quinta-feira, abril 12, 2007

Morfoanálise e algumas reflexões

Se é justo considerar o método Mézières como a “psicanálise do corpo”, visto que é esse o método que constitui o veículo de intervenção global ao nível da arquitectura e arqueologia corporal, não é de espantar que exista um método mézièrista denominado de “morfoanálise”. De certa maneira, é o nome mais adaptado àquilo que fazemos em Reeducação Postural: uma contínua análise da postura, associado ao necessário e consequente Reajuste Postural.
À semelhança de certos métodos grupais como a Antiginástica e o método Corpo e Consciência, a morfoanálise desenvolveu-se sobretudo como método psicossomático. Aliás, o seu axioma corresponde ao seguinte: “O bom equilíbrio está directamente ligado ao desenvolvimento da sensibilidade física e emocional”. É, portanto, mais um dos variados métodos que propugnam a indecomponível ligação corpo-mente.
Elaborado por Serge Peyrot, não parece constituir mais do que uma outra interpretação das variadas cambiantes do método Mézières. Aliás, tal como todos os outros métodos mézièristas, o terapeuta morfoanalista trata um ser total, uma unidade corpo-mente, favorecendo o trabalho da sensibilidade proprioceptiva e a reequilibração do tónus.
É, como tal, semelhante à Reconstrução Postural, com a desvantagem de ser mais teoria do que ciência.
Mas a propósito da grande generatividade do método Mézières, não posso deixar de reflectir sobre algo que todos os métodos mézièristas têm em comum, que é a “lentidão” do processo de trabalho terapêutico. Ou seja, tal como a psicanálise auxilia na “reconstrução” e “reinterpretação” psíquica do sujeito ao longo de vários e longos anos, também os métodos de reeducação postural actuam longa e lentamente, o que pode originar diversas dúvidas ou questões de ordem ética e metodológica.
Refiro-me àquela persistente dúvida que o terapeuta guarda no seu mais íntimo ser que é a seguinte: “Vale a pena todo este trabalho?”. Ora, é verdade que a intervenção em reeducação postural demora tempo, muito tempo. Por vezes, o mero trabalho de redução da tensão sem originar compensações leva vários meses. Por exemplo, tenho uma doente com uma escoliose, que possui tal tensão muscular a nível de toda a cadeia posterior que passo grande parte do tratamento a tentar reduzir a tensão da nuca e restante porção superior da cadeia posterior. Não vejo, portanto, a hora de conseguir “desfazer” a retracção que origina a escoliose. Vejo-me tentado a afirmar que o trabalho de reeducação postural sério precisa de ser realizado com uma temporalidade superior àquela que tem sido defendida. Ou seja, se muitos teóricos têm defendido que o trabalho de Mézières é para ser feito no máximo uma vez por semana, eu diria que não há razões verdadeiras para que o trabalho de alongamento global não se faça pelo menos uma vez por dia, todos os dias sem excepção!!! Refiro a minha experiência pessoal: se há um ano atrás possuía franco encurtamento da minha cadeia posterior, um trabalho persistente e diário de treino de posturas de alongamento global fez com que eu progredisse mais de 20 cm no teste “sit and reach”. Mas ainda assim, num ano de trabalho, com tal progresso da minha flexibilidade, apesar de ter melhorado da minha tendência cifótica dorsal, certos caracteres posturais (como os meus joelhos valgos) não se modificaram por aí além. Não quer isto significar que não conseguirei ter outro género de progressos com mais tempo ainda de trabalho postural.
Mas vejamos bem o tempo que é necessário para conseguir resultados... E com intervenção diária! Será que as minhas classes de “ginástica postural” ou os meus tratamentos mézièristas semanais não serão uma espécie de “engodo” para os meus doentes?... Não será minha obrigação explicar-lhes que o trabalho de reeducação postural é extremamente prolongado e moroso, e que resultados consideráveis só poderão ser conseguidos com a utilização de tempo e dinheiro de uma quantidade inacessível a muitos?... E questão ainda mais importante!... Será que vale a pena ser um terapeuta de “reeducação postural”? Não será mais “realista” para todos se for um terapeuta de tratamento sintomático, daqueles que resolvem as coisas rapidamente, apesar de nunca chegarem às causas dos problemas?... De qualquer maneira, a intervenção causal pode demorar toda uma vida a dar resultados concretos...
Que fazer quanto às dúvidas? Serei um bom terapeuta se começar a duvidar dos meios que estão ao meu dispor? Será que vale a pena continuar pelo o mesmo caminho? Ou será que vale sempre a pena lutar pela Verdade, por mais longínqua que ela se situe???...
Tantas dúvidas, tantas questões... E tão poucos são aqueles que reflectem nestes aspectos... Vale ou não a pena?... Ser ou não ser?... Eis a questão... Questão aporética, que muitos respondem com o que acreditam e não com a lógica da resposta madura...

