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sexta-feira, junho 11, 2010

Falta de objectividade da Comunicação Social

Assisto, de boca aberta ao seguinte “fenómeno”: No site do Jornal “I”, podemos ler: “Caso PT/TVI: Inquérito conclui que Sócrates mentiu no Parlamento”. No site do “Público”, lemos: “Relatório PT/TVI: Primeiro-ministro mentiu ao Parlamento”. No site do “DN” lemos: “Governo e Sócrates “tinham conhecimento” da operação”. E no site do “Expresso” podemos ler precisamente: “Relatório não prova mentira de Sócrates”. Parece que este último jornal terá lido o relatório em causa “de outra maneira”, supostamente “na íntegra”. Mas aquilo que concluo verdadeiramente de tudo isto é que a Verdade dos factos parece querer ser aquela que dá jeito a cada um. Em particular reparemos na atitude que certo jornal tem tido ao longo de anos relativamente ao Governo...
Reparemos, sobretudo, como é possível conseguir que a “mesma” verdade possa ser interpretada de maneiras tão diferentes... Assusta-me que o conceito de Objectividade seja realmente tão frágil por entre esse meio que é o da Comunicação Social...

quinta-feira, junho 10, 2010

A Ordem dos Fisioterapeutas: será uma ilusão? Um manifesto

Peço-vos: não se acerquem da ilusão que um certo “utilitarismo maioritário” tem concebido relativamente a uma futura Ordem dos Fisioterapeutas. No plano teórico, a Ordem será muito bem vinda, e todos devem contribuir para a “petição”. Mas, no plano prático, as coisas não são assim tão simples.
Na realidade, a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas pede aos seus associados para subscrever uma petição, que, se for a bom porto, permitirá tornar os fisioterapeutas “bem colocados” da APF num órgão ainda mais poderoso: uma Ordem. A APF precisa dos seus associados como combatentes em nome de um órgão que irá, supostamente, tornar os fisioterapeutas profissionais mais autónomos e reconhecidos.
Em tempos, os enfermeiros também tinham a mesma ilusão. Mas, como veio a verificar-se, a Ordem dos enfermeiros tornou-se um organismo totalmente anémico, incapaz de exercer qualquer tipo de pressão, ou de realizar qualquer tipo de acto licencioso capaz de “ajudar” verdadeiramente os profissionais. Perguntem aos enfermeiros se se sentem “reconhecidos” pela sua Ordem...
Assumindo que a “nossa” Ordem não irá cair na pura “ineficiência” dos “enfermeiros”, devo dizer que a Ordem dos Fisioterapeutas, um pouco à semelhança dos sindicatos, só poderá vir a favorecer todos aqueles fisioterapeutas “velhos do Restelo” que se encontram bem colocados nos Hospitais e Centros de Reabilitação. Já a grande maioria dos jovens fisioterapeutas, muitos deles a ganharem a recibos verdes, e eventualmente a trabalharem em conjunto com auxiliares de fisioterapia e médicos fisiatras nas clínicas existentes, não conhecerão qualquer tipo de vantagem com uma pretensa Ordem; esta só fará com que aumente o nível de conflito (já existente) entre os diversos profissionais, os quais têm que inelutavelmente trabalhar como equipe.
Pergunto: quem fará parte da administração da Ordem? Provavelmente os membros da Associação. Pergunto: que vantagens possuo em fazer parte da APF? Descontos nas suas próprias formações? Acordos inúteis com outros Organismos? Divulgação de cursos ao preço de 200 euros? Divulgação de um Boletim que já quase nem é impresso?
Pergunto: Que fez a Associação para impedir a abertura indiscriminada de escolas de Fisioterapia? (Teremos consciência de que os membros da APF são, na sua maioria, professores nessas diversas escolas?...)... Que fez a APF para divulgar o mundo da Fisioterapia nos meios da Intelligentsia portuguesa? (Sozinho, publiquei mais artigos na Comunicação Social do que todos os membros da APF, presidente incluída, em conjunto). Que fez a APF para divulgar a verdade deste mercado grosseiro das múltiplas formações pós-graduadas? (Antes pelo contrário, ajuda e apoia um mercado que explora os jovens fisioterapeutas)... Podia continuar eternamente... Claro que a pergunta “final” é óbvia: Se a futura Ordem vai ser constituída por membros da APF, quem me garante que a Ordem vai fazer mais do que a APF tem feito?...
Já sei o que vão responder... A Ordem possui maior poder e legitimidade de intervenção que uma simples Associação. Daí a necessidade de criar uma Ordem, a qual possuirá maior poder “persuasivo”. Que grande ilusão!... A Ordem visa dar poder a quem quer poder! A Ordem visa dar lóbis e “cadeiras douradas” aos que já estão bem instalados! Pois, na realidade, nem sequer as entidades patronais se preocupam com a nossa suposta Ordem. Não são as nossas Cédulas reconhecidas unicamente pelo Ministério da Saúde?... Cédulas algumas em que os nossos colegas são identificados como “Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica”...
A realidade real das coisas tem demonstrado que as Ordens em geral não passam de organismos de abuso de poder, muitas vezes completamente descaracterizados e distantes da realidade dos profissionais. A “Elite” quer existir às nossas custas, mas não poderá resolver a nossa situação.
Acho que, no fundo, é mais fácil, para o nosso reconhecimento e autonomia, provar junto das nossas entidades patronais, principalmente se forem médicos, as nossas verdadeiras capacidades intelectuais e pragmáticas. É o que tenho feito junto dos meus “patrões” e todos os outros colaboradores, o que me permitiu, com o tempo, crescer na “empresa”. E digo-vos que a directora clínica da Clínica onde trabalho (médica fisiatra) tem demonstrado muitas vezes mais reconhecimento pelo meu trabalho e qualidades do que a simples recepcionista ou a mulher da limpeza...
Pensemos menos em formações! Pensemos menos em Ordens ou Sindicatos! Pensemos menos em soluções de “outros” relativamente à nossa vida. Pensemos mais nas nossas próprias qualidades heurísticas, na nossa capacidade competitiva, na nossa capacidade para conseguir “crescer” e mostrar que somos mais eficientes que muitos “outros”. Este tipo de “combate constante e competitivo” não existe para aqueles que já estão bem instalados (e encostados) nos diversos hospitais que por aí abundam...
Não coloquemos muita fé numa suposta Ordem. Esta gosta, muitas vezes, de exercer o seu poder de forma supostamente arbitrária. O nosso reconhecimento e autonomia estão dependentes, acima de tudo, das nossas capacidades, as quais devem basear-se num exercício de Liberdade (responsável). A Ordem dos Fisioterapeutas não será eficiente. Se o vier a ser, então transformar-se-á em mais um organismo de mero exercício de Autoridade.

sexta-feira, junho 04, 2010

O problema da demarcação e a sociedade aberta

Há quem se refira a um hipotético “Choque de civilizações” para se referir às diferenças, sabidamente tonitruantes, entre os valores que medeiam as sociedades ocidentais, conhecidas entre nós como sociedades evoluídas, e os valores que consubstanciam o funcionamento das sociedades ditas “fechadas”. A questão deste texto trata de saber se as diferenças referidas poderão ser “objectivadas” cientificamente, ou se continuarão a ser exclusivos do campo do preconceito com base num certo relativismo histórico-social.
Sabemos que existe, nos tempos que correm, uma tradição pós-modernista de carácter assaz historicista que pretende que o nosso conceito de “banalidade do mal” (Arendt) não passa de uma forma de subjugação das sociedades orientais a uma hipotética superioridade do ocidente. E sabemos também que até existe toda uma verborreia psicologista que pretende relativizar o impacto de certos fenómenos que os ditos “ocidentais” pretendem criminosos (como a pedofilia ou a excisão genital feminina).
Não sendo de negar o realismo pragmático de um certo relativismo, algo que terá de ser necessariamente respeitado por todos os actores sociais das ditas sociedades evoluídas, existe aquilo que podemos designar por um “limite da tolerância”, correspondente provavelmente ao “intolerável” (e este “intolerável” é-o independentemente das razões psicossociais - conscientes ou inconscientes - que subjazem a determinado fenómeno de natureza imoral). Mas este mesmo “intolerável” só poderá existir “realmente” se, de algum modo, consubstanciarmos a existência, também ela “real”, de Valores ético-morais.
Sejam ou não de base explicativa bio-genética e evolutiva, os invariantes que conhecemos por Valores permitem a construção de critérios de funcionamento sócio-moral. Mas estes mesmos critérios não possuem qualquer sustentação se o agente que os constrói não possuir um verdadeiro espírito de “racionalismo crítico”. Pois não terão sido Platão, Hegel e Marx profetas, supostamente hipermorais, teóricos de uma sociedade perfeita, construtores de uma escala de Valores que veio mais tarde a revelar-se enganadora?...
Karl Popper, no seu “Sociedade aberta e os seus inimigos” faz a análise destes – para utilizar a expressão de Berlin – “inimigos da liberdade”. E essa sua análise não pode ser separada daquilo que o mesmo entende como o critério da demarcação (referido primacialmente em “A lógica da descoberta científica”) entre científico e não científico (poderíamos dizer entre racional e irracional): a falsificabilidade.
Ora, atendendo a que, de certo modo, determinados Valores, no sentido da sua conversão em regras morais, possuem um carácter ambíguo e redundante, que o mesmo será dizer que nem sempre a temática “política” se move pela unanimidade moral de intentos, resta à ciência, à verdadeira ciência pura, exacta e falsificável, a criação desse já citado critério (de racionalidade) que permite, na teoria, descartar falsas ideologias libertaristas. Reside, portanto, a meu ver, na ciência, principalmente a popperiana (que não se baseia num realismo ingénuo, como a dos neo-positivistas, mas também não recai na infinita “multiplicidade de olhares”), a função de determinar aquilo que pertence ou não a uma escala de Valores instituída com visão única na Liberdade.
Porém, a constituição de uma ciência contemporânea, conhecida por pós-modernismo, vem abalar toda a presunção de uma objectividade moral, pelo menos se nos propusermos a aceitar o que foi dito anteriormente.
Acredito, no entanto, que a ciência pós-moderna se baseia num grande mal-entendido. É que dizer que o Homem se move por um conjunto de factores inúmeros que se movem uns pelos outros num suposto “efeito borboleta” – o que acarreta, obviamente, um certo relativismo, assim como o tratamento das ciências sociais e humanas no prelo de um estatuto autónomo – não é o mesmo que dizer que o Homem está preso a uma máquina de indeterminismo. Ou, traduzindo numa linguagem “quântica”: dizer que existe um incomensurável conjunto de colisões entre partículas, não completamente mensuráveis pelo homem (sem que o mesmo altere esse mesmo estado cinético), não significa que não exista um limite virtual para o conjunto dessas colisões (futuramente mensuráveis).
Ora, se a própria evolução da ciência propõe um controlo futuro do conjunto imenso de factores que enformam o agir humano, o necessário determinismo que daqui advém acarreta a cientificação plena das temáticas sociais, o que, por si, acabará por acarretar a construção de uma criteriologia que esboce a edificação de uma sociedade aberta e de relações internacionais basilarmente morais (na mais pura das axiologias).
Somente a vontade de continuarmos a viver como “animais irracionais”, ao sabor de um certo evolucionismo retrógrado e instintivo, poderá fazer com que a “sabedoria das nações” (Beauvoir) não se delineie na plenitude. Até agora, parece que a história do Homem tem sido a história de um poderoso Id. Talvez esteja na hora de nos constituirmos como seres amplamente Humanos. Talvez esteja na hora de nos começarmos a guiar pela verdadeira Razão.

