sexta-feira, setembro 01, 2006

E a reabilitação física? Os cuidados de saúde eternamente desprezados

Texto escrito há alguns meses que nunca foi publicado:


O sistema de saúde é, em grande medida, o espelho dos valores dominantes de cada país, reflectindo o seu contexto social, cultural e económico. Como valor fundamental, a saúde da população (física, psicológica e social) reflecte o estado da arte da prestação funcional do povo, em termos laborais, culturais e familiares. O desenvolvimento de um país depende, em larga escala, da qualidade dos serviços que atestam as nossas capacidades físicas e mentais, que o mesmo será dizer que o funcionamento do Sistema de Saúde constitui um dos principais indicadores do estado de maturação social da nação.
Assim sendo, preocupa correntemente os actores sociais o estado da arte da saúde em Portugal. Preocupa muito especialmente os órgãos de comunicação social, sendo que comummente os mesmos se vêem submersos por todo um conjunto de questões polémicas e sensíveis à opinião pública: as listas de espera cirúrgicas, a política do medicamento, os deficientes cuidados de hospitalização, o défice de médicos nos centros de saúde, entre outras.
Por vezes, a comunicação social vê-se inclusivamente preocupada com questões de saúde indubitavelmente mais relevantes, como é o caso da nova política dos cuidados continuados, sobrepujando a minimalista visão da saúde como compreendendo um sistema que integra unicamente os cuidados primários e os cuidados hospitalares.
Porém, eis que chega o momento de reflectirmos sobre um tipo específico de assistência em saúde, esta sim num decrescendo de importância relativamente ao tratamento mediático: a reabilitação física.
Tendo em conta a evolução da cronicidade de inúmeras patologias e disfunções, é provável que a maioria da população venha a necessitar, em algum dia das suas vidas, de um ou mais tratamentos de fisioterapia. O futuro da capacidade laboral e da qualidade de vida dessa mesma população está claramente dependente da qualidade dos cuidados prestados, pelo que é importante que o cidadão tenha acesso à mais qualificada intervenção com o mais qualificado dos profissionais.
Assim sendo, é indubitável a necessidade de conceber um atendimento o mais personalizado que for exequível, com um profissional o mais credenciado possível e tratamentos especializados e qualificados para a concepção da melhoria da qualidade de vida a curto, médio e longo prazo. O tratamento dos utentes deverá ter em conta certos princípios e valores, como a equidade e universalidade de acesso aos tratamentos, não esquecendo a indissolúvel componente humana.
Tendo em atenção toda a cientificidade e complexidade envolvida na esquemática dos tratamentos de fisioterapia, desde as técnicas de acção clínica analítica até aos mais abrangentes paradigmas teoréticos de intervenção terapêutica, a diferença na qualidade dos tratamentos residirá, em grande parte, na qualidade e formação do fisioterapeuta e na organização e condições dos cuidados prestados, assim como nas necessárias condições de autonomia da profissão, exercida com o máximo de rigor e cuidado, tendo sempre em conta a efectuação de uma intervenção adequada à avaliação previamente realizada.
Pura ilusão a dos que pensam que algo do que ficou dito corresponde à realidade! Puro engano de alma, no sentido mais camoniano da expressão. Neste país, o avanço dos cuidados de medicina e da própria sociedade está longe de ser acompanhado pelo desenvolvimento dos cuidados de fisioterapia. E este atraso, esta anquilose tem por base, sobretudo, o tipo de tratamento que o sistema de saúde tem dado e continua a dar aos cuidados de reabilitação física.
Ao invés de ser visto como um todo, o doente dos serviços de fisioterapia é repartido em bocados pelo sistema de saúde, sendo que não há uma intervenção global mas sim um conjunto de modalidades de fisioterapia. Estas mesmas valências terapêuticas aparecem ignominiosamente “prescritas” por um médico fisiatra no papel, sendo que aquilo que deveria ser uma visão holística do doente se transforma num conjunto de ordens de trabalho manual e sectário, ordeiramente obedecidas pelo profissional que não quer perder o seu emprego (e só isso evita toda a possibilidade de dissonância cognitiva).
Às modalidades prescritas em papel correspondem quase sempre técnicas de execução rápida e pouco técnica, com efeito imediato e a curto prazo. Tal deve-se não só à falta de conhecimento de muitas das mais especiais técnicas de tratamento por parte dos médicos fisiatras (comummente envolvidos em questões burocráticas, muitas vezes pouco preocupados com os próprios doentes) como também à inviabilidade financeira da execução de técnicas especiais com doentes que não chegarão a render...
Acontece que os pagamentos feitos pelo Serviço Nacional de Saúde relativamente às modalidades de fisioterapia são uma verdadeira miséria (estão ao nível dos cêntimos), fazendo com que um doente do SNS não constitua fonte de rendimento para uma clínica. Na realidade, um doente do SNS não chega sequer a ser tratado por um fisioterapeuta credenciado, sendo que passa apenas pelas mãos de auxiliares sub-formados, menos bem pagos que os fisioterapeutas.
Por outro lado, atendendo à submersão do mercado por tão grande número de fisioterapeutas (formados nas novas escolas que nasceram e proliferaram como cogumelos), não restará muito tempo para que os próprios fisioterapeutas venham a fazer o trabalho espúrio dos auxiliares, com um pagamento igualmente espúrio e uma respeitabilidade diminuta.
A realidade não é muito diferente se tivermos em conta os diferentes subsistemas de saúde, quase todos relegando os cuidados de fisioterapia para um plano verdadeiramente secundário, valorizando somente os tratamentos sintomáticos e esquecendo a importância da prevenção secundária e terciária.
O resultado será a contínua depreciação dos cuidados de fisioterapia e do próprio fisioterapeuta, a insatisfação do profissional com o consequente crescimento das suas ignomínia e inépcia baseadas na falta de prática de uma avaliação/intervenção coerentes, e a insatisfação do próprio cidadão, principalmente aquele que não quis (ou não pode) apostar financeiramente nos cuidados de fisioterapia. A insatisfação do cidadão, transformada em descrença na fisioterapia, levará a que o mesmo procure opções menos credíveis, quase sempre no seio de um mercado paralelo e ilegal.Agora que o Governo estabeleceu o novo projecto das redes de cuidados continuados, talvez se venham a lembrar das necessidades de reabilitação física de um povo progressivamente incapacitado.

Sem comentários: