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sábado, setembro 27, 2008

Este é o melhor dos mundos possíveis

Ultimamente a minha contribuição para o blog tem sido ínfima. Isso acontece porque há alturas da nossa vida em que estamos mais apostados em ler do que em escrever. E também acontece porque, há pouco tempo, saí de um importante projecto de escrita, projecto esse que dará origem a “algo” que revelarei em Novembro.
Esse “algo” encerra uma jornada, nomeadamente a jornada relativa à luta anti-fitness que tenho estabelecido e que continuo a estabelecer. Sobre essa luta, posso dizer que, por cada vez que um instrutor de fitness fala comigo sobre alguma temática mais técnica ou outra mais genérica, me assusto de uma forma algo repulsiva. Não há realmente grande cultura nesses meandros do mundo da indústria do fitness.
Também no mundo da fisioterapia não abundam grandes exemplares de cultura literária e filosófica. Em tempos, conheci uma terapeuta com um grande conhecimento da literatura portuguesa... mas com grandes fraquezas noutras áreas. Gostava de conhecer mais fisioterapeutas – e outros profissionais da motricidade – com um conhecimento mais generalizado da “inteligência do velho mundo”.
Enfim... Os hábitos de leitura e de escrita não abundam por entre os portugueses, e, em especial, por entre os jovens. Mas, ainda assim, os novos cursos de Fisioterapia já são, de certo modo, capazes de formar jovens bem dotados e inteligentes. São estes jovens fisioterapeutas que constituem a grande motivação da minha escrita. Pois são também eles que tiveram acesso às grandes lides culturais ou a um outro tipo de escolarização.
Isso é algo que distingue significativamente bem os novos dos velhos fisioterapeutas. Os novos fisioterapeutas podem, eventualmente, ter menos experiência que os mais antigos da praça, mas são, regra geral, mais inteligentes, capazes e promissores do que os velhos fisioterapeutas do início da profissão. Os novos fisioterapeutas possuem conhecimentos de ciência, matemática e estatística, literatura e cultura geral, capazes de envergonhar categoricamente os velhos da profissão. Portanto, não pode deixar de ser irónico que sejam precisamente os “velhos da profissão” a possuírem os melhores lugares nas melhores empresas, e lugares destacados do ensino nas diferentes escolas de Fisioterapia. Mas onde seguramente os velhos fisioterapeutas se acumulam de forma hedionda é na Associação Portuguesa de Fisioterapeutas. Verdade seja dita que o programa do 7º Congresso Nacional de Fisioterapeutas exprime bem o tipo de favoritismo que a APF tem pelos “velhos do Restelo da Fisioterapia”. Os nomes dos convidados são – repetidamente – os mesmos de sempre! Nomes que a APF considera como sendo de profissionais de reconhecida competência. Enfim!... É pena que a APF não se preocupe mais em reconhecer a qualidade dos novos profissionais, assim como muitos dos problemas que afligem esses mesmos jovens (a respeito disto poderia escrever um outro texto, intitulado talvez como “Por que é que a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas continua formalmente a fazer de conta de que tudo vai bem no mundo da Fisioterapia?”; pois a atitude da APF perante os problemas que afligem os terapeutas é de total indiferença.).
Bem, como o mundo não é completamente injusto, há-de vir o tempo em que os “velhos da profissão” hão-de extinguir-se, nem que seja por um qualquer justo processo de darwinismo social.
Os hábitos de leitura e a capacidade intelectual também ajuda na distinção – necessariamente importante – entre fisioterapeutas e essa raça tão “sofrida” de “técnicos auxiliares de Fisioterapia”. Não obstante a sua utilidade para um sistema capitalista sem tréguas, os técnicos auxiliares de fisioterapia, conhecidos muitas vezes por “terapeutas” para o público comum, constituem um “mal” ilimitado do nosso país. Estes mesmos “profissionais” continuam a julgar que podem competir com os fisioterapeutas!... E não há palavras para afirmar a vanidade da vontade de os “mandar ir passear”, quando nos lembramos de tantas horas de estudo no curso que fizemos no passado. Acaso o técnico auxiliar de Fisioterapia conhece 1% das técnicas mais sofisticadas da Fisioterapia? A resposta tende a ser “não”. Mas é curioso! Os técnicos auxiliares de Fisioterapia não têm constituído grande alvo de ataque formal da minha parte. Talvez porque, perante os níveis de aculturação dos fisioterapeutas, eu reze para que não deixem de existir estes profissionais que fazem aquilo que posso designar por “fisioterapia mesquinha”.Entretanto, talvez muitos terapeutas possam começar a ler um pouco mais do que aquilo que lêem. Para os “velhinhos do Restelo da APF” recomendo que leiam Leibniz, o filósofo do “este é o melhor dos mundos possíveis”.

domingo, setembro 14, 2008

Notas de acesso ao ensino superior em cursos de saúde: Da medicina à fisioterapia - Carta endereçada ao Jornal Público

Enquanto profissional de saúde que sou, nomeadamente fisioterapeuta, interesso-me (ainda) pelas notas dos últimos colocados em cursos de saúde. E todos os anos vejo a evolução dessas mesmas notas e assisto ao ressurgimento contínua de uma poderosa facécia ilusória. Refiro-me às notas de entrada para os cursos de Fisioterapia. Como é possível que as notas de acesso a este curso sejam tão elevadas, num contexto de desemprego quase obrigatório dos fisioterapeutas? Como é possível que a Comunicação Social não contribua para dar da Fisioterapia a mesma imagem que tem sido dada da Enfermagem, ou seja, uma imagem de crescente desemprego e precariedade.
A verdade é que as notas de 17,6 em Fisioterapia em Coimbra e no Porto jamais poderão justificar-se, ainda mais porque o curso de Medicina possui como nota mais baixa de acesso, em Lisboa, 17,9. As diferenças de notas entre Fisioterapia e Medicina são cada vez mais espúrias, mas, na realidade clínica e no contexto profissional, a realidade de um fisioterapeuta é totalmente negra, enquanto que a realidade profissional de um médico continua a ser quase paradisíaca.
Não há realmente justificação para as crescentes notas do curso de Fisioterapia. É urgente informar os jovens estudantes que uma poderosa máquina financeira – ligada à formação de futuros e recém formados fisioterapeutas – ganha muito com a existência de um tão grande número de profissionais. Pois, na realidade, quando os “novos” fisioterapeutas saem dos cursos – quase sempre muito inseguros relativamente ao seu futuro profissional – são possuídos pelo pensamento de que devem realizar muita formação contínua e/ou pós-graduada para conseguirem singrar. Tal é uma absoluta ilusão, visto que a realidade é que são gastos milhares de euros em formação que não é adequadamente reconhecida e valorizada pelos postos de trabalho.
É “obrigatório” informar estes “novos alunos” e “futuros fisioterapeutas” que o número destes profissionais vai chegar aos 10 mil até ao final da década (previsão recente da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas), e que o desemprego constitui, face às actuais necessidades de mercado, uma realidade obrigatória. É também “obrigatório” informar que, neste momento, há fisioterapeutas a trabalhar em clínicas de fisioterapia por 3 e 4 euros à hora, e, como se isso não bastasse, já há fisioterapeutas a oferecerem-se para trabalhar (temporariamente) de graça para muitas e variadas clínicas. E, por fim, é preciso informar que o número de escolas – públicas e privadas – de Fisioterapia atinge quase o número de 20; o que significa um excesso de fisioterapeutas no mercado de trabalho. Estas várias escolas de Fisioterapia foram criadas, muitas delas, com legislação suspeita e sem qualquer tipo de controlo das futuras necessidades comerciais. Ou será que os responsáveis por estas escolas previram o número excessivo de profissionais no mercado? E terão tido em conta a existência de tantas outras profissões que competem comercialmente com a Fisioterapia como os “técnicos auxiliares de fisioterapia” (em muito maior número nas clínicas, pois ganham significativamente menos que os fisioterapeutas... pelo menos, por enquanto...), enfermeiros de reabilitação, osteopatas e diversos terapeutas das medicinas não convencionais?...
O que a realidade profissional me tem ensinado é que, não sendo a Fisioterapia um terreno particularmente prestigiado pelo Estado, as remunerações dos terapeutas são progressivamente mais baixas, assim como mais baixo é o seu reconhecimento. Eu, que finalizei o meu curso em 2003, ainda agora trabalho num sistema de “recibos verdes”, numa situação profissional em que as minhas competências ainda não são assaz compreendidas e valorizadas.
Acabo dizendo que é obrigação da Comunicação Social relatar esta problemática ao público em geral, pois parece que a situação menos privilegiada dos enfermeiros, constituindo cada vez mais tema de telejornais, já foi compreendida, o que pode ser constado pela relevante descida das médias de entrada para o curso de Enfermagem.

terça-feira, setembro 09, 2008

Os fisioterapeutas ganham muito pouco para servirem de gruas...

E assim se inicia um novo "ano lectivo"!... Já há muito tempo que não escrevia para o blog. Mas, em breve, voltarei a colocar mais e mais novidades neste "espaço". Segunda feira foi o dia mundial da Fisioterapia, dia que, em termos laborais, é de total catástrofe. Aliás, um artigo meu vai sair na próxima revista "Plenitude" (encarte do Jornal gratuito "Sexta"), referindo alguns dos aspectos mais prementes do "funcionamento" da Fisioterapia em Portugal; isto, depois de ontem ter saído o meu artigo "Mobbing ou o assédio moral no trabalho" no "Jornal de Negócios".
Pois é! Ando bem activo na minha escrita! Não tenho parado, nem vou parar tão depressa, apesar de, por vezes, ter vontade de desistir de toda esta "luta". Luta esta que é a da necessária dignificação profissional da Fisioterapia. E, por tudo isso, dedico este início de "novo ano lectivo" a todos aqueles que ainda têm "vergonha na cara". Estes precisam de ser promovidos por um qualquer processo de "inflação idiomática". Por outro lado, todos os outros, os que não se importam de trabalhar como fisioterapeutas por três a cinco euros à hora, estes devem ser promovidos a um processo de "deflação idiomática". Devemos, simplesmente, "punir" ideologicamente todos aqueles que se "oferecem" para "trabalhar a todo o custo", ainda mais sendo a Fisioterapia um trabalho tão duro e de grande responsabilização (a minha melhor amiga, também fisioterapeuta, diz que "ganhamos muito pouco para servirmos de gruas").
Todos aqueles argumentos daquelas pessoas que dizem que o dinheiro não é importante ou que o que interessa é o trabalho per si não se apercebem do quão corrosivos são os actos de trabalhar por pouco dinheiro. Cada vez mais as clínicas de fisioterapia "contratam" fisioterapeutas por cada vez menos dinheiro. As boas notícias é que, estando os fisios quase a trabalhar "de graça", qualquer dia deixa mesmo de ser necessário colocar auxiliares de fisioterapia nas clínicas. E, assim, estará atingido um dos grandes objectivos da Fisioterapia portuguesa: extinção dos auxiliares de fisioterapia... mas à custa da incapacidade de os fisioterapeutas portugueses para pagarem as suas casas!...

domingo, agosto 17, 2008

Révolution en Gymnastique Orthopédique

É com grande prazer que coloco aqui no blog uma tradução da obra de Françoise Mézières "Révolution en Gymnastique Orthopédique", realizada pela tradutora e professora de francês Ana Carla Araújo. Não é uma tradução perfeita mas é uma tradução possível. Leia-se, portanto, a obra de 1949 da grande criadora do método Mézières. Para tal, depois de ter colocado o documento aqui por alguns dias, sugiro a visita ao site "Reeducação Postural" em http://www.reeducacaopostural.com/index.php?sid=102. Boa leitura!

sábado, julho 12, 2008

"Os desequilíbrios estáticos" (Bienfait)