Filosofia enquanto ciência? A escola analítica

Falar da filosofia enquanto mãe de todas as ciências não passa de pura vanidade. Pois, na realidade, a filosofia, enquanto prática mais ou menos literária ou mais ou menos silogística, existe há muito mais tempo do que aquele em que o “Logos” passou a ser matéria banal. Mas, é bem certo que as relações entre a filosofia e a ciência estão longe de estar completamente reiteradas, apesar de que é certo – ou foi certo, até ao século XIX – que a matéria filosófica passa mais por doxa do que por matéria falsificável.
A filosofia grega mais ou menos essencialista, a patrística e a escolástica, a filosofia do renascimento e das Luzes, assim como toda a restante que passa por “moderna” (compreendendo que este “período” se finaliza com Nietzsche), é, apesar das suas diferentes áreas e dissemelhantes escolas, matéria essencialmente especulativa. Esta filosofia tende a confundir-se muitas vezes com “história da filosofia”, pelo menos no que respeita à prática contemporânea de um pensamento já pensado pelos autores canónicos. Queiramos ou não, a filosofia dita “historicista” tem mais a ver com exercício hermenêutico do que propriamente com uma actividade dita científica. Não existe nela a “metodologia” que é necessária à constituição de matéria adequadamente testável, ou pelo menos não existe simplesmente um “método”.
Sabemos que a divisão da filosofia europeia em dois tipos de praxis pensante – filosofia anglo-saxónica e filosofia Continental (o C maiúsculo é propositado) – nasce, pelo que é legítimo considerar da divisão da filosofia em empirismo britânico (desde o empirismo propriamente dito de Locke até ao empirismo radical ou idealismo de Hume) e racionalismo continental (Descartes, Leibniz, Spinoza), no século XVII, tendo a sua aparente resolução “construtivista” em Kant, no século XVIII. Ora, esta tradição tende a manter-se em pleno século XX, com os países anglófonos a serem essencialmente empiristas e os países do Continente a serem essencialmente dados à “razão historicista”. Mas, ao contrário do que se possa pensar, a tradição do século XVII tem pouca influência na divisão de escolas da contemporaneidade, sendo que o empirismo lógico pouco ou nada tem (inicialmente) de idealista, enquanto que a filosofia Continental pouco mantém das minudências cartesianas.
Enquanto o continente se mantém relativamente apegado aos grandes pensadores, no formato de novas filosofias como a fenomenologia, o existencialismo, o estruturalismo e a filosofia pós-marxista (portanto, mantém-se como matéria ainda essencialmente especulativa e não científica), nasce, nos países anglófonos, uma tradição de análise supostamente científica da filosofia. Trata-se da filosofia analítica. Esta filosofia pretende tratar os diversos temas filosóficos (à excepção da metafísica e de outros temas dificilmente “comensuráveis”) com recurso à dissolução logicista das matérias linguísticas em questão. E parece que esta tradição do “Tratado Lógico-filosófico” de Wittgenstein e da obra de Russell colheu bastantes fãs, pois, de tal modo a filosofia parecia cientificar-se que os pensadores do Círculo de Viena fizeram uso deste material da Lógica para poderem exprimir a sua filosofia neo-positivista (também chamada de positivismo lógico). Ao que parece, uma grande parte dos filósofos anglo-americanos passaram, de certo modo, a considerar a filosofia (analítica) como matéria científica. Não devemos claro confundir a filosofia analítica com o neo-positivismo, supostamente epistemologia científica, cuja cientificidade viria a ser dominada pela contradição popperiana do princípio da observação.
A ciência aqui estava na forma de trabalhar da filosofia analítica, a qual chegava a dispensar a leitura dos filósofos do passado, tal como um físico não precisa de ler Newton ou Bohr para construir uma bomba atómica. Mas também esta filosofia dita científica viria a falhar na explicação da “enormidade” do mundo. É que, não só Gödel viria a mostrar que nem tudo é matemática ou linguística, como os próprios filósofos analíticos iriam mergulhar numa espécie de esquizofrenia idealista, criando uma brecha para um tipo de filosofia solipsista baseada na análise linguística sem relação com a Realidade real. Lá ficou pelo caminho a pretensão de constituir uma filosofia inteiramente científica.
Em jeito de curiosidade, note-se que os diversos caminhos da filosofia continental também levaram à análise das estruturas linguísticas (numa tradição essencialmente estruturalista, inicialmente meramente formal e semiótica), e também estas acabaram em exercício “idealista”, perpetrado fundamentalmente pelo desconstrucionismo de Derrida.
Conclusão: apesar de existir ainda uma forte tradição analítica, e apesar de a filosofia historicista das grandes obras ser ainda aquela apaixonante e dominante forma de fazer filosofia, o pós-modernismo – a tendência mais moderna e pragmática de fazer filosofia (e, ao contrário do que é dito, algo que merece grande consideração) – assume-se como a nova grande forma de fazer filosofia, que é precisamente a forma de filosofar mais longínqua que alguma vez existiu da forma de fazer verdadeira ciência.

segunda-feira, maio 31, 2010

Facebook e a questão da privacidade

Agora que todos falam do Facebook e da questão da "invasão da privacidade", gostaria de dizer umas quantas palavras sobre isso. Não há ninguém que seja mais crítico relativamente às inovações do tipo "redes sociais" e "Ipad" quanto eu. Acredito até que estas "modernices" representem o fim hipotético de um mundo que tem muito mais graça, que é o mundo dos livros bolorentos e dos engates em real time. Por outro lado, sabidamente também eu me traí e também eu criei uma página no Facebook. É verdadeiramente um defeito. Mas é um defeito que assumo consciente e responsavelmente. E acredito que a maioria das pessoas ligadas a esta rede social tem plena noção daquilo que acarreta a sua subscrição. Daí não entender toda esta "prosódia" sobre o ataque à privacidade. Pois, quem coloca um perfil no Facebook sabe perfeitamente que está a criar uma brecha na sua privacidade e, suponho eu, está a responsabilizar-se por esse acto. Dizendo de outro modo, quando coloco informações nas redes sociais, sei perfeitamente que toda a gente vai ter acesso àqueles dados; aliás, o objectivo é esse mesmo. Depreendo obrigatoriamente que aquele é um espaço em que autorizo a sua revelação. Por isso, não entendo a questão da "Privacidade", visto que, talvez exceptuando as crianças pequenas, essa é uma questão da pura "liberdade responsável" dos utentes das redes.

