agora se possivel lhe desse uma visita e me enviasse um "feed-back". Obrigado pelo seu Blog!

Luís Coelho disse...

Caro Ft. Lima,
Ainda bem que gostou do meu blog. Tem constituído um esforço singular a sua edificação. Pode, indubitavelmente, referenciar o meu artigo.
Visitei o seu blog e gostei do que vi. É educativo, nos termos do que é necessário entender por "Fisioterapia" e "Fisioterapeuta". Sugiro somente que coloque mais dados sobre o seu perfil, incluindo o seu contacto (pois gostaria, porventura, de trocar impressões consigo). Até breve

Anónimo disse...

Parabens pela informação. Muito interessante e bem organizada.

Gostaria de lhe colocar uma questão: conhece o metodo de reeducação postural do Dr Orlando Alves da Silva (atraves de lentes ??) ? Qual a sua opinião ? Muito obrigado

CJorge

Luís Coelho disse...

Caro Jorge,

Em tempos também já escrevi sobre o método de Alves da Silva e sobre a Posturologia em geral. Também já tenho tido doentes com necessidade de utilização de lentes prismáticas. O que a Posturologia nos "ensina" é que a informação neurológica de entrada possui uma importância cabal para a obtenção de uma postura adequada.
Abraços

Juliana Fortes disse...

Parabéns, seu blog é muito bom! Sou fisioterapeuta formada há dois anos e fiquei muito animada por encontrar algo que se indentifica perfeitamente com todas as coisas que costumo ler e estudar, foi como encontrar "um conhecido em meio a multidão" ou "alguma coerência em meio ao caos".
Você tem um excelente poder de síntese.Continuarei visitando seu blog.

joao carlos gomes disse...

Felicito-o veementemente pelos artigos publicados. Sou formado em Educação Física, personal trainer e massagista.
Identifiquei-me bastante com os seus artigos.Gostaria de ter se possível formação nesta área,como aceder é a questão que coloco?

Anónimo disse...

Olá!
Parabéns pelo blog! Ele é resumido e objetivo. Você conseguiu passar com facilidade informações preciosas sobre o SGA, dentre outros assuntos que acabei de ler (RPG).
Sou fisioterapeuta e vou recomendar esse blog para meus colegas.
Com certeza farei novas visitas.

Mariana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.