Seria tarefa hercúlea tentar resumir as "descobertas" que fiz com a obra "Os desequilíbrios estáticos" de Marcel Bienfait. É claro como água que Bienfait é um bom seguidor da Escola francesa, parecendo conhecer relativamente bem a obra de Mézières. Aliás, em especial na obra a que me refiro, Bienfait traça um pouco a evolução histórica da Fisioterapia em França: primeiro temos os recursos de electroterapia, depois vem o conceito de Bobath e, só depois, a Terapia manual em geral; esta última é vista de forma bem abrangente por Bienfait, sendo que, para o autor, inclui tudo desde Mézières até às suas pompages.
A leitura de Bienfait pode ser muito gratificante, ainda mais porque o autor possui uma visão muito realista da intervenção fisioterapêutica nas deformidades posturais. Para ele, a fisioterapia só pode agir nas deformidades primárias e, em certos casos, como nas escolioses de terceiro grau, o trabalho de alongamento muscular global poderá constituir uma "emenda pior que o soneto" no sentido em que pode tornar a deformidade progressiva. É um dado relevante para os fisioterapeutas de Reeducação Postural. Bienfait dá uma grande importância ao conceito de "desequilíbrio muscular", o qual não foi tão importancionalizado quanto isso pelo método Mézières. Outras informações que o autor dá sobre as escolioses e a sua avaliação, são de grande importância, como as diferenças observáveis da deformidade na radiografia feita de manhã vs. ao final do dia.
Bienfait defende, à semelhança de Mézières, a importância da Globalidade no tratamento das deformidades posturais. Mas também defende a importância de se realizarem manobras analíticas dentro dessa mesma globalidade. Para o autor, o trabalho de alongamento global por si só não é suficiente para corrigir certas deformidades mais precisas como a escoliose. O trabalho de alongamento global permite, para ele, o controlo das compensações, as quais tendem a aparecer durante o tratamento. Quanto a este, consiste na introdução de manobras de alongamento mio-fascial e de descompressão articular, que, na tradução brasileira, são designadas de pompages.
Bienfait dá, portanto, um forte contributo para o trabalho de Reeducação Postural, revalorizando o papel das mãos, numa intervenção necessariamente individuada (adaptada à especificidade - verdadeiramente idiossincrática - de cada doente). Ele refere-se ao seu modo de trabalho como a "introdução do analítico na globalidade".
Assume, também, a importância dos osteopatas e do valor que estes sempre deram ao papel da fáscia (já desde os finais do século XIX, antes da emergência do rolfing), enquanto estrutura cuja caracterização anátomo-funcional é mais rica do que a das simples estruturas musculares. Aliás, se assumir-mos que o que nos pretendemos alongar é mais o tecido conjuntivo da fáscia do que o tecido muscular de músculos propriamente ditos, estamos a dar mais um contributo para a ideia de que o alongamento deve ser, efectivamente, longo e progressivo (pois, a natureza do tecido conjuntivo é a de uma maior resistência "elástica" do que a do tecido muscular propriamente dito). Na realidade, sempre que falamos de "cadeia muscular" estamos a referir-nos sobretudo a um sistema fascial, pois aquilo que une conjuntos de músculos é o tecido conjuntivo que os rodeia e integra. Daí que, quando falamos de Reeducação Postural e de alongamento com fins reeducativos, temos de falar cada vez mais do papel da fáscia, "estrutura" particularmente negligenciada no mundo da fisioterapia convencional e do - mais uma vez - fitness.
Sugiro que leiam esta obra, que pode ser facilmente arranjada nas livrarias especializadas. É uma referência obrigatória!

terça-feira, junho 24, 2008

"La méthode Mézières: un concept révolutionnaire"

Este é um dia importante para mim, pois é o dia em que recebi a obra "La méthode Mézières: un concept révolutionnaire" de Nisand, o pai da "Reconstrução Postural". Esta mesma obra apresenta a história geral da vida de Françoise Mézières e do método, aliás conceito, por ela criado. Os princípios do método apresentam-se nesta obra incrivelmente completa e acessível. Não é uma obra para mézièristas experientes. É uma obra para terapeutas e profissionais de saúde não especializados ou para mézièristas iniciados. Sei que a vou ler compulsivamente. E quando acabar de a ler, logo verei se a traduzirei para português...

sábado, junho 14, 2008

Françoise Mézières: uma introdução

O presente texto pretende introduzir, de forma plenamente sumária, a vida e obra de Françoise Mézières. É, em grande parte, baseado no site da Wikipédia. O mesmo texto constitui somente uma introdução à pessoa de Mézières. Vou, entretanto, a partir das minhas crescentes pesquisas, tentando completar os dados apresentados.
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A mulher
Posta à porta de sua casa familiar com a idade de 16 anos por um pai autoritário, a jovem Mézières teve de assumir sozinha as responsabilidades da sua vida. Paralelamente a muitos trabalhos, tenta, com sucesso, a prática da esgrima e da equitação. Verdadeira autodidacta, é quase por um acaso que ela empreende estudos na área da Fisioterapia (Kinésithérapie), trabalhando ao mesmo tempo à noite para pagar os seus estudos.
Fruto da segunda Grande Guerra e do surto de poliomielite que a seguiu, a profissão de Fisioterapeuta encontrava-se em grande desenvolvimento. A óptica desta “Fisioterapia” encontrava-se centrada sobre o trabalho de recuperação da força muscular. Os grandes feridos de guerra, muitos paralisados, não podiam ser tratados de muitas outras maneiras.
Esta opção terapêutica – a do fortalecimento muscular – transforma-se em dogma fisioterapêutico, em pensamento único. Todas as dores, todas as disfunções são atribuídas a uma hipotética falta de força; todas as deformações são causadas pela provável inaptidão para se opor à nefasta força da gravidade.
Portanto, os tratamentos fisioterapêuticos consistem somente em reforçar. As diferentes escolas existentes diferenciam-se somente pela forma como utilizam a musculação e o uso da força.
Françoise Mézières fez os seus estudos na Ecole Française d’Orthopédie et de Massage na Rua Cujas em Paris, sob a direcção de Boris Dolto. Obtém o seu diploma na véspera da evacuação de Paris na frente de avanço das tropas alemãs. Estuda técnicas da época, em especial a “ginástica correctiva”, centrada exclusivamente no “reforço muscular”.

Nascimento de um método
Depois de terminada a Guerra, a escola da Rua Cujas volta a funcionar enquanto tal e Mézières vai ensinar na mesma. Na Primavera de 1947, logo depois de ter terminado o seu livro “La gymnastique statique”, faz aquele que chamará o seu princípio de “observação”:
"Lorsqu'un fastueux matin de printemps 1947, nous vîmes entrer dans notre cabinet une patiente présentant une superbe "cyphose", nous étions bien loin de nous douter que notre profession et le sort de légion de malades allaient être changés. Il s'agissait d'un sujet longiligne, très grande et maigre. Un corset de cuir et fer avait causé, non l'enraiement attendu des progrès, décidément inexorables, de son mal, mais des ecchymoses sur les hanches et autour des épaules, et encore sept vertèbres étaient à vif ainsi que l'angle inférieur des omoplates. Mais la malade ne s'en plaignait pas et elle venait parce qu'elle ne pouvait plus lever les bras ni travailler. Nous essayâmes, naturellement, les exercices de " redressement " et le travail des dorsaux en vue de fortifier les " extenseurs " du dos, mais la raideur était telle que rien n'était possible. Étendant alors notre malade à terre, en décubitus dorsal, nous appuyâmes sur les épaules et nous vîmes, à notre stupéfaction, se produire une énorme lordose lombaire alors que, examinée debout, la malade ne présentait absolument qu'une cyphose dorsale. Pour éviter d'ajouter un mal à celui qui existait déjà, nous basculâmes le bassin en arrière en amenant les genoux sur l'abdomen et, à notre nouvelle stupeur, nous vîmes l'hyperlordose lombaire ainsi effacée se reporter à la nuque, la tête se renversant en arrière sans qu'il fût possible de ramener le menton près du cou.
La porte sur la vérité était, devant nous, grande ouverte mais nous refusions de nous y engager et, doutant de nos yeux, nous renouvelâmes plusieurs fois l'expérience et, finalement, devant une consœur.
…Notre observation princeps était si inattendue, les faits constatés si surprenants pour un praticien pétri de théories orthodoxes, si admiratif envers ses maîtres qu'il tenait, jusque-là, pour de vrais savants, qu'il n'en voulut pas croire ses yeux. Mais l'insolente vérité était si évidente qu'il chercha alors, désespérément, à y voir une exception qui aurait confirmé la sacro-sainte règle. Il fallut se résigner au sacrilège et reconsidérer les bases de l'orthodoxie. Restait à dégager les lois de cette physiologie absolument méconnue, en découvrir les mécanismes. Alors succédèrent aux affres de l'apostasie les délices de l'hérésie. C'est en effet une ineffable joie que de vérifier à chaque instant, et de mille façons, le bien-fondé d'une théorie, telle qu'elle explique lumineusement les causes de tous les dysmorphismes et sur quoi peut être édifiée une technique à coup sûr curative."
Este “Princípio de observação” encontra-se publicado no artigo “L´homéopathie française”. [O que significa que a sua primeira obra “La gymnastique statique” ainda não incluía o seu “princípio de observação”, era anterior à descoberta do método.]
Nos anos que se seguem, verifica que o seu “princípio de observação” possui valor científico, ou seja, que se reproduz inevitavelmente nas mesmas condições de experimentação. Em 1949 publica “La révolution en gymnastique orthopédique”, um artigo fundador que recebe um acolhimento pobre, para não dizer francamente hostil, por parte do mundo médico francês. Entretanto, deixa a Rua Cujas e instala-se como trabalhadora liberal para pôr os seus princípios em prática e continuar a sua investigação. [O que significa, portanto, que o “método Mézières” não se desenvolveu num ambiente académico, mas sim num ambiente clínico.] Só em 1984 é que Mézières irá escrever as seis leis que explicam os princípios da sua observação inicial. Ora, na obra “Originalité de la méthode Mézières” (1984) expõe as leis vigentes. Première loi: Les nombreux muscles postérieurs se comportent comme un seul et même muscle (Une chaîne musculaire se définira comme étant un ensemble de muscles polyarticulaires et de même direction, qui se succèdent en s’enjambant comme les tuiles d’u toit); Deuxième loi: Les muscles des chaînes sont trop toniques et trop courts (il n’y a donc rien qu’il faille renforcer); Troisième loi: Toute action localisée, aussi bien élongation que raccourcissement, provoque instantanément le raccourcissement de l’ensemble du système; Quatrième loi: Toute opposition à ce raccourcissement provoque instantanément des latérofléxions et des rotations du rachis et des membres (lógica das compensações); Cinquième loi: La rotation des membres due à l’hypertonie des chaînes s’effectue toujours en dedans; Sixième loi: Toute élongation, détorsion, douleur, tout effort implique instantanément le blocage respiratoire en inspiration.
Portanto, Mézières elabora oficialmente um método que parece ser mais eficaz que todos os anteriores baseados no fortalecimento muscular.

Desenvolvimento
À falta de melhor, Mézières dá o seu nome ao método nascente. O mundo médico acolhe as suas descobertas com pouco entusiasmo, quando não lhe testemunha uma honesta hostilidade. [O que se entende pelo facto de as leis do seu método se basearem em assunções contra-intuitivas – mas nunca anti-científicas – o que demonstra a falta de capacidade que alguns têm para compreender a capacidade da ciência e das grandes “epistemis” de constituírem teorias “aparentemente” pouco lógicas.] O sistema Mézières seria demasiado “diferente” para ser aceite pelo sistema médico conservador? Esta mulher seria demasiado atípica e demasiado pouco diplomática? A rejeição que Mézières sofria constituía, pelo menos aos olhos da actualidade, a “travessia no deserto”. Ao mesmo tempo, os doentes vêm de muito longe para ser tratados pela Madame Mézières e muitos fisioterapeutas começam a incomodá-la de modo a que a mesma organize o ensino do método. O que realizará, quase de má vontade, no Pântano Poitevin primeiro, em Gers seguidamente.
Os anos 70 são marcados por um golpe de trovão: a saída do livro de Thérèse Bertherat “Le corps a ses raisons”, o qual inclui um capítulo inteiro dedicado a Mézières e ao seu método. O livro conheceu um sucesso enorme, tendo vendido milhões de exemplares em todo o mundo. Devido ao sucesso da obra, Mézières torna-se uma celebridade, contra a sua vontade. [Aqui, importa dizer que, provavelmente, se não fosse pela obra de Bertherat, Mézières e o seu método nunca tinham sido conhecidos. O que teria sido um “doce” para Souchard e muitos outros plagiadores do seu método, os quais fazem tudo para “tapar” as raízes históricas do método. A própria Françoise Mézières concebeu um método “sério”, nos confins de um ambiente "reduzido" e técnico. A obra de Bertherat, essa estava feita para o Grande Público, o que justifica, em conjunto com a natureza contra-intuitiva da obra, o seu sucesso.]
Mézières é condecorada com a Legião de honra, vai à rádio e à televisão. A sua obra é plagiada e desnaturada. Muitos consideram o seu método como mais um entre muitas outras técnicas de Fisioterapia. Mézières defende-se com fúria: se a sua teoria é exacta, consiste precisamente na negação da fisioterapia convencional e da doutrina clássica. As escolas fantasistas, arvorando o nome de Mézières como um viático, abundam. Têm mais às vezes o sentido do “marketing” do que do real talento. Tudo isto fará parte da amargura do fim da sua vida. Mézières nunca aceitou os terríveis plágios e sub-interpretações que a sua obra sofreu. Lutou contra tudo isto até ao fim da sua vida, nunca tendo parado de ensinar, nunca tendo deixado o “campo livre”. Ainda assistiu ao nascimento do método GDS, RPG, “Cadeias musculares” de Busquet, entre outros. Morreu na escola Noisy-sur no dia 17 de Outubro de 1991, sem ter formado uma só escola, um só grupo ou uma só associação com o seu nome. No ano seguinte, viria a nascer o método “Reconstruction Posturale” de Nisand; este homem publicou, em 2005, a obra “La méthode Mézières, un concept révolutionnaire”, a única obra (quase) inteiramente dedicada à vida e obra de Mézières.

