quinta-feira, novembro 30, 2006
Ainda o Pilates
Corpo e Consciência (George Courchinoux)
O método “Corpo e Consciência”, que muitos profissionais de saúde e motricidade desconhecem, é particularmente eficaz nos termos do modelo anteriormente elucidado. O criador do método, George Courchinoux, foi grandemente influenciado pelos princípios do método Mézières (aliás, ele estudou e praticou RPG com o próprio Souchard). Para além disso, era sofrólogo (e para quem não sabe, a sofrologia, criada por Caycedo, corresponde a um método austero de treino fenomenológico de integração da sensação corporal, com abertura plena ao Self, e impressão experiencial no inconsciente), e tinha igualmente conhecimento das medicinas de reorganização energética (neste contexto, os conceitos de Ying e Yang, e o conhecimento dos meridianos, laboraram numa eficacidade metodológica única).
O método “Corpo e Consciência” resulta, portanto, da súmula dos métodos RPG, sofrologia e princípios das medicinas orientais. É fundamentalmente um trabalho de grupo, realizado com fins fundamentalmente (psico)terapêuticos.
O método, também denominado de “Ginástica doce e global”, parte de quatro grandes princípios: equilíbrio e harmonização, conhecimento de si, ajuste postural e reorganização energética. O trabalho desenvolvido é diferente consoante as estações do ano, sendo que varia o conjunto dos alongamentos realizados, assim como as estruturas massajadas e reequilibradas.
quarta-feira, novembro 29, 2006
Fisioterapia e a “Caixa da Previdência”
Questão: quais são as desvantagens directas e aparentes decorrentes do facto de o Estado deixar de comparticipar a fisioterapia em clínicas privadas? A desvantagem directa prende-se com todos aqueles que necessitam destes cuidados e não têm forma alguma de o pagarem pelos seus meios. O outro grande inconveniente prende-se no futuro profissional dos profissionais de saúde e reabilitação. Que será dos profissionais que trabalham nas clínicas fortemente dependentes do dinheiro das credenciais do Estado?... Provavelmente, muitas cabeças irão rolar...
Questão: quais as vantagens, eventualmente menos aparentes, decorrentes do facto de o Estado deixar de comparticipar a fisioterapia em clínicas privadas? Na verdade, as vantagens são muitas; a realidade é a de que aquilo que parece vir a ocorrer em termos das comparticipações afigura-se como a única solução credível para o desenvolvimento dos serviços de saúde e para colocar termo à iniquidade das clínicas que por aí abundam.
Se a fisioterapia deixa de ser paga pelo Estado, concebe-se que toda aquela parte do povo mais jovem e bem provido financeiramente que usa e abusa das credenciais passe a pagar pela sua saúde. É a lógica absoluta a funcionar: as pessoas pagam pela saúde a que têm direito... tal como acontece no contexto de tantos outros serviços de saúde, de tantos outros países ocidentais. Concebe-se que muitos destes utentes passem a comportar-se como utilizadores responsáveis dos serviços de saúde e como “clientes” que exigem resultados em termos terapêuticos, e não a prossecução infindável de tratamentos sem qualquer eficácia (ou de eficácia efémera).
Por seu lado, as clínicas deixarão de perspectivar os fisioterapeutas (assim como outros profissionais) como trabalhadores manuais que vão servindo a manchete do sistema, fingindo que tratam doentes, quando na realidade estão apenas a “dar de comer a vários porcos e galinhas, que teimam em encher a quinta”. As clínicas terão de apostar na qualidade e não na quantidade. E aí, a inteligência e a capacidade do terapeuta passarão a contar! Aí, passará a haver um verdadeiro clima de necessária competitividade, em termos de qualidade, em termos das diversas clínicas existentes e dos profissionais que lhes dão nome. Aí, a saúde passará a constituir um terreno em que será exigida qualidade, e em que a relação custo-benefício será verdadeiramente levada em linha de conta. E os bons profissionais que necessariamente demarcarão os seus lugares nos serviços competitivos terão, logicamente, de ser reavaliados em termos das suas qualificações e rendimentos.
Só espero que aquela massa de utilizadores do SNS que não tem realmente dinheiro para pagar a fisioterapia possa ter acesso à fisioterapia do Estado, realizada com qualidade e entre-ajuda, nos hospitais e centros de saúde.
E só espero que, de uma vez por todas, este Governo se lembre de apostar nos cuidados preventivos e numa abordagem de cerne comunitário e de perfil preventivo. Já está na hora de apostarmos fortemente nos cuidados primários em centros de saúde.
quinta-feira, novembro 09, 2006
Injustiças na vida de um fisioterapeuta
Reparemos no seguinte: como professor de Pilates, ganho cerca de 15 a 20 euros numa hora. Canso menos a minha coluna, esgoto-me muito menos fisicamente. Como fisioterapeuta a dar classes a pessoas com problemas e que precisam de uma atenção muito mais personalizada, ganho no máximo 10 euros (e ganho bem para fisioterapeuta). Em certas clínicas, os fisioterapeutas têm de tratar, por meio do exercício e de actividades funcionais, vários doentes ao mesmo tempo, esgotando o físico e os meandros do raciocínio clínico, sendo que ganham por hora, muitas vezes, só sete ou oito euros. E a tendência é para que os fisioterapeutas ganhem cada vez menos, sejam cada vez menos valorizados como profissionais autónomos e inteligentes, e continuem a ser vistos como “massagistas” e não como profissionais do movimento. Bem me podiam explicar para quê aprender tanta anatomia, tanta biomecânica... tanto esforço realizado no curso base... e tão pouco reconhecimento, tão poucos ganhos, tanta injustiça!
E os fisioterapeutas, ainda assim, permanecem agarrados às suas concepções éticas de um doente na sua “unicidade”, evitando trabalhar em ginásios, dando aulas de Pilates ou outras actividades. Não tenho dúvidas de que consigo acompanhar melhor os meus doentes/clientes das classes através dos seus exercícios do que os múltiplos doentes “individuais” em contexto de clínica particular.