6 comentários:

Chris disse...

Só estou passando para pedir para vc visitar meu blog. É sobre a RPG e tem apenas o objetivo de divulgar o método original aqui no Brasil e plubicar assuntos relacionados ao mesmo.

Chris

Daniel Costa disse...

Eias,

Já consulto o teu blog à imenso tempo, escreves superbem,
tanto que ando a juntar uns dinheiritos para um dicionário a ver se percebo:
"aporética"; "psicanálise do corpo"; "morfoanálise"; "axioma"; "propugnam";"genaritividade" e por aí fora...
Também sou fisio, formado na estsp por isso fraquinho fraquinho, mas cada vez que aqui venho delicio-me com estes teus textos, percebes imenso disto e vê-se que te empenhaste para ter uma formação sólida na tua área.
Mas que carago, eu que até gosto de ler e de filosofar tenho sempre uma extrema dificuldade em ler os teus textos.
Por isso sugiro: podias simplificar um pouco os teus textos, tornam-se muito menos maçudos a ler e retemos mais partes da mensagem!

Grande abraço, fica bem
e boa sorte!

Luís Coelho disse...

Chris, qual é morada do teu blog? Bjs

Chris disse...

Desculpe a lentidão, mas esqueci de esccrever aqui o blog. É www.rpgsouchard.blogspot.com

Ainda não tem mta coisa, pois comecei escrever a pouco e so gosto de escrever quando estou inspirada. então não se espante se o blog ficar meses ou masi desatualizado.

Chris

Chris disse...

Mais um site para sua lista de links

http://www.rolfing.com.br/

Marcelo V. Antunes disse...

Olá,

Primeiramente gostaria de parabeniza-lo pela disponibilidade mistíca notratar de assuntos deverasmente complexo, assim como corpo e suas representações psicologicas. Sou Fisioterapeuta com uma formação ampla na área psi, parti do empirismo do corpo via fisioterapia em direção ao psiquismo até as correntes mais energeticas e místicas de abordagem corporal, digo bioenergetica e algumas correntes fora da representação simbólica, digo mas gerativas. Entendendo o corpo como usina de forças assim como o inconsciente como produção. Meus estudos vão em direção a filosofia da imanência estudo autores, como: Nietzsche, Deleuze, Félix Guattari, Foucault, Bergson, Espinosa, Leibniz, Hume entre outros filosofos da imanência que pensa o corpo fora da representação. Conheço alguns métodos de anti-ginástica, assim como métodos de cadeias gerativas, atualmente estou estudando neurociencia e biomecanica, para entender como o cérebro constitui hábitos psicomotores, gerativos que aqui chamo de uma anatomia emocional, agreditando que a gerativa morfologica altera o tonus e os estados proprioceptivos conscientes e inconscientes, indo de encontro ao trabalho que que pretendo desenvolver a partir das posturas primitivas assim como rever o repertório da programa motora que esteja vinculado aos mapeamentos cerebrais em niveis mais profundo do cortex e da geratividade somática do hábito motor, conhecedor desta junção de psiquismo e corpo entendo que a terapia GERATIVA, trabalhará com as posturas primitivas do humano, assim como os niveis mais abstratos das posturas do corpo, o objetivo é trilhar as posturais do neurodesenvolvento psicomotor primitiva, assim alteram as bases do cortex psicomotor com antiposturas, entretando os engranas psicomotores se disponibilizam a partir de estágios do desenvolvimento proprioceptivos conscientes e e inconscientes, vinculados na terapêutica. Minha condução terapeutica esta indo nesta direção de uma terapia mais gerativa, ainda muito no embrião. Preciso fazer um laboratório de avaliação e ponderação dos casos, assim com de terapêutica e propedêutica. O que acha desta viagem?
Email: mv.antunes@hotmail.com
Marcelo Vasconcelos Antunes