quinta-feira, maio 29, 2008

Navalha de Ockham: explanando conceitos

Os diversos métodos de ‘Reeducação Postural’ permitem, em grande medida, lidar com uma série de conceitos mais ou menos diferenciáveis. Brinquemos, então, um pouco com os conceitos. Há um grande paralelismo histórico no respeitante ao desenvolvimento dos métodos ‘Rolfing’ e ‘Mézières’. Ambos os métodos colocam a tónica no trabalho de alongamento mio-fascial. Mas enquanto o Rolfing se preocupava essencialmente com o conhecimento das fáscias e a interpretação das deformidades posturais e dores segundo perturbações do sistema fascial humano, o método Mézières colocava a primazia no sistema muscular propriamente dito. O Rolfing acabou por se tornar o método de massagem profunda mais original do mundo, assim como o mais comercial e inflaccionado dos métodos. Os preços dos cursos de formação de rolfistas são incomportáveis. E no fundo, não se justifica, pois o Rolfing não tem a “ciência” de Mézières. Os rolfistas trabalham o corpo com um conjunto de dez sessões de trabalho mais ou menos semelhável de pessoa para pessoa. Já os méziéristas trabalham o corpo de uma forma muito mais individuada, portanto diferenciável segundo a perturbação postural existente. A lógica dos métodos subjaze à lógica da sua origem cultural. O Rolfing é “chapa branca” e pragmático pois foi desenvolvido por uma cientista pragmática num país pragmático. Mézières é muito mais “humano” pois foi desenvolvido numa França do Velho Mundo cultural e humanista. Mas, apesar das diferenças consideráveis entre os métodos, ambos têm uma coisa em comum: preocupam-se com o ‘comprimento’ das cadeias de tecidos moles. Só mais tarde outros métodos irão “perceber” que, se calhar, não é tanto o comprimento mio-fascial que interessa, mas sim o seu grau de tonicidade (o que não é a mesma coisa). Vamos, primeiro, traçar a ‘evolução’ dos métodos. O Rolfing foi mesclado com os princípios do Yoga e com a filosofia dos meridianos chineses, dando origem à abordagem dos ‘Trilhos anatómicos’ (Myers). Aqui continuamos muito a falar de comprimento mio-fascial. O método Mézières foi “tratado” posteriormente numa lógica dos métodos grupais (Antiginástica, Corpo e Consciência), que colocam a tónica no conceito de ‘relaxamento muscular’ e globalidade do ser humano, numa lógica de análise corpórea integral (Cadeias Musculares e Articulares, Morfoanálise), que coloca a tónica no corpo visto em termos analíticos e globais, numa lógica da postura de alongamento muscular (a individual Reeducação Postural Global e o grupal Stretching Global Activo), a mais semelhável com o original Mézières, numa lógica do movimento (Busquet), e – agora sim – numa lógica neurológica da tonicidade muscular (Reconstrução Postural). Podemos referir a evolução de Mézières de outras maneiras. Por exemplo, podíamos dizer que os “continuadores” de Mézières se preocuparam sobretudo com a conceptualização de várias cadeias musculares para além de Mézières. Mas, se virmos bem, Françoise Mézières não falava só da Cadeia Posterior. Souchard apenas deu nomes diferentes a cadeias já referidas por Mézières. Já Busquet voltou um pouco atrás para reforçar a importância da Cadeia Posterior e falar das outras como sendo ‘dinâmicas’. Ora, é possível traçar um cruzamento entre os ‘Trilhos anatómicos’ e Busquet, no sentido em que são métodos extremamente recheados de “Cadeias miofasciais”. Mas, em Busquet, as tais cadeias são essencialmente dinâmicas (e aqui podíamos realizar a lógica comparação do método Busquet com os padrões musculares inicialmente perspectivados pelo Kabat do PNF, mas, sobretudo, com os padrões musculares vistos na lógica de Bobath). Voltando à dicotomia comprimento/tónus muscular, a grande evolução conceptual – não “anatómica” associada à “invenção” de novas cadeias musculares – ocorreu com a criação do método da ‘Reconstrução Postural’, que, ao invés de se preocupar em criar novas noções de “cadeias musculares e/ou fasciais”, coloca a ênfase na tonalidade neurológica do trabalho postural. E, portanto, todos os métodos que se preocuparam com a flexibilidade muscular, se calhar, estavam a mexer mais com o “tónus” do que com o comprimento muscular propriamente dito. Ora, se o tónus é mais importante que o resto, isto releva o trabalho postural para o campo de muitas outras técnicas corporais, como o ‘Relaxamento Muscular Progressivo de Jacobson’ e outros métodos de relaxamento (Gerda Alexander, Sofrologia, etc.)! E releva também para o campo da neurologia (e não é de 'neurologia' que temos estado sempre a falar?). Estamos a falar de inibição do tónus. E, já agora, de facilitação do movimento (sem aumentar o tónus anormal). Inibição de padrões anormais e facilitação da função normal... Todas as semelhanças com Bobath e Carr & Shepherd são pura coincidência... E quem sabe se a dança, a psicomotricidade, as terapias expressivas, e, finalmente... o divã do psicanalista, não serão pontos fulcrais do trabalho postural?... Claro que são! Então como proceder para ser um bom terapeuta de Reeducação Postural? Fazer formações de todos os métodos existentes??? Chova dinheiro! Talvez o melhor seja mesmo ter a capacidade de análise e a profundidade de trabalho maior que for possível. O que defendo, tentando aqui o conceito da “navalha de Ockham”, é a teoria geral das “Cadeias musculares” que posso resumir pelos princípios de Bobath: Inibição do tónus anormal (alongar, distender, mobilizar, relaxar, etc.) e facilitação do movimento (função sem força excessiva). Fica a pergunta: onde estavam os proponentes de Bobath quando, neste mesmo blog, condenei as práticas de “fitness” por estas serem excessivamente centradas na “força muscular” e todos me atacaram dizendo que nada sabia do que estava a falar? Já sei o que vão dizer: o atleta não é um doente neurológico. Mas são todos humanos, todos com o mesmo corpo sujeito às mesmas regras neuromusculares básicas! Ou não?...

quinta-feira, maio 22, 2008

Do Maio de 68 ao século XXI: o lugar do corpo na sociedade

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos. Tudo o que era directamente vivido se esvai na fumaça da representação”
(Guy Debord, “A sociedade de espectáculo”)
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Poderíamos referenciar um conjunto extremamente avultado de “capítulos” ou “temáticas” de ordem social, cultural e/ou política para traçar o perfil de uma linha temporal que se estende desde o Maio de 68 até ao limiar iniciático de um novo milénio. Em todos esses “capítulos socioculturais” estaria, decerto, bem presente a visão de um poderoso abismo entre as “virtudes” idiossincráticas dos factos vividos nos anos 60 e as mesmas referentes à sociedade hodierna. Mas, tendo em conta a minha formação de fisioterapeuta, e os meus estudos particulares – de ordem filosófica, antropológica e sociológica – referentes ao lugar que o “corpo” ocupa no Éden social, proponho-me realizar uma pequena súmula do que foi a evolução histórica desfigurada e incoerente da “realidade corpórea” desde esse mítico ano de 1968 até à actualidade.
Sabidamente, os anos 60 do século XX já passado, constituem um tempo mítico de uma poderosa revolução juvenil; revolução de uma juventude simultaneamente consciente de um certo conjunto de liberdades quiméricas e viventes na latência de uma poderosa castração social. A história dos anos 60 é a história do “corpo”... corpo tapado, corpo sofrido, corpo desvirtuado... tornado corpo liberto e desmistificado; pois é bem verdade que, até àqueles anos, o corpo vivia na ausência da liberdade estética e sexual, o corpo vivia no auge do preconceito da cor, sendo que o corpo musculoso e diferenciado e, sobretudo, o corpo vivo, sensualizado e desnudado era fortemente repelido. Com a crescente opressão de sistemas autoritários nas Américas e na Europa, e com a ajuda de uma poderosa geração de ideais universitários provenientes sobretudo dos EUA, a revolução da cultura juvenil (e de toda uma outra mais adulta) tornou-se inevitável. Na América do Norte, os jovens iniciaram uma campanha a favor da “libertação sexual”, enquanto que, na França universitária, a gota de água para o mítico Maio de 68 seria a proibição do contacto físico entre sexos opostos promovido pela obstrução da visita dos rapazes ao dormitório feminino de determinado “campus” universitário.
Nos anos que se seguiram ao Maio de 68, foi globalizada a utilização da pílula e massificada a utilização do corpo enquanto máquina identitária (e, aqui, refiro-me tanto à identidade “individual” quanto à “colectiva”); assim, o corpo passou a ser lugar de vivências desembaraçadas, passou a poder andar pelas ruas de forma vivamente desnudada, passou a poder ser mostrado e utilizado sem limites e sem barreiras de qualquer espécie. Claro que a liberdade foi tanta que a libertinagem teve lugar. E assim, o corpo passou também a ser o lugar privilegiado da utilização abusiva de drogas, da propagação de doenças actualmente apelidadas de “sexualmente transmissíveis”, da contaminação da sociedade com a vivência juvenil de lugares e culturas subversivas e algo degradantes. Entretanto, o corpo passou também a ser um objecto fundamental da vivência em sociedade em praticamente todos os sectores que a perfazem; a moda, a publicidade, as modelos, os concursos de beleza, os desportistas, os actores, todos estes passaram a ter de cuidar do corpo... de uma forma algo maquinal e um tanto teoreticamente desfigurada.
Portanto, se no Maio de 68, um certo número de pensadores, que podemos apelidar de “neo-marxistas” (refiro-me, sobretudo, aos filósofos da escola de Frankfurt) viriam a contribuir para fornecer uma visão renovada da vivência “alienada” em sociedade, a partir dos anos 70, e principalmente nos anos 90 e tempos actuais, o corpo viria a ser palco de um novo processo de alienação, de desfiguração conceptual. Expliquemos melhor a ideia. Se até aos anos 60 o corpo era palco de um processo de castração, sendo que não era assumida a sua plena “utilização livre”, a libertação sexual e estética do mesmo, ocorrida com a revolução dos 60s, viria, por um lado, a tornar as pessoas mais conscientes de um processo de alienação perpetrada por uma autoridade “anti-sexual”, mas por outro, viria a fazer mergulhar os jovens num novo processo de alienação social. E esta nova alienação viria a ser claramente aproveitada pela indústria da moda e todas as outras onde o corpo é utilizado enquanto intrépido objecto narcísico.
O novo milénio é palco de um processo de desvirtuação do corpo enquanto “objecto personalístico”. Já não existe o corpo livre e com saúde. Só existe o corpo enquanto objecto de latência superficial e estética. Pergunto-me: o que diria o Guy Debord da “Sociedade de espectáculo” face às novas indústrias do “corpo máquina” e da estética?... O que diria Jean-Paul Sartre face à nova existência tão vazia de conteúdos e tão cheia do vazio da “forma” e do simulacro da exterioridade?...
Defendo que, a respeito do corpo enquanto “objecto maquinal-estético”, há três grandes modalidades do que outros apelidaram de “indústrias culturais” (Horkheimer e Adorno): (a) as medicinas não convencionais, as quais, sob o pretexto de uma série de míticas e antigas “epistemis”, vendem uma metodologia de tratamento que, a meu ver, não acrescenta nada àquilo que pode ser cientificamente contextualizado (aliás, a confusão de meios de tratamento, uns aceitáveis e outros menos aceitáveis, existe só para confundir aquilo que poderia facilmente ser conciliado numa teoria unificadora e parcimoniosa do funcionamento do corpo, ao jeito de uma “navalha de Ockham”); (b) o fitness, ou seja, o conjunto avultado, mordaz e isomórfico de “actividades físicas”, realizadas sob a capa de uma pretensa “saúde”, que transformam, sob a égide de um poderoso marketing arrogante e enganador, o “corpo-saúde e personalístico” num “corpo máquina”, um corpo alienado (tão alienado quanto a mente – individual e colectiva – que o controla), um corpo grosseiramente traído; e (c) a indústria do bem-estar, a qual se confunde com as duas anteriores e está relacionada com todos aqueles “spas”, massagens relaxantes e outras banalidades que promovem o escapismo, numa sociedade doente, cujos corpos (e, mais uma vez, as mentes que os controlam) precisam de ser ouvidos e não calados.
Ora, é pena que, chegados a um novo milénio, não tenhamos posse de uma nova “geração jovem” capaz de tomar as rédeas à autoridade, aquela entidade capitalista que transformou, há muito, o nosso corpo numa mercadoria. Precisamos de um novo materialismo dialéctico, uma nova revolução cultural. E quanto aos “antigos revolucionários”, os que fizeram o Maio de 68, esses estão extintos, se não em “vida”, estão na essência.