Publicado parcialmente no Correio dos Leitores do Jornal "I"

domingo, maio 02, 2010

O elogio da dança contemporânea

Disse já várias vezes que as terapias de âmbito expressivo, como a psicomotricidade ou a dançoterapia, constituem o futuro da reeducação postural. É que, a evoluir no sentido de um conceito essencialmente “neurodinâmico”, porque “postura” se trata essencialmente de área neurológica e não tanto orto-reumatológica, a reeducação postural só poderá mesmo avançar no sentido que Bobath conseguiu tão bem explanar em termos mais teoréticos.
Podemos chamar-lhe imensas coisas: Chi-Kung, Tai-chi ou PNF-Chi, Temple Fay, Phelps, Affolter ou Bobath, psicomotricidade, psicodrama ou terapias expressivas... Todas têm em comum a fenomenologia facilitatória e de baixo-impacto das forças expressivas de um ser humano criativo. Já falámos várias vezes da questão dos “paradigmas” e das similitudes entre os diversos métodos (a questão das diferenças semióticas dos diversos modelos de intervenção). Por isso, não vale a pena batermos no ceguinho. Agora estou em fase de experimentar a dança contemporânea, essa prática que integra um pouco de tudo aquilo que referi atrás. Essa prática que podia ser vista como um PNF ou um Bobath aplicados a um corpo heurístico, mas com um nome diferente: dança contemporânea, movimento contemporâneo, dança ou movimento expressivo, dança ou movimento livre, etc.
A dança contemporânea ou expressiva, que tenho praticado, constitui, na teoria, uma desconstrução do ballet e das suas estruturas e/ou regras mais ou menos rígidas. É uma prática que dá espaço ao corpo e à relação corpo-mente para falarem livremente, como se cada gesto fosse o resultado do mais puro e duro livre-arbítrio. Inclui também o funcionamento como um todo, padronizado, algo que já é perspectivado há milénios pelo Yoga e pelo Chi-kung, e há séculos pelos bailarinos, algo que foi intelectualizado – e não descoberto – pelos fisioterapeutas da “facilitação neuromuscular” ou das técnicas de “facilitação e inibição”...
E, para tornar tudo mais perfeito, tudo o que ando a defender há anos está presente nas mentes dos bailarinos: o relaxamento e o alongamento a frio a iniciarem o “treino”, o trabalho de inibição tónica por meio do treino de movimentos facilitatórios (Bobath? Alexander? Feldenkrais? Reconstrução Postural?... Que interessa o nome que os fisioterapeutas lhe dêem...), a consciencialização corporal e postural, a vivência do movimento criativo sem esforço, a integração sensorial, o treino proprioceptivo, o desafio constante ao equilíbrio (físico? Mental?...) a concepção espácio-temporal, o relaxamento (do corpo? Da mente? Da estrutura que os integra?...), e a consubstanciação expressiva da criatura (supostamente) livre que nos enforma.
Tenho só coisas boas a dizer destas minhas experiências com a dança. Como seria bom que todo o mundo da “hipermodernidade” (para utilizar o termo do cada vez mais modal Lipovetsky) do fitness aprendesse algo com estas experiências da arte do movimento (movimento? Postura?...).

sábado, abril 24, 2010

Falsificacionismo ingénuo ou a epistemologia de Lakatos

Depois de ter escrito e publicado artigos sobre Popper e Kuhn, os dois nomes mais sonantes do mundo da teoria do conhecimento, urge laborar em algumas “evoluções”, pela mão específica de Imre Lakatos. Pois, na realidade, no seio de um certo acometimento do pensamento, concluo, de vez, que certos argumentos de Popper relativos à importância da “falsificação” como critério de demarcação e como requisito de crítica ao relativismo/historicismo não me convencem verdadeiramente; e, assim, a emergência do pós-modernismo torna-se uma realidade crua, um sentido fatal e inexaurível.
É possível que a realidade do pós-modernismo seja virtualmente falsa, pela virtualidade das possibilidades de controlo de certos factores consideravelmente difíceis de prever e controlar. Mas parece que o relativismo está mais próximo da realidade pragmática das coisas que o empirismo essencialista, pelo menos no que respeita ao funcionamento das ciências sociais. E não tenho dúvidas de que o critério do falsificacionismo não tem utilidade no funcionamento das ciências sociais, sendo estas totalmente probabilísticas.
Assim, o facto de certos acontecimentos não provarem de todo a emergência do princípio de observação mézièrista não implica a falsidade do princípio, no sentido em que a excepção não implica o abandono de uma certa propensão probabilística.
Conheço os argumentos de Popper relativos às críticas dos relativistas. Mas não sei se me convencem...
No contexto desta discussão, o nome de Lakatos é fundamental, no sentido em que este analista da obra de Popper fala da falsidade da evolução da ciência por “tentativa e erro” (tal como defendido por Popper), assim como se refere à ingenuidade de um critério de “falsificação” como princípio evolutivo do progresso das ciências. Este falsificacionismo “ingénuo” ou “dogmático”, defendido por Lakatos nos seus ensaios, aponta a epistemologia dos paradigmas de Kuhn como estando mais próxima da Verdade real ou pragmática das coisas. É que na realidade é assim que a ciência progride verdadeiramente: por jogos de resistência, apagões de teorias contraditórias, negações de falsificações, tentativas de inclusão das anomalias relativas à teoria, e, finalmente, uma rendição relativa a um novo paradigma no caso do período revolucionário ter sido bem sucedido.
O falsificacionismo continua a ser importante... mas no domínio das ciências exactas. Por outro lado, mesmo nestas, a evolução da ciência é feita por um processo que não tem nada a ver com o Ideal evolucionista propugnado por Popper. É que a realidade pragmática das coisas tem demonstrado que a dinâmica dos paradigmas e das “epistemis” (Foucault) domina a evolução da ciência, sendo que a incerteza e o relativismo são realidades impossíveis de apagar.
A partir daqui, resta apenas a tentativa de ter tudo em conta, de sermos necessariamente razoáveis, e de evitar ao máximo a fuga ao meio-termo. Nem Popper é Lei, nem o relativismo é necessariamente a resposta única das coisas.

Publicado em 'As Artes Entre As Letras', dia 28 de Julho de 2010

segunda-feira, abril 19, 2010

Bullying: visão de uma vítima

Há alguns anos atrás, quando descobri pela primeira vez o significado do termo “bullying”, estava longe de pensar que o mesmo “fenómeno” viesse a tornar-se uma moda, assaz mais um fenómeno conceptual das “indústrias culturais”. Nessa mesma altura em que descobri o conceito de “bullying”, senti-me feliz pelo facto de existir um nome para aquilo que eu próprio tinha vivido durante anos a fio.
Lembro-me que, quando ingressei numa nova escola por volta dos dez anos de idade, não levaria muito tempo para que os gozos e as ameaças se tornassem uma constante na minha vida. Acusavam-me de ser “menina”, de ser mariquinhas. E eu sofria por não me rever nas acusações. E pelo menos metade da turma a que pertencia criou o hábito de me gozar e assediar diariamente, horas e horas a fio. Esse gozo durou todos os anos do meu percurso naquela escola e naquela turma. E, à medida que os anos iam passando, também a minha pessoa se foi modificando. Anos e anos de gozo levaram-me ao extremo da máxima auto-depreciação; perdi os poucos amigos que tinha, a minha personalidade tornou-se sombria e o meu comportamento intelectualizado, o meu corpo era desvalorizado e até a minha identidade sexual se achou totalmente baralhada. Lembro-me que fiquei incapaz de ir à casa de banho em conjunto com outros rapazes, pois as acusações constantes dos mesmos faziam com que não tivesse auto-estima suficiente para partilhar um mesmo espaço de forma “masculina” (ainda hoje, mais de quinze anos depois, sou incapaz de urinar no urinol masculino de casas de banho públicas).
Durante todos os anos que aquele gozo durou, e todos os anos seguintes, o meu medo dos rapazes e das relações com as raparigas, viria a minar a minha vivência adolescente e juvenil, tornando-me algo anti-social e preconceituoso relativamente às pessoas (quando não intolerante).
Lembro-me que o bullying a que fui sujeito não fez com que as minhas notas baixassem. Antes pelo contrário! Intelectualizei-me, refugiei-me nos livros e arranjei uma forma um tanto ou quanto artificial de me expressar.
E durante todo o processo nunca contei nada aos pais. Refugiei-me dentro de mim mesmo, no meu mundo interior... e também nos meus livros.
Nunca tentei mudar de escola, pois algo me dizia que havia algo em mim que iria acompanhar-me também na nova escola. Seria alvo de novos gozos... E tal aconteceu de facto quando fui para a escola secundária. Ao perceber que havia algo implícito em mim que me tornava vítima de bullying nos diversos contextos (escolares ou não escolares) da minha vida, percebi que o gozo e o assédio fariam parte constante da minha vida. Agora, penso, mais do que nunca, que existe, de facto, um “perfil de vítima”...
E, assim como existe um perfil de vítima, também existe, provavelmente um perfil de vitimizador. Não sei se estes perfis estão de algum modo dependentes dos estratos sociais ou das condições de vida. No meu caso, sei que foram certos maneirismos, associados a um certo tipo de personalidade, que precipitaram todas as formas de assédio. Mas, de uma coisa estou certo: é tão real o bullying sofrido modificar toda a nossa vida quanto é real que o bullying não pode ser resolvido pela mera mudança do estatuto ou comportamento do professor.
É claro que a justiça implícita no “não gozar” acarreta que não devamos tentar modificar o perfil da vítima (ao contrário do que o meu ex-psicanalista diria). Mas também é certo que o perfil do vitimizador é tal que não existe qualquer vantagem em aumentar os níveis de controlo dos “bullers”. Qualquer criança ou adolescente saberá que o controlo do professor é visto como “uma mamã que protege o pequeno filho”. Qualquer criança ou adolescente sabe que os castigos ou chamativos de atenção aumentam ainda mais os gozos e os assédios. Lembro-me que, sempre que um professor repudiava um dos meus vitimizadores, logo que o professor virava a cara, esse mesmo “valentão” tudo fazia para se vingar do potencial “queixinhas”. Daí desconfiar muito da forma como as “autoridades” estão a conceber o fenómeno de bullying.
Claro que o perfil e o comportamento dos professores, pais e educadores também contam. Não vá outra criança apanhar um daqueles professores de educação física que é ele mesmo um vitimizador (as aulas de educação física da minha adolescência ainda hoje me provocam um certo ressentimento relativamente a todas as formas de treino físico)... Mas, confesso que tenho dúvidas de que o fenómeno do bullying possa ser travado pela mera imposição de uma autoridade. Talvez fosse mais vantajoso promover a (re)construção das relações entre colegas e entre professores-alunos, assim como promover o equilíbrio do Sistema que comporta o conjunto dos alunos, pais, professores e todos os agentes sociais com estes envolvidos. E, em última análise, é toda uma cultura, toda uma sociedade que tem de mudar. Para que o preconceito e a intolerância possam medrar no seio de uma sociedade “aberta” (Karl Popper)!...