E o que está a acontecer é que cada vez mais os professores de educação física e os instrutores de fitness se agarram ao trabalho grupal com um fim propedêutico e terapêutico, enquanto que os terapeutas permanecem no seu trabalho clínico falsamente personalizado. Será que há assim tantas diferenças entre um personal training de Pilates de um instrutor e um tratamento individualizado clássico de fisioterapia para a coluna (subentendendo que o Pilates lá está presente não como fitness mas como método de “tratamento”)? Apenas que no primeiro caso o "cliente" nos paga bem caro e não se queixa, enquanto que no segundo caso o "doente" nos paga bem menos (isto na sorte de ser um doente particular) e tem sempre tendência para se queixar.
As pessoas gostam de se sentir treinadas, não tratadas. Tratamentos é com o osteopata, que isso é que está na moda! Fisioterapia são os calores húmidos e as massagens que aquelas “meninas” dão aos velhos. Pilates é uma “ginástica”, não é fisioterapia.
Tantas ilusões, meras particularidades semânticas e psicologistas!
Os fisioterapeutas só vão conseguir progredir por meio de uma verdadeira “revolução” das mentes dos utilizadores tanto dos serviços de saúde como do fitness. E eis que surge a necessidade de impormos a nossa actividade no seio dos ambientes desportivos, como professores de Pilates, de stretching, de relaxamento psicossomático, e de outras actividades que não entendo como ginástica, mas mais como antiginástica, ao jeito formoso de Bertherat.
Faça-se justiça às nossas formações e às nossas capacidades. Lutemos contra os conflitos de interesse e mostremos que os fisioterapeutas são os profissionais mais capazes para o domínio do trabalho da motricidade aplicada à saúde. Não continuemos a permitir que qualquer instrutor, senão mesmo aquele sujeito que tirou um curso qualquer de fitness à candonga sem possuir um curso superior na área da saúde + motricidade, nos tire o lugar que seria muito mais lógico ser nosso. Não continuemos a ser estúpidos e a pensar que a fisioterapia só se realiza na marquesa da clínica ou hospital. Essa “fisioterapia”, a avaliar pela forma como as coisas estão a andar, tem os dias contados!... Rogo para que conquisteis o mercado "desportivo", lutando contra o clássico conceito de fitness e impondo a nossa visão reeducativa como a grande panaceia de trabalho (psico)físico.
quarta-feira, novembro 01, 2006
Síndroma da Deficiência Postural
Sabemos todos que existe uma certa tendência para que, numa fase mais ou menos precisa da vida pública nacional, uma certa maleita sofra de um processo de inflação galopante e mediática. É indubitável que o Síndroma da Deficiência Postural, considerada como causa de 10% das dificuldades de aprendizagem em idade escolar, constitui um exemplo de um certo efeito de moda.
Não quero com isto dizer que devamos desvalorizar a relação simbiótica entre corpo e mente que a psicomotricidade e a psico-neurologia muito especificamente têm relevado. Mas, por vezes, exagera-se no cômputo de determinadas perturbações.
Ainda assim, não há dúvidas de que muitos dos problemas de aprendizagem, incluindo a dislexia de desenvolvimento, têm origem numa deformação do esquema corporal, aliás um défice do sistema proprioceptivo. E se a postura está tão dependente do trabalho do sistema nervoso, não podemos negligenciar o papel dos receptores da sensação corporal. No Síndroma da Deficiência Postural, parece haver sempre algum género de perturbação do sistema proprioceptivo, criador de problemas de ordem cerebral, os quais se relacionam com as disfunções cognitivas relacionadas aos problemas de aprendizagem.
O diagnóstico “Síndroma da Deficiência Postural”, associado à escola de Lisboa e ao nome do fisiatra Martins da Cunha é caracterizado por uma série de factores cognitivos. Segundo Alves da Silva, são eles os seguintes: 1) défice de convergência tónica, 2) presença de escotomas, 3) alterações de memória, 4) problemas de concentração, 5) problemas de interpretação, 6) hiperactividade, 7) presença de erros de localização espacial, 8) perda de auto-estima, 9) perturbações de processamento do texto e 10) défice de percepção auditiva.
Os critérios gerais de diagnóstico de Síndroma da Deficiência Postural incluem: a) sintomas cardinais – dor (especificamente raquialgias); perturbações do equilíbrio; alterações da percepção visual; perturbações da somatognósia; b) uma semiologia física característica, podendo incluir: assimetria facial, adopção de uma direcção preferencial do olhar com insuficiência da convergência tónica ocular, e adopção de uma atitude postural cifoescoliótica estereotipada assimétrica, com rotação axial e apoio privilegiado sobre um pé.
O tratamento passa por medidas que envolvem a mudança da mochila, a utilização de calçado apropriado que permita o máximo contacto do pé com o solo, a utilização de vestuário largo, a utilização de mobiliário escolar apropriado que permita a manutenção do equilíbrio das cadeias musculares e a utilização de um colchão apropriado, mas sobretudo pela utilização de lentes prismáticas posturais, pela reprogramação postural (incluindo o trabalho proprioceptivo, as técnicas de consciencialização corporal, a reeducação postural por meio do alongamento global e integração de sensações, e a utilização de palmilhas de reprogramação postural) e a utilização de técnicas psicopedagógicas específicas e adaptadas às dificuldades existentes.
Reparemos que a boa saúde do sistema proprioceptivo está dependente do bom equilíbrio existente entre as cadeias musculares, ou seja, da existência e promoção de uma “morfologia perfeita” (M
ézières). O relaxamento muscular é também um dos grandes epítomes de intervenção no respeitante às estratégias de reprogramação postural.O Síndroma da Deficiência Postural vem mais uma vez lembrar-nos a importância do sistema neurológico nas questões da postura. Ao contrário do que alguns pensam, também os métodos de reeducação postural centrados no alongamento têm como objecto fundamental a integração de um novo esquema corporal, a integração proprioceptiva. Aliás, mesmo no Pilates costuma-se dizer que o mais importante é o conjunto das “sensações” que podemos propiciar aos indivíduos. A anti-ginástica de Bertherat e o método de Courchinoux são igualmente exímios neste tipo de trabalho, aliás modelos do trabalho de integração proprioceptiva.Com tantos recursos existentes na fisioterapia menos convencional, é incrível como a maioria dos casos de Síndroma da Deficiência Postural não passem pelos fisioterapeutas, sendo que, muitas vezes, as actividades de reprogramação postural são realizadas por educadores, entre outros profissionais com uma formação pouca expressiva em termos de métodos psico-corporais.