sábado, maio 10, 2008

O fitness e "A sociedade de espectáculo"

Iniciei os posts deste ano de 2008 com uma reflexão sobre as diferenças entre a "forma" e o "conteúdo". Tenho, muitas vezes, defendido que vivemos mergulhados num mundo feito "forma", numa sociedade marcada flagrantemente pela perspectivação imagética de incomensuráveis ilusões. As minhas ideias sobre a "alienação" dos indivíduos relativamente à "sociedade industrial" em que vivemos não são completamente originais (será que ainda há ideias originais?...), sendo que podemos encontrar ideias limítrofes nos diversos pensadores neo-marxistas como os da escola de Frankfurt; assim, são bem conhecidas as reflexões de Horkheimer e Adorno sobre as "Indústrias culturais", as ideias de Walter Benjamin sobre a "cultura de massas", e as reflexões posteriores de Habermas sobre as "estruturas económicas da sociedade, num sentido filosófico". Convido qualquer um a ler textos ou obras completas destes diversos pensadores, os quais facilitam a nossa compreensam daquela que é uma sociedade regida pelo poder da "ilusão". Podemos, igualmente, referir autores mais recentes como Ortega Y Gasset ("A rebelião das massas"), Jean Baudrillard ("A sociedade de consumo") e Arno Gruen ("A negação do eu" e "A loucura da normalidade").
Estes autores, e respectivas obras, interessam-me no contexto específico (e no contexto deste blog) da "indústria do fitness", exemplo flagrante de uma "indústria cultural", fortemente rica em ilusões, enganos e subterfúgios científicos, mal-interpretações, entre outros epi-fenómenos. Já referi imensas vezes as minhas ideias sobre a "falácia do fitness", a "falácia da actividade desportiva", enquanto "falácia da saúde", num contexto propriamente músculo-esquelético e especificamente postural em textos como a "Indústria do fitness: a falácia da nova medicina" (publicado no Público e neste blog) e "A indústria do corpo e a sociedade de consumo" (publicado no Expresso e também neste blog). Aliás, no texto "Do fitness e outros demónios" (igualmente publicado aqui no blog) explico delongadamente a forma como a teoria fundamental do método Mézières (e as outras da Reeducação Postural) permite a construção de uma nova "ideomática do treino" ou "modificação no método desportivo" ou "revolução na metodologia do treino". Resumidamente, defendo que o fitness se baseia em estudos científicos que não demonstraram que a saúde está realmente em causa, para além dos efeitos mais encurtados das funções corpóreas; ou seja, não conhecemos verdadeiramente o efeito a longo prazo da prática desportiva, mas temos ideias que nos levam a assumir que a prática desportiva intensiva e prolongada está associada a uma alta incidência de lesões. Defendo, igualmente, que a cultura de treino actualmente existente só faz sentido numa sociedade obcecada com o "protótipo estético" e o "paradigma deiético". É a sociedade consumida por uma espécie de sonho dionisíaco, no sentido mais nietzschiniano possível.
Mas o fitness enquanto "indústria cultural" consiste igualmente no simples facto de se revelar constantemente como um negócio, altamente estruturado, barbaramente pensado, sempre no sentido de manietar as mentalidades dos "homens alienados". Portanto, o marxismo ainda faz sentido enquanto "conceito", nem que seja para deixarmos de ser tão dementes face a este "império da ilusão" que constitui o fitness. Este não deixa de estar associado fortemente ao marketing, ao economato, ao "poder da forma sobre o conteúdo".
Mas, serve este texto para referir um autor, também ele influenciado por Marx e pela escola de Frankfurt, claramente relevante para o contexto presente. Refiro-me a Guy Debord, o autor de "A sociedade de espectáculo". Ora, o conceito de "sociedade de espectáculo" de Debord encaixa perfeitamente naquilo que todos os dias vemos nos ginásios e clubes desportivos (assim como aquilo que vemos nos centros de medicinas não convencionais... mas essa é outra conversa...): o engano constante, a promoção de métodos e "actividades desportivas" que só têm "forma" e muito pouco "conteúdo". Dizia o importante teórico do Maio de 68 o seguinte: "Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos. Tudo o que era directamente vivido se esvai na fumaça da representação". Substitua-se a palavra "sociedades" por "ginásios" e aí temos onde eu pretendo chegar.
Seja porque se fala mais do que nunca do Maio de 68, seja porque os teóricos em questão são especialmente relevantes para compreender a sociedade do hiperconsumo (Lipovetsky), leia-se especificamente Guy Debord, o grande homem da Internacional Situacionista, um homem que se suicidou em 1994, depois de anos a viver em reclusão.

quinta-feira, maio 01, 2008

Novo artigo de revisão da literatura: "O treino da flexibilidade muscular e o aumento da amplitude de movimento: uma revisão crítica da literatura"

Um novo artigo (de revisão da literatura) da minha autoria, saído na revista 'Motricidade', volume 3, nº4, estará disponível brevemente com aqueles que assinam a revista. Para quem não assina a revista, poderei enviar o PDF do número total da revista em questão (basta deixarem-me a morada de email).
O artigo intitula-se "O treino da flexibilidade muscular e o aumento da amplitude de movimento: uma revisão crítica da literatura" e, para além de apresentar uma revisão relevante dos diversos tipos de alongamentos + estudos com eles realizados, pretende realizar uma ligação dos princípios do alongamento à Teoria das Cadeias Musculares. Assim sendo, são dadas pistas relativamente aos princípios controversos do treino de flexibilidade segundo os ideais de Mézières, Souchard, entre outros. Significa isto que, de uma forma científica, é questionada a eficácia da realização de calor e/ou exercício antes do alongamento, assim como é reinterpretado o efeito pelo qual o PNF resulta no aumento das amplitudes de movimento.
Deixo, em baixo, o 'resumo' e referência do artigo.
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Resumo:
O treino da flexibilidade muscular põe em evidência uma série de princípios neurofisiológicos e um conjunto intrincado de propriedades musculares e visco-elásticas. São diversos os métodos de estiramento realizados nos contextos clínico e desportivo. Apesar da sua utilização ser comum, não é usual os profissionais de saúde e educação reflectirem sobre os componentes e eficácia dos diversos métodos de estiramento. Neste artigo, realizamos uma revisão crítica dos diversos métodos utilizados no treino de flexibilidade, assim como dos princípios e parâmetros que com eles se relacionam. Daremos especial ênfase aos princípios em que se baseia a facilitação neuromuscular proprioceptiva e os diversos métodos de relaxamento local, como o aquecimento. Para além disso, teremos em conta os dados reveladores relativos ao paradoxo do Coeficiente de elasticidade, os quais podem ajudar a conceber uma filosofia de intervenção do treino de flexibilidade divergente relativamente ao que classicamente tem sido defendido e efectivado.
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Referência: Coelho, L; O treino da flexibilidade muscular e o aumento da amplitude de movimento: uma revisão crítica da literatura. Motricidade 3(4): 22-37

quinta-feira, abril 24, 2008

Stretching Global Activo: A Reeducação Postural Global aplicada ao desporto

Artigo publicado na revista 'SportLife' em Julho de 2007 (finalmente publicado no blog), constituindo este uma súmula dos princípios do Stretching Global Activo de Souchard
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O conceito de “desportista completo” começa a despoletar-se na cabeça de todos quantos estão envolvidos numa determinada prática física. O trabalho de força e de resistência muscular costuma protagonizar os mais diversos tipos de treino de fitness, sendo que, muitas vezes, o trabalho de alongamento é deixado para segundo plano. Neste contexto, é importante afirmar que um desportista só terá uma relação de integridade para com a prática física se incluir nos seus treinos o trabalho de alongamento muscular. E dentro deste tipo de trabalho é preciso atender à importância do alongamento de grupos musculares organizados em cadeias, preterindo o trabalho de alongamento analítico, nomeadamente o trabalho clássico.
No contexto do que foi dito, a técnica do Stretching Global Activo apresenta-se como o método ideal para obter a singeleza muscular e a saúde que todos os desportistas podem e devem ter quando realizam uma actividade de maior ou menor impacto.

Bases históricas do método
Há milénios que o ser humano, de uma forma mais ou menos inconsciente, tem tendência para trabalhar determinadas “posturas” com vista à criação da harmonia corporal e psíquica. O Yoga aparece neste contexto como um exemplo fundamental.
Porém, o treino de alongamentos com vista à harmonização corporal só passou a ser visto de uma forma mais metódica, incluindo a criação de metodologias de treino, através da visão de Per Henrik Ling (1766-1839), sabidamente o pai dos grandes fundamentos da ginástica moderna.
Mas ainda assim não podemos falar de “alongamento global” e do conceito de “cadeia muscular” até chegarmos ao ano de 1947, aquele que é apontado como o ano de criação do método Mézières. Se há semelhanças teoréticas do mesmo conceito na técnica anglo-saxónica Rolfing (Ida Rolf), ainda assim devemos considerar a fisioterapeuta Françoise Mézières como a mãe dos métodos de Reeducação Postural.
O método Mézières teve como grande dádiva a criação de uma forma verdadeiramente revolucionária de ver o corpo e a postura (vide a obra clássica Révolution en Gymnastique Orthopédique), sendo que, ao contrário do que até aí vinha sendo propugnado, as deformidades posturais e os problemas ortopédicos passaram a ser vistos como o resultado de excessos musculares, ou seja, encurtamentos da musculatura (principalmente posterior).
O método Mézières teve um impacto tão grande que, a partir dele, geraram-se muitos outros métodos de reeducação postural: a “Antiginástica” de Thérèse Bertherat, o método das “Cadeias musculares e articulares” de Godelieve Denys-Struyf, a “Morfoanálise” de Peyrot, a “Reeducação Postural Global” de Souchard, o método “Corpo e consciência” de Courchinoux, o método das “Cadeias musculares” de Busquet e a “Reconstrução Postural” de Nisand.
É indubitável que o mais famoso desses métodos é a Reeducação Postural Global de Philippe Souchard. E é a partir deste excelente método de trabalho de alongamento postural global que desembocará um outro método mais prático, passível de ser praticado individualmente ou em grupo, e adaptado à realidade desportiva: o Stretching Global Activo (SGA). É claro que são vários os princípios que norteiam o trabalho das posturas de SGA, muitos deles atípicos e contra-intuitivos. É disso que iremos falar seguidamente.

Princípios do Stretching Global Activo
O alongamento muscular apresenta-se como o mecanismo de treino mais importante para a criação de um corpo livre de tensão, reeducado no ponto de vista morfológico e postural. Sem o alongamento é impossível conseguir alterar a forma do corpo, no ponto de vista que norteia a sua correcta postura e alinhamento. O movimento, a força, o equilíbrio e a direccionalidade corpórea estão dependentes da capacidade de alongamento dos músculos (e também, muito importante, das fáscias – contributo de Ida Rolf). Fica, agora, a pergunta. Que tipos de músculos alongar?