terça-feira, março 30, 2010

A nova greve dos enfermeiros

Decorridos cerca de dois meses após a primeira greve dos enfermeiros do ano corrente, eis que uma nova greve dos mesmos profissionais se realiza, desta vez por vários dias consecutivos. Tentemos, de uma forma justa, apontar alguns aspectos positivos, assim como negativos, relativos a esta importante manifestação de profissionais de saúde não médicos.
Penso que é inegável, e ninguém tem dúvidas disso, que os diversos profissionais de saúde não médicos possuem uma importância crescentemente relevante para os diversos tipos de cuidados. De igual maneira, a formação destes profissionais é também crescentemente – senão exponencialmente – mais estrídula, à semelhança do seu grau de responsabilidade e de proficuidade laboral. Na realidade, os diversos profissionais de saúde (falo enquanto fisioterapeuta que sou) sabem que tanto a exigência da formação como a exigência da própria actividade laboral são cada vez maiores, questionando-nos muitas vezes se tanto esforço valerá mesmo a pena... E a tal facto poderemos decerto acrescentar que é certo que muitos médicos, ao contrário do que pode ser pensado, se dedicam mais tempo a papeis e burocracias do que aos próprios doentes (com muitas óbvias excepções...).
Os argumentos apresentados, acrescentados à necessária credibilização das várias profissões de saúde não médicas – incluindo tecnologias de saúde e também profissões menos reconhecidas no âmbito legal –, tornada justa por uma formação de licenciatura do mais alto grau de exigência, tornam as greves dos enfermeiros justas, assim como coerentes.
Por outro lado, todos nós, profissionais de saúde não médicos, sabemos que é apanágio do nosso “inconsciente colectivo” o desejo de uma autonomia, senão de um poder, que nos igualize, de certo modo, ao Sr. Dr. E, na nossa sociedade, não faltam terapeutas e profissionais de medicinas não convencionais que se auto-intitulam de Senhor Doutor ou Senhor Professor. Ora, a realidade é que a natureza da actividade de enfermeiro tem, apesar da inegável qualidade técnico-científica matricial, pouco a ver com uma actividade que se possa apelidar de “intelectual” (numa gíria dita marxista). Os enfermeiros têm feito tudo para que as suas actividades se “intelectualizem”. Até os compreendo!... Mas, na realidade, ao evitarem lavar rabinhos aos idosos e mudar as fraldas aos incontinentes, os enfermeiros começaram, há muito, a escavar a sua própria sepultura; o novo paradigma da actividade de enfermeiro está a fazer com que esta profissão seja substituída por outros profissionais de menor formação. Ora, acredito que as novas exigências remuneratórias dos enfermeiros, apesar de aparentemente justas, constituirão mais um factor de destruição da imagem do enfermeiro enquanto profissional de apoio directo ao paciente. Um enfermeiro encarecido torna-se menos necessário. E – mais – um enfermeiro intelectualizado tende a fugir cada vez mais às tarefas de enfermagem, para se aproximar cada vez mais das tarefas de gestão e de controlo.
Acredito que os enfermeiros devam ser respeitados de outras maneiras que não o aumento salarial directo. Este só poderá fazer com que os enfermeiros se tornem mais “dispensáveis”, para além de dificultar a entrada de novos enfermeiros nos serviços, e de poder ter consequências deletérias para os custos do Serviço Nacional de Saúde.
Considero a actual remuneração dos enfermeiros justa (aliás, os profissionais das tecnologias de saúde, igualmente licenciados, recebem menos que os enfermeiros). E considero que, perante o clima económico emergente do nosso país, nem os enfermeiros, nem quaisquer outros profissionais de saúde devam, neste momento, efectuar greves do tipo da realizada.
No seu tempo, mediante a facilitação e flexibilização do horário de trabalho, da promoção e financiamento das formações profissionais, avançadas e pós-graduadas e da premiação da assiduidade, os enfermeiros poderão e deverão vir a conhecer outras formas de serem mais justamente pagos pelo seu (real) trabalho. Ou seja, acredito que tanto os enfermeiros, como os diversos profissionais de saúde médicos ou não médicos, devem ser pagos em função de um processo de “promoção”, o qual poderia funcionar segundo um esquema avaliativo semelhante àquele que está a ser pensado para os professores. Ou seja, centremos os ganhos mais na produtividade e tratamento com vista à humanização, e menos nas formações académicas de base.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

RPG: lista prévia de estudos publicados (encontrados na Biblioteca Virtual em Saúde)

Marques, A. P., Mendonça, L. L. F., & Cossermelli, W. (1994). Alongamento muscular em pacientes com fibromialgia a partir de um trabalho de reeducação postural global (RPG). Rev. Bras. Reumatol., 34(5): 232-234.

Marques, A. P. (1994). Hérnia de disco cervical tratada com reeducação postural global (RPG). Rev. Fisioter. Univ. São Paulo, 1(1): 34-37.

Marques, A. P. (1996). Escoliose tratada com reeducação postural global. Rev. Fisioter. Univ. São Paulo, 3(1/2): 65-68.

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domingo, fevereiro 14, 2010

Liberdade de expressão e importância dos blogues

Mesmo não tendo muito a ver com a temática deste blogue, atendendo à polémica presente relativamente às “escutas” e à “liberdade de imprensa”, penso que devo publicar aqui uma chamada de atenção.
Não nego que pode, de algum modo, ter havido uma certa pretensão por parte do Governo de auferir de um certo controlo dos conteúdos de certos meios de Comunicação Social. De certo modo, atendendo ao exagero próprio de alguns órgãos mediáticos viventes de “sensações”, esse controlo até poderia ser visto como uma dádiva à responsabilidade de informação...
É precisamente este último ponto que pretendo sublinhar. Assim como existe uma certa necessidade de os Governos nos atirarem areia para os olhos – sempre foi apanágio das democracias, e não só dos regimes mais totalitários – também os órgãos de Imprensa possuem essa mesma necessidade. Se a tentativa de controlo dos conteúdos e formato de um telejornal são um atentado à liberdade de Imprensa, diria que aquilo que os órgãos de Imprensa fazem no dia a dia – controlam o tamanho e conteúdos dos artigos, assim como censuram os artigos de opinião que são menos coesos com a política editorial do jornal em questão – também é claramente um atentado à liberdade de expressão! Eu, que tanto publico e tento publicar nos vários jornais nacionais, bem sei a forma como jornais como o “Público”, entre outros, gostam de fingir que não recebem certos artigos (cujos conteúdos são críticos para o jornal em si), assim como fingem que os seus conteúdos são irrelevantes. Aliás, até determinada data, era comum publicar uma ou duas “cartas ao director” no Público (para além de que já tinha publicado quatro artigos propriamente ditos), mas desde que apresentei a minha crítica relativamente à “gracinha” pseudo-intelectual “Vasco Pulido Valente vs. Miguel Sousa Tavares” parece que os meus artigos e cartas deixaram todos de ter qualidade para serem publicados no “Público” (mas não em outros jornais como o “Expresso” ou o “Semanário”). Ora, se isto não é um atentado à liberdade de expressão é o quê?...
Daí considerar hipócritas as acusações dos diversos jornais relativamente ao caso das “Escutas”. Também considero que existe um certo exercício de jornalismo cor-de-rosa, dado à exploração de sensações descartáveis. Em geral, considero que aquilo que os vários órgãos de Comunicação Social estão a fazer corresponde a uma absoluta falta de decoro, responsabilidade e rigor. Com estas coisas, os jornalistas vão tecendo uma “História” e uma “Verdade”, as quais não estão verdadeiramente de acordo com os factos reais.
Acuso, portanto, os diversos órgãos de Imprensa – incluindo jornais pretensamente de qualidade – de estarem a praticar um jornalismo sensacionalista, adstrito à prática do empolamento do caso das Escutas. Não estão verdadeiramente a defender a liberdade de expressão, estão a defender a liberdade de uma Imprensa irresponsável e sem rigor. Estão a defender um “jornalismo de aventuras”, romanceado, cujos conteúdos são exagerados até ao ponto em que nos pretendem fazer crer numa tentacular “teoria da conspiração”. E esse acto de praticar um jornalismo sensacionalista está a ser de tal modo exagerado que até o jornal “Sol” se permite praticar ilegalidades – legitimadas pelos jornais dos “amigos” – assim como aproveita o grande número de vendas para lançar um número extra. Mas, no entanto, jornais como o “Público” ou o “Expresso” solidarizam-se, chegando a afirmar que o direito à informação da Opinião Pública legitima a prática de ilegalidades.
Que Opinião Pública é esta que é educada por estes mesmos órgãos dos média e da Imprensa? Será a mesma Opinião Pública fisioterapêutica que é educada pelo boletim de uma “justa” Associação Portuguesa de Fisioterapeutas? Ou será que o lobbie é generalizado?
Por estas e por outras, apesar de serem fontes eventualmente pouco rigorosas, a Net, os blogues e a Fisiozone podem, muitas vezes, estar mais perto da Verdade real que aquilo que encontramos nas notícias televisivas, jornais e boletins de Associações com lobbies e favoritismos. Isto porque qualquer um pode escrever num blogue ou na Fisiozone. E esse “qualquer um”, que a Imprensa não permite, é que é a verdadeira concertação da democracia.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

A homossexualidade é uma doença?