Le corps a ses raisons
"Dê saúde ao seu corpo: a saúde pela antiginástica" é o infeliz título em português da obra de Bertherat "Le corps a ses raisons". Nesta obra, Thérèse Bertherat explana o fundamental sobre o método Mézières, incluindo a sua descoberta do método e os principais princípios do mesmo. "Le corps a ses raisons" vendeu milhões de cópias a nível mundial e terá sido provavelmente a mais conseguida acção de divulgação do método Mézières. Infelizmente, os princípios mézièristas ainda não vingaram completamente e são pouco conhecidos mesmo entre os fisioterapeutas. Daí que seja tão triste a obra de Bertherat estar simplesmente esquecida; e ainda mais triste é ter comprado a respectiva relíquia em português por apenas dois euros, através de um site de livros usados. Como seria bom divulgar esta obra, dá-la a conhecer aos diversos fisioterapeutas que por aí abundam...
sábado, outubro 28, 2006
Stretching Global Activo
O Stretching Global Activo é a consequência mais óbvia do RPG. Se o indivíduo na sua unicidade é apanágio do método Mézières, o RPG já tinha a tendência para se fixar em posturas determinadas e regras de certo especificadas. A evolução do método para o trabalho grupal de posturas era óbvio, até porque já várias outras pessoas tinham feito passagem semelhante (ex. anti-ginástica de Bertherat... um dia destes, escrevo um artigo sobre o método).

O sempre belo RPG (Reeducação Postural Global)

rã no ar (abertura ou fecho de braços)
postura sentada
rã no chão (abertura ou fecho de braços)
De pé, inclinado à frente (bailarina)
Resumamos as coisas da seguinte maneira: o RPG de Souchard pouco acrescenta ao Mézières em termos de filosofia de intervenção. De certa maneira, até tira uma certa "personalidade" e autonomia ao método, pois torna tudo muito mais regrado e ajustado a grupos.
O RPG é a vertente comercial de Mézières. Até as suas posturas são mais comerciais e politicamente correctas: são todas feitas com extremo alinhamento raquidiano. Nem sempre esse alinhamento é vantajoso...
As posturas GDS




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De seguida, reproduzo um texto, adiantando uma espécie de pré-publicação de algo que provavelmente virá a sair numa revista
Cadeias musculares e articulares. O método de Godelieve Denys-Struyf
Desde tempos arcaicos, nomeadamente desde os tempos da pólis grega, registou-se sempre um esforço constante pelo estabelecimento de tipos corporais e temperamentais. A concepção de Hipócrates assentava na existência de “humores” fundamentais – de que falariam mais tarde os médicos de Molière –, os quais eram o sangue (tipo sanguíneo), a linfa (tipo linfático ou fleumático), a bílis (tipo bilioso ou colérico) e a bílis negra (tipo melancólico).
A morfologia viria a estabelecer-se como ciência apenas por volta dos finais do século XIX, pela mão de diversos nomes como o de Sigaud, Mac Auliffe, Pende e Viola. Mas os dois grandes senhores da ciência da tipologia morfológica viriam a ser Kretschmer e Sheldon. Do primeiro sai uma classificação resultante nos tipos pícnico (pequeno e cheio; expansivo, alegre e realista), leptosómico (alto e magro; reservado, frio e meditativo), atlético (impulsivo e colérico) e displásico (mal desenvolvido e/ou com anomalias; dono de sentimentos de inferioridade), enquanto que do segundo sai a clássica classificação tripartida de endomorfismo, ectomorfismo e mesomorfismo.
Aparte a óbvia limitação das citadas classificações, principalmente enquanto modelos teoréticos da personalidade, muitas das teorias supracitadas contribuíram para a edificação de uma forma de ver o corpo como estrutura indissociável da mente. Assim sendo, o conceito de morfopsicologia tem precisamente o seu sentido no facto de muitos dos nossos temperamentos estarem estritamente ligados a caracteres de índole física.
Cabe ter em conta que a postura corporal está dependente de um número incomensurável de factores, nomeadamente factores ósseos e hereditários, o equilíbrio das cadeias musculares, factores de ordem psiconeurológica, assim como certos traços de personalidade e características do self.
Qualquer tentativa de perceber, avaliar e/ou moldar a postura de um indivíduo passa pela necessária perspectivação multifactorial dessa mesma atitude postural. Uma visão redutora leva, portanto, a resultados terapêuticos insignificantes. E as visões redutoras são inúmeras: o modelo médico encara a postura como um conjunto de caracteres ósseos irredutíveis, o modelo da posturologia pensa fundamentalmente na sensação corporal ou proprioceptividade, o método Mézières e a Reeducação Postural Global pensam sobretudo no modelo do equilíbrio das cadeias musculares, e outros métodos, como o Pilates, delongam-se no trabalho muscular profundo.
Uma visão verdadeiramente holística da postura corporal passa pelo necessário conhecimento dos diversos modelos de intervenção. Para além disso, não pode esquecer o papel dos factores psicológicos ou, melhor dizendo, psicossomáticos.
Neste contexto, uma retratista e fisioterapeuta bastante desconhecida dos cânones terapêuticos e académicos nacionais foi especialmente previdente no sentido de compreender a postura nas suas múltiplas variantes. Esta fisioterapeuta não criou sequer um tipo específico de intervenção. O seu método é mais uma forma global de ver a postura. Refiro-me ao método de Godelieve Denys-Struyf (GDS).
Apesar de valorizar a unicidade própria da idiossincrasia postural de cada pessoa, Godelieve Denys-Struyf não deixou de conceber uma classificação de estruturas psico-corporais, à luz de uma teoria de arquétipos. Ela concebeu a existência de cinco estruturas, uma dupla, portanto seis estruturas posturais, as quais dependeriam da cadeia muscular mais solicitada (posturas PM, AM, PA-AP, AL e PL).