Que músculos alongar?
Neste ponto, é preciso atender à existência de dois grandes tipos de músculos no nosso corpo: os músculos estáticos, que compreendem dois terços do total da nossa musculatura, são tónicos, poliarticulares, e constitutivamente fibrosos, e possuem uma função essencialmente postural e anti-gravítica; e os músculos dinâmicos, que compreendem a musculatura do movimento de grande amplitude, e que são de natureza fásica. A distinção entre estes dois tipos de músculos é fundamental, pois a criação de equilíbrio muscular está dependente da realização de um trabalho dissemelhante para estes dois tipos de musculatura. A musculatura tónica é muito forte e deve ser, portanto, inibida e alongada. É o caso da cadeia muscular posterior. A musculatura fásica é de natureza dinâmica e deve ser fortalecida. É o caso dos abdominais e quadricípetes, músculos que contrariam, de alguma forma, a acção da musculatura postural (sendo portanto constantemente inibidos por essa musculatura), mas que não chegam a possuir um antagonismo puro relativamente aos mesmos (o que explica que, por exemplo, o treino dos abdominais não contrarie completamente a acção lordosante da musculatura espinhal; deve também acrescentar-se que é impossível, por meio do treino de força de determinado músculo fásico – ou mesmo tónico – contrariar a acção de determinada musculatura tónica dominante. Daí que o treino dos extensores da coluna jamais permitirá a correcção de uma cifose dorsal e o treino dos abdominais jamais permitirá corrigir uma lordose lombar exagerada).
Daqui podemos retirar princípios de intervenção, segundo Souchard (Le champs clos): (1º) Só as posturas activas em alongamento podem devolver aos músculos hipertónicos, rígidos e dolorosos, a sua força, o seu comprimento e a sua flexibilidade; (2º) É necessário alongar os músculos da estática e os músculos suspensores, encurtando-se os músculos da dinâmica; e (3º) Só as posturas de estiramento progressivo cada vez mais globais permitem alongar todos os músculos rígidos, assim como reencontrar a retracção de origem.
A visão algo revolucionária, protagonizada pelos modelos de intervenção da Reeducação Postural, permite perceber que o alongamento analítico, assim como aquele que é realizado de forma generalizada a todo o tipo de músculos sem os distinguir entre tónicos e fásicos, radica numa visão clássica um tanto sobrepujada.
Na visão de Norbert Grau (Le stretching global actif: au service du geste sportif), há quatro tipos de músculos que devem ser alongados: (a) os músculos que dificultam ou freiam o movimento, nomeadamente aqueles que se encontram organizados em cadeias musculares posturais, (b) os músculos que executam o movimento (uns mais importantes para uns desportistas do que para outros), pois “a qualidade da sua contracção dependerá muito da sua flexibilidade”, (c) os músculos que acarretam compensações, (d) e os músculos que permitem um relaxamento geral (referimo-nos aqui, sobretudo, ao diafragma, “centro temporal inconsciente” e à zona lombar, “centro somático inconsciente”).

Os cinco princípios básicos do método SGA
Existem, portanto, segundo Norbert Grau, cinco grandes princípios que diferenciam o SGA do alongamento convencional:
(1) Os músculos existem na forma de cadeias musculares (são, nomeadamente: a cadeia posterior, a cadeia anterior e as cadeias anexas), princípio que irá implicar que o alongamento realizado seja tão global quanto a natureza da cadeia a alongar.
(2) Cada músculo tem diversas fisiologias, ou seja, cada músculo realiza diversas acções musculares, o que implica que seja necessário alongar um músculo em todas as suas acções simultaneamente.
(3) O alongamento dos músculos obedece à mesma fórmula física que os materiais viscosos e elásticos, ou seja, a fluagem muscular (que é a capacidade de alongamento permanente de um músculo) está dependente do produto da força de alongamento pelo tempo de alongamento, divididos ao coeficiente de elasticidade. Ora, visto que quanto maior a força mais doloroso é o alongamento, o alongamento deve depender portanto de um tempo mínimo, que é, no caso do alongamento global, muito superior ao que classicamente é utilizado. Grau recomenda a utilização de 10 minutos para cada auto-postura de SGA. Para além disso, como o aquecimento (seja na forma de exercício, seja na forma de calor local) aumenta o coeficiente de elasticidade, este fará com que o alongamento permanente seja menor, o que nos leva a afirmar que todo o alongamento deverá ser realizado a frio, antes da realização de qualquer exercício. É, realmente, um princípio revolucionário, principalmente porque os desportistas e instrutores tendem a realizar os alongamentos como modo de relaxamento no fim do treino (o que não está por si errado), argumentando que a sua realização no início dos exercícios acarreta um perigo aumentado de lesões. Ora, acontece que não há absolutamente estudo algum que tenha demonstrado que o alongamento a frio constitua um perigo acrescido de lesões para o atleta. Por outro lado, multiplicam-se os estudos que demonstram que a administração de calor antes da realização de alongamentos não aumenta a capacidade global de flexibilidade.
(4) Os nossos alongamentos serão sempre activos, ou seja, o alongamento em SGA deverá ser realizado por meio do trabalho activo e excêntrico da musculatura a alongar.
(5) A respiração é fundamental. Importa afirmar que o diafragma, em conjunto com outros músculos acessórios da inspiração, constitui uma cadeia muscular lordosante, sinérgica de todas as outras cadeias de músculos estáticos e posturais. Como tal, o alongamento só é globalmente possível se for acompanhado do relaxamento do diafragma. Por isso, todos os alongamentos devem ser realizados em expiração máxima.
São estes os princípios que norteiam a realização de alongamento em SGA. Em termos gerais, a auto-postura de alongamento deve ser realizada durante o tempo suficiente que permita a “deformação” dos tecidos, de uma forma activa (no contexto individual ou grupal) e respeitando a anatomia dos grupos musculares e o treino expiratório. O alongamento deve, igualmente, ser lento e progressivo.
Atente-se às figuras descritivas das diversas autoposturas de alongamento, assim como aos desportos em que os mesmos devem ser realizados.

Bibliografia recomendada (traduzida para português do Brasil):
Grau, N. (2003). SGA a serviço do esporte. Stretching global ativo. São Paulo: É realizações.
Souchard, Ph-E. (1996). O stretching global ativo. A reeducação postural global a serviço do esporte. São Paulo: Editora Manole LTDA.

terça-feira, abril 22, 2008

Prevenção e tratamento da raquialgia inespecífica: o paradigma do método Mézières, pai da Reeducação Postural

(Artigo de revisão e introdução à Reeducação Postural adaptado aos médicos de clínica geral e de "Medicina Física e de Reabilitação" e a outros profissionais de saúde)
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A dor raquidiana ou raquialgia constitui um dos mais proeminentes problemas de saúde pública e ocupacional do mundo moderno e industrializado (1), especificamente mais frequente nas sociedades urbanas (2, 3).
A raquialgia pode ser categorizada em específica, se a mesma deriva de um quadro etiológico bem definido, ou inespecífica, se associada a uma súmula de diversas variáveis biomorfológicas e psicossociais, as quais devem ser compreendidas sobretudo como factores de risco e não causais. O profissional de saúde médico tende a interpretar as dores da coluna sempre à face de um quadro clínico especificado, enquanto que o profissional de saúde não médico, como o fisioterapeuta, tende a valorizar fundamentalmente o quadro funcional da síndroma dolorosa, teoreticamente enfatizando a natureza multifactorial da raquialgia.
Assim sendo, pode ser dito que existe uma forma diferente de categorizar a dor por parte dos médicos em relação a outros profissionais de saúde. Mas ainda assim, no respeitante às metodologias de prevenção e tratamento da raquialgia, ou seja no respeitante à intervenção face à dor raquidiana, a distinção conceptual entre médicos e não médicos deixa de existir, acontecendo que em todos eles labora um conjunto elevadíssimo de mitos relativos à forma como devem ser manipulados os estados de dor e as idiossincrasias posturais mais singulares.
Se estabelecermos a “postura” como a verdadeira “personalidade” do corpo, então, devemos ter em conta a necessidade de realização de um trabalho de reeducação postural com ordem a reequilibrar o estado de um corpus desorganizado; pois, é certo que as alterações posturais são reequilibráveis, mesmo que as deformidades vigentes sejam do tipo estrutural.
É pena que tantos médicos e terapeutas desconheçam a teoria das “cadeias musculares” (4), segundo a qual o corpo aparece desenhado com um conjunto elevado de músculos posturais com uma tendência hipertónica insofismável. O corpo é constituído, portanto, por conjuntos de músculos com tendência para o encurtamento, os quais devem ser globalmente alongados, mas nunca fortalecidos.
Neste sentido, é importante fazer os profissionais entenderem que o treino de força da musculatura extensora jamais poderá ajudar no trabalho de reeducação postural. As lordoses e as escolioses são, por excelência, o resultado dessas retracções posteriores. Como tal, o tradicional fortalecimento da musculatura lombar constitui um erro de tratamento insuportavelmente prescrito pelos mais variados médicos e praticado pelos mais variados terapeutas, quando, no fundo, só os métodos baseados no alongamento da musculatura tónica – o principal é o método francês de Mézières (4-7) e todos aqueles que constituem uma evolução mais ou menos plagiada deste (Antiginástica de Bertherat (5), método das Cadeias Musculares e Articulares de Godelieve Denys-Struyf (8), morfoanálise de Peyrot, Reeducação Postural Global e Stretching Global Activo de Souchard (9-12), Corpo e Consciência de Courchinoux, e a Reconstrução Postural de Nisand (13-20)) – e no fortalecimento da musculatura abdominal profunda (o método Pilates é o mais paradigmático) poderão ajudar na reeducação da postura e alívio sintomático a longo prazo. Acrescido a isto, não podemos deixar de valorizar o papel da posturologia (21) da sofrologia (22) e da psicomotricidade (23).
Em Portugal, os fisioterapeutas desconhecem o método Mézières, utilizando mais a Reeducação Postural Global de Souchard. O método Mézières foi criado em 1947 pela fisioterapeuta francesa Françoise Mézières.
A descoberta de um conjunto novo de leis fisiológicas que o método Mézières viria dar relevo enceta por uma história que cada mézièrista conhece bem.
A própria Mézières conta: “Quando numa magnífica manhã de primavera de 1947, nós vimos entrar no nosso consultório uma paciente apresentando uma soberba ‘cifose’, nós estávamos bem longe de pressentir que a nossa profissão e o destino de toda uma legião de doenças iam ser mudadas.” (4)
Nesta época, a ginástica postural clássica era realizada com base nas leis fisiológicas que reforçam o papel do fortalecimento muscular, “ginástica” discípula dos princípios suecos de Per Henrik Ling (1766-1839). E foi esse mesmo tipo de trabalho que foi feito inicialmente com a doente. Mézières refere: “Nós tentámos, naturalmente, os exercícios de ‘endireitamento’ e o trabalho dos músculos dorsais com vista a fortalecer os extensores do dorso, mas a rigidez era tal que nada era possível realizar. Deitando, então, a nossa doente, no chão, em decúbito dorsal, nós realizámos a flexão dos ombros e vimos, para nosso espanto, produzir-se uma enorme lordose lombar. Para não acrescentar um mal à cifose já presente, nós realizámos a báscula posterior da bacia e, para nosso novo espanto, vimos a hiperlordose lombar esquivar-se e deslocar-se para a nuca.” (4)
Depois de repetida várias vezes a experiência, Mézières e os colegas acabaram por admitir uma verdade que viria a ser anunciada como uma nova lei: que “todo o encurtamento parcial da musculatura posterior leva a um encurtamento de todo o conjunto desta musculatura”, o que corresponde à noção de cadeia muscular, onde “toda a modificação de comprimento no sentido do alongamento ou no sentido do encurtamento de parte da musculatura tem repercussão sobre todo o conjunto”.
Françoise Mézières acrescenta: “Tanto que como o alongamento da musculatura lombar se traduzia pelo encurtamento da curvatura cervical, a lei é que o alongamento de um qualquer músculo posterior leva ao encurtamento do conjunto da musculatura posterior” (4). É o que costumamos chamar de noção de compensação.
Entrámos, efectivamente, num conjunto de noções variadas que inicialmente Mézières não dominava completamente. A fisioterapeuta resumia, efectivamente, as suas observações em duas partes: (1º) a musculatura posterior comporta-se como um só músculo e (2º) ela é sempre forte de mais, curta de mais, potente de mais. E, para os proponentes de Mézières, o princípio preliminar de que todas as deformações têm origem num encurtamento da musculatura posterior (incluindo a cifose) manteve-se incólume até à data.
Deve, também ser acrescentado que a própria Françoise Mézières terá cedo percebido que existia uma sinergia importante entre a musculatura posterior e o diafragma e os músculos rotadores internos (cadeia ântero-interna).
Assim sendo, a desmontagem dos princípios far-se-ia na forma de um tripé de intervenção, com vista à harmonia muscular ou bela forma: deslordose, expiração e desrotação.
Importante será referir que Mézières e os mézièristas sempre escreveram para os especialistas da área, e sempre num tom de ressalva tecnicista. Daí que muitos dos princípios de Mézières não tenham sido adequadamente traduzidos para uma linguagem mais globalizada e acessível. Os seus princípios ficaram efectivamente reservados a um conjunto particular de médicos e terapeutas. Para além disso, a natureza teorética e axiomática de certos princípios viria a ser afirmada de forma muitas vezes pouco científica e mal categorizada, o que fez com que muitas das bases teoréticas mais tarde laboriosamente elucidadas por Souchard (9, 10, 11) tivessem permanecido mal explicadas até que o anterior autor as tivesse enunciado.
A história dos métodos de reeducação postural pode ser resumida como sendo a história de um método de alongamento estrutural global que tende progressivamente a ser cada vez mais activo, autónomo e de natureza neuro-músculo-esquelética (abarcando progressiva e conteudisticamente um conjunto cada vez maior de cadeias musculares, tanto a nível posterior como a nível anterior). Nunca parte da tensão, do fortalecimento. Até mesmo o método Pilates, muitas vezes caracterizado como um método de fortalecimento, não é verdadeiramente um método de força muscular; é sim um método de estabilização vertebral com base no trabalho de solicitação da musculatura abdominal profunda.
O trabalho de fortalecimento da musculatura extensora ao nível dorsal em doentes com hipercifoses a este nível só poderá resultar em duas coisas: em nada de relevante, pois é impossível lutar contra uma retracção dominante com outra retracção oponente (e.g., 11, 12), ou num novo desequilíbrio.
O que é de certeza errado realizar, e que é efectivamente efectuado compulsivamente pela classe médica, é encaminhar os jovens para desportos como a natação. Este desporto, considerado por tantos uma panaceia para o tratamento de raquialgias, pode ajudar a aliviar os sintomas, mas jamais poderá constituir uma fonte fiável de reeducação da postura, pois, para além de estar ausente o factor gravidade e de ser impossível a realização dos alongamentos, a natação é destra na criação de diafragmas bloqueados em inspiração (o ponto de partida para as grandes deformidades posturais e.g., 4, 7, 12).
Infelizmente, muitas outras actividades com pontos em comum com os métodos de reeducação postural, como o Yoga, são também contra-indicadas para o trabalho postural, pelo excesso de posturas em hiperlordose (24). O Yoga não está efectivamente adaptado a pessoas com problemas de saúde músculo-esquelética.
Por outro lado, desportos como a musculação ou outros de activação muscular assimétrica podem ser considerados como a porta de entrada para a criação de uma série de desequilíbrios posturais. A musculação constitui um trabalho de “tensão”, lordosante, para além de sujeitar o corpo a um sistema de forças exageradas. Mas ainda assim, muitos médicos de família encaminham os seus “doentes de coluna” para os ginásios de fitness.
Começa, no entanto, a surgir uma luz ao fundo do túnel, pois já são vários os sítios onde se realiza trabalho de alongamento como base em ginástica postural adaptada a pessoas com patologia. Só falta mesmo consciencializar os profissionais de primeiro contacto para este facto, pois o que as pessoas com condições reumatológicas irão fazer face ao seu problema depende em muito daquilo que o seu médico aconselhar.

