sábado, janeiro 31, 2009

Princípio do Prazer vs. Princípio da realidade

Ultimamente tenho sentido uma necessidade de orquestrar uma escrita que pode ser designada como de “auto-ajuda”. Não é uma coisa sentida como propositada. Apenas revela o meu “estado de alma”. Pois a vida é realmente feita de “estados” e de “espíritos passageiros”, mas aquilo que agora digo ser efémero diz respeito a uma duplicidade muito mais global e inconsciente do que possamos à partida pensar: é o binómio “princípio do prazer” vs. “princípio da realidade”.
Este binómio perfaz a primeira “tópica” da psicanálise freudiana. Sem querer “evangelizar” seja quem for, devo dizer que para mim a Psicanálise explica o mundo de uma forma bastante mais plena do que qualquer conceito ou teoria supostamente “científica”. É claro que a Psicanálise, assim como o marxismo e outros grandes Conceitos de fulgor histórico indescritível, não é popperianamente falsificável, portanto não é Ciência. Mas é, a meu ver, uma forma de descrição da Realidade bastante mais sagaz do que aquela que é dada por qualquer ciência.
Mas voltando à tópica de Freud. Para o mesmo, o mundo, e o seu equilíbrio, estaria dividido entre os instintos, o prazer, e as Estruturas sociais, a Realidade. A maturidade advém da equilibração perfeita entre os dois princípios. Pois que nem o homem é só Prazer, senão seria animal, nem é só Realidade, porque senão seria autista, ou, no mínimo, obsessivo!
Mas aquilo que pretendo defender é que nesta duplicidade entre prazer e realidade, coração e razão, ou “Vénus de Milo” e “Binómio de Newton”, todos temos, mais cedo ou mais tarde, independentemente do tipo de ligações bem arredadas existentes entre os dois pólos do “binómio”, que fazer uma escolha: ou somos mais científicos ou somos mais teoréticos. Ou somos mais pela Fisioterapia científica e convencional, género “Evidenced based practice”, ou somos mais pela Fisioterapia conceptual, aquela que é, de certo modo, postular e acientífica. Acientífica se compreendermos por “ciência” aquilo que os “convencionais”, os “positivistas”, concebem como “método científico”. Pois, tradicionalmente, “Ciência” constitui conceito só redutível aos estudos nomotéticos e com amostras de vários sujeitos. Mas, se virmos o “Logos” não tanto como “método” (no sentido convencional do termo) mas mais como “Conhecimento”, então, acabamos por ter de incluir na palavra ‘Ciência’ aquela forma relativista de ver as coisas a que alguns chamam “pós-modernismo”. Tudo isto para dizer que métodos como a Psicanálise ou a Reeducação Postural podem ser vistos nos termos relativos à Ciência pós-moderna. Ciência que para a maioria dos clássicos cientistas não é ciência porque não tem método científico. Método que para os relativistas é tão aceitável como qualquer outro dito “científico” ou não. E nesta circularidade podíamos continuar eternamente até chegarmos à conclusão que a Epistemologia é uma eterna aporia filosófica.
Mas, voltando ao assunto, diria que as pessoas que caem para o lado do meu método, a Reeducação Postural, têm, de certo modo, de se desligar da cientificidade da Fisioterapia tradicional, aquela que é sobrevalorizada nos cursos superiores de Fisioterapia e nos múltiplos mestrados e doutoramentos, e abraçar uma forma de ver a Realidade que tem a ver com uma Integralidade não redutível a um método de “ciência positiva”.
É uma escolha a fazer na duplicidade “prazer-teoria” vs. “realidade-ciência clássica”. Eu fiz a minha escolha! E, portanto, abandono os métodos científicos dos cursos para arreigar uma escrita meio “método” meio “literatura”. Que os outros profissionais façam também a sua escolha. Raramente nas licenciaturas é possível fazer tal escolha. Estão tão agarradas ao método científico clássico que a Teoria quase que só aparece nos temas mais sensíveis. Claro que o Conceito também faz parte da linha mental dos fisioterapeutas. Qual de vós não ouviu falar do método Bobath? Qual de vós não viu já alguém defender esse método com veemência e até algum “fanatismo”?... Quando estava na licenciatura no Alcoitão, criticava aqueles que se destituíam de “Ciência” para defender um método com tão pouca base científica quanto o método Bobath. Agora, que eu próprio caí num Conceito, compreendo a visão daqueles que defendiam Bobath. E até concordo que os diversos métodos de Reeducação Postural (que incluem a componente neurológica) e os vários métodos de Intervenção Neurológica (que incluem métodos de intervenção postural) podem ser unidos numa só “substância”, num só conceito... um conceito de Visão de corpo enquanto “matéria global” que deve ser tratada sem fortalecimentos e compensações, e deve ser vista sempre pela via da “inibição dos excessos tónico-músculo-fasciais”. Esta construção teorética pode e deve ser feita por alguém. Esta compreensão nominalista, que já citei algures num texto intitulado “Navalha de Ockham”, tem de ser realizada. Se não, o fisioterapeuta não passará de um investigador limitado ao método positivo, sem a capacidade para ver a Pessoa na sua integralidade, que denomino, de uma vez por todas, de “Morfo-psico-análise”.
Qualquer semelhança entre esta conversa e a distinção entre método biomédico/biomecânico vs. método holístico/bio-psico-social é pura coincidência... sempre a duplicidade Prazer vs. Realidade. Sempre essa lição tão liminar de Freud, um homem que muito admiro pela sua grandeza teorética.
Fica, agora, um desafio: existe um livro pequenino mas obrigatório para se ler, para quem se interessa por Epistemologia, Ciência, e Pós-modernismo. É uma espécie de manifesto pós-modernista relativamente ao qual temos a liberdade para concordar ou não concordar. Apesar de nem sequer gostar de Boaventura de Sousa Santos (autor do livro), a obra, que se lê num dia, intitulada “Discurso sobre as ciências” (Edições Almedina), pode modificar as nossas vidas. A mim tirou-me o sono, pela perplexidade do seu conteúdo. É que a obra defende um método que se afasta da Tradição e, portanto, complica a nossa mente “disciplinada”. Leiam o livro, peço-vos! Pois, nos cursos científicos de Fisioterapia, nos mestrados e outras “tretices”, este livro é muitas vezes propositadamente negligenciado!...

1 comentário:

Vera disse...

Olá Estimado colega.
Eu sou uma fisioterapeuta que estudou na ESTeSL.
Certamente que ao aplicar uma técnica, nós não não estamos apenas a aplicar essa mesma tecnica.Estamos a interargir com um utente. Dai se perguntar se o que fazemos é ciência ou arte. No entanto discordo num ponto. A fisioterapia precisa de ser baseada em sólidas bases científicas. É imprescindível que no quotidiano da fisioterapia se toquem a ciência e a arte, a humanidade e as bases científicas, senão pouco mais valemos que outros concorrentes na nossa área, muito menos qualificados.
Com efeito, há necessidade de mais investigação clínica, versus laboratório(ninguém trata doentes no laboratório), e que se pense, reflicta e escreva em fisioterapia.
Atenciosamente
Vera Sousa