A postura PM (póstero-mediana) é, provavelmente, uma das mais modelares estruturas posturais patológicas. Nesta estrutura, o equilíbrio adoptado impele o corpo para a frente, sendo que é a actividade dos músculos posteriores que garante a sustentação da atitude. É observável em todas aquelas pessoas que aparentam possuir umas costas bem esticadas, uma lordose geral facilmente verificável. É muito comum entre os atletas e os instrutores de fitness, os quais chegam a pensar que esta é uma postura louvável. Esta postura pode resultar de uma motivação e de uma escolha, sendo característica das pessoas que desejam possuir um grande controlo sobre a sua vida e a dos outros; é, no fundo, uma postura de combate defensivo, que favorece a ideação e a acção. O seu tratamento depende muito mais do que a inibição do seu padrão neuromuscular característico; eventualmente, na tentativa de contrariar a postura defensiva da pessoa, esta reage com ainda mais tensão, pois, no fundo, é a sua própria identidade que está em jogo. A solução parece estar na regularização das tensões, na modelagem. A musculação, algum Pilates e algum Yoga poderão agravar esta estrutura particular.
A postura AM (ântero-mediana) resulta da actividade dos grupos musculares anteriores, os quais garantem o suporte de um desequilíbrio para trás. Esta postura é extremamente característica, sendo que conjuga a hiperlordose lombar (excessivo arqueamento da coluna lombar) com uma compensatória hipercifose dorsal (inclinação anterior do tórax). As pessoas com a postura AM estruturada tendem a viver na espera, limitado o imprevisível. Se a postura é resultado de uma imposição, então ela releva de um problema de auto-estima, uma dificuldade na relação com o exterior, uma tendência ao fechamento e uma atitude de derrota. As opções terapêuticas variam consoante a natureza causativa da postura: a postura pode ser o resultado de uma “personalidade constitucional profunda e realizada”, pode resultar de uma “personalidade relacional ou de fachada” ou então pode ser o resultado de uma “personalidade adquirida mal vivida, em dificuldade”.
A dupla estrutura PA-AP (póstero-anterior – ântero-posterior) é aquela que mais se aproxima da estrutura de músculos profundos e anti-gravíticos, contribuindo, portanto, para a manutenção de determinado alinhamento vertebral e determinado padrão de achatamento articular. Esse achatamento é mínimo se existir um bom equilíbrio corporal. Por outro lado, se existir um fraco equilíbrio, criar-se-á um padrão específico de trabalho muscular profundo exagerado e desinibido, de modo a contrariar a tendência para a queda, criador de tensões e diminuidor da mobilidade articular. Uma atitude PA-AP não forçada, correcta, alinhada, rigorosa e, no entanto, flexível e agradável, constitui o padrão ideal, estando associado às personalidades mais flexíveis e assertivas. Em especial, a estrutura AP constitui uma espécie de estrela central de todas as outras estruturas, o eixo de todas as personalidades, representando uma personalidade lançada para a maturidade, para a liberdade responsável e consciente. A postura AP é aquela que precisa mais de ser preservada, pois é o padrão que permite a acção e a busca práxica da realização; é a estrutura que busca o devir, permitindo o confronto das forças depressivas da morte. A ginástica, o desporto em geral, a dança e as artes marciais, realizados num espírito lúdico e despreocupado, permitem o desabrochar da AP. Mas o seu desenvolvimento está também dependente do acolhimento da mãe AM, do apoio do pai PM e do suporte celestial PA.
Restam as estruturas secundárias AL (ântero-lateral) e PL (póstero-lateral), vistas nos planos frontal e horizontal (as cadeias mais dinâmicas e relacionais, semelhantes às cadeias cruzadas de Leopold Busquet). A primeira associa-se ao fechamento e à retracção, ao medo e à introversão. Já a segunda associa-se a um outro tipo de tensão, mais posterior, mas permite a abertura, a expansão e a extroversão (é este o tipo de cadeia que é mais trabalhada nas extensões, aberturas e torções do Yoga). Possivelmente, estas duas estruturas interagem no mesmo corpo; AL relacionada com a dominância do membro superior direito e PL relacionada com o apoio no membro inferior esquerdo (isto, claro, para os indivíduos destros). A dinâmica destas estruturas importa à compreensão de todas as assimetrias corporais, assim como das escolioses (desvio lateral da coluna vertebral).
Estas estruturas pertencem ao eixo horizontal, um eixo relacional, enquanto que as anteriores pertenciam ao eixo vertical da personalidade.
O trabalho global das “cadeias musculares e articulares” GDS impõe a sempre impartível relação do terapeuta com o doente e deste com o seu próprio corpo. O trabalho terapêutico deve partir da sempre necessária consciencialização da estrutura, de modo a perceber o seu dinamismo e a inverter alguns dos aspectos que caracterizam a sua patologia. E nunca devemos esquecer que todo o indivíduo é irredutível a uma tipologia, resultando o seu padrão postural e comportamental de uma combinação muito própria de elementos das diversas estruturas tratadas.
sexta-feira, outubro 27, 2006
Dificuldades na pesquisa e investigação
É indubitável que o desenvolvimento da fisioterapia está dependente do desenvolvimento da investigação. E esta assenta na livre pesquisa e na facilitação do acesso às fontes bibliográficas. É incrível como, por vezes, é difícil executar uma simples pesquisa de um artigo simples. Mas mais incrível é encontrarmos tanta investigação inútil, perdida nas bibliotecas de escolas e universidades, no formato de monografias ou teses de pós-graduação.
Porquê “informação inútil”? Porque toda a investigação não publicada é investigação desconhecida e não oficializada. E quase todas as monografias e teses permanecem por publicar, e isto se as mesmas contém estudos verdadeiramente concluídos.