Referências bibliográficas

(1) Allan D, Waddell G. An historical perspective on low back pain and disability. Acta Orthop Scand Suppl 1989; 234: 1-23.
(2) Zanni G, Wick J. Low back pain: eliminating myths and elucidating realities. J Am Pharm Assoc 2003; 43 (3): 357-362.
(3) Coelho L, Almeida V, Oliveira R. Lombalgia nos adolescentes: identificação de factores de risco psicossociais. Estudo epidemiológico na região da grande Lisboa. Rev Port Saúde Pub 2005; 23 (1): 81-90.
(4) Mézières F. Révolution en gymnastique orthopédique – Causes et traitement des déviations vertébrales et algies d’origine musculaire. Paris; 1965.
(5) Bertherat T. Le corps a ses raisons. Paris: Éditions du Seuil; 1976.
(6) Denys-Struyf G. Le manual du mézièriste. Paris: Éditions Frison-Roche; 1995.
(7) Nisand M, Geimar S. La Méthode Mézières, un concept révolutionnaire. Mal de dos et déformations ne sont plus une fatalité. Lyon: Collection Santé Minute Les éditions Josette; 2005.
(8) Denys-Struyf G. Les chaînes musculaires et articulaires: la méthode G.D.S. Maloine, 1995.
(9) Souchard Ph-E. Le champs clos – Bases de la Rééducation Posturale Globale. Paris: Essai; 1998.
(10) Souchard Ph-E. Les scolioses – Traitement kinésithérapique et orthopédique. Paris: Masson; 2001.
(11) Souchard Ph-E. Le stretching global actif. Paris: Éditions Désiris; 1996.
(12) Grau N. Le stretching global actif au service du geste sportif. Paris: Le Pousoë; 2002.
(13) Nisand M. Le traitement des algies vertébrales par la Reconstruction Posturale. La lettre du médecin rééducateur 1997; 42. Publication périodique de l'ANMSR (Association Nationale des Médecins spécialistes en Rééducation).
(14) Nisand M. Formation continue: Premier stage de Reconstruction Posturale à Genève. Le Magazine 1997; 97.
(15) Nisand M. La Reconstruction Posturale: une physiothérapie normative de la forme. Mains Libres, la revue Romande de physiothérapie 1997.
(16) Jesel M. Reconstruction Posturale. Concept; traitement des dysmorphismes et des algies du tronc et des membres. Kinésithérapie Scientifique 1999; 387.
(17) Jesel M, Callens C, Nisand M. Rééducation fonctionnelle dans les cervicalgies communes selon la méthode de reconstruction posturale: concept et aspect technique. Kinésithérapie Scientifique 2001; 417.
(18) Nisand M, Callens C, Jesel M. À propos de certains dysmorphismes du pied: identification et correction par la Reconstruction Posturale®. KINÉSITHÉRAPIE, les annales 2002; 10: 37-42.
(19) Callens C. Entre le tout renforcement et le tout étirement, existe-t-il une autre voie ?.11ème Symposium Roman de Physiothérapie les 5 et 6 novembre 2004: "Les Chaînes Déchaînées" Lausanne-Suisse. Mains Libres, la revue Romande de Physiothérapie novembre 2004.
(20) Nisand M. La Reconstruction Posturale®, déviance ou évolution? 11ème Symposium Roman de Physiothérapie les 5 et 6 novembre 2004 : "Les Chaînes Déchaînées" Lausanne-Suisse. Mains Libres, la revue Romande de Physiothérapie novembre 2004.
(21) Collège International d'Études de la Statique, France.
(22) Caycedo A. L’aventure de la sophrologie. Paris: Ed. Retz; 1979.
(23) Vítor da Fonseca. Psicomotricidade: perspectivas multidisciplinares. Lisboa: Âncora editora; 2001.
(24) Myers TW. Anatomy trains – Myofascial meridians for manual and movement therapists. England: Elsevier Health Sciences, 2001.
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Publicada uma versão simplificada deste artigo na 'Medicina e Saúde' de Outubro de 2008

quarta-feira, abril 09, 2008

Pilates: “costas fortes e barriga lisa”

Apesar de ser instrutor de Pilates, para além de fisioterapeuta, não posso deixar de me entristecer com aquilo que muitos fazem do Pilates, nos termos do mais puro marketing estupidificante. O Pilates é um óptimo método de fortalecimento do “centro do corpo”. Ponto final. É, portanto, um método vantajoso no treino de força muscular, eliminando, em muito, a tensão muscular envolvida em vários outros desportos. Ponto final. Para além desta vantagem, associada à clara evidência de que constitui um método excelente para aliviar as dores da coluna, o Pilates, à semelhança de tudo o que acontece com o Fitness, é pura moda, e nada mais do que isso! O Pilates demarca-se pela sua beleza (lá está a questão da “forma” a prevalecer sobre o “conteúdo”). E isso ajuda na elucubração mental, digna de um verdadeiro “produto de crédito”. É raro vermos algum artigo ou publicidade acerca do Pilates que não seja claramente redutor no respeitante às verdadeiras potencialidades do método... e até dos seus perigos... Enquanto método de força que é, o Pilates possui imensas desvantagens em termos do processo tradicional – mézièrista – de reeducação postural. Mesmo estando relacionado com o fortalecimento selectivo da musculatura profunda, o Pilates não deixa de provocar uma série de compensações potencialmente “desequilibrantes”... Mas nada disto é citado nas tais “publicidades”. Claro... O Pilates, à semelhança das outras actividades de fitness pertence ao mundo do economato, da cultura de massas, o mundo supérfluo e utilitarista da verdade que se confunde com a Verdade. No meio de tudo isto, uma reserva especial para as palavras dos VivaFits “costas fortes e barriga lisa”: “costas fortes”? É isto uma vantagem ou uma desvantagem? Por que é que continuamos a bater no ceguinho do “paradigma do fortalecimento”? Quando é que vamos perceber que um dos grandes problemas da musculatura da coluna é, precisamente, que a mesma é excessivamente forte por natureza? O Pilates não fortalece as costas, fortalece a musculatura profunda do tronco... e isso não são “costas”. Mas lá está a questão da “cultura de massas”... As palavras “Costas fortes” são mais... “sugestivas” para os praticantes. E já agora... “barriga lisa”. Há algum estudo que tenha demonstrado que o Pilates torne a barriga realmente mais lisa, a cintura mais fina? Se o músculo transverso não é um músculo capaz de hipertrofiar, nem de “apertar”, então para que inventamos as tais “palavras sugestivas”?... Por outro lado, se o Pilates insiste tanto no fortalecimento abdominal será que os resultados vão consistir mesmo numa “barriga lisa”? A minha experiência é precisamente a contrária. Portanto, deixemos de enganar as pessoas... pode ser?...

sábado, março 08, 2008

Formação pós-graduada: necessidade ou ilusão?