A homossexualidade está indiscutivelmente na moda. Aliás, muitos temas aparentemente insalubres, socialmente irrelevantes (?), parecem entrar definitivamente nos escaparates da mediania... Mas, na realidade, a homossexualidade não é um tema assim tão alcalino, pelo menos para mim. Lembro-me bem do momento em que entrei para a nova escola, quando passei para o 5º ano de escolaridade. Era incontável o número de colegas que, por qualquer razão por mim desapercebida, me chamavam de “menina” ou de “florzinha”. Agora, o tipo de assédio de que fui vítima já possui nome. Chama-se “bullying”... outro assunto igualmente na moda; não, não se trata de discriminação, pois, na realidade, não sou homossexual, mesmo que fosse visto como tal. Daí não poder ser mais uma das vítimas de uma sociedade injusta, a qual passa a ter uma razão para se manifestar... Por outro lado, visto que fui muitas vezes tratado como “maricas” (reparo agora que o termo em questão nem é aceite pelo dicionário do Word...), sinto-me bastante íntimo desta minoria, que, aparentemente, é cada vez mais uma maioria!
Não pareço ter dúvidas sobre as minhas preferências sexuais. O meu psicanalista também não parecia ter dúvidas, visto que, para ele, “a homossexualidade é uma bizarria” e que no seu entender, eu jamais viria a ser “paneleiro” (outro termo não aceite pelo dicionário do Word), entendendo tal (termo) como “os homens que atacam os genitais de outros homens”.
Para via das dúvidas (relativamente à forma como os psicanalistas vêem a questão da homossexualidade) abro o manual “Novos desafios à bioética” (Porto Editora) no capítulo intitulado “Homossexualidade”, escrito por Jaime Milheiro. Passo a citar algumas partes que poderia considerar icónicas: “A homossexualidade é uma questão pessoal. É uma questão psicológica, subjectiva. Como qualquer outra propensão sexual, vem de dentro, não se implanta por fora”. Mais à frente lemos: “Na criança, as vivências com os pais proporcionam identificações e conjugam-se com o sexo biológico descoberto neles e em si” [...] “Se o desenvolvimento se processar em moldes comuns, a identificação global ao progenitor do mesmo sexo acontecerá sem grandes turbulências. Se houver inibição com angústias perturbadoras, podem desenrolar-se dinamismos característicos e consequências. Poderão acontecer fixações em patamares transitórios, pontos de passagem do amadurecimento. A homossexualidade será disso um exemplo.” Gostaria, entretanto, de dizer que estas mesmas frases, aparecem escritas numa versão de 2001. Claro que qualquer semelhança com as teorias pseudo-científicas de um Freud envelhecido é pura coincidência. E calculo que também seja coincidência qualquer confusão que se possa criar entre “psicanálise” e pós-modernismo acientífico.
Mas gostaria ainda mais de citar a parte em que o Ex. Mo Dr. Jaime Milheiro expõe a explicação messiânica da homossexualidade: “agressividades não elaboradas, fragilidades narcísicas, angústias de separação, medos de destruição da mãe, figura primordial de quem a criança totalmente depende. Identificações maciças com essa mãe nos dois sexos para a manter dentro de si em perspectivas fusionais são de observação corrente, o que acarreta no adulto uma idealização dela quase absoluta, muito visível na maior parte dos homossexuais, masculinos ou femininos, ou, em contrapartida, uma desvalorização reactiva do mesmo grau, igualmente quase absoluta.” Gosto desta parte em que o psicanalista diz que o homossexual possui uma forte identificação com a figura materna, mas também pode ser o completo oposto; é, claramente, uma verdadeira demonstração de ciência falsificável...
Sendo assim, percebo porque é que o meu ex-psicanalista nunca me permitiu a possibilidade da homossexualidade. Afinal de contas, estes profissionais, quase sempre psicólogos ou psiquiatras de grande poder clínico, acabam por possuir um grande controlo dos seus pacientes... Daí a considerar que estes mesmos “profissionais científicos” possam ajuizar acerca da capacidade que um casal homossexual tem ou não para adoptar e educar uma criança vai uma distância ainda maior... Sobre isto o mesmo Jaime Milheiro diz: “a pretensa adopção de crianças por homossexuais (...) é uma falta de consideração pela criança, um desrespeito pelo seu destino, completamente de rejeitar.”
Vemos, portanto, que, na perspectiva dos psicanalistas, talvez a saída da condição homossexual do manual de perturbações mentais DSM-IV não devesse ter sido realizada.
Não que nada disto me aqueça ou arrefeça! Pois não sou homossexual! Vivi como tal, mas não o sou, pois nunca me foi permitida tal possibilidade. A minha família morreria de desgosto, o psicanalista chamar-me-ia de “doente”!
Mas, sendo ou não sendo, visto que vivi sempre na sombra de um estereótipo, e bem vi – e senti na pele – como tal assenta bem na minha “estabilidade emocional”, digo apenas que bem haja todo aquele que não estigmatiza, todo aquele que não vive de macular a felicidade e o livre-arbítrio de todos os outros.
As actuais discussões sobre o “casamento homossexual” e sobre a possibilidade de estes casais poderem ou não adoptar crianças são muito mais do que uma questão da moda. Essas discussões representam toda uma temática central da sociedade: que é a de ser “diferente”. E a nossa obrigação para com os “diferentes”, a nossa obrigação para com o “Estrangeiro” (como é bom lembrar Camus...) é bem real. Visto que, ao longo de séculos, a sociedade pouco mais fez do que perseguir e punir severamente a diferença, cabe à nossa actual sociedade civilizada (e racional) expiar-se. Permitir o casamento homossexual é semelhante à permissão de utilização de roupas de diferentes raças, religiões ou etnias, à inclusão de estrangeiros vindos de países onde abunda a fome e a guerra ou à simples inclusão de um mau aluno numa turma de “mestres”: trata-se de uma obrigação moral, tornada inalienável por anos, séculos, milénios de estigmatização inquebrantável.
Portanto, se a homossexualidade é uma doença, vamos permitir que essa “loucura da normalidade” (palavras de Arno Gruen, outro psicanalista) se torne um lugar comum, sem espaço para o irracionalismo.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Para acabar de vez com a cultura

Deste título deste nosso pequeno ensaio não podemos, de facto, retirar qualquer ilação acerca do que pretendemos verdadeiramente falar: se do relativismo, se do universalismo... Talvez se soubermos que as supracitadas palavras constituem um título de um livro de Woody Allen, o realizador amoral que, em vários dos seus filmes, explora a tentação niilista, possamos inferir do tal título uma espécie de manifesto anti-valorativo. Mas isso seria conceber os Valores como parte da Cultura. E seria também conceber a Cultura como algo que uns possuem superiormente a outros. Mas, se nos ativermos à mera existência dos Universais, será que os Valores fundamentais não passarão a ser terreno de matérias essencialmente biológicas e genéticas?...
Daí passamos para uma definição dos Valores como algo intrínseco aos Universais. E estes passarão a ser fundamentalmente terreno da Ciência, porque de Genética se tratam. É este o tipo de Universalismo que encontramos na noção de “falsificabilidade” de Popper, nos invariantes estruturais de Sausurre (da ordem dos signos), Chomsky (da ordem do inatismo linguístico) ou de Lévi-Strauss (da ordem dos invariantes estruturais das diferentes tribos), nos “valores” estéticos de Gombrich ou na ideologia de Isaiah Berlin.
Estes “invariantes” ou “universais” são como a “ordem” do campo da Ciência, constituída por leis bem definidas com capacidade de predição rigorosa. No campo da “cultura”, também é comum falar de Valores, pois acredita-se que certas culturas se encontram mais evoluídas que outras, ou seja, que determinadas culturas possuem um conjunto de códigos ético-morais mais racionais que outras culturas.
O que os autores citados acima pretendem, de certa forma, dizer é que a noção de evolução cultural é errónea e ilusória, visto que as culturas são quase totalmente enformadas por características que advêm, quase totalmente, dos invariantes estruturais. Aliás, é desta noção que surge a base do Estruturalismo. Os mais radicais diriam até que não existe Cultura ou que a mesma pode ser reduzida às suas características biológicas neurofisiológicas basilares.
Vemos, portanto, que o diálogo Natureza vs. Cultura não é tão fácil quanto aquilo que o binómio Inato vs. Adquirido pretende significar.
Por exemplo, Platão foi um essencialista, sendo que a sua visão do mundo era extremamente dada aos invariantes. Mas, Popper considera que o seu racionalismo dogmático, baseado na forma como Platão vê a “hierarquia social tripartida”, abre as portas ao mundo do relativismo. Um pensador que poderia parecer tão “absolutista” é, noutra perspectiva, um grande relativista. Isaiah Berlin, na sua obra “Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade” (2002), aponta os seguintes homens como relativistas: Helvétius, Rousseau, Fichte, Hegel, Saint-Simon e Maistre. Se lermos os argumentos de Berlin, perceberemos que todos estes autores parecem, à primeira vista, defensores dos Valores, mas todos eles possuem alguma forma de ver a sociedade que recai na possibilidade do fanatismo ou anti-libertismo.
Vejamos o caso do recentemente falecido Claude Lévi-Strauss. Ao considerar que não existem verdadeiras culturas primitivas e que os invariantes culturais tornam as culturas muito semelhantes entre si, Lévi-Strauss está a dizer que há características universais e genéticas adstritas ao Ser humano. Daqui poderíamos tirar ilações acerca de certos Valores como Universais e vitais à sobrevivência da espécie, como sendo superiores aos Valores adstritos às variações culturais (temos aqui um Lévi-Strauss universalista). Por outro lado, podemos considerar que Lévi-Strauss seria relativista, se considerarmos que a sua noção de que não há culturas superiores a outras leva a que não existam culturas valorativamente superiores a outras que, por exemplo, não respeitam certos direitos fundamentais.
As implicações científicas da dicotomia Universal vs. Relativo são inúmeras, de tal maneira que as Ciências exactas feitas de Leis têm sido confundidas com a Verdade, enquanto que as ciências sociais e humanas, mais inexactas, têm sido vistas como pretensiosas de um certo relativismo pós-modernista. E todas elas se consideram como representantes da Realidade...