Recentemente surgiu uma necessidade fundamental de obter um instrumento de avaliação das dores lombares, o “Oswestry Disability Index”. Através de pesquisa, percebi que o questionário tinha sido adaptado à realidade portuguesa através de uma monografia de final de curso da Escola Superior de Saúde do Alcoitão. Como esta escola é para mim uma espécie de “mãe educativa”, visto que foi lá que me formei, dirigi-me em direcção à escola e à biblioteca. Mas rapidamente percebi que, como antigo aluno, tenho o mesmo estatuto que qualquer outra pessoa que nunca tenha estado na escola. Ou seja, tive de pagar uma taxa de utilização da biblioteca como “utilizador externo”.
“Utilizador externo” é uma fraca designação a quem tanto pagou e estudou na referida instituição... instituição que deixa os alunos largados à sua sorte, sem qualquer apoio no que concerne às pesquisas. E eu que pensava que a formação contínua incluía a pesquisa mantida ao longo da vida. Seria de esperar que a “minha” escola me apoiasse nesse processo, mas parece que “antigo aluno” não tem de ser apoiado.
Mas a história não fica por aqui. Quando solicitada a monografia, recebi a informação de que a mesma não podia ser fotocopiada. Só podíamos fotocopiar o resumo, o índice e a bibliografia. Mas que raio de regra tão imbecil! E se eu quiser orientar a minha pesquisa a partir dos passos da outra pessoa? E se eu quiser obter os dados metodológicos do outro indivíduo? E se eu precisar de fotocopiar um instrumento de modo a utilizá-lo mais tarde com determinada população? Sei que hei-de necessitar de obter autorização para utilizar o referido instrumento, apesar de não concordar com tal, pois, para mim, a partir do momento em que determinado instrumento de estudo foi validado, e a partir do momento em que o mesmo existe ele passa a pertencer ao “conhecimento global e objectivo”, sendo que não é pertença de outra pessoa. Por que havemos de temer a utilização livre dos nossos instrumentos? Mesmo que autorizada a sua utilização, ela não será efectuada necessariamente com cuidado e ética...
Por todas estas razões, fotocopiei o referido instrumento, nem que seja para que possa basear-me nele para construir algo meu, evitando obviamente qualquer tipo de plágio. Quando a responsável pela biblioteca reparou em tal acto, disse que não podia levar tais folhas. Eis que, quando tive oportunidade, peguei nas folhas – todas elas – e fui pagar as fotocópias. Surripiei-as sim. Roubei-as, não, pois paguei-as. Quando a responsável pela biblioteca veio atrás de mim para obter as folhas, não a deixei fazer tal coisa e disse que se quisesse chamasse a polícia. Coisa ridícula de se fazer, claro!... E claro que não me considero criminoso. Tudo isto poderia ter sido evitado até porque a pessoa que validou o questionário (consegui obter o contacto dela através da APF) acedeu em colaborar. Mas digo uma verdade. Se não acedesse em colaborar, utilizaria o instrumento à mesma. Referia a autora da validação e tudo o mais, mas não deixaria de utilizar o questionário...
domingo, outubro 22, 2006
Rolfing
As cadeias musculares
A cadeia posterior

A cadeia posterior de músculos é o ponto de partida para a abordagem em todos os métodos de reeducação postural. Como ficou bem expresso pelo método Mézières, tudo é compensação lordótica e todas as deformidades se inscrevem na cadeia de músculos hipertónicos da região posterior do corpo. Na obra de Busquet, este autor especificou a importância da cadeia no seu lado mais fascial e menos muscular propriamente dito.
A cadeia anterior e respiratória

A cadeia anterior, incluindo a sinergia diafragma + músculos inspiratórios acessórios e a sinergia diafragma + psoas (ambas lordosantes), deve ser vista fundamentalmente como sinérgica da cadeia posterior. Certas abordagens como o método Rolfing e os Trilhos anatómicos têm dado mais autonomia a esta cadeia no sentido da explicação de deformidades, assim como têm falado da existência de muitas outras cadeias musculares. Mas parece-me que não vale a pena complicar as coisas e que tal só deriva de falsa intelectualidade. Fiquemos pela parcimónia. Fiquemo-nos pela ideia de que tudo não passa de compensação lordótica e que tudo o resto é somente deformação secundária ou preciosismo muscular.
Daí a intervenção deve partir sobretudo das posturas anti-lordóticas em expiração prolongada. Posturas de alongamento cruzado, como utilizadas no Yoga, provocam mais compensações do que corrigem. E é falsa a ideia de que nos devemos centrar no alongamento anterior para corrigir cifoses. Mais importante é o trabalho expiratório, associado à deslordose.
Em toda a actividade muscular centrada e profunda, como no Pilates, deve ser tido em conta um trabalho muito específico, sem compensações. À partida "fazer abdominais" deve passar somente pelo trabalho postural e respiratório. Tudo o mais tende a ser compensação, esforço lordosante.
Formação em Mézières
O método mãe de todos os métodos de reeducação postural.
Imagens da formação a decorrer desde Março de 2006 em Cidadela Arco-Íris, Abrigada, Alenquer:




O método mézières assenta em três grandes princípios: deslordose, desrotação e desbloqueio diafragmático.
São os princípios base de muitos outros métodos que a partir deste se formaram: anti-ginástica de Bertherat, "Corpo e Consciência" de Courchinaux, "Cadeias musculares e articulares" de Godelieve Denys-Struyf, Reeducação Postural Global e Stretching Global Activo de Ph-E Souchard e "Cadeias musculares" de Busquet.
E não há dúvidas de que o método Mézières apresenta imensas semelhanças com os diversos métodos de relaxamento, e até com a técnica de Rolfing, a técnica de Alexander e o método de Feldenkrais.
Mais informações: mezieres@yahoogrupos.com.br
O órgão antes da função
É cada vez mais difícil precisar a qualidade de formação dos futuros fisioterapeutas obtida nas diferentes escolas que por aí proliferam. Parece-me que, com a implementação do processo de Bolonha, os cursos vão sofrendo progressivamente cortes nos seus conteúdos e na exigência de formação. Um dos mais insuportáveis cortes efectuados ao nível dos programas de cursos está relacionado com a formação em reeducação postural. A grande maioria dos actuais fisioterapeutas não tem formação base em qualquer método de reeducação postural, e os poucos que têm algum género de formação não chegam a perceber bem em que consistem tais métodos.