Uma grande percentagem dos licenciados portugueses possui uma necessidade primorosa de realizar formação contínua e/ou pós-graduada, como meio de complemento metodológico e conteudístico das matérias curriculares basilares. Em particular, no mundo dos profissionais de saúde, existe uma tendência enorme para a realização de formações complementares, assim como outras de índole mais académica. As necessidades de formação complementar e ou pós-graduada são vistas como de índole obrigatória para o normal e sapiente progresso profissional, mas não deixa de estar latente, no registo dessas mesmas multi-formações, uma enorme cabala comercial.
Deixemos bem sublinhado que, sendo insuficiente a formação curricular de base, há, verdadeiramente, uma grande necessidade de realizar formação avançada e/ou pós-graduada, isto se se quiser constituir um profissional de excelência. Nesse sentido, toda a formação constitui um investimento no futuro profissional.
Porém, nem sempre se dá atenção ao “outro lado” da realidade das formações pós-graduadas: o lado do marketing abusivo ligado à grande máquina comercial que medeia todo o processo e linhas de formação.
Deixemos bem claro que os grandes contribuintes para o aparelho comercial de formação pós-graduada constituem os recém licenciados; os mesmos, que, tendo acabado de sair das escolas e universidades, e tendo sido lançados impunemente no agressivo mercado de trabalho, se sentem bastante inseguros relativamente às suas capacidades e competências profissionais. São estes mesmos jovens que têm grandemente contribuído para encher as “vagas” de pós-graduações, para além de formações avançadas diversas. São eles os grandes contribuintes financeiros das empresas de “formação avançada”. Sem grande consciência da máquina comercial que medeia a “indústria das formações”, assim como das necessidades financeiras das universidades que criam mais e mais pós-graduações, os jovens recém licenciados, enchem os seus currículos de mais e mais certificados com vista ao preenchimento de uma qualquer falha narcísica mais primitiva.
Quer isto dizer que, aparte a grande necessidade de formação contínua e avançada, há uma grande indústria de formação profissional e académica que tende a encher-se de dinheiro a partir dos bolsos dos pais dos jovens inseguros. Que grande ilusão! Mais e mais certificados não irão trazer o merecido emprego. Irão somente contribuir para dar mais competências a jovens que irão mais certamente realizar actividades não qualificadas. Irão também contribuir para a multiplicação de mestres e doutores num país que valoriza cada vez menos essas qualificações e emprega cada vez menos licenciados.
É preciso agir face a tal oferta de formações. É preciso agir no sentido de informar, alertar os formandos para a realidade da máquina comercial que medeia as escolas e institutos de formação avançada. A formação é fundamental, mas deve ser bem gerida e adequada às reais necessidades dos formandos e do mercado a que as mesmas se destinam.
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Publicado parcialmente no site do Expresso (Cartas dos Leitores)

domingo, fevereiro 03, 2008

Reeducação Postural: percursos de um paradigma de intervenção


Não há, com muita pena minha, um costume bem fundado de se discutirem comparativamente os diferentes métodos de fisioterapia, com base numa pura reflexão do tipo metodológico. Os métodos de intervenção fisioterapêutica são tantos e são tão poucos aqueles que (ainda) os discutem, comparam, estudam e professam...
Nos últimos anos, tem sido meu apanágio de estudo a investigação acerca dos métodos de reeducação postural. Não esquecendo que o termo “postura” possui inúmeros sentidos (Tribastone), e que o conceito de “reeducação postural” pode adquirir diferentes entoações por parte de diferentes autores, não posso deixar de vociferar a favor daquele que considero ser o método mais global da ciência e arte fisioterapêutica: a “reeducação postural”.
Não entendo por “reeducação postural” o tipo de ginástica sueca que Per Henrik Ling (1766-1839) fundou e que viria a toldar os espíritos gímnicos durante séculos. Também não entendo por “reeducação postural” certos métodos de tratamento da escoliose como o método Schroth, o método de Rudolf Klapp, o método do Instituto Ortopédico Pini, o método em cifose, o método do psoas, o método Gimnasium, o estruturalismo psicomotor, a reeducação proprioceptiva neuromuscular, a ginástica proprioceptiva e as técnicas de desequilíbrio, apesar de muitos destes modelos de intervenção se aproximarem bastante do modelo que preconizo. Também não entendo por “reeducação postural” esse tão badalado método Pilates, que, admitindo a sua excelência, não mexe com a capacidade de flexibilidade global cara à “modificação estrutural” que só os métodos que defendo conseguem.
Para mim, os verdadeiros métodos de “reeducação postural” são aqueles que defendem o que defende Souchard com a sua Reeducação Postural Global (RPG), toda uma nova fisiologia do “sentir” e do “tratar”, baseada nos princípios das “cadeias musculares” e fundamentada pelos modelos mais sincréticos de “intervenção postural”.
Nos últimos anos, os cursos de fisioterapia andam a sofrer cortes conteudísticos irracionais, sendo que muitos tendem a “cortar” precisamente na parte dos cursos dedicada aos princípios e práticas da “reeducação postural”. Mas ainda assim nada justifica a plena nesciência arrolada à volta deste conjunto de métodos. Pois, para quem não sabe, o RPG não é um método puro, é antes uma elucubração relativamente ao grande método original (francófono) de “reeducação postural”: o método Mézières.
A Madame Mézières e o seu método constituem uma verdadeira “revolução na ginástica ortopédica”. Esse ano de 1947, ano das observações iniciáticas de Mézières da lógica das compensações musculares, viria a ser conhecido como o ano de criação de conceitos como os de “excessos musculares”, “cadeia muscular posterior”, “cadeia diafragmática” e do princípio “Il n’est que des lordoses”. Saiba-se que a grande maioria dos princípios defendidos por Souchard já eram princípios de Mézières (ainda assim, não deixa de ser meritório todo o trabalho feito por Souchard, tanto no respeitante à divulgação de conceitos como no respeitante à criação de uma nova linha de posturas). E saiba-se também que o método Mézières deu origem a todo um outro conjunto de métodos, alguns completamente desconhecidos dos fisioterapeutas: a grupal “antiginástica” de Bertherat, as globais “morfoanálise” de Peyrot e “Cadeias musculares e articulares” de Godelieve Denys-Struyf, os pragmáticos “Reeducação Postural Global” e “Stretching Global Activo” de Souchard, o dinâmico método das “Cadeias musculares” de Busquet e o fantástico e integral método da “Reconstrução Postural” de Nisand. É toda uma miríade de métodos, todos eles discípulos de Mézières.
Entre as exigências de uma intervenção fisioterapêutica cada vez mais rendida ao “sistema” e a sapiência de uma fisioterapia “global” ideal, convido qualquer um a descobrir os caminhos que medeiam estes métodos e a “filosofia” de intervenção global, (favorável ao alongamento e relaxamento, e desfavorável ao fortalecimento e excessos do fitness), que deles nascem de forma inalienável.
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Publicado no boletim/revista da APF de Janeiro 2008

terça-feira, janeiro 01, 2008

A forma e o conteúdo

Este não é um texto sobre reeducação postural ou sobre fisioterapia. É mais uma reflexão global sobre a vida, uma reflexão que me tem carregado sobrolho, que tem enchido mais do que parte de mim... Tem a ver com a relação – ou não relação – entre a forma, nomeadamente a imagem, o aspecto, o exterior, a cor relevada, e o conteúdo, nomeadamente única e exclusivamente o que interessa.
Lembro-me que as primeiras vezes que a relação – algo constrita – entre os dois conceitos surgiu na minha mente foi quando, por alturas do curso e durante as apresentações de PowerPoint a apresentar – tínhamos de preparar trabalhos que fossem simultaneamente bons no conteúdo e bons para os olhos comerem. Nessa altura, tinha por hábito preparar – em papel – esquemas complexos, que aguçassem o olhar, com revelação implexa dos conteúdos a desenvolver; esses esquemas eram passados a computador pela Vanessa, minha companheira na época, a qual também se preocupava com a decoração dos conteúdos a apresentar. Sabíamos, mais do que ninguém, que um bom trabalho tinha de ser, primeiramente, comido pelos olhos.
Vários anos após ter terminado o curso, aqui estou eu a trabalhar no meu blog, o qual é, para além de um constructo de conteúdos, um determinado objecto do olhar. Eu, mais do que ninguém, sou um homem de conteúdos. Tenho, inclusive, um certo ódio à forma e à cultura da imagem, a qual está estritamente ligada à moda, à cultura de massas, à sociedade do consumo, ao marketing diabólico... E é aqui que chagamos ao ponto culminar da minha actual obsessão... Até que ponto estamos contaminados pela imagem, até que ponto estamos tomados pela “cultura do olhar”, pela “cultura da forma”. Tenho lutado muito contra as várias expressões da “cultura da forma”, principalmente aquelas que dizem respeito à minha área: o Pilates, o Fitness, os métodos sofisticados de Terapia Física, as mistificadas Medicinas não convencionais e até mesmo os não menos sofisticados – senão realmente sofistas – métodos de Fisioterapia como Bobath ou a Reeducação Postural Global... Uns, mais do que outros, possuem uma amplitude de abordagem comercial sem limites... e isso choca-me um pouco. Choca-me, por exemplo, o tom de “moda” do Pilates e do Fitness que por aí se praticam... E chocam-me, sobretudo, porque a Imagem que os mesmos revelam esconde uma grande pobreza de conteúdos!
Sim, é verdade que as nossas vidas estão repletas de marketing, de esboços mais ou menos estéticos de formas mais ou menos imperativas do olhar! Devemos lutar contra isso, contra algo que é tão visceralmente instintivo e, no fundo, natural no homem?... Na minha opinião, sim, devemos lutar contra os excessos e devemos tentar sempre gerir as fronteiras – muito espúrias – entre aquilo que é Forma e aquilo que já é conteúdo.
Mas, ainda assim, o que é mais danoso não é o facto de vivermos embrenhados de Forma, mas sim o facto de, tantas vezes, a Forma ser desprovida de valor, de conteúdo. Aí sim é que devemos lutar sem parar, lutar para que exista, pelo menos, uma relação proporcional entre as duas coisas.
Depois de muito reflectir, percebi que também eu trabalho a minha Imagem. Escrevo artigos inflamados para o Público, revelo uma imagem de “outsider”, trabalho o “aspecto” das minhas intervenções, e, no domínio das classes de Pilates, modifico constantemente os esquemas e trabalho a entoação de voz... etc. Sim, também eu me incluo dentro dos criminosos da Forma. Mas considero-me um lutador! Luto contra tudo isto ou, pelo menos, contra o seu excesso. Por outro lado, questiono-me se não devemos tentar dominar a ciência da forma, a ciência do “público”, o marketing popularucho, como única maneira que temos de “ascender”... E, por mais que me envergonhe disso, concluo, todos os dias, que mais vale fazer parte dos vencedores, bons manipuladores do mercado, do que dos vencidos... Que resolução tomarei para o novo ano?...

sábado, dezembro 29, 2007

A cultura de blogue nacional: resposta a José Pacheco Pereira

No Público de 29 de Dezembro de 2007 pode ser visto na sua capa a referência a um artigo de opinião de Pacheco Pereira sobre os blogues e aquilo de que os mesmos são “mostruário”. Aparte todas as possíveis considerações críticas desta nova tendência deste jornal para publicitar nas suas capas artigos de opinião que não possuem importância relevante (ainda no dia anterior, também na sua capa, jazia uma referência a um artigo de opinião de Pinto da Costa, o qual se revelou como insalubre e extremamente pobre...), não podemos deixar de responder concretamente aos conteúdos do artigo deste “nosso” Pacheco Pereira.
Pacheco Pereira tem, em geral, uma opinião negativa dos blogues, revelando que os mesmos tornam os seus autores pessoas iludidas porque quem escreve “acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes.” Pacheco Pereira defende que vivemos numa “cultura de blogue”, a qual possui os defeitos referidos e citados pela voz de Eça de “juízos ligeiros, vaidade e intolerância”. Refere também que os blogues relevam de um “envolvimento narcísico”, relacionado com a vontade que todos têm de dar o seu “toque de Midas” ao constructo ideológico e cultural do nosso país. Por fim, Pacheco Pereira diz: “como também tenho um blogue, deixo aos leitores o julgamento do que se me aplica do que aqui digo”.
Ora, chegamos, portanto, ao ponto culminar da “discussão”. As críticas de Pacheco Pereira são, todas elas, aplicáveis à sua própria pessoa, pelo que não entendo muito bem as razões pelas quais Pacheco Pereira escreve o texto que ora escreveu.
Importante será dizer que o “fenómeno blogue” representa muito mais do que uma fenomenologia cultural específica. Os blogues nascem sempre da necessidade, realmente narcísica, de escrever e tornar público aquilo que é pensado. A realidade é que muitos jovens portugueses possuem uma necessidade inefável de “tornar público” o seu pensamento, achando sempre que o seu “pensar” é único, precursor e originalíssimo. Como não há, neste nosso país elitista, espaço suficiente para a “normal” divulgação dos nossos pensamentos, como não há abertura suficiente à publicabilidade de homens desconhecidos, então os tais jovens portugueses, muitos deles extremamente inteligentes e socialmente conscientes, resolvem criar uma fonte de “expansionismo” idiomático, ou seja, resolvem criar uma fonte de receitas do pensamento.
Tenho defendido muitas vezes que o nosso país tem muito mais pensadores do que aqueles que são realmente “publicáveis”. Os intelectuais do nosso país andam por aí, abundam muito mais do que podemos imaginar. E todos eles querem ter uma oportunidade de publicar, de tornar famoso o seu “pensar”; um pouco à semelhança de tantas centenas de jovens que sonham ser cantores, actores e/ou modelos, com vista ao exercício narcísico de um “projecto de fama”. O blogue surge como resposta à necessidade de publicar e à incapacidade ou insuficiência dos órgãos de Imprensa para dar voz a esses mesmos pensadores. O blogue é muito mais do que a expressão de uma “indústria cultural”. É a expressão de uma necessidade perfeitamente legítima, bem patente nas mentes de tantos proto-pensadores. Se Pacheco Pereira fosse desconhecido, ou seja, se fosse um homem “não publicável”, talvez compreendesse melhor o verdadeiro “objecto” dos blogues. Mas é precisamente porque os homens como Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente possuem tanto “terreno” em colunas de jornais e revistas, tornando escassa a possibilidade de outros serem publicados, que tanta gente possui a necessidade, emergente, de criar e gerir blogues. Há realmente “vaidade” nos blogues, como sugere Pacheco Pereira, mas, ao contrário do que o mesmo refere, também há muito “material de peso” nesses mesmos blogues abundantes; material esse que todos os dias tenta a sua “ascensão” mas que não consegue verdadeiramente “ascender” ao púlpito.
Também eu criei um blogue. E fi-lo com vista à publicação de materiais não publicáveis em revistas técnicas (porque de natureza menos científica daquela que é necessária à publicação tecnicista). E também eu quero ser publicado. Por exemplo, tenho determinadas expectativas relativas a este mesmo texto... O que há a ter em atenção no “fenómeno bloguista” é à questão dos espaços merecíveis de publicação de tantos “pensadores” não reconhecidos. Somente quando diminuir a pressão do lóbi e do interesse mediático é que irá ser criada a possibilidade de tantos homens poderem, merecidamente, criar Obra na Imprensa. Talvez aí diminua o “peso” dos blogues...