sábado, janeiro 30, 2010

Greve dos enfermeiros

Este post constitui um artigo que publiquei parcialmente no Expresso de 30/01/2010, e deve ser entendido nesse mesmo contexto.
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Enquanto profissional de saúde que sou, nomeadamente fisioterapeuta, reconheço a importância da aquisição de uma formação de alto custo em saúde com vista ao conjunto das boas práticas terapêuticas por parte de enfermeiros ou técnicos de saúde. Há, no entanto, sem que a especificação da profissão o exija plenamente, uma certa pretensão dita “proselitista” por parte dos enfermeiros hospitalares. Na realidade, um pouco à semelhança com o que acontece na vizinha Espanha, país onde brevemente os enfermeiros terão o direito de prescrição de medicamentos sujeitos a receita médica, os enfermeiros portugueses têm uma certa aspiração a serem médicos. Só isso justifica a existência de uma licenciatura de quatro anos em Enfermagem, sem contar com a especialização e as potenciais pós-graduações. E também só isso justifica esta nova exigência dos enfermeiros de auferirem de ordenados ao nível de qualquer outra licenciatura. Reconheço que, enquanto profissional igualmente licenciado, também gostaria de receber um ordenado superior a mil euros mensais, mas também tenho de dar a “mão à palmatória”, admitindo que os novos ordenados que os enfermeiros pretendem receber irão, brevemente, tornar os custos em saúde extremamente proibitivos para o Estado. No mínimo, poderíamos esperar que os enfermeiros licenciados fossem mais produtivos que os enfermeiros não licenciados, mas, na realidade, os estudos e a experiência têm demonstrado que existe uma certa tendência para profissionais altamente graduados e/ou especializados trabalharem menos e exigirem mais. E para quem duvida deste facto veja-se o que está a acontecer nos diversos hospitais portugueses: tarefas que eram anteriormente desempenhadas por enfermeiros são agora desempenhadas por auxiliares de enfermagem ou de acção médica (algumas dessas tarefas podem ser consideradas como “sujas” ou “desagradáveis”). Os enfermeiros gostariam que tal não acontecesse, mas a verdade é que isso só se verifica precisamente porque os mesmos começaram a exigir remunerações crescentemente elevadas (para além do óbvio facto de não quererem continuar a realizar certas tarefas consideradas como estatutariamente “degradantes”).
Conclui-se, portanto, que as exigências por parte dos enfermeiros farão com que, a longo prazo, os mesmos se tornem crescentemente substituíveis por outros profissionais com menos formação; o que não abona nada a favor dos doentes. E também não abona a favor dos próprios enfermeiros, os quais, à semelhança dos “técnicos de diagnóstico e terapêutica”, já sofrem da realidade do desemprego.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Para uma dinâmica do pós-modernismo: Thomas S. Kuhn

Tentar estabelecer uma ligação entre a lógica pós-moderna e a filosofia epistemológica de Kuhn (1922-1996) não é trabalho assaz complexo. Daí que acho risível que a teoria dos paradigmas deste último não seja mais vezes associada à temática da “moral pós-moderna”... Mas veremos que a ideia de Kuhn de que não há uma “verdade”, mas sim várias “verdades”, tantas quantas as realidades científicas que se propõem representar por “modelos” determinados, se aproxima da noção de “pós-modernismo” filosófico que aparece tantas vezes associado às ideias de Michel Foucault e de Jacques Derrida.
Recentemente traduzido para o português nacional, a obra “A estrutura das revoluções científicas” (Guerra & Paz; edição original de 1962) constitui o testamento ideológico de Thomas Kuhn, e este é de tal maneira determinante que não se entende por que é que o citado trabalho só agora foi vertido para a nossa língua.
Como resumir a teoria epistemológica de Kuhn? Começaria por dizer que, para o mesmo, a ideia da existência de uma e só uma Verdade representada por um modelo científico unitário e objectivo, não passa de mera ilusão. Na realidade a ciência é feita de modelos e estes são construídos, em grande parte, pela realidade interna, inextrincavelmente cultural, temporal e multidimensional, do próprio cientista ou grupo restrito de cientistas. Pois a noção de “paradigma” é precisamente a de um código interpretativo da realidade face a um conjunto de leis específicas, sendo que esse mesmo modelo é considerado como sinónimo da própria Verdade. Mas, como vão surgindo novos problemas, e como alguns desses problemas não podem ser resolvidos ou interpretados à luz do código paradigmático prévio e dominante, é inevitável que um novo paradigma acabe por surgir, após uma fase de “revolução científica”. Tudo para que um novo modelo de “ciência normal” volte a imprimir a interpretação da realidade segundo o protótipo novo, que passou a ser o dominante.
A teoria dos paradigmas releva o mundo da ciência como um conjunto de realidades que se vão sucedendo e substituindo, sendo que, por se interpretar a “última” realidade como a real e dominante, se dá a ideia de que essa sucessão não existe e de que uma só visão objectiva do mundo persiste (e sempre persistiu).
O paradigma tem, na sua inerência, não uma tonalidade unionista verdadeiramente objectiva e falsificável, mas sim um contexto, um mundo de significações, que assenta no tecido de crenças de um cientista ou de uma comunidade de cientistas. E, mesmo havendo paradigmas progressivos que sucedem a outros antigos que perderam a capacidade de resolver certos problemas (aparentemente novos), os antigos paradigmas tendem muitas vezes a persistir através da prática da negação da realidade dos novos problemas ou dos novos esquemas da realidade.
Só assim se entende que, por exemplo no mundo da saúde, tantos terapeutas se mantenham fiéis a práticas e modelos que não dão resultado no tratamento de patologias específicas, provavelmente tratáveis com mais eficácia segundo um modelo interpretativo mais ajustado. E só assim se entende, por exemplo, que um doente se mantenha anos a fio no divã de um psicanalista, persistindo este último em interpretar a realidade segundo um esquema (pós)freudiano, porque à luz desse esquema as coisas têm lógica (mas essencialmente para o próprio psicanalista), mesmo que um modelo cognitivo-comportamental surta mais resultados.
Ora, esta ideia que de não há uma ciência, mas sim várias ciências, ultrapassa a concepção simplista de que a realidade é plural e deve ser interpretada segundo uma prática quase “pessoana” (portanto heteronímica), acabando por abraçar o “pós-modernismo” filosófico, que vive das muldimensionalidades interpretativas e desconstrutivas (Derrida) das coisas. Eventualmente poderíamos chegar à interpretação da multimodalidade de modelos em saúde, como representativas de “relações de poder” (Foucault), mas isso seria complicar exageradamente as coisas...
Fiquemos pela ideia de que a existência de várias formas de interpretar a realidade leva a que, na prática, passem a existir tantas realidades quantas as interpretações existentes, pelo que o conceito de Verdade única e absoluta perde-se a favor de uma ciência vertida pela fenomenologia do acto único, livre e singular.
Por causa desta “singularidade”, a ciência feita de estudos qualitativos e descrições psicossociológicas acaba por ser legitimada, abrindo todo um capítulo gigante de subjectivismo de protótipos, para além da inalienável realidade da fraude científica. Daí que, mais uma vez, ciências como a psicologia, a sociologia e a antropologia não possam nunca merecer o mesmo respeito que as ciências exactas e observacionais. Enquanto fisioterapeuta que sou, temo ter de admitir que as ciências médicas estão a aproximar-se cada vez mais das primeiras, fazendo uso de métodos crescentemente questionáveis e pseudo-científicos.
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Publicado no As Artes Entre As Letras, 10/02/2010

sábado, janeiro 02, 2010

Karl Popper: a evolução da ciência por “tentativa e erro”