Nem mesmo eu percebi bem do que tratava verdadeiramente o RPG quando o decano da fisioterapia João Vasconcelos Martins nos ensinou os seus princípios e as suas posturas, na minha formação na Escola Superior de Saúde do Alcoitão. Mas a curiosidade e a paixão ficaram...
Mais tarde, depois de um percurso mais ou menos sinuoso nos meandros do mundo da fisioterapia, a minha experiência profissional levou-me a abraçar os princípios dos métodos reeducativos. E percebi bem que a fisioterapia, mais do que a "ciência do movimento", deve ser uma "ciência da estrutura", uma "ciência da morfologia", uma "ciência da postura". Não deixa de ser verdade que a função faz o órgão. Mas a função desajustada só poderá produzir um órgão ainda mais desajustado. É o órgão que organiza a função. É a postura que comanda o movimento. É a correcção morfológica que permite o bom funcionamento das estruturas.
sábado, outubro 14, 2006
Um conselho sobre a formação em Pilates
Apesar de não constituir um método de reeducação postural por excelência, o método Pilates apresenta-se como um sistema de treino/tratamento bastante eficaz, principalmente em termos da consciência corporal, equilíbrio e fortalecimento abdominal profundo. Este texto serve apenas para dizer que a formação em Pilates deverá ser considerada pelos fisioterapeutas como de grande importância. Cada vez mais as pessoas procuram o Pilates de modo a obterem tratamento e compensação para os seus problemas de coluna. E, geralmente, os professores que apanham são meros instrutores de fitness, sem formação em saúde, e muitas vezes sem formação superior na área da motricidade. Um simples instrutor com um curso profissional de musculação pode fazer um curso de Pilates e tornar-se instrutor. Será legítimo que as pessoas com problemas sejam acompanhadas por este tipo de "profissionais"?... Será legítimo que estes mesmos "profissionais" sejam vistos como professores especializados, enquanto que os superformados fisioterapeutas são vistos meramente como os senhores das mãozinhas? Penso que tal é especialmente injusto, principalmente porque não há profissionais mais bem formados para lidar com a postura e o movimento do que os fisioterapeutas. Defendo, portanto, que deverá ser a classe dos terapeutas aquela que deve pegar nas classes (assim como no trabalho individualizado) de Pilates.
No domínio da própria prática de Pilates, apenas será saudável a prática de um Pilates seguro e adaptado aos problemas dos indivíduos. Refiro-me a um Pilates doce, apostado no trabalho localizado, sem criação de compensações, e com respeito pelos princípios mézièristas de prevenção das lordoses. Ora, tal só será conseguido mediante a formação numa escola moderna (o Pilates Institute é um excelente exemplo). As escolas clássicas de Pilates prendem-se numa prática muito agressiva, criadora de compensações e geradora de lesões.
Recomendo a visita do site www.pilatesinstitute.org ou a realização de formações de Pilates adaptado a fisioterapeutas.
segunda-feira, setembro 25, 2006
Medicinas não convencionais: o complexo de Jesus Cristo
Por uma questão de receio social de certas autoridades, as questões relativas à delegação de poderes e responsabilidades em saúde têm conhecido polémicas e contendas acentuadas, apesar de nem sempre reconhecíveis pelo mundo dos leigos da matéria. Em especial, o conflito ideológico existente entre medicinas convencionais e medicinas tradicionais tem marcado lugar na cena social, muito mais do que as disputas entre médicos e outros profissionais de saúde como enfermeiros e fisioterapeutas.
Uma possível jornada pelo mundo específico das medicinas não convencionais só poderá provocar no profissional consciente e reflexivo a maior de todas as angústias. Recentemente, a exposição “Viver Saúde” da Feira Internacional de Lisboa permitiu a muitos curiosos a visita a postos de divulgação das práticas terapêuticas menos convencionais. Nesta mesma exposição ou feira estavam presentes representantes de práticas como a fitoterapia, a acupunctura, a medicina tradicional chinesa, a osteopatia, a massagem desportiva, a quiroprática e a homeopatia. Em diversos stands, podíamos ter acesso a informações diversas acerca da prática dessas diferentes medicinas. Mas estas mesmas informações e actos de divulgação só poderão mesmo levar o curioso à intranquilidade de espírito, principalmente se se trata de um profissional de saúde, cuja formação é altamente do tipo Evidence Based Practice.
Acontece que estas mesmas medicinas não convencionais encontram-se incluídas numa miscelânea de métodos e técnicas com filosofias muito dissemelhantes, histórias muito próprias, e diferentes níveis de seriedade, o que pode deturpar a realidade de quem observa de fora o funcionamento destas práxis clínicas. Por exemplo, o nível de seriedade da osteopatia pode ser comparável ao nível de seriedade da fitoterapia, mas está muito para além do nível de seriedade da homeopatia e de um número interminável de pseudo-métodos. E para complicar ainda mais as coisas, é possível atender ao facto de que não há uma osteopatia, há várias osteopatias, várias escolas de osteopatia. E há também diferentes escolas de Yoga, Tai-chi e quiroprática: umas mais sérias e científicas e outras menos sérias e idóneas. No fim, pagam os justos pelos pecadores e restamos nós os confusos.
Não me restam dúvidas de que há algo de interessante para se perceber e estudar em diversos métodos de intervenção. Algumas escolas de osteopatia possuem realmente certas técnicas de tratamento do sistema somático particularmente interessantes. Pena é que essas mesmas técnicas continuem por explorar, em termos científicos. Por outro lado, não pode ser ignorado o facto de os osteopatas serem, regra geral, profissionais de fraca formação académica, para além de manterem o espírito assombrado pela sensação de inferioridade face aos fisioterapeutas no que respeita à aceitação oficial por parte do Serviço Nacional de Saúde. Também a quiroprática possui algo de interessante em termos das suas técnicas de intervenção; porém, ainda não conseguiram especificar cientificamente de que forma é que é possível modificar os estados de corpo através da manipulação do sistema nervoso. Igualmente a acupunctura necessita de traduzir para uma linguagem científica toda aquela nomenclatura de pontos acupuncturais e de meridianos nervosos. Não entendo como ainda não o fizeram, tendo em conta a oficial aceitação da existência de um complexo sistema nervoso que nos integra.