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Do fitness e outros demónios: O corpo desfigurado e a máquina industrial

Quando há uns anos atrás treinava acerrimamente a bendita musculação no imaculado Lisboa Ginásio Clube, estava longe de presumir que, uns anos depois, viria a constituir as primeiras enxadadas de um movimento, fundamentalmente conceptual, com o objectivo de relevar o mundo do fitness enquanto indústria do corpo e maleita social.
É bem sabido que o mundo dos ginásios está em premente evolução, crescimento económico exponencial inquestionável... O que é menos bem sabido, sub-repticiamente conhecido, é que labora, por trás desse negócio do fitness, uma poderosa barganha desconstrutiva, um insaturável poder kitsch de atracção maquiavélica das mentes mais débeis, uma arma de destruição do corpo na sua vertente estrutural mais sensível e profunda.
Tentemos explicar aquilo que ainda não foi compreendido... É indubitável que, em termos funcionais, a prática desportiva apresenta vantagens para a saúde humana. Estas vantagens estão bem condimentadas, demonstradas e justificadas por estudos, fundamentalmente anglo-saxónicos, bem estruturados e mais ou menos qualificados em termos metodológicos. Como é óbvio, esses mesmos estudos tratam de questões puramente funcionantes, de variáveis de funções corpóreas como a frequência cardíaca ou a tensão arterial, assim como o feedback relativo ao estado de dor/sofrimento e/ou de bem-estar. Referimo-nos a factores facilmente mensuráveis, a dados facilmente modificáveis pelas condições de treino e as constantes de condicionamento físico. Assim, só pode ser perfeitamente óbvio que um treino de força muscular resulte no aumento da força, assim como um treino cardiovascular resulte no aumento da resistência cardíaca, tendo sempre em conta que essa mesma força e essa mesma resistência são facilmente mensuráveis, mediante a utilização de instrumentos adequados.
Porém, e é aqui que a ‘história’ verdadeiramente começa, é muito limitativo se falarmos só das variáveis funcionais pelas quais se rege o nosso corpo. Para além da “forma física” enquanto sinónimo de força masculina e elegância dionisíaca, existe uma outra “forma”, aquela que foi assumida pelas mais requintadas expressões artísticas do Renascimento, a “forma” enquanto “estrutura”, enquanto “morfologia”, enquanto “postura”. Fiquemos, portanto, ancorados nesta última palavra: postura. Definida de muitas e variadas maneiras, todos os profissionais de saúde (os verdadeiros profissionais) sabem que o termo postura se refere a uma forma de enquadramento estrutural corporal que varia muito consoante o corpo e a Pessoa que o compõe. A postura, ou seja, o alinhamento corporal, o arrumo posicional, o arranjo estrutural, a morfologia, é diferente de pessoa para pessoa e não há quem possua uma que possa ser considerada perfeita.
Na realidade, a postura, muito mais do que um determinado posicionamento corporal, e decerto muito mais do que uma mera posição da coluna vertebral, depende do estado de mais ou menos tensão e mais ou menos flexibilidade do conjunto das cadeias de músculos e fáscias (cadeias musculares) que desenham e configuram o nosso corpo. Estas mesmas “cadeias musculares” não são enquadráveis nos livros de anatomia e nos manuais convencionais. Aliás, quando a Madame Mézières, uma fisioterapeuta francesa que fundou um método de trabalho postural em 1947, fundou o conceito de “cadeia muscular”, como base explicativa de um conjunto de músculos presentes na parte de trás do corpo sempre fortes e curtos demais, estava já consciente de que o seu modelo, a sua visão, seria profundamente revolucionário. Talvez por isso a sua grande obra tenha recebido o nome, eventualmente pomposo, de “Révolution en Gymnastique Orthopédique”.
O método Mézières, mãe dos métodos de Reeducação Postural, um método que viria a abalar os conceitos da antiga “ginástica sueca” de Per Henrik Ling (1766-1839), viria estabelecer que a postura, e a deformidade postural, deriva do estado de tensão da musculatura posterior. Segundo Mézières, são os excessos musculares que provocam as deformidades posturais, e somente um trabalho holístico de alongamento global das cadeias musculares encurtadas pode trazer “ordem estrutural” a um corpo corrompido pelas hegemonias músculo-tendinosas.
O método Mézières é, portanto, o grande método de Reeducação Postural. Mas não é o único, pois uma série de outros métodos viriam a ser encabeçados por discípulos de Mézières (Bertherat, Godelieve Denys-Struyf, Peyrot, Souchard, Busquet, Nisand, entre outros). E para além disso, paralelamente estaria a ser desenvolvida a “integração estrutural” ou rolfing de Ida Rolf, método anglo-saxónico que viria igualmente a dar origem a uma série de outros métodos-filhos.
Todos estes métodos de Reeducação Postural baseiam-se em princípios de alongamento, relaxamento e libertação mio-fascial. Todos eles se baseiam numa visão individuada do sujeito, sendo que a saúde do corpo músculo-esquelético está dependente do alongamento global de conjuntos musculares diferentemente retraídos em diferentes indivíduos. Para os citados métodos, quase todo o esforço físico significa deformação. Por exemplo, os proponentes de Mézières defendem que o mais leve trabalho com pesos irá aumentar a tensão da cadeia muscular posterior, funcionando tal como uma porta de entrada para a deformidade. Estes argumentos são já uma realidade científica, desde que os estudos electromiográficos demonstraram que é real que a musculatura posterior e da coluna está em tensão permanente. Sendo assim, o paradigma da “fraqueza muscular” como causa para a dor da coluna (ou outras a nível esquelético), secularmente defendido, aparece fortemente abalado. Também abaladas ficam, a meu ver, todas as visões de “saúde” existentes no trabalho de fortalecimento muscular. Ora, é precisamente aqui que surge a grande “questão”... Se o reforço muscular desrespeita as leis da “postura corporal”, então em que pé ficam todas aquelas actividades desportivas praticadas nos ginásios e clubes desportivos, actividades essas quase totalmente baseadas num modelo de fortalecimento e esforço físico condicionante?...
Pena, e isso preocupa-me bastante, é que os diversos profissionais da Educação Física e do desporto, nem sequer conheçam os paradigmas da Reeducação Postural; como tal, a questão colocada atrás não lhes ocorre. Aliás, a grande maioria dos profissionais do desporto permanece ainda no mundo simples de quem pensa que “postura” significa manter as “costas direitas” (os mesmos profissionais que cada vez mais se querem assumir como profissionais de saúde).
Ora, os argumentos apresentados justificam a necessidade de uma revisão dos conceitos da “ginástica sueca”, aliás de todos os conceitos que premeiam a actividade física realizada neste mundo moderno. Se, de certa maneira, certas actividades como o Yoga, o Tai-chi e o Pilates, já poderão constituir um “outro olhar” da questão, não posso deixar de dizer que ainda estamos muito longe de ter uma prática desportiva movida pelas leis Mézières (ou seja, uma prática mais leve, baseada nos princípios do alongamento global e do relaxamento psicossomático, uma prática mais próxima de certos conteúdos holísticos e humanistas...). A meu ver, é mesmo necessária uma verdadeira revolução da prática desportiva, pois uma nova práxis, mais holística e alicerçada na pessoalidade intrínseca a cada sujeito, surge como emergente necessidade.
Mas não é isso o que se passa. A revolução da prática desportiva está a ocorrer precisamente num sentido oposto. A pessoalidade está cada vez mais em jogo e as novas actividades do fitness aparecem desenhadas para reforçar, fortalecer... deformar...
Para além do mais, o fitness aparece, cada vez mais, como um conceito, um produto, e não uma salvaguarda da saúde humana. O fitness reveste-se, crescentemente, de uma linguagem cada vez mais associada ao marketing, sendo que vai vestindo a capa de uma verdadeira indústria. Recentemente, tenho defendido que o fitness consubstancia um exemplo do conceito de “indústria cultural” defendido por Theodor Adorno. E, a julgar pela magnitude do fenómeno, não podemos deixar de ver o mundo do fitness como mais uma expressão da “sociedade de mercado” ou da “cultura de massas”.
No seio desta cultura massificada, em que a obsessão pela “forma física” vai permeando as necessidades íntimas de um cada vez maior número de pessoas, o lugar para o trabalho corporal com vista à saúde está cada vez menos presente na sociedade. Parece só haver lugar para os “termos” mais esteticizantes, que são precisamente aqueles que mais tornam tudo tão maquinal e simplista.
O contexto atrás explicado aparece bem definido pelo conjunto crescente, e bem prolixo, de pessoas que apresentam um corpo maculado pela prática desportiva exagerada, que mais não é do que um corpo cheio de lesões e dores, assim como de desequilíbrios musculares e assimetrias esqueléticas. Muitas pessoas procuram os meus serviços com vista a resolverem problemas que a indústria do fitness gravou nos seus corpos, sem dó nem piedade. E se estas pessoas não estiverem prontas para entrar num trabalho que é claramente morfoanalítico, e como tal lento e pouco dado à atracção própria do marketing, irão facilmente abandonar as sessões de terapia que tenho para lhes dar (preferindo mergulhar no mundo da fisioterapia clássica, concebida para tratar sintomas e não as causas dos problemas, ou então, preferindo mergulhar no mundo mais atractivo das medicinas não convencionais, sendo que estas perpetuam a questão da imagética cultural massificada).
Claro que aquilo que está mal no fitness não é só o facto de o mesmo se basear num conceito de anti-saúde postural. O que está mal no fitness não é só também o facto de perpetuar um pouco essa forma massificada e pop de se viver na sociedade moderna. Outras questões mais específicas advertem para a minha preocupação. O mau profissionalismo, o facto de os diversos instrutores beberem todos da mesma cartilha e eternizarem e propagarem a mesma forma errática de treinar, alongar, mexer... A débil formação dos mesmos instrutores, com muitos deles a não possuírem formação superior, o desrespeito das actividades físicas mais variadas pela normal biomecânica do corpo, a realização de exercícios com intrepidez e risco indubitável para a saúde das estruturas, as denominadas Lesões por Esforço Repetido, e todo um conjunto interminável de razões...
E não podemos esquecer a máquina financeira que alicerça esse mesmo mundo. Por exemplo, os instrutores e empregados do Holmes Place parecem ser tirados do submundo do ‘Metrópolis’ de Fritz Lang ou dos “clones” do ‘Admirável Mundo Novo’ de Huxley: falam todos da mesma maneira, parecem todos funcionar de forma artificial e anti-humana, perdem-se em estratégias de imagem e de mercado (até mesmo no momento de dar as aulas) e gastam um tempo ilimitado em tácticas auto-promocionais.
Ora, não é este o mundo que eu quero para mim! Quero um mundo onde a complexidade, a unicidade e o respeito pelo “corpo frágil” de cada um sejam tidos em conta com uma certa normalidade. Quero um mundo onde figure uma certa atitude reflexiva, assim como uma constante batalha contra o simplismo e a ilusão social.
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Publicado no Jornal 'Semanário', dia 25 de Julho de 2008