Não há, no domínio espectral da filosofia da ciência e da teoria do conhecimento, nome maior do que o de Karl Popper (1902-1994). Este homem, com formação de físico, não é tanto um grande homem da ciência, mas um grande homem da metodologia científica que é actualmente utilizada.
Penso que, contudo, ainda se ensina nos liceus que a ciência se inicia com a observação. E que, a partir desta, são colocadas hipóteses, as quais, depois de testadas pela experimentação, são confirmadas ou infirmadas. É esta a visão de ciência da escola analítica, a qual Popper inclui no conjunto dos teóricos essencialistas. E é ainda esta forma de fazer ciência que é ensinada em muitas universidades, pois foi assim que supostamente evoluiu a ciência – estejamos a falar dos cálculos sobre a posição dos planetas de Ptolomeu, do uso da balança por Lavoisier ou da matematização do campo electromagnético de Maxwell.
Mas, na realidade, para Popper, toda a observação supostamente iniciadora do processo científico tem por base um certo apriorismo – algo que dirige o sentido e o objecto da observação, assim como o seu campo de acção – nomeadamente, um conjunto de propensões (gerador de problemas), que são, nada mais nada menos, que uma tendência para olhar para algo de uma forma fenomenologicamente heurística. Assim sendo, não foi a queda da maçã que levou Newton a pensar na lei da queda dos objectos. Foi antes tudo aquilo que é constitutivo da mente de Newton que fez com que este homem reparasse na queda dos objectos e questionasse os princípios subjacentes a esse processo pela primeiríssima vez (e antes de qualquer outro cientista).
Ora, se toda a ciência se inicia por um sistema de propensões, também não é verdade que a ciência evolua por um mero processo de acumulação de confirmações de hipóteses (ao contrário do que era propugnado pelos neo-positivistas e do que é defendido por muitos cientistas actuais). Na visão de Popper, o esforço do cientista deve ir antes para a tentativa de falsificação de conjecturas. E a teoria ou hipótese existente sairá fortalecida – e nunca categoricamente comprovada (a questão dos cines brancos versus cisnes pretos...) – se sobreviver ao maior número possível de tentativas de refutação. O critério de “falsificabilidade” é, portanto, o grande mediador de uma evolução da ciência feita por “tentativa e erro”, à semelhança do próprio processo natural evolutivo (num sentido necessariamente darwinista).
O processo subjacente foi muitas vezes descrito por Popper pela fórmula P1 » TT » DC » P2. Utilizando as palavras de Popper: “Suponhamos que começamos com um problema P1. Passamos, em seguida, à formulação de uma solução tentativa para o problema – uma solução conjectural ou hipotética, uma teoria tentativa, TT. Esta é, por sua vez, submetida à discussão crítica, DC, à luz das provas, caso estas se encontrem disponíveis. Surgem, como resultante, novos problemas.” É preciso acrescentar que P2 é comummente maior que P1, ou seja, o conjunto do processo leva a que resultem mais problemas no fim do que no início do ciclo. Importante é também dizer que, mais do que factos, o que resulta do modelo popperiano é uma nova teoria, necessariamente mais consistente que a teoria inicialmente proposta. Daí que, para Popper, apesar de existir supostamente uma Realidade única e inolvidável (“realismo” que partilha com os neo-positivistas), essa mesma Verdade não é nunca verdadeiramente alcançada... somente virtualmente alcançável. Daí que nunca se diga que “todos os cines são brancos”, pois pode sempre acontecer que um dia apareçam cisnes pretos (como, de facto, aconteceu).
A ciência é, portanto, segundo Popper, dedutiva (e não indutiva) e, subjacente ao seu “racionalismo crítico”, está a constante necessidade de colocar em dúvida certas certezas. De facto, como tantas vezes é exemplificado por Popper, as “certezas” de Newton vieram a ser fortemente contestadas por Einstein.
A existência de uma evolução da ciência por um processo de refutação constante de hipóteses leva a considerar o critério de “falsificabilidade” como algo que diferencia o científico do pseudo-científico. Por exemplo, certas “ciências”, como a psicanálise ou o marxismo, não são verdadeiras ciências segundo o critério do racionalismo crítico popperiano. Por outro lado, esse mesmo critério permitirá a Popper possuir um argumento que enalteça a ideia de que a ciência evolui racionalmente, a desmando das teorizações historicistas, que Popper tantas vezes adversou.
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Publicado no "As Artes Entre As Letras", 07 de Abril de 2010

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Tensão Neural Adversa

Talvez porque as posturas de Reeducação Postural não colocam grande tensão nas estruturas neuromeníngeas, pois essas posturas de alongamento miofascial não são feitas a pensar na neurodinâmica, o mundo da Reeducação Postural e da Posturologia não tem versado significativamente sobre as questões da “tensão neural adversa” ou da “neurodinâmica”. Mas, ainda assim, as posições de alongamento das estruturas neuromeníngeas não podem ser negligenciadas, visto que a flexibilidade neurodinâmica é também uma componente do trabalho postural. Experimentemos fazer o “slump” ou a “flexão passiva da cabeça” e vejamos os efeitos que os referidos “testes” têm no aumento da própria flexibilidade mio-fascial (e outra que poderia ser referida como neuro-mio-fascial...). Daí que talvez a visão de Busquet da existência de “cadeias neuromeníngeas”, ou a visão mais global de “cadeias neuro-mio-fasciais”, esteja bastante próxima de uma realidade sincrética da Reeducação Postural.

terça-feira, novembro 24, 2009

Epistemologia e o Livre-arbítrio

A tentativa de edificar um paralelismo entre a filosofia do conhecimento – entendida aqui como “epistemologia” – e a teoria do “livre-arbítrio” releva de um conjunto de questões extremamente pertinentes para o mundo da filosofia em geral e o “submundo” da filosofia da ciência em particular. A forma como vemos o mundo e o concebemos em termos ontológicos depende efectivamente da maior ou menor precisão fenomenológica na forma como inteiramos o acto de produção científica. E, ao contrário do que poderia ser pensado, o “argumento dominador” (relativo ao determinismo vs. libertismo) jaz impertinentemente nos meandros da temática epistemológica.
Tendo sempre Karl Popper como fronteira inolvidável – própria de uma ciência dedutiva construída por propensões com vista à evolução por “falsificabilidade” – entre uma ciência observacional e uma ciência ideográfica, devemos ter em conta que existe uma barreira enorme entre a ciência própria dos neo-positivistas e a ciência “menos ciência” dos pós-modernistas.
A ciência indutiva e observacional é vista pelos cientistas – principalmente aqueles que presidem à estruturação das ciências ditas “exactas” – como sinónimo de uma Verdade única constituída por Leis, sendo que estas, por terem um certo poder preditivo, tornam o mundo pré-determinado. Bertrand Russell diz, em entrevista publicada na obra “A minha concepção do mundo” (1970) o seguinte: “Estava convencido de que todos os movimentos da matéria, a partir da nebulosa primitiva e por aí adiante estavam condicionados, e que a linguagem falada era também atingida pelo mesmo determinismo. Por isso convenci-me de que as leis da dinâmica tinham assegurado, na época da nebulosa primitiva, as palavras exactas que o Sr. A haveria de pronunciar em determinada ocasião; o Sr. A, portanto, não teria qualquer livre-arbítrio quanto às palavras que havia de pronunciar.”
É irónico que as mesmas leis da dinâmica, que a um nível macroscópico são leis de peso determinístico, tornam-se, a um nível “quântico” “leis de probabilidades”. Que é o mesmo que dizer que acontece aquilo que tem sido apelidado de “Ordem sobre o Caos”. Ou seja, leis com algum peso de determinismo e futurismo baseiam-se em movimentos tão ínfimos e tão infinitesimais (falamos de movimentos de partículas sub-atómicas) que a incapacidade de previsão de todos os movimentos leva a transformar Leis propriamente ditas em teorias de probabilidades. E quanto mais nos afundamos no nível microscópico desses movimentos, mais os mesmos se tornam indeterminados – tanto que a mera tentativa de os determinar vicia o sistema – e, aumentando o grau de indeterminismo, torna-se possível categorizar ontologicamente o Livre-arbítrio. Esta teorização – subjacente ao por muitos chamado de “efeito borboleta” – é a base do pós-modernismo, o qual, munido de instrumentos historicistas e contextuais (para utilizar a terminologia crítica de Popper em “A pobreza do historicismo” – 1957 – e em “O mito do contexto” – 1996) advoga a impossibilidade de determinação, a impossibilidade de existência de leis, e a evolução da própria ciência – ao sabor da história/cultura vigentes – por “paradigmas e revoluções” (Thomas Kuhn). Temos aqui a base daquilo que Popper denomina de “racionalismo dogmático”, que é o pré-requisito do relativismo, associados ambos – em “A sociedade aberta e os seus inimigos” (1962) – sobretudo às teorizações “políticas” de Platão e Marx.
Devo dizer que sempre achei que o erro crasso dos pós-modernistas residia no facto de acharem que existe uma igualdade entre a impossibilidade “actual” de previsão dos movimentos infinitesimais das partículas e a impossibilidade real da mesma previsão. A meu ver, o cientista poderá não ter grandes possibilidades de previsão dos movimentos dos “quanta” no momento actual, mas isso não significa que os mesmos não sejam virtualmente determináveis, num momento futuro, em que sejamos donos de instrumentos tecnológicos suficientemente sensíveis. E a possibilidade de previsão virtual dos milhões de movimentos e dinâmicas que formam o “efeito borboleta” inquinam a existência de um verdadeiro relativismo, fazendo com que, a médio ou longo prazo, as diversas ciências humanas e sociais tenham de abdicar face aos métodos das ciências exactas. Sou, portanto, dos poucos que acreditam que a consciência aprimorada que todos temos de ser livres não passa de uma mera ilusão.
No entanto, não é despiciendo o contexto discussional do pós-modernismo, principalmente aquele que é formulado em “A estrutura das revoluções científicas” (1962) de Kuhn, o qual coloca a tónica no cientista enquanto “homem”, vítima de um tempo e de um espaço contextualmente determinados.