E assim poderia continuar eternamente a especificar que aquilo que falta às medicinas não convencionais é precisamente o escrutínio científico. Até agora, os profissionais das medicinas não convencionais só têm conseguido passar um discurso do tipo “banha da cobra”. Parecem-se com autênticos charlatões, confundem-se com eles e chegam mesmo a sê-lo. Por outro lado, este mesmo discurso de nível esotérico parece resultar às mil maravilhas com as pessoas, principalmente todas aquelas que permanecem desiludidas com as medicinas ditas ortodoxas. Referimo-nos a um efeito psicológico e de placebo que acaba por ser de especial valia para que estas mesmas terapias surtam resultados.
No meio de todas estas terapêuticas, as que mais dificilmente se aceitam são aquelas que estão ligadas à Medicina Tradicional Chinesa. É difícil levar a sério um discurso tão obsessivamente dominado por “energias”, “chakras” e “auras”; um discurso puramente maniqueísta, dominado pela barganha da conversa das forças do “bem” e do “mal”. E pior ainda é conseguir dominar o elevadíssimo número de terapias e métodos que vão surgindo e dominando as mentes daqueles que não resistem à perversidade do marketing. Temos o Shiatsu, a massagem Tuina, as pedras quentes e as pedras frias, os magnetismos, a acupunctura sem agulhas, o Tai-chi, o Chi Kung, e, ainda mais incrível, as terapias de vidas passadas, a cristaloterapia, e outras “rodas da fortuna”.
E tudo isto surge envolto numa aura de sensações, numa rodilha de bem-estar permanente, acompanhado da promessa de intervenção verdadeiramente holística (e todas se dizem melhores e mais holísticas do que as outras), e num espírito de prazer constante. E quando vão os proponentes destas terapias perceber que o verdadeiro crescimento espiritual passa por formas legítimas e obrigatórias de sofrimento? E que o sofrimento é necessário ao crescimento? E que o crescimento depende de uma consciencialização lenta, para a qual estas terapias só poderão dar um parco contributo? Quando vão as pessoas perceber que o mais importante no “efeito placebo” não é o conteúdo da própria terapia, mas sim a qualidade da relação que estabelecem com o profissional? E que a qualidade dessa relação depende da honestidade intelectual?...
Em suma, ao invés de se apresentarem como a panaceia absoluta para todos os males, como a cura magnífica, virá o tempo em que os sérios utilizadores destas terapias serão capazes de assumir que não são milagreiros e que não têm de mexer com tudo, que eventualmente só conseguem mexer com uma parte da pessoa. E que têm de existir obrigatoriamente diferentes paradigmas de intervenção, e que estes têm de ser necessariamente limitativos a determinada dimensão do ser humano. Virá o tempo em que assumiremos que a necessidade de sermos um pouco de tudo, sem limites paradigmáticos, advém de uma desordem interior, de uma necessidade de preenchimento de uma insegurança primária. Virá o tempo em que a lei da parcimónia nos fará ver que muitas das terapias existentes divergem em pouco mais do que a nomenclatura e certos aspectos teoréticos irrelevantes.
Cabe ao profissional sério assumir aos outros e a ele mesmo que é apenas um homem e que não mexe com nada que ultrapasse a própria pessoa. E que não a curará, apenas a apoiará nesse caminho sempre incompleto. E que, enfim, Jesus Cristo já só existe nas nossas cabeças.
quinta-feira, setembro 14, 2006
domingo, setembro 10, 2006
Mais uma vez o dia mundial da fisioterapia passou sem que existisse qualquer anúncio significativo da sua existência. Por outro lado, fiquei contente com a publicação do meu artigo sobre métodos de Reeducação Postural na revista Saúde Actual. Esperaria ter algum tipo de colaboração mais permanente. É desesperante a ausência de fisioterapeutas a escreverem para revistas de saúde mais ou menos especializadas. Não sei se é por medo, se falta a auto-estima aos nossos profissionais. Por outro lado, a minha compulsão para a escrita e a publicação não deixa de derivar de uma espécie de "desordem interior", uma cabal obsessão. Actualmente, ando com vontade de desenvolver projectos de investigação acerca de várias temáticas: levantamento dos conhecimentos acerca dos métodos de reeducação postural e necessidades de formação nesta área é um exemplo entre muitos dos que poderão ser prosseguidos. Se algum aluno do último ano de fisioterapia quisesse seguir tal projecto, tal seria brilhante para mim no sentido de poder desempenhar o meu papel de orientador específico.
sábado, setembro 09, 2006
Oito de Setembro: dia mundial da Fisioterapia
Dentro desse prolífico mundo que é o sistema de saúde, a questão relativa aos cuidados de fisioterapia e reabilitação física em geral tem sido permanentemente negligenciada. Agora que se celebra o dia mundial da Fisioterapia, um dia em que diversos profissionais da reabilitação e até mesmo doentes desenvolvem uma série de actividades de divulgação da prática, surge a excelente oportunidade para traçar o perfil de um tipo eterna e progressivamente desprezado de cuidados.
A Fisioterapia constitui muito mais do que uma simples actividade profissional. É a arte do tratamento por meios fundamentalmente naturais. E é uma ciência da postura e da motricidade, fonte inegável de conhecimentos da fisiologia do aparelho locomotor.
Por ter em conta as necessidades pessoais de cada doente em particular, assim como uma visão holística e bio-psico-social do utente, a fisioterapia não é, em termos da sua filosofia basilar de tratamento, muito diferente das medicinas menos convencionais como a osteopatia ou a quiroprática. Entre as diversas “medicinas físicas” vigoram diferenças relacionadas mais com o significante do que com o significado, no sentido da apresentação mais ou menos comercial ou mais ou menos esotérica das diferentes práticas. Na prática propriamente dita, nos seus ditames conteudísticos, as diferenças entre os dissemelhantes cuidados citados são pequenas, talvez com a diferença primária centrada nos aspectos históricos e com as distintas práticas e atitudes relativas à investigação.
Por ser de natureza holística, e pelo facto de o corpo constituir um ente indivisível em si mesmo e com a mente, a prática da fisioterapia não pode ser realizada por partes ou divisões, numa relação fragmentada entre diferentes profissionais de saúde. Acontece que o sistema de saúde, para além dos diferentes subsistemas, pressupõe a realização de tratamentos de fisioterapia como se de um catálogo de vendas se tratasse. Os tratamentos têm nomes específicos, códigos determinados e tarifas regulamentadas. Os aspectos decisórios relativos ao que é ou não realizado no doente pertencem oficialmente ao médico fisiatra e não ao fisioterapeuta. Assim sendo, após uma consulta médica da especialidade, o doente vem “rotulado” com uma prescrição de tratamentos como se os actos de fisioterapia fossem divisíveis como diferentes comprimidos com diferentes objectivos. Negligencia-se, portanto, a natureza indivisível da arte terapêutica, constituída por uma série de actos que são, no fundo, um só acto, assim como as diferentes notas musicais são melodia e esta constitui um todo indissociável, constituído por muito mais do que a soma das notas musicais que o compõem.
Assim sendo, a fisioterapia só pode constituir um acto de eclectismo fundamental, baseado na ciência da reabilitação, assim como esta assenta numa combinação sempre complexa de diferentes técnicas e métodos terapêuticos, muitas vezes extremamente semelháveis entre si. Por outro lado, certos métodos, como a reeducação postural, que partem das consequências para as causas dos sintomas, e permitem a análise e reeducação da base corpórea e postural da qual deriva e decorre a maioria dos problemas reumáticos do doente, constituem uma verdadeira terapia de base funcionante, um pouco como a psicanálise da ciência/arte da mente.
Como prescrever medicamente este tipo de actividade terapêutica? Como “ordenar” um tipo de actividade que compõe um acto de escultura corporal? É obviamente impossível fazê-lo! Mas, de qualquer maneira, a questão pode até nem ser muito relevante, pois este tipo de actividade de fisioterapia especializada só está à mercê de uma minoria de fisioterapeutas (estes sim, os verdadeiros escultores, e como tal, os verdadeiros decisores), que possuem o tempo, disponibilidade, interesse e dinheiro suficientes para adquirirem a formação pós-graduada requerida. Por outro lado, quem, nos tempos que correm, se interessa por uma prática terapêutica de efeitos lentos apesar de globais? E será que interessa às clínicas privadas de fisioterapia que por aí abundam a realização de uma prática morosa centrada num só doente, que ainda por cima terá como efeitos a prevenção da totalidade dos problemas músculo-esqueléticos do mesmo, levando à redução da necessidade dos diferentes cuidados continuados de fisioterapia?...
Eis que começam a emergir as questões sócio-políticas da fisioterapia e da saúde em geral. Usualmente, os utentes de cuidados de fisioterapia demoram-se semanas a meses a tratar muitas vezes disfunções que poderiam ser resolvidas em poucos dias. Isso acontece não só por descuidos no diagnóstico e pela fraca formação de muitos fisioterapeutas, mas também pelo facto de os doentes serem comummente sujeitos a regimes esgotantes de sessões de fisioterapia que parecem não ter fim. Os doentes são tratados muitas vezes com técnicas medíocres, por auxiliares de fisioterapia com pouca formação. Na altura de serem tratados por fisioterapeutas, os doentes tendem a deparar-se com um profissional cheio de trabalho, esgotado pelas exigências do regime de trabalho a que se encontra vinculado. Se o doente realiza fisioterapia com uma credencial da “Caixa da Previdência” terá direito ao menos possível e será provavelmente tratado em conjunto com muitos outros doentes (pena que o Governo não valorize a importância da fisioterapia; talvez pense que não deve investir dinheiro e recursos na população majoritária na utilização dos cuidados de saúde: os idosos). Se estamos a falar de um doente de um bom seguro as coisas melhoram para ele. E se estamos a falar de um doente particular, aí é provável que o mesmo já tenha direito às tais técnicas de fisioterapia global e especializada (mas, mesmo assim, o que pode ser feito em quatro sessões é feito em oito ou doze, para que o rendimento seja maior).
É tudo uma questão relativa à relação custo-benefício. Apenas o bom profissional, com uma formação ética imaculada, poderá fazer a diferença no seio das constrições do sistema! Mas são precisamente estes profissionais, e todos os outros com formação mais abrangente, que começam a constituir a excepção e não a regra neste país. Afinal de contas, a competição entre as crescentes escolas de fisioterapia é enorme, e a mesma só pode ser balizada pela criação de cedências, ao invés de se promover a exigência. Por outro lado, muitas das clínicas particulares de que falamos não estão interessadas num profissional de qualidade, pois este pode colocar em risco os necessários percursos de pactuação com o sistema. Preferem um profissional menos formado que tenha grandes capacidades de tratamento célere do maior número possível de doentes.
Assim sendo, e acrescentando o crescente número da oferta de fisioterapeutas em relação à procura, a profissão vai decrescendo em termos de qualidade e aperfeiçoamento. Tendo em conta a contextura de um crescente número de profissionais, deveria ser valorizado o profissional eficiente, com mais formação científica e especializada. Ou seja, deverá acabar a filosofia do “mais um fisioterapeuta”, trabalhador manual que faz o que outro poderia fazer, para ser arreigada a filosofia do “fisioterapeuta especializado e dedicado”, profissional conhecedor de eleição, capaz de realizar o que muitos outros não têm ainda capacidade para fazer.
As carências de reconhecimento profissional, a falta de investimento tecnológico, a existência de falsos fisioterapeutas a trabalhar, as fracas condições de trabalho, as parcas remunerações e todo um outro conjunto de questões implicariam uma defesa oficiosa da classe por parte de uma Ordem profissional. Mas ainda estamos longe desse passo, pois os fisioterapeutas nem são reconhecidos como profissionais autónomos, antes como parte de um rótulo de “profissionais de diagnóstico e terapêutica”. Pena é que sejam os doentes que mais percam com todas estas deficiências!...