Publicado no "As Artes Entre As Letras", 04/11/09

quarta-feira, novembro 11, 2009

Ciência e Epistemologia: dualidade indissociável

Quem acompanha o meu blog sabe a importância que dou à Ciência e às matérias epistemológicas (e a relevância que tal tem para a compreensão do 'Método' em Fisioterapia). Estou, actualmente, a publicar artigos sobre Epistemologia no jornal "As Artes Entre As Letras".
Apresento aqui um dos primeiros artigos que publiquei, nomeadamente a 07/10/09
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Ciência e epistemologia: dualidade indissociável


Desde os antigos gregos que o poder do ‘Logos’ tem sido relevado enquanto matéria quase mítica. A filosofia, e em particular a teoria do conhecimento, tem-se interessado pela Verdade, sendo que, mais tardiamente, somente no tempo de Galileu, ter-se-á inventado o conceito de “ciência moderna” (como um campo independente da filosofia). E, a partir daí, desde o século XVI, até à actualidade, a Ciência tem-se afirmado enquanto sinónimo de Verdade, baseada num sistema de leis de carácter quase inquestionável, assim como tem permitido a transformação – tanto tecnológica, quanto ideomática – do mundo.
Muito pode ou poderia ser dito sobre Ciência e o método que a consubstancia, mas, a meu ver, são três as fases fundamentais de construção de um método dito expressamente “científico”. A ciência moderna foi primacialmente substanciada pelas descobertas de Copérnico e Galileu, e epistemologicamente teorizada pelo (neo)positivismo lógico (conhecido também por essencialismo). Segundo o “clássico” método científico, a observação norteia as hipóteses científicas (princípio iniciático de Francis Bacon), as quais poderão ou não ser confirmadas pela experimentação. Esta é a ciência mais “típica”, baseada na observação e no processo de generalização indutiva, e é a força motriz das ciências ditas “exactas”. É influenciada pela filosofia analítica de Russell e pela semiótica de Wittgenstein, as quais, de certo modo, pendem mais para o empirismo do que para o racionalismo, tendo como cenário base a divisão continental clássica mais importante da história da filosofia. Foi preciso aparecer um homem de nome Karl Popper (1902-1994) para que esta ciência “indutiva” fosse questionada, assim como a tendência inequívoca dos investigadores para quererem forçosamente “confirmar” as suas teorias. Segundo Popper, e o seu método do “Racionalismo crítico”, um investigador nunca deveria fazer por “confirmar” as suas próprias teorias, pois acabará, mesmo que inconscientemente, por concluir aquilo que deseja efectivamente concluir. Assim sendo, a ciência deveria basear-se na “refutação”, na “falsificabilidade”, na tentativa de detectar erros nas teorias aceites como “certas e irrefutáveis”. A ciência de Popper é dedutiva e, apesar de o filósofo admitir a existência de uma Realidade exterior única inolvidável (adoptando um tipo de realismo científico que contraria tendências fenomenológicas e essencialmente psicologistas), toda a teoria não passa de mera conjectura, e portanto, toda a ciência possui uma categoria de efemeridade (a função do cientista passa pelo processo de aperfeiçoamento da teoria, por um mecanismo de trabalho de “tentativa e erro”). Finalmente, no final do século XX, surge, a partir do conceito de “paradigmas” de Thomas Kuhn, uma ciência dita “pós-moderna” – representada, em Portugal, por Boaventura de Sousa Santos – a qual admite que a Verdade está totalmente dependente das idiossincrasias socioculturais e pessoais adstritas ao próprio cientista. Para os pós-modernistas, existe um relativismo absoluto e não existe uma Ciência no verdadeiro e apodíctico sentido do termo.
Esta última modalidade epistemológica de ciência é comum essencialmente às ciências sociais e humanas. Nas ciências exactas, tal paradigma epistemológico aparece consubstanciado pelo “princípio da incerteza” de Heisenberg e pelo teoria do Caos (encontramos, portanto, aqui a ponte entre os dois “tipos” de ciência). Esta ciência dita “historicista” foi criticada profusamente por Popper em obras como “A pobreza do historicismo” (primeira edição de 1957; tradução portuguesa pela “Esfera do Caos”) e “A sociedade aberta e os seus inimigos” (primeira edição de 1962; edição portuguesa por “Fragmentos”), pelo facto de, pelo seu relativismo, permitir e justificar a emergência de uma ciência de “várias verdades”, portanto “não realista” e não “falsificável”.
Acabamos por ter uma dupla possibilidade de matriz de conhecimento científico: a ordem, expressa em termos de leis, com base no caos (expressa em termos de uma física dos quanta), que é própria de uma ciência dita “exacta”, e o caos com base na ordem (expressa nos termos da teoria das ideias ou essências de Platão), que é própria de uma ciência dita “relativa”. A primeira tende a ser mais apriorística e admite a impossibilidade do livre arbítrio (para esta, Deus pode mesmo estar “morto”...). A segunda tende a ser mais empirista (num sentido mais idealista, como em Hume), e admite a possibilidade de uma fenomenologia da acção irrepetível e do livre arbítrio, seja ou não de génese existencialista (para esta, Deus pode mesmo jogar aos dados ou nem sequer interferir com as nossas vidas...). Deste binómio realismo-subjectivismo ou essencialismo-pós-modernismo, resulta uma metodologia científica centrada mais nas investigações nomotéticas, naturalmente mais “falsificáveis”, ou então, uma metodologia centrada mais nas investigações ideográficas, como os “estudos de caso”, mais adaptadas à descrição de realidades singulares e irrepetíveis, que tendem a ser vistas por cientistas sociais como próprias de uma antropologia, sociologia e/ou etnologia descritiva de populações com caracteres variantes. Os dois “eixos” descritos cruzam-se constantemente, em várias ciências ainda indefinidas epistemologicamente, como é o caso da psicologia e das ciências da saúde. Mas isso é conversa longa, gerando ainda grandes polémicas...
Acontece que as diversas diferenças epistemológicas tratadas não são, infelizmente, do conhecimento da maioria dos cientistas portugueses. Aliás, pessoalmente conheci doutorados em química e física que nunca ouviram falar, por exemplo, de Popper ou do “Discurso sobre as ciências” de Boaventura de Sousa Santos. Para muitos deles a ciência continua a gerir-se pelo paradigma “positivista”. E assim sendo, o processo científico continua a realizar-se através de confirmações de hipóteses de cientistas nem sempre “inocentes”. Isto é o mesmo que dizer que, com uma ciência feita de “confirmações”, e que desvaloriza a importância do erro e da infirmação de hipóteses, os cientistas acabarão muitas vezes, mesmo que inconscientemente, por concluir aquilo que efectivamente desejam concluir (coisa que Popper denominou de “Efeito Édipo”). Tenho observado este fenómeno a ocorrer constantemente nos estudos da área das ciências da saúde e das ciências sociais e humanas. Se acrescentarmos a isto os problemas normais do “fazer ciência” (a ignorância metodológica, os erros da estatística, a falta de ética da parte das publicações demasiadamente ligadas a lóbis, os atrasos no processo de publicação e toda a catadupa da fraude – como a cópia ou o plágio, assim como a manipulação parcial de dados aquando da pesquisa, tratamento estatístico ou acto de revisão bibliográfica), acabamos por deparar-nos com a necessidade de uma Ética centrada na dualidade impartível entre a metodologia científica do cientista-técnico e a epistemologia do cientista-filósofo.
Daí que não faça sentido existirem certas disputas, assim como cientistas “positivos” fanáticos com a ideia de Leis e invariantes, ou como cientistas sociais, igualmente fanáticos, que negam a existência de uma natureza humana com certos universais. Tenho a certeza que a inexistência de uma dialéctica que caminha no sentido de uma síntese hegeliana de consensualidade advém precisamente da falta de comunicação entre o cientista e o “filósofo”.

terça-feira, novembro 03, 2009

Curso "Reeducação Postural e Cadeias Musculares": conclusão

O curso da Lousã realizou-se e parece que houve bastante satisfação no respeitante ao mesmo. Não tenho os dados da avaliação, mas, pelo pouco que vi, as pessoas pareciam satisfeitas. Houve, inclusive, várias possibilidades de troca de ideias e partilha de conceitos. Mas, como nem tudo são rosas, há efectivamente coisas que não correram na perfeição. E o aspecto que demonstrou ser mais notório foi precisamente o facto de o curso ser curto de mais para as necessidades de avaliação e intervenção postural, principalmente por parte de quem não tinha formação de fisioterapeuta. Talvez tenha o hábito de sobrevalorizar os formandos... não sei... Sei que, num curso próximo, tem de ser aumentado o tempo de avaliação e intervenção, com necessário prolongamento do curso na sua duração.
Vou dando mais notícias.
Abraços